Artigo

Viagem ao interior da Guiana Francesa na perspectiva de Adam de Bauve e P. Ferré

Trip to the interior of French Guiana from the perspective of Adam de Bauve and P. Ferré

Mariana Janaina dos Santos Alves
Universidade Federal do Amapá, Brasil
José Guilherme dos Santos Fernandes
Universidade Federal do Pará, Brasil
Gabriel Nunes Yared Lima
Universidade Federal do Amapá, Brasil

Viagem ao interior da Guiana Francesa na perspectiva de Adam de Bauve e P. Ferré

Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104220, 2024

Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 12 October 2024

Revised document received: 10 December 2024

Accepted: 22 November 2024

Published: 01 December 2024

Resumo: O artigo apresenta as considerações feitas a partir da leitura do capítulo “Viagem ao interior da Guiana” (Voyage dans l’intérieur de la Guyane) contido no Boletim da Sociedade de Geografia (Bulletin de la Société en Géographie), de Adam de Bauve e P. Ferré, publicado em 1884. O texto utilizado para a escrita deste artigo foi consultado no acervo digital Gallica da Biblioteca Nacional da França (BNF). O arquivo pertence a segunda série, no primeiro tomo, de publicações feitas pelos viajantes franceses sobre a Amazônia e é precedido por uma extensa composição de vinte volumes, publicadas em um período de doze anos (de 1821 à 1833). São relatos de viagens e anotações sobre a fauna e flora da região, além de considerações sobre povos indígenas, quais sejam, os Wajãpi e Kusari. Para analisar o capítulo que foi traduzido, sobretudo o que se refere ao contexto no qual os exploradores franceses estavam inseridos, fizemos comparativo com os estudos de Coudreau (1887) e para compreender as etnias mencionadas, pesquisamos Gallois (1986).

Palavras-chave: Tradução, etnografia, indígenas, Guiana Francesa, Amazônia.

Abstract: The article presents the considerations made from the reading of the chapter “Voyage dans l’intérieur de la Guyane” (Journey through the interior of Guyana) contained in the Bulletin de la Société de Géographie (Bulletin of the Society in Geography) by Adam de Bauve and P. Ferré, published in 1884. The text used for the writing of this article was consulted in the Gallica digital collection of the National Library of France (NBF). The archive belongs to the second series, in the first volume, of publications made by French travelers on the Amazon and is preceded by an extensive composition of twenty volumes, published over a period of twelve years (from 1821 to 1833). They are travel reports and notes on the fauna and flora of the region, as well as considerations about indigenous peoples, namely the Wajãpi and the Kusari. To analyze the chapter that was translated, especially what refers to the context in which the French explorers were inserted, we compared the studies of Coudreau (1887), and to understand the ethnicities mentioned, we researched Gallois (1986).

Keywords: Translation, ethnography, indigenous, French Guiana, Amazon.

1. Introdução

O Boletim da Sociedade de Geografia (Bulletin de la Société en Géographie) publicado em 1834, registra as memórias dos viajantes franceses em várias missões pelo mundo, constituindo uma composição feita a partir das anotações de diários de viagem, análises (botânicas, etnológicas, entre outras) e alguns relatórios sobre os lugares explorados. No capítulo “Viagem ao interior da Guiana” (Voyage à l’intérieur de la Guyane), que elegemos para fazer a presente tradução, os geógrafos Adam de Bauve e P. Ferré tratam especificamente da Guiana Francesa e do contexto da região amazônica, bem como propõem a descrição de elementos da fauna, da flora e as impressões que eles tiveram sobre os povos indígenas que habitavam o território naquele período. Importa notar que na mesma obra constam outros relatos que registram as exposições orais feitas por navegadores e exploradores membros da Sociedade de Geografia de Paris, em diversas partes do mundo, que vão do Mediterrâneo aos países da América do Sul; entretanto, neste artigo iremos nos dedicar apenas ao capítulo sobre a Guiana Francesa.

