Artigo
Joseph Benoliel e a língua de Camões: translinguismo como prá- tica literária e epistemológica
Joseph Benoliel and the language of Camões: translingualism as a literary and epistemological practice
Joseph Benoliel e a língua de Camões: translinguismo como prá- tica literária e epistemológica
Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 3, Esp., e102032, 2024
Universidade Federal de Santa Catarina
Received: 06 July 2024
Revised document received: 10 September 2024
Accepted: 20 August 2024
Published: 01 September 2024
Funding
Funding source: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Contract number: PTDC/CPC-CMP/0398/2014
Funding statement: Parte da investigação que aqui se apresenta foi financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia entre 2016 e 2019 no âmbito do Projeto 3599 – Promover a Produção Científica, o Desenvolvimento Tecnológico e a Inovação – Não Co-financiada (PTDC/CPC-CMP/0398/2014).
Resumo: Joseph, ou José, Benoliel (1857–1937) foi um poeta, tradutor e orientalista natural de Tânger que se estabeleceu em Portugal por volta de 1881. Judeu de origem sefardita, distinguiu-se como hebraísta e arabista; escreveu em português, espanhol, francês e hebraico, traduziu de e para português e sociabilizou com a intelectualidade portuguesa de viragem do século, que serviu com as suas competências linguísticas. Neste ensaio, mapeiam-se as práticas de translinguismo (Kellman, 2020), tanto literário como académico-científico, deste migrante poliglota. Essas práticas incluem a criação autoral, diretamente em diferentes línguas, a tradução e também a consultoria, ou assessoria, linguística. Neste exercício de mapeamento, identificar-se-ão as redes de colaboração interpessoais e de diálogo intelectual construídas em e também a partir de Portugal, as quais potenciaram a consolidação do poliglota translingue.
Palavras-chave: Translinguismo, micro-história de tradutor, autoria, tradução, consultoria.
Abstract: Joseph, or José, Benoliel (1857–1937) was a poet, translator and orientalist from Tangier who settled in Portugal around 1881. A Jew of Sephardic origin, he distinguished himself as a Hebraist and an Arabist. He wrote in Portuguese, Spanish, French and Hebrew, translated from and into Portuguese, and he socialised with the Portuguese intelligentsia at the turn of the century, assisting them with his linguistic skills. This essay intends to map the translingual practices (Kellman, 2020), both literary and academic-scientific, of this polyglot migrant. These practices include authorial creation directly in different languages, translation, and linguistic consultancy. This mapping exercise will help identify Benoliel’s networks of interpersonal collaboration and intellectual dialogue built in and also from Portugal, which have promoted the consolidation of the translingual polyglot.
Keywords: Translingualism, micro-history of translator, authorship, translation, consultancy.
1. Introdução
Fenómenos literários como a escrita multilíngue ou a exofónica, a autotradução ou o translinguismo ganharam particular visibilidade como objetos de investigação desde as primeiras décadas do século XXI. É o fenómeno do translinguismo, conceito apurado por Steven Kellman (2000, 2020, 2022), que aqui se discute com base no estudo de caso do lusófilo Joseph, ou José, Benoliel (1857-1937). Poeta, tradutor e orientalista natural de Tânger, Benoliel estabeleceu-se em Portugal por volta de 1881 e, mais tarde, naturalizou-se português.
Enquanto forma distinta de multilinguismo, o translinguismo pode ser definido, de acordo com Kellman, que o discute de uma perspetiva estritamente literária, como uma prática de escrita em mais do que uma língua ou numa língua além daquela em que se é nativo: “[T]he practice of writing in more than one language or in a language other than one’s native tongue” (2020, p. viii). Esta noção pode ser estendida a outras modalidades de escrita, nomeadamente à ensaística ou ao texto académico-científico, quando produzidas em mais do que uma língua pelo mesmo autor. Deste ponto de vista, o translinguismo pode promover a pertença simultânea a sistemas epistémicos ou académicos distintos. Enquanto prática de escrita em mais do que uma língua, o translinguismo acolhe também a prática de tradução e, naturalmente, a de autotradução. Pressupõe, assim, um escritor que seja, pelo menos, bilíngue, e essa é uma condição que normalmente se associa a indivíduos oriundos de sociedades bi- ou multiculturais ou a sujeitos migrantes, como o foi Benoliel.
Kellman (2020) explora o conceito sobretudo a partir de micro-histórias de autores, tradutores e autotradutores. A micro-história, enquanto metodologia historiográfica introduzida nos anos de 1980 por Carlo Ginzburg, é entendida, no âmbito dos estudos de tradução, como uma abordagem focada, por um lado, na especificidade histórica e, por outro, na agência – individual ou coletiva – que seja considerada representativa de uma determinada prática ou fenómeno de tradução (Wakabayashi, 2018, p. 251). Ancora-se, portanto, em experiências e contributos individuais, ou colaborativos, que permitam endereçar questões ou temas mais abrangentes (p. 252), neste caso o translinguismo no Portugal finissecular e de viragem do século XIX para o século XX. É esta linha de investigação histórica que Jeremy Munday (2014) percorre quando apoia a produção de micro-histórias de tradutores no estudo dos seus arquivos, epistolário, entrevistas, testemunhos e outros materiais documentais (como, por exemplo, diários ou até contratos). É também esta a abordagem que se segue no presente estudo de tradutor (Chesterman, 2009).
Neste ensaio, pretende-se mapear as práticas de translinguismo de Benoliel fomentadas a partir de Portugal e entrosadas com a língua portuguesa, as quais são indissociáveis do seu trajeto profissional (biografia) e lhe permitiram sociabilizar com e além da intelectualidade portuguesa, ao mesmo tempo que expõem o poliglotismo que, como se verá, marca vários projetos editoriais no Portugal de fim de século. Para isso, procedeu-se ao levantamento dos trabalhos que Benoliel deixou publicados e, num segundo momento, organizaram-se em tipologias de escrita os materiais resultantes desse levantamento bibliográfico, os quais se descrevem para validar a categorização proposta e se comentam, quando relevante, a partir de trabalho de pesquisa arquivística. Concilia-se uma macro e micro-análise desses materiais, dividindo o estudo em quatro secções: na primeira, apresenta-se uma biografia sumária de Benoliel, que dá conta das suas redes de relacionamento interpessoal; as secções seguintes correspondem, respetivamente, a cada uma das práticas de translinguismo identificadas – Benoliel autor, Benoliel tradutor e Benoliel consultor linguístico.
