Artigo

Traduzindo a Amazônia brasileira da metade do século XIX: paisagens e indivíduos na narrativa de Gaetano Osculati (1808-1894) entre a admiração e a crítica

Translating the Brazilian Amazon of the mid-19th century: landscapes and individuals in Gaetano Osculati’s (1808-1894) narrative between admiration and criticism

Geraldo de Oliveira de Alló
Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil
Karine Simoni
Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil

Traduzindo a Amazônia brasileira da metade do século XIX: paisagens e indivíduos na narrativa de Gaetano Osculati (1808-1894) entre a admiração e a crítica

Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104183, 2024

Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 19 October 2024

Revised document received: 04 December 2024

Accepted: 23 November 2024

Published: 01 December 2024

Resumo: Gaetano Osculati (1808-1894) foi provavelmente o primeiro dos navegadores italianos a percorrer a Amazônia no século XIX, tendo publicado, a partir dessa experiência de viagem, a obra Esplorazione delle regioni equatoriali – lungo il Napo ed il Fiume delle Amazzoni. Frammento di un viaggio fatto nelle due Americhe negli anni 1846, 47, 48 [Exploração das regiões equatoriais – ao longo do Napo e do Rio Amazonas. Fragmento de uma viagem realizada nas duas Américas nos anos 1846, 47, 48], (1850). O objetivo deste estudo é apresentar uma tradução comentada dos capítulos XX (parte final) e XXI da referida obra. Inicialmente são apresentados o contexto da viagem, a biografia do autor e, de certo modo, também as expectativas e ideias pré-formadas dos europeus em relação ao chamado Novo Mundo (Holanda, 2000), para depois registrarem-se algumas notas acerca do trabalho de tradução. Considera-se, assim, que na narrativa de Osculati intercalam-se imagens edênicas, registros de opiniões próprias e conhecimentos da ciência de então, elementos estes cuja observação foi fundamental para a realização da tradução, entendida aqui sob o princípio da negociação (Eco, 2000).

Palavras-chave: Gaetano Osculati, Esplorazione delle regioni equatoriali, Amazônia, século XIX, tradução.

Abstract: Gaetano Osculati (1808-1894) was likely the first of Italian navigators to traverse the Amazon in the 19th century. Following this travel experience, he published Esplorazione delle regioni equatoriali – lungo il Napo ed il Fiume delle Amazzoni. Frammento di un viaggio fatto nelle due Americhe negli anni 1846, 47, 48 [Exploration of the equatorial regions – along the Napo and Amazon River.Fragment of a journey made in the two Americas in the years 1846, 47, 48] (1850). The objective of this study is to present an annotated translation of chapters XX (final part) and XXI of the mentioned work. Initially, the context of the journey, the author’s biography, and to some extent, the expectations and preconceived ideas of europeans regarding the so-called New World (Holanda, 2000) are presented, followed by some notes on the translation work. It is considered that in Osculati’s narrative, edenic images, records of personal opinions, and knowledge of the science of the time are interwoven, elements that were fundamental for the realization of the translation, understood here under the principle of negotiation (Eco, 2000).

Keywords: Gaetano Osculati, Esplorazione delle regioni equatoriali, Amazon, 19th century, translation.

1. Introdução

No seu vasto e erudito estudo sobre os mitos geográficos que habitavam a mente dos europeus e que, muito difundidos na era dos grandes “descobrimentos” marítimos, teriam lançado as bases para os destinos da colonização e da formação do Brasil, Sergio Buarque de Holanda afirma que “os descobridores, povoadores, aventureiros, o que muitas vezes vêm buscar, e não raro acabam encontrando nas ilhas e terra firme do Mar Oceano, é uma espécie de cenário ideal, feito de suas experiências, mitologias ou nostalgias ancestrais” (2000, p. 383). Estes elementos acabam por expressar a Visão do paraíso em diferentes metáforas e intensidades, de acordo com a origem do sujeito, mas, de um modo geral, o sonho de encontrar riquezas e de entrar em contato com a natureza e com povos não corrompidos pela sociedade europeia fazia parte da fantasia de muitos conquistadores europeus, independentemente da nacionalidade, que se manteve de alguma maneira ao longo do tempo, como uma nostalgia da “condição de perdida bem-aventurança e inocência” (Holanda, 2000, p. XVI).

Como também é preciso considerar, um certo apelo à realidade se fez presente já nas primeiras descrições da América, fortalecido pela observação da natureza nunca antes vista e pelo contato com grupos humanos igualmente desconhecidos – e, por isso mesmo, muitas vezes considerados assustadores e selvagens. Às idealizações desproporcionais e irreais foram sendo acrescentadas as experiências individuais e ou de outros, e os conhecimentos científicos de cada época, uma espécie de “imagem negadora dessa mesma fantasia” (Holanda, 2000, p. XXV), de modo que, já no século XIX, os europeus que se dirigiam à América (e aqui nos referimos em particular à América do Sul) e que relataram suas viagens em textos escritos e imagéticos o fizeram intercalando imagens edênicas, registros de opiniões próprias e conhecimentos da ciência de então.

É o que temos percebido, por exemplo, nos relatos dos estrangeiros que estiveram na Amazônia no século XIX, que esta quarta edição de Traduzindo a Amazônia vem novamente mostrar. É também o que, enquanto tradutor e tradutora, gostaríamos de destacar no relato aqui escolhido para análise e tradução: a obra Esplorazione delle regioni equatoriali – lungo il Napo ed il Fiume delle Amazzoni. Frammento di un viaggio fatto nelle due Americhe negli anni 1846, 47, 48 [Exploração das regiões equatoriais – ao longo do Napo e do Rio Amazonas. Fragmento de uma viagem realizada nas duas Américas nos anos 1846, 47, 48], (doravante Esplorazione delle regioni equatoriali) publicada em 1850 pelo italiano Gaetano Osculati (1808-1894), especificamente os capítulos XX (parte final) e XXI1. Gaetano Osculati parece ter sido o primeiro dos navegadores italianos a percorrer a Amazônia, e muitos deles podem ter se inspirado nele tanto para realizarem suas viagens como para escreverem seus relatos, o que reforça ainda mais a importância de fazê-lo integrar essa coleção de textos que Traduzindo a Amazônia vem publicando.

