ARTIGOS NACIONAIS
Received: 04 May 2023
Accepted: 14 May 2023
Resumo: Este artigo analisa algumas convergências teóricas entre dois autores que se destacam no campo das ciências humanas. Trata-se de estabelecer uma tentativa de diálogo entre as teorias desenvolvidas por Lev Vigotski e Pierre Bourdieu, em torno do papel da mediação social da linguagem na construção da pessoa. Parte-se do pressuposto de que, ainda que tenham se destacado em campos disciplinares distintos, em configurações históricas específicas e com propósitos teóricos diferentes, ambos teceram um edifício conceitual capaz de auxiliar no entendimento da construção da objetividade e subjetividade humanas a partir da linguagem. De início apresentaremos uma breve biografia dos autores e suas especificidades de pensamento para, na parte final, sustentar a hipótese de que os autores podem ser complementares.
Palavras-chave: Vigotski, Bourdieu, linguagem, mediação simbólica.
Abstract: This paper analyzes some theoretical convergences between two major authors in the human sciences, Lev Vygotsky and Pierre Bourdieu, to stablish a dialogue between their theories around the role of the social mediation of language in identity construction. Despite distinguished works in different disciplinary fields, developed in specific historical configurations and with different theoretical purposes, both have woven a conceptual framework capable of unraveling the construction of human objectivity and subjectivity based on language. We first present a brief biography of the authors and their specificities of thought to, then, support the hypothesis of their complementarity.
Keywords: Vygotsky, Bourdieu, language, symbolic mediation.
1. INTRODUÇÃO
O objetivo do artigo é apresentar o resultado de um exercício acadêmico que buscou aproximar a obra de dois importantes autores: o psicólogo bielorusso Lev Vigotski e o sociólogo francês Pierre Bourdieu. A despeito da ausência de diálogo direto entre eles, desperta a curiosidade a presença de alguns traços que se assemelham em suas diferentes formulações teóricas. Pertencendo a ambientes culturais, sociais e históricos distantes, a formações acadêmicas distintas, bem como se identificando com espaços disciplinares diferentes – a psicologia e a sociologia – alguns possíveis pontos de contato de suas proposições podem nos instigar a adotá-los como parceiros, sobretudo no que diz respeito à compreensão da importância atribuída ao papel da linguagem na constituição humana.
Uma análise mais aprofundada de cada uma das obras permite afirmar que suas diferenças de programas de pesquisa, não podem ser negligenciadas. Face a robustez das formulações de cada um dos autores não haveria possibilidade de, nos limites do presente texto, discorrer sobre a totalidade dos pontos de contato e de distanciamento de obras tão complexas. Longe dessa pretensão, nosso interesse aqui se restringirá a análise de alguns aspectos do legado de cada autor. Nosso recorte será feito a partir dos modos como os dois pensadores explicam o papel da linguagem nos processos educativos e/ou socializadores pelos quais todo ser individual deve passar para se tornar humano e membro de determinada cultura e sociedade. Mais especificamente, embora os processos socializadores não tenham sido foco exclusivo de ambos, cremos que, a partir da temática da educação, entendida por eles como possibilitada pela mediação simbólica, teremos a possibilidade de estabelecer alguns pontos de articulação entre a perspectiva da psicologia histórico-cultural de Vigotski e o estruturalismo genético de Bourdieu.
A importância da linguagem na obra de cada um dos autores tem sido explorada por diversos estudos, mas de modo separado. No caso de Vigotski, merecem destaque os trabalhos de Smolka 1 e Pino 2 que examinam o tema da linguagem entendida como língua falada, palavra e seu papel na constituição e desenvolvimento das funções psíquicas superiores. Na perspectiva de Bourdieu, valem ser mencionadas as análises de Silva, Bastiani e Oliveira 3, que se apropriam da literatura da linguística para apresentar os enfrentamentos entre este e outros filósofos da linguagem. Todavia, a interlocução entre as contribuições de cada um dos pensadores, nos moldes aqui propostos, ainda não foi realizada. Esperamos que o ensaio preencha parte dessa lacuna. Apesar dos riscos envolvidos na tarefa, o esforço em tratar com um pouco mais de atenção as similaridades entre suas proposições teóricas pode ser fecundo.
Antes de examinarmos a importância e o lugar da linguagem na teoria dos dois autores, iniciaremos pela breve apresentação de alguns traços que caracterizam seus percursos individuais e suas formulações teóricas.
2. ASPECTOS DA VIDA E DA OBRA DE LEV S. VIGOTSK
Lev Semionovich Vigotski, judeu de nascimento, nasceu em 1896, em Orsha, próximo a Mensk, atual capital da Bielorrússia. Morreu em 1834, ainda muito cedo, com 37 anos, vítima de uma tuberculose. Sua produção escrita foi vastíssima para uma vida tão curta. Ele escreveu aproximadamente 300 trabalhos científicos, cujos temas vão desde a neuropsicologia até a crítica literária, passando por deficiência física e mental, linguagem, psicologia, educação e questões teóricas e metodológicas relativas às ciências humanas.
Com ampla erudição, ainda muito jovem formou-se em Direito, pela Universidade de Moscou, em 1918, e frequentou por alguns anos o curso de medicina. Desde cedo se dedicou às leituras sobre a história, dando destaque aos estudos de Karl Marx e Friedrich Engels, sobretudo os construtos teóricos sobre o materialismo dialético. Na literatura optou por críticas literárias, tendo publicado estudos que culminaram em sua tese de doutoramento sobre a psicologia da arte, em 1925.
