ARTIGOS NACIONAIS
Received: 08 June 2022
Accepted: 13 October 2022
Resumo: Este estudo analisa a trajetória de Gisela Swetlana Ortriwano e suas contribuições ao Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (CJE-ECA/USP). Apoiado em pesquisa documental e bibliográfica alinhada aos fundamentos da história oral, este trabalho investiga o percurso, no ambiente acadêmico, da professora e pesquisadora que se tornou referência nos estudos sobre o rádio e o radiojornalismo no Brasil. Com base nos depoimentos de pessoas que conviveram com a docente, este texto revelou uma relação marcada por afetos à instituição de ensino superior em que, por mais de três décadas, Gisela Swetlana Ortriwano atuou como estudante, docente e pesquisadora.
Palavras-chave: Radiojornalismo, história oral, Ortriwano, afetos.
Abstract: This study analyzes the trajectory and contributions of Gisela Swetlana Ortriwano to the Department of Journalism and Publishing at the School of Communications and Arts, University of São Paulo. Supported by documentary and bibliographic research aligned with the fundamentals of oral history, this work investigates the academic trajectory of the professor and researcher who became a reference for radio and radio journalism studies in Brazil. Based on the testimonies of her colleagues, the text reveals a relationship marked by affection towards a higher education institution where, for more than three decades, Gisela Swetlana Ortriwano worked as a student, professor and researcher.
Keywords: Radio journalism, oral history, Ortriwano, affections.
1. INTRODUÇÃO
Gisela Swetlana Ortriwano, meses antes de completar 20 anos de idade, deixou a casa dos pais na avenida São Miguel, 3428, Vila Marieta, zona leste de São Paulo, para iniciar sua jornada acadêmica. O ano era 1968 e o Brasil era submetido à Ditadura Militar, que atingiu o ápice em 13 de dezembro com a instauração do Ato Institucional nº 5, o AI-5, que outorgou poder ao então presidente, o general Artur da Costa e Silva, de fechar o Congresso, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais. O ato impôs ainda o afastamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal e a intervenção nos governos estaduais e prefeituras.
É neste período de perseguições, prisões, torturas e mortes consumadas pelo regime ditatorial que Gisela começou a cursar licenciatura e bacharelado em sociologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, trajeto natural de uma pessoa que se preparou durante a infância e a adolescência para ser professora. Porém, o contato com outra ciência, a comunicação, chamou a atenção de Gisela que, um ano depois de ingressar em sociologia, resolveu cursar também jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
De aluna à docente e pesquisadora daquela instituição, Gisela Swetlana Ortriwano encontrou no rádio a motivação para o ensino, a pesquisa e a extensão, chegando ao ponto de se tornar uma das principais referências no Brasil, principalmente na área do radiojornalismo. Essa jornada ocorreu quase totalmente no Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (CJE- ECA/USP), lugar onde Gisela atuou como professora de 1973 até meados de 20031.
Investigar tal percurso no ambiente acadêmico apresenta-se, contudo, como ação ainda não explorada que pode contribuir não somente ao campo da comunicação, mas como forma de reconhecimento do legado da professora ecana2. É essa questão que motiva a elaboração deste texto3, que tem por objetivo analisar o trajeto e as contribuições de Gisela Swetlana Ortriwano ao estudo do rádio na instituição onde se formou, lecionou, pesquisou, estabeleceu relações e difundiu conhecimentos.
Para tanto, adota-se como metodologia a pesquisa documental e bibliográfica alinhada aos fundamentos da história oral, que compreende um conjunto de procedimentos que envolve a elaboração de projeto ou pesquisa a partir da entrevista de indivíduos para fins documentais. A ação observa o planejamento, a condução de gravações em áudio, a transcrição e a conferência dos depoimentos coletados com a autorização das fontes para veiculação4. Aplicável ao campo das ciências sociais, essa metodologia preserva a oralidade dos depoimentos e estabelece significações derivadas da linguagem, permitindo a composição de um recorte temporal e espacial sobre um tema específico. Os depoimentos permitem ainda retomar eventos passados para avaliar reflexos no presente e projeções futuras do tema tratado.