Para este estudo e tradução, utilizamos a segunda edição da referida obra, publicada em 1854 e disponível nos arquivos da biblioteca digital Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), que é administrada pela Universidade de São Paulo (USP) e pode ser consultada gratuitamente em https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5027. Estruturamos o artigo em duas seções: a primeira apresenta o autor, a obra e o contexto da sua produção, e na segunda são feitos os comentários de tradução.

2. Gaetano Osculati: um viajante de vários mundos

Qualquer pesquisador/tradutor ou pesquisadora/tradutora que se aproxime dos textos de Gaetano Osculati e que tenha alguma noção da sua biografia poderá dizer, sem exagero, que seus textos refletem, para além do que narram ou descrevem, os desejos e as expressões de um homem que em praticamente toda a sua vida adulta manteve vivo o anseio de estar em terras distantes e desconhecidas. Com efeito, sua existência é marcada sobretudo pelas muitas viagens que realizou em diferentes partes do mundo, e que apresentaremos aqui de forma panorâmica2.

Segundo seus biógrafos, o grande desejo de viajar motivou as escolhas profissionais de Gaetano Osculati desde a juventude: nascido em 1808 em San Giorgio al Lambro, na Lombardia, Norte da Itália, pertencia a uma família burguesa de boas condições econômicas. Iniciou, mas não concluiu, uma faculdade de medicina, preferindo os estudos de marinha e, após formar-se capitão, trabalhou em navios comerciais, mas, podendo dispor da renda da família, decidiu viajar com recursos próprios.

A primeira viagem foi feita em 1831-1832 e nessa ocasião visitou o Egito, a Palestina, Síria e Ásia Menor, sem, contudo, registrar por escrito essa experiência. Em 1834, percorreu a América Latina a partir do Uruguai e da Argentina, sempre recolhendo amostras de pássaros, insetos, ossos fossilizados e outros materiais nas suas incursões. Permaneceu alguns meses em Buenos Aires, que naquela época tinha 85.000 habitantes, incluindo italianos, e depois partiu com um pequeno grupo para Mendoza e Santiago, tendo passado algumas dificuldades pelo caminho, como o desentendimento com um grupo indígena. Estabeleceu-se por cinco meses em Santiago, no mesmo período em que ocorreu o violento terremoto que destruiu Concepción e Talcahuano (1835). Ainda sobre essa excursão pela América Latina, conta o biógrafo Francesco Surdich:

Em 10 de agosto [1836], começou a subir a costa em direção à Bolívia, visitando Cobija, Iquique, Arica, Islay, Quilca, Arequipa e Callao: na baía de Arica, ele se juntou a um grupo de jovens aspirantes das marinhas militares da França e da Grã-Bretanha no saque de túmulos pré-hispânicos, obtendo alguns objetos funerários e algumas anotações desta empreitada. Por volta de 23 de setembro, chegou a Lima, onde, bloqueado pela guerra civil entre Luis José Orbegoso e Felipe Santiago Salaverry, ficou alguns meses antes de retornar às costas europeias, em Cádiz, após uma viagem de seis meses pela rota do Cabo Horn3 (2013).

É bastante pertinente destacar, na narrativa do biógrafo, a observação sobre a existência de estrangeiros de outras nacionalidades europeias na região – neste caso, franceses e ingleses, fomentando o que Sergio Buarque de Holanda afirmara (e que expusemos no início deste artigo) sobre a frequência constante de exploradores, povoadores e aventureiros europeus nas Américas ao longo dos séculos. Da mesma forma, é visível que esses mesmos viajantes de além-mar, imbuídos da ideia de superioridade branca europeia e cristã, não raro desprezavam a cultura autóctone e talvez a própria natureza, não hesitando em apossar-se do que não lhes pertencia, provavelmente instigados pela possibilidade de enriquecer e ou de tirar algum proveito econômico ou cultural de corpos e objetos. Assim, Gaetano Osculati, que, lembramos, foi o primeiro italiano de que se tem notícia a percorrer a região amazônica no século XIX, retorna para sua terra levando consigo grande quantidade de espécies entomológicas e vegetais, além de elementos etnográficos. Essa primeira experiência na América do Sul dá origem à sua primeira obra, intitulada Note di un viaggio di Gaetano Osculati nell’America Meridionale, negli anni 1834-35-36 [Notas de uma viagem de Gaetano Osculati pela América do Sul nos anos de 1834, 35, 36] que publicou inicialmente no periódico Il politecnico, de Milão.

A terceira grande viagem de Gaetano Osculati é realizada em conjunto com Felice De Vecchi, um amigo de longa data. Em maio de 1841, os dois partiram de Milão em direção a Viena, de lá seguiram o Danúbio até Constantinopla; em seguida, dirigiram-se ao Eufrates oriental e, seguindo por terra, chegaram às encostas do monte Ararate; passaram por várias cidades do Irã, como Khoy, Isfahan, Qom, Tabriz, Teerã, Kasham, Yazd. Estiveram também na cidade arqueológica de Persepolis e no vale de Kazerum e, já no findar do ano, após quatro meses de viagem por terra, desfrutaram de alguns dias de descanso em Bushir, no Golfo Pérsico, onde também foram recebidos pelo xeique local antes de embarcarem em um navio militar francês. Em fevereiro de 1842, chegaram em Mascate, a capital de Omã, e de lá, atravessando o Mar Arábico, chegaram a Bombaim, a cidade mais importante da costa da Índia na época. Lá, hospedados na casa de um capitão inglês, puderam desfrutar de um período de descanso e conhecer diretamente algumas tradições religiosas na área hindu da cidade. Após um ano da partida de Milão, os dois iniciaram a viagem de retorno embarcando em um navio britânico, navegando pelo Mar Vermelho até Suez, prosseguindo pelo Nilo e chegando ao Cairo e Alexandria. Por conta de uma peste foram obrigados a permanecer em quarentena em um lazareto por 14 dias, e de lá um navio austríaco os levou a Trieste, onde desembarcaram em 20 de julho de 1842. O resultado científico mais imediato dessa viagem foi uma grande quantidade de artefatos e uma coleção de besouros, que foram estudados e classificados pelos entomologistas Massimilano Spinola e Félix Edouard Guérin-Meneville. Essa viagem de quase dois anos deu origem ao livro Note di un viaggio nella Persia ed Indie Orientali negli anni 1841-42 [Notas de uma viagem pela Pérsia e índias Orientais nos anos 1841-42], publicado em 1844, livro este que lhe rendeu fama e reconhecimento do público.

