Dossiê – Cuidados e Emoções: Discursos, Práticas e Experiências
Infância, cuidado e emoções desde o Sul Global
Childhood, care and emotions from the Global South
Infancia, cuidados y emociones desde el Sur Global
Infância, cuidado e emoções desde o Sul Global
Civitas - Revista de Ciências Sociais, vol. 24, e-45120, 2024
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Recepción: 31 Agosto 2023
Aprobación: 22 Febrero 2024
Publicación: 08 Agosto 2024
Resumo: A partir de uma pesquisa com crianças de classe popular da cidade do Rio de Janeiro, buscou-se discutir a relação entre infância, cuidado e emoções. Neste trabalho, investigamos o fenômeno das crianças que cuidam de outras crianças, uma realidade muito presente na vida cotidiana de populações infantis especialmente localizadas em contextos do Sul do Globo. A metodologia utilizada teve enfoque etnográfico, sendo a observação-participante o seu carro-chefe. Os resultados encontrados apontam que as relações de cuidado são marcadas por ambivalência afetiva, disputa de poder e posição, negociações e conflitos. Discute-se que a figura do outro no grupo social estudado tem um papel central para as ações das crianças e que o cuidado e as emoções se produzem com e a partir do que as crianças partilham com o tecido social, institucional e discursivo de que fazem parte. Por fim, entende-se que o trabalho instiga o debate e a reflexão sobre as experiências singulares de crianças no Sul Global.
Palavras-chave: Cuidado, Infância, Emoções, Sul Global.
Abstract: Based on a survey of popular class children in the city of Rio de Janeiro, we sought to discuss the relationship between childhood, care and emotions. In this work, we investigate the phenomenon of children who take care of other children, a reality that is very present in the daily lives of children, especially located in contexts in the South of the Globe. The methodology used had an ethnographic focus, with participant observation being its flagship. The results found indicate that care relationships are marked by affective ambivalence, power and position disputes, negotiations and conflicts. It is argued that the figure of the other in the studied social group plays a central role in the children's actions and that care and emotions are produced with and from what children share with the social, institutional and discursive fabric of which they make up. part. Finally, it is understood that the work instigates debate and reflection on the unique experiences of children in the Global South.
Keywords: Care, Childhood, Emotions, Global South.
Resumen: A partir de una encuesta realizada a niños de clase popular de la ciudad de Río de Janeiro, buscamos discutir la relación entre infancia, cuidado y emociones. En este trabajo investigamos el fenómeno de los niños que cuidan a otros niños, una realidad que está muy presente en la vida cotidiana de los niños, especialmente ubicados en contextos del Sur del Globo. La metodología utilizada tuvo un enfoque etnográfico, siendo la observación participante su buque insignia. Los resultados encontrados indican que las relaciones de cuidado están marcadas por ambivalencia afectiva, disputas de poder y posición, negociaciones y conflictos. Se sostiene que la figura del otro en el grupo social estudiado juega un papel central en el accionar de los niños y que los cuidados y las emociones se producen con y a partir de lo que los niños comparten con el tejido social, institucional y discursivo del que forman parte. Finalmente, se entiende que el trabajo instiga el debate y la reflexión sobre las experiencias únicas de los niños en el Sur Global.
Palabra clave: Cuidados, Infancia, Emociones, Sur Global.
Introdução 2
Este trabalho se debruça sobre a relação entre infância, cuidado e emoções, a partir de um diálogo com os estudos das Infâncias do Sul Global. Por meio de uma pesquisa de campo com enfoque etnográfico, com crianças de 5 a 12 anos de idade moradoras de um morro de classe popular da cidade do Rio de Janeiro, Brasil, buscou-se compreender a posição social das crianças enquanto cuidadoras de outras crianças pelas ruas da localidade onde moram. Além disso, procuramos discutir de que maneira as emoções e os afetos se apresentam nas relações de cuidado vividas pelas crianças de acordo com as normas de sociabilidade e valores morais presentes nesta localidade específica.
A prática de cuidado realizada por crianças é largamente conhecida em territórios do Sul Global e é considerada um contributo essencial para a subsistência de muitas famílias, comunidades e arranjos sociais deste hemisfério ( Zelizer 2009; Colonna 2015; Quecha Reyna, 2015; Day 2017; Hunleth 2017; Hernández 2019; Lara 2020; Lara e Castro 2021; Leavy e Szulc 2021; Lara e Leavy 2023; Landeira, Frasco Zuker e Loobet 2023; Morano e Szulc 2023). Na década de 1970, Weisner e Gallimore (1977) são um dos primeiros a indicar, em investigação transcultural, que o cuidado não parental é norma ou uma forma significativa de cuidado na maioria das sociedades que estudaram, embora a maior parte das pesquisas do século 20 enfocassem no cuidado materno e marginalizassem outras formas de relação de cuidado, especialmente entre crianças.
