RESENHA

Minamata: a tragédia exposta no documentário de Noriaki Tsuchimoto e nas fotografias de William Eugene Smith

Maria Ignês Carlos Magno
Universidade de São Paulo, Brasil

Minamata: a tragédia exposta no documentário de Noriaki Tsuchimoto e nas fotografias de William Eugene Smith

Comunicação & Educação, vol. 28, núm. 2, pp. 225-240, 2023

Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

Recepção: 07 Novembro 2023

Aprovação: 07 Novembro 2023

Resumo: Para esta resenha, o filme escolhido é O Fotógrafo de Minamata (2020). A obra cinematográfica de Andrew Levitas é sobre o fotógrafo William Eugene Smith, conhecido por suas fotos nas linhas de frente da Segunda Guerra. Chamado pelo editor-chefe da Life Magazine, sai da quase total reclusão em que vivia e vai para Minamata fotografar a vida dos moradores da cidade japonesa que foi envenenada pelo mercúrio e por dejetos industriais jogados nos rios e no mar pela Chisso Corporation. O Desastre Ambiental de Minamata, como ficou conhecida a tragédia, também foi registrado pelo documentarista Noriaki Tsuchimoto ao longo de 35 anos de sua vida. Considerando a atualidade do tema, a importância de Eugene Smith no fotojornalismo e os documentários de Noriaki Tsuchimoto, pensei no filme como um pretexto para falar de artistas que registraram e denunciaram ao mundo, por meio de sua arte, imagens de uma tragédia tão ou mais devastadora que as guerras veiculadas diariamente pelos meios de comunicação.

Palavras-chave: Minamata, fotografia, W. Eugene Smith, documentário, Noriaki Tsuchimoto.

Abstract: This film review focuses on Andrew Levina’s movie Minamata (2020), a biographical drama film about photographer William Eugene Smith known for his photos of World War II front lines. Invited by Life Magazine’s editor, Smith leaves his almost total reclusion and travels to Minamata in Japan to photograph and document the lives of residents devastated by mercury poisoning and industrial waste thrown into the waters by the Chisso Corporation. The Minamata environmental disaster, as the tragedy became known, was also registered by documentary filmmaker Noriaki Tsuchimoto over 35 years of his life. Considering the theme’s relevance, the importance of Eugene Smith to photojournalism and Noriaki Tsuchimoto’s documentaries, I use Levina’s film as a pretext to discuss artists who through their art documented and reported to the world a tragedy as or more devastating than the wars broadcast daily by the media.

Keywords: Minamata, photography, W. Eugene Smith, documentary, Noriaki Tsuchimoto.

A fotografia é uma voz pequena, na melhor das hipóteses, mas às vezes – apenas às vezes – uma fotografia ou um grupo delas pode atrair os nossos sentidos para a consciência. Muito depende do espectador; em alguns, as fotografias podem evocar emoção suficiente para ser um catalisador para o pensamento. (SMITH, William Eugene, 1974)

1. INTRODUÇÃO

Nem todas as imagens de um filme ou de uma fotografia são agradáveis de ver, nem sempre são poéticas, a não ser que a poesia esteja exatamente na tragédia e na dor expostas em forma de arte e denúncia. E são muitas as imagens de tragédia e dor desenhadas, pintadas, fotografadas, filmadas em diferentes tempos e formas de registros. Para esta resenha, o filme escolhido é um pretexto para falar de artistas que registraram e revelaram ao mundo por meio de sua arte imagens de uma tragédia tão ou mais devastadora que as guerras veiculadas diariamente pelos meios de comunicação. São registros de guerras silenciosas da destruição dos rios, dos mares, das florestas, dos campos, da terra, do ar, do planeta, do serhumano, e que são ocultadas pelos governos em conjunto com as grandes empresas e corporações responsáveis pelos desastres ambientais e, consequentemente, humanos. Se o planeta não precisa de nós, humanos, porque, mesmo que leve séculos, ele se recupera, os efeitos provocados ao ser humano, não. São irreversíveis, como os ocorridos em Minamata.

