Resumo: Este artigo relata a experiência de ministrar aulas remotas, durante o período da pandemia de covid-19, no Curso de Comunicação Social de uma faculdade particular em Manaus (AM), para mostrar o confronto entre a priorização da teoria ou da prática no âmbito do ensino superior, em um momento em que o mundo se viu obrigado a viver em isolamento social parcial ou total – o que nos leva, antes de tudo, a compreender a problemática entre teoria e prática antes da pandemia. A pesquisa tem como métodos e técnicas: a etnografia, a pesquisa de campo com observação participativa e entrevistas, com base em Morin, Bauman e outros. Os resultados apontam para que, apesar dos esforços para a continuidade do ensino teórico e prático, não existe ainda uma resposta definitiva para essa problemática, com ou sem a pandemia.
Palavras-chave: Educação, teoria, prática, pandemia, comunicação.
Abstract: This experience report explore the remote classes teaching implemented by a Social Communication program from a private university in Manaus, during the covid-19 pandemic, to show the confrontation between theory and practice within higher education, at a time when the world was forced to live in total or partial social isolation – which leads us, first of all, to understand the issue between theory and practice before the pandemic. Ethnography, field research with participatory observation and interviews, based on Morin, Bauman, among others, act as its theoretical framework. Results show that despite efforts to continue theoretical and practical teaching, there is still no definitive answer to this problematic exists, with or without the pandemic.
Keywords: Education, theory, practice, pandemic, communication.
ARTIGOS NACIONAIS
Teoria e prática: as aulas remotas na pandemia
Received: 05 April 2022
Accepted: 01 October 2022
O cenário pandêmico causado pela covid-19 trouxe impactos significativos para a educação mundial, como a suspensão das aulas presenciais e a implantação inesperada de aulas remotas. No Brasil não foi diferente e, com isso, novas rotinas foram criadas para professores e estudantes em todos os níveis, ocasionando mudanças radicais nas práticas educacionais.
A partir dessa realidade, percebe-se o quanto é fundamental analisar e compreender como se desenvolveu o ensino teórico e prático em cursos de ensino superior em Comunicação, em tempos de pandemia e por meio de aulas remotas. Com o propósito de esclarecer algumas dúvidas e/ou levantar questionamentos relacionados a cursos que exigem as duas habilidades fundamentais, neste artigo abordamos o assunto sobre teoria e prática, assim como o contextualizamos no sistema de ensino remoto. Além disso, verificamos a importância desses processos para o desenvolvimento harmônico nas aulas virtuais sob diferentes contextos vividos tanto por estudantes quanto por professores.
Com o objetivo relatar as experiências de ministrar aulas remotas durante o período da pandemia do coronavírus (covid-19) no curso de Comunicação Social de uma faculdade particular da cidade de Manaus, este trabalho também busca esclarecer como conciliar a teoria e a prática no processo de ensino-aprendizagem, num momento em que o mundo se viu obrigado a viver em isolamento social parcial ou total.
A partir de experiências empíricas, descrevemos o cotidiano dos professores nos cursos de Comunicação que integram o quadro de colaboradores do universo escolhido para a pesquisa, enfocando o antes e o depois da adaptação, realizada rapidamente, para lecionar por meio de um sistema remoto, o qual exigiu o uso de ferramentas virtuais que ou não faziam ou pouco faziam parte de suas atividades laborais. Apesar de esses professores contarem com o conhecimento de atuação perante uma câmera ou saber utilizar ferramentas tecnológicas essenciais, pensamos que um dilema antigo retomou com maior ênfase a discussão sobre a relevância de como aplicar a teoria e a prática para determinadas disciplinas de maneira integrada durante a pandemia, deixando de lado a tradicional dicotomia dessas duas formas de ensino.
Mesmo com o esforço de professores e estudantes, os resultados dessa aprendizagem podem ser satisfatórios ou não, o que exige, em parte, uma comunicação dialógica entre os envolvidos, para que possam superar velhos obstáculos na hora de encarar os novos desafios do ensino-aprendizado remoto durante as aulas. Embora houvesse lacunas para encontrar esse equilíbrio entre teoria e prática em aulas remotas, utilizando as tecnologias educacionais e midiáticas durante a pandemia do coronavírus, é preciso refletir sobre esse momento, continuando os estudos e as análises a respeito desse período excepcional na história da humanidade e da educação.
Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) relatou que o coronavírus detectado na China era o responsável por uma doença infecciosa (a covid-19) propagada a partir de gotículas do vírus respiratório SARS-CoV-2, liberado, por exemplo, por meio do espirro, da fala ou da tosse das pessoas contaminadas 1. Pouco tempo após, a OMS alertou que a situação da doença era pandêmica. Essa descoberta científica provocou uma mudança radical na vida cotidiana da população mundial, pois, sob orientação da mesma organização internacional, o isolamento social era a única forma possível, até então, de evitar o contágio da nova enfermidade.
Diante desse novo cenário, novas formas educacionais precisaram ser adotadas para que as aulas não parassem completamente. No Brasil não foi diferente, uma vez que, apesar da suspensão das aulas presenciais em um primeiro momento, logo o Ministério da Educação divulgou uma portaria autorizando, em todas as instituições de ensino, inclusive as instituições de ensino superior (IES), a retomada de algumas atividades em andamento por meio de aulas on-line, tidas por muitos como aulas remotas ou como ensino remoto 2 emergencial (ERE).
Dessa forma, um sistema de ensino remoto foi adotado para que as atividades educacionais não fossem totalmente interrompidas e pudessem continuar a proporcionar uma rotina de estudos. Os acadêmicos e professores tiveram que se adaptar em pouco tempo à mudança da dinâmica do processo de ensino-aprendizagem presencial para os ambientes virtuais – o que levou a um esforço de tempo e de investimentos em tecnologias para usufruir da teoria e da prática nessa nova situação.
Para isso, foi preciso pensar em atividades pedagógicas por meios digitais, mediadas pelo uso da internet, principal ferramenta no ensino remoto, de plataformas digitais e de plataformas móveis compatíveis com os sistemas iOS, Android, Windows, Mac OS, entre outros.
De acordo com Heleno Almeida, em entrevista cedida especialmente para este artigo, esses sistemas suportam os aplicativos Zoom, Microsoft Teams, Google Meet – capazes de possibilitar a comunicação de grupos em vídeo ao vivo. Também há aplicativos educativos fáceis de serem instalados como: Edmodo, knowBook, Sou Genius, Duolingo, entre outros. Todos esses são usados em dispositivos móveis como tablets, notebooks, smartphones, tanto para o aprendizado e difusão do conhecimento como para dinamizar as aulas virtuais remotas.
Os personagens desse ecossistema social na educação tiveram pouco tempo para adaptar a cultura educacional presencial aos ambientes virtuais de aprendizagem, os quais exigem uma metodologia pedagógica – exemplos são o aplicativo Moodle e aplicativos de comunicação (Microsoft Teams e Google Forms) que servem para criação de avaliações e simulados em formato digital.
Outro desafio, tanto dos educadores quanto dos estudantes, foi compreender que as aulas remotas são atividades de ensino mediadas pelas tecnologias, mas que, simultaneamente, são orientadas pelos princípios da educação presencial. As aulas remotas aconteceram no mesmo horário da aula presencial e ao vivo, simulando o encontro físico. A carga horária passou a ser a mesma das aulas presenciais, mantendo-se também a mesma frequência.
O conceito de prática pode ser entendido tanto como ato de fazer algo, quanto o efeito desse ato, ou seja, como a própria coisa feita. Ele está relacionado a praticar, realizar, executar ou fazer. Tem como sinônimo o hábito, o costume de realizar alguma ação, por exemplo, de ler todos os dias os jornais. Tudo isso faz a prática ser dirigida pela teoria, redefinindo-a ou até mesmo rejeitando-a 3.
