Artigo

Comentários da tradução de Di ritorno dal Parà, relato de viagem de Oreste Mosca

Comments on the translation of Di ritorno dal Parà, a travel report by Oreste Mosca

Priscila Nogueira da Rocha
Universidade Federal do Ceará, Brasil
Rafael Ferreira da Silva
Universidade Federal do Ceará, Brasil
Suelen Najara de Mello
Universidade Federal do Ceará, Brasil

Comentários da tradução de Di ritorno dal Parà, relato de viagem de Oreste Mosca

Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104216, 2024

Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 06 October 2024

Revised document received: 07 December 2024

Accepted: 23 November 2024

Published: 01 December 2024

Resumo: Este trabalho visou contribuir com os estudos sobre tradução de relatos de viagem sobre a Amazônia, apresentando alguns capítulos da obra Di ritorno dal Parà: impressioni di viaggio di Oreste Mosca, publicada em 1899 pela Editora L. A. Campodonico, de Gênova, Itália, ainda pouco conhecida no Brasil. De acordo com nossas pesquisas, esta é a primeira tradução para o português desta obra, da qual foram selecionados episódios-chave. O acervo digital da Biblioteca Pública Arthur Vianna, da Fundação Cultural do Estado do Pará, dispõe de uma seção de obras raras digitalizadas, dentre as quais se encontra a obra objeto de estudo deste trabalho, redigida em italiano e contando com o prefácio de Oreste Calamai, diretor da Revista L’Amazzonia. O presente estudo apresenta de forma sintetizada algumas considerações referentes ao processo de tradução, análise, elaboração de notas e comentários de alguns capítulos da obra, focada em relatos de viagem, e destaca aspectos que merecem ser compartilhados com o leitor, uma vez que o entendimento da sociedade, história e cultura da época é fundamental para a elaboração da tradução final. A tradução comentada tem crescido em importância dentro dos Estudos de Tradução, pois esclarece aos leitores aspectos da obra traduzida, bem como questões culturais e linguísticas envolvidas no processo de tradução. Isso estabelece uma conexão entre o texto fonte e a cultura do público leitor (Nouss, 2010). Neste contexto, o papel ativo do tradutor como mediador entre culturas é evidente, criando não apenas conexões, mas vínculos indissolúveis (Zilly, 2000). Observações gerais foram feitas em relação ao texto em si, abrangendo aspectos como público-alvo, narrativa, estilo, sintaxe e vocabulário.

Palavras-chave: Estudos da tradução, tradução comentada, Oreste Mosca, relato de viagem, Di ritorno dal Parà.

Abstract: This paper aims to contribute to studies on the translation of travel reports about the Amazon by presenting some chapters from the work Di ritorno dal Parà: impressioni di viaggio di Oreste Mosca, published in 1899 by L. A. Campodonico, Genoa, Italy, which is still little known in Brazil. According to our research, this is the first Brazilian Portuguese translation of this work, from which key episodes have been selected. The digital collection of the Arthur Vianna Public Library, of the Cultural Foundation of the State of Pará, has a section of digitized rare works, among which is the work that is the subject of this study, written in Italian and with a preface by Oreste Calamai, director of the magazine L’Amazzonia. This study summarizes some considerations regarding the process of translation, analysis, notes and comments on some chapters of the work, which focuses on travel reports, and highlights aspects that deserve to be shared with the reader, since understanding the society, history and culture of the time is fundamental to the preparation of the final translation. Commented translation has grown in importance within Translation Studies, as it clarifies aspects of the translated work for readers, as well as the cultural and linguistic issues involved in the translation process. This establishes a connection between the source text and the culture of the reading public (Nouss, 2010). In this context, the translator’s active role as a mediator between cultures is evident, creating not just connections, but indissoluble bonds (Zilly, 2000). General observations were made in relation to the text itself, covering aspects such as target audience, narrative, style, syntax and vocabulary.

Keywords: Translation studies, commented translation, Oreste Mosca, travel report, Di ritorno dal Parà.