Adam de Bauve foi agente do governo francês em Caiena, no território ultramarino da Guiana Francesa na Amazônia, e no período de 1830-1832 realizou uma viagem para o alto do rio Oiapoque, localizado no que corresponde hoje ao território transfronteiriço entre o Brasil e a Guiana Francesa. Importa explicar que, naquele contexto, o explorador subiu o rio atingindo a região de suas nascentes. Ele permaneceu alguns meses nas aldeias Wajãpi e, contando com o auxílio dos indígenas, penetrou nos rios Mapari, Yari e Araguari. Esse lugar corresponde à antiga região de litígio franco-brasileiro, onde hoje está localizado o estado do Amapá/AP (Carneiro, 2009).

Ainda sobre o contexto em que se localizam essas expedições, destacamos que em setembro de 1831 Adam de Bauve retornou para o alto do rio Oiapoque com o objetivo de chegar, por meio da expedição, à bacia do Amazonas. Ele foi o primeiro explorador a encontrar esta conexão, que foi procurada pelos franceses desde a época da colonização no século XVII (Huralt, 1989, p. 87; Broc, 1999, pp. 02-03 como citado emCarneiro, 2009). Em 1833, partindo da cidade de Gurupá, no estado do Pará, acompanhado do naturalista Brachet, ele subiu o Amazonas até o Rio Negro, em 26 de maio de 1834. Bauve atingiu as nascentes deste rio e alcançou o alto Orenoco. Na volta, ao descer o rio Negro, as canoas se quebraram (Prévost; D’Amat, 1951, p. 963 como citado emCarneiro, 2009). Após o ocorrido, ele seguiu a pé até o rio Auaris, continuou pelo rio Branco, até chegar ao Essequibo, que o levou a Georgetown em fevereiro de 1835. Em 1836, acompanhado por sua família e Brachet, eles chegaram ao monte Tumucumaque, onde Brachet faleceu. Nesse momento da expedição, eles foram abandonados pelos guias indígenas.

Ao chegar a Gurupá, depois de ter perdido suas coleções, já em Belém do Pará, Bauve se preparou novamente para subir o Amazonas e explorar o rio Maués e o rio Trombetas, em fevereiro de 1837. Chegou a Manaus seguindo pelo rio Negro, depois o rio Branco até a serra de Pacaraima, onde acreditava-se encontrar o Eldorado (Ternaux-Compans, 1843, p. 144; Nouvion, 1843, p. 375 como citado emCarneiro, 2009). Essas informações sobre as explorações realizadas por Bauve situam uma série de publicações sobre os franceses na Amazônia, assim como a identificação dos primeiros escritos etnográficos sobre a região, povos indígenas, flora e fauna que são comuns ao território Brasil-Guiana.

No capítulo “As primeiras explorações” (Les premières explorations), contido na obra O Jari (Le Jari), de Le Tourneau e Greissing (2013), encontramos algumas anotações sobre P. Ferré e a sua participação nas viagens de Bauve. Durante o estudo do capítulo que escolhemos para fazer a tradução, é certo que o explorador esteve presente no encontro com os indígenas Kusari e Wajãpi. Há menção ainda a um outro explorador, nomeado José Antônio, cujo sobrenome não se tem informação, mas que no texto estudado podemos identificar tratar-se de uma pessoa de grande influência na região; inclusive, os antropólogos Dominique Gallois e Pierre Grenand o consideraram como um dos líderes Wajãpi da época.

Os detalhes da participação de P. Ferré na expedição, publicados pela Sociedade de Geografia, algumas vezes mostram-se fragmentados, pode-se dizer até mesmo com anotações pontuais que caracterizam o texto em formato de relato de viagem. Contudo, em alguns excertos específicos, é possível identificar uma espécie de mosaico que se constitui a partir de anotações específicas sobre a região. Vejamos a seguir como esses pontos podem ser identificados a partir dos fatos narrados.