Quanto ao conceito de teoria, Polistchuck e Trinta (2003) usufruíram do pensamento do filósofo grego Aristóteles (384-322 a. C): “teorizar (acerca de alguma coisa) corresponde a retirar algo de sua realidade imediata, abstraindo-o, e proceder a um exercício de raciocínio logicamente orientado” 4. Isso equivale a dizer que as pessoas devem pensar e refletir sobre algum acontecimento específico para que se possa achar alguma resposta ao questionamento que se fez acerca desse evento. Ainda nos valendo do pensamento de Aristóteles:
Tem-se, então, que theoria, em sua origem, quer dizer “contemplação atenta”, “admiração pelo pensamento”, “reflexão”. O ser humano teoriza porque busca encontrar sentidos para os fatos do mundo. Teorizar é uma forma de agir; também, contemplar atentamente (alguma coisa), algo que fundamenta um ato, traduz uma atitude. Segue-se, naturalmente, que uma teoria remeta a um sistema ordenado de ideias, formando um corpo de doutrina 5.
Podemos dizer que, por meio de sua capacidade de teorizar, o ser humano se faz consciente do que sucede a seu redor e a si mesmo; sendo um ser com cultura e um ser social capaz de aprender com os outros, o indivíduo pode ter posicionamento e noção sobre o que sucede no mundo, já que a cultura é dinâmica e desenvolvida das mais variadas formas, sem importar a localização geográfica ou as condições biológicas. Isso nos remete ao conceito de cultura discutido por Taylor como o “complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes e quaisquer outros hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade” 6. Ou seja, a cultura inclui hábitos adquiridos graças a um sistema articulado de comunicação, capaz de transmiti-la por meio do aprendizado, uma vez que a ela é um processo de acúmulo de experiências diversas transmitidas pela comunicação, o que torna a comunicação um processo cultural 7.
O fato é que a partir dessa discussão, conforme Polistchuk e Trinta 8, teoria e prática são inseparáveis; entretanto é aceitável, em algumas ocasiões e devido a determinados fins, examinar minuciosamente uma, pressupondo a existência da outra de maneira harmônica e didaticamente correta.
Observar ou entender a teoria e a prática como dicotômicas, entre as quais exista uma divisão em opostos, sem compreender que ao mesmo tempo, complementam-se como fragmentos dos saberes para a realização de um ensino-aprendizado, pode limitar a visão e a importância de cada uma no processo de aprendizagem.
Corre-se o risco de se ver incluso em um emaranhado complexo de fios conectados com outros campos de conhecimento que trazem diversidade e multiplicidade aos fenômenos – o que, de certo modo, e em certas ocasiões, vem sucedendo na educação em tempos de pandemia no século XXI.
O sistema educacional e, consequentemente, professores e alunos, precisam entender que, no que se refere ao conteúdo, não existe compartimento fragmentado no processo de ensino-aprendizado; esse processo é um conjunto de diversidade cultural, o que inclui pensar no aluno como um ser humano com seus defeitos e qualidades. Isso é primordial para chegarmos a uma real transdisciplinaridade na educação. É o que contextualiza Morin ao dar o nome a esse fenômeno de Teoria da Complexidade 9.
Morin 10 afirma que a complexidade é definida a partir do sentido da palavra complexus (“o que foi tecido junto”), sendo também “a união entre a unidade e a multiplicidade”, uma “cadeia produtiva/destrutiva das ações mútuas das partes sobre o todo e do todo sobre as partes” 11. O que nos remete a pensar que a transdisciplinaridade na área da educação, mais do que nunca, quando se trata do “novo modo de lecionar” em tempos de pandemia – com aulas remotas, híbridas, à distância e presenciais –, exige dos professores mais do que uma visão transdisciplinar para com seus alunos ao programar suas aulas – exatamente como afirmam Petraglia e Morin 12 ao dizer que estão “convencidos de que tudo se liga a tudo e de que é urgente aprender a aprender, o educador adquirirá uma nova postura diante da realidade, necessária para uma prática pedagógica libertadora”.
Isso implica obter equilíbrio entre teoria e prática nas aulas remotas que dariam continuidade ao ano letivo na maioria das instituições de ensino superior.
Para mostrar a complexidade desse fenômeno, foi usada a abordagem teórico-metodológica da etnografia, por sugerir a imersão do pesquisador no campo de pesquisa in loco, para a observação detalhada de práticas, eventos ou instituições culturais, buscando entender os fenômenos observados a partir da análise em profundidade, mediante a visão de mundo do pesquisador 13.