Na localidade carioca em que trabalhamos, marcada por uma proximidade física e relacional entre moradores, as crianças são convocadas pelas suas famílias e pela vizinhança comunitária a assumirem atividades de cuidado e a responderem a essa convocação, seja pela concordância, recusa ou pela transformação dessas atividades. Nas relações observadas, o cuidado se apresentou especialmente associado ao "circuito das ajudas" ( Guimarães e Vieira 2020) e esteve relacionado às lógicas de reciprocidade, reconhecimento familiar e pertencimento como motivações importantes para o engajamento das crianças em tais atividades. Em termos de emoções e afetos sentidos, a nossa aproximação com as crianças nos mostrou que há uma ambivalência afetiva no modo como as crianças vivem e sentem a atividade de cuidar de outra pessoa. Por um lado, para elas, cuidar de outro gera um tipo de satisfação associada ao poder temporário que assumem sobre a outra criança, ao lugar de reconhecimento na família e ao lúdico existente na própria relação (através de brincadeiras, competições e piadas). Por outro lado, observou-se que as relações de cuidado também são sentidas, muitas vezes, como um fardo e chateação, seja por terem que realizar uma atividade que não querem fazer seja pelo conflito e brigas gerados nas relações em que estão inseridas.
Partimos em nosso estudo de um diálogo introdutório com a noção de "Infâncias do Sul" para pensar o lugar situado das crianças com quem pesquisamos em relação à raça, ao gênero, ao território em que vivem e as dinâmicas de sociabilidade e subsistência em que estão inseridas. A noção de "Sul Global" vem se consolidando como um contraponto, não apenas geográfico, mas sobretudo social, político e econômico, das formações sociais dos países localizados no hemisfério sul. É uma noção que tem uma proposta de deslocamento das narrativas de universalismo e desenvolvimentismo em torno da noção de infância construídas especialmente no Norte do globo e que nos ajuda a pensar a infância, não como universal, mas sim contextualmente situada ( Castro 2021).
O presente artigo está dividido em cinco partes. Na primeira, nós discutimos teoricamente a construção de um campo entre cuidado, emoções e infância. Na segunda, apresentamos quem foram as crianças participantes de nossa pesquisa, a localidade em que moram e os aspectos metodológicos que utilizamos na investigação. Na terceira, apresentamos elementos da nossa aproximação com elas e aspectos do cuidado em suas rotinas. Na quarta, discutimos o que dizem as crianças a respeito das relações de cuidado pelas ruas do morro onde vivem. Por fim, na quinta parte, apresentamos reflexões finais.
Debates sobre o cuidado, emoções e crianças que cuidam: um campo em construção
Na atualidade, a temática mais ampla do cuidado tem sido muito discutida por campos diversos de atuação e saber, sendo o campo de estudos sobre infâncias cuidadoras, ainda incipiente, dentro deste amplo debate. Na América Latina, o "boom" sobre o cuidado se apresentou, nas últimas décadas, especialmente relacionado a questões do trabalho, economia, política, gênero, saúde e direitos ( Pautassi 2016). Para Batthyány (2020), uma das justificativas para a "descoberta" acadêmica do cuidado é a existência de tensões que derivam das novas funções que as mulheres arrecadaram no mercado de trabalho desde o final do século 20 e, consequentemente, a maior externalização do cuidado para mulheres fora de suas famílias.
No Brasil, Guimarães e Vieira (2020) discutem como a configuração do cuidado "como profissão" é uma forma de significação do cuidado tradicionalmente privilegiada na literatura do campo e refletem de forma mais detida a apresentação do "cuidado como ajuda" – forma esta que se apresentou fortemente em nosso trabalho com as crianças. Dessa maneira, as autoras evidenciam como o que aparenta ser uma mesma atividade concreta pode variar de significação, assim como podem se alterar os sujeitos que são socialmente reconhecidos como agentes do exercício do cuidado.
Tronto (1998) define o cuidado como uma prática, mas também como uma certa disposição, pois engloba elementos subjetivos complexos presentes nas relações de cuidado. Da mesma forma, ela menciona que a noção de cuidado contém um horizonte universal e pretende ser flexível, pois o que importa em sua concepção é que possamos viver no mundo da melhor forma quanto for possível. Por essa perspectiva, a compreensão dos padrões de cuidado depende do modo de vida, do conjunto de valores e das condições sociais das pessoas engajadas na prática de cuidar. Não é, portanto, uma aproximação do cuidado associado a uma natureza ou instinto cuidador, tão fortemente atribuído às mulheres. A atividade de cuidado é, em grande medida, definida culturalmente e, portanto, apresenta variações, seja em termos de significação, seja em termos de quem assume essa prática, de acordo com cada contexto em que seu exercício se realiza.
A pesquisa analítica do cuidado se relaciona com a discussão em torno das emoções nas ciências sociais na medida que esta última também é compreendida como uma construção social e articulada com outros marcadores dos contextos em que são produzidas histórico-culturalmente ( Lima 2022; Bispo e Coelho 2019). Além disso, por ser uma prática eminentemente relacional e social, tal como entendemos aqui, o cuidado convoca as pessoas a estarem na presença de um "outro", evocando afecções e emoções diversas naqueles que estão envolvidos nessas relações. Imaginariamente, o que se configurou como o "cuidado" é rapidamente convocado a um ideal de completude e de produção de sensação de bem-estar na relação em que há o cuidado. No entanto, o que recolhemos no social é que a relação com o outro não é de completa harmonia ou satisfação, mas sim marcada por impasses ( Iaconelli, 2023)
Por uma perspectiva psicanalítica, destaca-se a presença de uma "ambivalência afetiva" ou "ambivalência emocional" quando pensamos nos afetos do amor e do ódio aparecendo como pares em diversas situações. Muitas vezes, na relação com o outro, é comum de se observar, o fato de o amor intenso e o ódio intenso surgirem com muita frequência unidos na mesma pessoa, mesmo se apresentando como afecções opositivas ( Freud 2012; Iaconelli 2023).