Dentre os trabalhos mais importantes do grupo de intelectuais que Vigotski liderava, juntamente com Alexander Luria e Alexei Leontiev, estão os estudos sobre a gênese das funções psicológicas e a formação da personalidade consciente advinda da produção social de processos de significação. Tais estudos vão remeter à relevante contribuição acerca da formação psíquica a partir da interação ou inter-relação, como sugeriu Vigotski, entre a subjetividade do sujeito e a objetividade da realidade vivida e vivenciada – esta mediada pela linguagem, pela palavra, signo arbitrário, dotado de significado e socialmente convencionado.
Vigotski partia do princípio de que a psicologia, no final do século XIX e início do século XX, estava marcada por uma evidente dicotomia caracterizada por duas correntes opostas: o idealismo e o mecanicismo. Essa análise o levou à constatação da existência de uma crise metodológica, uma vez que a forma de se acessar o humano por caminhos opostos parecia estar equivocada. O projeto de pesquisa que acabou por formular buscava a superação dessa dualidade da psicologia, compreendendo a psique não por meio do reducionismo idealista mecanicista, mas como um fenômeno de natureza social e histórica. Sua proposta era que se estudasse o ser humano em sua totalidade, tomando como central a relação social dialética e de interdependência em sua constituição. Sua reflexão sobre o que seria uma nova ciência psicológica acabou por gerar as bases para a estruturação do método da psicologia histórico-cultural, tendo como pressuposto o materialismo dialético, especialmente no que concerne à postulação da ação humana na transformação da natureza e, consequentemente, transformação de si, assim como à constituição da pessoa singular a partir da internalização das relações com outros sujeitos.
Ao materialismo histórico, Vigotski contribui grandemente ao propor a reflexão dessa teoria também em um horizonte simbólico. Na perspectiva do autor, o sujeito é constituído nas interações sociais mediadas por signos culturais, que operam em um sistema de significação (semiótica). Assim, o desenvolvimento psíquico acontece na inter-relação com o outro e com o contexto cultural, mediada por signos forjados historicamente
Ao menos no início, Vigotski recebeu influência do funcionalismo (William James, Edward Lee, Thorndike John Dewey, George Herbert Mead, Harvey A. Carr) e do estruturalismo (Ferdinand de Saussure), que, posteriormente, encontra receptividade no Círculo Linguístico de Praga e que tem por principal expressão a concepção de multifuncionalismo da linguagem 4. Juntamente com o grupo que coordenava, procurava investigar a interrelação entre a filogênese (desenvolvimento da espécie humana), a sociogênese (desenvolvimento da sociedade) e a ontogênese (desenvolvimento do indivíduo) em um mesmo horizonte histórico. Sua busca era o reconhecimento da origem do desenvolvimento das funções psíquicas na dimensão histórica e social, confrontando as correntes biologista e naturalista da psicologia que vigoravam à época.
Importante destacar outros autores que inspiraram Vigotski, tais como Baruch Espinosa, Charles Sanders Peirce e Wilhelm Von Humboldt. Em Espinosa, tem por relevância o drama da arte, do qual trará importantes contribuições para o conceito de perejivanie (vivência), essencial para entender as significações e os respectivos processos de internalizações que forjarão as funções psíquicas superiores, típicas da espécie humana (tais como: controle consciente do comportamento, atenção e lembrança voluntária, memorização ativa, pensamento abstrato, raciocínio dedutivo, capacidade de planejamento etc.), conforme trataremos mais à frente. Em Peirce, a influência advém da busca pela formulação do conceito de signo, ou mais precisamente, acerca dos processos de mediação semiótica, em que se entende o pensamento ou o funcionamento psíquico. Tais funções derivariam de processos de interpretações dos signos, entendidos como representação equivalente do objeto para o outro 5. Já em Humboldt, a influência se manifesta na concepção de linguagem enquanto responsável pela organização estrutural do mundo (realidade), ainda que não o produza 6.
Vigotski buscou construir uma teoria capaz de explicar o humano como um ser complexo, concreto, sempre contraditório e multideterminado:
O singular marxismo científico projetado por Vigotski afirma-se como pensamento cujo destaque se atribui à relação, ao conflito, ao paradoxo, à contradição (ao ‘drama’ do desenvolvimento humano) e não simplesmente a um evolucionismo triunfante, uma teleologia das formas superiores de comportamento, cujo conteúdo seria finalista e, nas suas implicações práticas, normatizador. Grosso modo, ao abordar o desenvolvimento psíquico, Vigotski é um adversário do finalismo, um defensor do humano como diversidade prenhe de particularidades e não de construções fundados essencialmente na pesquisa clínica de sujeitos de um só momento histórico e classe social, como a psicanálise 7
Os processos de desenvolvimento humano, necessariamente, passam pela apropriação ou internalização das significações das relações sociais e das produções culturais que permeiam as experiências do sujeito desde seu nascimento 8. É importante salientar que Vigotski aborda o desenvolvimento humano a partir da fase mais elementar da estrutura psíquica, desde os processos involuntários da ordem do biológico. Quando em contato com os elementos da cultura, essas estruturas psíquicas elementares se transformam por meio da atividade prática dos humanos. Assim, as funções psicológicas passam de biológicas a culturais quando mediadas. O sujeito, pela mediação do outro, converte as relações sociais em funções psicológicas, que passam a funcionar como próprias de sua subjetividade 9. É por isso que afirma: “A personalidade é o conjunto de relações. As funções psíquicas superiores criam-se no coletivo” 10
As possibilidades de significação – que pode ser definida como um processo linguístico por excelência – partem das particularidades de cada cultura e têm por ponto de chegada a produção de sentido 11. Só é possível significar por meio da apropriação das especificidades culturais em que acontecem as inter-relações. A apropriação dessa cultura acontece por meio de aprendizagens em diferentes contextos educativos, mas Vigotski atribui grande importância à educação escolar sistematizada, que opera na dimensão do pensamento científico; e mais, Vigotski observa que é na confluência entre pensamentos espontâneos de senso comum e pensamentos científicos, que se realizam os processos de humanização, singularização e socialização.
