ARTIGO INTERNACIONAL
O Sul Global no encalço do Norte Global: o caso da educação rural sul-africana e a Quarta Revolução Industrial
Global South in pursuance of the Global North: case of rural South African education and the Fourth Industrial Revolution
O Sul Global no encalço do Norte Global: o caso da educação rural sul-africana e a Quarta Revolução Industrial
ARS (São Paulo), vol. 28, no. 1, pp. 140-152, 2023
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
Received: 21 April 2023
Accepted: 08 May 2023
Resumo: As nações do Sul Global tendem a adotar ideias, práticas e tendências do Norte Global como padrão. Isto acontece, em muitos casos, à custa de sua adequação à situação e ao ambiente atual do Sul Global. Por exemplo, as questões relacionadas com a Quarta Revolução Industrial. Recentemente, muitos dos ajustes na educação e em outros setores encaminhados pelo Norte Global para acomodar as práticas da Quarta Revolução Industrial estão começando a se infiltrar no Sul Global, onde faltam muitas infraestruturas básicas e necessárias. Questões como a revisão curricular estão sendo levantadas e consideradas, enquanto conferências, workshops, seminários, entre outros, estão sendo organizados para garantir que as instituições de ensino se adaptem às demandas da Quarta Revolução Industrial. Por exemplo, a programação está rapidamente se tornando uma disciplina importante a ser considerada, mesmo em escolas primárias, embora não necessariamente satisfaça as exigências locais.
Palavras-chave: Decolonização, Norte Global, Sul Global, Associação Panafricana, nações rurais africanas.
Abstract: Nations in the Global South tend to embrace ideas, practices, and trends from the Global North as the standard. This is in many instances at the expense of their suitability in the current situation and environment of the Global South. For instance, issues revolving around the Fourth Industrial Revolution is a typical example. In recent times, the adjustments in the education and other sectors in the Global North to accommodate practices of the Fourth Industrial Revolution are beginning to flood the Global South where many basic and necessary infrastructures are lacking. Issues such as curricular review are being raised and considered, while conferences, workshops, seminars, amongst others are being organized to ensure that learning institutions are positioned to suit the demand of Fourth Industrial Revolution. For instance, coding is fast becoming a major subject to be considered even from primary schools, though not necessarily meeting the local demands.
Keywords: Decolonization, Global North, Global South, Pan-African association, rural African nations.
1. Introdução
O padrão de desenvolvimento e sucesso no Sul Global tende a ser o Norte Global, isto é, tudo o que o Norte Global entende como sucesso e/ou desenvolvimento tende a ser o padrão no Sul Global. Enquanto isso, ao conquistarem sua independência, as nações são consideradas soberanas e espera-se que vivam de forma independente. Isso deveria implicar a possibilidade de se viver de maneira independente de seus senhores coloniais. No entanto, esse não parece ser o caso no continente africano, onde os senhores coloniais e/ou nações do Norte Global ainda parecem determinar o padrão do que é desenvolvimento, qual(is) nação(ões) é(são) desenvolvida(s) e quais estão se desenvolvendo. Basta afirmar que a questão do padrão tende a ser questionável em diferentes partes do Sul Global. O que é padrão? Quem o determina? A partir de qual lente o padrão é e/ou deve ser visto ou considerado? Essas perguntas revelam questões ainda a serem respondidas criticamente pelas várias nações africanas — cuja maioria se encontra no Sul Global. Enquanto isso, o caso das áreas rurais em muitas nações africanas é mais alarmante em relação a tais padrões. O trecho acima permeia diferentes setores e sistemas em várias sociedades africanas: incluindo suas áreas rurais e urbanas. No entanto, para o propósito deste estudo, o foco continua sendo as sociedades rurais africanas e o setor educacional em específico. Assim, este artigo compreende as seguintes seções: a primeira considera a questão do colonialismo 1 ao neocolonialismo nas nações africanas sob a luz da Quarta Revolução Industrial no que diz toca o setor educacional. A segunda seção explora o plano da visão panafricana 2063 em alinhamento com o desenvolvimento nas nações rurais africanas e as demandas da Quarta Revolução Industrial. A terceira seção constitui os desafios educacionais e linguísticos para as nações africanas. A quarta seção envolve as tentativas de rever o caso da China como nação em congruência com sua ascensão sem influência externa.