Ao nos voltarmos para os estudos da infância que apresentam posições de crianças exercendo atividades de cuidado, vemos como tais posições desafiam a ideia hegemônica de quem é o sujeito capaz/apto de cuidar (normalmente sustentado na figura da mulher adulta, cisgênero, heterossexual, casada, branca, graduada e com recursos financeiros). A posição das crianças como cuidadoras implica um deslocamento em como enxergamos a infância, em como definimos quem cuida e a própria definição do cuidado que aparece muito mais relacionada aos "circuitos de ajudas" do que como uma "profissão", forma tradicionalmente privilegiada na literatura do campo do cuidado ( Guimarães e Vieira 2020).
Em estudos da infância, Remorini (2004) e García Palacios, Hencht e Enriz (2015) evidenciam que nas comunidades indígenas Mbyá, Argentina, a supervisão e os cuidados das crianças pequenas que começam a circular não são exercidos exclusivamente pelas mães ou pais, pois também dependem dos olhos atentos dos irmãos/irmãs mais velhos e primos/primos que também são crianças. No Brasil, na aldeia indígena de Laranjeira Ñanderu, do Mato Grosso do Sul, Gutierrez (2016) observou que as crianças Kaiowá tinham papel significativo nos cuidados da casa, como varrer, limpar o quintal, buscar água no córrego, dar comida aos animais domesticados e nos cuidados dos irmãos menores. O autor destacou que a "lição de casa" era essa de ajudar a mãe com as atividades domésticas e com as crianças mais novas, sendo uma prioridade maior do que as "tarefas da escola", passadas pelas professoras. Nesta comunidade, destaca-se o forte valor da ancestralidade e dos valores comunitários que se articulam com o pertencimento, a solidariedade e a identificação das crianças desde novas com o coletivo da aldeia (Pereira 2004 citado em Gutierrez 2016).
No Haiti, Mézié (2018) relata que jovens meninos trabalham em pedreiras e a transmissão do saber desse ofício, assim como a relação de cuidado estabelecida durante esse trabalho se dá especialmente na relação entre pares, na companhia de amigos, e não entre adultos e crianças. Em contextos urbanos periféricos da cidade do Rio de Janeiro e de outras localidades do Brasil, as ruas são locais onde é possível presenciar crianças que cuidam umas das outras. As crianças circulam em grupo com outras crianças normalmente nos trajetos da escola para a casa ou momentos de lazer, onde se é possível observar especialmente crianças mais velhas impedindo que as mais novas fiquem no meio da rua, dando as mãos para elas, ensinando regras comunitárias e de convivência ( Pretto 2015; Lara e Castro 2016; Lara 2020; Souza 2020; Uglione 2020). Nestes locais, destaca-se uma convivência social e comunitária regulada por ajuda mútua e reciprocidade, mas que, também, revelam laços em que a rivalidade e a violência local se fazem presentes.
Embora seja necessário situar o contexto próprio onde cada pesquisa citada foi realizada, pudemos observar que esses e outros estudos promovem uma discussão sobre práticas de cuidado no Sul global chamando a atenção para uma conceitualização relacional acerca da posição das crianças e jovens com os demais membros de suas famílias e comunidade. Observamos que são contextos cujas lógicas relacionais são marcadas fortemente pela interdependência entre moradores, pela continuidade da tradição de cuidado já existente e por uma certa moralidade que indica reciprocidade nas relações ( Day 2017). Alguns desses estudos também destacam que a prática de cuidado é sentida por crianças e jovens como um peso e/ou um fardo, interagindo também com sistemas mais amplos de relações de poder, como hierarquias de gênero, idade e status dentro da família.
Essas premissas sobre o tema mais amplo do cuidado e como essa atividade se apresenta na realidade de muitas crianças do Sul Global nos ajudam a nos cercar do nosso campo de estudo das crianças que cuidam na comunidade urbana do Rio de Janeiro em que pesquisamos. No presente artigo, o nosso enfoque é a discussão sobre o cuidado praticado pelas ruas da localidade onde moram as crianças, especialmente presente nas relações em que as crianças possuem algum grau de parentesco entre si. A seguir, apresentamos a localidade onde realizamos a pesquisa, as crianças participantes do nosso estudo e a metodologia do nosso trabalho de campo.
A localidade pesquisada, as crianças participantes e a metodologia do trabalho de campo
A localidade onde realizamos a pesquisa de campo fica em um morro da zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, faz limite a uma das favelas cariocas com grande centralidade histórica para a cidade e é cercado por uma região de grandes vias de tráfego, com terminais rodoviários, de trem e metrô, e de investimentos imobiliários e turísticos. 3 Se, fora do "Morro" – nome usado pela maioria das crianças ao se referir ao local – há uma grande circulação de carros e transportes públicos em largas avenidas, dentro do Morro, o território possui uma circulação em sua maioria de pedestres ou de moto, com algumas ruas onde há acesso de carro, e se caracteriza por uma proximidade entre os domicílios dos moradores.