1. Introdução: O livro Di ritorno dal Parà - impressioni di viaggio di Oreste Mosca

Ao procurarmos no Google por relatos de viagem de exploradores italianos da Amazônia no século XIX, através de termos como esploratore, esploratrice, italiano, italiana, Amazzonia, XIX secolo, deparamo-nos com um livro do acervo digital da Biblioteca Pública Arthur Vianna, da Fundação Cultural do Estado do Pará. A biblioteca, fundada em 1846, dispõe de uma seção de obras raras digitalizadas, na qual está o livro Di ritorno dal Parà. Impressioni di viaggio di Oreste Mosca. O volume, redigido em italiano, conta com prefácio de Oreste Calamai, diretor da Revista L’Amazzonia, e foi publicado em 1899, pela Editora L. A. Campodonico, de Gênova, Itália.

É interessante notar que na mesma biblioteca há outros livros em italiano do mesmo período, como Lo Stato del Pará (Brasile) a Torino 1911: movimento artistico, que é uma publicação oficial, e o Album descrittivo annuario dello stato del Pará 1898, escrito por Arthur Caccavoni. Há também um livro bilíngue Italiano - Português, Álbum descriptivo amazonico (1900), e outro trilíngue Português - Italiano - Alemão, Álbum do Pará em 1899. Estes livros foram localizados através da busca com as palavras italiano e italiana no próprio buscador da biblioteca.

Um ponto a se observar é o caráter publicitário destes volumes, cujo público-alvo eram os italianos interessados em migrar. Possuem várias fotos e informações sobre a cidade e seus aspectos comerciais, climáticos, históricos, etc. Os livros eram a estratégia de marketing para apresentar a região como área de investimento de capitais, produtos e de mão de obra para italianos. Apresentava o que existia de indústria e o que havia de comércio local para os estrangeiros, e também divulgava os produtos e serviços italianos na região.

Para comentar sobre a nossa tradução de alguns capítulos selecionados de Di ritorno dal Parà, achamos importante começar pelo autor Oreste Mosca e depois falar sobre Oreste Calamai, que, como dito, é quem assina o prefácio.

Oreste Mosca foi um jornalista que colaborou com diversos jornais, revistas e editoras. Sobre expedições ao Brasil, antes deste livro, já havia publicado a obra L’emigrazione italiana in Brasile essenzialmente negli stati di San Paulo e Parà, com prefácio de Giuseppe Alessandro Giustina (conhecido como Ausonio Liberi), pela Editora Origlia, Festa e Comp., de Turim, em 1897. O objetivo de ambos os livros, assim como os dos outros já citados, também é claramente publicitário.

Já Oreste Calamai foi o diretor da revista quinzenal L’Amazzonia, editada por um grupo de homens de negócios com interesses em comum nos dois lados do Atlântico, patrocinada pelo deputado e armador Gustavo Gavotti. Segundo Gonçalves (2013), as reportagens tinham temas variados como vegetação, população, condições sanitárias e o principal: borracha, política e migração e colonização. A linha editorial promovia a região amazônica como um local para se desenvolver, independente da classe social do cidadão italiano, com aceno para a fertilidade das terras. Percebe-se que acreditavam na publicidade como modo de expandirem seus negócios.

O livro Di ritorno dal Parà é o relato da expedição à Amazônia comandada pelo jornalista Augusto Franzoj, com quem Mosca já tinha viajado antes, organizada para fins de propaganda pela companhia naval Ligure-Brasiliana, chefiada por Gavotti e por uma grande empresa que lucrava com os fluxos migratórios e com as trocas comerciais. A expedição partiu de Gênova em 10 de fevereiro de 1899, e dentre os passageiros se encontravam o médico Antonio Razzaboni, o químico turinense Guido Guidone e o agrimensor Quintino Pene. Logo que chegaram ao Brasil e durante as primeiras etapas de aproximação da área de Manaus, encontram as primeiras dificuldades. Uma epidemia de febre amarela estava assolando a região, e os membros da expedição foram contaminados. Após as mortes de Guidone e Razzaboni por febre amarela, a expedição foi interrompida, principalmente porque um dos objetivos era demonstrar aos futuros migrantes italianos que não havia risco de contrair doenças perigosas. Em 5 de maio, Franzoj, Quintino Pene e Oreste Mosca retornaram à Itália entre desilusões e polêmicas.

