ARTIGOS NACIONAIS

“Segunda Chamada”: a insustentabilidade da educação pública na ficção seriada1

Adriana Pierre Coca
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil

“Segunda Chamada”: a insustentabilidade da educação pública na ficção seriada1

Comunicação & Educação, vol. 28, no. 1, pp. 69-85, 2023

São Paulo SP: Universidade de São Paulo Escola de Comunicações e Artes Departamento de Comunicações e Artes

Received: 27 September 2022

Accepted: 21 April 2023

Resumo: Este artigo investiga como a ficção seriada configura os sentidos ao abordar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). Investigou-se a série brasileira Segunda Chamada, cuja trama são os enfrentamentos de um grupo de professores de uma escola pública da periferia de São Paulo, que se dedica à educação de jovens e adultos (EJA). Averiguou-se a tradução de sentidos em relação à EJA, segundo a semiótica da cultura, em especial os conceitos de fronteira e tradução de Lotman2. A série apresenta regularidades das narrativas seriadas da TV aberta e descontinuidades que a atualizam para o contexto digital, mesmo sob um sistema modelizante de cultura midiática.

Palavras-chave: Agenda 2030 ONU, produção de sentidos, tradução semiótica, educação pública, ficção seriada.

Abstract: This study focuses on how serialized fictional stories shape meanings when approaching the Sustainable Development Goals formally articulated in the United Nation’s 2030 Agenda. Brazilian series Segunda Chamada (Second Call), whose plot revolves around the challenges faced by a group of public school teachers on the outskirts of São Paulo city dedicated to adult education, was chosen to investigate, using culture semiotics and Lotman’s3 concepts of border and translation how serialized fiction constitute meaning translation regarding EJA. Segunda Chamada shows similarities to open TV serial narratives and discontinuities that update it to a digital context, even when under a modeling media culture system.

Keywords: UN Agenda 2030, meaning production, semiotic translation, public education, serialized fiction.

1. INTRODUÇÃO

Considerando que os meios de comunicação têm um papel fundamental na constituição da representação, esta investigação centra-se na forma como as histórias de ficção seriadas configuram os sentidos ao abordar os objetivos da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). A discussão faz parte de uma investigação de pós-doutorado intitulada “Uma cartografia da Agenda 2030 da ONU na ficção seriada brasileira em streaming”, que objetiva cartografar as narrativas da ficção em série que migraram da TV aberta para o streaming ou foram produzidas exclusivamente para as plataformas digitais, no Brasil, e que tratam de temas relacionados aos Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, traduzida em um plano de ações que visa a transformação do mundo em um lugar mais sustentável, consequentemente, melhor para viver.

A Agenda 2030 contempla 17 objetivos macros desdobrados em mais de 160 metas, ao guiar ações que dimensionam questões sociais, econômicas e ambientais pensadas por líderes governamentais e cidadãos de todo o mundo. As metas foram inspiradas nos Objetivos do Milênio, que vigoraram entre os anos 2000 e 2015. A proposta foi lançada como um compromisso a ser assumido por todos os povos, alguns ODS exigem iniciativas em conjunto, como o principal deles, que é a erradicação da pobreza (ODS 1), outros sugerem atitudes para serem inseridas em nosso dia a dia, como evitar o desperdício de água potável, por exemplo.

A semiótica da cultura é a perspectiva teórica basilar da pesquisa, a partir dos conceitos do semioticista russo Yúri Lotman4, que nos auxiliam no entendimento das incorporações, expansões e mudanças nos textos culturais, refletindo sobre o funcionamento da tradução dos sentidos e das reconfigurações em relação à linguagem das narrativas ficcionais.

Para este artigo, elegemos como objeto empírico a segunda temporada da série brasileira produzida pelos Estúdios Globo Segunda Chamada, disponibilizada na plataforma de streaming Globoplay, em setembro de 20215. A produção é, portanto, observada como um texto da cultura e tem como tema central um dos ODS macros da Agenda 2030 que é a busca por uma Educação de Qualidade (ODS 4). O fio condutor da história são os enfrentamentos de um grupo de professores em uma escola pública da periferia da cidade de São Paulo, que se dedica à educação para jovens e adultos (EJA). Assim como na primeira temporada, a EJA continua com o protagonismo, só que outros assuntos inerentes aos ODS da Agenda da ONU também são abordados, como a condição das pessoas em situação de rua, o feminicídio e a pobreza menstrual, entre outros.

O objetivo principal da discussão foi averiguar como se constituiu a produção de sentidos em relação a esses temas que (in)diretamente fazem parte da educação para jovens e adultos. De modo mais específico, os objetivos foram: identificar e sinalizar como os problemas sociais que estão atrelados à Agenda 2030 foram retratados na ficção audiovisual ou, para usar um termo em consonância com a semiótica da cultura, traduzidos6. E, desse modo, compreender como os sentidos expostos podem despertar reflexões sobre as questões enredadas. A inquietação de partida foi, então: como se configuram os mecanismos de tradução/produção de sentidos na abordagem dos temas associados aos Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU na narrativa ficcional da segunda temporada da série Segunda Chamada?

