Pesquisas narrativas, formação de professores(as) e cotidiano escolar

NARRAR A PRÓPRIA HISTÓRIA DE VIDA E A PRÁTICA DOCENTE PODE CONTRIBUIR PARA AÇÕES HUMANIZADORAS?

CAN NARRATING ONE’S OWN LIFE STORY AND TEACHING PRACTICE CONTRIBUTE TO HUMANIZING ACTIONS?

¿NARRAR LA PROPIA HISTORIA DE VIDA Y LA PRÁCTICA DOCENTE PUEDE CONTRIBUIR PARA ACCIONES HUMANIZADORAS?

Raphael Cutis Dias
Universidade Estadual de CampinasBrasil
Eliana Ayoub
Universidade Estadual de CampinasBrasil

NARRAR A PRÓPRIA HISTÓRIA DE VIDA E A PRÁTICA DOCENTE PODE CONTRIBUIR PARA AÇÕES HUMANIZADORAS?

Reflexão e Ação, vol. 32, núm. 3, pp. 64-79, 2024

Universidade de Santa Cruz do Sul

Recepción: 09 Septiembre 2024

Aprobación: 10 Diciembre 2024

Resumo: Este artigo é oriundo de uma dissertação de mestrado que teve, como objetivo, compreender o processo de humanização nas histórias de vida, na formação e na prática docente de professores(as) de Educação Física (EF). Trata-se de uma pesquisa narrativa, que contou com a participação de uma professora e quatro professores de EF da rede pública do município de Caieiras-SP, que narraram suas histórias e experiências, por meio de cartas, conversas individuais e roda de conversa. O gênero carta foi o escolhido para entretecer a narrativa da pesquisa. Tomando como referência a concepção de humanização de Paulo Freire, reconhecemos sinais de humanização nas narrativas da professora e dos professores. Nesse caminho, foi necessário um exercício constante de sensibilidade, de escuta, de respeito às histórias de vida das pessoas que produziram conosco essa trilha investigativa esperançosa, por meio da pesquisa narrativa. Humanizar passa por nos colocar na condição de quem aprende e compreende que somos atravessados por nossas experiências. Desse modo, narrar a própria história de vida e a prática docente, entregando- nos a um processo (auto)biográfico de (auto)formação, pode contribuir, sim, para ações humanizadoras.

Palavras-chave: Humanização, História de Vida, Educação Física, Narrativa, Carta.

Abstract: This article originates from a master’s thesis aiming to understand the humanization process in the life histories, training, and teaching of physical education (PE) teachers. This narrative research was conducted with the participation of five PE teachers from the public school system of the municipality of Caieiras-SP, who narrated their stories and experiences through letters, individual conversations, and conversation circles. The letter genre was chosen to interweave the narrative of the research. Taking Paulo Freire’s conception of humanization as a reference, we recognize signs of humanization in the teachers' narratives. On this path, a constant exercise of sensibility, listening, and respect for the life stories of the people who produced this hopeful investigative trail with us through narrative research was necessary. Humanizing involves putting ourselves in the condition of those who learn and understand that our experiences cross us. Thus, narrating one’s own life story and teaching practice, surrendering ourselves to an (auto)biographical process of (self)formation, can contribute to humanizing actions.

Keywords: Humanization, Life Story, Physical Education, Narrative, Letter.

Resumen: Este artículo proviene de una tesis de maestría que tuvo como objetivo comprender el proceso de humanización en las historias de vida, formación y práctica docente de profesores(as) de Educación Física (EF). Se trata de una investigación narrativa, que contó con la participación de una profesora y cuatro profesores de EF del sistema escolar público del municipio de Caieiras-SP, quienes narraron sus historias y experiencias, a través de cartas, conversaciones individuales y círculos de conversación. Se eligió el género de la carta para entretejer la narrativa de la investigación. Tomando como referencia la concepción de humanización de Paulo Freire, reconocemos rastros de humanización en las narrativas de la profesora y los profesores. En este recorrido, fue necesario un ejercicio constante de sensibilidad, de escucha, de respeto por las historias de vida de las personas que produjeron con nosotros este esperanzador camino investigativo a través de la investigación narrativa. Humanizar implica ponerse en la posición de alguien que aprende y comprende que somos atravesados por nuestras experiencias. De esta manera, narrar la propia historia de vida y la práctica docente, entregándonos a un proceso (auto)biográfico de (auto)formación, puede contribuir para acciones humanizadoras.

Palabras clave: Humanización, Historia de vida, Educación Física, Narrativa, Carta.

PONTO DE PARTIDA PARA HUMANIZAR

Este artigo é oriundo de uma dissertação de mestrado3 (Dias, 2023), que teve, como objetivo, compreender o processo de humanização nas histórias de vida, na formação escolar e profissional, e, na prática docente de professore(a)s de Educação Física (EF) da rede municipal de ensino de Caieiras-SP. Foi produzido em coautoria (orientando – primeiro autor e orientadora – segunda autora) e, portanto, assumimos uma escrita que oscila entre a primeira pessoa do singular (do primeiro autor) e a do plural (de ambos).