Acreditamos que essas informações são importantes no contexto da tradução aqui apresentada porque nos permitem melhor visualizar os interesses do autor pelo exótico, o gosto pelo desconhecido, o desejo de alcançar lugares distantes e diferentes daqueles a que o olhar europeu estava habituado. De fato, ao retornar da sua maior empreitada, Gaetano Osculati começou a planejar uma expedição ao redor do mundo, que lhe possibilitaria visitar lugares não alcançados na viagem anterior. Assim, em agosto de 1846, partiu de Marselha com destino ao Oceano Índico, mas após o navio ter sofrido um incêndio no Estreito de Gibraltar, decidiu-se por um itinerário mais comedido: o curso do Rio Napo até a foz do Rio Amazonas, do Pacífico ao Atlântico, atravessando os Andes e percorrendo os rios de canoa, com o objetivo de coletar amostras para justificar os subsídios recebidos pelos museus de ciências naturais de Milão e Turim – torna-se, assim, de mero aventureiro a explorador patrocinado por instituições culturais e científicas.

Após ter estado em uma parte do Canadá e dos Estados Unidos, desembarca em Guayaquil (Equador) em março de 1847, e segue pelo rio Babahoyo até Quito com a intenção de seguir os passos de Francisco de Orellana (1511-1546) e explorar o rio Napo até sua confluência com o Rio Amazonas. Após várias dificuldades, incluindo tentativas fracassadas de subir o vulcão Pichincha e atravessar o rio Cosanga (ocasião em que foi abandonado pelos carregadores indígenas que o acompanhavam e que estavam descontentes com suas atitudes), ele conseguiu retomar a viagem e recebe auxílio do presidente do Equador, chegando a Puerto Napo em julho, onde passou três meses tratando dos pés feridos e coletando espécimes zoológicos e botânicos, materiais etnográficos e informações sobre a cultura dos índios do Quijos. Em outubro, começou a descer o rio Napo de canoa, passando por diversos vilarejos habitados pelos Záparos, uma população amazônica agora quase extinta e protegida pela Unesco e, no final do mês, alcançou o ponto de confluência do Napo com o Rio Amazonas. Continuou a sua viagem e teve a oportunidade de conhecer grupos indígenas como os Yagua, os Orejones, os Ticunas e os Mayorunas. Depois de uma parada de um mês em Manaus, onde chegou no início de fevereiro de 1848, recomeçou a viagem passando pelas fozes dos rios Madeira e Trombetas, até alcançar Santarém – onde coletou dados e amostras de plantas medicinais e se interessou pelos índios Mundurucus. Conclui sua longa descida dos Andes até o Atlântico passando pela ilha de Marajó e chegando a Belém em 30 de março de1848, experiências estas documentadas no texto que será aqui traduzido em parte.

A viagem de Gaetano Osculati não significou apenas uma aventura exploratória, mas também uma experiência de navegação que contribuiu de modo bastante significativo para o conhecimento científico da região e de suas culturas indígenas. Nas suas incursões, a exemplo das outras viagens que realizou, coletou plantas, minerais, insetos e pássaros, além de ter tido a oportunidade de observar grandes exemplares de fósseis. Boa parte deste acervo foi doada ao Museu Cívico de História Natural, onde permaneceram até agosto de 1943, quando bombardeios aéreos destruíram quase completamente o museu e suas coleções.

Em 1848, os motins revolucionários que eclodiram na Europa o levaram a retornar à sua cidade. Dois anos depois, em 1850, publica o relato da viagem, sob o título Esplorazione delle regioni equatoriali – lungo il Napo ed il Fiume delle Amazzoni. Frammento di un viaggio fatto nelle due Americhe negli anni 1846, 47, 48 [Exploração das regiões equatoriais – ao longo do Napo e do Rio Amazonas. Fragmento de uma viagem realizada nas duas Américas nos anos 1846, 47, 48], do qual, queremos lembrar, apresentamos a tradução da parte final do capítulo XX e o capítulo XXI. Em 1857, decidiu concluir suas atividades como viajante e colecionador científico com uma viagem ao Egito, Índia e China, onde, a pedido de alguns proprietários de terras milaneses, tentou em vão estabelecer alguns criatórios de bicho-da-seda. Da viagem, realizada principalmente pelos itinerários já percorridos em 1831 e 1841, ele elaborou um relato manuscrito que acabou sendo perdido pela editora.

Após o casamento com Lucia Cecilia Tagini, com quem teve duas filhas, retirou-se para a vida privada, falecendo em 14 de março de 1894. Dentre os títulos que recebeu, podemos citar o de membro correspondente da Sociedade Geográfica de Paris e da Real Academia Peloritana de Messina (1845), membro da Academia de Naturalistas Aspirantes de Nápoles (1846); foi nomeado membro honorário do Ateneu de Ciências, Letras e Artes de Bergamo (1857) e cavaleiro da Ordem Mauriziana (1880), título este oferecido pelo então rei da Itália, Umberto I. A destacar também que, em 1880, o então Imperador do Brasil Dom Pedro II, passando por Milão, desejou conhece-lo pessoalmente e, em gesto de gratidão, o chama de “O Marco Polo do Brasil” (Schultz, 2017).

