Pesquisas narrativas, formação de professores(as) e cotidiano escolar

TRAJETÓRIAS DE PROFESSORES DE LIBRAS: SURDOS “FILHOS DO BILINGUÍSMO”

TRAJECTORIES OF LIBRAS PROFESSORS: DEAF “CHILDREN OF BILINGUALISM”

TRAYECTORIAS DE PROFESORES DE LIBRAS: SORDOS “HIIJOS DEL BILINGÜISMO”

Niédja Maria Ferreira de Lima
Universidade Federal de Campina GrandeBrasil
Bárbara Cristina Moreira Sicardi Aygadoux
Universidade Federal de São CarlosBrasil

TRAJETÓRIAS DE PROFESSORES DE LIBRAS: SURDOS “FILHOS DO BILINGUÍSMO”

Reflexão e Ação, vol. 32, núm. 3, pp. 96-111, 2024

Universidade de Santa Cruz do Sul

Recepción: 08 Septiembre 2024

Aprobación: 03 Diciembre 2024

Resumo: Como você se tornou um professor de Libras (Língua Brasileira de Sinais) do ensino superior sendo surdo? Essa questão desencadeou uma investigação que buscou analisar percursos formativos de professores surdos do curso Letras Libras, em uma instituição pública de ensino superior. Ancorou-se em princípios epistemológicos da pesquisa (auto)biográfica em educação (Josso, 2004; Pineau, 2006; Passeggi, 2010, 2015; Passeggi e Souza, 2017; entre outros) e na educação bilíngue de surdos (Skliar, 1999; Moura; 2000; Gianini,2012, etc.). A análise das entrevistas narrativas de três docentes surdos “filhos do bilinguismo”, foi respaldada na abordagem compreensiva interpretativa de narrativas (auto) biográficas (Souza, 2014). Suas trajetórias evidenciaram “recordações referências” marcadas pela essencialidade da Libras na constituição da identidade surda; experiências formadoras de educação bilíngue; o ser “professor de verdade” em devir; a conquista e o reconhecimento de si como profissionais da educação.

Palavras-chave: narrativas (auto)biográficas, trajetórias formativas, professores surdos, Letras Libras, ensino superior.

Abstract: How did you become a deaf Libras (Brazilian Sign Language) professor in higher education being deaf? This question motivated an investigation that sought to analyze the formative paths of deaf professors in the Libras Language course at a public higher education institution in Paraíba, anchored in epistemological principles of (auto)biographical research in education (Josso, 2004; Pineau, 2006; Passeggi, 2010, 2015; Passeggi and Souza, 2017; among others) and in bilingual education for the deaf (Skliar, 1999; Moura; 2000; Gianini, 2012, etc.). The comprehensive interpretative approach of (auto)biographical narratives (Souza, 2014) supported the analysis of the narrative interviews of three deaf professors, “children of bilingualism”. Their trajectories evidenced “memories- references” marked by the essentiality of Libras in the constitution of deaf identity; formative experiences of bilingual education; being a “real professor” in the making; and the achievement and recognition of oneself as an education professional.

Keywords: (auto)biographical narratives, formative trajectories, deaf professors, Libras studies undergraduation.

Resumen: ¿De qué manera usted se ha tornado maestro de Libras (Lengua Brasileña de Señas) de la Enseñanza Superior teniendo la condición de sordo? Dicha cuestión plantea una investigación que busca analizar recorridos formativos de maestros sordos de la Carrera de Letras Libras, en una institución pública de Enseñanza Superior de la provincia de Paraíba, Brasil, basada en principios epistemológicos de la investigación (auto)biográfica en educación (Josso, 2004; Pineau, 2006; Passeggi, 2010, 2015; Passeggi y Souza, 2017; entre otros) y en la educación bilingüe de sordos (Skliar, 1999; Moura; 2000; Gianini, 2012, etc.). El análisis de las encuestas narrativas de tres docentes sordos, “hijos del bilingüismo”, ha estado respaldado en el abordaje comprensivo-interpretativo de narrativas (auto)biográficas (Souza, 2014). Sus trayectorias han evidenciado “recuerdos-referencias” marcados por la esencialidad de la Libras en la constitución de la identidad sorda; experiencias formadoras de educación bilingüe; el ser “maestro de verdad” en proceso; la conquista y el reconocimiento de sí cómo profesionales de la educación.

Palabras clave: conteos (auto)biográficos, trayectorias formativas, maestros sordos, Letras Libras, enseñanza superior.

INTRODUÇÃO

A tessitura do presente estudo se pautou em princípios epistemológicos da abordagem (auto)biográfica em educação que, dentre os dispositivos de pesquisa, privilegia as histórias de vida em formação, a partir das narrativas de si, como método de investigação e produção de saberes, conhecimentos, formação, (auto)formação e profissionalização (Ferrarotti, 1998; Nóvoa, 1995; Josso, 2004; Pineau, 2006; Passeggi, 2010, 2015; Passeggi e Souza, 2017 entre outros).