O caminho escolhido para o desenvolvimento da investigação foi a pesquisa narrativa (Prado, Soligo e Simas, 2014; Clandinin e Connelly, 2015), a qual contou com a participação de uma professora e quatro professores de EF, que narraram suas histórias e experiências, por meio de cartas, conversas individuais e roda de conversa. Os dados/achados da pesquisa foram sendo produzidos, por meio dessas escritas e encontros, além de registros em diário de campo, criando um caldo narrativo (auto)formador e (auto)biográfico. O gênero carta foi o escolhido para entretecer a narrativa de pesquisa, inspirado nas produções da minha orientadora, especialmente, no livro “Memórias da educação física na escola: cartas de professoras” (Ayoub, 2021), o que será retomado mais adiante.

Consideramos importante contar, inicialmente, como se deu a chegada ao tema da pesquisa. O projeto submetido ao processo de seleção do mestrado estava carregado de memórias desumanizadas, experenciadas durante as duas graduações em EF que cursei. Inquietava-me saber que, mesmo em momentos distintos da minha história de vida, em instituições diferentes, estados diferentes (Espírito Santo e São Paulo), alguns pontos negativos se repetiam: desigualdades no tratamento com estudantes, projetos pedagógicos centralizados, exclusivamente, no conteúdo sem atenção aos processos de aprendizado, atuação docente verticalizada, coisificação mercadológica do(a) estudante, entre outros aspectos que saltavam aos meus olhos e me impulsionaram para a realização da pesquisa. Tinha, no horizonte, o desejo de compreender como se deu o processo de humanização nas histórias de vida, formação e prática docente de professores(as) de EF.

Para melhor entender o processo de humanização, aproximei-me dos(as) professores(as) de EF da rede municipal de ensino de Caieiras-SP (por meio da colaboração de uma colega da pós-graduação)4, participei das formações (ainda no cenário da pandemia da Covid-19 e on-line) e das reflexões sobre educação e EF. Ao entender as possibilidades de contribuir, apresentamos o projeto de pesquisa, destacamos a esperança de uma produção narrativa, a partir das histórias de vida e de formação das pessoas interessadas, da perspectiva por indícios de humanização na prática docente, e, durante o processo de formação, do desejo de fortalecermos a dimensão humanizadora na prática docente. Enviamos um convite ao grupo de professores(as) com os(as) quais estávamos em contato para a participação na pesquisa. Foram oito pessoas que, inicialmente, se disponibilizaram, e cinco, que, efetivamente, participaram do estudo.

O sentido da pesquisa está na relação estabelecida com os(as) professores(as) de EF, suas histórias de vida e experiências narradas. No início, esperava encontrar cenários similares ao meu período de estudante, estava focado na desumanização, de maneira, até agressiva, como se a culpa da educação bancária (Freire, 1994), que vivenciei, fosse apenas dos(as) docentes no meu contexto estudantil. Na realidade, eu estava negando a história e as experiências das pessoas que contribuíram com o meu processo de formação em EF, e, julgando as pessoas que, hoje, exercem a docência.

A professora e os professores de Caieiras-SP me ajudaram a refletir sobre a minha história de vida e experiências durante a formação. Nossos encontros possibilitaram perceber os indícios de humanização presentes na minha história, modificaram o percurso da pesquisa. Sim, refletir sobre esses aspectos, produzir a dissertação, ajudou a promover ações humanizadas e humanizadoras, movimentando um profundo processo de (auto)formação compatilhada.

Logo no início, as cinco pessoas foram convidadas a redigir uma carta com aspectos da história de vida, que envolvessem as experiências pessoais, de formação e profissionais, a partir da seguinte questão disparadora: “Olhando para a sua história de vida e para as experiências, ao longo da sua formação escolar e profissional, bem como para a sua prática docente, quais experiências, momentos e encontros contribuíram para que você se tornasse o(a) educador(a) que é hoje?” (Dias, 2023, p. 18).

Cada carta recebida proporcionou uma leitura sensível que contribuiu com a estruturação dos pontos disparadores para as nossas conversas individuais que aconteceram no campo de atuação da professora e dos professores, proporcionando discussões, problematizações e novas inquietações quanto à temática da humanização. As conversas não comprometeram as suas rotinas com as aulas e foram um importante espaço para as narrativas sobre as histórias de vida e a ação docente. Ressaltamos que, ao fazer a pesquisa com o(a) professor(a), encontramos novos sentidos e significados acerca da prática docente, pois ultrapassamos a “visão acadêmica” da pesquisa e nos reconhecemos na nossa humanidade. Viver, coletivamente, a pesquisa foi humanizador!

Compartilhamos nossas experiências, histórias de vida e percepções, quanto à humanização e à prática docente, nos escritos, nas conversas individuais e na roda de conversa que aconteceu ao final. Os registros pontuais feitos no meu diário de campo colaboraram com o entendimento do contexto da pesquisa, a partir do ambiente em que estávamos, e trouxe sentido para as narrativas compartilhadas.