Assim, considerou-se como apropriada a este texto a adoção da modalidade história oral temática que prospecta, pela interpelação de um assunto específico e preestabelecido, o esclarecimento ou a opinião do depoente acerca do que foi definido em pauta prévia. A opção decorre do fato de ser aquela que expõe maior objetividade, ao contrário da modalidade história oral de vida, que oferece autonomia maior à dissertação do entrevistado; e da tradição oral, centrada em mitos manifestos pela transmissão geracional5. O acionamento do parâmetro metodológico escolhido decorre da análise de trechos extraídos de entrevistas abertas feitas6 com pessoas que acompanharam a trajetória de Gisela desde seu ingresso na ECA/USP até a realização de suas últimas atividades acadêmicas.
2. OS AFETOS ENTRE GISELA SWETLANA ORTRIWANO E A ECA/USP
Em mais de três décadas de trabalho dedicados à USP, Gisela pesquisou, orientou e escreveu textos científicos não apenas sobre jornalismo, mas a respeito de outros assuntos que envolvem o rádio: história, teorias, programação, dramaturgia, esporte, política, comunicação popular, regionalismo, ensino, mercado de trabalho, emissão e recepção, publicidade, internet. O rádio público, o educativo e o comercial, as interfaces com outras mídias, os processos de produção de notícias e a interatividade foram outras temáticas tratadas pela docente ecana, que ainda orientou dezenas de estudos acadêmicos, como trabalhos de conclusão de curso, projetos de extensão, dissertações de mestrado e teses de doutorado7. Parte deste acervo está disponível na biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e serve há anos de referencial teórico para quem estuda o rádio e o radiojornalismo. Nestes trabalhos, Gisela instiga a reflexão crítica e a compreensão do papel social de gerações de alunos, professores, pesquisadores e profissionais.
É dela, ainda, o livro A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos8. A obra, originária da dissertação de mestrado apresentada em 22 de junho de 1982 na ECA/USP sob a orientação de Andre Casquel Madrid com o título Informação no rádio: critérios de seleção de notícias, mantém-se como fonte de consulta para pesquisadores que atuam de norte a sul do Brasil.
Outra contribuição foi a tese de doutorado Os (des)caminhos do radiojornalismo defendida por Gisela em 6 de junho de 1990, também na ECA/USP. A obra ainda não publicada é a primeira no Brasil a ser dedicada exclusivamente ao radiojornalismo9. Orientada na ocasião por Ciro Juvenal Rodrigues Marcondes Filho, Gisela desenvolveu um estudo que se distinguiu das pesquisas vigentes não apenas pelo ineditismo da temática, mas por ter um conteúdo que revelava a urgência de uma discussão que não havia sido proposta com a abrangência delimitada pela autora. Na primeira parte, a tese expõe, pela pesquisa bibliográfica e documental, o rádio como meio jornalístico e instrumento de informação e, na segunda parte, mostra quais barreiras geravam o não aproveitamento das potencialidades jornalísticas do meio a partir de entrevistas com profissionais que atuavam em emissoras paulistanas à época. O ensino vem em seguida, tratado com base no depoimento de professores de radiojornalismo de faculdades da grande São Paulo do fim dos anos 1980. No final, a obra indica pontos de estrangulamento que impediam o uso do rádio como meio jornalístico. Após trinta anos, Os (des)caminhos do radiojornalismo revelam proximidade com o atual contexto do rádio perante a convergência das mídias no ambiente virtual e frente ao avanço da tecnologia e do surgimento de novos formatos digitais sonoros, como o podcast10.
A jornada docente de Gisela Swetlana Ortriwano que deflagrou todas essas contribuições teve início um ano após ela ter se graduado em Jornalismo, em 1973, quando também obteve vaga como auxiliar de ensino voluntária do CJE-ECA/USP. A contratação em regime parcial naquela função aconteceu em 1974 e seguiu até 22 de junho de 1982, quando a docente passou a ministrar aulas nos cursos de Comunicação Social da Escola de Administração do Estado do Maranhão, em convênio mantido com a ECA/USP. A promoção como professora assistente ocorreu depois da obtenção do grau de mestre em 1982 e o enquadramento funcional como professora doutora em regime de dedicação exclusiva aconteceu em 1990, mesmo ano da defesa do doutorado.