Em síntese, Vigotski apresenta o desenvolvimento humano como um processo mediado e condicionado a aspectos sócio-históricos, constituídos por todos os elementos dos processos envolvidos no movimento de internalização das funções sociais e respectiva transformação em funções intrapsíquicas. Tais funções são típicas humanas, expressas nas capacidades de imaginar, criar, prever, abstrair etc., ou seja, a capacidade de atribuir significados aos elementos da realidade e às relações que se estabelecem com essa realidade (experiências transformadas em vivências; perejivanie). Decerto, o que significa conceber essa realidade pela forma do simbólico 12 – “relações internalizadas de uma ordem social, transferida à personalidade individual é base da estrutura social da personalidade” 13
3. ASPECTOS DA VIDA E DA OBRA DE PIERRE BOURDIEU
Pierre Félix Bourdieu nasceu em 1930, na cidade de Deguin (Altos Pirineus – sudoeste da França) e morreu em Paris, em 2002, vítima de um câncer. Bourdieu nasceu dois anos após a morte de Vigotski. Portanto, não foram contemporâneos. Formando-se em filosofia na Escola Normal Superior (ENS) em 1951, agregado e professor de filosofia em 1955, Bourdieu partiu para a Argélia, onde se tornou assistente da Faculdade de Letras de Argel. Em 1961 já iniciou a carreira de professor universitário na França e, em 1964, foi nomeado diretor de estudos na École Pratique des Hautes Études (futura École de Hautes Études en Sciences Sociales – Paris). Com 52 anos de idade passou a ser professor do Collège de France, a instituição mais prestigiada do universo científico francês. Decerto um percurso intelectual notável.
Segundo estudiosos, a obra de Bourdieu foi desenvolvida em um contexto histórico propício à mudança e a rupturas com o pensamento científico clássico 14. Na Argélia passou a se interessar pela antropologia, pela sociologia, por novos métodos de análise e outros objetos de estudos até então não heurísticos na academia 15. Seu sucesso talvez venha exatamente de sua ousadia em apostar em estudar sociologicamente o insignificante 16, ou seja, os usos sociais da fotografia 17, as visitações à museus 18, o matrimônio em sua região de origem 19. Romper com o senso comum, o senso comum douto, numa forma sistemática e quase compulsiva de disciplina epistemológica, fez de Bourdieu um dos autores do século XX que mais deixou legados no campo da sociologia atual.
Bourdieu deve muito à teoria clássica sociológica e antropológica, nas figuras grandiosas de Karl Marx, Max Weber, Émile Durkheim e Marcel Mauss, além de seus professores e contemporâneos como Ernst Cassirer, Claude Lévi-Strauss, entre outros. Denomina-se um estruturalista genético ou estruturalista construtivista, pois se interessava em compreender a gênese histórica das estruturas objetivas (sociais) e subjetivas (mentais). Em suas palavras:
eu diria que tento elaborar um estruturalismo genético: a análise das estruturas objetivas – as estruturas dos diferentes campos – é inseparável da gênese, nos indivíduos biológicos, das estruturas mentais – (que são em parte a incorporação das estruturas sociais) e da análise da gênese das próprias estruturas sociais 20.
É sabido, mas é necessário lembrar, que Émile Durkheim 21, ao se dedicar a fundar a disciplina sociologia, no final do século XIX, tinha como intenção separar os objetos de investigação da sociologia e os da psicologia. Para ele, a sociologia deveria ocupar-se dos fatos sociais, fenômenos construídos pelo coletivo, exteriores a todos os indivíduos e que desenvolvem uma ascendência sobre todos nós. Ou seja, os fatos sociais seriam aspectos da vida social que cada um de nós vivencia como um dado evidente e que seríamos obrigados a aceitar. O exemplo mais clássico de fato social seria a linguagem, os idiomas e todas as formas de expressão e legitimação.
Esta tipificação foi apresentada por Peter Berger e Thomas Luckmann no livro A Construção Social da Realidade, escrito em 1966 e traduzido no Brasil em 1973. Nessa obra, os autores dialogam com a psicologia social nas figuras de Georg Mead e Alfred Schütz, Karl Mannheim, Durkheim e Weber no que se refere à sociologia e mais especificamente, a uma sociologia do conhecimento. Para eles, a sociologia do conhecimento trata “não somente da multiplicidade empírica do ‘conhecimento’ nas sociedades humanas, mas também dos processos pelos quais qualquer corpo de ‘conhecimento’ chega a ser socialmente estabelecido como ‘realidade’” 22.
Em 1975 nos EUA e em 1978 no Brasil, Peter Berger e Brigitte Berger retomam a questão da linguagem, em uma versão mais breve, no artigo “O que é uma instituição social” 23. Dialogando com a psicologia social e a sociologia, tais autores adiantam, de certa forma, a convergência que gostaríamos de estabelecer entre Vigotski e Bourdieu. Isto é, todos eles estão empenhados, de diferentes maneiras, em compreender o quão fundamental é o apreender e como os indivíduos/agentes de forma dialética constroem a realidade e a si mesmos. Nas palavras de M. Mauss, existiria interdependência e sincronismo entre: a constituição da sociedade, a constituição de uma cultura, com base na constituição e reciprocidade de conceitos e representações sociais simbólicas e, por último, mas não por ordem de importância, a constituição do indivíduo; notadamente, três momentos simultâneos da construção da sociedade realizados por socialização ou processos educativos. A sociedade e o indivíduo só se realizam, portanto, quando indivíduos/agentes passam a objetivar e interiorizar um entendimento sobre as coisas sociais 24.