2. Joseph Benoliel1
Judeu de origem sefardita e, portanto, descendente da diáspora judaica ibérica da primeira modernidade, Joseph Benoliel foi educado como membro da comunidade de judeus espanhóis radicados em Marrocos. O espanhol e o hebraico foram as línguas que aprendeu desde tenra idade, iniciando-se no árabe vulgar nas ruas de Marrocos. Fez a sua formação em França, na École normale israélite orientale, aprofundando os seus conhecimentos de língua francesa e estudando com afinco a Bíblia. Os seus interesses bíblicos encontraram natural respaldo na sua fluência em hebraico. Integrando, pouco depois, a rede de escolas da Aliança Israelita, Benoliel lecionou em vários pontos do Médio Oriente – Jafa (Israel) em 1876, Palestina, onde terá treinado as suas competências em árabe vulgar, regressando a Tânger e Mogador (atual Essaouira). Motivos de saúde – paludismo (Benoliel, 1961, p. 6) – levá-lo-iam, porém, a fixar-se em Lisboa, onde aprende a língua de Camões e consolida um percurso profissional assente na sua própria condição de émigré, ou seja, fazendo uso das suas competências linguísticas não apenas como capital linguístico-simbólico, mas como capital de facto através da sua vinculação ao ensino. É em Portugal que desenvolve a maior parte da sua atividade de escrita e constrói as suas redes de trabalho e de diálogo intelectual.
Decorrentes desta experiência migrante, as suas práticas de escrita evidenciam, como se verá de seguida, através da sua genealogia intelectual, a consolidação, por um lado, de uma identidade ibérica e, por outro, da sua prática filológica – que Luís Prista e Cristina Albino, no seu mapa dos filólogos portugueses finisseculares de 1868 a 1943, situam no âmbito dos estudos hebraicos (1996, p. 141-142)2.
Nos círculos intelectuais e académicos nacionais, Benoliel distinguiu-se não apenas como hebraísta, mas também como arabista. Terá começado por ensinar no Liceu Nacional de Lisboa árabe e hebraico, duas línguas semíticas que não gozavam de particular popularidade junto do governo português, pelo menos até à primeira década do século XX. Entre 1888 e 1891, Benoliel foi responsável, a título voluntário, pela criação de um curso livre de língua hebraica no então Curso Superior de Letras e, mais ou menos no mesmo período, da cadeira de Árabe Vulgar na Academia de Estudos Livres3. A Academia estava formalmente associada à Escola Industrial Marquês de Pombal, onde, por sua vez, Benoliel ensinava francês desde 1888. A 23 de maio de 1889, Benoliel naturaliza-se português4.
Terá sido no Curso Superior de Letras que Benoliel trava conhecimento com o linguista Gonçalves Viana (1840-1914), o sanscritista Guilherme de Vasconcelos Abreu (1842-1907) e o filólogo Francisco Adolfo Coelho (1847-1919). Muito provavelmente data também daí a origem do contacto com Teófilo Braga (1843-1924), ora não fosse Braga membro do conselho que autorizou a realização do curso livre de Hebraico naquela instituição (Silva, 2022). Ter-se-ão cruzado igualmente na Academia de Estudos Livres, espaço que acolhia “diversos cursos de linguas, sciencias e artes” dinamizados por “notaveis professores”, entre os quais, além de Benoliel, se contavam Teófilo Braga, Adolfo Coelho e o também sefardita e tradutor Salomão Saragga (1842-1900), membro do afamado grupo do Cenáculo (Pereira e Rodrigues, 1904, p. 38).
Parecem hoje inegáveis as ambições universitárias de Benoliel, que, porém, viu goradas. Na sequência da constituição da Faculdade de Letras em 1911, a qual sucedeu ao Curso Superior de Letras, e com a previsão de anexação dos cursos de Sânscrito, Hebreu e Árabe à Faculdade, solicitou Benoliel ao ministro dos Negócios Estrangeiros que este se dignasse atribuir-lhe, sem concurso, a cadeira de Hebraico na Faculdade de Letras de Lisboa (Benoliel, 1911). A carta data de 02 de agosto de 1911 e é seu destinatário Bernardino Machado, que desde 1890 presidia à Academia de Estudos Livres e para quem, portanto, Benoliel não era um desconhecido. Apenas a cadeira de Árabe veio a ser efetivamente criada e entretanto atribuída a David Lopes (1867-1942), que a assume em 1914. Anos antes, Benoliel teria seguido estratégia semelhante junto do bem posicionado arquiteto da Casa Real, Possidónio Narciso da Silva (1806-1896), ao tentar obter parecer favorável para o desempenho das funções de lente no Curso Superior de Letras, como se infere do conteúdo de uma missiva preservada no fundo Possidónio Narciso da Silva no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. Embora a carta não esteja datada nem assinada, pelas informações que nela se explicitam terá sido escrita entre 1892 e 1896; nela diz Benoliel ser
possuidor de varias linguas semiticas, arabe, hebraico, chaldaico e syriaco.
Leccionei o hebraico durante tres annos gratuitamente no Curso Superior de Lettras, y o Arabe na Academia de Estudos Livres. Publiquei a traducção em versos hebraicos do Episodio de Ines de Castro, dedicando esta obra á S. M. a Rainha D. Amelia; y a imitação em versos igualmente hebraicos das Fabulas arabes de Lokman, assim como varios outros trabalhos analogos em hebraico ou em arabe.
Em dezembro passado, foram creadas por Decreto duas cadeiras de linguas cafreas. Pedi então que uma das duas cadeiras fosse destinada áquellas linguas e a outra ás linguas semiticas, com especialidade, o Arabe que tão necessario é para os Portuguezes.