Desse modo, trazemos um recorte da investigação sobre percursos formativos de professores surdos do curso de Letras Libras da Universidade Federal de Campina Grande - UFCG, desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação - PPGED da Universidade Federal de São Carlos - campus Sorocaba. O fio condutor do processo de narração das histórias de vida-formação-profissão de docentes surdos teve como questão norteadora: Como você se tornou um professor de Libras do Ensino Superior sendo surdo? Buscamos, assim, perceber, do ponto de vista de cada um, as experiências formadoras como pessoas surdas e como docentes de Libras.

No campo educacional, a abordagem (auto)biográfica ganhou expressão e reconhecimento, nos contextos internacional e brasileiro, nos anos de 1980 e início dos anos 2000, respectivamente, como pode ser visto no sobrevoo histórico em trabalho publicado por pesquisadores (Passeggi e Sousa, 2017). Ela amplia e produz conhecimentos sobre a pessoa em formação, as suas relações com territórios e tempos de aprendizagem, seus modos de ser, de fazer e de biografar resistências e pertencimentos, pois considera indissociáveis os processos de socialização e de subjetivação na formação humana (Passeggi, 2010; 2015).

No presente estudo, a noção de “experiência formadora”, conceitualizada por Josso (2004), constitui-se como uma ideia fundante. Para a autora, a formação, do ponto de vista do aprendente, é um processo de aprendizagem que ocorre dentro de uma determinada prática. Por essa razão, ela admite que a reflexão sobre recordações consideradas pelos narradores como experiências significativas para as aprendizagens pode ser um dos meios para descrever e compreender em que essas experiências foram formadoras, configurando-se como “recordações- referências”, lembranças simbólicas do que o autor-narrador compreende como elementos constitutivos da sua formação.

Sendo assim, é preciso evidenciarmos que o estudo de trajetórias permite que nos aproximemos da temporalidade humana e, mais precisamente, da temporalidade biográfica da experiência e da existência. Nesse sentido, as experiências sociais, históricas e políticas vividas vão sendo tecidas em dinâmicas singulares-plurais. Nessa interface do individual e do social, o espaço da pesquisa biográfica consistiria, então, em perceber a relação singular que o indivíduo mantém, pela sua atividade biográfica, com o mundo histórico e social e em estudar as formas construídas que ele dá à sua experiência (Ferrarotti, 1998). Esse autor defende o método biográfico como opção e alternativa para fazer a mediação entre as ações e a estrutura, ou seja, entre a história individual e a história social. Para ele, “toda as narrações autobiográficas relatam, segundo um corte horizontal ou vertical, uma práxis humana” (p. 26).

Quando tratamos de histórias de vida de sujeitos surdos e de sua educação, cujas narrativas, percepções, recordações foram, historicamente, não ouvidas, invisibilizadas, apagadas, marcadas por trajetórias consideradas “improváveis” (Gianini, 2012; Gianini e Passeggi, 2013; Passeggi, 2015;), não poderia ser diferente. Falar em seus percursos formativos das aprendizagens experienciais é contar a própria história, reconhecer o seu direito de falarem e de serem compreendidos, de passar a serem vistos como sujeitos construtores de suas histórias individuais e coletivas, singulares e plurais. Como ressalta Gianini (2012), é procurar entender, do ponto de vista desses sujeitos, as experiências significativas vivenciadas nos diversos contextos educacionais, sociais e de formação profissional, que contribuíram para se constituírem docentes de Libras

Ainda no âmbito dos debates sobre a formação de professores, os estudos de Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003) discutem aspectos da profissionalidade e dos modelos de formação, ao longo da história da educação. Esses autores identificaram quatro modelos de professor: o professor improvisado, o professor artesão; o modelo do professor técnico e o professor como profissional da educação, que servirão de inspiração, no presente estudo, para nos referirmos ao processo de formação dos professores de Libras que são surdos.

Partimos do pressuposto, também, de que a formação dos professores e a relação com o conhecimento é permeada pela experiência e pela história do aprendiz. Segundo Nóvoa (1992), as histórias de vida constituem-se como terrenos nos quais os professores constroem sua profissão, uma vez que o sujeito professor é uma pessoa, sendo a docência uma parte importante de sua identidade. Esse mesmo autor faz uma importante discussão, no texto “Firmar a posição como professor, afirmar a profissão docente” (Nóvoa, 2017), sobre a formação de professores no contexto contemporâneo. Ele argumenta que o campo da formação de professores necessita de mudanças profundas e, a partir do conceito de posição, defende que é necessário desenvolver uma disposição pessoal, uma interposição profissional, uma composição pedagógica, uma composição investigativa e uma exposição pública. Essa tomada de posição entrecruza as dimensões pessoais com a vida profissional e a vida profissional com a ação pública.

