Artigo

Traduzindo o diário de viagem do O turista aprendiz na Amazônia

Translating the travelogue O turista aprendiz in the Amazon

Luana Ferreira de Freitas
Universidade Federal do Ceará, Brasil
Michel Emmanuel Félix François
Universidade Federal do Ceará, Brasil

Traduzindo o diário de viagem do O turista aprendiz na Amazônia

Cadernos de Tradução, vol. 44, no. 4, Esp., e104208, 2024

Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 08 October 2024

Revised document received: 04 December 2024

Accepted: 14 November 2024

Published: 01 December 2024

Funding

Funding source: CNPq

Contract number: 308052/2021-8

Funding statement: Bolsas de Produtividade em Pesquisa – PQ, CNPq, número do processo: 308052/2021-8.

Resumo: O objetivo do presente artigo é comentar a tradução do relato de viagem de Mário de Andrade na Amazônia. Foram traduzidos nove registros do autor, desde sua chegada à cidade de Belém, a bordo do Pedro 1, do dia 18 de maio até sua partida no dia 26 de maio. Esses são registros de viagem do autor anotados em forma de diário no seu anuariozinho de bolso, posteriormente compilados no livro O Turista Aprendiz. No seu relato, Mário de Andrade apresenta uma concepção de brasilidade, fitando o olhar nas manifestações folclóricas brasileiras, por meio da música, da culinária, das festas populares, tudo retratado com informalidade, numa linguagem coloquial. Devido a seus aspectos estilísticos, o texto andradeano representa um desafio para tradução, além da necessidade de traçar uma estratégia tradutória, a nosso ver, condizente com o estilo do autor.

Palavras-chave: Tradução comentada, literatura de viagem, Amazônia, brasilidade, c..

Abstract: The goal of this article is to comment on the translation of the travel records of Mario de Andrade in the Amazon. Nine entries of the author´s travel were translated, since his arrival in the city of Belem, on board of Pedro 1, on May 18th until his departure on May 26th. Those are records of the author´s travel, registered as a travelogue in a small pocket notebook, later compiled in the book O Turista Aprendiz. In his notes, Mário de Andrade presents a concept of Brazilianness, by keeping a close eye on the Brazilian folklore manifestations, through music, cullinary, popular festivals, all portrayed with informality, simplicity in a language that broadly reflects the Brazilian colloquial speech. Due to his stylistic aspects, Mário de Andrade’s text represents a challenge to translation, besides the necessity to devise a translation strategy, in our view, consonant with the author’s style.

Keywords: Translation with commentaries, travel literature, Amazon, brazilianness, colloquial language.

1. Introdução

Um dos maiores expoentes do Modernismo brasileiro, Mário de Andrade (1893-1945) ecoou o espírito do movimento cultural e artístico do país, iniciado em meados do século XIX, num período marcado pelo fortalecimento da identidade nacional, pela mestiçagem, que se inicia, no campo literário, com o primeiro romance da trilogia indianista de José de Alencar, O Guarani. Um bom exemplo dessa virada cultural, que pôs em evidência o nacional, foi dado pelo crítico Sílvio Romero. Não pode, segundo o autor, permanecer a história sob tutela portuguesa, não por inadmissibilidade referencial, mas pelo sentido de redutibilidade ao advento do colonizador luso na América. Para Romero, trata-se “da história da formação de um tipo novo... em que predomina a mestiçagem. Todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas ideias” . (1943, p. 39).

Nascido e criado em São Paulo, Mário de Andrade traz também na sua genética as características hereditárias da formação racial do país; aliás, elemento que ele aborda com olhar perspicaz e investigador. E, sobre o assunto, admite o próprio autor haver “uma espécie de sensação ficada da insuficiência, de sarapintação, que me estraga todo o europeu cinzento e bem arranjadinho que ainda tenho dentro de mim” (Andrade, 1970) . Entende-se, entretanto, que a afirmação acima não constitui, em hipótese alguma, uma confissão de fé, nem o intento de advogar em causa própria, nada em suma que leve a sugerir qualquer resquício de incompatibilidade com sua própria ancestralidade, mas antes o reflexo do Modernismo brasileiro. Para referenciar essa busca de brasilidade em Mário de Andrade, principalmente depois da sua indagação acerca do pouco do europeu que permanecia nele, convém considerar aqui a observação proferida por Lafetá (2000), ao comparar o Modernismo brasileiro ao europeu:

Os vanguardistas europeus foram buscar inspiração, em grande parte, nos procedimentos técnicos da arte primitiva, aliando-os à tradição artística de que provinham, e por essa via, transformando-a... Enquanto no Brasil, já o notou Antônio Candido – as artes negra e ameríndia estavam tão presentes e atuantes quanto a cultura branca, de procedência europeia. O senso do fantástico, a deformação do sobrenatural, o canto do cotidiano, ou a espontaneidade da inspiração eram elementos que circundavam as formas acadêmicas de produção artística. Dirigindo-se a eles e dando-lhes lugar na nova estética, o Modernismo, de um só passo, rompia com a ideologia que segregava o popular – distorcendo assim a nossa realidade – e instalava uma linguagem conforme a modernidade do século.

(Lafetá, 2000, p. 22-23) .

Da mesma forma, reconhece a crítica a necessidade de instituir uma arte literária brasileira mais autêntica. Para Candido, por exemplo, “fundiram-se a libertação do academicismo, dos recalques históricos, do oficialismo literário: as tendências de educação política e reforma social; o ardor de conhecer o país”. (Candido, 2000, p. 114). Desse modo, tornou-se necessário eximir-se do apadrinhamento artístico e cultural europeu e desbravar os campos férteis de um Brasil rico e imenso.

Mário de Andrade reconheceu a influência estrangeira no seu modo de enxergar e descrever a realidade. Afirma o autor que nossos sentidos são frágeis a ponto de debilitar a percepção “prejudicada por mil véus, provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças, preconceitos, indisposições, antipatias, ignorâncias, hereditariedade, circunstâncias do tempo, de lugar, etc..” (Andrade, 1970) Embora admitisse o caráter impositivo, porém indesejável, dessa percepção, ainda atrelada às normas seculares ditadas pelo português de Portugal, o autor se empenha em transgredi-la, exacerbando a beleza, ou mesmo a feiura, de um outro tipo português, com decalques indígenas, africanos, sertanejos, mulatos, menos europeu.

Na seção seguinte, comentamos alguns desafios enfrentados na nossa tradução para o inglês do fragmento de O turista aprendiz de Mário de Andrade . Desta vez, nossa contribuição para a série Traduzindo a Amazônia, diferencia-se das anteriores, cujo enfoque era a perspectiva do viajante estrangeiro. Para tanto, utilizamos a edição do texto anotada e acrescida de documentos por Telê Ancona Lopez e Tatiana Longo Figueiredo (2015) , que se mostrou uma fonte relevante de informações para a tomada de decisões tradutórias. Não integra o escopo do presente artigo fazer um estudo comparativo das edições de O turista aprendiz, tampouco entre os relatos dos viajantes estrangeiros pela Amazônia e os dos viajantes brasileiros na mesma região, embora haja rastros textuais dos estrangeiros , mesmo quando Mário buscou “desarticular o modelo de descrição da tradição romântica-naturalista” (2015, p.30).

2. Comentários

O livro O turista aprendiz, retrata duas longas viagens empreendidas por Mário de Andrade no Norte e Nordeste do Brasil, ao longo das quais registrou em forma de diário, no seu anuariozinho de bolso, aspectos das culturais locais, da música, a rica descrição das paisagens, tudo escrito com “informalidade, humor, e elevada percepção para o prosaico e o inusitado” (2015, p.11). A primeira viagem, contemplada neste trabalho, iniciou-se no dia 7 de maio de 1927, com a partida da estação de trem de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro. No dia 11 de maio, deixou o porto do Rio de Janeiro, a bordo do Pedro I, navegando por toda a costa brasileira rumo a Belém e depois por rios da região, onde permaneceu até o dia 27 de maio, período esse que compõe as dezessete entradas do diário que traduzimos para o inglês. Na segunda parte do livro, não contemplada na nossa tradução, Mário parte para o Nordeste em viagem etnográfica, reunindo os registros de 28 de novembro de 1928 a 24 de fevereiro de 1929.