Compreendi a importância da pesquisa para a EF da rede municipal de ensino de Caieiras- SP, a partir das reflexões que fizemos juntos(as) e dos encontros humanizados e humanizadores que tivemos. Tal compreensão só foi possível, porque a revisão bibliográfica permitiu o entendimento do que acontece em outros contextos na busca por uma EF mais humanizada, em que possamos construir possíveis “inéditos viáveis” (Freire, 1994). A educação, em qualquer contexto educacional, se dá pelo conjunto de encontros do cotidiano; quanto mais humanizado for o encontro, melhor será o entendimento da importância de cada pessoa na formação coletiva.

O paradigma indiciário, proposto por Ginzburg (1989), nos auxiliou na intenção de prestarmos atenção aos sinais e vestígios de humanização presentes em cada narrativa - escrita e oral -, auxiliando-nos a compreender como a dimensão humanizadora se dá na EF escolar. Defendemos que ela pode surgir dos diferentes contextos que constituem a história de vida do(a) professor(a) e do(a) estudante, e que é necessário exercitar uma escuta sensível para percebermos os sinais de humanização presentes no cotidiano escolar.

Como dissemos, anteriormente, a dissertação de mestrado foi escrita no gênero carta e composta por catorze (14) cartas, em que são narrados os aprendizados e as reflexões da pesquisa. Elas auxiliam o(a) leitor(a) a entender as descobertas sobre humanização, história de vida, EF, educação, saberes docentes, narrativa, paradigma indiciário e racismo. Escrevo a carta 1 para minhas filhas e meus filhos, e partilho reflexões sobre a EF. Na carta 2, reflito acerca da importância da orientação humanizada na pós-graduação. Durante a pesquisa, pude me (re)aproximar de Paulo Freire; na carta 3, discuto humanização, a partir do que Freire pensa. A carta 4 contempla os aprendizados sobre a pesquisa narrativa. A carta 5 apresenta indícios e sinais de humanização, a partir do paradigma indiciário (Ginzburg, 1989). Faço considerações a respeito da humanização e da sociedade na carta 6. Escrevo as cartas 7, 8, 9, 10 e 11 para as pessoas que participaram da pesquisa: professora Juliana, professor Ricardo, professor Tiago, professor Wilkerson e professor Zanatan, destacando os sinais de humanização presentes nas nossas conversas. A carta 12 narra a roda de conversa que tivemos sobre os sinais de humanização descobertos durante a pesquisa. A carta 13 é um encorajamento para a luta antirracista, a partir das experiências individuais narradas. Por fim, na carta 14, reforço os sinais de humanização presentes em cada carta e que contribuíram com a minha/nossa (auto)formação e transformação durante a pesquisa, reafirmando que somos “seres inconclusos” (Freire, 2011).

Neste artigo, optamos por compartilhar os indícios discutidos em algumas cartas, com o desejo de refletir sobre a indagação: narrar a própria história de vida e a prática docente pode contribuir para ações humanizadoras?

EDUCAÇÃO FÍSICA COMO EDUCAÇÃO HUMANIZADORA

Ao refletirmos a respeito da EF como educação humanizadora, aproximamo-nos das reflexões de autores(as) que a concebem, como possibilidade concreta de contribuir com a formação humana de crianças, jovens e adultos(as), em uma perspectiva crítica e libertadora (Coletivo de Autores, 1992; Bracht, 1992, 2019; Vago, 2021; dentre outros[as]).

Assim como Vago (2021, p. 5), compreendemos que “a EF na escola é uma potência na vida das pessoas, porque participa ativamente da vida das ‘pessoas-estudantes que habitam a escola’”. Acreditamos que o(a) estudante precisa ser mais que frequentador(a) da escola, precisa habitar o território que, também, é dele(a).

Quando tocamos na temática do território, passamos por múltiplas possibilidades, desde o corpo que se movimenta e que é território, até o espaço geográfico, no qual a escola e a casa dessas pessoas estão inseridas. O que temos em comum, no diálogo que envolve habitar territórios, é o fato de que, em todas as camadas, falamos de “pessoas de direitos, direito ao corpo, à Vida em plenitude, às culturas diversas, direito a um mundo em que todas caibam” (Vago, 2021, p. 5).

Entendemos que a EF escolar pode ser território de transformação, e que tem, como compromisso, contribuir para o processo de humanização. O espaço escolar, habitado pelas pessoas durante as aulas de EF (e demais atividades), deve possibilitar o entendimento dos seus direitos e colaborar com a superação das dificuldades sociais encontradas no tempo em que vivemos: “tempos delicados, desconhecidos, em que a humanidade se encontra fragilizada, pessoas não conhecem seus direitos, a educação sempre será caminho para nosso entendimento e compreensão do mundo que habitamos” (Dias, 2023, p. 32).