Em consonância com tais preceitos, concebemos a pessoa surda e sua educação com base no modelo sociocultural de surdez, por compreender o surdo a partir de sua visualidade e, portanto, como participante de um grupo que se constitui linguisticamente e culturalmente, por meio de uma língua visual gestual, a Língua Brasileira de Sinais - Libras (Skliar, 1999; Moura; 2000; Slomski, 2010). Tal concepção, reconhece a educação bilíngue de surdos, sendo-lhes concedido o direito de ter acesso à educação, mediante o uso da língua de sinais, como primeira língua (L1) e à aprendizagem da língua portuguesa, na modalidade escrita, como segunda língua (L2).

Assim, a perspectiva educacional bilíngue, que emerge nos anos de 1990 no Brasil, defende os direitos no marco da diferença linguística e política desses sujeitos e potencializa as discussões sobre a importância da Língua de Sinais para a vida e a educação dos surdos, sobre as questões identitárias e culturais dessas pessoas, para verdadeira inclusão na sociedade. Suas reivindicações se alicerçam no lema “Nada sobre nós sem nós”, com a plena participação dos sujeitos, para garantia da educação em escolas bilíngues de surdos e surdocegos, como direito humano.

Nesse contexto, a temática da constituição e formação de professores de Libras demanda um ensino dessa língua e formação de professores de Libras, com a aprovação da Lei n 10.436, de 24 de abril de 2002, e sua regulamentação pelo Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005 (Brasil, 2005), questões que reverberaram no estudo ora apresentado.

Além desta introdução, em que situamos as lentes teóricas da investigação, o texto é composto pelas seguintes seções: primeiramente, o trilhar metodológico, na qual apresentamos os momentos da construção das entrevistas narrativas; tecemos, na sequência, fios das narrativas dos docentes surdos da geração do bilinguismo, o desvelar de si e seus percursos de formação; em seguida, refletimos sobre algumas marcas do ser docente de Libras, que envolvem o exercício da docência, enquanto profissionais do ensino superior; e, finalmente, registramos as sínteses mais relevantes do nosso estudo.

DELINEAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

O trilhar da pesquisa teve como lastro teórico princípios da abordagem (auto)biográfica em educação e a concepção sociocultural de surdo, com foco nas histórias de vida em formação, como método de investigação, conforme mencionamos.

O lócus da pesquisa foi o curso de Licenciatura em Letras Libras da Universidade Federal de Campina Grande-UFCG (Resolução nº 08/2016), ao qual os professores surdos estão vinculados. Esse curso decorreu do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência - Viver sem Limite -, instituído pelo Governo Federal, com a publicação do Decreto no. 7612, de 17 de novembro de 2011, que tinha como objetivo promover a inclusão social das pessoas com deficiência.

A investigação contou, em seu corpus, com cinco entrevistas narrativas (Jovchelovitch e Bauer, 2002), que foram utilizadas para coleta de dados, por corroborar com os autores, quando ressaltam que o objetivo principal das entrevistas narrativas é apreender como os sujeitos constroem suas versões acerca de determinado objeto; e, ainda, com Ferrarotti (1988), quando afirma que as histórias narradas pelos sujeitos são uma síntese dos acontecimentos ocorridos em determinada época, tempo e espaço, por isso, tornando-se o foco da pesquisa.

Nas leituras iniciais das narrativas, percebemos diferenças singulares entre os participantes, sendo divididos em dois grupos: o primeiro, constituído por três surdos “filhos do bilinguismo”3 , ou seja, surdos que estudaram em escolas específicas para surdos e adquiriram a Libras desde a infância, conforme estudo de Gianini (2012); e o outro grupo, constituído por dois surdos, nomeados como filhos tardios do bilinguismo, que estudaram em escolas regulares de ouvintes e que trazem em suas trajetórias de vida e formação indícios de terem adquirido a Libras tardiamente. Para este texto, serão relatadas as trajetórias de vida e formação docente dos participantes da pesquisa dos “filhos do bilinguismo”.

Essas entrevistas foram realizadas em Libras, posteriormente, transcritas para o português escrito e contaram com a colaboração de uma intérprete no processo de tradução. As entrevistas foram concedidas em setembro de 2021, cenário marcado pela pandemia da Covid-19 e de ensino remoto, que impactou nos processos individuais, sociais e educativos. Como diz Souza (2020), esse cenário da pandemia inscreve-se justamente num momento crucial e histórico da crise política e da democracia no Brasil. Considerando tal contexto, “Narrar é resistir, é uma das formas de dizer de outro lugar que os espaços biográficos são múltiplos, diversos e contra- hegemônicos” (Souza 2020, p.484). Assim, foram necessários rearranjos nos procedimentos quanto aos trâmites éticos na pesquisa com humanos e ao ambiente virtual que assegurasse a gravação com a presença, visibilidade de todos e, particularmente, a sinalização dos relatos dos surdos participantes. O You tube atendeu a esses critérios.