A história do desastre de Minamata não é única, mas é uma das mais devastadoras, se considerarmos que o envenenamento começou em 1906, quando a Chisso foi fundada como uma companhia de hidrelétrica, depois uma fábrica de carboneto de cálcio, iniciando a produção de fertilizantes químicos. Devagar, os primeiros produtos químicos começaram a ser despejados nos rios e no mar. Conforme crescia até se tornar uma poderosa indústria química no Japão, a cada dia novos e mais pesados produtos foram acrescentados em função e em nome do desenvolvimento econômico do Japão, e, principalmente, o da Chisso Corporation. Além de fertilizantes químicos, a Chisso concentrou sua produção de ácido acético, cloreto de vinil e plastificantes. Segundo dados do Minamata Disease Museum, desde o período Taisho (1912-1926), a poluição do mar pelo despejo químico da fábrica vinha causando muitos problemas. De 1932 a 1968, a Chisso utilizou mercúrio inorgânico como catalisador na fabricação do aldeído acético, que é a matéria-prima do ácido acético e do cloreto de vinil. Os resíduos dos produtos foram lançados no mar sem quase nenhum tipo de tratamento até 1966.

O Desastre Ambiental de Minamata, como ficou conhecida a tragédia, foi registrada pelo cineasta e documentarista Noriaki Tsuchimoto, que dedicou nada menos do que 35 anos – metade de sua vida – para fazer dezesseis filmes sobre um único tema – a fábrica de fertilizantes japonesa. Entre eles, Minamata – As vítimas e seu Mundo ( 1971) é o mais conhecido. Nesse ano, o fotógrafo William Eugene Smith foi convidado para voltar ao Japão e registrar os acontecimentos que estavam ocorrendo em Minamata. As fotos tiradas durante os anos em que ele e sua mulher, Aileen, viveram em Minamata deram origem ao ensaio fotográfico e livro homônimo. Em 2021, o cineasta Andrew Levitas transformou o livro no filme: O Fotógrafo de Minamata, proposto para esta resenha.

2. DO LIVRO-ENSAIO AO FILME: O FOTÓGRAFO DE MINAMATA

O Fotógrafo de Minamata ( 2020) narra a história do fotógrafo de guerra W. Eugene Smith, que ficou famoso fotografando nas linhas de frente durante a Segunda Guerra Mundial. O filme foi roteirizado e dirigido por Andrew Levitas a partir do livro Minamata escrito pelo próprio Eugene Smith e sua mulher, Aileen Mioko Smith (1975). Nele, o casal relata os acontecimentos ocorridos no Japão em 1971, quando o mundo tomou conhecimento dos efeitos provocados pelo envenenamento dos peixes pelo mercúrio e dejetos químicos jogados nos rios e no mar pela indústria Chisso Corporation e consumidos pelos moradores da Baía de Minamata. Levitas constrói o roteiro em torno da biografia de Smith e do seu último trabalho como fotógrafo de campo. Seguindo a sinopse do filme, Smith, vivendo em reclusão, prestes a se aposentar, a pedido de dois jovens japoneses conhecedores e admiradores de seu trabalho e do editor da Life Magazine, aceita retornar ao Japão e expor a tragédia e o escândalo que envolve Minamata, cidade japonesa localizada na província de Kumamoto, em que a comunidade está sendo envenenada pelos efeitos do mercúrio. Após conhecer dois jovens do Movimento Minamata, Eugene Smith aceita retornar ao Japão, onde estivera como fotógrafo de guerra cobrindo as invasões de Tara-Wa, Guam e Iwo Jima e como correspondente da Life, durante a Segunda Guerra Mundial, onde fora ferido gravemente na Batalha de Okinawa.