Não fui porém attendido ainda, e pelo que acabamos de falar, lembro-me que V. Ex.ª poderia muito contribuir para a realisação d’este meu favor ás Suas Magistades, cuja influencia me parece a unica para mover o João Franco a consentir na creação d’uma cadeira tão necessaria
(Benoliel, s.d.).Além de testemunhar as suas aspirações académicas, esta missiva vale igualmente como testemunho da sua fluência em língua portuguesa, com interferência muito pontual do espanhol (“y”). O dinamismo intelectual de Benoliel valeu-lhe, sim, a admissão como membro das principais instituições científicas nacionais da época, nomeadamente a Sociedade de Geografia de Lisboa (1894), o Instituto de Coimbra (1903) e a Sociedade Camoniana, esta criada em 1880 em homenagem ao poeta épico que Benoliel admirava. Também a sua colaboração próxima com a academia espanhola veio a traduzir-se na sua admissão como membro correspondente da Real Academia Española, o que acontece a 28 de fevereiro de 1907 (Muñoz Solla, 2021, p. 275). Notabiliza-se, a partir da primeira década do século XX, no estudo do dialeto judeu-espanhol de Marrocos, o chamado haquitia ou língua ladina, no qual é ainda hoje considerado uma autoridade.
Benoliel foi membro ativo da Comunidade Israelita de Lisboa, fundada a 04 de junho de 1911, de cuja direção fez parte entre 1912 e 1916. Pouco tempo depois, em 1921, após um ciclo de 40 anos a viver em Portugal, retorna à pátria marroquina e ali permanece até à morte, em 1937. Durante este período, terá sido cônsul de Portugal em al-Qasr al-Kabir; presidiu à Comunidade Judaica de Tânger e apoiou a criação do Seminário Rabínico em Marrocos.
Com base neste percurso, apura-se que, em matéria linguística, Benoliel fez uso do português, do espanhol, do francês, do hebraico e do árabe. O que a seguir se propõe é um exercício de mapeamento das suas práticas de translinguismo que podem, grosso modo, ser divididas em três categorias: a escrita autoral (original) em diversas línguas que são evidência inequívoca do seu poliglotismo; a tradução; e a consultoria ou assessoria linguística. Através destas práticas aprofundam-se as redes de colaboração interpessoais e de diálogo intelectual que Benoliel construiu e fomentou tanto em como a partir de Portugal, as quais potenciaram a consolidação do poliglota translingue. Desde logo se faz notar que as fronteiras entre estas atividades de escrita translingue são porosas, nem sempre sendo possível determinar onde começa e acaba cada uma.
3. Benoliel autor
Enquanto autor de obra própria, Benoliel sobressai pela sua poesia, que escreveu sobretudo em português, mas também em francês, hebraico e espanhol, sem descurar a sua prática pedagógica, ensaística e investigativa disseminada nas línguas europeias que dominava.
Tanto Pretidão de amor (1893-1895) como Echos da solidão (1897) constituem florilégios de homenagem a três temas que foram centrais na obra literária e intelectual de Benoliel, a saber – a Bíblia, Os Lusíadas e a poesia árabe. Benoliel participa em Pretidão de amor como poeta e também tradutor; a obra é fruto da iniciativa de Xavier da Cunha (1840-1920), então segundo conservador da Biblioteca Nacional, com quem Benoliel cimenta profunda amizade e colabora em diversos projetos literários. O seu poema de homenagem ao bardo nacional, uma parábola a Bárbara escrava sob o título jocoso “A barba rapada”, é, neste florilégio, enriquecido com traduções de sua autoria do poema camoniano para francês, espanhol e hebraico, sobre as quais me deterei na próxima secção deste ensaio. Já a sua recolha poética Echos da solidão (Benoliel, 1897c), produzida em memória de João de Deus5, celebra tanto este poeta como dois heróis da epopeia nacional, de novo Camões, incluindo, na secção que lhe consagra, o poema novo e sério “A Barbara-Captiva” (1897c, p. 51), dedicado a Xavier da Cunha, e Vasco da Gama.
Em vésperas de comemoração do quarto centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia, uma resenha pela redação da revista O Occidente acolhe favoravelmente o último livro, de que se oferece, para leitura, as três primeiras partes do poemeto “Vasco da Gama” (1898a, p. 30-31), que é consagrado ao conselheiro Luciano Cordeiro (1844-1900) e faz a apologia saudosa do Portugal de Quinhentos. Echos da solidão é descrito, na resenha, como uma “luxuosa edição” patrocinada pelo “benemerito e illustre camoeanista sr. Dr. Carvalho Monteiro” (1848-1920) e faz-se notar, no poemeto, “em alguns dos seus passos um estranho sabor, em ressaibo de cantiga de cancioneiro, como de melopedica xacara; de um notavel vigor epico como n’outros passos” ([O Ocidente], 1898, p. 32). A referência ao cancioneiro não deixa de relembrar o romance peninsular que o próprio Benoliel revisitaria no início do século XX, como adiante se verá. O poemeto (completo) tem publicação avulsa em 1898, sendo precedido de “Preludios”, em seis estrofes, por Xavier da Cunha. O português predomina como língua de composição das poesias de Echos da solidão, a que se juntam, porém, uma composição em francês e outra em espanhol. As duas secções finais, “Traducções biblicas” e “Traducções de poesias arabes”, contêm respetivamente traduções em português do hebraico e do árabe. As traduções dos provérbios de Salomão são singularizadas na resenha d’O Occidente como possuindo “inestimavel valor pelo seu conceito tão delicadamente traduzido” (p. 32).
Estas escolhas tanto temáticas como de género por parte de Benoliel confirmam-no como membro da comunidade literária nacional, cultivando o português como língua de criação literária. Enquanto professor de línguas foi ao ensino da língua francesa que Benoliel dedicou mais anos da sua vida, num país já de si fortemente influenciado pelo “modelo cultural francês” (Ragusa, 2022, p. 147). O primeiro trabalho que publica em território luso, em edição de autor de 1886, é uma gramática monolíngue de francês. Dedica-a a S.-H. Goldschmidt, presidente da Alliance israélite universelle entre 1881 [O Ocidente] 1898. Uma década mais tarde, e em conformidade com a fluência entretanto adquirida em português, Benoliel produz materiais pedagógicos bilíngues direcionados especificamente para estudantes portugueses que estivessem a aprender aquela língua, em clara sintonia com o magistério que exercia na Escola Industrial Marquês de Pombal (Benoliel, 1898b, 1898c6).