Privilegiamos um percurso teórico-metodológico7 que contemplou a observação de todos os episódios da série e a seleção de aspectos pontuais que foram entrelaçados à teoria de base, que são as reflexões da semiótica da cultura, a partir, sobretudo, dos conceitos de fronteira e tradução de Lotman8. Além da investigação de material adjacente que nos possibilitou contextualizar a obra audiovisual.

O artigo está dividido em três momentos, além da presente introdução e das considerações finais. A seguir, expomos os pressupostos teóricos, depois explicitamos o caminho metodológico e realizamos a análise e, na sequência, tecemos a discussão e apresentamos os principais resultados da pesquisa.

2. AS FRONTEIRAS DA TRADUÇÃO

Os sistemas culturais coexistem em um espaço semiótico que Lotman9 denominou semiosfera, dimensão abstrata que acolhe os encontros entre diferentes culturas e abarca tudo o que é próprio da significação, constituindo-se como ambiente propício para as semioses (processos de significação). Lotman10 defende que é na semiosfera que ocorre a sincronização do “espaço semiótico que preenche as margens da cultura, sem a qual os sistemas semióticos separados não podem funcionar ou se formar” 11. Como espaço de realização da semiótica, a semiosfera está em constante movimento, porque assim como comporta as tensões internas entre os textos da cultura está aberta à informação externa/nova.

A semiosfera, segundo o autor12, compõe-se de um centro, um núcleo formado por elementos invariantes no qual os códigos, as regras dos sistemas culturais são mais rígidas. É onde se concentram, por exemplo, os textos televisuais hegemônicos, consequentemente, as narrativas de ficção pautadas por elementos regulares, como as telenovelas brasileiras em sua maioria e, sobretudo, aquelas narrativas exibidas no prime time, horário que ainda garante a audiência mais alta das obras de ficção da televisão aberta e generalista no Brasil. Por outro lado, as fronteiras (margens) das semiosferas compõem-se de elementos variantes, que permitem as remodelações dos sistemas culturais, sendo espaços ocupados por textos que estão mais suscetíveis a mudanças e que dão acesso a novas informações, possibilitando a reconfiguração dos sistemas da cultura, a exemplo de algumas produções de ficção seriada criadas como obras originais para as plataformas digitais, como nos parece ser o caso da série Segunda Chamada13.

Em estudo recente14, recorremos à Américo15 para salientar que as fronteiras semióticas podem ser associadas às fronteiras geográficas, isto é, podemos pensar em uma semiosfera da cultura brasileira e uma semiosfera cultural americana. Assim como as semiosferas podem ser distintas historicamente, é possível distinguir a cultura portuguesa contemporânea da cultura portuguesa do século XIX. A autora16 explica que se trata de um processo bilateral, pois um texto da cultura pode romper seus limites e se redirecionar para fora da sua semiosfera, sendo (ou não) assimilado por outra. Ao mesmo tempo é também um processo ambíguo, porque na zona de fronteira os textos culturais estão sujeitos à separação e à união. Essa é a mobilidade da fronteira semiótica da cultura, pois um texto é considerado próprio de determinado espaço semiótico ou alheio a ele, dependendo do ponto de vista do observador.

Nessas interações o que importa, segundo os pressupostos da semiótica da cultura, são as relações entre os textos culturais, visto que “um texto não é a realidade, mas o material para a reconstruir” 17. Essa reconstrução passa pela função criativa de novos textos da cultura em um movimento ininterrupto que se dá com mais frequência, como já dito, nos limiares dos sistemas, nas zonas de intersecção, de fronteira. Nesses encontros, os processos de significação desencadeados proporcionam a troca e a geração de novas informações, por meio de um mecanismo de tradução que acolhe tanto os processos regulares (tradutibilidades) quanto os processos irregulares que provocam os tensionamentos entre um sistema e outro e as rupturas e reconfigurações de sentidos (intradutibilidades).

Nos diálogos estabelecidos na semiosfera existem diferentes níveis de intersecções e graus de tradutibilidade e intradutibilidade entre os sistemas culturais. Lotman18 esclarece que são os órgãos do sentido que se conscientizam e percebem algo como contínuo (regularidade / tradutibilidade) e assim promovem a percepção já esperada ou o contrário, a percepção sentida é inesperada (irregularidade / ruptura de sentidos / intradutibilidade), pode nos desestabilizar e, desse modo, acarretar as rupturas e a geração de novos sentidos.

Lotman19 também afirma que “A combinação de tradutibilidade-intradutibilidade (cada uma em diferentes graus) é o que determina a função criativa”20. Segundo ele, é o ato da tradução (ou não) que designa o ato criativo, ou seja, a maneira como esses textos são produzidos é que estabelece a geração de novas mensagens/sentidos. Portanto, é a semiotização que vai impulsionar as mudanças. “Na verdade, há sempre uma multiplicidade de sistemas diferentes diante de nós. Alguns deles estão, de certo modo relativamente próximos e podem ser mutuamente traduzíveis. Outros funcionam em oposição uns aos outros precisamente devido à sua intraduzibilidade mútua” .