O filme de Andrew Levitas segue as histórias contadas pelos autores e seleciona fatos que foram vividos pelo fotógrafo, como o contato com os representantes do Movimento Minamata, ainda em Nova York, a sua chegada em Minamata e o primeiro registro fotográfico, de um menino cego tocador de Acordeom; o contato com o casal que os hospeda; as caminhadas pelo vilarejo fotografando paisagens, mas principalmente as pessoas em seu cotidiano; as lideranças locais e as lutas de resistência; a aproximação com os moradores da vila, a ajuda coletiva dos moradores para que Smith tivesse um estúdio exatamente igual ao de Nova York, porque queriam que ele trabalhasse para que todos ficassem sabendo qual era a situação e a tragédia que viviam; as tentativas de contato com o chefe da Chisso Corporation; as violências sofridas pela polícia particular dos dirigentes da Corporação; a mais violenta de todas, quando é surrado durante uma das nas manifestações da população em frente da Chisso Corporation – violência essa que o vitimou para o resto da vida; e as estratégias utilizadas para conseguir as imagens que revelariam ao mundo a tragédia vivida pelos habitantes do vilarejo. Finaliza com a entrega das fotos com as vítimas da tragédia de Minamata para o editor da Life Magazine. Também mostra as suas personagens, aquelas que passaram a fazer parte de suas memórias para sempre: Tomoko Uemura e sua família e Isamu Nagai, o menino rebelde que queria ser fotógrafo. Houve outros, mas estes se destacam tanto nos relatos de Eugene de Aileen como no filme de Andrew Levitas.

Embora as imagens do fotógrafo tenham dado visibilidade ao escândalo e à tragédia de Minamata e mobilizado a opinião pública sobre o desastre ambiental e humano ocorrido na Baía de Minamata e no Mar de Shiranui, é importante salientar que em 1971, quando Eugene Smith chega ao Japão para documentar os acontecimentos da região, um dos maiores documentaristas japonês, Noriaki Tsuchimoto, lançava o documentário: Minamata: As vítimas de seu Mundo ( 1971). Pouco conhecido ou visto no Ocidente, considero importante trazer o cineasta e o filme para esta resenha.

3. DO FILME AO DOCUMENTÁRIO: MINAMATA – AS VÍTIMAS E SEU MUNDO

Minamata: As vítimas e seu mundo ( 1971) foi um dos dezesseis filmes feitos por Noriaki Tsuchimoto sobre o envenenamento da aldeia de Minamata. Noriaki nasceu em 11 de dezembro de 1928, em Gifu, no Japão, e morreu em 24 de junho de 2008. Estudou em Tóquio, na Universidade de Waseda. Contrário ao sistema político japonês e à participação do Japão na guerra, integrou os grupos de estudantes radicais conhecidos como Zengakuri ou (Federação Japonesa de Associação de Autogoverno Estudantil). Filiou-se ao Partido Comunista Japonês, no qual participou ativamente das manifestações estudantis e armadas. Foi preso e expulso da Universidade em 1953. Conseguiu um emprego em uma Sociedade de Amizade Sino-Japonesa até conhecer Keiji Yoshino, um cineasta que dirigiu a Iwanami Productions, dedicada à produção de documentários educacionais e de relações públicas. O contato com o documentário de Susumu Hani (The Watching Children), levou-o a aceitar a oferta de Keiji Yoshino para trabalhar na Iwanami Productions, em 1956. Em 1957, deixou a Iwanami e também o Partido Comunista Japonês, como a maioria dos intelectuais da época. Mesmo fora da empresa, continuou como freelance e realizou vários trabalhos para a Iwanami. O foco principal de seus trabalhos era o Japão e os efeitos da modernização do Japão, bem como os problemas a ele relacionados. A partir de 1965, começou a realizar uma série de documentários para a televisão cujos temas eram sempre sociais e políticos. Um deles foi sobre o envenenamento por mercúrio na Baia de Minamata. Com a forte resistência sofrida pelos lados envolvidos, dedicou-se a trabalhar com as vítimas, deixando que elas falem por si mesmas e deem o seu depoimento, o seu lado da história.