O Censo de 2010 indicava que havia 326 moradores, que residiam em 104 domicílios na localidade pesquisada. 4 No perfil de gênero e raça da região, do Censo Popular realizado em 2022, 5 que contempla parte do território, há uma predominância de pessoas que se declaram como negras (somatória dos moradores que se identificam como pretos ou pardos) e uma maior proporção de pessoas que se declaram mulheres, sendo a maior parte dos domicílios chefiados por mulheres. Quando observada a distribuição por faixas etárias, o predomínio do contingente feminino a partir da faixa dos 25 a 29 anos tem proporções bem mais acentuadas na região do que no restante do município do Rio de Janeiro.
Os dados sobre renda e emprego indicam que quase metade das residências convivem com situações de instabilidade com o emprego – pessoas desempregadas ou trabalhando ocasionalmente por meio de "bicos". O quadro de desemprego também tem um agravante para sua manutenção que é a baixa escolaridade de grande parte da população. Em nosso contato com os moradores e profissionais da escola em que estudavam as crianças, era comum a queixa sobre a falta de auxílio governamental a respeito de oportunidades de trabalho e complemento de renda. Além disso, era comum o discurso da escola de que, em muitos casos, as crianças viviam em famílias que passavam por algum tipo de insegurança alimentar, sendo as refeições oferecidas na instituição escolar as principais refeições para algumas delas.
As crianças do nosso estudo eram, em sua maioria negras, moradoras de domicílios cuja presença feminina era mais acentuada que a masculina, e que dividiam a casa com familiares adultos que trabalhavam como trabalhadoras domésticas, motoristas de aplicativos de transporte, vendedores de comida e produtos caseiros, ou outros tipos de trabalho informal. As crianças tinham, em sua maioria, entre 5 e 12 anos e estudavam no turno da manhã da principal escola pública municipal do território, que era também a instituição em que muitas das mães, pais e avós das crianças já tinham estudado. As professoras e gestores(as) da escola tinham a característica de conhecer seus alunos e alunas pelo nome, na maioria das vezes, conhecer a sua história familiar e saber onde moram na região. Além da instituição escolar, muitas crianças realizavam, no contraturno dos estudos formais, atividades de esporte, como futebol, judô e artes, em um parque municipal conhecido por elas como uma área de lazer. Como veremos adiante na discussão dos nossos resultados, as crianças possuíam certa liberdade de ir e vir de casa para a escola pelas ruas do morro, seja na companhia de outras crianças, sob supervisão de algum adulto parente (normalmente uma mulher), seja na companhia de uma "babá" adulta. 6
A pesquisa de campo foi realizada no contexto do doutoramento da primeira autora do texto e ocorreu em dois momentos distintos: presencialmente, no segundo semestre do ano de 2019, com um enfoque etnográfico ( Geertz 2008) através da utilização do método da observação-participante na escola onde estudavam e pelas ruas da localidade onde vivem as crianças; e de forma virtual, durante todo o ano de 2020, em razão da pandemia do novo coronavírus, através de entrevistas semiestruturadas e conversas informais realizadas por meio de dispositivos digitais. Para fins do presente trabalho, escolhemos discutir parte dos resultados da primeira parte da pesquisa, ocorrida presencialmente. A discussão neste artigo se apresenta dividida em dois eixos, dispostos no próximo tópico.
Discussão dos resultados
Aproximação das crianças e aspectos do cuidado em suas rotinas
O primeiro momento da pesquisa na escola foi importante para que as crianças conhecessem a minha 7 presença e construíssemos um vínculo de confiança entre nós. Ali na escola foi possível observar como a própria instituição convocava as crianças a contribuírem com certas responsabilidades, seja para pegar o controle do ar-condicionado, pegar material para as aulas na secretaria, e, também, ajudar colegas com dificuldades no ensino e aprendizagem. Aquelas que eram escolhidas a desempenharem tais tarefas demonstraram alegria por esse pedido significar assunção de responsabilidade e reconhecimento entre professores e colegas. Também, na escola, algumas relações entre crianças com parentesco chamavam a atenção a respeito da prática do cuidado, especialmente, quando observamos crianças maiores levando as menores até suas salas, ajudando com o material escolar e esperando para voltar pra casa juntas de mãos dadas; ou, em situações em que vimos irmãos e irmãs defendendo irmãos mais novos em discussões no recreio e, também, com uma das professoras que não deixava o seu irmão usar casaco em sala de aula.
A partir do convívio e proximidade com algumas crianças, algumas delas me convidaram para "andar junto" da escola em direção até as suas casas. "Tia, você vai por onde hoje? Quer ir com a gente hoje?". Com o meu aceite entusiasmado ao convite delas, nós saíamos em grupo da escola e íamos andando em uma das direções onde ficavam as casas das crianças e a saída do Morro, para que eu também pudesse ir para minha casa, localizada em outra região da cidade. Eram grupos compostos de crianças mais novas, entre 4 e 6 anos, que estavam acompanhadas de irmãos(as) primos(as), com idade entre 10 e 12 anos. O grupo saía conversando e brincando entre si e sempre tendo em mente o objetivo final de chegar em casa. Conforme íamos andando, as crianças iam se despedindo e seguindo caminhos próprios para suas casas, dizendo, inclusive, sobre outras tarefas que tinham que realizar durante o dia.