Já nas primeiras leituras do texto, nos deparamos com a marca da originalidade do autor, que logo destaca a peculiaridade da obra. Misturam-se o real e o sublime nas descrições paisagísticas, indicando uma simbiose entre o homem e a natureza. Trata-se de um texto repleto de lirismo e poesia, refletindo o olhar profundo que percebe e busca reproduzir a grandiosidade do espaço. Corrobora Lopez que o “diário, misturando o registro do cronista e a efabulação, mescla-se à obra que então impregnava o autor.” (1988, p.338) Em consequência da estrutura narrativo-descritiva do texto, da sua musicalidade destoante, das repetições hiperbólicas, uma exagerada incompletude que desvela o pensamento irônico, crescia o tamanho do desafio da tradução.

Consideramos oportuno ilustrar, para efeito de comentário, três dos maiores desafios da nossa tradução: a tradução de referências literárias, a tradução de referências culturais e a tradução de aspectos estilísticos do autor. Ao mesmo tempo em que não tínhamos como estratégia anglicizar o texto, ou facilitar a sua leitura para o público anglófono, tampouco queríamos produzir um texto que beirasse a incompreensão. Dessa forma, lançamos mão, como estratégia, de notas do tradutor.

Apesar de reprovada por grande parte do mercado editorial, as notas do tradutor são um instrumento valioso de mediação entre texto e leitor. No nosso texto traduzido, a nota do tradutor provou-se estratégia apropriada em decorrência dos itens ligados à literatura e à cultura brasileiras e a trechos cujo estranhamento demandou certa mediação. Dessa forma, puxamos 15 notas do tradutor das quais duas são de natureza literária, nove são de caráter cultural e quatro, estilístico.

As notas de natureza literária referem-se a Castro Alves e a “I-Juca-Pirama”. Segue abaixo, como exemplo, o trecho em que a palavra anotada (castro-alves) aparece. O registro é de 18 de maio, dia em que o narrador viajante chega à cidade de Belém.

Quadro 1

Fonte: Autores (2024)

A estrutura da frase indica que o autor está transformando o substantivo próprio Castro Alves em comum, castro-alves, mas o que demanda mais reflexão é o que há por trás da mudança. Nesse ponto, tornou-se imperativo descobrir a intenção do autor de associar a imagem da natureza, que se forma diante do seu olhar observador, do romantismo exacerbado de Castro Alves. De acordo com Mário, o poeta era um encompridador que “delirava escutando os sons da própria voz, falou, falou, falou”. (2002, p. 142).

Dessa forma, puxamos uma nota do tradutor, esclarecendo quem é Castro Alves para o público, explicitando o uso que Mário de Andrade faz do nome do poeta e citando o que diz Mário a respeito do estilo do poeta: “Castro Alves (1847-1871) is the name of a Brazilian romantic poet used as a noun to highlight the “very baroque abuse of grandiosity” [o abuso muito barroco do deslumbramento] and hyperbole of nature. (Andrade, 2002, p. 130). Acreditamos que tanto pela grande possibilidade de desconhecimento do nome do poeta quanto pelo uso que Mário faz dele, a nota seria imprescindível.

As notas de caráter cultural referem-se ao sírio de Belém, tucupi, mungunzá, Boi-bumbá, Boi-canário, Bumba meu boi, pequeno almoço, Ver-o-Peso e Lampião, o cangaceiro. Cabe destacar que foram mantidos, no texto traduzido, sem nenhum acréscimo, os itens culturais. Segue abaixo um exemplo do trecho anotado referente ao cais do Ver-o-Peso:

Quadro II

Fonte: Autores (2024)

No trecho, podemos ver uma característica de observação que perpassa todo o relato: o olhar demorado, detalhado, que encontra eco no texto marioandradiano. A nossa nota dá a seguinte informação:

The Ver-o-Peso port is part of an architectural complex inaugurated in 1901 and located in the historic center of Belém. The complex covers an area of more than 26,000 square meters and includes the Fish Market, the Meat Market, the Açaí Market and an open-air market that is considered the largest in Latin America.

(Freitas & François, 2024)

O fragmento de O turista aprendiz objeto da nossa análise cobre um intervalo de nove dias, de 18 a 26 de maio de 1927. Ao longo desse período, Mário de Andrade citou, além do cais, o mercado Ver-o-Peso cinco vezes, tendo-o visitado nos dias 20, 21, 23 e 26. O mercado foi caracterizado pelo escritor como acolhedor e fantástico, as comidas “gostosíssimas”. Assim, nos pareceu necessária uma nota que detalhasse o complexo Ver-o-Peso, acrescentando algumas informações que julgamos importantes para um leitor estrangeiro curioso: a data de fundação, a localização, a área coberta e no que consiste o complexo.