Também elegemos para a pesquisa a etnografia digital, por ser uma técnica que dá inúmeras possiblidades de fazer recortes no campo de nosso objeto, seja ele somente on-line ou híbrido, o que facilitou a continuação da pesquisa no momento de pandemia.
Segundo Oliveira 14, etnografia digital é um método que propõe investigar e analisar comunidades, costumes, práticas e culturas no ciberespaço. Para isso, o objeto do estudo foram três disciplinas do curso de Comunicação Social (Jornalismo e Publicidade e Propaganda): Fotografia Básica e Redação Publicitária, que exigem mais aulas práticas; e Teoria do Jornalismo, a qual privilegia a teoria.
As aulas dessas disciplinas tiveram início em fevereiro de 2020, um mês antes de o coronavírus se disseminar no Brasil. Isso representou 10% de aulas presenciais e 90% de aulas remotas. Já no segundo semestre, as aulas de Fotografia Básica foram híbridas, combinando encontros virtuais e presenciais, enquanto as demais continuaram de modo completamente remoto.
Ainda, foi realizada uma pesquisa bibliográfica a partir do registro disponível como fontes: artigos científicos, livros, dissertações, teses etc.
Para descrevermos a funcionalidade didática dos professores quando conciliaram a teoria e a prática nas aulas remotas, utilizamos como instrumento de coleta de dados a observação participativa, quando propúnhamos atividades como debates sobre a qualidade do ensino superior e o mercado de trabalho – o que atrelava automaticamente as questões teóricas e práticas em seus cotidianos.
Além da entrevista e das conversas informais, por meio das mídias digitais, para a obedecer às regras da Organização Mundial da Saúde (OMS), que visava o distanciamento social decorrente da pandemia, foram também utilizados diálogos durante os intervalos nas salas dos professores, quando tivermos a autorização de lecionarmos presencialmente. Também utilizamos experiências anteriores trocadas com os demais professores e alunos que já abordavam esta temática no cotidiano educacional. Assim foram entrevistados, de maneira não estruturada e aleatória, dez alunos; e, aproximadamente, entrevistados de maneira semiestruturada, dez professores da Comunicação que atuaram em determinada faculdade particular em Manaus. Para isto, utilizamos a entrevista semiestruturada com perguntas-chave, tais como: “Você acha mais importante a teoria ou a prática no seu curso?”; “Em tempos de pandemia, você percebeu alguma dificuldade do professor ao utilizar a tecnologias para lecionar?”. E, por fim, foi perguntado: “Seu professor soube conciliar nas aulas remotas teoria e prática?” Vale ressaltar que o número de estudantes envolvidos indiretamente nesta pesquisa foi em torno de 75 alunos.
Por fim, a análise de dados se deu a partir de uma abordagem qualitativa, apontando os resultados em forma de inferências e interpretação dos resultados, além de discuti-los com a literatura pertinente especializada.
A pesquisa empírica trouxe um olhar investigativo ao ponto de observarmos que, antes da pandemia, os alunos, quando se deparam com disciplinas como Teoria do Jornalismo, assustam-se e logo bombardeiam o docente com perguntas como: “Professora, a senhora só vai dar um produto?” – que demonstram a expectativa de que as aulas tenham uma finalidade prática, como produzir um livro-reportagem, um jingle, jornal laboratório etc.
A diferença foi explicada ao relatar que ambas, teoria e prática, são prioritárias para o embasamento intelectual dos alunos e que, dependendo do momento, uma pode prevalecer sobre a outra, de maneira equilibrada.
Pena 15 defende essa ideia ao colocar que o ideal é unir a experiência profissional do modelo intermitentemente prático (escolas americanas e britânicas) com outros modelos que mesclam o ensino teórico e, em seguida, o prático (francesa e espanhola). “Os currículos dos cursos devem articular teoria e prática e não as separar em blocos monolíticos, sem intercâmbio. O aluno não pode ser um mero reprodutor de técnica, mas também não pode desconhecer ferramentas que irá utilizar na profissão 16”.
Podemos citar como exemplo, na disciplina Teoria do Jornalismo, uma situação em que os graduandos em Comunicação realizaram um curta-metragem sobre a Teoria Hipodérmica, segundo a qual um grupo de mulheres, por meio da mídia, influenciou a sociedade e impôs que todos utilizassem cor de rosa.