A edição de que dispusemos para fazer a tradução é uma edição digitalizada, isto é, as páginas, já envelhecidas, foram escaneadas e salvas uma por uma, dispostas em um software de leitura digital. As páginas viram digitalmente, inclusive com som digital de papel. Devido ao estado da obra e à forma como está acessível no site da biblioteca, não conseguimos baixar as páginas, nem o livro inteiro para transformar os arquivos de imagens em arquivos de texto (OCR), portanto tivemos que partir da digitação do texto em italiano para então fazermos a tradução para o português. O método utilizado foi a “digitação por voz” do GoogleDocs, configurado para o idioma italiano. Como no texto há muitas palavras com a grafia antiga do italiano (pioggie, diecina, spagnuoli, giuochi, quistione, perchè) e termos em português (nomes próprios, seringueiro, borracha, mandioca, etc.), foi necessária uma revisão para deixar o texto digitado tal e qual o livro.

O livro tem 156 páginas, divididas em Prefácio, 32 capítulos, e, ao final, apresenta uma espécie de anexo: a seção Statistiche diverse, com sete planilhas nas quais são apresentados os dados estatísticos da região, e a seção Ditte Raccomandate (Empresas recomendadas), que é uma lista de referências de bancos, lojas e jornais, tanto de Belém, quanto de Manaus. O livro é permeado de fotos da paisagem paraense ao longo dos capítulos, os quais tratam desde a partida de Gênova e perpassam por toda a expedição, com relatos em sua maior parte romantizados sobre o cenário que o migrante encontraria, como a população, a vida na cidade, oportunidades de trabalho, desenvolvimento urbano, comércio, indústrias, saúde pública, doenças tropicais, flora, fauna, mobilidade, vida no interior e, sobretudo, o sucesso de outros migrantes.

Uma questão que nos chamou a atenção foi o fato de Oreste Mosca em determinado momento chamar a língua portuguesa falada no Brasil de “lingua brasiliana”. Na tradução, optamos por manter o termo “brasileira”, já que o autor sabia que a língua oficial era o português, como evidenciado em outros trechos, e, mesmo assim, quis usar o termo. Nota-se que a concomitância dos termos “português” e “brasileiro”, por parte dos estrangeiros, para se referir à língua do Brasil não é recente.

Vários capítulos contam com fotografias ilustrativas, que visavam aproximar mais o leitor da época do local em que se passa o relato de viagem. Hoje essas fotos podem parecer irrelevantes, mas o livro original foi publicado em um momento que a maioria das pessoas não tinha nenhum conhecimento de como era o novo mundo. Era uma terra de fantasia e mistério, e sendo essa uma peça principalmente de cunho publicitário, era importante trazer uma certa relação de proximidade e reconhecimento. A escolha das fotos de árvores, construções, avenidas e imigrantes europeus, sem retratar nada de muito típico ou exótico, tem muito desse caráter de prover familiaridade. Selecionamos, a título de ilustração, a foto da Avenida da República, presente na página 62, intitulada Viale della Repubblica (Belem), que apresenta o progresso da capital Belém, com suas construções, ruas e trilhos de bonde. Nota-se que a foto não está conectada com o capítulo onde se encontra, que é sobre A colônia Benjamin Constant, situada no interior do estado.

Foto da Avenida da República em Belém em 1899
Figura 1
Foto da Avenida da República em Belém em 1899
Fonte: Mosca, Oreste (1899) [Descrição] A foto mostra uma avenida larga com trilhos de bonde no meio da rua, construções não muito altas, árvores ao fundo e pessoas nas calçadas. [fim da descrição]

Na próxima seção trataremos sobre as nossas escolhas tradutórias.

2. O processo tradutório: desafios entre possibilidades e decisões

Após a leitura completa da obra, decidimos, para esse número da Cadernos de Tradução, fazer a tradução dos capítulos A borracha, A febre amarela, Em Jambu-Açu e na aldeia indígena Maracanã, Em Bragança – Uma visita à Colônia Benjamin Constant, A colônia Benjamin Constant e A viagem a Itaituba, que se fossem numerados, equivaleriam aos capítulos 16 a 21. A escolha se deu pelo fato de estes capítulos terem algumas questões tradutórias que gostaríamos de ressaltar.