Especialmente as meninas, elas diziam que, além de realizar as tarefas da escola, caso houvesse, tinham também que realizar atividades de limpeza da casa, como varrer o chão e o quintal, tirar o pó, o lixo, e, em alguns casos, também esquentar comida para si e irmãos em associação à ideia de "ajuda" ( Guimarães e Vieira 2020). "Sabe tomar banho todo o dia? Então, é igual a passar vassoura na casa! (risos)", me disse uma menina de 11 anos sobre sua rotina. Quando perguntada sobre o que achava dessa atividade ela responde: "Tia, você pode me achar maluca, mas eu gosto de arrumar a casa. Até porque aqui [já estávamos em seu portão], cada um faz uma coisa, sabe? Os meus pais trabalham fora e a minha tia também, então geralmente a minha avó cozinha e eu e minha prima limpamos a casa. É uma maneira de ajudar, né? A gente fica em casa o dia todo e a minha avó já está ficando velha. Cada uma ajuda um pouco e no final a casa fica um ‘brinco’ (risos)".
Fora de casa, as crianças 8 assumem responsabilidades de cuidado especialmente destinados a outras crianças parentes (ao levá-las e buscá-las da escola, acompanhá-las em segurança e levar seu material escolar) e, algumas, desempenham atividades de venda de doces e salgados pelas ruas do Morro, realizam pequenas compras a pedidos de familiares e são convocados a ajudar a vizinhança quando alguém precisa comprar algum utensílio, por exemplo. No que se refere ao cuidado a outra criança, normalmente é a criança mais velha quem assume o papel de cuidadora das outras pelas ruas, a partir de uma designação familiar, como visto em outras pesquisas realizadas em espaços periféricos de centros urbanos (Fernandes 2011; Colonna 2012; Souza 2020; Uglione 2020).
Embora algumas crianças tenham certa liberdade de andar em locais próximos às suas casas, elas não estão autorizadas a andar por certas áreas consideradas perigosas ou ficar até tarde na rua. Alguns fatores das ruas pareciam gerar preocupações nas famílias. O primeiro deles diz respeito ao aumento de casos de violência armada na região, envolvendo grupos armados, podendo ser a polícia e, também, vendedores varejistas de drogas. Além disso, ouvimos sobre os riscos de serem atropeladas por carros ou motos, possíveis machucados, tropeços e, em determinadas áreas da região, as mães têm preocupação de seus filhos, especialmente os meninos, serem confundidos com "bandidos" pela polícia ou serem, também, convencidos por vendedores de drogas locais a participarem desse tipo de atividade.
Dessa maneira, as crianças e jovens normalmente eram designados a cumprir horários, andar por espaços conhecidos em que pudessem ser vistos por moradores e familiares conhecidos e a seguir combinados pré-estabelecidos. Em determinadas situações observadas ou relatadas a nós, nem sempre as crianças cumpriam os combinados, transgredindo algumas de suas responsabilidades e, também criando outras formas de cuidarem. Observamos isso fortemente quando ficavam mais tempo nas ruas antes de retornar da escola, andavam por caminhos mais longos do que o esperado pelos adultos, entravam em terrenos de vizinhos para pegar frutas e flores sem serem autorizados, carregavam os irmãos em posições que eram consideradas perigosas, dentre outras. Essas transgressões demonstraram que, para além do que os familiares adultos designavam, as próprias crianças também criavam entre si maneiras próprias de cuidarem uma das outras e nem sempre cumpriam o que era esperado a elas.
"Eu olho os meus sobrinhos, mas é beeeem chato": satisfação e fardo nas relações de cuidado entre crianças parentes pelas ruas do Morro
"Lalá, vai pra calçada!"; "Larissa, desce daí!"; "Olha pros lados, Larissa!". Essas são algumas das frases ditas por Carlos, de 11 anos, à sua irmã Larissa, de 5 anos, nos trajetos de casa para a escola e da escola para a casa que presenciamos pelas ruas da comunidade. Pelas ruas da comunidade, as atribuições de Carlos normalmente são as de não deixar a sua irmã mais nova ir para o meio da rua sem olhar se estão se aproximando carros ou motos, dar as mãos a ela caso precise, levar a sua mochila caso ela não consiga carregá-la, não deixar que ela corra sem atenção ou pule de locais altos, mantê-la segura e chegar na hora combinada, tanto na escola quanto em casa.
Na família de Carlos e Larissa, por exemplo, nem sempre foi o menino Carlos a pessoa designada a assumir a função de levar a irmã mais nova para escola. Anteriormente, era o irmão mais velho, que atualmente tem 15 anos, que levava Carlos e Larissa para a escola e agora, por ser mais velho e estudar em outra escola, não o faz mais. Em uma conversa com Carlos, durante um de seus trajetos para a casa, o menino me conta sobre essa mudança:
Pesquisadora: E o que você achou dessa mudança de ser você quem leva a Larissa e não mais o seu irmão a te levar, Carlos? - eu perguntei ao menino enquanto a sua irmã caminhava mais à frente.