Com esta mesma disciplina, pelo sistema de aulas remotas devido à pandemia, novos questionamentos dos alunos vieram sobre a didática dos professores. Em um desses diálogos, um determinado aluno e outros estudantes relatam que estão saturados de tanto realizar produtos com menor intervalo de tempo. Falam também de outra dificuldade: a de realizar, por exemplo, um documentário, por falta de conhecimento técnico (por exemplo, sobre edição).
Os alunos apontaram que gostam das práticas realizadas com a finalidade de participarem de congressos científicos, como o Intercom, mas tais práticas poderiam acontecer em menor quantidade e de forma associada entre os professores, com caráter mais interdisciplinar.
Uma outra situação notada na observação participativa diz respeito à disciplina Fotografia Básica, a qual requer grande utilização de laboratório para a realização das aulas, especialmente pelo fato de ser lecionada no primeiro período, quando os alunos estão ávidos pela prática.
O perfil dos alunos que ingressam nas faculdades de comunicação é, em sua maioria, de jovens que fizeram algum curso de extensão, curso livre e até curso técnico em fotografia, o que indica prevalência quase sempre maior da prática do que da teoria.
Isso acaba, em certas situações, resultando que alguns alunos não entendem a finalidade de ter, como abordagem didática, o embasamento teórico na disciplina. Dessa forma, cabe ao professor explicar a eficácia e a importância da teoria para as aulas de fotografia.
Com a introdução das aulas remotas devido à pandemia, tornou-se impossível utilizar os laboratórios da faculdade, como o fotográfico. Muitos educadores conseguiram rapidamente oferecer o “aprendizado remoto por meio da tecnologia digital, tendo como apoio mídias tradicionais como o rádio e a televisão para prosseguir nas aulas em um cenário incerto, mas que ainda continua a prevalecer a incapacidade de uma educação inclusiva e de qualidade 17”.
Muitos professores, sem condições de organizar um laboratório em casa ou outros equipamentos fotográficos adequados, acabaram utilizando como alternativa a transmissão de conhecimentos através do diálogo, bate-papo e vídeos. Alguns deles até passaram atividades práticas para realizar produtos na área da comunicação, como um ensaio fotográfico. Outros professores exageraram nas atividades práticas em suas aulas, esquecendo-se de transmitir o embasamento teórico sobre os temas da disciplina das aulas.
Isso resultava, em determinados momentos, em alunos questionando sobre quando teriam aula presencial ou quando poderiam utilizar os laboratórios, para que pudessem realizar trabalhos práticos. Diziam também entender que a teoria é importante, assim como o esforço do professor em tentar suprir a necessidade do laboratório, mas que esta disciplina tinha o objetivo da aula prática.
Com esses exemplos empíricos descritos, percebe-se um paradoxo, quando se trata dos períodos anterior e posterior à pandemia, ao tentar conciliar, de maneira adequada, a teoria e a prática para o ensino-aprendizado dos alunos da Comunicação.
Isso nos faz refletir sobre como as ideias de Freire 18 podem ser apropriadas de maneira correta e não desprezadas pelos pesquisadores e/ou professores da área acadêmica da Comunicação, em nenhum momento, no que se refere à inclusão das aulas remotas. Sobre como, se possível, os professores poderiam colocar mais em prática as ideias do educador para o desenvolvimento e para transformação das práticas comunicacionais na educação, tendo como proposta pedagógica a chamada teoria de conhecimento de Freire 19, ao dizer que “o conhecimento é processo que implica na ação-reflexão do homem sobre o mundo”. Ou seja, o conhecimento é um processo social dinâmico que envolve a ação-reflexão sobre a realidade das pessoas – as quais, juntas, constituem uma união harmônica.
Portanto, entendemos que não é preciso que teoria e prática sejam dicotômicas, mas sim, divididas sempre em partes equitativas nas aulas remotas, de acordo com a necessidade de cada disciplina, para que se possa lecionar de maneira complementar no que diz respeito à didática. Ou seja, que possam ser utilizadas com maior ou menor intensidade ou, até mesmo, em partes iguais nas cargas horárias das aulas. Tudo depende da tomada de decisão do professor, mesmo com equipamentos completos nos laboratórios acadêmicos.