Noriaki Tsuchimoto dedicou nada menos do que 35 anos – metade de sua vida – para fazer dezesseis filmes sobre um único tema – a fábrica de fertilizantes japonesa Chisso, desde quando ela começou a despejar o mortífero metilmercúrio na água em torno do vilarejo de Minamata em quantidades suficientes para matar o dobro dos 100 milhões de habitantes do Japão. Mais de dez mil pessoas morreram ou ficaram comprometidas. Começando por um programa de televisão, em 1965, as obras de Noriaki recontaram a história ao longo da década de 1970. Para o cineasta e crítico de cinema Mark Cousins, “sua atitude corajosa seguia o espírito de Shohei Imamura, e o conjunto de filmes resultantes – como Minamata: As vítimas e o seu mundo, 1971 –, está entre os melhores no gênero não ficção”. Pouco conhecidos ou vistos no Ocidente, os documentários japoneses das décadas de 1970-1980 estiveram entre os melhores do mundo. Ainda para Mark Cousins, essa devoção de Noriaki a um único tema não tem paralelo no documentário ocidental. Além dessa obra sobre Minamata e suas vítimas,

a trilogia Minamata Disease: A Trilogy tem como foco central as questões médicas da doença, e O Mar de Shinarui de 1975, também poluído e contaminado. Nesse documentário, o esforço é para compreender o mundo das pessoas em sua luta com o mar e seus modos de vida tradicionais, muitos deles afetados pela poluição ambiental. Esses filmes foram parte apenas da produção de Noriaki. Outros filmes e temas lhes foram caros, como o sobre o poeta e crítico literário Nakano Shigeharu: a situação dos coreanos no Japão, além de três filmes sobre o Afeganistão antes do Talibã: A  Primavera Afegã e  Outro Afeganistão: Diário de Cabul, 1985, apenas para citar algumas de suas produções.

4. ENTRE W. EUGENE SMITH E NORIAKI TSUCHIMOTO: MINAMATA − A TRAGÉDIA E A LUTA EXPOSTAS NAS IMAGENS FOTOGRÁFICAS E CINEMATOGRÁFICAS

Minamata: As Vítimas e seu Mundo, de Tsuchimoto, é considerado um dos dez documentários mais importantes da história do cinema. O ensaio fotográfico de William Eugene Smith sobre Minamata é visto como uma das grandes obras da fotojornalismo. E como a ideia aqui não é tecer uma discussão sobre a fotografia, sobre o cinema, ou mesmo a qualidade do filme de Andrew Levitas, mas ter o filme, as fotos e o documentário como registros visuais que denunciaram a tragédia de Minamata, penso que seja importante trazer algumas das imagens citadas. Imagens ilustrativas, imagens comparativas, imagens em colorido, imagens em preto e branco, imagens que nos possibilitem pensar com os olhos. Como as imagens precisam de palavras vou usar legendas para contar as histórias. Começando pelo filme de Andrew Levitas, W. Eugene Levitas, interpretado por Johnny Depp.

Eugene Smith (Johnny Depp) em seu estúdio em Nova York
Figura 1.
Eugene Smith (Johnny Depp) em seu estúdio em Nova York
Frame do filme O Fotógrafo de Minamata.

William Eugene Smith
Figura 2.
William Eugene Smith

International Photography Hall of Fame.

As Figuras 1 e 2, de Johnny Depp e Eugene Smith abrem a sequência porque o filme é uma homenagem ao fotógrafo. Interessa também porque algumas críticas ou comentários salientam a transformação de Depp e a semelhança com Smith.

Smith e Aileen Mioko − Momento em que ela entrega as fotos de Minamata
Figura 3.
Smith e Aileen Mioko − Momento em que ela entrega as fotos de Minamata
Frame do filme O Fotógrafo de Minamata.