Os docentes surdos participantes, Aline, Girlaine e Tiago, autorizaram o uso de seus nomes reais por meio de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (2021)4. Para analisar as narrativas docentes, recorremos à análise compreensiva e interpretativa de narrativas, proposta por Souza (2014), pois, dentre outros objetivos, busca “[...] apreender regularidades e irregularidades de um conjunto de narrativas orais ou escritas, partem sempre da singularidade das histórias e das experiências contidas nas narrativas individuais e coletivas dos sujeitos implicados em processos de pesquisa e formação” (p.43).

DOCENTES DE LIBRAS: “NARRATIVAS DOS SURDOS “FILHOS DO BILINGUÍSMO”

[...] A partir do momento que eu entendi e signifiquei o meu sinal próprio, que era meu nome na minha língua [com expressão de alegria] eu comecei a aprender a língua de sinais[...] (Aline, entrevista narrativa, 2021).

Foi na EDAC que eu tive a oportunidade de aprender a língua de sinais. Porque foi a partir do acesso a essa língua que eu tive na EDAC, que todas essas oportunidades que eu falei se tornaram possíveis (Girlaine, entrevista narrativa, 2021).

[...] a língua de sinais me deu a possibilidade de aproveitar várias oportunidades, de estudo, de concurso, de mestrado (Tiago, entrevista narrativa, 2021).

As epígrafes desta seção são excertos de narrativas de Aline, Girlaine e Tiago, que nasceram nos anos 1980 e, conforme dito, compõem a geração de surdos, filhos do bilinguísmo”. É notória a menção à língua de sinais, em suas entrevistas narrativas, como “charneira” (Josso, 2004), devido ao fato de a Libras propiciar a construção de sua identidade como pessoa surda e ser relevante em suas vidas e processos de escolarização e comunicação. Buscamos reconstituir fios de suas histórias de vida, formação e profissão que, no entrecruzamento, nos permitiram apreender marcas singulares/plurais que trazem referências de sujeitos, lugares e coletivos entrelaçados em suas histórias de vida. Apresentamos, a seguir, marcas do desvelar de si, nas histórias por eles narradas. Nesse momento, recorremos aos registros das narrativas das histórias de formação de Aline e Girlaine, presentes na tese de Gianini (2012), para corroborar os elementos constitutivos da sua formação.

Aline, 35 anos, natural de Campina Grande-PB, nasceu surda em uma família de ouvintes e é casada com um surdo. Sua identidade de pessoa surda é um fato marcante em sua vida: aprender seu sinal e de descobrir “seu nome-Aline” na “sua própria língua. Suas memórias sobre a vida escolar retomam à infância, aos onze meses de idade, quando passou a frequentar uma instituição para atendimento a deficientes no município de Campina Grande, onde permaneceu até a idade de dez anos. Em 1997, passou a estudar na Escola Estadual de Audiocomunicação de Campina Grande - EDAC, que adotava em seu projeto pedagógico a educação bilíngue para surdos. Cursou nessa escola todo o Ensino Fundamental e concluiu o Ensino Médio em 2007.

Durante os anos de 2004 a 2006, participou do curso de Formação para Instrutores de Libras oferecido pela UFCG, espaço onde ela considera que começou a “aprender a ser professora”, a partir dos conhecimentos adquiridos e das trocas estabelecidas entre o grupo de alunos surdos e as professoras ouvintes. Quando concluiu o referido curso, Aline foi contratada pela Prefeitura Municipal de Aroeiras, para trabalhar como instrutora de Libras na recém-criada Escola Municipal de Educação Surdos de Aroeiras.

Atuou, também, como instrutora de Libras em cursos oferecidos pela Associação de Surdos de Campina Grande - ASCG. Em 2008, passou no vestibular para a Licenciatura em Letras Libras, oferecida pela Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC, na modalidade ensino a distância, Polo do Rio Grande do Norte. Nesse mesmo ano, foi certificada pelo Prolibras5 para o ensino dessa língua. Concluiu a graduação no ano de 2012 e disse que ficou muito feliz por deixar de ser instrutora e tornar-se “professora de verdade”. No ano de 2016, fez concurso público para a vaga de professor efetivo de Libras na UFCG, curso de Letras Libras e foi aprovada.

Girlaine, 33 anos, nasceu em Campina Grande-PB. Aos sete meses de idade, perdeu a audição. É casada com surdo e tem uma filha ouvinte. Ingressou na EDAC, no ano de 1997, onde cursou o Ensino Fundamental e Médio, concluindo os estudos em 2007, junto com Aline. Quando cursava o segundo ano de Ensino Médio, foi convidada também pela ASCG para participar do Curso de Formação de Instrutores de Libras, ofertado pela UFCG nos anos de 2004 a 2006.

Em 2008, começou a atuar como instrutora de Libras na EDAC, por meio de contrato de prestação de serviço. Assim como Aline, passou no vestibular para a Licenciatura em Letras Libras oferecido pela UFSC. Nesse mesmo ano, submeteu-se ao Prolibras, no qual foi aprovada e recebeu certificação para o ensino de Libras. No fragmento de sua narrativa, Girlaine justifica a sua opção pelo curso Letras Libras:

Como instrutora, eu fiquei pensando que instrutora tinha um status menor, já o curso de Letras Libras, era uma formação de verdade, com colação de grau e tudo. Por isso que eu escolhi o Letras Libras, mas eu agradeço muito essa experiência que eu tive como instrutora, para depois chegar no curso de Letras Libras (Girlaine, entrevista narrativa, 2021).