Entende-se harmonia como um “equilíbrio entre teoria e prática”, como uma conciliação entre as expectativas relativas aos papeis de docentes e discentes, o que nos faz agir-refletir sobre a real necessidade de transformação humana sobre a realidade, feita por meio da educação libertadora e não dominadora, como nos propõe Freire 20.
As transformações sociais, econômicas, políticas, culturais e tecnológicas nas últimas décadas afetaram de forma significativa a vida das pessoas. As relações, antes sólidas e duradouras, passaram a ser fluidas, em constante movimento e imprevisíveis, o que Zygmunt Bauman chama de modernidade líquida, que passa a abarcar características de todas as esferas da vida social como o amor, a cultura, o trabalho e a educação.
Nenhuma reviravolta da história humana pôs os educadores diante de desafios comparáveis a esses decisivos de nossos dias. Simplesmente não havíamos estado até agora em situação semelhante. A arte de viver em um mundo ultrassaturado de informações ainda deve ser aprendida, assim como a arte ainda mais difícil de educar o ser humano neste novo modo de viver 21.
O que Bauman não previa era que esses processos fossem ainda mais acelerados pela pandemia do coronavírus. Professores e alunos de todos os níveis, no mundo inteiro, tiveram suas rotinas alteradas repentinamente por conta do isolamento social e do fechamento das instituições de ensino. Rapidamente, escolas e universidades tiveram de se adaptar a uma nova realidade, “equilibrando novas demandas pedagógicas com questões emocionais e pessoais” 22. Vivemos momentos de insegurança e transformação. Como na própria insegurança das aulas presenciais: por mais que se limite o número de alunos em sala de aula, mantenha o distanciamento entre as cadeiras, o rodízio entre os alunos, o escalonamento dos intervalos, o uso de máscara e a higienização constante ainda assim não se evita o contágio.
As necessidades de transformações no processo de ensino e aprendizado já existiam antes da pandemia. No entanto, utilizar a tecnologia como aliada nos bancos escolares, se por um lado facilita o processo de aprendizado e é valorizada pelos alunos, por outro, também é limitador.
Na experiência de uma faculdade privada, objeto desse estudo, o professor se depara com realidades diferentes entre os alunos. Nas aulas de Redação Publicitária, Teoria do Jornalismo, Fotografia Básica, entre outras lecionadas na área de Comunicação, temos alunos com médio e alto poder aquisitivo, com toda a estrutura necessária para uma aula via internet, e alunos que não dispõem de internet banda larga em casa nem de computador e somente tem acesso a dados móveis limitados. Outra questão importante foram os alunos que continuaram trabalhando durante o isolamento: muitos aproveitavam a internet do próprio trabalho para acompanhar as aulas, embora tivessem que dividir a atenção entre trabalho e aula. Há ainda os alunos de gerações anteriores – chamados imigrantes digitais –, acostumados a usufruir mais as mídias tradicionais (como a televisão) do que as “novas mídias” (a somatória das Tecnologias de Comunicação e Informação) em seus cotidianos, tanto para o lazer quanto para o aprendizado. Esses alunos realizam uma atividade de cada vez, ao contrário dos jovens nativos digitais, que têm o hábito de realizar várias atividades ao mesmo tempo, quando estão on-line nas aulas.
Na instituição de ensino em que experenciamos essa prática, os docentes tiveram uma semana para realizar a transição do presencial para o remoto. Nesse espaço de tempo, eles tiveram que aprender a utilizar o Zoom, ferramenta de videoconferência até então estranha para a grande maioria dos professores, que não tinham experiência plena para ensinar à distância. Além do isolamento, os professores também tiveram que lidar com sintomas de estresse decorrente da pandemia ou problemas de saúde entre alunos e familiares. Também tiveram que adaptar as estratégias das aulas presenciais para as remotas, a fim de manter os alunos ativos intelectualmente, o que exigiu um esforço ainda maior por parte dos professores. Nas aulas de “Redação Publicitária”, por exemplo, que exigem uma prática de escrita sistemática, a estratégia adotada foi a utilização das mídias sociais, como Facebook, Instagram e Twitter para a criação dos conteúdos a serem postados. Os temas eram datas comemorativas e assuntos em pauta na grande mídia – por exemplo, fake news, covid-19, entre outros – como ilustra a Figura 1, registro do trabalho de um aluno publicado no dia 21 de abril, Dia de Tiradentes.