2. O olhar sobre a Guiana Francesa

O diário sobre a viagem pela Guiana Francesa, escrito por Adam de Bauve e P. Ferré, descreve paisagens naturais, frutos e imagens específicos da Amazônia. Logo no início do relato, na primeira referência aos indígenas, percebemos a visão colonizadora dos exploradores e que esse posicionamento se consolida ao longo do texto. Um dos pontos que se pode relevar para pontuar essa questão é o modo como os franceses se referem aos indígenas, como se fossem seres humanos de uso particular, uma espécie de propriedade. Vejamos o trecho que sustenta essa assertiva, no qual pode-se ler a referência às pessoas no sentido de posse, ou mesmo, de uso pessoal: “Um dos nossos indígenas matou um animal ao qual chamaram euyawar poper, cachorro ou tigre d’água”1 (Bauve, Ferré, 1834, p. 165, tradução e grifos nossos). Esse pensamento se repete em outros trechos, nos quais poderíamos argumentar, a partir do uso do termo possessivo, que em língua francesa antiga pode referenciar um reforço do narrador para sugestionar uma proximidade em relação ao objeto relatado. Todavia, seguida a tradução do texto, notamos nos registros termos que evidenciam um posicionamento de superioridade dos franceses quanto aos indígenas, mostrando, contrariamente, um sentimento de posse sobre o objeto — os indígenas — e não de marcante envolvimento fraternal; por esse motivo, optamos por manter o uso do termo possessivo com o intuito de evidenciar tal colocação dos exploradores franceses quanto aos povos que habitavam a região.

Há de se notar também, no excerto acima, o indicativo da existência de animais raros identificados durante o percurso de rios e igarapés. Há também emprego de termos de posse no que se refere às pessoas que prestam serviço aos exploradores durante a missão. Em determinado trecho podemos ler nas palavras de Bauve: “Não procurei, neste relato, revelar todos os inconvenientes e os perigos aos quais fomos expostos. Uma perda que nos foi muito sensível foi a de um dos nativos de Ferré, rapaz com experiência de cinco anos de serviço. Perdi também meu caçador, que me era muito querido e de grande utilidade.”2 (Bauve, Ferré, 1834, p.174, tradução e grifos nossos). Importa destacar que todas as anotações de viagem do capítulo traduzido foram feitas por Adam de Bauve, que apenas menciona a presença de P. Ferré, em características de seu comportamento e personalidade.

Destacamos alguns fragmentos de texto em que esse delineamento realizado por Bauve é mais nítido, a exemplo do trecho em que, ao encontrar os indígenas, lhes é oferecido a bebida caxiri, a qual, no relato Bauve, Ferré jamais provaria da mesma por achar desagradável a sua preparação. A bebida é preparada a partir da fermentação da mandioca e os indígenas em questão no relato são os Wajãpi e Kusari (Coussari). Optamos em usar esta escrita, na referência a estes indígenas, por considerarmos já estar referenciada na obra Migração, guerra e comércio: os Wajãpi na Guiana de Dominique Gallois (1988), na qual se pode ler o emprego da palavra “Kusari”, identificando-os como aqueles que permanecem no alto do rio Inipuku (ou Inipocko), um grande afluente do Jari. Naquele rio se concentravam remanescentes indígenas, inclusive os Kaikufiana. De toda forma, convém registrarque são principalmente as etnias Wajãpi e Kusari as observadas e registradas pelos franceses, que, em determinado momento do relato, lamentam por terem tido pouco tempo de convivência com esses povos.

Na tradução para o português mantemos a grafia da palavra “caxiri”, mas atualmente os indígenas da região Brasil-Guiana chamam de caxixi. Notamos que no texto em francês antigo Bauve registrou algumas palavras escritas como se fossem uma espécie de “transliteração” do idioma indígena, conforme ele entendia o que era pronunciado por eles. Por exemplo, identificamos a palavra gacque que foi traduzida em conformidade ao animal semelhante ao veado, nomeado na região como caititu. É um tipo de caça comum para indígenas. Menciona-se ainda o tipo de plantio praticado pelos povos autóctones, utilizados para alimentação, tais como a mandioca, o inhame e a batata, bem como para fins medicinais, como o gengibre. Além de animais, há também alusão aos frutos originários da Amazônia, e alguns dos mencionados são também conhecidos em outras regiões do Brasil. A título de exemplo, citamos o camapu:

Camapu, fruto amazônico
Figura 1
Camapu, fruto amazônico
Fonte: Portal da Amazônia (2021)

Em “Viagens ao interior da Guiana”, o fruto acima aparece contextualizado em meio ao léxico composto por outras frutas amazônicas, quais sejam o bacuri e o açaí; este último os franceses chamam de jussara, ou seja, empregam o nome dado pelos indígenas. Atualmente, o último pode ser identificado pelos dois nomes, sendo mais comum, o uso do termo açaí. No diário de viagem, o camapu e o açaí são apresentados da seguinte forma, segundo Bauve e Ferré (1834, p. 168, tradução e grifos nossos):

Vimos em suas casas vários frutos e grãos de árvores que lhes dão alimento e dos quais os Wajãpi fazem pouco ou nenhum uso, pois nós os vimos recusá-los quando lhes ofereceram. Citarei, entre outros, o bacuri, do tamanho de uma laranja, de cor rosada, gosto azedo e muito agradável. O camapu, que tem o tamanho e a forma absolutamente semelhante ao da cereja, mas sem qualquer sabor. O açaí, como um cacho de uvas, vem de um arbusto pouco elevado e tem um gosto delicado.3

O camapu (Campal physalis), também conhecido como filais ou juá-de-capote, é uma fruta da Amazônia presente em diversos locais do país. É uma árvore de pequeno porte que consegue alcançar aproximadamente um metro de altura. Crescem rápido e sobrevivem a qualquer solo e clima, o fruto fica envolvido em uma espécie de casca amarela quando se encontra maduro para o consumo. É conhecido por possuir propriedades medicinais, principalmente para o cérebro, pois ajuda na regeneração dos neurônios e previne doenças como mal de Alzheimer e Parkinson.4

Além das anotações mencionadas, encontram-se ainda no texto registros que fazem comparativo entre características das etnias Wajãpi e Kusari, inclusive sobre os hábitos e comportamento dos indígenas, expressando-se, por vezes, certo julgamento. Vejamos nas palavras de Bauve e Ferré (1843, p. 167-168, tradução e grifos nossos):

Esses indígenas, de fato, parecem menos moles que os Wajãpi, menos desconfiados e menos dissimulados; sua linguagem é quase a mesma, mas mais franca; a pronunciação dos Wajãpi é um pouco nasalizada. Os Kusari são melhor armados; além do arco e do machado, eles têm uma lança, um tipo de zarabatana com as quais lançam pequenas flechas a uma grande distância.”5

No que se refere aos hábitos alimentares dos Wajãpi, que são destacados no texto e causam repulsa aos exploradores, está o fato deles comerem sapos. Essa informação se comprova no exceto a seguir: “José Antônio assegurara-me que os Wajãpi comiam sapos”6 (Bauve e Ferré, 1834, p. 171, tradução nossa). Os franceses escreveram que puderam presenciar uma ocasião que se comprovou a prática desse hábito alimentar. Eles afirmaram, ainda, que, apesar da “abundância” em que se encontravam os indígenas, havendo variedade de animais que serviam à caça, e de “tamanho considerável”, Bauve (id., ibd.), os Wajãpi preferiam e se esbaldavam com os batráquios: “nossos indígenas os assaram e deleitaram-se com essa comida nojenta.”7

Por fim, em uma última perspectiva comparatista sobre os costumes dos povos autóctones da Guiana, notamos, de acordo com as palavras e as impressões do que foi observado por Bauve e Ferré, que os Kusari teriam mais conhecimento e cuidados no tratamento dos doentes. Essa característica notada pelo olhar dos exploradores se difere da prática Wajãpi e aparece registrada por três vezes no diário de viagem. No primeiro contexto, Bauve escreve ter conhecimento de uma mulher que, acometida por febre havia vários meses, foi confinada em uma cabana pelos Kusari, que cuidaram de sua saúde, e, quando questionados, pareciam não ter dúvidas de sua cura. Nesse trecho da narrativa, Bauve (1834, p. 168, tradução e grifos nossos) opina, escrevendo que “[...] se fosse entre os Wajãpi, no estado em que estava aquela que se encontrava doente, já teria sido abandonada há muito tempo8. Em outro trecho, após o deslocamento no dia 04 de fevereiro daquele ano, o geógrafo registra que chegou em um lugar onde havia permanecido doente, em novembro do ano anterior, e acrescenta ainda que teria sido abandonado pelos indígenas que o guiavam.