Exploração das regiões equatoriais, na edição de 1854, que serve como texto de partida para este estudo e tradução, possui pouco mais de 400 páginas e está dividido em 28 capítulos, que indicam cronologicamente – de 29 de março de 1847 a 15 junho 1848 – a trajetória da excursão e uma extensa variedade de temáticas sobre as quais o olhar do visitante-explorador estrangeiro mostra-se bastante atento e dedicado a fazer da narrativa uma fonte de conhecimento para o público leitor e também uma espécie de comprovação da superioridade europeia perante o autóctone, como se percebe no trecho a seguir, em que Gaetano Osculati descreve um ritual indígena e o compara aos supostos rituais de bruxas, herança da era moderna, que povoavam a mentalidade europeia ainda no século XIX:

A completa nudez deles, as tranças dispersas, os ornamentos de penas, os estranhos gritos, a clareza da lua no meio de densas florestas, davam uma aparência muito peculiar àquela cena, tanto que eu parecia estar testemunhando aquelas reuniões, aqueles bailes de bruxas sob as nogueiras, que as amas me contavam quando eu era criança4 (1854, p. 173).

É nessa perspectiva, ou seja, tomando tais descrições como típicas do olhar do europeu já imbuído de imagens pré-determinadas sobre o paraíso e o inferno da América, sobre os quais tão bem discorreu o já citado Sergio Buarque de Holanda, que consideramos o relato de Gaetano Osculati aqui estudado e traduzido. Dito de outro modo, a nosso ver, os assuntos discorridos no relato – descrições de animais e de doenças enfrentadas; descrição de grupos indígenas e da organização urbana, social e cultural das cidades visitadas; exposição sobre as características dos rios, do clima, das plantas e das paisagens em geral; descrição dos rituais das populações indígenas encontradas, como a caça a um “urso” (Tremarctos ornatus), danças, funerais, ornamentos, alimentação; observações sobre as línguas indígenas; notícias sobre a alimentação possível durante as viagens, perigos enfrentados, roubos e preparativos para os deslocamentos, dentre numerosos outros assuntos – promovem sempre uma imagem positiva e heroica do europeu que enfrenta dores e perigos em prol da ciência e da civilidade, em contraposição à “barbárie” e “selvageria” das populações locais, com seus hábitos e costumes que muito se distanciam daqueles dos europeus. A título de exemplo, citamos três momentos da viagem, respectivamente: no primeiro o autor descreve as dificuldades enfrentadas quando ele e seus companheiros de viagem, indígenas, se desentenderam e ele foi deixado só na floresta; no segundo dedica-se a apresentar aspectos da alimentação de um grupo indígena; por fim, no terceiro, trata da análise do ritual de sepultamento das populações locais:

No dia 1º de julho (sétimo dia), quase havia perdido toda esperança de escapar vivo daquele sombrio isolamento, enquanto o rio continuava a subir com grande violência; além disso, já não era possível mover-me, pois estava entre dois rios que, tendo a mesma origem no vulcão Antisana, estavam em plena enchente, tornando-se ambos intransponíveis naquele momento. Isso formava uma espécie de hidrômetro que eu observava a cada hora, fazendo diferentes marcações na praia; sempre que via a água diminuir, renascia em mim a esperança, que infelizmente se dissipava algumas horas depois. No oitavo dia, o tempo ficou límpido e sereno, então pude estender meu poncho (capa) e vários objetos para secar ao sol; em seguida, reuni um pouco de lenha para acender o fogo e cozinhar um grande colimbo5 aquático que havia repentinamente pousado em uma rocha, e que certamente não perderia a oportunidade de empalhar em outro momento mais oportuno6

(Osculati, 1854, p. 91).

A alimentação corriqueira desses índios consiste em inhames, yucka, mandiocas assadas e bananas verdes torradas. A mandioca, que para eles substitui o pão, é uma planta com cerca de um braço de altura, com folhas largas, dotada de tubérculos brancos muito grandes, não menores que os nossos nabos, doces e farinhentos. Eles são muito apreciadores de carne de caça, trazendo de suas caçadas macacos, pássaros, porco do mato. Eles também se alimentam de répteis, rãs e insetos; são habilidosos pescadores e, em certas épocas do ano, costumam se reunir em grande número para partidas de pesca que duram não menos que oito a dez dias. Eu quis estar presente em uma dessas e fiquei bastante satisfeito, pois pude escolher muitos exemplares que consegui conservar no álcool7

(Osculati, 1854, p. 110).

Muito pouco, ou melhor, quase nada, esses índios souberam aproveitar, tanto nas artes da civilização quanto no que diz respeito aos dogmas e práticas da religião, dos ensinamentos e exemplos dos missionários e párocos, pecando a maioria em incredulidade e idolatria. Acreditam na metempsicose como os indianos do Ganges; tendo um dia perguntado a um dos anciãos da aldeia, que conhecia um pouco de espanhol e parecia ser o mais instruído, no que ele acreditava ser a alma, ele respondeu imediatamente que era um sopro de ar, que ao sair do corpo humano no momento da morte entra no corpo de um animal qualquer, e uma vez morto este, vai se unir a outro corpo. Talvez como resultado dessa crença, os Yumbos gostam de enterrar seus mortos não muito longe das cabanas, iludindo-se que assim têm constantemente um guardião que afasta dos recém-nascidos os seus inimigos, e que afasta os animais nocivos e os gênios malignos, transmigrando o falecido em um tigre ou outra fera8

(Osculati, 1854, p. 112-113).