Smith na Life Magazine. Smith mostra as fotos que Aileen trouxe de Minamata
Figura 4.
Smith na Life Magazine. Smith mostra as fotos que Aileen trouxe de Minamata
Frame do filme "O Fotógrafo de Minamata".

Fotos de Smith sobre Minamata para serem publicadas na 
              Life
Figura 5.
Fotos de Smith sobre Minamata para serem publicadas na Life

Frame do filme O Fotógrafo de Minamata.

As Figuras 3, 4 e 5 representam três momentos do filme: a primeira foto é de Aileen, que insiste para que Smith veja as fotos de Minamata e aceite ir para o Japão. As outras duas são os momentos de discussão entre Smith e o editor da revista sobre ir ou não cobrir os acontecimentos em Minamata. A relação de Smith com a Life é tensa, mas ele aceita o desafio.

Nessa segunda sequência, a das passeatas e reuniões são do filme e originais de Smith (Figuras 6, 7 e 8). Importa trazer essas imagens por dois motivos: um para traçar uma comparação entre a representação de uma manifestação contra a Chisso Corporation e as imagens fotografadas por Smith em 1972. Outra razão é que desde o momento em que os habitantes de Minamata descobriram que a doença que os afetava era causada pelo envenenamento dos rios e do mar, organizaram uma frente de resistência e de luta constante contra a fábrica e seus dirigentes. A doença foi diagnosticada em 1956, descobriram que a causa era o envenenamento dos peixes que consumiam. Em 2 de novembro de 1959, os pescadores destruíram a propriedade da Cisso Corporation. Esse ato chamou a atenção pública japonesa para o assunto.

Manifestantes em passeata contra a Chisso Corporation
Figura 6.
Manifestantes em passeata contra a Chisso Corporation
Frame do filme "O Fotógrafo de Minamata".

Vítimas e apoiadores desfrutam de uma noite de relaxamento após sessão de julgamento na cidade de Kumamoto – 1972-
Figura 7.
Vítimas e apoiadores desfrutam de uma noite de relaxamento após sessão de julgamento na cidade de Kumamoto – 1972-
Foto de Magnum por W. Eugene Smith, 1972.

Uma marcha de manifestação nas ruas da cidade de
Figura 8.
Uma marcha de manifestação nas ruas da cidade de

Minamata − 1972

Foto de Magnum por W. Eugene Smith, 1972.

A terceira sequência traz as imagens de personagens do filme e de Eugene Smith: personagens reais e as interpretadas no filme de Levitas (Figuras 9 e 10). Na história contada por Smith e Aileen, no livro Ensaio sobre Minamata, ele fala de uma personagem que ficou na sua memória: Isamu Nagai, o menino que queria ser fotógrafo, que vivia com uma câmera fotografando tudo porque pretendia expulsar a Chisso de Minamata. Isamu andava com a ajuda do centro de reabilitação para pacientes vítimas.

Isamu Nagai e sua máquina fotográfica registrando os lugares e as pessoas do local
Figura 9.
Isamu Nagai e sua máquina fotográfica registrando os lugares e as pessoas do local
Foto de Magnum por W. Eugene Smith, 1972.

 Isami Nagai, vítima da doença de Minamata no Centro de Reabilitação para pacientes de Minamata
Figura 10.
Isami Nagai, vítima da doença de Minamata no Centro de Reabilitação para pacientes de Minamata
Foto de Magnum por W. Eugene Smith, 1972.

As fotos do Centro de Reabilitação para as Vítimas de Minamata estão no documentário de Noriaki Tsuchimoto. Uma sequência inteira dos tratamentos dedicados às vítimas.