Entre 1974 e o final da década de 1980, a professora Gisela ainda fez parte do corpo docente de outras instituições de ensino superior, como a fundação Karnig Bazarian, em Itapetininga, São Paulo; o Instituto Metodista de Ensino Superior, em São Bernardo do Campo; o Centro Universitário Braz Cubas, em Mogi das Cruzes; e as Faculdades Integradas Alcântara Machado (Fiam), em São Paulo. Entre as décadas de 1970 e 1980, a docente ecana dividiu o exercício da docência com a carreira profissional nas tevês Globo e Cultura, em São Paulo, onde participou da criação de centros de documentação para telejornais em ambas as emissoras, setores inéditos à época11. Mas, dentre todos esses espaços, o Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo foi o preferido por Gisela Swetlana Ortriwano. Foi naquele ambiente acadêmico que a docente e pesquisadora nascida em 7 de junho de 1948 em Füssen, na Alemanha, fez amizades e parcerias que a acompanharam desde a época de aluna.
Dos professores que teve na graduação, Gisela encontrou em João Walter Sampaio Smolka uma referência para o ingresso na docência. Jornalista autodidata consagrado no rádio nos anos 1950 e 1960, Walter Sampaio decidiu graduar-se no final dos anos 1960 e, assim, prestou o vestibular para o curso de jornalismo da Universidade de São Paulo, classificando-se na terceira colocação da primeira turma da antiga Escola de Comunicações Culturais.
Walter Sampaio entrou para a história da ECA/USP por contribuir com os primeiros anos de um curso que tinha docentes com conhecimento teórico, mas com pouca experiência no mercado para ministrar disciplinas práticas, como as de radiojornalismo e telejornalismo12. Por isso, ainda aluno, Walter Sampaio foi convidado a assumir a função de professor de rádio e televisão da USP13 e, dentre seus alunos estava Gisela Swetlana Ortriwano, que ocuparia a mesma função anos depois.
Enquanto discente, Gisela chegou a atuar como monitora de Walter Sampaio, sendo essa convivência apontada como decisiva pela opção pelo rádio. Essa ponderação é de Lígia Maria Trigo-de-Souza, que foi aluna na graduação em jornalismo e orientanda de mestrado da docente na ECA/USP. Para Lígia, a influência de Walter Sampaio estava presente nas falas e nos textos que Gisela Swetlana Ortriwano escreveu. “A gente pode pensar o Walter Sampaio como um ‘pai de Gisela’, neste sentido do desenvolvimento dela [no rádio]. Principalmente nos textos iniciais, as referências dela são os textos do Walter Sampaio. Ela trazia isso nas aulas”14.
Outra influência na formação do pensamento teórico da docente ecana foi a de Ciro Juvenal Rodrigues Marcondes Filho, que antes de ser orientador da tese de Gisela foi colega dela na graduação em jornalismo, entre 1969 a 1972. Ciro Marcondes Filho percorreu na USP caminhos semelhantes aos de Gisela ao graduar-se simultaneamente nas faculdades de ciências sociais e de jornalismo. Eles mantiveram amizade por 35 anos e compartilharam projetos, parcerias, pesquisas e saberes.
Marcondes Filho, assim como a amiga, tornou-se referência na área em que atuou. Em contraponto à professora Gisela, que construiu base teórica em parte pela prática profissional e laboratorial no rádio, Marcondes Filho consolidou-se um teórico da comunicação que atingiu o posto de pesquisador de conceito 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ele propôs, dentre seus estudos, uma nova teoria da comunicação que indicava uma revisão sobre o campo a partir do entendimento de que só existe comunicação quando os sujeitos são capazes de afetar uns ao outros, provocando novos pensamentos. Como contribuição, o pesquisador 15 deixou mais de 50 livros nas áreas de comunicação, jornalismo, política, filosofia e psicanálise.