Pontua-se que os indivíduos que se encontravam naquele lugar tinham diminuído e que restavam quarenta pessoas, mais mulheres do que homens, os quais estavam pálidos e abatidos. Os povos haviam sofrido de uma epidemia, mas que havia diminuído o número de vítimas, pois há quase um mês, inexistiam mortos. Os sobreviventes pareciam estar melhor do que no período de novembro, data da primeira viagem. Uma das consequências dessa epidemia foi o fato dos indígenas se sentirem inseguros com a presença dos franceses. Inclusive, Bauve anotou essa informação, acrescentando que foram proibidos de se comunicarem com eles, temendo que o contato com os estrangeiros agravasse ainda mais os seus males.

3. Do território guianense às questões de tradução

Os geógrafos escreveram, no capítulo estudado, que, além do desejo de permanecer mais tempo com os indígenas, tinham vontade de prologarem-se durante essa jornada amazônica em novos percursos para a exploração da região montanhosa da Guiana. No texto traduzido há suposição, por parte dos franceses, de que na região havia exploração da terra, por meio de extração mineral. Vejamos este ponto nos termos de Bauve e Ferré (1834, p. 174, tradução nossa):

Gostaria também de ter tido uma estadia mais prolongada nas montanhas; isso me permitiria sem dúvidas descobrir a causa das detonações subterrâneas que ouvimos. Serão os últimos esforços de um vulcão extinto? Serão indícios de minas? Minha principal aposta é nessa última presunção.9

No capítulo “Integração de um grupo inimigo: os Kusari” contido na obra Migração, guerra e comércio: os Wajãpi na Guiana, de Dominique Gallois (1988), encontramos nesse estudo informações sobre história dos Kusari, povo que foi marcado por um grande processo de dispersão territorial. Os primeiros registros desse povo o localizam no território invadido pelos Wajãpi, durante o século XVIII, quando os Kusari foram atacados por outros indígenas, os quais, eles nomeavam de “portugueses”, pois falavam a língua destes europeus de forma franca e fluente.

Dentre os cronistas que se referem aos Kusari, citamos Bagot, que os localiza na região da foz do rio Cuc, considerando-os integrantes do mesmo grupo cultural dos Wajãpi, pois eram falantes da língua Tapouille (Gallois, 1988, p. 185), que relacionamos por meio da tradução com o termo “tapuio”, recorrente às narrativas amazônicas, para se reportar aos ribeirinhos e caboclos do Norte do Brasil, marcantemente resultante de processo de miscigenação entre nativos e europeus, e talvez por isso tenham sido vistos com “bons olhos” pelos franceses, já apresentando hábitos mais familiares aos colonizadores . Segundo este autor, os Kusari teriam fugido para as montanhas, para viverem mais tranquilos. Na obra A França equinocial: viagem através das Guianas e Amazônia (La France équinoxiale: Voyage à travers les Guyanes et l’Amazonie), de Henri A. Coudreau, publicado em 1887, verificamos que esse geógrafo visitou outras montanhas, por exemplo, a Cunani (que também foi conhecida pelo nome de Mayés). As anotações encontradas nesse estudo ressaltam que esses lugares eram considerados santificados ou místicos pelos indígenas e que estes espaços resguardam vestígios de povos nômades, ou indígenas que migraram devido os conflitos entre as etnias ou disputas territoriais.