Adotaremos a teoria da tradução comentada para elucidar como essa abordagem teórica orienta nossas escolhas e decisões ao longo do processo de tradução. Nesse sentido, a definição proposta por Williams & Chesterman (2002, p. 7) nos oferece uma compreensão mais aprofundada desse fenômeno. Segundo os autores, a tradução com comentário (ou tradução comentada) é uma forma de pesquisa introspectiva e retrospectiva em que o tradutor traduz um texto e, ao mesmo tempo, escreve um comentário a respeito de seu processo de tradução. Esse comentário inclui alguma discussão a respeito do encargo de tradução, uma análise de aspectos do texto fonte e justificativas bem fundamentadas dos tipos de soluções a que se chegou para tipos específicos de problemas de tradução.

As questões que trazemos são de ordem linguística e cultural. As questões linguísticas são mais ligadas à forma e à sintaxe; comentaremos sobre a pontuação, ortografia e estratégias formais. As questões culturais são sobre tradução de termos étnicos, domesticação e estrangeirização, tradução de humor e de referências culturais.

Comecemos pelas questões linguísticas.

Em relação à pontuação, especificamente sobre a adoção das aspas, nota-se que no texto de partida há palavras escritas em português que estão entre aspas para marcar que se tratam de palavras estrangeiras, por isso na tradução realizada para o português entendemos que as aspas não eram necessárias, tampouco a necessidade de se inserir uma nota de rodapé. Já no que diz respeito ao uso dos traços (-) com a função de explicativa, como exemplificado no trecho “L’edificio di un solo piano si innalza da sul livello dell’acqua di un par di metri-ciò per evitare l’alta marea e le quasi periodiche innondazioni solite nella stagione delle pioggie”, optou-se, em alguns momentos do texto traduzido, por transformá-los em vírgulas, tendo em vista que, geralmente, as explicativas em língua portuguesa assumem a vírgula como pontuação padrão para tal fim, como se observa na nossa tradução do trecho de exemplo: “A estrutura, de apenas um andar, eleva-se uns dois metros acima do nível da água, isto para evitar a maré alta e a inundação quase periódica que é comum no período das chuvas.”

De acordo com Berman (2007, p. 48), o processo de tradução envolve olhar para a estrutura sintática do texto de partida e compreender a estrutura do texto de chegada. Esse olhar é denominado de “racionalização” a qual “recompõe as frases e sequências de frases de maneira a arrumá-las conforme uma certa ideia da ordem de um discurso”. Além disso, o teórico afirma que “a racionalização faz passar o original do concreto ao abstrato, não somente ao reordenar linearmente a estrutura sintática, mas, por exemplo, ao traduzir os verbos por substantivos, escolhendo entre dois substantivos o mais geral etc”. Por isso, destacamos também a troca da classe de palavras no trecho “È questa la più bella e più sanacoloniache io abbia mai visitato, dopo quella di Monte Alegro, nello Stato del Parà”, no qual optou-se por trocar um pronome demonstrativo “quella” pelo substantivo “colônia” para deixar evidente ao leitor o local que estava sendo referenciado: “Essa é a colônia mais bonita e saudável que já visitei, depois da colônia de Monte Alegro, no Pará.”

Outra questão formal que auxilia a compreensão é a estratégia do acréscimo. Na nossa tradução eles foram necessários a fim de que elementos fossem mais bem compreendidos pelo leitor, como é o caso do trecho traduzido “Ao longo das travessias que fizemos pelos confluentes do Rio Tapajós - um afluente do Amazonas cem vezes maior que o delta do nosso rio Pó, encontramos uns mil seringueiros, à direita e à esquerda dos igarapés (canais navegáveis)”, no qual antes do nome “Po” foi adicionado o substantivo “rio”, inexistente no texto-fonte, para reforçar o processo comparativo ali ocorrido, configurando a estratégia pragmática, segundo Chesterman (1997), de explicitação. Segundo Berman (2007, p. 51), nos Estudos da Tradução “a explicitação pode ser a manifestação de algo que não é aparente, mas ocultado ou reprimido no original. A tradução pelo seu próprio movimento revela esse elemento”. Foi por meio da explicitação, ou clarificação, que decidimos inserir o substantivo “rio” antes do nome do rio italiano para deixar evidente ao leitor que Oreste Mosca estava se referindo ao rio italiano Pó mesmo que no trecho de partida o substantivo não fosse necessário. Outro exemplo está no excerto “Como sempre, aceitamos e, vestidos com roupas de tecido africano, com botas enormes que não me deixavam andar e armados com rifles de caça e de guerra, embarcamos na manhã seguinte no navio Cidade de Óbidos, que fazia rota direta para Bragança.” no qual optamos por inserir o substantivo “navio” antes de “Cidade de Óbidos”, também inexistente no texto-fonte.