Para os interesses desta discussão, existiria uma forte ascendência de Durkheim e Mauss no pensamento de Bourdieu. Ainda que não seja frequente, é possível afirmar que a sociologia dos sistemas simbólicos (linguagem, religião, arte etc..) dos clássicos franceses teria marcado, de modo significativo, a obra do autor. Textos como Sobre o poder simbólico, O conhecimento pelo corpo, Espaço social e poder simbólico e Espíritos de Estado – gênese e estrutura do campo burocrático, além do seu famoso livro A economia das trocas linguísticas, entre outros escritos e passagens, oferecem um farto panorama de como Bourdieu é complementar a Vigotski no que se refere ao poder das palavras, o poder e a força do simbólico e dos fatos sociais (como a linguagem), na construção do universo objetivo e subjetivo do individual ou do coletivo.
Para desenvolver esse raciocínio, Bourdieu coloca-se a tarefa de identificar os mecanismos de dominação das sociedades, a partir da lógica da prática dos agentes sociais em um espaço social conflituoso tal como a sociedade capitalista. Segundo sua leitura, a sociedade não é só atravessada pela dominação material e econômica. A dominação também se dá no plano simbólico, o simbólico revisitado aqui na força oculta da linguagem, da fala e do poder de quem tem a fala.
Contudo, para desvelar a força oculta dos universos simbólicos constitutivos de todas as realidades culturais, Bourdieu constrói sua teoria da prática. Ou seja, a partir de uma visão sistêmica do social, Bourdieu compreende a sociedade capitalista a partir de uma distribuição desigual de recursos e privilégios. Tais recursos seriam identificados pelos conjuntos de capitais – cultural, social, simbólico e econômico – acumulados, ou não, no curso de distintos processos de socialização, em marcadas condições sociais e materiais de existência. Seria possível afirmar, pois, que tais noções são tributárias de um esforço do autor de superar duas linhas de interpretação da vida social, o objetivismo e o subjetivismo 25. Segundo ele, para se compreender as complexas relações em sociedade, tal como Vigostki realizou na superação de uma psicologia dicotômica, seria necessário tomar de cada uma dessas visões o que elas poderiam oferecer e, pensar de forma holística, a constituição dos seres sociais, suas subjetividades e as estruturas objetivas que os rodeiam.
Nessa direção, recupera-se o conceito de habitus, já conhecido nas ciências humanas, mas com uma abordagem mais elaborada. Habitus seria para Bourdieu uma noção capaz de explicitar as articulações dialéticas entre a construção dos agentes e suas estruturas mentais, bem como cultura societária e estruturas sociais em que estiverem envolvidos. De certa forma, Bourdieu chama a atenção para se fazer uma sociologia em que indivíduos e estrutura social desenvolvam intensas relações de mão dupla. Mais do que isto, o autor sinaliza que a história dos espaços sociais em que circulam os agentes e que comporiam suas instituições marcaria as possíveis transformações sociais em campos de atuação. O habitus, desenvolvido e incorporado de forma homeopática ao longo da vida de cada agente, no interior de campos específicos, seria capaz de habilitar as escolhas, as percepções, as memórias, formas de ser, agir e pensar. Habitus seria um conjunto de disposições de cultura. Habitus se identificaria com a personalidade e ou a subjetividade de cada um de nós.
Feitas as apresentações iniciais, passemos agora à análise mais detalhada das formulações teóricas de cada autor sobre o poder da linguagem.
4. VIGOTSKI: A MEDIAÇÃO SIMBÓLICA PELA LINGUAGEM E A CONSTITUIÇÃO DA CONSCIÊNCIA
Na teoria histórico-cultural se evidencia a referência ao desenvolvimento humano enquanto movimento dialético entre elementos biológicos e sociais, que não são, no entanto, duas facetas necessariamente opostas. Biológico e social em diferentes momentos se confundem, no que concerne à interdependência na formação psíquica, no horizonte das noções de maturação e aprendizagens, o que pode ser exemplificado pela interação das particularidades individuais do sujeito com os constrangimentos das estruturas sociais no desenvolvimento da consciência. Todas as funções psíquicas antes foram relações sociais e só se tornaram funções por meio da significação, ou seja, pela mediação semiótica, pela linguagem – a palavra: “A personalidade torna-se para si aquilo que ela é em si, através daquilo que ela antes manifesta como seu em si para os outros. Este é o processo de constituição da personalidade” 26.
A mínima interação social necessariamente precisa ser mediada – interações as quais variam em tipos, intensidades, significados e sentidos, conforme as posições dos interlocutores no ambiente/contexto 27. Nesta direção, Vigotski nos fala das funções psicológicas superiores primeiro como manifestações sociais, para depois, mediadas pela linguagem, se realizarem internamente em forma intrapsíquica, o que não significa introjeção passiva, mas, antes, internalização por meio da atividade humana. Daí os entendimentos de biológico e social não serem dimensões antagônicas. Se, por um lado, não são dimensões absolutamente separadas, por outro, também não podem ser concebidas como unidade. Mais adequado é perceber o social e o biológico em movimento, ora mantendo relações estreitas, confundindo-se, ora distanciados, mais identificáveis entre si. É esse movimento, juntamente com a subjetividade, que nos impede de conceber internalizações por indivíduos diferentes como idênticas de significações. Desse modo, internalização demanda atividade humana consciente e inconsciente, racional e emocional, dependente das condições materiais e simbólicas na qual acontece, transformando a realidade circundante e transformando a si mesmo. “O conhecimento é um processo histórico que segue as leis da dialética (materialismo-histórico)” 28.