Para as quatro notas de caráter estilístico do texto traduzido, buscamos manter o estranhamento proposto pelo autor no texto-fonte. Segue abaixo um exemplo do trecho anotado:

Quadro III

Fonte: Autores (2024)

A nota diz: “From ‘sitting on the floor’ to ‘mungunzá,’ the passage has three repetitions and an idiosyncratic punctuation system, to say the least. Both the repetitions and the absence of several commas have been retained to maintain the rhythm intended by the author.” Embora causasse estranheza, mantivemos no texto traduzido em inglês a mesma estrutura do texto de partida, com o propósito de preservar o estilo do autor. Dessa forma, tanto as repetições quanto a ausência de várias vírgulas no trecho foram preservadas.

Além disso, o trecho acima revela um português brasileiro falado com forte acentuação local, uma linguagem coloquial mais espontânea. Nesse sentido, a escrita do autor parece distanciar-se do uso formal da língua portuguesa em busca de uma escrita mais ligada à oralidade. Rompe-se a estrutura convencional da sequência da oração, como no caso da elipse em “Só aquela sensação do mungunzá!...”, seguida de ponto de exclamação.

No fragmento traduzido de O turista aprendiz encontramos traços estilísticos típicos da escrita de Mário de Andrade como a subversão consciente de padrões formais da língua, uso da variante brasileira, de marcas de oralidade, de jogos de palavras, da ironia, de antíteses, de hipérboles, entre outros. Mantivemos a sua indiferença à gramática normativa, os jogos de palavras, a ironia e as antíteses. Quanto às marcas de oralidade, quando possível, as usamos no trecho traduzido correspondente, contudo, nem sempre foi possível, então tentamos compensar em outros trechos onde havia a possibilidade do seu emprego.

3. Considerações finais

Mário de Andrade, expoente do Modernismo, tinha como norte a hibridização do universal com o regional, do europeu com o mestiço. Oswald de Andrade resumiu essa busca:

O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica. A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna. Apenas brasileiros de nossa época. (...) Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia. Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. (1970, p. 10)

Essa busca pela originalidade nativa de Oswald de Andrade não denota, entretanto, a exclusão da eventualidade dos fortes traços culturais do velho continente, mas antes a fusão das influências europeias e locais na construção da brasilidade. Discorrendo acerca da construção cultural do Brasil, Santos afirma:

Os modernistas procuraram a brasilidade, por exemplo, na figura do nativo (indígena, mulato, sertanejo) e também numa língua mais próxima da falada pelo brasileiro comum. Mário de Andrade buscou constantemente essa língua brasileira longe dos centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo, cidades mais cosmopolitas e influenciadas pelas normas da linguagem culta ou mais definida pelo português de Portugal. E era necessário revelar o português brasileiro. (2012, p. 61)

Conforme salientado acima, Mário de Andrade buscou novas formas de representação artística no conjunto da sua obra. Essa busca, contudo, passava necessariamente pela inevitabilidade de explorar o país, não apenas seu território, mas também em sua diversidade cultural. (2022, p. 35). E foi assim que Mário decidiu fazer suas viagens pelo Brasil, registrando costumes, comidas, músicas, entre outros. O escritor começou suas viagens por Minas Gerais (sobretudo a de 1924) e, em 1927, viaja para o Norte e Nordeste, viagem registrada em O turista aprendiz, de onde tiramos o fragmento traduzido.

A viagem de Mário não consistia apenas em uma viagem pelo território amazônico e nordestino, o escritor tinha como objetivo o registro das manifestações culturais em todas as formas que pôde fazê-lo. De acordo com Walter Benjamin (2011), “O estímulo epidérmico, o exótico, o pitoresco prendem só o estrangeiro. Bem outra e mais profunda é a inspiração que leva a representar uma cidade (ou uma natureza) pela perspectiva de um nativo: é a perspectiva de quem se desloca no tempo em vez de se deslocar no espaço.” Contrariamente ao estrangeiro e ao brasileiro com formação intelectual estrangeira, que veem até hoje somente explorar o território amazônico onde tudo lhes é exótico, o olhar etnográfico local transcende a questão meramente geográfica e se desloca temporalmente dado o seu interesse pela arqueologia cultural que compreende o resgate do passado no tempo presente.