Nessa via, por meio de uma infinidade de travessias possíveis no espaço da semiosfera é que ocorrem as incorporações, expansões e mudanças nos textos culturais, processos nos quais estão submergidas as narrativas de ficção seriadas audiovisuais. Sendo que alguns textos são mais suscetíveis às atualizações e outros mais resistentes a mudanças22.

3. A PRODUÇÃO DE SENTIDOS EM SEGUNDA CHAMADA

Para esta investigação, privilegiamos um percurso teórico-metodológico23 que contemplou, inicialmente, a assistência na íntegra dos seis episódios da segunda temporada da série Segunda Chamada, concomitantemente à seleção de cenas/aspectos pontuais que traduzem como o tema central, a educação pública, é retratado e circunstanciado. As principais observações foram entrelaçadas à teoria de base, que são as reflexões da semiótica da cultura, a partir, sobretudo, dos conceitos de fronteira e tradução de Lotman24. Além da investigação de material adjacente que nos possibilitou contextualizar a obra audiovisual e nos forneceu informações sobre os bastidores da produção. Destacamos a seguir os principais aspectos observados.

O primeiro deles é o protagonismo dado a personagens que representam uma parcela da população marginalizada pela sociedade, os moradores de rua, eles são os novos estudantes da Escola Estadual “Carolina Maria de Jesus”, que foram convidados a frequentar a escola pela professora Lúcia (interpretada por Débora Bloch), que se empenhou em conseguir alunos suficientes para que o curso noturno para jovens e adultos não fosse encerrado por falta de matriculados. O retorno aos estudos mudou a vida dessas pessoas, ao mesmo tempo que seus problemas pessoais passaram a afetar a rotina do lugar. Lotman25 lembra que cada espaço tem seus habitantes correspondentes e que ao transladarmos para um outro espaço perdemos nossa identificação e, paralelamente, somos nós mesmos nesse novo lugar, assim, nos transformamos em outro, como um imigrante estrangeiro que vai viver em outro país. Na série, a escola se converte em uma semiosfera cultural alheia para aqueles alunos recém-chegados, um novo ambiente que impôs a eles novos códigos e sentidos às suas vidas.

Ao longo da narrativa muitos conflitos são delineados, em uma das cenas, uma jovem aluna que vive em situação de rua foi acusada de furtar os rolos de papel higiênico dos banheiros da escola. Ela só estava tentando se proteger para conseguir assistir às aulas, porque estava menstruada e não tinha absorventes. Esse é só um dos problemas sociais crônicos vivenciado por meninas e mulheres que estudam no Brasil e que têm relevância na narrativa ficcional. A estudante que faz a denúncia, ao descobrir o motivo, convoca outras mulheres para fazer uma doação de absorventes para a colega, que agradece emocionada. Além da pobreza menstrual, a história também dá atenção a outras dificuldades enfrentadas por quem vive nas ruas e, claro, afetam a vivência e o aprendizado desses alunos no ambiente escolar, como o frio, a falta de um lugar adequado para fazer a higiene pessoal e o acesso a documentos básicos, como o RG, o registro geral de pessoas físicas nacional.

Outro problema social devastador abordado na série é a violência contra a mulher, personificada por duas personagens, a professora Sônia (interpretada por Hermila Guedes), que foi morta a tiros pelo ex-marido dentro da sala de aula, e a aluna que foi morar nas ruas depois de ser abusada pelo padrasto e expulsa de casa pela mãe, que não acreditou na versão contada por ela. Diante da situação, a adolescente passa a se disfarçar/vestir de homem, porque assim se sente mais segura. A insegurança feminina e o feminicídio, que já eram problemas alarmantes no país antes da pandemia, se intensificaram depois do período prolongado de confinamento, segundo informações do Fórum de Segurança Pública26, o que sinaliza a importância de trazer o assunto à tona na mídia.

A inserção de temas sociais contemporâneos na teledramaturgia muitas vezes se revela como ações de merchandising social27, campanhas que são recorrentes, principalmente, nas telenovelas. Nesses casos, a abordagem é intencional e estruturada e visa despertar a reflexão e a mudança de atitudes e comportamentos28. Só que na série Segunda Chamada esses assuntos enredam toda a narrativa, ocupam, sim, momentos centrais da história de determinadas personagens, mas são chaves de leitura para contextualizar o arco narrativo maior que envolve a trama, que são as dificuldades para estudar e a resistência e luta de quem acredita no poder transformador da educação. Por isso, assentimos que em Segunda Chamada trata-se da construção de um melodrama social, porque os temas expostos são o cerne da construção narrativa, não há uma luta evidente entre o bem e o mal representados por protagonistas delineados entre mocinhos e vilões, características das narrativas melodramáticas, há a busca coletiva por uma vida melhor que une alunos e professores, pautada pelos problemas sociais enfrentados e que tem a educação como sinalizadora de esperança. Nesse contexto, são protagonistas distintos personagens que ganham importância a cada episódio e têm suas tramas enredadas como principais e não como histórias paralelas.