Após a conclusão do Letras Libras, em 2012, mudou-se para Recife-PE e prestou, no ano 2014, concurso na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) para professora de Libras e foi aprovada.

Em 2014, solicitou redistribuição para a UFCG-Campus Campina Grande, curso de Letras Libras, que só foi oficializada em 2016. No ano de 2017, ingressou no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino-PPGLE/UFCG, foi aprovada e concluiu o curso em 2019. Girlaine foi a primeira mestre surda da UFCG. Após essa conclusão, retornou à sala de aula e buscou desenvolver as atividades de ensino, pesquisa e extensão com maior conhecimento sobre o trabalho com gêneros textuais em Libras. Com o intuito de continuar a formação acadêmica no doutorado, com condições melhores de acessibilidade, foi aprovada na seleção no ano de 2020, propondo-se a aprofundar o objeto de estudo: gênero textual em Libras.

Tiago, 33 anos, também é natural de Campina Grande-PB. Nasceu ouvinte, mas com seis anos de idade perdeu a audição e, como já tinha aquisição de linguagem, desenvolveu a oralização no ambiente familiar. Estudou na EDAC, todo o Ensino Fundamental e Médio, concluindo os estudos no ano de 2007, juntamente com Aline e Girlaine. Nessa escola, passou a ter contato com a Libras e teve a possibilidade de se desenvolver na relação com outros surdos sinalizantes, principalmente, na ASCG, como ilustra o excerto de sua narrativa:

A EDAC foi o primeiro local em que eu realmente me senti como se tivesse aprendido, aprendendo, porque eu vi a língua de sinais sendo utilizada pelos alunos e professores que eu tinha como referência (Tiago, entrevista narrativa, 2021).

Ingressou, em 2008, no curso de Licenciatura em Letras/Libras juntamente com Aline e Girlaine. Ainda no ano de 2008, fez o Prolibras e foi aprovado.

Sua primeira experiência profissional como professor de Libras foi na escola municipal de surdos de Gado Bravo-PB, em 2009, aprovado em concurso público desse município, para o preenchimento de cargo de professor de Libras, onde trabalhou até 2014. Durante esse percurso, ministrou cursos de Libras na ASCG e na Pastoral de Surdos de uma igreja, além de ter liderado o movimento surdo na Paraíba, no ano de 2012, em defesa das escolas bilíngues para surdos.

Relatou que, em 2014, prestou concurso público para vaga de professor do Ensino Superior do Magistério Superior de Libras, na UFCG-Campus Cuité, tendo sido aprovado. Sua inserção na pós-graduação em nível de mestrado ocorreu nesse mesmo ano, a partir do seu ingresso no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Ele disse que se tornou o primeiro surdo a obter o título acadêmico de mestre da Paraíba.

Tiago afirmou, ainda, que em 2018, surgiu oportunidade de fazer remoção por permuta de servidor para o Campus de Campina Grande, Unidade Acadêmica de Letras. Somente em 2019 passou a compor o quadro de professores dessa unidade acadêmica, assumiu a coordenação de estágios e, em 2020, quando da realização dessa entrevista narrativa, havia sido eleito para ser coordenador do curso de Letras Libras.

No entrecruzamento dessas narrativas, visualizamos que os surdos participantes dessa pesquisa estudaram na mesma instituição de ensino bilíngue para surdos de Campina Grande -a EDAC, tiveram acesso à Libras ainda quando eram crianças e trabalharam também em escolas de surdos no estado da Paraíba. Pertencentes à geração do bilinguismo, evidenciaram a essencialidade da língua de sinais em sua constituição identitária, com a presença de surdos adultos, modelos identitários, professores ouvintes e de ambientes bilíngues em que puderam atuar como instrutores de Libras.

Foi possível identificarmos, também, a participação de todos eles na oferta de cursos de Libras para a comunidade ouvinte, na função de instrutores de Libras, por meio da ASCG, ensinando e disseminando a Língua de Sinais. Outro aspecto é que todos os docentes surdos foram aprovados no Prolibras e possuem a Licenciatura em Letras/Libras -Universidade Federal de Santa Catarina. Além disso, ingressaram como docentes do Ensino Superior por meio de concurso público para o ensino de Libras na UFCG e atuam no mesmo curso de Letras Libras dessa instituição.

Assim, na tessitura de suas narrativas, aparece com regularidade a atuação como instrutores de Libras, sem a formação inicial para o exercício dessa função, compreendida como primeira experiência de docência no ensino de Libras, embora em contextos diferentes. Desse modo, ainda não se sentiam autorizados a serem tratados como professores. A evolução dessa trajetória permitiu identificar o alcance de seus objetivos, ao graduarem-se em Letras/Libras e serem “professores de Libras de verdade”. Na seção que segue, relatamos fios do trilhar de Aline, Girlaine e Tiago como docentes de Libras da UFCG.