A EF escolar pode aproximar os(as) estudantes das “suas culturas, refinando sua compreensão sobre as coisas reais para participar do mundo, apropriando-se dele, posicionando- se nele” (Vago, 2021, p. 7), proporcionando momentos para problematizar o que fazemos com os espaços que ocupamos, trazendo disputas e contradições similares às que vivemos na sociedade. Como favorecer para que a EF contribua com a formação humana das pessoas que estão presentes nas aulas? É preciso pensar em caminhos para humanizar nossas ações. Humanizar, no sentido de respeitar as histórias de vida de cada estudante, a maneira como os seus corpos se manifestam, as experiências e as lutas que constituem suas ações. Vago (2021, p. 11) reforça o seguinte:

Estudantes em posse de suas Histórias, de seus corpos – suas culturas, suas idades, suas identidades, suas orientações, seus vínculos, enfim, suas experiências de existir em reais diversos. Acolher sujeitos encarnados, construir empatia com eles e elas é condição e é também oportunidade de lhes apresentar a uma Educação Física que lhes faça sentido, que lhes provoque, que lhes desestabilize, que lhes possibilite outros olhares, que lhes proporcione conhecer outras possibilidades de estar e de ocupar o mundo, inclusive o “mundo” da cultura corporal.

A EF é educação, e, para que a sua prática seja humanizada, entendemos que é necessário revisitar a nossa própria história, compreender os contextos e as complexidades que vivenciamos e possibilitar que a educação, a partir da EF, alcance outras maneiras de humanização, tal qual defende Vago (2021, p. 12):

Que não faça a escolha pelo confortável silêncio diante das asperezas e das dores humanas, tão incorporadas em nós, em nossas subjetividades. Uma Educação Física cuja Presença seja também de desobediência, de ensinar a desobedecer ao que oprime, o que rebaixa, tempo de resistência a um “Brasil brutal” que nos fere, lugar de confronto contra todo tipo de opressão que interdite a Vida plena, que é um direito.

Embora eu tivesse ideia do que é uma EF humanizadora, as cartas e as conversas com a professora e os professores de Caieiras-SP foram fundamentais para a minha transformação e o meu amadurecimento nesse entendimento. E, só foi possível, porque fui orientado, de maneira humanizada, e porque, ao entretecer o texto da pesquisa, encontrei, no gênero carta, a melhor maneira para colocar, em circulação, os sentidos e significados produzidos nesses encontros, aproximando-me, ainda mais, das pessoas envolvidas nesse processo (auto)formativo.

O GÊNERO CARTA COMO POSSIBILIDADE DE APROXIMAÇÃO HUMANIZADORA

Ao escolher, dentre as várias formas de narrativa, o gênero carta, intuí que estaria mergulhando em uma possibilidade de aproximação humanizadora, o que, de fato, aconteceu, sobretudo, pela postura comprometida das pessoas envolvidas com a pesquisa. De acordo com Ayoub (2021, p. 64-65),

Estarmos juntas(os), comprometidas(os) umas(uns) com as(os) outras(os), faz toda a diferença na construção do processo investigativo. Colocarmo-nos como interlocutoras(es) atentas(os), cuidadosas(os) e disponíveis pode proporcionar múltiplos aprendizados. Nesses tempos tão difíceis para a ciência, a pesquisa e a educação no Brasil, insisto em experimentarmos, mais do que nunca, possibilidades outras de ações colaborativas entre nós.

Pensar nas ações colaborativas nos remete, diretamente, ao fato de sermos com os(as) outros(as); surge, como convite, para exercermos as primícias da humanidade em estarmos juntos(as), coletivamente, em busca de um mundo mais justo e humanizado. O sentido do que defendemos parte do diálogo com o que outras pessoas pensam e como nos afetamos com esses saberes na nossa travessia.

No processo de elaboração das cartas, pude me (re)encontrar muitas vezes, e, ao me relacionar com a história de vida da professora e dos professores, pude ressignificar a minha própria história de vida, configurando uma trilha, ao mesmo tempo, (auto)biográfica e (auto)formativa.

Escrevi as cartas a partir do vivido e daquilo que despertava, enquanto me (re)descobria como ser humanizador. Em cada uma delas, apresento parte do que sou e do que aprendi com cada professor(a). E nesse processo de encontros, desencontros, reencontros, escolhas, indecisões, medos e orgulho, me sinto contemplado com o resultado encontrado e apresentado no conjunto de cartas (Dias, 2023, p. 48).

O gênero carta nos ajuda a aprofundar nas narrativas, possibilita certa liberdade e, assim, “assumir uma perspectiva narrativa, portanto, mais aberta, flexível, atravessada pela experiência” (Ayoub, 2021, p. 20). Os registros narrados nas cartas escritas pela professora e pelos professores, e nas cartas produzidas na dissertação, retratam uma linguagem que aproxima, nos leva ao outro, faz ressurgir memórias importantes, do corpo e da vida. E enfatizam que “a memória é experiência, afetividade, sensibilidade, subjetividade, esquecimento, entrecruzamento de sujeitos e, principalmente, experiências vividas” (Ayoub, 2021, p. 83).

É como destaco (Dias, 2023, p. 48):

Quando escrevo as cartas, emoções afloram, acredito que só terei a dimensão do que tenho vivido, especialmente, na pesquisa, em meio a esse cenário pessoal-social, quando revisitar todos esses registros no futuro. Porque hoje, as memórias estão frescas, carregadas de sentimentos recentes, consigo desenhar cada cenário, ouvir as falas e ruídos, recordar as expressões durante as narrativas. Se, no futuro, for possível revisitar todos os momentos com novos significados, estará consolidada minha paixão pelo que as cartas me proporcionaram. Mas, se não acontecer, certamente terei oportunidade de refletir sobre os aspectos que hoje me encantam e motivam meus gestos a favor da humanização.