Marcar nitidamente essa importância da história nos processos de desenvolvimento humano é se posicionar opostamente a qualquer ideia de absolutismo da natureza como algo dado, ainda que ela seja a base para o desenvolvimento. E, se significações, sentidos e internalizações dependem de atividade humana mediada, o real distingue-se do conhecimento produzido sobre esse real. Dito de outra forma, a produção do conhecimento acontece a partir de atividade humana criativo-reflexiva, que pode ser entendida como o bojo dos processos de desenvolvimento. Do mesmo modo, o real que está no início da produção de conhecimento é um real transformado pela atividade humana 29.
O movimento histórico-dialético do desenvolvimento proposto por Vigotski também é uma tentativa de demonstrar que, se por um lado, o desenvolvimento não é inato, por outro, a constituição das funções psicológicas superiores a partir da atividade humana em interação com o ambiente, não significa desaparecimento das funções biológicas. Na tentativa de superação de uma concepção dualista em que se tem como única possibilidade a oposição entre biológico e social, a novidade da proposição teórica de Vigotski é que, por meio das atividades humanas na produção de conhecimento e transformação da natureza, as funções biológicas também se transformam, tornando-se parte da “história da humanidade”.
Torna-se bastante evidente que a teoria proposta por Vigotski preconiza que o sujeito não se desenvolve na direção ou em busca de adequação ao social, mas em sentido diverso, o social exerce influência na constituição da subjetividade, o que não significa que internalizações sejam meras transferências (ou reproduções) do social ao intrapsíquico: antes, são atividades e processos de significações na formação da consciência. “Nós, das formas de vida coletiva deduzimos as funções individuais. O desenvolvimento segue não para a socialização, mas para a individualização das funções sociais (transformações das relações sociais em funções psicológicas)” 30.
Essa noção de formação dos sujeitos pode, à primeira vista, parecer determinista, mas ao contrário, uma vez que as singularidades dos sujeitos não deixaram de ser consideradas no processo 31. Como explica Pino: “O conceito de internalização ou conversão deve ser compreendido como mudança de sentido atribuído às coisas ou, ainda, de ressignificação” 32, indicando que a determinação social não se estabelece como um processo automático, mas pressupõe atividade do sujeito. Assim sendo, as forças de conformações sociais podem ser entendidas como relevantes, mas não como deterministas, uma vez que o sócio-histórico deve ser entendido como cenário que se apresenta ao sujeito como uma referência para exercícios reflexivos e constituição de significações. E, tratando-se de funções mentais, também não são determinadas exclusivamente pelos constrangimentos sociais, mas sim, devem ser entendidas como processos de desenvolvimento individual interrelacional. Ou seja, a realidade vivida é constituída por diferentes dimensões em interação, oportunizando ao sujeito, a cada momento, diferentes significações 33. Ao fim e ao cabo, o fator que garante que as forças sociais estruturais não sejam deterministas são as mediações semióticas.
Aqui chegamos a um dos pontos importantes na articulação entre a teoria de Vigotski e a de Bourdieu. Para ambos, o processo de desenvolvimento dos sujeitos também é, de diferentes formas, processo de socialização, o que significa, por conseguinte, transformação da natureza e da realidade por meio de mediações ora por pessoas, ora por instrumentos, ora por signos, em que a linguagem por excelência ocuparia um papel de destaque. Como vimos, a linguagem é um signo mediador humano que apresenta como importante função o planejamento das ações. Isto é, a língua é um mecanismo de planejamento das “expectativas para o agir”, em uma expressão de Bourdieu, uma vez que oportuniza apreensão, significação e compreensão da realidade, caminho para a constituição de sentidos.
É importante que se evidencie aqui que os signos são exteriores ao organismo, o que remete, por conseguinte, ao caráter sociocultural do simbólico. É justamente a capacidade de criação de sinais artificiais, os signos, proporcionando a constituição do simbólico, que distingue o humano do animal, sendo a língua aquela sinalização proeminente que permeia de maneira própria todas as atividades humanas 34.
Ou ainda, o símbolo enquanto signo está associado ao objeto por convenção cultural, associação do objeto de tal modo embricado que o símbolo remete ao próprio objeto: “o símbolo constrói uma relação com seu objeto por meio de uma ideia na mente do intérprete” 35. Daí a ideia de inter-relação. Ou seja, o signo determina seu interpretante (significado), do mesmo modo em que o signo é determinado pelo objeto 36. Assim, entende-se que o processo de internalização é, ao fim e ao cabo, um movimento de significação. E é justamente essa capacidade de criação de signos que caracteriza o humano como agente sócio-histórico-cultural, que não age diretamente sobre os objetos, mas sim sobre o eu e o outro.