Em sua última entrevista concedida à pesquisa que originou este texto, Marcondes Filho revelou que a amizade com Gisela extrapolava os limites da universidade. Ele revela que, em um determinado momento, ambos planejaram criar uma editora que se chamaria “Argonave”, onde publicariam seus textos. Marcondes Filho considerou a amiga, durante as orientações do doutorado, “uma pesquisadora autônoma, ativa, ágil e determinada” que criou um “texto que passou a ser básico para quem estuda rádio”. Segundo ele, Gisela era atenta ao universo em que estava inserida, o CJE-ECA/USP, sendo legítima na educação e na vida:
[Professora Gisela era na ECA/USP] uma pessoa muito solidária e preocupada, na verdade, com os rumos do ensino e da profissão. […] Eu sempre [a] achei muito séria neste aspecto. Uma pessoa muito digna, muito correta. Ela não falsificava nada; não era nada falsa. Até nas coisas mais pessoais, nas histórias que ela contava. […] Ela sempre demonstrava muita dignidade. Uma pessoa muito correta, que nunca vai lhe enganar, decepcionar
16.A partir dos anos 1990, quando passou a se dedicar à docência e à pesquisa apenas no CJE-ECA/USP, Gisela Swetlana Ortriwano ocupou uma sala onde orientava estudantes da graduação e da pós-graduação. Naquele espaço ela preparava aulas, cultivava plantas, abrigava coleções diversas e preparava textos científicos que se mantêm atuais. Luiz Fernando Santoro, amigo e parceiro de Gisela na docência, frequentou aquela sala, onde conceitos foram formulados e discutidos, principalmente acerca do rádio.
Santoro participou de várias atividades acadêmicas na ECA/USP com a docente ecana, com destaque para o “2º curso de aperfeiçoamento para professores de jornalismo”, ocorrido em 1986. O evento, coordenado por Gisela em parceria com Santoro e José Marques de Mello, gerou o livro Radiojornalismo no Brasil, dez estudos regionais, lançado pela Com-Arte no ano seguinte17. A obra, que contém trabalhos monográficos dos participantes daquele curso, foi pioneira ao tratar do caráter regional do rádio e do radiojornalismo, temática que ainda é pouco explorada nestes campos de pesquisa.
No CJE-ECA/USP, Santoro atuou com Gisela nos anos 1980 e 1990, quando começou a lecionar a disciplina “Introdução ao jornalismo no rádio e na televisão” que, dentre outras estratégias, apresentava os fundamentos do rádio e estimulava os estudantes a ouvirem os conteúdos radiojornalísticos produzidos pelas principais emissoras da cidade de São Paulo. Paralelamente, Gisela ficava à frente da disciplina “Radiojornalismo”, em que coordenava a produção de projetos práticos em rádio. Essa configuração, mantida ainda em parte no mesmo formato no CJE-ECA/USP, resultou de uma parceria entre esses docentes que reestruturaram o curso de radiojornalismo levando em conta o perfil dos alunos de jornalismo à época.
No campo da pesquisa sobre rádio, Santoro recorda também as participações de Gisela nos encontros feitos pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), nos anos 1990, que passou a consistir, de acordo com ele, “no grande espaço de debate sobre o ensino e a prática do jornalismo radiofônico”. Conforme Santoro, Gisela “era incansável como professora e pesquisadora”, sendo responsável por articular a construção de uma base teórica sobre o rádio alicerçada na prática laboratorial e profissional.
[…] O grande mérito da professora Gisela, na minha opinião, sempre foi [o] de poder sistematizar tudo que se falava sobre jornalismo no rádio. Até então a gente tinha uma série de livros de dicas; de como redigir para rádio. E a Gisela teve a capacidade de pegar essa prática jornalística articulada com a compreensão do funcionamento do rádio, da indústria cultural, enfim, da economia que girava em torno da profissão jornalística no rádio
18.A dedicação à USP, em especial ao Departamento de Jornalismo e Editoração, era um aspecto que sobressaía em Gisela Swetlana Ortriwano. De acordo com pessoas próximas a ela, era uma relação afetiva semelhante à mantida com o rádio e que teria determinado os rumos da docente ecana no cenário acadêmico nacional. Essa condição é reconhecida por Dulcília Helena Schroeder Buitoni, que conviveu com Gisela em dois momentos: primeiro como professora dela na ECA/USP e, depois, como colega e parceira no CJE.