Diante dos atravessamentos da pesquisa, reencontrei-me com as produções de Paulo Freire, que, no passado, durante a graduação em EF, foram apresentadas, contraditoriamente, de maneira desumanizada, com imposições que me afastaram das reflexões provocadas pelo autor. Durante os aprendizados construídos nos estudos da pós-graduação e, na pesquisa, Freire, que tem a humanização como um dos motes centrais da sua obra, passou a ser um dos autores de referência para inspirar ações humanizadas e problematizar as experiências de desumanização vivenciadas.

PAULO FREIRE: PROVOCAÇÕES CONTRA A DESUMANIZAÇÃO

Freire (1967, p. 43) escreveu: "A partir das relações do homem com a realidade, resultantes de estar com ela e de estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão, vai ele dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai humanizando-a”.

A pesquisa contribuiu com a percepção consciente de que é possível encontrar “inéditos viáveis” sobre atitudes humanizadas e humanizadoras. O enfrentamento de uma postura desumanizadora pode estar, justamente, na relação com o(a) outro(a); desse modo, é preciso colocar luz no que está oculto. Pensamos ser possível humanizar a nossa prática docente, a partir do respeito às histórias de vida de quem constitui o contexto escolar, as quais nos ajudam a problematizar a prática de liberdade.

As narrativas da professora e dos professores são o centro da produção da pesquisa, os indícios sobre humanização apresentados, durante os diálogos, me ajudaram a compreender um pouco melhor os escritos de Freire sobre humanização (e desumanização). De acordo com Freire (1994, p. 19), “Humanização e desumanização, dentro da história, num contexto real, concreto, objetivo, são possibilidades dos homens como seres inconclusos e conscientes de sua inconclusão”. Consideramos que, para ser humanizadora, a educação precisa superar sua versão bancária, ser diferente do que vivemos como “receptáculos de conteúdos”, transformando-se em uma educação que “favorece o conhecimento: de si mesmo, do outro, do que estuda, do espaço, do mundo” (Dias, 2023, p. 59).

Vivemos tempos de esperança. Freire escreveu que ela é da natureza humana e que, na condição de ser inacabado, é preciso a busca constante por ela (Freire, 1996, p. 43). E, ainda que "ninguém é, se proíbe que outros sejam" (Freire, 1969, p. 124).

Ou seja, não é possível na condição de ser inacabado(a), que homens e mulheres sejam reduzidos apenas à espectadores(as) do que acontece no seu cotidiano, muito menos à maneira limitada com que os(as) outros(as) pensam a respeito de suas ações, sem o devido respeito à complexidade, pluralidade, subjetividade humana da pessoa. Se o ser humano se reconhece inconcluso, abre novas possibilidades para se tornar humanizador, romper com as ações que coisifica a pessoa, transformar suas atitudes, problematizar os caminhos e aprendizados, esperançar por tempos melhores (Dias, 2023, p. 59).

Ao problematizar a temática da humanização, Paulo Freire nos provoca a pensar maneiras de superar a desumanização, com e como resistência a toda e qualquer ação imposta ao ser humano, e que nos acomoda. Para que nossas ações sejam humanizadas e humanizadoras, precisamos pensar na pessoa com quem nos relacionamos, dentro e fora do contexto escolar. Os encontros, ao longo das nossas histórias de vida, têm papel importante na pessoa que vamosnos tornando.

Parece que perceber o(a) outro(a) tem sido um exercício cada vez mais delicado, estamos envolvidos(as) por sistemas que reduzem as relações humanas, nos diferentes campos, especialmente no profissional, a relações técnicas e pouco humanas. Vamos pensar a mudança desse cenário, refletir sobre a ação de seres humanos em movimento e construção, de maneira dialógica e não automática ou fria, como seres inacabados que somos (Dias, 2023, p. 59).

Nesse processo (auto)biográfico de (auto)formação foi necessário um exercício constante de sensibilidade, de escuta, de respeito às histórias de vida das pessoas que produziram conosco esse caminho investigativo esperançoso, por meio da pesquisa narrativa.

PESQUISA NARRATIVA COMO METODOLOGIA HUMANIZADORA

Os indícios encontrados, na pesquisa narrativa, nos provocaram a entendê-la como a metodologia mais adequada para produzir reflexões sobre a humanização nas histórias de vida, na formação e na prática docente, uma vez que, nesta proposta de pesquisa, as experiências dos sujeitos importam, estão no centro das indagações. Além disso, para Clandinin e Connelly (2015, p. 77), na pesquisa narrativa, “as pessoas são vistas como a corporificação de histórias vividas [...], as pessoas são encaradas como vidas compostas que constituem e são constituídas por narrativas sociais e culturais”.