 Esta foto do filme é o momento em que Isami e Smith se conhecem e Smith dá ao menino a sua câmera fotográfica
Figura 11.
Esta foto do filme é o momento em que Isami e Smith se conhecem e Smith dá ao menino a sua câmera fotográfica
Frame do filme "O Fotógrafo de Minamata".

As outras personagens que marcaram a vida de W. Eugene Smith, uma delas que se tornou o resumo da tragédia, é Tomoko Uemura e sua família. Ela nasceu em 1955 e morreu em 1977. Filha de uma família grande, foi a única nascida com a doença. A primeira foto (Figura 12) é a de Smith, seu assistente, e a Família de Tomoko.

 Tomoko com sua família, apoiadores, Gene e o editor da Asahi Camera. Fotografia tirada na casa de Tomoko, em Minamata, em seu aniversário de 16 anos.
Figura 12.
Tomoko com sua família, apoiadores, Gene e o editor da Asahi Camera. Fotografia tirada na casa de Tomoko, em Minamata, em seu aniversário de 16 anos.
Foto de Aileen Mioko Smith.

 Smith cuidando de Tomoko na varanda da casa em frente
Figura 13.
Smith cuidando de Tomoko na varanda da casa em frente
Frame do filme "O Fotógrafo de Minamata".

ao mar.

A foto de Smith (Depp) segurando Tomoko para que seus pais possam ir ao mercado não é só ilustrativa (Figura 13), é parte de uma sequência do filme em que Smith, tão arredio nas relações humanas, é obrigado a cuidar de Tomoko.

Em seguida, vem a sequência em que Aileen e Smith preparam o cenário para sua foto mais conhecida de todas: Tomoko e a mãe no Banho. A primeira é do filme (Figura 14). A segunda é de Smith (Figura 15).

 Eugene Smith, quebrado pela surra que o cegou e quase o deixou aleijado, adapta seu equipamento fotográfico para conseguir realizar a foto com ajuda de Aileen
Figura 14.
Eugene Smith, quebrado pela surra que o cegou e quase o deixou aleijado, adapta seu equipamento fotográfico para conseguir realizar a foto com ajuda de Aileen
Frame do filme "O Fotógrafo de Minamata".

Tomoko e a Mãe no Banho como ficou conhecida e ganhou o mundo.
Figura 15.
Tomoko e a Mãe no Banho como ficou conhecida e ganhou o mundo.
Foto de Eugene Smith – Magnum.

Aqui os olhos fixam a imagem transformada no resumo da tragédia de Minamata. Foto resumo, foto ícone, foto lírica, impossível não contemplar a dor e a leveza.

 A adolescente Shinobu Sakamoto, paciente congênita da doença de Minamata, sai pela cidade para comprar um presente
Figura 16.
A adolescente Shinobu Sakamoto, paciente congênita da doença de Minamata, sai pela cidade para comprar um presente
Foto tirada por Aileen Mioko. Smith, 1972.

Depois de passar pelas histórias e trágicas imagens das vítimas de Minamata, ao folhear o livro-ensaio de Eugene e Aileen, nos deparamos com a adolescente clicada por Aileen: Shinobu Sakamoto (Figura 16). Sua personagem. São muitas imagens de Shinobu e seu cotidiano fotografadas por Aileen.

E, nessa imagem, o impossível é não pousar os olhos na beleza da foto e da adolescente que nos dá as costas e sai em seu corpo deformado pelas ruas da cidade, assim como a menina que caminha em direção ao rio no documentário de Noriaki (Figura 17). São personagens reais que, a despeito de toda tragédia, continuam suas vidas. Tema que depois de Minamata: As vítimas e seu Mundo, será um outro foco dos documentários de Tsuchimoto.

 Menina caminhando em direção ao rio
Figura 17.
Menina caminhando em direção ao rio
Frame do documentário "Minamata: As Vítimas e seu Mundo".

 Noriak Tsuchimoto -- filmando os depoimentos das vítimas de Minamata
Figura 18.
Noriak Tsuchimoto -- filmando os depoimentos das vítimas de Minamata
Fotografia da filmagem de Minamata.