Nos cerca de quatorze meses de viagem, a exemplo do que fizera nas outras expedições, e a exemplo de outros viajantes, Gaetano Osculati reuniu um notável volume de amostras de animais, plantas, ornamentos, artefatos e outros objetos etnográficos dos lugares por onde passou, produziu notas e breves dicionários das línguas Quechua e Záparo, com termos e expressões destinadas a auxiliar os viajantes que porventura viessem a circular pela região e também a ajudar na navegação fluvial. Ou seja, além do relato da viagem, a obra contém os seguintes apêndices: Catálogo das armas, utensílios, ornamentos, instrumentos de caça e pesca de várias tribos, que compõem a coleção etnográfica do autor; notas sobre a língua Zaparo (pequeno dicionário e algumas frases necessárias para os viajantes); pequeno dicionário da língua Quechua com frases e vocábulos necessários para a navegação no rio Napo; sinopse dos vertebrados doados ao Museu de Milão; notas bibliográficas comentadas sobre as principais obras sobre a região do Rio Amazonas e seus afluentes; mapas e ilustrações das regiões percorridas em que transparecem paisagens e povos que iam sendo conhecidos. Para além do relato da viagem, a edição constitui-se, portanto, uma importante fonte de pesquisa para compreender uma parte da história da América, feitas as ressalvas referentes ao “filtro” europeu ao criar essas imagens. É o caso das ilustrações que reportamos a seguir, a título de exemplo:

Ilustração dos indígenas Ticunas e Mundurucu
Figura 1
Ilustração dos indígenas Ticunas e Mundurucu
Fonte: Osculati (1854) [Descrição da imagem] Ilustração representando os indígenas Ticunas e Mundurucu, que fazem parte da obra de Gaetano Osculati aqui estudada. A ilustração possui três figuras humanas indígenas, posicionadas lados a lado, sendo as figuras laterais masculinas e a figura central feminina. Ambos apresentam cor parda e pinturas corporais no rosto. Os homens possuem cabelos longos, adornos nos braços, pés e pescoço, e vestimenta branca que lhes cobre apenas as partes íntimas. A figura masculina à esquerda representa os Ticunas e está posicionada de frente e carrega uma lança; a figura masculina à direita representa os Mundurucus, está de costas e carrega uma espécie de cetro, além de vestir uma espécie de chapéu e tranças longas até os joelhos. A figura feminina, Ticuna, está posicionada de frente e possui como vestimenta uma espécie de saia colorida preta, amarela e vermelha que lhe cobre até a metade da coxa. Ela está com uma das mãos na cintura e carrega na outra uma espécie de ornamento. Atrás na figura feminina, no centro da imagem, há uma oca indígena de tamanho médio, na cor amarela e cinza. O fundo da imagem é branco e as figuras humanas estão localizadas sob um terreno verde e amarronzado. Na parte inferior da imagem há uma legenda em italiano com os seguintes dizeres: “índios Ticunas no alto Amazonas (Província de Maynas, Perù) e selvagens Mundurucus” [Fim da descrição].

Ilustração de armamentos indígenas
Figura II
Ilustração de armamentos indígenas
Fonte: Osculati (1854) [Descrição da imagem] Ilustração representando armamentos de grupos indígenas, também presente na edição aqui estudada. A imagem apresenta cerca de 20 espécies de lanças, anzóis, arco, flechas, faca e machadinha, posicionadas lado a lado. Na parte inferior da imagem há um escrito em italiano indicando que se trata de armamento indígena. [Fim da descrição].

É importante destacar que, no caso da primeira imagem, a composição da cena é possivelmente irreal porque, além de um casal Ticuna, inclui, à direita, um Mundurucu do Tapajós, grupos que viviam a uma distância de cerca de 2500 km entre si (Porro, 1996, p. 157) Na ilustração, os grupos étnicos distintos são colocados espacialmente dentro da mesma figura, pisando o mesmo chão, tendo ao fundo uma habitação (oca ou maloca) minúscula que não está em perspectiva. A própria legenda da ilustração, “Índios Ticunas no alto Amazonas (Província de Maynas, Perù) e selvagens Mundurucus” mostra que Gaetano Osculati parecia não estar preocupado em representar os indígenas dentro das suas especificidades locais, apagando assim referências importantes e inserindo, no imaginário do público leitor, uma ideia de convivência entre os indígenas que talvez não existisse.

No capítulo XXI, ao continuar o relato sobre as visões acerca do território brasileiro, o autor discorre sobre os grupos indígenas, a aquisição de um barco, o rio Javari, a fabricação do óleo de tartaruga e recolhimentos dos ovos deste réptil, a descrição de povoados, vegetação, população, construção de casas, vestimentas das mulheres, dentre outros assuntos.

3. Comentários de tradução

Como foi dito, escolhemos para compor essa antologia a parte final do capítulo XX e o capítulo XXI da obra Esplorazione delle regioni equatoriali (1850), pois nesses trechos Gaetano Osculati relata, respectivamente, a entrada no território brasileiro e o início da viagem até Belém do Pará, quando ele, saindo de Tabatinga, passa por São Paulo de Olivença, Santo Antônio do Iça e chega rio Tonantin, onde, atualmente, encontra-se o município de Tonantins. Como o leitor e a leitora poderão perceber, as primeiras descrições sobre as terras do Brasil presentes no capítulo XX seguem os modelos de imagens edênicas e primaveris encontradas desde as primeiras descrições do Novo Mundo, ao mesmo tempo em que são ilustradas também imagens pessimistas da natureza, quase que como um declínio infernal:

As margens eram aprazibilíssimas; cobertas de árvores majestosas, que nunca foram tocadas por machados, e bandos de patos, de papagaios e outras aves passavam a cada instante de uma para a outra margem; mas aqui também era insuportável o assédio dos mosquitos, e de certos insetos quase invisíveis, que enevoam o ar ao redor, causando-me, além das picadas dolorosas, náusea por causa das contínuas fumigações perto do povoado9

(Osculati, 1854, p. 218).