Além dos assuntos já relacionados, a série põe em discussão, também, a acessibilidade. Um aluno não regressa às aulas porque sofreu um acidente na obra/construção em que trabalhava e ficou paraplégico. A professora Lúcia vai até a casa dele e o convence a retornar aos estudos. Chegando à escola, ele se depara com um ambiente físico inadequado para uma pessoa cadeirante e precisa da ajuda e empatia dos colegas. Em uma cena comovente, professora e alunos descem para ter aula no andar térreo do prédio, só para ele não ser carregado escadas acima. A ficção, mais uma vez, se reporta à realidade, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada em 2019 e divulgada em 2022, indica que pessoas com deficiência no Brasil representam mais de 17 milhões de brasileiros, o que corresponde a 8,4% da população29, e que o desemprego é maior entre elas. Os dados apontam que a desigualdade na absorção dessas pessoas no mercado de trabalho30 pode ter na baixa escolaridade um dos motivos. Só que as informações do último censo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), também de 2019, mostram que o acesso à educação entre as pessoas com deficiência é uma das dificuldades que elas enfrentam. Muitas são obrigadas a estudar em escolas não adaptadas, como mostra o drama da personagem ficcional da série Segunda Chamada. Isso porque, entre as escolas do ensino médio, apenas 67,4% são adequadas para receber alunos com algum tipo de deficiência, no ensino fundamental, essa porcentagem é pouco mais da metade (55%).

Outra personagem evoca, mais uma vez, o retrato de uma minoria que também é pouco representada nas histórias de ficção contadas no audiovisual no Brasil. É o aluno indígena, que vive de vender peças de artesanato e é hostilizado por outros estudantes. Diante da diversidade e do preconceito, a professora Lúcia deixa claro que a escola não é só para ensinar a ler e escrever, também ensina a aceitar as diferenças.

Com esses apontamentos, percebemos que os sentidos engendrados na segunda temporada da série Segunda Chamada privilegiam a educação pública para jovens e adultos considerando os problemas que são covariantes e interferem no processo de aprendizado, mas sem deixar de indicar que a educação pode ser transformadora, é o que parecem traduzir os enunciados da narrativa ficcional. As autoras31 confessam que queriam mostrar que a escola pode ser um lugar de resgate da cidadania, já que os alunos têm ali a oportunidade de um recomeço, garantido por um direito básico a todos, a educação.

No entanto, o texto da ficção também não se exime de expor uma educação imersa em contexto precário, em um período em que as verbas para educação vêm sofrendo cortes sucessivos. Essas informações são enfatizadas pelas personagens logo na estreia. No início do primeiro episódio, vemos Jaci (interpretado por Paulo Gorgulho), o diretor da escola, acompanhar uma notícia na TV que destaca o corte de mais 30% para verbas destinadas à educação. Antes do encerramento desse mesmo episódio, o professor Marco André (interpretado por Sílvio Guindane) demonstra indignação com a falta de alunos para o curso noturno, já que metade da população do país não chegou a cursar o ensino médio, ou seja, cerca de 70 milhões de brasileiros poderiam estar ali estudando.

A postura crítica é explícita na narrativa e reforçada em algumas cenas, como na homenagem em forma de protesto realizada por professoras e alunas à Sônia, a professora que é morta pelo ex-marido em sala de aula, as personagens convocam dados reais sobre o assunto, nos lembrando na ficção que a violência contra a mulher é um problema social gravíssimo no Brasil. O alerta vem traduzido em números: “A cada 7 minutos uma mulher é agredida. A cada 9 horas uma mulher é assassinada e 70% são mulheres negras”, relatam as personagens. Paralelamente à homenagem/protesto, acompanhamos o diálogo entre a professora Lúcia e a aluna que se disfarça de homem. Ela questiona a educadora: “A senhora já sentiu medo por ser mulher?”, enquanto as outras alunas e professoras reunidas continuam “Sabem quantas mulheres são estupradas por dia em nosso país? 181 mulheres. Fora aquelas que têm medo de ir à delegacia denunciar.”.

Segundo Odin32, referências reais compondo o texto ficcional podem desencadear uma leitura documentarizante em quem assiste, porque essas informações operam como agenciadores da realidade pressuposta que é acionada por reconhecimento histórico e/ou sociológico. Nessa circunstância, o leitor/espectador assume uma postura muito particular e pode estabelecer uma leitura documentarizante do texto ficcional ou renunciar a ela. Isso depende das “instruções de leitura” que foram reportadas e consentidas pelo espectador e está relacionado ao conhecimento e vivência de cada um. No caso da violência contra a mulher, as referências mencionadas são de um tema recorrente na imprensa e, além disso, uma menção/referência explícita à vereadora Marielle Franco nos faz crer que, em relação a esse assunto, especialmente, é possível ser desencadeada uma leitura documentarizante. Marielle Franco foi assassinada na cidade do Rio de Janeiro, em março de 2018, um crime violento que teve repercussão internacional e, até agora, continua sem solução. Marielle morreu junto com o motorista Anderson Gomes, depois de ter seu carro alvejado por tiros em uma via pública.