SER DOCENTE DE LIBRAS DO ENSINO SUPERIOR: MARCAS E DESAFIOS DA DOCÊNCIA

De que modo os professores do ensino superior se identificam profissionalmente? [...] O que identifica um professor? E um professor universitário?

(Pimenta; Anastasiou, 2014, p.35-36).

Os questionamentos trazidos na epígrafe desta seção são colocados no centro de debates educativos e de investigações em vários países, tanto no âmbito da pesquisa sobre os processos de formação como nas formulações das políticas de Ensino Superior, no que se refere ao ensino, à pesquisa e às exigências que caracterizam o exercício da profissão de modo geral.

Nessa perspectiva, Pimenta e Anastasiou (2014) apontam que, quando chegam à docência universitária, os professores trazem consigo inúmeras e variadas experiências do que é ser professor, as quais foram adquiridas como alunos de diferentes professores em sua vida escolar. O desafio, portanto, é de construir a sua identidade de professor universitário, para o que os saberes da experiência e dos conhecimentos específicos não bastam. Se fazem necessários os saberes pedagógicos e didáticos com base na prática social da educação e, no caso da formação de professores, com base em sua prática social de ensinar. Essa compreensão, segundo as referidas autoras, é necessária para a superação da tradicional fragmentação dos saberes da docência:

Considerar a prática social como o ponto de partida e como ponto de chegada possibilitará uma re-significação dos saberes na formação de professores. As consequências para a formação dos professores são que a formação inicial só pode se dar a partir da aquisição da experiência dos formados (ou seja, tomar a prática existente como referência para a formação) e refletir-se nela (Pimenta; Anastasiou, 2014, p. 84).

Foi possível identificarmos, nas narrativas dos docentes surdos Aline, Girlaine e Tiago, a participação em processos seletivos, para professores de Libras em instituições públicas de Ensino Superior para o curso de Letras Libras da UFCG, como já mencionado.

A docente Aline relatou alguns desafios do tornar-se professora para ensinar Libras na referida etapa, além dos relacionados às atividades de extensão de que tem participado, mas que sua experiência como professora de surdos na escola municipal e os companheiros do curso (surdos e ouvintes) lhe ajudaram a pensar em estratégias para o começo de sua carreira no ensino de Libras. Por fim, disse, ainda, que foi coordenadora do curso Letras Libras nos anos de 2019 e 2020, mas precisou se afastar durante a pandemia de Covid-19, devido a questões de saúde.

Entre suas recordações, ela revelou que sentiu uma grande responsabilidade em ser docente do Ensino Superior e, ao mesmo tempo, que tal docência provocou nela novas descobertas e conhecimentos. Isso porque se tornaria responsável pela formação e construção de futuros professores de ensino de Libras como L1 e L2, contribuindo com a formação desses profissionais. Segundo ela, no primeiro ano de atuação em sala de aula, em 2016, iniciou ensinando Libras como L2, em outros cursos de licenciatura, o que foi mais fácil para ela, pois esse se assemelhava a um curso que já havia ministrado para ouvintes. Mas, em 2017, quando começou no Letras Libras foi mais desafiador, como expressa no excerto a seguir:

[...] foi um pouco provocante para mim e eu também tive que reaprender mais coisas e estou nessa caminhada até hoje. O que que ficou para mim marcado foi a responsabilidade de formação dos futuros profissionais que eu estava recebendo (Aline, entrevista narrativa, 2021).

Outro desafio apontado por Aline foi assumir a função de coordenação do curso de Letras Libras (2019- 2020), pois, na época, ela contava apenas com um intérprete de Libras para dar conta das demandas que a função requeria na Unidade Acadêmica de Letras-UAL/UFCG, e ser uma coordenadora surda e modelo também para os outros surdos, como ela nos evidencia em sua fala:

Eu comecei a trabalhar na coordenação do curso. Assim, eu tinha várias barreiras, porque só tinha um intérprete na UAL. É um trabalho bem grande. Eu queria muito fazer várias coisas. Então a gente foi tentando vencer as dificuldades fazendo o que era possível e, como coordenadora, eu ficava pensando como responder aos surdos[...] trabalhar numa posição de gerência, na questão da administração (Aline, entrevista narrativa, 2021).

Professora Girlaine expressou seu contentamento de ser professora de Libras do Ensino Superior, nos sete anos de trajetória, tanto no curso Letras Libras como em outras graduações; em ter conseguido sua transferência da UFPE para UFCG, em 2016, e retornado à Campina Grande. Rememora que o seu objetivo de se tornar “professora de verdade” se concretizou e percebe que está em ascensão-crescimento, aprofundando conhecimentos e aprendendo sempre mais. Nessa direção, vejamos um excerto de sua narrativa:

Eu fico pensando que hoje eu me encontrei, trabalho bastante, em várias coisas, mas sempre continuo buscando coisa novas sobre metodologia, sobre teorias, tudo que é novo eu estou antenada para poder dar aos meus alunos do Letras Libras e também os alunos de Libras de outros cursos [...]. Meu sinal é estudar! (Girlaine, entrevista narrativa, 2021).