De acordo com Prado, Soligo e Simas (2014, p. 1),

A abordagem teórico-metodológica que desenvolvemos pressupõe dimensões narrativas produzidas simultaneamente e de forma articulada ao longo da pesquisa e dizem respeito às fontes de dados, ao registro do percurso, que é constitutivo da produção de dados, e ao modo de produzir conhecimento. Isso porque os dados vão sendo produzidos a partir de narrativas escritas pelo/s sujeito/s, o percurso do trabalho é registrado progressivamente em uma narrativa reflexiva e este texto – em construção permanente – não é apenas uma forma final de registro, mas um recurso privilegiado também de produção de dados e de açãoreflexão em busca do conhecimento possível para iluminar a compreensão sobre o que se pesquisa. Trata-se, portanto, de um tipo de pesquisa qualitativa.

Ao assumirmos esse movimento de mergulho nas três dimensões da pesquisa narrativa anunciadas acima, fomos construindo um entendimento ainda mais profundo das experiências narradas pela professora e pelos professores participantes do estudo. Saltam aos olhos os sinais humanizadores da pesquisa, no trato com as pessoas envolvidas, o que requer flexibilidade e sensibilidade ao que acontece durante o percurso, com o devido respeito à visão de mundo de cada um(a). Ressaltam, ainda, que:

Culturalmente, contextualizada; pautada na análise contínua e progressiva das informações disponíveis para a produção de dados; holística; constituída a partir da experiência do/s sujeito/s tal como é vivida e sentida por ele/s; interpretativa e focada na compreensão das pessoas dentro de seu próprio âmbito de referência; pautada na convicção de que todos os cenários e perspectivas têm valor e são dignos de estudo; voltada aos indícios, às singularidades; válida pela coerência epistemológica; comprometida ética e esteticamente com a produção de novos conhecimentos; construída a partir de um pensamento metacognitivo do pesquisador; pressupõe um processo de implicação do pesquisador/autor; tomar a si mesmo como fonte importante de dados, pelo exercício de reflexão sobre o percurso da pesquisa (Prado, Soligo e Simas, 2014, p. 2).

Essas reflexões nos permitem reconhecer os sinais humanizadores da pesquisa na relação com as pessoas envolvidas, pois requer flexibilidade e sensibilidade ao que acontece durante o percurso, com o devido respeito à visão de mundo de cada um(a), implicando-nos no processo. A pesquisa narrativa pede atenção à maneira como nos envolveremos com o que é narrado. Cada aspecto narrado tem a sua importância e necessita de um tratamento sensível para que faça sentido para quem narra e para quem dialoga com o que está sendo narrado. Mesmo quando pontos comuns são encontrados, não podemos esquecer das individualidades dos caminhos percorridos. Dialogar com as particularidades faz com que ocorra a valorização daquela história, que é única, não generalizável, e abre possibilidades para humanizar.

Desse modo, a pesquisa narrativa pode impulsionar a partilha e a escritura de fragmentos da nossa história de vida de maneira (auto)biográfica, amplificando a tessitura dos diálogos, a partir da relação com a história do(a) outro(a) (Bragança, 2018).

A seguir, apresentamos alguns dos aprendizados, que tivemos com cada pessoa que participou da pesquisa, e que nos mostraram os sinais de humanização nas histórias de vida, na formação e na prática docente. A essas pessoas, nosso total respeito pela vida compartilhada e pelas experiências narradas. Desejamos que você, caro(a) leitor(a), encontre boas pistas de humanização e consiga revisitar as suas próprias experiências.

CONTRIBUIÇÕES HUMANIZADORAS DE PROFESSORES(AS) PARA PROFESSORES(AS)

Durante o processo de pesquisa, diferentes atravessamentos sobre humanização foram compondo a narrativa das cartas da dissertação. A começar pelo desconforto em relação aos(às) docentes, devido às experiências de desumanização vividas, como estudantes, passando pela compreensão de que temos vivências diversificadas, ao longo da vida, para além dos espaços formais de educação, as quais constituem a nossa singularidade e precisam ser respeitadas e compreendidas. Somos, docentes e estudantes, constituídos por marcas históricas que nos fazem únicos e influenciam nossas atitudes, que podem ser humanizadoras ou não.

Revisitar experiências de estudante me possibilitou entender que a nossa formação é apenas mais um episódio da nossa história de vida. E que “cada docente dará aos títulos o devido valor a partir da sua maneira de vivenciar o mundo” (Dias, 2023, p. 197). Tal compreensão foi fundamental para repensar as ações dos(as) docentes criticados(as) no início da pesquisa pelas ações desumanizadoras. As conversas com a professora e os professores me ajudaram a ressignificar os episódios de desumanização que sofri e a minha história de vida.

A humanização passa por nos atentarmos às pessoas, por uma escuta sensível e acolhedora. Não é possível pensar em uma ação humanizada se não nos colocarmos na condição de quem aprende e compreende que existe uma história de vida que constitui o que é narrado. É, na escola, que podemos pensar, problematizar, modificar e (re)criar de maneira coletiva. Isso passa por oportunizarmos espaços de convivência e aprendizados humanizadores nas nossas aulas.

O professor Zanatan disse que deixamos de escutar o(a) outro(a) porque vivemos uma espécie de competição louca e sem sentido, porque não partimos da mesma linha, ou seja, pensarmos que igualdade, equidade e justiça precisam caminhar juntas porque somos seres diferentes, o que me leva a reconhecer outro indício de humanização (Dias, 2023, p. 200).