Por fim, para que se possa encaminhar os tópicos no processo de tradução do texto para a língua portuguesa do Brasil, alguns substantivos não foram traduzidos. Neste caso, trata-se do léxico referente às madeiras de primeira qualidade, que preferimos manter, por de fato, não se conhecer correspondências aos termos na biologia, em língua portuguesa. São as palavras: satixé, gayac, rôse mâle, panahó. Em outros momentos, algumas palavras traduzidas apresentam, além da definição do termo literal, sentidos em contexto polissêmico. Uma delas é a palavra caninana (Spilotes pullatus), uma serpente com tons que mesclam o preto e o amarelo e remetem à ideia de uma cobra perigosa. Esse tipo de cobra, quando se sente ameaçada por predadores, ergue a cabeça, achata a região do pescoço, expõe e movimenta a língua (Butantan, 2023). Com essas ações, ela pode tentar morder o agressor, mas por não possuir veneno é considerada inofensiva. Além da caninana, há outro animal selvagem, um mamífero que se parece com um burro comum, mas que vive na floresta, citado pelos geógrafos, e que se chama onagro.

Quanto à flora, alguns termos, em língua portuguesa, não lembravam em nada a palavra em francês antigo. Por isso, procuramos identificar a palavra por meio de seu significado mais comum. Por exemplo, traduzimos o nome da palmeira buri-de-praia (Allagoptera arenaria), substantiva, a partir da escolha entre caxandó, coco-de-praia ou pissandó; neste caso, elegemos o mais conhecido, por assim dizer. E, nesse léxico, o último destaque é a uvaia, um tipo de arbusto de origem brasileira, cuja madeira é compacta e lustrosa, contendo folhas com o ápice agudo e flores perfumadas. A uvaia possui vários nomes, mas diferentemente do termo anterior, a formação das palavras constitui-se de forma mais regular e os termos, inclusive, se parecem foneticamente; vejamos: ubacaba, uaieira, ubaieira, uvaieira, uvalheira.

Algumas palavras têm significado não tão recorrentes ou são termos derivados. Citamos, por exemplo, Cassico (Cassicu), que é um pássaro conirrostro da América; macambê, um termo derivado de macambeira, palmeira de origem egípcia, mas que pode designar um tipo de sardinha muito abundante na região Nordeste do Brasil (Correia, 2006). O termo toises foi traduzido como toesas, e trata-se de uma antiga unidade de medida, equivalente a 1,949 metro. A palavra ouapa tem como equivalente em língua portuguesa os termos “apá” e “muirapiranga”. No caso deste último, preferimos usar o primeiro pela proximidade sonora ao termo em francês antigo.

Considerações finais

A tradução de um texto que tem como origem na escrita o francês antigo para a língua portuguesa do Brasil, a nosso ver, desenvolve-se basicamente a partir de dois processos: primeiramente, o estudo dos termos no idioma fonte e, neste caso, a averiguação minuciosa de palavras que foram escritas em língua francesa, mas que, por vezes, apresentavam-se como uma espécie de transliteração do idioma falado pelos indígenas; em segundo lugar há de se considerar o posicionamento colonizador dos exploradores, que em suas anotações se referem ao outro como se fossem propriedade particular ou de serventia para prestação de serviços no território guianense. Esse aspecto compreende questões étnico-culturais que precisam ser pensadas para que, de fato, se faça uma leitura não somente de termos de uma língua, que historicamente já foi modificada, mas também para que se possa compreender, por meio dos registros, as escolhas feitas pelos franceses, assim como o pensamento que os norteava na exploração do território, que hoje integra o Platô das Guianas.

Além das questões de tradução que envolvem a identificação literal, notando-se que esta pode ainda se desdobrar em contextos polissêmicos, foi necessário fazer a busca de nomenclaturas referentes à fauna e à flora, que na prática se converteram na pesquisa de significados variantes sobre determinados animais e vegetais. Das questões relativas ao registro da cultura e comportamento dos povos indígenas, buscamos referenciais em outros textos de época (Coudreau, 1887) para compreender se alguns fatos poderiam ter sido relatados por outros navegadores. Neste caso, escolhemos especificamente saber se havia registro da exploração de minas na região, anotações sobre explosões, mas não encontramos referência na data indicada por Adam de Bauve e P. Ferré. Quanto às pesquisas mais recentes, vimos anotações de Gallois (1986) para compreender os trechos que se referem ao processo migratório e de conflito entre indígenas no século XVIII.