O texto escrito por Gaetano Osculati segue a narrativa de viagem em forma de diário, ora apresentando os itinerários percorridos e os desafios enfrentados, ora descrevendo plantas, animais, grupos de pessoas, povoados e cidades. Adiantamos que nosso projeto de tradução procurou manter, seja pela escolha do léxico, seja pela escolha da manutenção da pontuação que dá ritmo à narrativa, as características materiais do texto, a fim de que o público leitor possa perceber a historicidade do texto, publicado há pouco mais de 170 anos. Procuramos fazer, em primeiro lugar, uma leitura atenta seguida da análise sistêmica do texto, adotando princípios como: compreender o contexto histórico da viagem e a biografia do autor; individuar as palavras-chave do texto escolhido que remetem aos temas dominantes, tais como o vocabulário referente à fauna, flora, topônimos, características humanas, elementos da navegação, dentre outros; identificar o tempo cronológico da viagem; averiguar se houve ou não alguma mudança no ritmo da narrativa ao longo do texto; seguir a sua estrutura, a sintaxe, a ordem das palavras e a pontuação tanto quanto possível, observar a recorrência das ideias do autor sobre determinados assuntos, como por exemplo sobre os costumes indígenas. Utilizamos notas de rodapé tanto para casos em que consideramos importante apresentar explicações específicas, quanto para informar o público leitor acerca de determinadas escolhas de tradução. Apesar de trabalharmos com línguas de origem latina e com estruturas lexicais, semânticas e morfológicas bastante próximas, o processo de tradução não foi simples e exigiu várias revisões e constantes refazeres.

Vale lembrar que o relato foi produzido na metade do século XIX, quando a Itália ainda não existia como um estado nacional e sua língua era caracterizada por um notável número de variações tanto na escrita como nos falares regionais, a depender de cada local da península. Considerando esta situação, algumas particularidades foram identificadas como marcadores de época e que estimularam a pesquisa para uma melhor compreensão da relação entre o italiano da época e o italiano standard de hoje. Entre elas, o uso da letra j no lugar da letra i, no interior da palavra ou para marcar o plural, assim como um vocabulário e formas contratas em desuso ou pouco usado atualmente, como exemplificado na tabela a seguir:

Tabela 1

Fonte: Os Autores

Também atualizamos na tradução o uso das desinências verbais na primeira pessoa do tempo imperfetto no modo indicativo. Gaetano Osculati frequentemente utiliza a desinência em -a para falar em primeira pessoa do singular, quando no italiano standard de hoje essa marcação é dada pela letra -o (por exemplo, ero, portavo. [eu era, eu levava], e enquanto -a, atualmente, determina a terceira pessoa do singular (por exemplo era, portava [ele/ela era, ele/ela levava]). O uso da primeira pessoa em -a era comum no século XIX, (Migliorini, 2001, p. 568), mas hoje não está mais em uso e, portanto, sua manutenção causaria uma deturpação do texto.

Ainda sobre o uso do imperfetto no texto em italiano, é notável a supressão da letra v como por exemplo em dicea = diceva [dizia]; avea = aveva [tinha]; potea = poteva [podia]). Nesse caso, tanto a forma com v (diceva) quanto a forma que o suprime (dicea) aparecem no relato de Gaetano Osculati, por serem formas comuns na época, mas na tradução optamos por suprimir essas diferenças, traduzindo ambas as formas como “dizia”, “tinha”, “podia”.

Outro desafio que pode estar presente quando se traduz é a ocorrência de erros no próprio texto a ser traduzido, sejam eles de impressão, ortografia ou conceituais. Neste último caso, citamos o caso da descrição das características do pirarucu por Gaetano Osculati: le piume poi sono tutte screziate di rosso e bleu10 [as penas são todas manchadas de vermelho e azul]. No contexto da frase, há um estranhamento em relação ao uso de le piume [as penas], pois o termo está diretamente associado à estrutura das aves, e não dos peixes. As consultas sobre anatomia e fisiologia dos peixes em geral e do pirarucu em particular não evidenciaram nenhuma estrutura chamada “pena” [la piuma; plural le piume], porém em italiano existe o termo la pinna [plural le pinne] para designar a nadadeira [la spina ou la pinna] do peixe, que pode ser dorsal, caudal, peitoral, ventral, etc. Assim, optou-se por usar, na tradução, o termo “nadadeiras”, acrescentado uma nota de rodapé para indicar a presença do termo “le piume” como um possível erro editorial.

Uma situação bastante desafiadora foi a tradução da palavra musticchi, cujo correspondente não foi localizado nos dicionários em português, italiano, espanhol e tupi. A pesquisa encontrou uma referência presente no livro de Isacco Weld, Viaggio nel Canadà negli anni 1795, 1796 e 1797 [Viagem ao Canadá nos anos 1785, 1796 e 1797] onde há a explicação de que se trata de um inseto. Por outro lado, a palavra é semelhante ao termo francês usado para mosquito, ou seja, moustiche, podendo indicar o uso de galicismo (gallomania), muito comum naquela época. Contudo, na frase Salubre ne è il soggiorno, che di notte recano grave molestia i musticchi e le zanzare [É salubre a permanência ali, só que, à noite, trazem graves incômodos os musticchi e os mosquitos] – após musticchi vem le zanzare, isto é, os mosquitos. Considerando que não faria sentido a repetição (os mosquitos e os mosquitos), o termo usado pelo autor foi mantido e uma nota de rodapé foi acrescentada, a fim de não apagar este registro, pois, possivelmente, Gaetano Osculati estava se referindo a um tipo específico de inseto que, assim como os mosquitos, o atormentavam.

Em relação aos topônimos, traduzimos nomes de países, como por exemplo, Brasile (Brasil), Equatore (Equador) e Columbia (Colômbia). Os nomes dos rios foram mantidos conforme escritos pelo autor, com exceção de fiume delle Amazzoni [rio das Amazonas], traduzido para rio Amazonas. Os nomes dos povos também foram mantidos. Optamos por notas de rodapé quando o autor usou o espanhol para se referir a lugares e municípios brasileiros, a exemplo de Calderón (Caldeirão) e S. Pablo d’Oliveinça (São Paulo de Olivença).