Após décadas de convivência e de amizade, Buitoni passou a considerar a amiga uma docente e pesquisadora que se envolvia de fato com a academia. Ela destaca, como evidência, o incentivo dado aos alunos para que se envolvessem em pesquisas e produções acadêmicas. Exemplo disso foi a produção do Clipe mulher, programa de até três minutos de duração que foi divulgado duas vezes ao dia na Rádio USP a partir de 21 de fevereiro de 200019. Elaborado em formato de boletins, o Clipe trazia informações sobre o universo feminino, com destaque para o que era divulgado na imprensa e na academia. O conteúdo era veiculado “em horários intermediários, um modelo radiofônico inovador à época”.
Na avaliação de Buitoni, a iniciativa coordenada em parceria com Gisela fez daquela rádio universitária um “recurso que permitia complementar a formação, com bolsa fornecida pela universidade, de um estudante de radiojornalismo”. Outro diferencial destacado por Buitoni foi o início dos estudos acerca da internacionalização do rádio na ECA/USP. De acordo com ela, a amiga manteve contatos, durante viagens internacionais que fez entre os anos 1990 e o início do século XXI, com pesquisadores que desenvolviam estudos sobre a radiodifusão. Dentre eles destaca-se Emílio Prado, professor da Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, com o qual Gisela chegou a projetar parcerias. Para Buitoni, a abnegação era a característica que mais ressaltava em sua ex-aluna e parceira na docência no CJE-ECA/USP.
Como pessoa [a professora Gisela] era uma amiga incrível, fiel; alguém que você confia. Como professora era essa dedicação – e era uma dedicação para a USP, [porque] a USP não era para ela uma grife; era algo que ela vivia; vivia o departamento, trabalhava muito. Uma pessoa dedicadíssima para a vida acadêmica. Impressionante a dedicação dela
20.Quem foi aluno de Gisela teve também a oportunidade de conhecer outros atributos que caracterizavam aquela pessoa imersa na rotina da Universidade de São Paulo. Segundo essas pessoas, nada passava despercebido à docente ecana, que mobilizava os estudantes quando o assunto era o ensino, a pesquisa ou a extensão. É o caso de Ricardo Gândara Crede, um dos alunos que teve a chance de participar do último programa radiofônico coordenado pela docente ecana. Trata-se de Cantores bons de bico, que surgiu como trabalho final de uma disciplina ministrada por Gisela aos alunos do extinto Núcleo José Reis de divulgação científica da ECA/USP. Transmitido semanalmente pela Rádio USP durante catorze meses, três vezes ao dia (às dez horas da manhã, às quatro da tarde e às duas da madrugada), entre os anos de 2003 e 2004, Cantores bons de bico era formado por episódios com cerca de três minutos de duração e apresentava a descrição de pássaros brasileiros, aliando aos textos os sons emitidos pelas aves e músicas do cancioneiro popular relacionadas aos temas em pauta. Gisela acompanhou o surgimento dos primeiros pilotos, finalizados e veiculados por Crede de forma póstuma na Rádio USP. O ex-aluno recorda o trabalho feito com a docente ecana que, para ele, “tinha temperamento imprevisível e, muitas vezes, indecifrável”.
Em um primeiro contato ela parecia uma pessoa muito brava, rigorosa. Mas quando ela brincava era diferente. Ela tinha uma aparência diferente; tinha cabelo comprido, branco, totalmente despojada. Ela mostrou que a gente iria sair de lá com um programa de rádio, mas que tinha de pensar, tinha de fazer. [Havia] uma cobrança que, ao mesmo tempo, quebrava. Ela brincava e se divertia com a aula que estava dando
21.Para os amigos, a USP era “o mundo” de Gisela e o CJE-ECA/USP representava sua principal habitação. Apesar de enferma e de terem passados 35 anos desde seu ingresso como aluna da Universidade de São Paulo, a docente ecana revelava, às pessoas mais próximas, que tinha muitos planos em andamento e outros prontos para serem viabilizados na instituição. Porém, esses estudos foram interrompidos pouco mais de três meses após Gisela ter completado 55 anos de idade. Luciane Ribeiro do Valle, uma das últimas mestrandas da docente ecana, tem o dia 19 de outubro entre as datas que, para ela, guardam simbolismo. Luciane ressalta que “havia afetos impregnados em tudo” que a docente fazia no CJE-ECA/USP.