É oportuno salientar que não basta a capacidade de criação de signos: estes precisam ser histórico-culturais, estabelecendo o entendimento “pelo outro” do signo criado “pelo eu”. Ou, dito de forma mais exata, sinais só se transformam em signos em relações de interação social. Nesse movimento dialético, não se trata mais de signo criado pelo eu ou pelo outro – antes, são signos compartilhados e só nessa condição são capazes de oportunizar socialização por meio de internalizações 37. Em uma dimensão mais expandida, pode-se falar em signos que fazem parte da história humana; em dimensão mais focalizada, pode-se falar em signos de determinada cultura ou grupo social. Mas tanto em uma quanto em outra dimensão, os signos não são estáveis, estão sujeitos a processos contínuos de transformações a partir das subjetividades do indivíduo e das particularidades do meio cultural. Essas possibilidades de transformações simbólicas por meio das inter-relações, nos levam a reconhecer as atividades mentais em sua plenitude apenas por meio da linguagem, assim como a linguagem só é possível a partir das inter-relações sociais e culturais.
Do mesmo modo, pode-se falar em aprendizagens e desenvolvimento como processos de internalizações de referenciais culturais por meio de significações forjadas pelo sujeito, mas que não são absolutamente autônomas. As mediações semióticas podem ser concebidas como particulares ao indivíduo na medida em que este carrega uma bagagem de experiências vivenciadas, ou ainda porque os signos cumprem uma função “voltada para dentro”. Por seu turno, toda bagagem de experiências vivenciadas é de origem social, o que significa dizer que o signo necessariamente precisa conter alguma capacidade de encontrar correspondência no outro, ou seja, que as significações, em alguma medida, precisam ser compreendidas também pelo outro, o que ratifica a origem das significações em um referencial histórico-cultural, não obstante forjada nas particularidades da subjetividade de cada um. É essa correspondência que dá o caráter social do desenvolvimento das funções psíquicas superiores 38. Nas palavras de Morato:
a ação reguladora da linguagem estudada por Vigotski no processo de internalização e na análise do funcionamento cognitivo é uma espécie de explicitação da atividade estruturante da linguagem. Por meio da linguagem o homem “dá forma” (bildet) ao mesmo tempo a si mesmo e ao mundo, ou melhor, torna-se consciente de si mesmo, projetando um mundo no exterior 39.
Por fim, mas não menos importante, é imperioso mencionar que, na perspectiva assumida por Vigotski, a educação (sobretudo a escolar), também mediada pela língua, pela palavra, ocupa lugar de destaque, já que será ela que possibilitará o pleno desenvolvimento do psiquismo humano. Como sintetiza Teixeira:
Na perspectiva de Vigotski, o processo de desenvolvimento da personalidade e a educação, compreendida em termos de vospitanie (formação) e obuchenie (instrução), formam uma unidade dialética. Não há desenvolvimento da personalidade humana consciente sem educação. Por outro lado, educar significa intervir no processo de desenvolvimento do ser humano, organizando a vida na escola e na sociedade de modo a edificar a liberdade de ação e pensamento 40.
5. PIERRE BOURDIEU: O SIMBÓLICO NA CONSTITUIÇÃO DO AGENTE SOCIAL
Dando continuidade a nosso raciocínio, seria importante lembrar que no texto O poder simbólico, Bourdieu nos auxilia ao sintetizar os princípios que regem o poder da linguagem ou da mediação simbólica das culturas. Para ele, assim como para Vigotski, a linguagem é um instrumento primeiramente de conhecimento do mundo. A linguagem nomeia as coisas, os objetos, as pessoas que nos circundam. Ela nos oferece categorias do pensamento e do julgamento para ler e desenvolver uma visão de mundo. Para Bourdieu a linguagem objetiva o mundo a partir de símbolos sonoros, visuais e gramaticais.
Indo mais adiante, na mesma obra, o autor chama atenção para que a linguagem é também um instrumento de comunicação, ou seja, permite as reciprocidades simbólicas, um universo de símbolos compartilhados que estabelece a possibilidade das trocas face a face, escritas ou imagéticas. Isto posto, a linguagem nos traz segurança, estabilidade nas nossas formas de ser, agir e pensar, tornando o ambiente social evidente e verdadeiro. Em síntese, Bourdieu atribui à linguagem um poder de conhecimento e comunicação. A linguagem construiria os consensos sobre as coisas, nos proporia uma forma unificada e homogênea de enxergar o mundo, suas classificações e julgamentos morais servindo como um cimento social.
Bourdieu afirma que a linguagem também pode espelhar uma disputa. Por ser estruturada nas e pelas relações sociais, por ser produto de relações dialéticas entre agentes e o ambiente, tal como preconizado por Vigotski, a linguagem pode ainda explicitar lutas de caráter simbólico. Por exemplo, a mediação caracterizada por distintas formas de falar (escolarizada, popular, gírias do momento, sotaques), ou por diferentes referenciais de conhecimento (científico, religioso, ideológico, artístico) bem como díspares valores e sentidos sociais (tradicional, moderno, popular, internacional) corresponderia a configurações grupais específicas. No linguajar de Bourdieu, a mediação simbólica, em sociedades desiguais, poderia expressar formas de ser, agir e pensar em competição.
Nesse sentido, tal postulado nos leva a refletir sobre alguns aspectos da linguagem, como as pré-noções, os preconceitos, o senso comum produzido pelas coletividades numa sociedade em que o poder do símbolo transforma quase tudo em obviedades e evidências. Para Bourdieu, a sociologia deve observar criticamente a linguagem cotidiana, seus espaços de aprendizagem e socialização, pois elas podem traduzir campos sociais em disputa. É por certo uma sociologia engajada, que nos oferece instrumentos para a libertação de um pensamento automático propondo um exercício crítico às ilusões que nos são fornecidas. A linguagem e os sentidos históricos construídos dialeticamente tal como acima registramos traduziriam uma sociedade que se serve da linguagem não só para unir, mas também para separar. “O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras” 41.