Por fim, resta tratar do fato de que a tradução é, antes de mais nada, uma escolha do(a) tradutor(a) tocada por seu atrelamento ideológico- cultural, e no caso do texto aqui referido essa escolha tem a ver com questões atinentes aos vínculos colonialistas dos exploradores que se lançaram rio adentro e, obviamente, dos tradutores que aqui lhes escrevem este artigo. Antes de tudo, compreende-se que o que os exploradores viajantes, que aportaram na Amazônia desde o século XVI, realizaram foi uma etnotradução, considerando-se esta como uma narração e descrição de teor etnográfico, em que subjaz o comentário e o ponto de vista comparativo do tradutor, em que “são representados fatos e modelos sociais” (Fernandes, 2017, p. 69) da cultura de partida para a cultura de chegada, em perspectiva de transplantação da interpretação do nativo de sua cultura (interpretação em primeira mão, pois é sua cultura) para a modelização realizada pelo intérprete-tradutor da cultura alienígena, no caso a europeia; por isso, o que Bauve e Ferré realizaram foi uma interpretação em segunda mão da cultura indígena, com laivos de etnocentrismo e colonialismo.

Com isso, os franceses acentuaram em seu texto comparativismos descabidos – entre Wajãpi e Kusari – e valorações de caráter assimétrico – os indígenas comedores de sapo, uma comida nojenta –, além de adaptações do desconhecido açaí para o referencial conhecido para o leitor europeu: esta fruta seria como um cacho de uvas! Estes são apenas alguns exemplos do colonialismo “tradutório” e cultural, que compreendemos como um continuum, pois ao manipular as práticas e valores dos nativos o que os exploradores-cronistas realizaram foi uma sabotagem subliminar dos primeiros, mediante a instituição, através do texto, de uma nova realidade, que os caracteriza como selvagens e, com isso, destituídos de qualquer humanidade, sendo alienados do processo “civilizatório”.

Nossa tradução tenta, então, ser um outro processo, de re-humanização dos nativos, mediante a decolonização do processo tradutório, posto que o que realizamos também é uma etnotradução, mas em terceira mão e imbuídos de uma ideologia decolonial: nossa intenção também é desconstruir as modelizações impostas pelo tradutor colonialista europeu, trazendo a perspectiva dos colonizados e subalternizados na dinâmica colonizadora. Apenas um exemplo é nossa tradução de crique, que em francês pode significar “pequena baía, ou parte do litoral, que forma uma reentrância para que pequenas embarcações possam se abrigar”, a qual optamos por traduzir pela palavra “igarapé”, tão usual na coloquialidade das populações periféricas e ribeirinhas na Amazônia e que tem raiz no tronco tupi “caminho de canoa”, ou seja, pequeno curso d’água, de pouca largura, mas que pode se estender continente adentro, servindo não apenas de abrigo, mas também de rede de comunicações intensa entre bacias hidrográficas, estabelecendo intensa comunicação entre povos e comunidades locais. E com esta metáfora queremos dizer que a tradução deve ser essa possibilidade de estabelecimento de redes entre culturas e entre pessoas!

Referências

Bauve, A., Ferré, P. (1834). Voyage dans l’intérieur de la Guyane. Bulletin de la Société de Géographie. Librairie de la Société de Géographie. https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k37619b/f14.item#

Butantan. (2023). Informação sobre a serpente caninana. https://butantan.gov.br/bubutantan/conheca-a-caninana-a-serpente-ligeirinha

Carneiro, J. P. J. A. (2009). Exploradores franceses na Amazônia brasileira durante o século XIX: Breve biobibliografia. II Encontro Nacional de História do Pensamento Geográfico. Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo. https://enhpgii.wordpress.com/wp-content/uploads/2009/10/joao-paulo-jeannine.pdf

