Apresentação

Intercâmbios finisseculares: o português entre norma e tradução

Andrea Ragusa
Università di Parma, Itália
Alice Girotto
Università Ca’ Foscari Venezia, Portugal

Intercâmbios finisseculares: o português entre norma e tradução

Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 3, Esp., e103189, 2024

Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 06 July 2024

Revised document received: 01 September 2024

Accepted: 15 August 2024

Published: 01 September 2024

Na viragem do século XIX para o XX vive-se um momento de transformação que se revelaria fundamental para os desenvolvimentos posteriores, tanto em Portugal como no Brasil, na vida cultural e artística, bem como no âmbito da mudança linguística. No cenário europeu finissecular – ironicamente ilustrado, aliás, na memorável “Carta burlesca da Europa” de Rafael Bordalo Pinheiro publicada n’A Berlinda (Cotrim & Rego, 2005, pp. 28-31) – a pesquisa filológica, o interesse etnográfico e, antes de mais, a contaminação e a integração linguísticas, são sintomas abrangentes de um constante intercâmbio, marcando um momento áureo também na projeção, ou até na expansão, da cultura portuguesa (Brito, 2000). A tradução constitui o polo gravitacional de uma tendência centrífuga que é ao mesmo tempo uma força unificadora: a tradução como meio de aproximação à filosofia e à literatura em língua inglesa e alemã (Goethe, mas especialmente Hegel, Hartmann, Heine, Poe), através de uma língua veicular (normalmente o francês); a tradução como alvo de estudo teórico e objecto de análise crítica, mas também, e talvez principalmente, como processo capaz de imprimir um carácter novo e uma acção reconhecível, tanto na recepção como no desenvolvimento linguístico e na construção literária. Sobre esse aspecto há uma vislumbrante testemunha de Jaime Batalha Reis, no seu prefácio às Prosas bárbaras de Eça de Queirós:

Na forma literária, a acção reconhecível em Eça de Queirós é a da língua francesa. Foi por meio de muitas das formas da sintaxe desta, e quase se pode dizer, do seu vocabulário, que ele modelou uma como que nova língua portuguesa

(Queirós, 1912, p. 31).

Nos mesmos anos, uma figura altamente sensível aos intercâmbios linguísticos como Fialho de Almeida sublinhava a importância capital da contaminação linguística no enriquecimento e no desenvolvimento do português:

Uma coisa que muitos teem pensado, e poucos dito, é a seguinte: a antiga lingua portugueza é mais pobre do que se cuida. Tem quando muito, synonymos, mas pouquissimas qualidades que a tornem efficaz para exprimir um certo numero d’estados, paysagens e emoções, sem reccorrencia ás linguas parallelas

(Almeida, 1937, pp. 255-256)

Nova é também a maneira de olhar para a literatura em língua portuguesa por parte de escritores e filólogos (ou romanistas, como eram definidos) estrangeiros, alimentada por uma constante troca de cartas, livros, revistas, traduções e colaborações, que de certa forma vão circunscrever e equilibrar, dentro do possível, o domínio avassalador do modelo cultural francês, criando e ampliando uma rede intelectual que atravessa duas gerações. Notável foi o trabalho de alfabetização nas coisas portuguesas feito por lusófilos e tradutores como Edgar Prestage, Maxime Formont, Goran Björkmann, Wilhelm Storck, Emilio Teza ou Tommaso Cannizzaro, mas também o papel daqueles estudiosos estrangeiros que em Portugal viviam, como Carolina Michaëlis de Vasconcelos, e que por sua vez contribuíram para uma revisão em termos críticos dos estudos de filologia, linguística e literatura. Caso “singular”, lhe chamava Antero de Quental: “Hoje, são os estrangeiros que estudam e estimam a nossa antiga literatura: nós não” (Quental, 1931, pp. 53-54).

Com base nas ferramentas que a filologia fornece, e através da contribuição de vários estudiosos, a evolução da metodologia científica nos estudos da linguagem está intimamente relacionada com esses intercâmbios, determinando também a implementação dos estudos linguísticos, aquém e além do Atlântico. No mesmo período dá-se ainda uma crescente gramaticalização na língua portuguesa do Brasil, paralela às tentativas de realizar uma convenção ortográfica entre os dois países e que ocorre no contexto das diversas emigrações de europeus para o território brasileiro, que contribuem enormemente para a variação linguística.