O enlace entre a teledramaturgia e os temas sociais na TV brasileira existe há décadas, começou a ganhar ênfase nas telenovelas produzidas a partir da fase realista, inaugurada por “Beto Rockefeller” (TV Tupi 1968/1969). Baccega33 explica que “A inclusão do cotidiano, seus temas políticos, econômicos, sociais, seus comportamentos mecânicos se dão numa lógica ficcional que tem por referência a lógica cultural daquela sociedade” 34. Ao passo que “Assim, as transformações que ocorrem no nível ficcional, a solução de tensões, o encaminhamento de soluções de problemas passa a sugerir soluções possíveis no nível do real”35. A autora também pondera que as narrativas ficcionais podem pautar a discussão de temas sociais relevantes, “mas as mudanças ocorrem quando e como a sociedade organizada assim o desejar”36.

Na cena que finda a temporada, outro protesto une alunos e professores contra a interdição do prédio da escola, que está carente de manutenção e oferece riscos a todos. A escola não deve ser fechada e, sim, reerguida, e querem uma solução, é o que pedem as palavras de ordem. Acreditamos que o prédio em ruínas pode ser observado com uma metáfora para a educação pública no Brasil, que vivencia nesse momento histórico uma desconstrução que nos últimos anos a vem conduzindo para a sua insustentabilidade, no sentido de ir perdendo seus alicerces basilares, que estão associados a outros problemas sociais graves, como a violência, o aumento da pobreza, da fome e da população que vive nas ruas e o entorno que envolve essas condições/situações e atingem o ambiente escolar.

A representação ficcional parece traduzir como ações encadeadas estão corroendo em velocidade acelerada um dos pilares fundamentais de sustentação de uma sociedade digna e a conduzindo para a sua insustentabilidade, ao deixar de promover uma educação de qualidade adequada, como preconiza e sugere apoio os Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas. A promoção de uma educação de qualidade, indicam os sentidos da narrativa ficcional, passa pela atenção à diversidade em seus distintos vieses e está condicionada à oferta de condições básicas dignas de saúde, moradia e cidadania.

4. DISCUSSÃO E RESULTADOS

A tradução dos sentidos retratados na série é bem realista em relação à educação pública para jovens e adultos e os problemas do entorno. A narrativa se constrói como um melodrama social, expondo personagens e conflitos que, em vários aspectos, rompem com o modelo canônico de narrar ficção seriada no audiovisual, em especial, as histórias produzidas pelos Estúdios Globo, ou seja, se constitui como um texto da cultura próximo das margens (fronteiras) do núcleo rígido do sistema midiático37 em que se insere, segundo pensamento de Lotman38.

As rupturas de sentidos (intradutibilidades) podem ser percebidas: no fato de não ter vilões e mocinhos, a cada episódio uma personagem protagonizar um drama pessoal, os cenários/locações são em sua maioria de casas modestas, muitas localizadas em favelas, os locais públicos também são ambientes populares, o centro da cidade de São Paulo, a parte inferior dos viadutos. Esses elementos da mise-en-scène são constitutivos dos sentidos que traduzem as histórias dos professores e dos alunos da Escola Estadual “Carolina Maria de Jesus”, o próprio nome que batiza a escola é uma homenagem a uma escritora e compositora negra, que também viveu em uma favela na zona norte de São Paulo, às margens do Rio Tietê. É a autora do livro Quarto de despejo. O diário de uma favelada39, que narra sua vida como catadora de papel. A referência à Carolina Maria de Jesus nos remete a outra personagem da série, uma aluna em situação de rua que vende livros para sobreviver, ela atrai seus clientes contando com entusiasmo cada uma das histórias contidas nos livros que oferece, só que ela é analfabeta, só conhece essas narrativas porque um amigo lê em voz alta para ela. Carolina Maria de Jesus, que hoje é uma das escritoras brasileiras mais conhecidas no mundo, foi uma senhora que cursou só até o segundo ano do ensino fundamental.

Os sentidos retratados na ficção seriada revelam uma educação pública submersa em um contexto de precariedade, que exige das personagens um movimento de resistência para que sigam em frente, como denuncia a frase que abre a série: “Educar não é sobre vencer, é sobre resistir, é sobre acreditar que as coisas podem mudar.”, narrada pela professora Lúcia.