Por fim, outro elemento que caracterizou o texto de Gaetano Osculati aqui traduzido e que se constituiu em um desafio de tradução foi a referência a duas embarcações específicas utilizadas no percurso pelo Rio Amazonas: a montaria e a garritea. Como esses termos não foram encontrados nos dicionários italianos pesquisados, optamos por mantê-los conforme constam no texto em italiano, e acrescentamos notas explicativas de rodapé. “Montaria”, apesar de ser uma palavra existente em português, é pouco conhecida e designa um tipo canoa ligeira, de um só madeiro, em geral escavada a fogo. No espanhol usa-se monteria que significa embarcação fluvial pequena, semicilíndrica e sem quilha. Em relação à garritea,não foi possível determinar se o autor conhecia uma variação da palavra igarité (ou igareté) de origem tupi (Ygar’-eté/yareté) ou se escreveu conforme entendia aquilo que ouvia, dando origem à garritea. Ao contrário de montaria, a igareté era um tipo de canoa que possuía uma cobertura, proporcionando um certo conforto e proteção para percursos mais longos. Acreditamos assim, ainda, ter contribuído para manter a impressão de um texto escrito em outra época e marcado por interferências linguístico-culturais, ao invés de atualizar os registros para “embarcação” ou “barco”, o que a nosso ver geraria um apagamento de significados que traria prejuízos de compreensão ao público leitor.

Ao realizar a tradução do trecho selecionado de Esplorazione delle regioni equatoriali, portanto, foi de nosso interesse observar tanto as nuances específicas das línguas/culturas envolvidas, quanto considerar as possíveis expectativas do público leitor. Adentramos assim nas searas da negociação, sobre a qual Umberto Eco afirma: “o tradutor deve negociar com o fantasma de um autor na maioria das vezes desaparecido, com a presença invasora do texto fonte, com a imagem ainda indeterminada do leitor para quem está traduzindo”11 (2000, p. 396). Na construção desse acordo entre línguas/culturas envolvidas, o texto, sempre aberto por natureza, passa a exibir potencialidades interpretativas que lhe eram desconhecidas (Eco, 2000. p. 195) e, desse modo, o trabalho de quem traduz acaba por fazer sentido na reciprocidade dinâmica entre o texto de partida e o texto da tradução. Com isso, desejamos ter contribuído para a divulgação da obra de Gaetano Osculati na língua portuguesa – já que, ao que parece, seus textos carecem de tradução no Brasil – e, consequentemente, para uma reflexão mais consciente acerca da nossa história, sempre lembrando que “História não é bula de remédio nem produz efeitos rápidos de curta ou longa duração. Ajuda, porém, a tirar o véu do espanto e a produzir uma discussão mais crítica sobre nosso passado, nosso presente e sonho de futuro” (Schwarcz, 2019, p. 26).

Referências

Accademia della Crusca. Grande dizionario della lingua Italiana (2018). https://www.gdli.it/.

Alló Netto, G. O. (2023) Proposta di traduzione dall’italiano al portoghese e commento di una selezione di Esplorazione delle regioni equatoriali lungo il Napo e il Fiume delle Amazzoni (1854) di Gaetano Osculati. [Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Letras-Italiano Bacharelado], Universidade Federal de Santa Catarina. https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/248903.

Eco, U. (2000) Dire quasi la stessa cosa. Esperienze di traduzione. Bompiani.

Holanda, S. B. (2000). Visão do paraíso. Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. Brasiliense; Publifolha.

Osculati, G. (1854). Esplorazioni delle regioni equatoriali lungo il Napo ed il fiume delle Amazzoni. 2ªed. Fratelli Centenari. https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5027.

Migliorini, B. (2001). Storia della lingua italiana. Bompiani.

Porro, A. (1995). 0 povo das águas: ensaios de etno-história amazônica. Vozes.

Schultz, B. S. (2017). O léxico do português sob o olhar de Gaetano Osculati: elementos da fauna e flora. Revista de Italianística, XXXV. (125 - 149). https://www.revistas.usp.br/italianistica/article/view/141896.

Schwarcz, L. M. (2019). Sobre o autoritarismo brasileiro. Companhia das Letras.

Surdich, F. (2013). Gaetano Osculati. In: Dizionario biografico degli italiani. Vol. 79. https://www.treccani.it/enciclopedia/gaetano-osculati_%28Dizionario-Biografico%29/.

Torno, A. (2018) Gaetano Osculati, il viaggiatore che fece conoscere l’Amazzonia al mondo. Il Sole 24 Ore. https://www.ilsole24ore.com/art/gaetano-osculati-viaggiatore-che-fece-conoscere-l-amazzonia-mondo-AEdKe2UG.