Carlos: Achei melhor, porque aí eu não preciso ficar perto do meu irmão, nem do meu pai e nem da minha mãe!
P: É mesmo? E como é estar perto deles?
C: Ah, eles ficam muito mandões, eu não gosto disso não!
P: O seu irmão mandava em você?
C: Ele gostava de ficar falando: "Vai pela calçada… Vai por aqui, vai por ali".
Eu não gosto disso não! Eu sou mais agitado, bem melhor agora que meu
irmão não tá por perto.
P: E o que o seu irmão fazia com você não é parecido com o que você faz com a sua irmã agora?
C: Não! Comigo ela só tem que ir pelo lugar certo e andar rápido.
P: E o qual é o lugar certo?
C: Ir pela calçada. A diferença é que agora eu acho melhor. Eu acho mais
maduro… fica bem melhor sem o meu irmão.
P: Ah, é? Como é isso de você achar mais maduro?
C: É que eu me sinto mais responsabilizado. Tipo, você cuidar de si próprio e prestar a atenção nas coisas. Tipo… isso é responsabilidade, é bom. […]. (Extrato do Diário de Campo).
No extrato da conversa acima, vemos que há uma repetição e continuidade das práticas de cuidado desempenhadas na família de Carlos. Embora o menino não reconheça tal repetição, se antes, era o seu irmão mais velho que o mandava ir para a calçada, agora é Carlos quem cobra isso de Larissa, sua irmã mais nova. Dessa maneira, o fato de Carlos experimentar, junto com o seu irmão, como é cuidar de alguém mais novo pareceu ser importante para o menino saber, através do exemplo e incentivo, como agir com Larissa pelas ruas. Há um saber que se compartilha entre as crianças da família, em que as posições vão mudando conforme a idade e o conhecimento que se tem sobre determinadas práticas vai sendo transmitido uns aos outros através da experiência vivida e partilhada. Podemos dizer que o aprendizado de Carlos sobre como cuidar da irmã não é uma forma espontânea ou inata de aprender como cuidar, mas, como disse Tassinari (2015, 169) acerca da aprendizagem de crianças indígenas e agricultoras nas atividades produtoras da família, trata-se "de um recurso cultivado e estimulado".
Além disso, caminhar sem receber ordens diretas de seu irmão mais velho parece evocar uma certa satisfação em Carlos. Ele diz se sentir "melhor", "mais maduro" e mais "responsabilizado" por cuidar de si próprio e ter que prestar atenção nas coisas das ruas. "É bom", diz o menino. Ser responsabilizado por seus pais parece significar algo importante para ele, que passa a ser investido de atribuições e de confiança por parte de sua família a desempenhar determinadas práticas de cuidado. O menino passa a ocupar, assim, um lugar diferenciado não apenas para Larissa, como também para os seus pais que lhe confiam o cuidado da irmã e de si próprio.
O menino também evoca em nossa conversa uma posição de aparente liberdade e independência em comparação à época em que estava subordinado aos mandos do irmão. Chamamos de "aparente", pois, na medida que o menino é responsabilizado a cuidar de sua irmã, as suas ações e atenção ficavam majoritariamente voltados para isso durante o percurso. Em nossas caminhadas, o menino normalmente fazia os trajetos conversando e brincando com colegas, mas se mantinha atento a sua irmã, a seus passos e atitudes em grande parte do tempo. Sair rapidamente da posição de cuidador foi uma vez, inclusive, foi recriminado por uma moradora adulta da localidade. Em um dia em que andávamos em grupo, Larissa tropeçou pelas ruas e Carlos riu da situação, em uma atitude espontânea. Na mesma hora, passou uma senhora por perto, que o conhecia, e disse: "Ela é pequena, não ri da sua irmã". Logo em seguida, o menino parou de rir e sua feição ficou séria, como se tivesse feito algo que não deveria. Nesse sentido, sem a vigilância de seu irmão ele tem mais liberdade, mas, por outro lado, precisa ficar atento para zelar por sua irmã, o que também condiciona e determina, de certa maneira, as suas ações pelas ruas.
Por parte de Larissa, na maioria das vezes, a irmã mais nova parecia aceitar com facilidade o que o seu irmão dizia, mesmo quando desejava imitar as brincadeiras do irmão, como pular de degraus e subir em árvores, por exemplo. Bastava o menino dizer: "Larissa, você não!", que a menina correspondia aos comandos do irmão. Entretanto, ainda que o menino mais velho seja designado pelos pais a ocupar a posição de cuidador, pudemos notar que a menina também reproduzia certas expressões para ele quando o via fora da calçada, por exemplo. Além disso, em dada situação em que Carlos falou um palavrão nas ruas, ela logo disse: "Não pode falar palavrão! Se falar de novo, eu vou contar pro papai!". Este recurso se mostrou um trunfo importante de a menina demonstrar que também tem um poder na relação com o seu irmão diante de seus pais.