Correia, M. G. M. (2006). Nas redes da tradição: discursos identitários da comunidade de Baiacu. [Dissertação de Mestrado]. Universidade Federal da Bahia. https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/28689/1/DISSERTA%C3%87%C3%83O%20Maria%20das%20Gra%C3%A7as%20Meirelles%20Correia.pdf

Coudreau, H. A. (1887). La France équinoxiale : voyage à travers le Guyane et l’Amazonie. Librairie Coloniale. http://www.manioc.org/patrimon/MMC16022

Fernandes, J. G, S. (2017). Etnotradução. In Luana Ferreira de Freitas; Marie-Hélène Catherine Torres; Walter Carlos Costa (Eds). Literatura traduzida; tradução comentada e comentários de tradução. (pp. 59-73). Substânsia.

Gallois, D. T. (1986). Migração, guerra e comércio: os Waiãpi na Guiana. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. https://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/biblio%3Agallois-1986migracao/Gallois_1986_MigracaoGuerraEComercioWaiapi Guiana.pdf

Huralt, Jean. (1989). Français et Indiens en Guyane. Guyane Presses Diffusion, Cayenne.

Le Tourneau, F. M., Greissing, A. (2013). Les premières explorations. Le Jari. Presses universitaires de Rennes. https://books.openedition.org/pur/47983#anchor-toc-1-1

Portal Amazônia. (2021). Fotografia do fruto camapu. https://portalamazonia.com/amazonia-az/camapu

Ternaux-Compans. (1843). Notice Historique sur la Guyane française. Edição F. Didot frères.

Notes

1 No original: “Un de nos Indiens tua un animal qu’ils nommaient euyawar poper, chien ou tigre d’eau.”
2 No original: “Je n’ai point cherché, dans cette relation, à relever tous les désagréments et même les dangers auxquels nous avons été exposés. Une perte qui fut très sensible pour nous, fut celle d’un des domestiques de Ferré, garçon éprouvé par cinq années de service. Je perdis aussi mon chasseur, qui m’était très attaché et de la plus grande utilité. ”
3 No original: “Nous avons vu dans leurs cases beaucoup de fruits et de graines de bois qu’ils mangent, et dont les Oyampis font peu ou point d’usage, car nous leur avons vu refuser ceux qui leur étaient offerts. Je citerai entre autres le bacoury, de la grosseur d’une orange, d’une couleur rosée, d’un goût aigre et assez agréable. Le crioary, pour la grosseur et la forme, absolument semblable à la cerise, mais sans aucune saveur. La jussara, pareille à une grappe de raisin, vient sur un arbrisseau peu élevé et a un goût délicat. ”
4 Informações disponíveis em: https://portalamazonia.com/amazonia-az/camapu Acesso em: 30 abr. 2024.
5 No original: “Ces Indiens, en effet, paraissent moins mous que les Oyampis, moins craintifs et moins dissimulés ; leur langage est à-peu-près le même, mais plus franc ; les Oyampis ont une prononciation un peu nazillarde. Ils sont mieux armés ; outre l’arc et le taumaho, ils ont un javelot et une sorte de sarcabane avec laquelle ils lancent des petites flèches à une grande distance.”
6 No original: “José Antonio m’avait assuré que les Oyampis mangeaient des crapauds”
7 No original: “Nos Indiens les firent rôtir et se délectèrent de ce mets dégoûtant.”
8 No original: “Chez les Oyampis, dans l’état où était l’individu, il eût été abandonné depuis longtemps.”
9 No original “J’aurais aussi voulu faire un séjour plus prolongé dans les montagnes ; il m’eût sans doute mis à même de reconnaître la cause de détonations souterraines que nous avons entendues. Sont-ce les derniers efforts d’un volcan éteint ? sont-ce des indices de mines? Je serais plutôt pour cette dernière présomption”
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Author notes

Editores Marie Hélène Catherine Torres
Editores de seção Andréia Guerini

Ingrid Bignardi

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