De modo pontual, os sentidos traduzem os muitos problemas enfrentados por uma população que vive às margens da sociedade, nas periferias das grandes metrópoles. Nessa temporada, destaque para personagens que representam uma parcela da população que sequer ocupa esses espaços e se situa nos terrenos da invisibilidade, as pessoas que vivem em situação de rua. Conforme dados do último censo das pessoas em situação de rua, essa parcela da população vem crescendo exponencialmente, só no município de São Paulo, mais de 31 mil pessoas vivem nas ruas, um aumento de mais de 30% nos últimos dois anos40, cenário que foi agravado pela pandemia e pelas demandas político-sociais que vivenciamos na atualidade.

A discussão central, em relação às pessoas que vivem nas ruas, impõe à narrativa o relato de outros problemas que são sintoma em outras regiões do país, como a pobreza menstrual. Segundo a ONU, uma em cada quatro estudantes brasileiras deixam de ir à escola porque não têm absorventes. Para as Nações Unidas, é um problema de saúde pública que, além de prejudicar a saúde feminina, impacta no aumento da evasão escolar, ou seja, tem uma influência direta na formação/educação dessas meninas. Ressaltamos que, no Brasil, há uma lei que garante a distribuição de absorventes para mulheres em situação de vulnerabilidade, presidiárias e alunas de escolas públicas, mas que na prática não está sendo cumprida41.

O feminicídio foi outro tema social abordado com atenção e que também reflete uma realidade nacional, o drama da professora Sônia foi sendo construído desde a primeira temporada e transparece uma estatística preocupante, a de que uma mulher morre vítima de feminicídio a cada 7 horas no Brasil, segundo relatório do Fórum de Segurança Pública, de 202142. As informações mencionadas na ficção, que já eram assustadoras, passada a pandemia, se revelam ainda mais desafiadoras.

Os dramas ficcionais são, portanto, ancorados em problemas sociais contemporâneos reais e graves e foram narrados de forma muito bem contextualizada, por isso, acreditamos que as discussões propostas ultrapassam o propósito das ações de merchandising social, ocupando uma configuração de sentidos mais efetiva e orgânica no desenvolvimento da trama.

De modo mais abrangente, destacamos, ainda, outros aspectos que acreditamos sinalizar rupturas de sentidos que contribuem para a criação dos instantes de (in)tradutibilidades na ficção seriada, isto porque, a nosso ver, se constroem como descontinuidades que gravitam nas margens/fronteiras dos textos culturais ficcionais audiovisuais: (1) O tema central da série, que é a educação direcionada para jovens e adultos, um grupo minoritário da sociedade que representa as pessoas que não puderam frequentar a escola na idade adequada e não têm a formação básica. Salientamos que, mais do que isso, parte das personagens são moradores em situação de rua. (2) Nos parece ser outra ruptura de sentidos a produção ser escrita por duas mulheres (Carla Faour e Júlia Spadaccini), ter a direção artística assinada por uma mulher (Joana Jabace), além de muitas das histórias serem contadas no feminino, se referirem a assuntos referentes à condição feminina na sociedade43. (3) Um terceiro aspecto é representado pelas locações que privilegiam a região periférica de São Paulo, aferindo protagonismo, também, a uma população que vive na periferia de uma das maiores cidades da América Latina, lugar onde as contradições coexistem. (4) Além desse olhar para a periferia como espaço urbano, a série Segunda Chamada também possibilita a exposição dos chamados corpos eletrônicos periféricos. Segundo Rosário44, os corpos considerados não hegemônicos não costumam ocupar a lugar central nas mídias, porque não constituem o padrão, os modelos que, em geral, se repetem e são representados. Acontece que, na trama, esses são os corpos das personagens principais. Tanto que uma discussão importante se revela quando o corpo feminino é ocultado pela aluna que se veste como homem para se proteger da violência nas ruas, além de outras representações, como o aluno indígena e o estudante cadeirante. Para a autora45, esses sujeitos/corpos devem ser observados pela perspectiva da exclusão, mas sem deixar de considerar que de algum modo “se impõem como potência de resistência”, porque provocam uma desestabilização comunicacional (ruptura de sentidos/intradutibilidade), o que é muito positivo46. (5) Por fim, sinalizamos que a produção de narrativas ficcionais seriadas criadas como obras originais para o streaming, como é o caso de Segunda Chamada, nos parece uma descontinuidade que está sendo incorporada na distribuição e exibição de séries de ficção produzidas pelas TVs abertas em parcerias com produtoras de audiovisual. Nos últimos anos, talvez impulsionada pela pandemia e inspirada nas estratégias comerciais dos serviços por demanda, como Amazon e Netflix, essa oferta vem crescendo no Brasil e se tornando mais consistente, mas acreditamos que, ainda, é um momento de estruturação, de estabelecimento das regularidades que vão conceder às produções de ficção em série do streaming sua própria estruturalidade como linguagem47.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Compreender as estruturalidades da linguagem ficcional seriada é reconhecer suas gramáticas e atualizações. Consideramos que a série Segunda Chamada nos auxilia nessa compreensão, porque sinaliza um viés reconfigurador no modo de contar essas histórias e nos mostra como a ficção audiovisual pode exercer sua função sociocultural de maneira efetiva ao despertar reflexões sobre os problemas que afligem a sociedade. As abordagens, a nosso ver, podem desencadear uma leitura documentarizante em quem assiste, já que o enredo se constrói a partir de referências reais e contemporâneas.