A professora Juliana teve uma ação acolhedora e humanizadora muito bonita, ela disse para um estudante que faltava muito: “Eu te espero todos os dias!” Uma demonstração de interesse pelo estudante e reconhecimento da sua realidade. O gesto humanizado possibilitou, para a criança, a descoberta do seu valor para a professora, para a educação, para as aulas de EF, para a escola. O simples fato de a criança saber que a professora a conhece pelo nome e a espera traz um indício de humanização, uma vez que não a limitou a ser apenas um “número” na escola.

Sabe aquele momento em que somos engolidos(as) pelas demandas burocráticas do contexto escolar? O professor Wilkerson defende que a criança esteja sempre à frente, “que ela não pode ser colocada de lado. Estudar casos específicos referentes às crianças com a atenção necessária é indício de humanização” (Dias, 2023, p. 200). O que é mais importante para você, professor(a): a pessoa ou o papel?

Dentro das especificidades da EF, o professor Tiago relata:

temos o dever de trazer relevância para nossas aulas, envolver outros aspectos culturais e sociais nas aulas, porque se as aulas se restringirem aos conteúdos específicos, contribuiremos com o sistema que reduz as aulas ao que é “obrigatório”. É necessário permitir que as crianças sejam crianças nas aulas, participem integralmente das ações, se relacionem com as pessoas e com o que lhes faz bem: interação, brincadeiras, discussões, jogos, ganhar, perder... Saber o momento certo de criar limites também é uma ação humanizadora e deve partir do(a) professor(a) (Dias, 2023, p. 201).

Pensamos que nossas ações precisam ser acolhedoras de diversas formas, de tal modo que, até em nossa ausência, esteja presente essa dimensão do estar junto, do fazer junto.

O professor Ricardo falou que, por ocasião da sua ausência na escola, uma criança “deu aula” no seu lugar e a professora gravou o seguinte diálogo: aluna 1 - Agora vocês peguem os pneus e coloquem no lugar! Aluno 2 - O professor Ricardo não faz isso com a gente, ele ajuda a turma a guardar os brinquedos. Ajudar a guardar os brinquedos pode ter muitos significados na formação da criança e é indício de humanização (Dias, 2023, p. 201).

E ainda, o professor Zanatan reconhece que temos, hoje, nas escolas, uma geração “forte e corajosa, que não permite ser xingada, que diz ‘chega’ para as piadas homofóbicas, racistas, xenofóbicas e que nos ensina a lutar pelo que acreditamos, pelo respeito aos espaços que ocupamos” (Dias, 2023, p. 201). Como podemos contribuir para esse processo de problematização e humanização?

Entendemos que um dos caminhos para incentivar uma geração “forte e corajosa” em relação aos seus direitos passa pelo que a professora Juliana mencionou:

O tempo destinado ao(à) estudante, um abraço, faz diferença, reconstrói mundos, humaniza. Todos os dias temos oportunidade de aprender a valorizar os pequenos detalhes que, em alguns momentos, nem percebemos. Entender a individualidade dentro do grupo, dar o suporte que, em alguns casos, é negligenciado pelas famílias, proporcionar acolhimento e conforto (Dias, 2023, p. 202).

Família é fonte de práticas que nos humanizam ou não. A partir das nossas experiências dentro do ambiente familiar, temos a oportunidade de expelir nossos valores nos demais grupos que convivemos. A professora Juliana sabe que os valores que ela passa para os(as) filhos(as) é consequência dos aprendizados que teve com seus pais, esse pode ser o motivo de entender e respeitar as diferentes formações dos(as) estudantes que chegam para suas aulas. Tal compreensão favorece para que as ações docentes sejam humanizadas.

A professora Juliana trouxe outro aspecto da humanização, que tem relação direta com os espaços e equipamentos em que as aulas acontecem, sinais do cotidiano a que pouco nos atentamos:

Aprendi que humanização é, igualmente, lutar todos os dias por condições adequadas de espaço e materiais para as minhas aulas, compartilhar os desafios e conquistas com os(as) pares e acreditar que dias melhores podem ser realidade. Se pararmos para refletir, a realidade das aulas de EF nas escolas públicas é de constante adaptação e para superar essas dificuldades é necessário gostar do que faz e acreditar no potencial da educação. Humanizar é zelar pelo que acreditamos! (Dias, 2023, p. 202).

Humanizar na educação passa pela luta por melhores condições de trabalho, pelos encontros com outros(as) professores(as), pelo coletivo, o que “permite conhecer novas maneiras de agir e vivenciar a riqueza da prática compartilhada pelo mesmo objetivo” (Dias, 2023, p. 203). Tais encontros exigem que a gestão escolar, também, acredite na sua potência.

Estamos em constante processo de mudança, a maneira como encontramos determinada solução pode ser diferente da forma como a outra pessoa resolve o mesmo problema. Quando percebemos que os desafios e as condições de trabalho afetam-nos de diferentes formas, podemos encontrar caminhos para julgar menos e ampliar a nossa admiração pelo que já foi realizado por aqueles(as) que nos antecederam, alertando-nos que humanizar pode ser compreender que existem diferentes maneiras de agir por um mesmo propósito.