Imprevistos, riscos e desobediências que envolvem a prática de cuidado foram citados por Fernanda, com 11 anos, na relação com seus dois sobrinhos, com 4 e 5 anos, filhos de uma de suas irmãs mais velhas. Para a menina, ter que levar os sobrinhos para a escola é algo que ela considera "beeeeem chato". Fernanda é a filha caçula de sua mãe, possuindo dois irmãos mais velhos e duas irmãs mais velhas, e mora com mais seis pessoas em sua casa, de três cômodos. Fernanda vai sozinha para estudar de manhã na escola, volta para almoçar em casa e, logo em seguida, vai para a escola novamente para levar os seus dois sobrinhos, que estudam no turno da tarde, na mesma instituição. O percurso da escola até a sua casa e vice-versa demora em torno de 15 minutos a pé e foi a sua irmã, mãe dos sobrinhos, que mora em uma casa em frente a sua, quem pediu que Fernanda levasse as crianças mais novas ao colégio. "E se você não levar os seus sobrinhos, o que acontece?", eu perguntei uma vez a ela. E a menina respondeu: "Aí a minha irmã vai falar: ‘Ah, então tá bom, então não me pede mais nada que eu não vou fazer pra você!’". Fernanda sinaliza que há um laço de reciprocidade em sua família, em que, mesmo não querendo, ela ajuda a sua irmã, pois em dado momento pode precisar também ser ajudada. Day (2017) nos fala da noção de reciprocidade como presente nas práticas de cuidado das crianças e jovens que participaram de seu estudo na Zâmbia. Para ela, o que ficou aparente ao conversar com os jovens de sua pesquisa foi que, embora não sejam imediatamente retribuídos por seus cuidados, eles esperavam por retribuição em termos de recompensas futuras. No caso de Fernanda, não sabemos o que a menina estava esperando de sua irmã mais velha, mas sabemos que é alguém muito presente em sua vida, que costumava arrumar os seus cabelos e lhe emprestar objetos.
A atribuição "chata" à atividade está associada ao calor das ruas, ao esforço que é carregar o material escolar de seus sobrinhos e de ter que fazê-los obedecerem. Em suas palavras: "É chato, porque quando tá calor eles ficam andando devagar e eu não chego logo em casa" […] "E ter que ficar levando a mochila da Maria Antônia, levando a mochila do João Vitor, levar o casaco deles… Às vezes, levar até o que eles não querem levar pra escola eles me obrigam a levar. Aí só de pensar que hoje de tarde eu ainda tenho que comprar pão já me dá dor nas pernas!". Em outro momento, a menina associa a ação de levar os seus sobrinhos para o colégio à palavra responsabilidade e se diferencia dos mais novos a partir disso.
A fala da menina se assemelha ao que discutimos acima acerca da suposta liberdade que Carlos tem ao levar a sua irmã mais nova sem a supervisão de seu irmão mais velho ou de um adulto. Ter um lugar de maior responsabilidade na família e cuidar de outras crianças sem a supervisão de nenhum adulto pelas ruas implica no fato de a própria criança ter que estar atenta aos possíveis perigos das ruas e às atitudes dos mais novos, que nem sempre querem obedecer. A prática de cuidado dessas crianças é direcionada a outras crianças e, quanto maior o número de pessoas de quem se cuida, o risco de algum acidente acontecer aumenta, uma vez que imprevistos, desobediências e atitudes não planejadas vindas do outro ou do ambiente podem surgir.
Portanto, as práticas de cuidado entre irmãos e crianças parentes pelas ruas do Morro se relacionam, primeiramente, a como cada criança é designada dentro de suas famílias nucleares de acordo, principalmente, com o critério de idade – que varia de família para família. O fato de um(a) irmão(ã) ou outra criança mais velha ser designada pela família a exercer as práticas de cuidado não significa que suas posições estão cristalizadas na relação, como verificado também de Colonna (2012), com crianças moçambicanas. As posições das crianças podem se alternar, sendo as mais novas também passíveis de desempenharem um papel de poder sobre as mais velhas na relação direta entre elas.
O que vimos é que as práticas de cuidado se aprendem, são transmitidas, e muitas vezes, incentivadas dentro do seio familiar, através da experiência compartilhada. Também, a qualidade das relações envolvidas nas práticas de cuidado se mostraram variáveis e com emoções ambivalentes. As crianças de nossa pesquisa que ocupavam a posição de cuidadoras demonstraram essa ambivalência quanto ao que sentiam ao ocupar tal posição. Em um primeiro momento, as crianças demonstram satisfação por serem nomeadas por suas famílias, que as consideram responsáveis por desempenharem determinadas atividades e se inserirem em certas relações. A demonstração de satisfação parece se relacionar com a qualidade do pensamento de seus familiares adultos em casa ( Weisner e Gallimore 1977). Com a rotina, obrigatoriedade, cansaço e desobediências das crianças cuidadas pelas ruas, as crianças cuidadoras também expressam queixas sobre tal posição, considerando-a chata, cansativa ou até um fardo, como em outros estudos (Bjerke 2011; Colonna 2012; Day 2017).