Da mesma forma que optamos por evidenciar ao leitor que “Valentino” refere-se a um grande parque em Turim: inserimos o substantivo “parque” antes do nome “Valentino” no trecho “Guido Guidone, cavaleiro emérito, estava ótimo como os outros. Parecia que eles tinham feito uma caminhada matinal no Parque Valentino.” .

Outro recurso formal utilizado foi a inversão/reestruturação da sintaxe para que alguns trechos não se tornassem complexos na leitura, um exemplo foi o trecho “Ao longo das travessias que fizemos pelos confluentes do Rio Tapajós - um afluente do Amazonas cem vezes maior que o delta do nosso rio Pó, encontramos uns mil seringueiros, à direita e à esquerda dos igarapés (canais navegáveis)”, que ao ser traduzido optou-se por deslocar o final para o meio da frase.

Outra questão de cunho linguístico é sobre ortografia/tipografia. No texto intitulado “A Jamub-Assù e alla colonia indiana di Maracanà” identificamos no nosso processo tradutório um equívoco de tipografia (Jamub) ao se referir a “Jambú”, por isso ao traduzirmos o trecho, fizemos as devidas correções tipográficas. Além disso, o título passou a ser “Para Jambu-Açu e a aldeia indígena de Maracanã”, sendo grafado com o sinal diacrítico cedilha (Ç) em “Assú”, pois, de acordo com Rocha (2022), nas atuais regras ortográficas da língua portuguesa, a grafia correta é “Açu”, visto que se prescreve o uso da letra “C” com cedilha para palavras de origem tupi.

Mais uma vez em relação aos topônimos indígenas, no parágrafo “Terminada a caçada, seguimos viagem passando pelas colônias de Santa Izabel, Santa Rosa, Castanhal e Marapanim, que visitaríamos na volta.” , escolhemos grafar “Marapanim” em vez de “Marapany”, tendo em vista a grafia oficial do nome da cidade, da mesma forma que “Sant’Izabel” também teve a sua grafia seguindo a escrita em língua portuguesa, ou seja, “Santa Izabel”.

A mesma decisão foi tomada em relação aos topônimos do trecho: “Depois vieram as escalas em Alenquer, Boim, Monte Alegre - cidadezinha sobre a qual falarei mais tarde -, Aveiro, Urucuritiba e, finalmente, Itaituba, um vilarejo situado a uma curta distância das tribos selvagens que alguns até afirmam ser antropófagas.”, grafando na tradução “Alenquer” e “Boim”.

Uma outra decisão tomada foi em relação à grafia dos substantivos próprios na tradução que foram escritos de acordo com a grafia vigente. Atualizamos no trecho “Ao longo das travessias que fizemos pelos confluentes do Rio Tapajós”, a grafia do rio Tapajós que seguia a escrita da época, “Tapajoz”.

A mesma decisão foi tomada em relação à escrita do nome da ópera “O Guarani”, com o título grafado em “Y” no texto de partida, foi grafado com “i” na tradução: “Em nossa homenagem, foram organizadas corridas de cavalos, muito parecidas com as de nossos berberes, uma apresentação de ópera - O Guarani - no teatro local”.

No idioma italiano contemporâneo existem somente dois acentos gráficos: agudo [accuto] e grave [grave]. Segundo o dicionário Treccani, “o acento agudo colocado sobre as vogais [...] indica que elas devem ser pronunciadas fechadas”; já “o acento grave nas mesmas condições indica que essas vogais devem ser pronunciadas abertas” . Na língua portuguesa o que acontece é o contrário, o acento agudo é usado nas vogais para indicar a sílaba tônica com som aberto em algumas palavras. Um exemplo claro dessa distinção é a palavra “Parà”, em italiano, onde o acento grave sobre a vogal “a” indica a sílaba tônica e que a vogal deve ser pronunciada de forma aberta, tendo em vista que se Oreste Mosca tivesse mantido o acento agudo usado para escrevê-la em português, os leitores italianos não conseguiriam reconhecer a forma como esse estado é chamado.

Passemos às questões culturais.