Valeria, pois, perguntar quem seriam os responsáveis pela estabilidade ou pela conservação e manutenção dessas diferentes formas de linguagem e pela tentativa de unificá-la de maneira consensual e legítima. Segundo Bourdieu os guardiões da permanência do fenômeno da língua e ou dos sistemas simbólicos e suas infinitas formas de expressão seriam as autoridades. Em outras palavras, indivíduos/agentes que acumularam nos espaços sociais pelos quais circulam/circularam o prelado de preservar modos de ser agir e pensar a partir da interiorização de sentidos imposta pelas mediações simbólicas. Para os interesses de nossa discussão, podemos nomeá-los: pais, religiosos, professores, celebridades, políticos. Contudo, é forçoso lembrar que são personalidades contraditórias, pois ao mesmo tempo em que celebram a memória e a tradição nos trazendo segurança, nos impõem uma verdade, nos apresentam um mundo sem fissuras. Tais autoridades são aqueles que nos explicam o mundo, junto com as instituições às quais pertencem, filtrando seus conteúdos e significados. Família, escola, religiões, mídias. Em síntese, todas as matrizes de cultura e agências produtoras de formas simbólicas seriam as responsáveis pela garantia e manutenção dos esquemas de pensamento. Tal como Vigotski nos alertou, falas, conceitos, memória, entre outras funções, constituiriam a cultura, ou as disposições de culturas, incorporadas pelos agentes nos processos de socialização:
Tendo a propriedade de ser aberto ao mundo, exposto, portanto, ao mundo e, por isso, suscetível de ser condicionado pelo mundo, moldado pelas condições materiais e culturais de existência em que está colocado desde a origem, é submetido a um processo de socialização do qual a própria individuação é produto, forjando-se a singularidade do “eu” nas e pelas relações sociais 42.
Para Bourdieu, esse processo de aquisição da linguagem é realizado nos e pelos processos de socialização. Durante esse percurso, no seio de todas as instituições acima mencionadas, entre outras, somos submetidos a uma carga de informações objetivas e subjetivas que vão compor um conjunto de disposições de cultura, um sistema de disposições denominado por ele de habitus. Trata-se, pois, de um processo de mediação de significados, tal como diria Vigotski, oferecido pela cultura dos ambientes ou campos em que os sujeitos circulam. Aprendizado cognitivo, corporal, afetivo que transforma os indivíduos em seres artífices de si e solidários com os outros, coletivos e singulares nos campos aos quais pertencem. Assim sendo, um mundo aparentemente sem aberturas. Todos os indivíduos, agentes ou sujeitos sociais possuiriam um lugar de pertença.
É possível, pois, argumentar que a materialidade da vida cotidiana, das rotinas, dos constrangimentos e interações sociais é responsável pela construção de modos de ser, de subjetividades e ou mesmo de individualidades. Num jogo de incorporação e exteriorização realizado pela mediação da linguagem, objetiva e subjetiva, aos poucos a sociedade constrói os agentes sociais dotados de illusio, dotados de um senso de pertencimento, um sentimento de ser do mundo.
Segundo Bourdieu, o conceito mediador entre a materialidade do mundo, suas estruturas estruturadas e, a ação prática, a atividade prática dos agentes a partir de suas estruturas estruturantes nas mentes, pode ser alcançado com o uso do conceito de habitus – noção capaz de restituir a capacidade ativa dos agentes, a capacidade de gerar, unificar, construir e classificar, sem ignorar que essas mesmas capacidades são socialmente construídas por um corpo socializado, situado e datado. Sendo os processos socializadores tensos e intensos, de trocas e enfrentamentos entre o eu e o outro, não deveríamos, segundo o autor, subestimar a ordem da opressão das coisas, “os condicionamentos impostos pelas condições materiais de existência, pelas injunções surdas e a violência inerte (como diz Sartre) das estruturas econômicas e sociais e dos mecanismos através dos quais elas se reproduzem” 43.
Para Bourdieu, a complementaridade entre as noções de habitus, campo e os diferentes tipos de capitais serve para alertar para uma produção e reprodução social em que os sujeitos/agentes são marcados e levados a um sentido prático, um sentido de jogo. Ambas as expressões denotam que a orientação dos indivíduos, nos atos cotidianos, revela uma segunda natureza dos corpos e das mentes:
A ação do sentido prático é uma espécie de coincidência necessária […] entre um habitus e um campo […] quem tenha incorporado as estruturas do mundo “descobre-se nele” imediatamente, sem ter necessidade de deliberar, e faz surgir, sem sequer pensar nisso, “coisas a fazer” e fazer “como deve ser” 44.
Tudo leva a crer, portanto, que a simples posse da linguagem, tal como inicialmente descrita, não seria suficiente. Seria necessário dar destaque à hierarquização dos diferentes tipos de linguagem que nossa sociedade transforma sistematicamente em desigualdades. Para tanto, Bourdieu desenvolveu a metáfora, bem fundamentada, de uma economia das trocas linguísticas. Com tal, estaria afirmando que a linguagem, embora tenha o poder de unificação das comunidades, pode também separar, dividir e estabelecer distinções45. O mundo social estaria organizado segundo uma sócio-lógica em que os bens linguísticos – como o uso oficial e escolarizado de um idioma, os sotaques ou mesmo os estilos de um discurso – tenderiam a ser avaliados – positiva ou negativamente – de acordo com os espaços/ campos sociais. Dito de outra forma, de maneira velada uma estrutura gramatical adequada aos usos no mercado escolar e no mercado de trabalho, ou em qualquer outra situação ritual, seria destaque e acrescentaria aos agentes maior prestígio.