Essa abordagem foi difundida durante o primeiro semestre de 2020, em meio à pandemia do coronavírus, como forma de ampliar a construção do conhecimento, de prestigiar o esforço do aluno, de despertar a autoestima e a autoconfiança, imprescindíveis para quem trabalha com escrita criativa.
Após a realização de cada trabalho, professor e alunos discutiam a postagem na sala de aula virtual para sondar a experiência do aluno com tal prática e o seu engajamento que, na maioria das vezes, era satisfatório, como demonstrado no post de um dos alunos que compartilhou seu conteúdo no Facebook, como ilustram as Figura 2 e Figura 3.


Kenski 23 nos ajuda a compreender esse fenômeno das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no processo de aprendizado quando diz que tanto na educação presencial quanto no ensino à distância, as TIC potencializam o processo de construção do conhecimento. As TIC relacionadas com as mídias na educação não são apenas aparatos ou funções dos aspectos tecnológicos, mas também carregam uma forte carga cultural que implica estar conectado à comunicação, a qual nos remete a seus meios, as mídias (televisões, computadores, celulares, entre outras) que invadem tanto o cotidiano dos nativos quanto dos imigrantes digitais, e passam a ser vistas não somente como tecnologias, mas como continuação de seu espaço de vida. Isso também inclui a vida acadêmica 24.
Conforme Moreira 25, os benefícios que as mídias sociais oferecem para a aprendizagem no ensino médio e superior têm sido extensivamente investigados há vários anos. Muitos autores consideram as mídias sociais como poderosos impulsionadores da mudança, para acomodar as necessidades de aprendizagem em contextos sociais e abertos, rompendo as fronteiras tradicionais dos ambientes de ensino.
O sistema Zoom, utilizado em aulas síncronas fez com que o processo de aprendizado não se restringisse apenas ao professor como facilitador de conteúdo, uma vez que ele permitiu que os conteúdos fossem abordados de forma colaborativa, com a participação de profissionais da Comunicação, da Psicologia e do Marketing para a troca de experiências e vivências. Nessas lives, como eram chamadas as aulas, percebemos uma maior interação do aluno com os temas abordados, configurando uma postura ativa do estudante e que contribuiu para o exercício de sua autonomia.
A Figura 4 ilustra a primeira live realizada em uma aula de Redação Publicitária durante o primeiro semestre de 2020, postada na rede social do professor e com grande adesão dos alunos, inclusive não só como espectadores, mas também como participantes ativos, com questionamentos e curiosidades sobre o tema abordado. Posterior ao evento, sempre buscávamos um feedback dos discentes a fim de saber sobre seu aproveitamento, o que era muito positivo porque o aluno percebia que a teoria em sala de aula e a prática do mercado não estão dissociadas.

O que podemos perceber com essa experiência é o fortalecimento da cibercultura, conceito criado por Lévy 26, que consiste no conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço, ambiente em que ocorre a interação dos humanos com as tecnologias. Se entendíamos que ensinar é criar a possibilidade para sua realização, hoje descobrimos que as ferramentas disponíveis nas diversas plataformas podem promover aulas produtivas. Nem os professores, nem os alunos estavam preparados para este desafio, todos tiveram que vencer barreiras, superar resistências e até preconceitos; como nos ensina Morin 27, “não há evolução que não seja desorganizadora/reorganizadora em seu processo de transformação ou de metamorfose”.
Certamente podemos afirmar que a pandemia transformou a tecnologia em aliada dos professores nas aulas remotas e contribuiu de forma significativa para a conciliação harmônica entre a teoria e a prática do ensino e aprendizado nas faculdades, tendo como foco o Curso de Comunicação Social de uma faculdade particular da cidade de Manaus (AM). Apesar disso, mesmo com a experiência de muitos professores com as novas mídias durante mais de uma década, esta experiência mostrou a necessidade, ainda, de explicar os motivos do embate entre teoria e prática aos alunos, principalmente em entender como utilizá-las de maneira didática e compreensiva pelos discentes nas aulas remotas.