Pôster do documentário de 1971
Figura 19.
Pôster do documentário de 1971

Quando Noriaki Tsuchimoto iniciou seus registros sobre Minamata, em 1965, e sofreu forte rejeição das partes envolvidas, decidiu que trabalharia diretamente com as vítimas, daria a elas voz para que falassem por si mesmas. A Figura 18 é um exemplar de como eram feitas as filmagens. W. Eugene Smith, após ter sofrido agressões e sabotagens, como o incêndio do estúdio onde trabalhava nas fotos que seriam enviadas à Life, tem a ideia de fotografar as pessoas no seu dia a dia, no seu continuar a sobreviver à tragédia.

Para finalizar esse tópico das imagens originais e as do filme proposto, na Figura 19 está a foto do pôster original de Minamata: As Vítimas e seu Mundo, de Noriaki Tsuchimoto.

5. INCONCLUSÕES

Sabemos o quanto uma pesquisa vale pelas possibilidades das descobertas, os estudos que levam cada vez mais a um novo conhecimento e até mesmo ao encantamento por um objeto. Como cada obra nos impacta particularmente, vale ver o filme como pretexto para pensar nele ou enveredar por aspectos nele contidos que nos afetam. O fotógrafo de Minamata já traz no título uma interrogação ou interrogações. Desperta curiosidade pela história do fotógrafo W. Eugene Smith, narrada por Andrew Levitas, e toda a polêmica que o filme levantou na época, devido ao protagonista principal, Johnny Deep, estar envolvido em um escândalo pessoal e o filme ter corrido o risco de não ser lançado, Minamata e a tragédia ambiental com suas vítimas foram o elemento impactante. Minamata porque não está só no passado da história e do crime que aconteceu no Japão e a população da cidade, mas, e infelizmente, porque continua presente em Brumadinho, na terra e no povo Yanomami, vítimas do mercúrio, e o mar de Santos, para citar o Brasil na história de crime contra a natureza e o ser humano. O filme é um pretexto para conhecer outros registros e filmes, como Amazônia, uma outra Minamata?, do cineasta Jorge Bodanzky. Se Noriaki Tsuchimoto foi o documentarista que dedicou 35 anos de sua vida denunciando a tragédia de Minamata, Jorge Bodanzky é o cineasta que há muito vem denunciando os crimes contra a floresta e os povos que nela vivem e são vítimas da devastação. Fica aqui a proposta.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COUSINS, Mark. História do cinema: dos clássicos mudos ao cinema moderno. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

DEZ coisas para saber sobre a doença de Minamata. Minamata Disease Museum, 8 dez. 2017. Disponível em: https://www.minamatadiseasemuseum.net/10-things-to-know. Acesso em: 17 nov. 2023.

GENOVA, Alexandra. Eugene Smith’s Warning to the World. Magnum, 15 abr. 2019. Disponível em: https://www.magnumphotos.com/arts-culture/society-arts-culture/w-eugene-smith-minamata-warning-to-the-world/. Acesso em: 17 nov. 2023.

O FOTÓGRAFO de Minamata. Direção: Andrew Levitas. Roteiro: Andrew Levitas e David Kessler. [ S. l.]: [ S. n.], 2020. (115 min).

MINAMATA: As vítimas e seu mundo. Direção: Noriaki Tsechimoto. [ S. l.]: [ S. n.], 1971. (180 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FB57D7ZL-GY. Acesso em: 3 dez. 2023.

TSUCHIMOTO, Noriaki. Interview with Noriaki Tsuchimoto. [Entrevista cedida a] Aaron Gerow. Nihon Cine Art, 26 abr. 2011. Disponível em: https://eigageijutsu.blogspot.com/2011/04/interview-with-noriaki-tsuchimoto.html. Acesso em: 17 nov. 2023.

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