A série apresenta aspectos de descontinuidades e intradutibilidades ao revelar personagens que se revezam em um protagonismo flutuante, o que a afasta da dicotomia clássica das estruturas melodramáticas, assim como apresenta e coloca como centrais corpos periféricos48, a exemplo dos alunos indígena e cadeirante e da aluna que se veste de homem para se proteger da violência nas ruas. Também destoa da abordagem canônica da ficção em série ao abordar a EJA como tema principal e de maneira crítica, expondo e entrelaçando problemas sociais associados de forma contundente e não apenas como um merchandising social pontual, essa articulação faz de Segunda Chamada uma narrativa que transita na periferia da semiosfera da ficção seriada, segundo os pressupostos de Lotman49.

Com isso, enfatizamos que importa propor a discussão dos Objetivos para um Desenvolvimentos Sustentável da Agenda 2030 na mídia, porque são emergências que assolam o Brasil (e o mundo), como a dificuldade em garantir uma educação de qualidade a toda a população. Como expõe Santaella50, e corroboramos com a autora, a TV adquiriu um caráter nômade, transita em diferentes telas e suportes, só que continua sendo a “rainha da cultura brasileira” 51, e a narrativa ficcional, uma das suas maiores potências. Tratar dessas temáticas em produções exclusivas para o streaming reforça, ainda, o intuito de dialogar, cada vez mais, com um público disperso e universal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Notes