Pressupõe-se que um texto sobre a Amazônia do século XIX escrito por um estrangeiro trará muitas informações sobre o período e sobre a perspectiva do outro em relação ao local. Fato, mas Oreste Mosca tinha a função de fantasiar a situação, pois precisava “vender” o Pará como o lugar ideal para os italianos que pensavam em construir um futuro melhor. Todo o exotismo deveria ser modalizado para conquistar os futuros migrantes. Portanto, o texto dele é direcionado a esse público italiano do século XIX. A nossa tradução, porém, é para brasileiros do século XXI. Trazemos nossas inquietações de cunho cultural durante o processo de tradução, observando o modus operandi de Mosca, pensando no leitor da Cadernos de Tradução, estabelecendo uma conexão entre o texto fonte e a cultura do público leitor, como preconiza Nouss (2010).

Começamos pelos termos negro, indiani e colonia.

Segundo o dicionário Treccani, o termo negro em italiano tem acepções diacrônicas diferentes.

Na linguagem comum, no passado, a expressão raça negra significava o complexo de populações da linhagem negride ou, mais amplamente, do ramo negróide, enquanto o adj. negro foi usado genericamente. qualificar tudo o que se referia ou pertencia a essas populações. [...] No uso atual, negro é percebido ou utilizado com valor depreciativo, de modo que em todos os sentidos referentes às populações negras e suas culturas o adjetivo é preferido. e o substantivo preto.

Oreste Mosca usa o termo negro de modo antropológico, sem expressão de racismo. O termo aparece no trecho “Già nessun europeo potrebbe resistervi, come non lo possono i brasiliani e neppur inegri”, cuja tradução é “Nenhum europeu conseguiu resistir a ela, nem os brasileiros, nem mesmo os negros”. Como vimos na explicação do dicionário, se o texto fosse atual, o termo correto a ser utilizado seria nero.

Um outro questionamento nosso, já em relação ao texto-alvo, foi sobre qual termo seria adotado para traduzir o termo “indiani” presente no trecho “I raccoglitori della ‘borracha’ sono i così detti caboclos -indianiora civilizzati - che unici possono affrontare impunemente tutte le insidie di quella fauna e di quella flora, tuttavia meravigliose e ricchissime”, que traduzimos como “Os extratores da borracha são os chamados caboclos - indígenas já civilizados - os únicos que podem enfrentar impunemente todas as armadilhas dessa fauna e flora, ainda que maravilhosas e ricas.”

No que se refere ao termo “índio”, usando no português brasileiro daquele período, tem-se que esse foi amplamente usado em documentações que serviam para relatar o período colonial e imperialista. O seu uso ocupava espaços com a palavra “indígena” na Constituição Federal de 1988 e não apareceu na Lei de Terras de 1850, na qual somente o termo “indígena” é usado para se referir, no Artigo 12, às terras devolutas.

Com base no exposto, adotar o termo “indígena” não só estaria em consonância com a época do texto de partida, como também para nós seria uma forma de realizar a nossa tradução considerando o crescente desuso do termo “índio” de acordo com a alteração realizada na Lei 14.402/2022 que passa a intitular o dia 19 de abril como “Dia dos Povos Indígenas” - e não mais como o dia do “Dia do Índio”.

Após tomada essa decisão, o termo “indiani” será traduzido por “indígenas” em todos os trechos que se seguem em todo o texto. Entendemos que o termo “indígena” hoje é escolhido após um processo de discussão e preocupação da escolha lexical para se referir à diversidade dos povos e que essa reflexão sobre chamá-los de “indiani” seria uma preocupação que teria tido Oreste Mosca ao entender que aqui não se tratavam de povos das Índias, mas de povos indígenas.

Outra questão que nos chamou a atenção é sobre o uso do termo “colônia”, que Oreste Mosca adota tanto para indígenas quanto para colonos. Apesar de o autor não fazer distinção entre elas e utilizar o mesmo vocábulo em ambos os casos, optamos por traduzir pelo termo “aldeia” quando se tratam de assentamentos indígenas, por ser este o mais amplamente aceito. Em contraponto, a palavra “colônia”, mais próxima etimologicamente da original, foi a tradução empregada quando se tratava de agrupamentos de imigrantes.

Passemos para os pontos relacionados a domesticação e estrangeirização, sobre os quais, por se tratar de um comentário de tradução e uma tradução em formato bilíngue, não levaremos para questões político-ideológicas, mas somente ligados à fluidez e à melhor compreensão do leitor, que vai estar com o texto de partida lado-a-lado.