Escreveu ensaios celebrativos da épica camoniana, como “Pretidão de amor” (1897d), em que partilha a sua leitura do poema “Endechas a Bárbara escrava”, ou Episodio do Gigante Adamastor – Estudo critico (1898d). Neste testemunho, Benoliel cruza três fontes que, a seu ver, teriam estado na origem do episódio de Adamastor, nomeadamente a fonte bíblica, a mitologia grega e um conto árabe, o “Conto do pescador”, proveniente das Mil e uma noites. A validade científica deste estudo é posta em causa por K. David Jackson (2018):
Para o leitor de hoje [século XXI], o valor do ensaio de Benoliel resta na tentativa de incluir o Camões num texto de world literature, atestando a uma maior circulação de temas e motivos entre as literaturas. Mas a comparação, embora original, é fraca e sem fundamentos, longe do levantamento do renascentista David Quint, no estudo “Voices of Resistance: The Epic Curse and Camoes’ Adamastor” (1989).
[...] [Vale] o desejo de fazer do Camões, celebrado “porta-voz da civilização”, um veículo do saber do Oriente e, como [Benoliel], mais um viajante e investigador orientalista.
O ensaio é claramente de elogio a Camões, seguindo uma série de expedientes retóricos e discursivos literarizantes e, portanto, distantes de um paradigma de escrita mais científica. O culto de Camões, que marca parte significativa da obra de Benoliel, mostra-o contagiado por uma narrativa sobre a identidade cultural portuguesa construída em torno da aventura marítima, a qual, como relembra Alexandre Valentim, foi “momento fundador da missão de Portugal no mundo” (2006, para. 33). Participa assim num programa comemorativo de um Portugal que, em fim de século, lida com a constatação não apenas do fim do império sonhado, mas também da sua situação de país atrasado no âmbito da modernidade europeia. O seu contágio pelo amor pátrio não pode deixar de ser equacionado à luz de um hipotético sentimento de gratidão pela comunidade que o acolheu. Além do clássico camoniano, o poeta intelectual dissertou sobre a Bíblia (Benoliel, 1897a, 1897b) e escreveu poesia, em francês, de explícita inspiração bíblica (Benoliel, 1918).
Desenvolveu aturado trabalho filológico no âmbito do haquitia, uma língua de base lexical espanhola, que mescla as línguas hebraica e árabe e surge em Marrocos por via dos judeus expulsos da Península Ibérica no século XV. Este seu interesse dialetal decorre da colaboração que inicia por volta de 1904 com o filólogo e historiador espanhol Ramón Menéndez Pidal (1869-1968), que tinha então em curso o seu ambicioso projeto de constituição de um romanceiro hispânico, de que a tradição judio-espanhola é componente importante. Benoliel terá intermediado o contacto de Menéndez Pidal com várias comunidades sefarditas tanto em Tânger como em Lisboa, e ambos mantiveram intensa troca epistolar entre 1904 e 1913 (Armistead, 1977-1978, p. 31-32). Disponível no Archivo Menéndez Pidal, em Madrid, esse romanceiro teve um período de recolha documental de aproximadamente 60 anos – entre 1896 e 1957 (p. 34) – e daí resultou a criação de um corpus de cerca de 2.150 textos, o qual é considerado a coleção “mais rica” e “mais copiosa” de poesia tradicional espanhola de origem sefardita (Armistead, 1977, p. 205; tradução minha). Benoliel terá contribuído com cerca de 150 textos de tradição oral7, uns obtidos diretamente através de trabalho de campo em Tânger, outros através da sua memória oral e de informantes que com ele se correspondiam. Remetia esses textos por carta de Lisboa para Madrid, fazendo-os acompanhar da anotação de variantes e complementando-os com traduções, observações e correções suas (Catalán, 2010). Benoliel viabilizou assim a publicação do Catálogo del romancero judío-español em 1906-19078. Esta colaboração profícua com a academia espanhola valeu-lhe a recuperação da sua identidade espanhola, ao ser epitetado como “israelita espanhol domiciliado em Lisboa” (Fernández Pulido, 1905, p. 53; tradução minha).
Os primeiros materiais resultantes da recolha de Benoliel estiveram na origem do artigo que preparou juntamente com Menéndez Pidal logo em 1905, “Endecha de los judíos españoles de Tánger”9. Neste artigo, o reputado filólogo espanhol atesta a credibilidade de Benoliel como grande conhecedor da poesia tradicional judio-tangerina, dado que a “conhece melhor do que ninguém” (1905, p. 129; tradução minha). Foi sob o impulso de Menéndez Pidal que Benoliel aprofundou o estudo do dialeto haquitia (Fernández Martín, 2020, p. 33), sendo creditado como o autor da primeira e da mais completa descrição formal desta língua (Vicente, 2011, p. 64). Descreveu-a do ponto de vista fonológico, morfológico, gramatical e lexical, constituindo inclusive um glossário com cerca de 4.500 entradas, com tradução ou explicação em espanhol (Benoliel, 1977; Fernández Martin, 2020, p. 35). A memória lexical portuguesa não está, porém, completamente ausente do seu estudo de índole comparativa, até porque, como relembra Telmo Verdelho, o “convívio interlinguístico do português e do hebraico, durante a Idade Média, foi certamente importante” (2008, p. 35). Benoliel argumenta, a partir de exemplos extraídos tanto de Cervantes como de Gil Vicente (nomeadamente Farsa de Inês Pereira e Diálogo sobre a ressurreição), que a língua ladina já estaria em uso pelas comunidades judaicas espanhola e portuguesa antes de terem sido expulsas da Península (1928, p. 210).
Aquando da publicação destes trabalhos mais robustos em torno do haquitia, Benoliel estava de volta a Tânger e mais comprometido com o revivalismo da cultura judaica e com a dinamização da comunidade sefardita.