Mário tinha consciência de sua bagagem europeia e passou a questionar ativa e conscientemente seus pressupostos de modelo civilizatório e do exotismo do nativo. Tudo no cenário, o calor, as frutas, as comidas experimentadas no mercado Ver-o-Peso, os rios, aproximavam-no de “um conceito de paisagem que antecipava uma visão do ambiente natural como um aspecto indissociável da cultura, isto é, como paisagem cultural, posto que ligada à existência humana, às formas de se orientar no tempo e no espaço, de trabalhar, de sentir, dizer e saber.” (2015, p. 370).

Além da preocupação com a descrição e com o relato da cultura do outro, o texto de O turista aprendiz apresenta outras características do estilo marioandradiano, entre os quais destacam-se: 1) o emprego do português falado no Brasil, como, por exemplo, o uso de pra em vez de para; 2) o uso de hipérboles, como em “A foz do Amazonas é uma dessas grandezas tão grandiosas”; 3) uso de elipses, como, por exemplo, “Bois indianos, infelizmente, tenho uma antipatia...”; 4) uso de colocações inusitadas, como em “A noite dormiu feliz” e 5) o nonsense, como em:

Belém é a cidade principal da Polinésia. Mandaram vir uma imigração de malaios e no vão das mangueiras nasceu Belém do Pará. Engraçado é que a gente a todo momento imagina que vive no Brasil mas é fantástica a sensação de estar no Cairo que se tem. Não posso atinar porque... Mangueiras, o Cairo não possui mangueiras evaporando das ruas... (...) Dei um salto pra trás e fui parar nos tempos de dantes. Diz que meu avô Leite Morais quando ia na Faculdade ensinar as repúblicas de estudantes andava só desse jeito... Cartola sobrecasaca e “Meus senhores, tarati taratá, o réu abrindo o guarda-chuva das circunstâncias atenuantes”...

(Andrade, 2015, p. 73)

O relato de Mário de Andrade nos apresenta um novo olhar, um olhar brasileiro sobre a Amazônia em oposição ao olhar estrangeiro que, em muitos aspectos, buscou ilegitimamente definir a Amazônia no exterior. Decidimos por uma nova proposta em relação aos números anteriores ao optar pela tradução de um texto de um grande autor brasileiro, traduzindo-o para o inglês em vez de traduzir um texto estrangeiro para o português. Na nossa tradução, buscamos manter esse olhar brasileiro nas referências literárias, nas referências culturais e no estilo do autor, empregando como estratégia as notas do tradutor.

Referências

Andrade, M. de. (1988). Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez, coordenadora. Association Archives de la Littérature latino-américaine, des Caraïbes et africaine du XX siècle; CNPQ.

Andrade, M. de. (2015). O Turista Aprendiz. Edição de Texto por Telê Ancora Lopez e Tatiana Longo Figueiredo. Iphan.

Andrade, O. (1970). Obras completas: Do Pau-Brasil à Antropofagia e às Utopias. Civilização Brasileira.

Barreto, M.. (2013). Os viajantes da Amazônia: Mário de Andrade e Theodor Koch-Grünberg. https://oguari.blogspot.com/2013/04/os-viajantes-da-amazonia-mario-de.html

Benjamin, W. (2011). Rua de mão única. (Obras escolhidas II) Trad. de Rubens R. Torres Filho e José Carlos M. Barbosa. Brasiliense.

Candido, A. (2000). Literatura e sociedade. Publifolia.

Cunha, J.. (2016) Mário de Andrade, paisagista em o turista aprendiz. [Tese]. Universidade de São Paulo. (https://repositorio.usp.br/item/002778493)

Duarte, P. (2022). O Brasil e os brasis de Mário de Andrade: o fim do turista aprendiz?. Estudos avançados, 36 (104). https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2022.36104.003

Lafetá. J. L. (2000).. 1930: A Crítica e o Modernismo. Editora 34.

Romero, Sílvio. (1943). História da Literatura Brasileira. José Olympio.

Santos, M. B. P. dos. (2012) Viagens de Mário de Andrade: A Construção Cultural do Brasil. [Tese] Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. (https://tede2.pucsp.br/handle/handle/3415)

Notes

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