Querendo ou não eu continuo seguindo o que ela fazia. Continuei ministrando somente disciplinas envolvidas com o rádio. Eu continuei, de alguma forma, falando dela, sentido orgulhou quando alguém falava ou referenciava ela. [Eu dizia], “Então ela foi minha orientadora de mestrado!”. Adorava falar isso. Tem a sementinha dela aqui, com certeza
22.O desejo de Gisela, revelado a amigos no hospital poucos dias antes de seu falecimento, “era continuar para sempre na Universidade de São Paulo e nunca mais sair de lá; ficar eternamente com as plantas e árvores que ela gostava e que ornamentam os jardins da Escola de Comunicações e Artes”. É o que diz José Coelho Sobrinho, uma das pessoas para quem a docente ecana expressou seu último desejo. Amigo da docente desde os anos 1970, sendo professor e parceiro no CJE-ECA/USP, Coelho recorda aquele pedido que, para ele, evidencia o afeto da docente à USP.
Recordo que cheguei [ao hospital e], ela sentada [disse]: “acho que está chegando a minha hora. Você sabe de tudo que gosto na ECA. Eu quero ser cremada e você vai jogar as cinzas onde eu quero, nesta e naquela árvore”. […] Ela era uma pessoa que gostava da natureza, tanto que ela fazia o jardim; ela falava de qual árvore ela gostava e dizia por que gostava. Eram três árvores que ela gostava – e gostava também de um canteiro que tinha na ECA. [Ela disse]: “Você sabe de onde eu gosto e eu quero ficar lá”. E [ela] está lá até hoje
23.Na avaliação de Coelho, a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo é “a morada definitiva” de Gisela Swetlana Ortriwano, uma vez que nos jardins daquela instituição de ensino foram depositadas as cinzas de uma pessoa que fez daquele espaço o foco de afetos expressos no ensino, na pesquisa e na extensão.
A ECA/USP, entretanto, abriga o que há de mais importante: o pensamento de Gisela presente em centenas de textos que falam do rádio, dentre outros assuntos. Guarda também a história de pessoas que tiveram acesso ao conhecimento da docente ecana. Daniela Cristiane Ota, docente e pesquisadora da Universidade Federal do Matogrosso do Sul, que iniciou o doutorado orientada por Gisela no ano de 2002, é uma dessas personagens e relata como os afetos faziam parte da rotina daquela professora.
Tudo na Gisela era memória afetiva. Por exemplo: ela cortava o cabelo com uma senhora […] há décadas – tinha uma ligação afetiva. Então ela me dizia: “o meu carro não tem mais condições de uso, mas eu não vendo porque ele é meu. [...] Tenho há décadas”. Ela tinha uma relação afetiva com a sala, com o mundo em que ela convivia. Em todas as conversas ela deixava transparecer muito o amor que ela tinha pela USP, pela ECA. Isso ficava muito evidente. […] Um dia eu perguntei a ela: “Gisela, você sempre quis estar aqui na USP?” Ela falou assim: “Conscientemente não posso dizer, porque criança ou adolescente pode dizer onde gostaria de estar. Mas acho que aqui é meu lugar”. Ela tinha uma relação afetiva [com a ECA/USP]
24.Outra particularidade da docente ecana era o desejo de viver estudando, aprendendo e pesquisando, independentemente das circunstâncias enfrentadas. Essa consideração é de Ligia Maria Trigo-de-Souza, que também acompanhou de perto o desejo da ex-professora e amiga em seguir com os estudos, apesar de ela estar ciente das complicações da doença que a acometia. Segundo Lígia, mesmo acamada, Gisela disse que pensava em rever conceitos que formulou sobre o rádio e ampliar as pesquisas ainda inéditas. “Na última visita que fiz a ela no hospital […], ela falava que queria retomar algumas pesquisas, entre elas, a gente reelaborar a questão do rádio na internet a partir da definição mais precisa do que a gente consideraria rádio” 25, relatou a ex-aluna na graduação e ex-orientada de mestrado de Gisela.