Os 19 artigos reunidos neste número especial de Cadernos de Tradução, que pretendem dar conta dessas transformações a partir de diferentes ângulos, enquadram-se em eixos temáticos que abraçam os estudos de tradução e os estudos genéticos, a transcrição de correspondências e a linguística dos corpora, a reflexão metalinguística e a didática das línguas, a gramaticografia e a lexicografia. Na primeira, consistente secção, composta por oito artigos, o foco se concentra na tradução em diferentes vertentes – figuras de tradutores e as suas práticas, percursos editoriais de traduções que chegaram (ou não) a ser publicadas, panoramas históricos – e na apresentação de correspondências significativas do ponto de vista dos estudos de tradução e dos estudos genéticos. Em “Joseph Benoliel e a língua de Camões: translinguismo como prática literária e epistemológica”, Marta Pacheco Pinto retrata a figura do tradutor poliglota e lusófilo Joseph Benoliel, adotando a metodologia da micro-história aplicada aos estudos de tradução para mapear as práticas de translinguismo de Benoliel, em que a tradução desempenha um papel fundamental. Vanessa Castagna, no seu “Ana de Castro Osório e Luigi Motta: da mediação à tradução”, se ocupa da atividade no âmbito da tradução da ativista, escritora e editora Ana de Castro Osório, destacando especialmente a história editorial e as escolhas estilísticas relativas à versão portuguesa do romance de aventuras Il tunnel sottomarino do escritor italiano Luigi Motta. As relações entre Portugal e Itália do ponto de vista da tradução são o tema também do artigo “A literatura portuguesa na Itália na viragem do século XIX para o XX: um panorama dos autores, tradutores e editoras envolvidos” de Elisa Alberani, que mapeia a publicação de obras literárias portuguesas traduzidas para italiano entre 1880 e 1930 a partir dos conceitos de campo literário e polissistema, cruzando-os com a história da edição no contexto italiano. Em “A língua portuguesa no espólio de Tommaso Cannizzaro: ferramentas para a tradução”, Andrea Ragusa dá uma amostra das estratégias, dos instrumentos e dos meios que estão na base do processo tradutório de outro tradutor poliglota e lusófilo, Tommaso Cannizzaro, ressaltando as reflexões tradutológicas dele que emergem, em particular, na correspondência com Carlos de Lemos. Philipp Kampschroer, no seu “Lusofilia poliglota”, ocupa-se das correspondências de Wilhelm Storck com Isabel Burton, Richard Burton e o próprio Tommaso Cannizzaro, cuja apresentação das trocas epistolares do filólogo alemão com os dois lusófilos ingleses e com o tradutor siciliano visa realçar a importância do estudo das correspondências entre lusófilos europeus no final do século XIX como peça fundamental da história da receção da literatura portuguesa na Europa. Um específico caso de estudo dentro deste quadro é o objeto do artigo de Alice Girotto “Os correspondentes italianos de Joaquim de Araújo e a história duma tradução falhada”, em que a autora analisa a correspondência do bibliotecário Vittorio Baroncelli com Joaquim de Araújo e dá conta do esboço de tradução do romance As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis empreendido pelo primeiro. Em “Conversações filológico-literárias: a correspondência entre Ernesto Monaci e Teófilo Braga”, as cartas trocadas pelos dois académicos são interpretadas por Barbara Gori como um documento de interesse histórico-cultural pelas informações que oferecem sobre a evolução das disciplinas de que eram docentes, a redação das respetivas obras e a atividade científica deles – mas também linguístico, na senda da “grammatica epistolare” descrita pelo linguista Luca Serianni. Fecha esta primeira secção Enrico Martines com o seu “Uma língua em evolução: um património epistolar de particularidades morfológicas e ortográficas”, no qual a correspondência entre membros da família de Fernando Pessoa é posta debaixo da lupa do filólogo e permite proporcionar uma amostra significativa da flexibilidade da ortografia da língua portuguesa nos últimos vinte anos do século XIX.