É possível afirmar, assim, que, para construir esse raciocínio, Bourdieu politiza o poder da linguagem. Não reconhece apenas a força da mediação das palavras enquanto elemento de comunicação e conhecimento do mundo, mas também de formação das identidades sociais. Os sistemas simbólicos responsáveis pela produção das diferentes formas de linguagem (acadêmica, científica, artística, religiosa, midiática) reproduzem-se em um mercado linguístico, um mercado de bens simbólicos. Cada um desses mercados e bens teriam preços e lucros diferenciados. Nesses espaços, os agentes manifestar-se-iam com apoio ou aval de seus pares ou, ao contrário, suas formas de manifestação poderiam ser avaliadas como impróprias.
Não seria necessário lembrar todos os constrangimentos morais e preconceitos que acumulam aqueles que não possuem o traquejo linguístico. Para Bourdieu, a linguagem pode expressar uma luta simbólica tão ou mais eficiente do que a lutas de classes – uma violência simbólica definida por ele como uma forma de violência sutil e oculta em que estamos inseridos sem mesmo saber como: “A linguagem é uma técnica do corpo, e a competência propriamente linguística, especialmente a fonológica, constitui uma dimensão da hexis corporal onde se exprime toda a relação do mundo social e toda a relação socialmente instruída com o mundo” 46.
Para finalizar, salientamos que a transformação dessa ordemde coisas pode ocorrer. Isto é, um esforço epistemológico que alcançasse a gênese histórica dos processos de uso da linguagem faria descortinarmos outras formas de ser, agir e pensar na e para uma nova sociedade.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não seria possível, no contexto deste artigo, esgotar outras possíveis aproximações entre os autores. Optamos por dar início a essa empreitada pela importância da linguagem, dado que os sistemas simbólicos são os maiores instrumentos da reciprocidade entre os humanos. Mais do que isto, a linguagem como elementos das culturas tem o poder de nos trazer uma identidade e uma consciência de si e, por certo, a consciência do outro. Não uma consciência politizada preconizada pelo par de conceitos consciência de si e consciência para si47. Estas só viriam em condições de possibilidades específicas.
Destarte, na esteira destas aproximações entre a psicologia histórico-cultural com o estruturalismo genético, parece haver certa segurança em afirmar que, a maior ou menor compreensão dos signos, ou seja, a capacidade de significação opera na mesma chave do conceito bourdiesiano de disposição de cultura. Portanto, a proximidade ou a complementariedade dos autores supera a nomenclatura que por vezes são conhecidos. Para um, o materialismo dialético, para outro, o estruturalismo genético. Conviria lembrar que ambas são tributárias de um raciocínio já estabelecido no livro Ideologia Alemã, de Karl Marx e Friedrich Engels:
A produção das ideias, de representações, da consciência, está de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens, aparecem aqui como emanação direta de seu comportamento material. 48
Dito de outra forma, Vigotski e Bourdieu estão em consonância ao afirmarem que as estruturas materiais estão em estreitas e dialéticas relações com as estruturas mentais dos indivíduos, que se transformam à medida que o próprio contexto cultural permite. Mais do que isto, compreendendo as significações produzidas pelos sujeitos como o desenvolvimento de suas subjetividades em um espaço coletivo, estamos convencidos de que os autores se complementam no entendimento sobre a inexorabilidade entre a constituição dos sujeitos e a construção social da realidade. Ambos, por caminhos distintos, um pela psicologia e o outro pela sociologia, abordaram a formação das identidades condicionada por configurações sociais, históricas e culturais. Isto não é pouco, pois confere à linguagem o poder da dominação ou da transformação social pela mediação do símbolo. É pelo poder da linguagem que se podem superar as arbitrariedades da dominação. Tal interpretação permite, portanto, a superação entre as condições sociais de existência e as condições da formação das consciências no plano do simbólico.
Fugindo de determinismos, Vigotski rompeu em sua época com uma psicologia eivada de dicotomias; Bourdieu, por sua vez, soube aproveitar contribuições do subjetivismo e objetivismo, respectivamente centradas em construtos inflexíveis e universais, a fim de trazer à tona uma versão dinâmica do desenvolvimento humano e social.
Por fim, mas não por ordem de importância, ambos, o psicólogo bielorrusso e o sociólogo francês, ao se mostrarem interdisciplinares, convidam-nos a ir além de campos restritos do pensamento. Ocupando-se de uma produção do conhecimento nas artes, na literatura, na história na filosofia, na antropologia, na sociologia e demais ciências e ou disciplinas irmãs, os autores indicam que nós, humanos, somos por demais complexos para sermos compreendidos por uma área disciplinar. Finalmente, um outro ponto os aproxima: ambos estão atentos para os processos educativos e ou socializadores na construção de sujeitos reflexivos e conscientes de seu tempo, desde que as condições sociais de existência assim o permitam.
Em síntese, para os autores, a linguagem que une um todo coletivo por uma eventualidade sociotemporal tem o potencial de transformação, pois sua dinâmica está entrelaçada com os tempos históricos. Não obstante, a linguagem e ou as mediações simbólicas, sempre correspondendo a uma configuração dada, a grupos ou tipos de cultura, também podem ser produtoras de experiências e/ou vivências transformadoras, ressignificadas e, por fim, apropriadas pelos sujeitos de forma a oportunizar mudanças nas desiguais condições de existência. E por certo o sistema de ensino tem um grande papel nessa nova conformação. Cremos que eles concordariam com essa afirmação.
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