3. UM LEGADO: INÚMERAS CONTRIBUIÇÕES
Há décadas, Gisela Swetlana Ortriwano tem impactado a trajetória acadêmica de alunos, professores e pesquisadores que utilizam a obra da docente ecana em seus estudos e práticas laborais no campo da comunicação. Rodolfo Wolfgang Ortriwano, irmão caçula da docente, acompanhou o início da jornada acadêmica e profissional daquela que, mais tarde, se tornou uma referência nos estudos do rádio no Brasil. Ele atribui à irmã o fato de ter ingressado no jornalismo e a conquista do primeiro emprego na área, obtido no centro de documentação para telejornais da TV Globo, criado e dirigido por Gisela Swetlana Ortriwano nos anos 1970. Atualmente aposentado, após carreiras na docência e no rádio, Rodolfo considera que o legado deixado pela irmã a ele é ainda maior, pois é extensivo à academia e ao jornalismo.
Gisela era tão contemporânea… apesar do tempo… já estamos há 17 anos da morte dela; o livro foi escrito há [mais de] 40 anos e esse livro [A informação no rádio] é básico até hoje. Ela era visionária. Ela tinha uma linguagem fácil, simples e ela entendeu o radiojornalismo […]. E falou dos grupos de pressão sob o rádio; e falou de coisas que não se discutem. […] A Gisela tinha toda essa visão. O legado dela é uma obra que não termina. Isso é o maior legado: uma obra que não acabou. Está sempre ali: você pode acrescentar, mas você não altera; você não muda a estrutura – é aquilo. A Gisela me ensinou assim: que a gente pode ser inteligente […]. Ela sempre tentou mostrar que a gente tem a capacidade de fazer as coisas […]. Era uma pessoa determinada; […] ela fazia o que queria. […] Ela conseguiu tudo pelo caminho dela […]. Ela me deu a ideia de que eu também podia […]
26.Constata-se, mediante os depoimentos apresentados, que o legado acadêmico de Gisela Swetlana Ortriwano foi consolidado na Escola de Comunicações e Artes e está presente não apenas na Universidade de São Paulo, mas em outras instituições de ensino superior do Brasil, formando jornalistas e outros comunicadores e estimulando pesquisadores que atuam no campo da radiodifusão. Os afetos à instituição onde ela obteve a graduação, tornou-se mestre e doutora é, em parte, responsável por essa percepção.
A contribuição ao campo da comunicação, em especial ao rádio, é evidente quando se consultam repositórios ou bases de dados onde é possível encontrar produções acadêmicas que apresentam como referência o sobrenome Ortriwano. A mesma situação ocorre ao se analisar grades curriculares de cursos de comunicação.
O livro A informação no rádio27, escrito por Gisela em 1985, é uma dessas referências que, até hoje, é utilizada por professores e estudantes envolvidos com disciplinas relacionadas ao rádio e ao radiojornalismo. Tornou-se uma obra clássica, assim como a pioneira tese de doutorado Os (des)caminhos do radiojornalismo, de 1990, que aguarda atualização e publicação.
Em mais de três décadas, os impactos da atuação acadêmica de Gisela, sobretudo no campo do rádio, são parte fundamental do legado dessa docente e pesquisadora que guiou e inspirou gerações de alunos, professores, pesquisadores e profissionais. Este extrato textual elaborado a partir do depoimento de pessoas que conviveram com a docente ecana revelou parte do trajeto e das contribuições daquela que é uma das principais referências sobre os estudos do rádio e do radiojornalismo no Brasil. É uma contribuição que não se esgota aqui, pois se trata de uma mulher peculiar e pioneira que dedicou a vida à educação, ao rádio e, principalmente, à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
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Notes
Author notes
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