O desafio de ser professor(a) é grande; poucos têm condições de exercer a profissão com a entrega que ela necessita. De que maneira os(as) futuros professores(as) estão vivenciando a graduação? Como a dimensão humanizadora aparece na formação?

O professor Ricardo iniciou a graduação em EF, depois de trinta (30) anos de serviço público, disse que “as relações que aconteceram, durante a faculdade, contribuíram para entender o que acontece na sociedade, como um todo, a querer estudar sobre diferentes assuntos e ressignificar temas polêmicos” (Dias, 2023, p. 203). E, você, como foram as suas relações durante a graduação? Quais lembranças humanizadas você tem desse período formativo?

Reconhecer que a universidade pública pode ter a capacidade de sensibilizar para o que acontece à nossa volta, de ampliar nossa capacidade de problematizar questões que são negligenciadas no cotidiano, foram percepções apresentadas pelo professor Ricardo. “Compreender o papel da educação nas nossas histórias de vida e formação pode ser um caminho importante no processo de humanização” (Dias, 2023, p. 204).

Ao longo das nossas vidas, somos, continuamente, afetados pelo outro nas relações sociais que nos constituem (Vigotski, 2000), inclusive, em nosso exercício profissional, como professores(as). “A humanização parte da nossa abertura às transformações que são necessárias, diante das nossas responsabilidades de professores(as)” (Dias, 2023, p. 204). Ao rememorar e narrar os deslocamentos que tivemos, no decorrer da vida, crescemos, transformamo-nos.

Aprendemos com o professor Tiago que

humanizar é compreender que o outro é simplesmente outra pessoa e que precisa ser respeitado(a) e respeitar quem eu sou, o que eu penso e acredito. Cada pessoa, dentro da sua subjetividade, encontrará os caminhos para humanizar suas próprias histórias. O professor Tiago escolheu a escrita de poemas como ferramenta para seu processo de (re)descobertas. Que nossas ações humanizadoras também possam ser poéticas e que sejam exemplo para outras pessoas! (Dias, 2023, p. 204-205).

Esses excertos das falas da professora e dos professores fizeram parte da roda de conversa e impactaram, diretamente, na nossa maneira de pensar a humanização. Isso só foi possível, porque superamos os distanciamentos que, comumente, acontecem na pesquisa acadêmica, criando um contexto afetivo, acolhedor, respeitoso, enfim, humanizado, que ofereceu abertura para o compartilhamento de sentimentos, percepções e visões de mundo de forma horizontalizada, sem uma cisão entre pesquisador e participantes da pesquisa.

Esperamos que esses trechos narrados ajudem a identificar aspectos sensíveis de humanização no seu cotidiano e na sua prática docente.

PARA ESPERANÇAR

Este estudo apresenta alguns aprendizados sobre humanização que foram entretecidos no processo da pesquisa de mestrado. Os questionamentos feitos nessa caminhada trazem a esperança de contribuir com reflexões sobre humanização, as quais não se esgotam neste percurso.

Reiteramos, aqui, que, tomando como referência a concepção de humanização de Paulo Freire, reconhecemos sinais de humanização nas narrativas da professora e dos professores. Aprendemos, com ela e com eles, que a humanização passa pela sensibilidade do cotidiano da prática docente e pelos atravessamentos que tivemos ao longo da vida. Acreditamos

que até nos encontros informais, nas relações que não demos importância, existem sinais de práticas humanizadas e humanizadoras. Aqueles encontros que acontecem fora do contexto familiar, de aula ou trabalho, aqueles que temos a oportunidade de conhecer a pessoa e sua história de vida. Quanto mais horizontalizado, caloroso, atencioso for o tratamento docente para com o(a) estudante, mais humanizada será a prática e formação (Dias, 2023, p. 204).

Nossa proposta é: para que estejamos atentos(as) aos diversos acontecimentos que nos atravessam; para que possamos encontrar sinais de humanização, inclusive, em lugares inimagináveis, trazendo, para nosso ofício de professores(as), novas esperanças.

Por fim, retomamos a indagação que está no título deste artigo: narrar a própria história de vida e a prática docente pode contribuir para ações humanizadoras? Possivelmente! Se humanizar passa por nos colocarmos na condição de quem aprende e compreende que somos atravessados por nossas experiências, narrar a própria história de vida e a prática docente, entregando-nos a um processo (auto)biográfico de (auto)formação, pode contribuir, sim, para ações humanizadoras.

Boa travessia!

REFERÊNCIAS

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VIGOTSKI, Lev Semenovich. Lev S. Vigotski: Manuscrito de 1929. Educação & Sociedade, Campinas, SP, v. 21, n. 71, p. 21-44. jul. 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/es/v21n71/a02v2171.pdf. Acesso em: 30 ago. 2024.

Notas

1 Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – Campinas – São Paulo – Brasil – https://orcid.org/0000-0001-6259-0550
2 Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – Campinas – São Paulo – Brasil – https://orcid.org/0000-0003-2160-0585
3 A pesquisa foi desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais (CEP/CHS) da Unicamp, por meio do parecer número 5.146.737, CAAE: 53205421.9.0000.8142.
4 Informações relativas a essa colaboração (suprimidas por questões de anonimato).

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