A partir do que observamos e expomos com os alunos, se contarmos durante os anos lecionando nesse universo específico, podemos incluir mais de 250 alunos dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Dentre eles, citemos que pelo menos 75 alunos passaram pelo processo das aulas presenciais e remotas com os mesmos professores, com os quais tiveram, em algum momento, diálogos nas aulas sobre a abordagem da teoria e da prática. Desses, tiveram participação ativa, ao todo, dez alunos na entrevista não estruturada. Pelo menos quatro desses entrevistados, convergindo com os estudos dos pesquisadores Polistchuk & Trinta 28, apontaram que o papel do professor é deixar claro para os estudantes que tanto a teoria quanto a prática, apesar de possuírem conceitos distintos, devem andar juntas e não necessariamente de maneira dicotômica, para que estes futuros profissionais possam atender a necessidade do mercado de trabalho como cidadãos éticos. O restante dos entrevistados ficou em posição neutra; aqueles que alegaram que a prática tem maior importância deram como exemplo a vivência em uma redação de um veículo de comunicação. De maneira indireta e em conversas informais, os alunos disseram permanecer calados, mostrando-se neutros por estarem digerindo informações e conhecimentos, para depois tomarem um posicionamento sobre o assunto abordado. Os alunos, assim como os professores, foram quase unânimes em avaliar que, mais do que nunca, os docentes em tempos de pandemia também tiveram dificuldades em conciliar teoria e prática em suas aulas virtuais.
Os professores nesta pesquisa sabem que, para uma melhor harmonia entre eles e os alunos, é necessária a manutenção de uma comunicação horizontal, com o intuito de entender como lidar com o “novo/velho”, cuja questão vai além do grau de importância entre a prática e a teoria. Partimos da questão humanista que tenta compreender do que os alunos precisam para amenizar suas angústias com a futura carreira profissional e até pessoal. Outros alunos, que já tiveram experiência em iniciar seus estudos em outra faculdade de Comunicação no exterior, concordam que alguns discentes devem também ser mais compreensíveis com os professores que, como eles, estão sujeitos a erros e acertos e passam por dificuldades, as quais modificam totalmente a maneira de lecionar. Ao mesmo tempo, eles estão descobrindo como conciliar a teoria e a prática, já que as ferramentas disponíveis não são as mesmas que costumavam a utilizar e eles precisam dominar novas ferramentas de trabalho, como Zoom, Google Meet e MS Teams.
Seguindo, assim, o mesmo raciocínio de Salinas 29, é verdade que a pandemia da covid-19 gerou uma crise no sistema educativo, com aulas remotas. Por outro lado, também trouxe oportunidades de aprender a utilizar as novas tecnologias educacionais, fazendo-as convergir entre si para atender as necessidades dos alunos e sair da zona de conforto. Como diz o autor, ao concluir que embora o futuro seja difícil de prever, podemos participar desse momento construindo o futuro da educação com estratégias de curto a longo prazo, para saber lidar com novos problemas ou os que ainda persistem.
Bauman 30 já previa os desafios dos educadores na era digital, com a coexistência de informações e tecnologias acessíveis instantaneamente, comprimindo e limitando o tempo tanto para a educação quanto para o aprendizado do ser humano. Esses processos ficaram mais acelerados com a pandemia, o que gerou uma dificuldade para se entender os novos papéis do processo de ensino-aprendizagem na educação.
Desse modo, a nossa pesquisa teve a pretensão de rediscutir esse tema, ou seja, de tentar entender como ficarão as disciplinas que utilizam aulas remotas e aulas presenciais em um determinado momento, principalmente naquelas que exigem laboratório como a Fotografia, Rádio e Televisão, dentre outras. O fato é que ainda existem discussões em aberto sobre essa situação, principalmente no quesito do ensino da teoria e da prática. Só o tempo talvez possa dar uma resposta concreta, tanto para os professores quanto para os alunos das faculdades públicas e particulares.
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