De acordo com Gladys Pimienta (2008), Benoliel terá deixado por publicar poemas, contos infantis e peças de teatro, escritos em espanhol e em francês, tais como Cuentos arabes (em verso, tanto em espanhol como em francês), Un astrologo, Las Aventuras de Joselito, Juegos florales en Casablanca, Les Touristes à Tanger ou Harimu Mighdol, uma comédia em versos hebraicos. Embora Pimienta não localize estes manuscritos, é plausível supor que constem de uma das 38 caixas, ainda por catalogar, preservadas na biblioteca da Universidade da Califórnia10.
4. Benoliel tradutor
A atividade de tradução surge como uma extensão das práticas de escrita poética e académica de Benoliel, ao cultivar o português como língua que seria também a sua e que vincula, como se viu, a uma memória literária do Portugal mitificado por Camões.
Antes, porém, de se aventurar pela língua de Camões como língua de tradução, Benoliel, já estabelecido em Lisboa, terá publicado em 1887, através da Typographia Luso-Hespanhola, doze números de uma série aparentemente maior de traduções espanholas de textos religiosos judaicos sob o título de Porat Ioseph:
Porat Ioseph. Pequeño compendio conteniendo el tratado de las maximas de Aboth; la Agada de Pessah; seguida del Hallel y Bircat Mazon; el Cantico de los Canticos, y las Haphtaroth Bahet Hahi, Hod Hayom, y Asoph Asiphem, y en fin, Ruth, Ejah y Esther
(Loeb, 1888, p. 299)11.Em 1892, por conta da realização prevista para Lisboa do 10.º Congresso Internacional de Orientalistas, o qual veio a ser desconvocado de véspera, Benoliel prepara cinco trabalhos para apresentação nesse ambiente científico, dos quais se conhecem apenas dois, porque estão publicados. Do espólio de Luciano Cordeiro, secretário perpétuo da Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL), consta uma nota não assinada, mas, pela caligrafia e pelo conteúdo, muito provavelmente escrita pelo próprio Benoliel, em que se listam os trabalhos “Hebraicos e arabes” previstos para esse congresso, a saber:
1.º Fabulario de Lokmán – Vol. contendo o texto arabe, com uma traducção em portuguez, e outras em versos hebraicos, e fechado por um diccionario de perto de 1500 significados de que consta o texto hebraico. Este é todo vocalisado e accompanhado de notas e referencias aos passos biblicos aproveitados para a versão.
2.º Episodio de Ignes de Castro – 16 estrophes dos Lusiadas traduzidas em versos hebraicos.
3.º Estudo sobre a funcção semiologica do digramma נל na lingua hebraica.
4.º Projecto de translitteração por meio de caracteres tirados dos elementos graphicos do alphabeto usual para servirem de signaes convencionaes na transcripção das linguas semiticas, mormente o hebraico e o arabe.
5.º Edrisi – Traducção para portuguez de parte da Geographia de Edrisi que se refere a Portugal. Este trabalho deve ser accompanhado de notas historicas & linguisticas, por alguns sabios amigos meus12.
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A primeira d’estas 5 obras está pronta para entrar no prelo. As outras 4 estão egualmente concluidas; porém precisam de ser copiadas & retocadas. A 2.ª & 5.ª poderam ser entregues dentro em uma semana, a 3.ª & 4.ª duas semanas depois
(Benoliel, 1892a)13.Deste elenco, apenas os dois primeiros trabalhos foram dados à estampa, e ambas as traduções denunciam uma forte influência bíblica:
(a) Inês de Castro. Épisode des Lusiades. Traduction en vers hébreux revue par Mr. Le Grand-Rabbin L. Wogue (1892b), com prefácio de Luciano Cordeiro. É a primeira tradução de um qualquer fragmento do épico para hebraico e é dedicada à rainha D. Amélia, a quem Benoliel oferece o soneto “Madame”, de sua autoria, em francês. No prefácio, Cordeiro legitima a tradução em versos hebraicos das 16 estâncias do Canto III (CXX-CXXXV) que eternizam a história de Inês de Castro, ao inscrever Benoliel, então ainda pouco conhecido, na comunidade orientalista portuguesa, referindo-se-lhe como “um dos nossos compatriotas” (1892, p. V; tradução minha). A edição é bilíngue e observa simbolicamente a direção de leitura de chegada, da direita para a esquerda, ao dispor, primeiro, a estância traduzida em hebraico seguida dos respetivos versos camonianos. O paratexto está em francês, a principal língua de comunicação do congresso a que a publicação se destinava.
(b) Fábulas de Loqmán: vertidas em portuguez e paraphraseadas em versos hebraicos viriam a lume mais tarde, em 1898, enquanto parte das contribuições da SGL para a comemoração do quarto centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, mas sem incluir, ao contrário do que se noticia na nota atrás transcrita, qualquer espécie de dicionário. A paráfrase hebraica foi revista, tal como a tradução anterior, pelo “mestre e amigo, o Grão-Rabbino e eminente sabio Lazaro Wogue”, que Benoliel conheceu em Paris e terá sido seu professor de língua e literatura hebraicas (Benoliel, 1961, p. 6). Nessa paráfrase, diz Benoliel seguir o intertexto bíblico do Antigo Testamento: “[N]ão só me abstive [...] do que é costume chamar-se licenças poéticas, mas [...], sobretudo, evitei com cuidado o estylo post-biblico” (Benoliel, 1898h, p. XI). O leitor português desconhecedor de hebraico confirma tal intertexto através das copiosas remissões para o texto bíblico que acompanham a paráfrase. Também a tradução do episódio de Inês de Castro inclui uma secção de Notas (Benoliel, 1892b, p. 19-24) que a mostram refém desse intertexto bíblico14. Esta estratégia domesticante não corresponde, de todo, a experimentação estética, mas antes à preservação da identidade hebraica enraizada na narrativa bíblica.
A versão portuguesa das fábulas, que se diz resultar de uma abordagem literal, “o mais possivel á lettra do texto”, foi revista pelo “illustre polyglotta e meu excellente amigo, sr. Gonçalves Viana” (p. VIII). As fábulas seriam usadas no ensino da língua árabe e tal projeto tradutório pode advir da própria atividade docente de Benoliel. Não há, contudo, registo de intercâmbios que tenha mantido com arabistas encartados e o projeto teve fraca repercussão junto da crítica.