1 Versão ampliada do artigo apresentado no ALAIC 2022 no GI 10 Culturas, comunicação e narrativas transmídia: ficcionalidades e práticas de consumo.
2 LOTMAN, Yúri Mikhailovich. Cultura y Explosión: lo previsible y lo imprevisible en los procesos de cambio social. 2. ed. Madrid: Gedisa, 2013.
3 Ibidem.
4 LOTMAN, Yúri Mikhailovich. Cultura… Op. cit. Fazemos uma ressalva em relação a grafia do primeiro nome de Lotman: seguimos o que está na obra referenciada, por isso, às vezes a grafia é Iúri, outras vezes, Yúri.
5 A segunda temporada da série Segunda Chamada foi produzida como uma obra original para a Globoplay, uma parceria dos Estúdios Globo com a produtora de audiovisual O2 Filmes. A primeira temporada estreou na TV aberta com 11 episódios em outubro de 2019.
6 LOTMAN, Iúri Mikhailovich. Mecanismos imprevisíveis da cultura. Trad. Irene Machado. São Paulo: Hucitec, 2021.
7 ROSÁRIO, Nísia Martins. Mitos e cartografias: novos olhares metodológicos na comunicação. In: MALDONADO, Alberto Efendy; BONIN, Jianni Adriana; ROSÁRIO, Nísia Martins (org.). Perspectivas metodológicas em Comunicação: desafios na prática investigativa. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2008. p. 195-220.
8 LOTMAN, Yúri Mikhailovich. Cultura… Op. cit.
9 Idem. La Semiosfera I. Semiótica de la cultura y del texto. Madrid: Ediciones Frónesis Cátedra Universitat de València, 1996.
10 Idem. Por uma teoria semiótica da cultura. Trad. Fernanda Mourão. Belo Horizonte: FALE: UFMG, 2007.
11 Ibidem. p. 8.
12 Idem. La Semiosfera II. Semiótica de la Cultura, del Texto, de la Conducta y del Espacio. Madrid: Ediciones Frónesis Cátedra Universitat de València, 1998.
13 Sobre as regularidades e as inovações na teledramaturgia brasileira discutidas sob o viés da semiótica da cultura, ver: COCA, Adriana Pierre. Cartografias da teledramaturgia brasileira: entre rupturas de sentidos e processos de telerrecriação. São Paulo: Labrador, 2018.
14 Idem. As travessias da ficção seriada na TV brasileira. In: Médola, Ana Sílvia David et al. (org.). Significações e estratégias midiáticas. Aveiro: Ria Editorial, 2019. p. 30-49.
15 AMÉRICO, Ekaterina Volkova. O conceito de fronteira na semiótica de Iúri Lotman. A semiótica, v. 12, n. 1, p. 5-12, jan./abr. 2017.
16 Ibidem.
17 LOTMAN, Yúri Mikhailovich; USPENSKII, Bóris. Sobre o mecanismo semiótico da cultura (1971). LOTMAN, Yúri Mikhailovich; USPENSKII, Bóris; IVANÓV, Vyacheslav. Ensaios de semiótica soviética. Lisboa: Livros Horizonte, 1981. p. 44.
18 Idem. Cultura… Op. cit.
19 Idem. Por uma teoria… Op. cit.
20 Ibidem. p. 19.
21 Idem. La Semiosfera II… Op. cit.
22 ROSÁRIO, Nísia Martins. Mitos… Op. cit.
23 LOTMAN, Yúri Mikhailovich. Cultura… Op. cit.
24 Idem. La Semiosfera I… Op. cit.
25 Outras informações em: FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Violência contra mulheres em 2021.
26 MOTTER, Maria de Lourdes; JAKUBASZKO, Daniela. Os limites do merchandising social na telenovela brasileira. In: VI ENCONTRO DOS NÚCLEOS DE PESQUISA DO XXIX CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO DO INTERCOM. Anais... Brasília: INTERCOM, 2006.
27 SCHIAVO, Márcio Ruiz. Merchandising social: sexualidade e saúde, reprodutividade nas telenovelas. In: XXI CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO DO INTERCOM. Anais... Recife: Intercom, 1998.
28 PNS 2019: país tem 17,3 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Agência IBGE Notícias, 26 ago. 2021. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de- imprensa/2013-agencia- de-noticias/releases/31445-pns-2019-pais-tem- 17-3-milhoes-de-pessoas- com-algum-tipo-de- deficiencia Acesso em: 1 jun. 2023.
29 Ibidem.
30 Informações consultadas em: ALTMAN, Breno. Série ‘Segunda chamada’: o povo a gente vê por aqui. El País, 1 out. 2021.
31 ODIN, Roger. Filme documentário, leitura documentarizante. Significação. Revista de Cultura Audiovisual, v. 39, n. 37, p. 10-30, 2012.
32 BACCEGA, Maria Aparecida. Narrativa ficcional de televisão: encontro com temas sociais. Comunicação & Educação, n. 26, p. 7-16, 2003.
33 Ibidem. p. 10.
34 Ibidem.
35 Ibidem. p. 12.
36 O núcleo rígido que acolhe os textos hegemônicos é regido pelos sistemas modelizantes, que são “sistemas relacionais constituídos por elementos e por regras combinatórias […] que se define, assim, como uma fonte ou um modelo”. Ver: MACHADO, Irene. Escola de semiótica. A experiência de Tártu-Moscou para o estudo da cultura. São Paulo: Ateliê Editorial: FAPESP, 2003. p. 42.
37 LOTMAN, Yúri Mikhailovich. Cultura… Op. cit.
38 JESUS, Carolina Maria. O quarto de despejo. O diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2021 [1960].
39 Informações em: ALBUQUERQUE, Flávia. SP: população em situação de rua cresce 31% em 2 anos, mostra censo. Agência Brasil, 24 jan. 2022.
40 Informações do Movimento Girl Up Brasil: ALVES, Giovana. “Pobreza menstrual é problema de saúde pública”, diz coordenadora da Girl Up Brasil. Metrópoles, 9 out. 2021..
41 FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Violência… Op. cit.
42 Outras reflexões com o foco na condição feminina na sociedade retratada na ficção seriada televisual podem ser conferidas em: COCA, Adriana Pierre; ESSENFELDER, Renato; MAIA, Haline. “Mulheres de Abril”: a Revolução dos Cravos traduzida em um docudrama com olhar feminino. In: SOUZA, Jorge Pedro. (org.). Jornalismo e estudos mediáticos. Memória V. Porto: Editora da Universidade Fernando Pessoa, 2022.; COCA, Adriana Pierre; SANTOS, Alexandre; ESSENFELDER, Renato. “Dentro”: um retrato do sistema prisional feminino português na ficção televisual. In: KNEIPP, Valquiria; SUING, Abel; PICCININ, Fabiana (Org.). Movimentos. 1ed. Aveiro: Ria Editorial, 2022, v. , p. 92- 109.
43 ROSÁRIO, Nísia Martins. Corpos Eletrônicos Periféricos: configurações semiótico-comunicacionais da resistência. Depoimento ao Canal Corporalidades da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2022.
44 Ibidem.
45 Ibidem.
46 Para reflexões mais contextualizadas sobre o streaming no Brasil, consultar as pesquisas da Profa. Maria Cristina Palma Mungioli sobre ficção seriada televisual desenvolvidas no âmbito da Universidade de São Paulo. Ver, por exemplo: MUNGIOLI, Maria Cristina Palma. Apontamentos sobre o formato série na plataforma Globoplay: a mediação local em um contexto internacionalizado de produção, distribuição e consumo. In: TRINDADE, Eneus et al. (org.). Comunicação e mediações: novas perspectivas. São Paulo: ECA-USP, 2021. v. 1. p. 54-65.
47 Ibidem. p. 43.
48 LOTMAN, Yúri Mikhailovich. Cultura… Op. cit.
49 SANTAELLA, Lúcia. Humanos hiper-híbridos: linguagens e cultura na segunda era da internet. São Paulo: Paullus, 2021.
50 Ibidem. p. 47.

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