Faz-se importante dizer, assim como discutido em Lara (2022), que as práticas de cuidado realizadas na relação das crianças entre si pelas ruas da comunidade se relacionam com as práticas de cuidado realizadas na relação com a vizinhança adulta. Estas se evidenciam como uma construção coletiva atravessada por conflitos e que também questionam os lugares sociais tradicionalmente direcionados às crianças. Como mencionado, na localidade onde moram, as crianças são convocadas a ajudarem os seus vizinhos, que pedem as suas contribuições para resolverem problemas em suas casas, pedem sugestões, e as próprias crianças se autorizam a dar conselhos para os mais velhos pelas ruas através do que nos parece ser uma rede de apoio e confiança construída coletivamente com elas. Mas isso não quer dizer que a relação com os vizinhos adultos seja de completa harmonia ou satisfação. O fato de o Morro ter o que chamamos de uma "vizinhança proximal" contribui para que encontros de intimidade e ajuda ocorram, mas em continuidade com situações de implicância e aborrecimento entre moradores pelas ruas. O fator proximidade é apontado por Pretto (2015) como fator que permitia o convívio cotidiano das crianças com a vizinhança, familiares e sedimentava laços afetivos. O que nos parece importante destacar, portanto, é que é com os adultos de sua vizinhança proximal que as crianças aprendem, ensinam e transformam os modos de estar na comunidade e praticam o cuidado com o outro pelas ruas, seja este outro uma criança ou um adulto (Colonna 2012; Pretto 2015; Szulc 2019).
Considerações finais
Nesta pesquisa, muitas das crianças são convocadas a se engajarem nas atividades de cuidado e subsistência daqueles que vivem no morro e a participarem ativamente da construção e transmissão dos valores e normas sociais que ali circulam. Embora situadas em uma sociedade hierarquizada, em que as relações de poder com os adultos são muito desiguais, as crianças nos mostraram que muitos elementos são trocados, aprendidos, partilhados, transformados e negociados entre si e com os adultos. Podemos dizer que, nesse grupo social estudado, a hierarquia autoritária possui muitas brechas para que as lógicas de reciprocidade, ajuda mútua e retribuição se façam pregnantes, emaranhando-se no dia a dia das crianças. Tais normatividades citadas dizem respeito a formas de estar e viver com o outro que tensionam o autocentramento e o individualismo vivido nas sociedades neoliberais contemporâneas. Não estamos dizendo que, no grupo social estudado, não haja individualismo ou autocentramento das pessoas que ali vivem, mas que, as lógicas sociais pregnantes parecem apontar para a interdependência enquanto uma lógica relacional importante. Essa lógica parece estar situada, entre outras coisas, à sobrevivência e à manutenção da vida da população específica desse morro. É essa mesma lógica que nos pareceu ser um dos elementos que favorecem as formas como as crianças vivem a relação com o outro no grupo social estudado, participando ativamente da vida umas das outras, de sua vizinhança e de suas famílias.
Como vimos, para uma criança mais velha de uma família, ser designada como "cuidadora" de outras crianças pode lhe agregar um valor positivo dentro do seu seio familiar, além de reconhecimento, a criança é considerada responsável e confiável. Na relação com as crianças cuidadas, essa criança pode assumir um lugar privilegiado e de poder. Entre as crianças, vemos que as práticas de cuidado pelas ruas do Morro se constituem de forma diversa, mas normalmente se exemplificam por um olhar atento e protetor na mobilidade pelas ruas, pelo guiamento, pela partilha de conhecimentos e ensino, por palavras de incentivo e realização de brincadeiras conjuntas. Tais práticas são marcadas por sentimentos de carinho, amizade, companheirismo, mas observamos o quanto essas relações também são atravessadas por conflitos, chateações, cansaço e irritação.
Há uma ambivalência afetiva e de emoções presente nas relações de cuidado com outras crianças pelas ruas, que aponta que a natureza das emoções não é fixa, e sim transforma-se e opera, de uma só vez, com emoções e afetos diversos que convivem entre si. Tal ambivalência afetiva e de emoções não é um impeditivo para que o cuidado se realize. Ao contrário, parece ser parte constituinte das relações de cuidado. Diferente de pensar o cuidado enquanto uma disposição subjetiva marcada por sentimentos "bondosos", como o amor ou a empatia, vimos que o cuidado, por ser uma prática eminentemente relacional, produz também, sentimentos conflituosos e aversivos em relação ao outro.
Um dos aspectos importantes deste estudo é a constatação de que a produção de tais afetos e emoções vinculados às práticas de cuidado das crianças é eminentemente situada e associada a ideia de "ajuda" ( Guimarães e Vieira 2020). Cuidar de um irmão é entendido não apenas como ajudar o irmão, mas como ajudar a rede familiar que normalmente cuida das crianças, especialmente as mães e avós. A participação das crianças na rede de cuidado mais amplo se relaciona, portanto, à ausência de participação do Estado também no cuidado das mulheres que cuidam das crianças.
O tema da prática de cuidados realizados por crianças e sua relação com as gramáticas emocionais é um campo fértil para futuros estudos. Entendemos que próximos textos possam explorar a dinâmica das emoções envolvendo as relações entre as gerações e, também, estudos que possam se aprofundar na diminuição da presença masculina adulta e do Estado nas redes de cuidado envolvendo crianças que também integram o Hemisfério Sul do globo. Com este trabalho, espera-se que as investigações sobre o cuidado praticado por crianças contribuam para pensarmos a análise do entendimento das noções de infância, das relações de poder, subordinação, controle e das trocas simbólicas e emocionais que ocorrem de formas situadas.
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Notas