Notes

1 Este recorte foi tema do Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Letras-Italiano Bacharelado, da Universidade Federal de Santa Catarina, realizado por Geraldo de Oliveira de Alló Netto e finalizado em 2023 sob o título Proposta di traduzione dall’italiano al portoghese e commento di una selezione di Esplorazione delle regioni equatoriali lungo il Napo e il Fiume delle Amazzoni (1854) di Gaetano Osculati. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/248903. Acesso em 29 de fevereiro de 2024.
2 Para não sobrecarregar o texto com excesso de referências, optamos por apresentar aqui uma visão bastante sucinta sobre a vida do autor, em especial sobre as suas viagens. As informações biobibliográficas foram retiradas de: Surdich, 2013; Torno, 2018, de modo que informações mais detalhadas podem ser consultadas nesses autores, cuja referência completa encontra-se no final deste artigo.
3 “Il 10 agosto iniziò la risalita della costa diretto in Bolivia, visitando Cobjia, Iquique, Arica, Islay, Quilca, Arequipa e Callao: nella baia di Arica si unì a un gruppo di giovani aspiranti delle marine militari della Francia e della Gran Bretagna nel saccheggio di tombe preispaniche, ricavando da questa impresa alcuni oggetti dei corredi funerari e qualche annotazione. Verso il 23 settembre giunse a Lima dove, bloccato dalla guerra civile fra Luis José Orbegoso e Felipe Santiago Salaverry, si trattenne alcuni mesi prima di tornare a toccare la coste europee, a Cadice, dopo una navigazione di sei mesi per la rotta di Capo Horn.” Todas as traduções são de nossa autoria.
4 “La loro completa nudità, quelle treccie sparse, quegli ornamenti di penne, quelle strane grida, il chiaro di luna nel mezzo di folte boscaglie dava un aspelto singolarissimo a quella scena, tale che credea d’assistere a quelle treggende, a quei balli di streghe sotto le noci, che le nutrici mi raccontavano da fanciullo”.
5 Segundo o dicionário da Accademia della Crusca (2018) “colimbo” pertence ao gênero Colymbus, que por sua vez compreende cinco espécies, as quais vivem sobre a água e imergem para buscar alimento e para se defender de predadores. São migrantes e exímios mergulhadores, vivendo nas zonas árticas e subárticas do hemisfério norte. Já no dicionário Brasileiro Globo (1986) encontramos a definição de “colimbo” como gênero de aves aquáticas de plumagem clara, habitualmente encontradas nos mares do Norte da Europa. Seja como for, ao realizar a tradução mantivemos o nome da ave tal qual reporta Gaetano Osculati. Ao que parece, provavelmente ele utiliza o nome “colimbo” para designar uma ave de proporções grandes, parecida com alguma espécie por ele conhecida.
6 “Il 1.° luglio (settimo giorno) aveva quasi perduta ogni speranza di poter scampar vivo da quella tetra solitudine, continuando la piena del fiume sempre colla stessa violenza; né mi era nemmeno più possibile di muovermi giacché mi trovava fra due fiumi che avendo la stessa origine dal vulcano Antisana, aveano le stesse epoche di alluvioni, quindi ambedue non guadabili in quel momento, lo aveva formato una specie di idrometro che osservava ad ogni ora, facendo diversi segnali sulla spiaggia; appena lo vedeva abbassare, rinasceva in me la speranza, che pur troppo perdeva scorse poche ore. Nell’ottavo giorno il tempo si fe’ limpido e sereno, sicché potei distendere il mio pouncho (mantello) e vari oggetti ad asciugare al sole; poscia radunai un po’ di legna per accender il fuoco e cuocere un grosso colimbo acquatico che improvvisamente era venuto ad adagiarsi su uno scoglio, e che non avrei certo mancato d’impagliare in altro momento più fortunato.”
7 “Il cibo ordinario di cotesti indiani consiste in ignami, yucka, mandi arrostiti e banane verdi abbrustolite. Il mandi, che tien lor vece del pane, è una pianta alta un braccio, con foglie larghe, fornita di tuberi bianchissimi e grossi non meno delle nostre rape, dolci e farinacei. Sono assai ghiotti delle carni di selvaggina, riportando delle loro caccie scimmie, uccelli, cignali. Si nutrono pur anco di rettili, rospi ed insetti; sono abili pescatori, ed in certe epoche dell’anno sogliono radunarsi in gran numero per partite di pesca che durano non meno di otto a dieci giorni. Io volli esser presente ad una di queste, e ne rimasi assai soddisfatto, avendo potuto scegliere moltissimi esemplari che riuscii a conservare nell’alcool.”
8 “Assai poco, o per dir meglio affatto nulla, quegli indiani hanno saputo approfittare sì nelle arti della civiltà che in ciò che riguarda i dogmi e le pratiche della religione dagli insegnamenti e dagli esempi dei missionari e parrochi, peccando invece la più parte d’incredulità e d’idolatria. Credono nella metempsicosi al pari degli indiani del Gange; avendo un giorno chiesto ad uno degli anziani del paese che conosceva un po’ lo spagnuolo e passava pel più istruito, che cosa mai egli credesse fosse l’anima; mi rispose all’istante esser un soffio d’aria, che uscendo dal corpo umano al momento della morte entra in quello d’un animale qualunque, morto il quale si va ad unire ad altro corpo. È forse in conseguenza di questa credenza che gli Yumbos amano seppellire i loro morti poco discosto dalle capanne, lusingandosi di aver in tal modo di continuo una guardia che espelle dai seminati i loro nemici, che ne allontana gli animali nocivi ed i genii malefici, trasmigrandosi quel defunto in una tigre o in altra belva.”
9 “Le rive erano amenissime; sparse d’arbori maestosi, che non vennero mai tocchi da scure, e stuoli di anitre, di pappagalli e d’altri volatili passavano ad ogni istante dall’una all’altra riva; ma qui pure era insopportabile la molestia delle zanzare, e di certi insetti quasi invisibili, che annebbiano l’aria intorno, cagionandomi oltre alle dolorose punture la nausea delle continue fumigazioni vicino all’abitato.”
10 “Il corpo è oblungo, le squamme sono grandi, ossee, colla pinna dorsale lunghissima. Il colore è di un verde scuro al disopra e di un roseo carico al disotto; la più parte delle squamme ha una macchia rossa dall’un lato, le piume poi sono tutte screziate di rosso e bleu [O corpo é oblongo, as escamas são grandes, ósseas, com uma nadadeira dorsal muito longa. A cor é de um verde escuro em cima e um rosado profundo embaixo; a maior parte das escamas tem uma mancha vermelha de um lado, as nadadeiras são todas manchadas de vermelho e azul].”
11 “Il traduttore deve negoziare con il fantasma di un autore sovente scomparso, con la presenza invadente del testo fonte, con l’immagine ancora indeterminata del lettore per cui sta traducendo.”
Conjunto de dados de pesquisa Não se aplica.
Financiamento Não se aplica.
Consentimento de uso de imagem Não se aplica.
Aprovação de comitê de ética em pesquisa Não se aplica.
Publisher Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.

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