Em apêndice ao fabulário, reúnem-se vários poemas em hebraico do Benoliel poeta – um elogio a Lazare Wogue, o poema “Naufragio” ao irmão Salomão Benoliel e três composições em homenagem a dois judeus açorianos, a saber: uma memória ao ilustre desconhecido David Cohen – formado, porém, em Árabe vulgar e clássico pela École spéciale des langues orientales de Paris (Silva, 2022) – e dois epitáfios, de David Cohen e do escritor Arão Cohen (1850-1896). O hebraico destaca-se, nesta moldura poética, como a língua de consanguinidade e de pertença à comunidade judaica. Nesse apêndice republicam-se ainda a versão hebraica do poema “Zara” – dada originalmente à estampa em 1894 numa “antologia de versões” homónima em homenagem a Antero de Quental (Benoliel, 1894, p. 28 e p. 78) – e a versão hebraica de “Endechas de Luiz de Camões a Bárbara escrava”, dedicada, sem novidade, ao “dilecto amigo” e também “mestre” Dr. Xavier da Cunha.
Os restantes projetos linguísticos previstos para publicação na sequência do Congresso Orientalista de 1892 não terão chegado a dar à estampa, ainda que estivessem aparentemente prontos para impressão, e o seu paradeiro é desconhecido.
No âmbito das contribuições para o quarto centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia, a SGL fez também imprimir Lyricas de Luiz de Camões com traducções francezas e castelhanas da lavra de Benoliel (1898g) e prefaciadas por Xavier da Cunha. Esta obra é singular por alguns poemas estarem intercalados com as respetivas traduções, como se se tratasse de traduções página a página. Xavier da Cunha enaltece o projeto de Benoliel como homenagem “ás lettras do seu paiz adoptivo[,] um serviço relevantissimo, e tanto mais relevante quanto é certo que rarissimas vezes tem o verso francez logrado reproduzir alguma d’aquellas suaves composições” (1898, p. 8). Por um lado, acusa a carência de traduções francesas da lírica camoniana e, por outro, sublinha o serviço patriótico de Benoliel.
Sob a iniciativa de Xavier da Cunha contam-se outras traduções da autoria de Benoliel, também do português para espanhol e francês, na já referida Pretidão de amor. Endechas de Camões a Barbara escrava, seguidas da respectiva traducção em varias linguas (1893-1895) e, por ocasião daquele centenário, em A epopéa das navegações portuguezas (1898f). Esta coleção é, em relação à primeira, bem mais modesta em termos de extensão, reunindo traduções de um poema em seis estrofes de Xavier da Cunha para italiano por Prospero Peragallo, espanhol por D. José Lamarque de Novoa e tanto para francês como para espanhol por Benoliel (1898f, p. 21-23, p. 25-27). Estes projetos antológicos demonstram exemplarmente o que Andrea Ragusa descreve como “experiências coletivas” que dão conta do poliglotismo do Portugal finissecular (2022, p. 148).
A primeira coleção, orquestrada por Xavier da Cunha, é por ele descrita como “polyglottico ramalhete” (1893, p. 276). É uma obra monumental, ao incluir 117 traduções do poema de Camões à cativa Bárbara, tanto para línguas vernáculas como para dialetos e crioulos, sobretudo da Europa. As traduções assinadas por Benoliel são para castelhano (1893b, p. 319-322), francês (p. 423-426)15 e hebraico (p. 731-735), e para cada uma destas línguas há mais versões de diferente autoria. No caso do hebraico, a outra versão foi solicitada a Lazarus Goldschmidt (1871-1950), que entretinha ligações com o orientalista português Francisco Maria Esteves Pereira (1854-1924). Tanto assim era que, pela correspondência conservada no Arquivo de Xavier da Cunha, se percebe ter sido Esteves Pereira a facilitar o contacto entre Xavier da Cunha e aquele tradutor16. Numa carta ao mentor da publicação, de 11 de novembro de 1893, Goldschmidt17 pergunta-lhe se a língua hebraica é cultivada em Portugal. Porventura em resposta, Xavier da Cunha terá com ele partilhado a versão hebraica de Benoliel, sobre a qual Goldschmidt se pronuncia nos seguintes termos:
Ácêrca da traducção do Senhor José de Bénoliel, ha muito que reparar: a sua linguagem não é corrente nem assaz clara; com isto pretendo atacar o conhecimento que elle tem da lingua; mui provavelmente procurou elle de caso pensado expressões exclusivamente biblicas, que não bastam para traducções de <linguagem>[↑uma lingua] moderna.
(carta 6, 19 dezembro 1893; sublinhado do original)Se, por um lado, o ataque de Goldschmidt se coaduna com o perfil diaspórico de Benoliel, cuja língua materna se teria cristalizado em proximidade ao texto bíblico, por outro identifica a mesma estratégia que Benoliel assume na sua tradução do episódio de Inês de Castro, apreciando-a, todavia, como insuficiente – ou, mais precisamente, desadequada – num quadro de construção do hebraico como língua moderna. De acordo com os manuscritos preservados no Arquivo, a tradução de Goldschmidt teve três provas. A primeira foi emendada por Francisco Maria Esteves Pereira, a 14 de agosto de 1893; houve nova revisão, sem data, por Arão Cohen; e a revisão de setembro de 1894 contém “Emendas feitas pelo Prof. J. Bénoliel”, as quais constam da versão final (impressa). É, sem dúvida, evidente a confiança que Xavier da Cunha deposita em Benoliel e nas suas competências linguísticas.