A nossa tradução, portanto, não tem uma preferência por domesticação ou por estrangeirização, tendo escolhido em cada situação de acordo com o que seria melhor, em nossa opinião, para o produto. Decidimos, portanto, adotar a domesticação em alguns casos e a estrangeirização em outros.

No livro, há o uso de “gran babau”, que se refere, de acordo com o dicionário Treccani, a um monstro imaginário que é mencionado para amedrontar as crianças. Por não haver em língua portuguesa uma tradução exata para o termo, domesticou-se tal monstro para a figura brasileira do “bicho-papão”. De acordo com Schleiermacher (2001, p. 43), nossa escolha permite proporcionar ao leitor “uma compreensão e uma apreciação tão completa quanto possível e proporcionar-lhe a mesma apreciação que a do primeiro, sem tirá-lo de sua língua materna”.

Outro exemplo de domesticação utilizada foi em relação ao termo “sardanapalescamente”, que significa “luxuosamente”, e se refere ao último rei da Assíria, Sardanapalo. É uma referência não comum no Brasil. Optamos, então, por traduzir pelo mais usual “nababesco”, que remete à figura de “Nababo”, que era um título dado ao governador, ou vice-rei do Império Mongol, equivalente ao marajá da Índia. Houve a mudança do referente, mas se manteve a ideia de luxo e ostentação.

Mais um caso de domesticação foi em relação à decisão de equivalência de termos para expressar medidas, em que se optou por traduzir a unidade “miriagrammi”, apresentada em “La media del raccolto giornaliero, nella buona stagione, raggiunge i20 miriagrammi”, pela unidade “quilos” em português: “A extração média diária, em um bom período, chega a 200 quilos.” . Essa escolha foi motivada pela padronização das unidades de medidas após a Convenção do Metro, assinada em 1875 por dezessete países, que estabeleceu o Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM) em Paris. Embora o português possua uma unidade de medida utilizada na época, ainda em uso, que é a “arroba”, a dificuldade de corresponder os valores com o termo italiano foi um fator decisivo para a conversão para a unidade “quilos”. A unidade “miriagrammo” é uma “misura decimale di peso equivalente a diecimila grammi” (Dizionario La Reppublica), ou seja, correspondendo a exatos 10 kg, enquanto “arroba” equivale a aproximadamente 14,688 kg (Dicionário Michaelis).

Um exemplo de estrangeirização que há nesses capítulos selecionados foi a manutenção do termo “ciociaro” no trecho “Montamos em nossos cavalos. Eu estava em um burro digno de um ciociaro, com uma sela tão pontuda e dura que parecia querer entrar em meu corpo.”, para o qual inserimos a seguinte nota: “(N.T) [ciociaro] Significa “pessoa forte, resiliente”. Ciociaro é o camponês das montanhas ao sul de Roma, da região da Ciociarìa. Nota-se uma visão preconceituosa do autor do norte industrializado em relação ao sul rural.”

Outro exemplo de estrangeirização em nossa tradução foi a referência à cidade de Cuneo. Essa cidade do Piemonte há um passado de batalhas e uma vocação militar e é citada no trecho “A entrada da colônia estava toda enfeitada com bandeiras italianas, brasileiras e espanholas: uma banda… entoava uma marcha, enquanto aquelas pessoas de bem acendiam rojões, morteiros e busca-pés… exatamente como se estivéssemos na tão difamada e acolhedora Cuneo”. Poderíamos ter escolhido outra cidade com as mesmas características e que fosse do conhecimento dos brasileiros, mas preferimos manter a informação como no texto-fonte. Preferimos inserir a seguinte nota: “(N.T.) Cidade da região do Piemonte, palco de diversas batalhas no curso da História, com grande vocação militar, berço do primeiro quartel de artilheiros da Itália”.

Os capítulos escolhidos possuem um viés humorístico muito forte. Nota-se a essência do humor do autor desde a comparação entre as riquezas naturais de diferentes regiões do mundo até a descrição irônica das suas aventuras. Na tradução optamos também por manter esse mesmo espírito do original. Para tanto não encontramos a necessidade de domesticar as passagens com senso de humor, tendo em vista que estas piadas podem ser perfeitamente compreendidas em português.