Os três artigos da segunda secção colocam-se no cruzamento entre a linguística dos corpora e a gramaticografia. Em “Uso linguístico e reflexão metalinguística: o caso das frases clivadas na língua portuguesa”, Francesco Morleo examina um corpus de oito obras de Eça de Queirós para corroborar a tese de que, em finais do século XIX, as construções clivadas do tipo é que se encontravam presentes em textos literários como estratégias pragmático-discursivas nas interações dialógicas. Passando do contexto português ao brasileiro e, como âmbito de análise, da literatura às gramáticas, o artigo “A interjeição em gramáticas brasileiras do século XIX” de Carla Faria utiliza uma abordagem interpretativa para investigar o estatuto de classificação da interjeição num corpus de onze gramáticas brasileiras publicadas entre 1829 e 1897. Finalmente, Gian Luigi De Rosa analisa “O sujeito indeterminado em sentenças finitas do português brasileiro”, através de amostras de escrita padronizada, de escrita jornalística e de fala especializada, focando-se na passagem do século XIX ao século XX.

Na terceira secção, composta por três artigos, o interesse dos autores concentra-se na reflexão metalinguística, em particular à volta das relações entre identidade nacional e língua da nação no Brasil da segunda metade do século XIX. Em “Entre língua e identidade: o Cozinheiro Nacional brasileiro”, Maria Serena Felici examina os elementos textuais e paratextuais da obra anónima Cozinheiro Nacional, principalmente no que diz respeito ao léxico e à ortografia, como marco da independentização não apenas política, mas também cultural e linguística, do Brasil em relação a Portugal. Roberto Mulinacci, no seu “(Re)construindo uma história do futuro: a emergência do português brasileiro no debate cultural do Brasil do final do Oitocentos”, aprofunda esse tema debruçando-se sobre o debate linguístico-cultural finissecular que acompanhou tal processo de diferenciação, focando-se especialmente na obra O idioma do hodierno Portugal comparado com o do Brasil do filólogo José Jorge Paranhos da Silva. O binómio língua-identidade nacional e a defesa da variedade brasileira da língua portuguesa são dois dos temas abordados no artigo “A contribuição de José de Alencar, Machado de Assis e Eça de Queirós para uma teoria linguística na virada do século XIX” de Sonia Netto Salomão, tal como as noções de variação linguística e gramática de uso, na forma como todos esses surgem na produção dos três grandes autores.

Finalmente, os cinco artigos que compõem a quarta e última secção focam-se na didática das línguas, nas suas metodologias e nos seus recursos, desde a reflexão metalinguística e comparativa às obras de sistematização gramatical e lexicográficas. Em “Da pedagogia à linguística à crioulística: sobre a figura e a obra de Adolfo Coelho”, Simone Celani trata a figura do linguista Adolfo Coelho principalmente do ponto de vista dos seus estudos pioneiros de crioulística, sublinhando a coerência subjacente às suas atividades também noutros domínios, como a etnologia e a pedagogia. Maria Antonietta Rossi, em “O ensino empírico da língua portuguesa no fim do século XIX: a abordagem pragmática de Augusto Epifânio da Silva Dias”, menciona o próprio Coelho como inspirador da metodologia científica de cunho positivista que fundamenta a obra que é objeto da sua análise tanto qualitativa (percurso ecdótico, conteúdo e composição) como quantitativa (consideração das 14 edições da obra), ou seja, a Grammatica Portugueza Elementar de Augusto Epifânio da Silva Dias. De outro recurso didático se ocupa Matteo Migliorelli (“A Cartilha Normal Portuguésa de António Teixeira (1902): entre tradições, mudanças e intercâmbios”), onde descreve a cartilha de autoria do cónego cabo-verdiano António Teixeira inserindo-a no debate oitocentista sobre a alfabetização e evidenciando as inovações didático-pedagógicas do texto. Em “O português moderno, em italiano. Os dicionários de Raffaele Enrico Raqueni e Levindo Castro de La Fayette”, Monica Lupetti e João Paulo Silvestre apresentam a primeira análise completa dos dicionários português-italiano e italiano-português compilados e publicados a partir de 1899, e reimpressos várias vezes ao longo do século XX. Conclui esta edição especial de Cadernos de Tradução “I Manualetti di Ernesto Monaci e Francesco D’Ovidio”, em que Mariagrazia Russo reconhece a razão na base da publicação da gramática, antologia de textos e glossário da língua portuguesa de autoria de Monaci e D’Ovidio no desenvolvimento a nível académico dos estudos de filologia românica, demonstrando a inspiração metodológica histórico-comparativa do pequeno manual.

Referências

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Queirós, J. M. Eça de (1912). Prosas bárbaras. Lello & Irmão Editores.

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Notes

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Financiamento Não se aplica.
Consentimento de uso de imagem Não se aplica.
Aprovação de comitê de ética em pesquisa Não se aplica.
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