Um poeta amigo comum de ambos vem também a beneficiar dos préstimos tradutórios de Benoliel num florilégio de 1907, em que participam alguns dos tradutores que recorrentemente colaboram com Xavier da Cunha. Trata-se, desta feita, de Poesias de Ramos Coelho: vertidas em italiano, hespanhol, sueco, allemão e francês, pelos Srs. Thomas Cannizzaro, Prospero Peragallo, Solon Ambrosóli, Luis Brignòli, José Benoliel, Lamarque de Novoa, Göran Björkman, Guilherme Storck, Achilles Millien, e Henrique Faure. Estas traduções foram posteriormente reunidas na coletânea de poesias completas, de 1910, que inclui dez versões em espanhol de poemas de Ramos-Coelho pelo “sr. José Bénoliel”, a saber: “Perfume que pasa” (p. 172); “Ciego” (p. 180-181); “Sin perfume” (p. 196); “Eterna” (p. 205-207); “Uno para outro” (p. 223-224); “Las golondrinas” (p. 227-228); “Amargura” (p. 264); “Meteoro” (p. 269); “Hogar y tumulo” (p. 283-286); “Cantares” (p. 371). No poema tributo de Ramos-Coelho “Aos meus traductores” (de Vespertinas, 1904), leem-se os seguintes versos de elogio a Benoliel: “Bénoliel, ó bardo, ó polyglotta,/Que com graça profusa/Fizeste que meus hymnos perfilhasse/A castelhana musa” (Ramos-Coelho, 1910, p. 373). O poeta português não apenas singulariza o poliglotismo de Benoliel como também o perfila como mediador privilegiado entre Portugal e Espanha. Não será despiciendo relembrar, neste ponto, as razões avançadas para a admissão de Benoliel como membro correspondente da Real Academia Española. Na proposta submetida para apreciação18, de que Menéndez Pidal foi um dos proponentes, distingue-se a obra de Benoliel em português e em castelhano, mencionando-se a sua autoria de Echos da solidão, do poemeto sobre Vasco da Gama e do estudo crítico sobre o episódio de Adamastor, bem como o seu trabalho enquanto tradutor para português de fábulas árabes e para espanhol, quer da lírica quer da épica camonianas e de poemas de autores portugueses modernos. Eleva-se, portanto, o trabalho deste sefardita na aproximação entre línguas e literaturas ibéricas, em detrimento de qualquer referência à sua ligação profissional ou afetiva ao hebraico ou ao dialeto haquitia.
Em geral, Benoliel explorou a língua portuguesa como língua tanto de partida como de chegada, e as suas ligações ao universo da tradução literária operam-se por meio de sociabilidades intelectuais e relações de amizade. Traduziu do português para francês, hebraico e espanhol; do hebraico e do árabe para português; e traduziu entre estas línguas semíticas, nomeadamente do árabe para hebraico. Por um lado, as suas versões hebraicas são investidas de uma memória bíblica que prestigia o hebraico como língua divina, mítica ou primordial, pela qual se engrandece, por conseguinte, o texto de partida. Por outro lado, as traduções de línguas semíticas para português, seguindo aparentemente um paradigma de maior literalidade, dotaram o sistema literário e cultural nacional de novidade oriental, enriquecendo-o. Parece ter traduzido por prazer e como estratégia de aproximação às tradições literárias associadas às línguas em que foi proficiente; mais significativo é o facto de a prática tradutória lhe ter assegurado a manutenção de uma ligação umbilical às suas línguas de origem. Privilegiou formas breves para tradução (poesia e fábulas) bem como edições bi- ou multilíngues, expondo assim o seu trabalho ao escrutínio alheio. Não menos importante, vários testemunhos19 dão também conta da sua atividade como intérprete. Numa carta de 19 de junho de 1891, dirigida a Bernardino Machado, Benoliel (1891) menciona a sua presença “no 2.º Conselho de Guerra a servir de interprete d’um reu arabe”.
O registo de publicações mostra que Benoliel esteve visivelmente mais ativo como tradutor entre 1887 [O Ocidente] 1898. A partir da viragem de século, o trabalho ensaístico parece sobrepor-se ao de tradução, sem, porém, a abandonar. Esta assume também outros moldes, nomeadamente os de consultoria.
5. Benoliel consultor ou assessor linguístico
No âmbito das teorias de ação tradutória, o ofício de um tradutor não se limita ao ato de traduzir – ou seja, nem sempre envolve ações diretamente ligadas a um texto de partida, podendo englobar outras atividades de mediação, tais como trabalho terminológico ou de consultoria (Pym, 2010, p. 51). Com efeito, as competências linguísticas de Benoliel foram sendo aproveitadas não apenas por literatos, mas também por filólogos e estudiosos ibéricos. Neste sentido, destacam-se dois papéis na qualidade de consultor ou assessor linguístico, os quais testemunhámos também aquando da sua colaboração com Menéndez Pidal: enquanto (1) lexicógrafo e enquanto (2) tradutor ad hoc, que auxiliou outros intelectuais com projetos de investigação que envolviam a língua hebraica. Nesta última categoria, a tradução não é tanto um fim em si mesmo, mas antes um instrumento de trabalho ou meio para um estudo maior.
Na primeira categoria, destaco o papel desempenhado por Benoliel na investigação de 1906 de Gonçalves Viana, Apostilas aos dicionarios portuguezes. Benoliel parece retribuir a Viana os vários préstimos que este lhe votara, auxiliando-o em exercícios de determinação da origem etimológica de alguns vocábulos para estas Apostilas. Significativos são os termos em que Viana se apoia para construir a autoridade de Benoliel: é, primeiro, apresentado como arabista, depois como “conhecido prosador e poeta, português, castelhano e francês José Benoliel, natural de Tánjere” e, por fim, como “conhecido poeta e escritor” (Viana, 1906, p. 93 e p. 463), que lhe forneceu uma palavra inédita em português como proposta de tradução do “vocábulo inglês travet” (p. 463) – talharola, palavra hoje dicionarizada. Num testemunho anterior, Viana (1892, p. 152 n.1) refere-se-lhe como “erudito hebraista”, “um primoroso caligrafo, tanto na letra hebraica, cuadrada ou cursiva, como na arábica e na usual romana”, “um poeta esmerado em francês e um vigoroso prosador na lingua da sua patria adoptiva, a portuguesa”. Esta exaltação do sentimento patriótico português de Benoliel coaduna-se com os demais elogios que lhe tecem, atrás exemplificados, sobrepondo-se às outras identidades culturais, étnicas ou linguísticas que conciliava em si.