O professor Tiago, por sua vez, relatou seu trilhar no ingresso na universidade como professor de Libras na UFCG, no campus Cuité, e após sua remoção para o campus de Campina Grande, vinculando-se ao curso de Letras Libras da UAL. Ao olhar para seu percurso como docente de Libras, reconheceu-se como professor universitário: [...] hoje eu tenho a certeza do meu papel como professor, dentro da universidade, porque esse caminho que eu relatei me deu a as condições para chegar aonde eu estou hoje como professor universitário (Tiago, entrevista narrativa, 2021).

Nesse caminhar, Tiago assumiu funções administrativas, como coordenador de estágio (2019) e, na época dessa entrevista, informou que havia participado de processo seletivo para coordenador do curso Letras Libras e estava aguardando o documento de portaria de nomeação dessa função. No tocante às dificuldades e aos desafios do cotidiano do ser docente surdo no Ensino Superior, em um curso de maioria formada por professores ouvintes, ele disse que, no âmbito do seu curso, sente falta de interação entre os pares (surdos e ouvintes) para compartilhar conhecimentos, como aponta o excerto a seguir:

[...] o momento que eu olhando para mim e sinto falta de mais interação com os professores surdos e ouvintes. Porque as vezes eu sinto pouca interação, é um pouco fechado, eu gostaria que tivesse mais abertura e tivesse mais interação entre as pessoas, entre compartilhamento de conhecimento, para eu poder receber mais conhecimento, oferecer também, eu sinto falta disso. Eu Acredito que, o que eu gostaria, é aprofundar meu conhecimento, junto com as pessoas, os professores também, surdos (Tiago, entrevista narrativa, setembro de 2021).

Nas memórias de atuação dos docentes surdos de Libras sobressaíram-se os desafios sobre ser docente no contexto pandêmico, marcado pelo isolamento social, pelo ensino remoto, acessibilidade às plataformas digitais, invisibilidade nas salas virtuais, entre outros. Nas palavras de Souza (2020) representou um novo tempo, de luta pela defesa da vida em um país marcado por ausências de políticas e de enfrentamento da pandemia da Covid-19.

Diante das dificuldades encontradas no ensino remoto, apontaram o problema da acessibilidade na comunicação pela língua de sinais diante das chamadas de vídeos e instabilidades das conexões, em que o sinal entrecortado congela os movimentos, a expressão facial e impede que a comunicação se estabeleça. Para eles, ministrar aulas remotas em Libras, que é uma língua visual espacial, a qual se expressa por meio do movimento das mãos e do corpo, pela expressão facial em um espaço de sinalização em frente ao corpo (Quadros; Karnopp, 2004), foi desafiante, angustiante. Exigiu, portanto, uma atenção maior e interação entre professor surdo-aluno ouvinte, novas estratégias e produção de materiais para as aulas remotas. Os excertos que seguem elucidam situações vividas por eles nesse cenário:

Esse momento, da pandemia, eu sinto muitas barreiras [...] eu penso que no virtual, não tem um aprendizado real. No presencial, a gente precisa de mais paciência, mas, assim, a gente tem uma interação mais consistente, tem a questão do respeito ao aluno, respeito ao professor. Tem uma interação mais dinâmica no presencial; no virtual, o pessoal fecha a câmera, aí tem angústia (Aline, entrevista narrativa, 2021).

Em 2020, chegou a pandemia de Covid-19 e nós paramos com esse processo, por que todo mundo dentro de casa três meses sem fazer nada. Então voltamos a questão virtual, distanciamento e trabalho remoto e então, a gente foi pensar em estratégias para esse novo contexto. Fizemos algumas coisas, discutimos sobre o tipo de material didático, vídeo, atividades, questões[...] Participei de lives como convidada, porque antes eu não tinha condições de encontrar e deles virem até onde eu estava e nas lives, parece que o mundo se abriu. Estou aprendendo com muitos surdos [...] (Girlaine, entrevista narrativa, 2021).

[...] Por causa da pandemia, a universidade que precisou ser organizada para o ensino remoto, as pessoas ficavam angustiadas e aí, a gente começou a ensinar os alunos; muita barreira, porque às vezes a conexão caía, a internet, às vezes os alunos com as câmeras fechadas, não querem ser vistos e aí a interação não acontece (Tiago, entrevista narrativa, 2021).