O autor brinca com as analogias entre a dívida pública e outras commodities naturais como a borracha da Amazônia, como pode-se observar no trecho: “Assim como os britânicos têm carvão mineral, os norte-americanos e o Transvaal têm minas de ouro, a África tem marfim e nós temos dívida pública, a Amazônia tem borracha”.

O humor assume um tom satírico mesmo nos momentos em que o narrador se encontra em situações desconfortáveis. Por causa da montaria, Oreste Mosca e Quintino Pene tiveram muitas dores nas nádegas e ele faz menção às dores em muitos trechos, sempre com muito bom humor, referindo-se a elas com eufemismos e alegorias como “dores na retaguarda”, “dores retrospectivas”, “dores nas partes ocidentais”. Como exemplo, uma passagem da jornada tumultuada até a aldeia, em que o tom não se perde mesmo no trecho em que faz referência a sua dor enquanto cavalga: “Em quinze minutos eu já tinha alcançado o grupo e parecia estar cavalgando como um tenente da guarda real do Piemonte, se não fosse pela dor na retaguarda”. Apesar da sua dor, um sorriso escapa ao leitor, ao ver que, mesmo em uma situação desconfortável, ele ainda se compara um “guarda real do Piemonte”.

Terminamos nossos comentários com um dos pontos que mais chamaram a nossa atenção, que foi a descrição das feras da Amazônia utilizando-se de animais que não existem aqui, como “tigres” e “leopardos”, típicos da África e da Ásia, e até a referência à “lonza”, que é um felino não muito bem definido, com referências desde o século XII e, inclusive, aparece na Divina Comédia, no século XIV, simbolizando a luxúria. De qualquer modo, optamos por manter na tradução “tigres” e “leopardos”, mesmo sabendo que eles não compõem a fauna brasileira, mas que o autor utiliza para se referir a feras de um modo geral. Ao mantermos na tradução, corroboramos a ideia do desconhecimento da fauna brasileira e o exotismo que ela representa. Já em relação ao termo “lonza”, traduzimos por “onça”, por acreditarmos que ele tenha assim chamado por aproximação fonética.

3. Considerações Finais

Iniciamos este artigo falando da motivação que tivemos para a escolha do texto, tendo em vista a busca realizada no principal portal de buscas, Google, fazendo uso de vocábulos de temática semelhante, todos relacionados aos relatos de viagem que aconteceram na Amazônia no século XIX.

Em se tratando de um relato de um evento acontecido há quase dois séculos, decidimos manter as ilustrações do texto de partida, em vez de somente indicar a presença delas no texto. Essa decisão foi adotada para permitir que o leitor compreendesse melhor as funções e significados das imagens no texto de partida, enriquecendo a sua experiência na leitura.

Não nos preocupamos em manter a mesma sintaxe, mas em manter a função do texto de partida. Há uma diferença em relação às construções sintáticas em língua portuguesa que, por vezes, precisam ser mais longas para deixar claro o significado. Por meio da nossa tradução propiciamos uma viagem cheia de aventuras e descobertas aos leitores monolíngues que poderão conhecer mais sobre o seu próprio país.

Ressaltamos que quando damos forma à reflexão sobre o processo tradutório, fazemos com que essa discussão ultrapasse as esferas dos tradutores do texto e atinja outros pesquisadores interessados em questões linguístico-culturais. As soluções para os impasses aqui encontrados poderão servir também a outros pesquisadores que buscam estratégias para as traduções em que estão trabalhando. Ademais, o presente trabalho pretende inspirar novas traduções e produções de comentários acerca de relatos de viagem de exploradores italianos na Amazônia daquela época.

Referências

Berman, A. (2007). A tradução e a letra, ou, O albergue do longínquo. (Trad. M.-H. C. Torres, M. Furlan & A. Guerini). 7Letras/PGET.

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Notes

Conjunto de dados de pesquisa Não se aplica.
Financiamento Não se aplica.
Consentimento de uso de imagem Não se aplica.
Aprovação de comitê de ética em pesquisa Não se aplica.
Publisher Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.

Author notes

Editores Marie Hélène Catherine Torres
Editores de seção Andréia Guerini

Ingrid Bignardi

Revisão de normas técnicas Ingrid Bignardi

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Conflict of interest declaration

Conflito de interesses Não se aplica.
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