Entre 1906 e 1908, o também hebraísta Joaquim Mendes dos Remédios (1867-1932), da Universidade de Coimbra, contou com a assistência de Benoliel na sua edição diplomática de Consolaçam ás tribulaçoens de Israel, de Samuel Usque, reproduzindo, nas Notas, “algumas interessantes communicações” havidas com Benoliel (Remédios, 1908, p. 3). Nessas Notas, dá conta da hipótese avançada por Benoliel de que a Consolaçam possa ter servido como fonte d’Os Lusíadas, obra daquele que Benoliel patrioticamente designa como “nosso divino Camões [...] nosso Epico” (Remédios, 1908, p. 5).
O etiopista autodidata Francisco Maria Esteves Pereira destaca-o como “distincto hebraista portuguez”, simultaneamente “[e]rudito polyglotta e talentoso poeta” (1894, p. 22). Recorreu aos préstimos filológicos de Benoliel na sua “tentativa de interpretação das palavras e frases hebraicas contidas nas trovas” do poeta do Cancioneiro Geral Luís Anriques “a hua moça”, por Benoliel ser “Judeu originário de Marrocos, [que] conhece não só a língua antiga dos hebreus, mas tambêm a linguagem familiar judeu-arabico-ladina” (1913, p. 212). As notas que acompanham a transcrição das trovas incluem leituras interrogadas, a citação parentética do nome de Benoliel como fonte fidedigna de informação – “(Benoliel)” – e a identificação de hipóteses por ele avançadas sob a fórmula reiterada “Benoliel conjectura”.
Na segunda categoria, a de tradutor ad hoc, faço notar a colaboração com Teófilo Braga e a romanista alemã Carolina Michäelis de Vasconcelos (1851-1925). Braga contou com a ação tradutória de Benoliel para a sua Versão hebraica do Amadis de Gaula (1915). Numa carta de 10 de março de 1914, Benoliel menciona uma versão hebraica de duas páginas daquele romance peninsular que “[diz Benoliel] já decifrei, transcrevi e traduzi segundo o desejo de V. Ex.ª”. No livro, este trabalho é descrito, com maior rigor, como “retroversão hebraica para portuguez” da cópia da tradução hebraica patente no Museu Britânico e é atribuído ao “professor Benoliel” (1915, p. 17). Já Michaëlis agradece-lhe a “rara bondade”, “o saber especial” e os “serviços gentilmente prestados” no seu estudo de 1922 sobre um pensador judeu de Setecentos, Uriel da Costa; evoca-o como “hebraìzante português” (Vasconcelos, 1922, p. 44), que lhe traduziu, logo em 1909, um conjunto de documentos epistolares para esse estudo (p. 101-104). Na Revista Lusitana iguala-o a David Lopes na qualidade de “arabistas mil vezes mais peritos do que eu” (1915, p. 2).
A reputação hebraísta de Benoliel não se cingiu, porém, aos círculos literários e académicos; também a imprensa portuguesa dele se serviu como mediador em assuntos de natureza religiosa (judaica) para esclarecer a opinião pública. Por exemplo, na edição da noite d’O Século, de 28 de maio de 1915, Benoliel é atestado como “professor muito ilustrado e distinto e, sobretudo, judeu profundamente sincero, em quem a causa da sua religião conta um dos mais ardentes e devotados paladinos”20. Com efeito, em função das necessidades, Benoliel seria simultaneamente português e espanhol, português, judeu, hebraísta e arabista, um judeu espanhol estabelecido em Lisboa ou um judeu de Marrocos.
Não será despiciendo completar este périplo pelo translinguismo de Benoliel reconhecendo-lhe um outro contributo mais tecnológico: a suposta criação de uma máquina de escrever para uso de invisuais – Machina Bénoliel. De acordo com a descrição dada do aparelho para fins de patenteamento, a máquina permitiria “escrever em relevo [...] simultaneamente o alphabeto vulgar, maisculas e minusculas, letras accentuadas, signaes de pontuação e de arithmetica, alphabeto grego, hebraico, etc.”21. Enquanto tecnologia de comunicação contendo várias linguagens e alfabetos para invisuais, não deixa de ser fruto das competências poliglotas de Benoliel. Não se conhecem, porém, resultados desta invenção.
6. Considerações Finais
Joseph, ou José, Benoliel é hoje um homem das sombras, como, de resto, tendem a ser os que estão entre lugares, sejam eles migrantes, tradutores ou mediadores interculturais lato sensu. Da micro-história traçada e dos diálogos estabelecidos, podemos delinear sobretudo três fases de atividade para Benoliel que se seguem à fase de formação em Paris, ou fase francesa:
Benoliel parece ter sido mais lusófilo, orientalista (hebraísta e arabista) e hispanófilo em Portugal, mas mais judeu (praticante) em Marrocos, na fase final da vida. O seu percurso, desde Tânger, não deixa de ser um de reaproximação, primeiro, às origens sefarditas (ibéricas) por via da herança hebraica e da memória bíblica e, depois, em espécie de fecho de ciclo, de regresso ao lar marroquino. Destaca-se pela sua abordagem filológica comparada que ganhou forma e se consolidou através das suas práticas de translinguismo. Viu-se, no seu tempo, reconhecido pelos seus pares ibéricos como um poeta, tradutor e académico poliglota; contribuiu para o aprofundamento da relação histórica entre judeus e a Península Ibérica, entre o hebraico e as línguas ibéricas; divulgou a literatura portuguesa ao traduzi-la; cultivou o hebraico como língua clássica e com potencial literário; foi hebraísta, arabista ou os dois simultaneamente em função das necessidades do ambiente científico-académico, adaptando-se com facilidade à fluidez do contexto; e o seu elogio de Camões assumiu contornos patrióticos que reforçam a sua identidade cultural híbrida.
Não criou escola em Portugal, mas o seu poliglotismo – confirmado pelas suas práticas translingues –, num período finissecular de cultivo do nacionalismo linguístico e literário, foi chave para o desenvolvimento e circulação de conhecimento filológico e para o reforço de uma epistemologia filológica ibérica, em que a portuguesa teve papel importante.
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Notes
Author notes
Alice Girotto
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