Vemos, nessas narrativas, marcas da pandemia da Covid-19 e alguns impactos no mundo do trabalho remoto dos docentes surdos, suas reinvenções, situações-limite, encontros em lives com surdos e ouvintes de lugares distantes. Como disse Souza (2020), foi um tempo que nos possibilitou aberturas para como podemos pensar e narrar a vida, reflexões sobre memórias, acontecimentos, doença-saúde, morte-vida e resistências, como a atitude biográfica e (auto)biográfica.

Face a esse percurso trilhado pelos docentes surdos, olhando para a formação e seus perfis, corroboramos as reflexões sobre a formação profissional, a construção da identidade docente (Pimenta; Anastasiou, 2014; Nóvoa, 1992; entre outros), pois, como desvelado nas itinerâncias formativas dos docentes surdos, um professor não se faz de um dia para outro, mas dentro de um processo de apropriação de conhecimentos e de prática pedagógica, que se sintetiza em uma práxis educacional. É um processo que se constrói durante o percurso da vida, durante o qual se alteram os modelos vividos, interferindo na construção da identidade docente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tecemos, aqui, algumas sínteses sobre trajetórias formativas dos três docentes surdos Aline, Girlaine e Tiago, “filhos do bilinguismo”. Com base nos marcos da pesquisa (auto)biográfica em educação, estudo recorreu ao conceito de “experiência formadora”, trazendo à baila suas recordações referências dos processos de formação pessoal, intelectual e profissional. As palavras de Passeggi (2010, p.1) expressam a potencialidade das narrativas dos protagonistas deste estudo: “a pessoa, ao narrar sua própria história, procura dar sentido às suas experiências e, nesse percurso, constrói outra representação de si: reinventa-se”.

Em suas entrevistas narrativas, realizadas em setembro de 2021, veio à tona um momento crucial e histórico do país, com marcas e repercussões na saúde e trabalho docente, impactado pela pandemia da Covid-19 e pela crise política e da democracia.

Sem perder de vista a singularidade de cada história, foi possível depreender nas análises que elas se entrelaçam, remetem a outras histórias de educadores, espaços sociais e educacionais bilíngues experiências, conhecimentos. Com efeito, são reflexos de distintos contextos históricos, políticos e sociais diversos, incluindo as lutas do movimento surdo nacional. Suas recordações enalteceram o valor à Libras, em diferentes dimensões da vida e formação. Todos eles referiram- se ao encontro e à apropriação da língua de sinais como elemento fundante de sua identidade surda. Corroborando o estudo de Gianini (2012, p.188), “evidenciam a questão da essencialidade da Libras para a constituição histórica da consciência e da subjetividade de pessoa surda, ou seja, da possibilidade do vir a ser do indivíduo surdo”.

As marcas do processo educacional, do ingresso como docentes de Libras do Ensino Superior, por meio de concurso público em instituições federais, com destaque para a do curso Letras Libras- UFCG, foram relatadas como um momento charneira em suas vidas. Denotam, assim, terem realizado o ritual de passagem da condição de instrutores para professores de Libras.

Ao narrarem fatos relacionados ao exercício da docência universitária, apontaram desafios e possibilidades para atuarem no ensino de Libras como L2; proporem e se envolverem em atividades de pesquisa e extensão, como também as experiências pioneiras em funções administrativas no âmbito da instituição. Reiteraram a necessidade de uma maior interação entre os professores surdos e ouvintes, na troca de conhecimentos e em projetos que envolvam o tripé ensino, pesquisa e extensão.

Assim, vemos indícios da construção da identidade profissional desses docentes, do ser professor do Ensino Superior, enquanto aspectos fundantes do processo de formação e exercício da docência universitária de surdos. A partir da percepção que tem de si e da sua profissionalidade, poderão contribuir para melhorias na formação de futuros docentes de Libras. Da mesma forma, faz-se necessário o comprometimento das instâncias da universidade pública, respaldadas nos direitos humanos, linguísticos e educacionais das pessoas surdas.

REFERÊNCIAS

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Notas

1 Universidade Federal de Campina Grande – UFCG – Campina Grande – Paraíba – Brasil – https://orcid.org/0000-0003-1289- 2002 – niedjaflima@gmail.com.
2 Universidade Federal de São Carlos – UFSCar – Sorocaba – São Paulo – Brasil – https://orcid.org/0000-0001-5097-459X
3 Em sua tese, Gianini (2012) identificou nos participantes da pesquisa a configuração de duas gerações: a geração dos herdeiros do oralismo, surdos que tiveram acesso tardio à Libras e que viveram uma educação referenciada no Oralismo; e a geração dos filhos do bilinguismo, os mais novos em idade, que tiveram acesso à Libras na infância e à escolaridade nos marcos do bilinguismo. Integrando essa geração, à época da pesquisa, estavam as docentes surdas Aline (20 anos) e Girlaine (22 anos).
4 Na Plataforma Brasil, o Parecer Consubstanciado da CEP/UFCG de número 4.974.289, com a aprovação da presente pesquisa, foi emitido em 14 de setembro de 2021.
5 Programa Nacional para a Certificação de Proficiência no Uso e Ensino da Língua Brasileira de Sinais – Libras.

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