2. Seção Um: Do Colonialismo ao Neocolonialismo das Nações Africanas em Relação à Quarta Revolução Industrial com Foco no Setor de Educação
A busca pela retomada política, social e econômica do território africano das mãos dos colonizadores e imperialistas trouxe unidade dentro do continente africano 2. Esse espírito de unidade acabou levando as nações africanas a experimentarem a independência. No entanto, décadas após sua independência, muitas nações africanas e o continente em geral ainda permanecem em outras formas de colonialismo que são descritas como neocolonialismo, termo usado para significar “nova forma de colonialismo”. De acordo com Nyikal:
Há apenas uma nova forma de colonialismo pelos mesmos países ocidentais, mascarada sob o pretexto de seu apoio econômico à África, diretamente imposta ou institucionalizada no Banco Mundial, no Fundo Monetário Internacional (FMI) e na Organização Mundial do Comércio (OMC). As políticas aplicadas aos países africanos pobres através dessas organizações acorrentaram a África a uma dependência contínua das economias ocidentais para sua mera subsistência ao impedir a autoajuda para os problemas econômicos do continente. Além disso, as mesmas políticas parecem favorecer um desequilíbrio comercial em direção às ricas economias ocidentais em detrimento das economias em dificuldades na África. 3
Isso sugere as tentativas deliberadas do Norte Global de ‘neocolonizar’, ou seja, colonizar o Sul Global através de novos métodos, especialmente as nações africanas no contexto deste estudo. De acordo com Dinesh 4, algumas maneiras pelas quais o neocolonialismo é perpetrado incluem: 1. Interferência de nações fortes nos assuntos internos atuais de nações novas/pequenas/fracas, o que poderia significar antigos colonialistas interferindo nos assuntos internos atuais de suas colônias anteriores; 2. Fornecimento de armas e munições; 3. Disponibilização de empréstimos e ajudas externas; 4. Dominação e controle das instituições econômicas internacionais; 5. Utilização de organizações multinacionais; 6. Asseguramento contínuo da dependência econômica de nações fracas; e 7. Criação de países satélites.
Nyikal 5 já havia advertido que as nações africanas deveriam se afastar de alguns dos métodos do neocolonialismo que destacamos para serem soberanas. No entanto, tal cautela parece não ter sido adotada, fazendo com que muitas nações africanas continuassem a experimentar o neocolonialismo. Dinesh 6 destaca algumas razões pelas quais os países do Sul Global experimentam o neocolonialismo. Algumas delas (consideradas especialmente no contexto das nações africanas segundo o foco deste estudo) incluem: ascensão e luta contra o colonialismo, o atendimento de países desenvolvidos às suas próprias necessidades, dependência contínua dos países em relação aos seus antigos colonialistas, o impacto da Guerra Fria e as questões das políticas dos Estados Unidos da América (EUA) e da antiga União Soviética. Os pontos identificados por Dinesh são brevemente explicados abaixo 7.
Ascensão e luta contra o colonialismo: A luta das nações africanas e sua contínua busca por independência geraram diversos movimentos em diferentes países. Isso levou os colonialistas a atender às demandas das nações africanas, oferecendo-lhes independência. No entanto, os laços entre os colonialistas e suas colônias permanecem. Através desses laços, novos sistemas de exploração econômica estão sendo concebidos e perpetrados. 8
Atendimento de países desenvolvidos às suas próprias necessidades: Os países desenvolvidos procuram atender suas próprias necessidades através da exploração de países relativamente novos e pequenos ao lhes proporem assistência econômica e de segurança. 9 Tal assistência toma a forma de suprimentos de armas e ofertas de empréstimo.
Dependência contínua dos países em relação aos seus antigos colonialistas: Tal dependência ocorre de várias formas, como com a venda e compra de matérias-primas e bens industriais, o que pode levar ao neocolonialismo. Países novos e pequenos tendem a depender de seus colonialistas ou de outros países desenvolvidos para vender suas matérias-primas. O que tende a colocar, por vezes, esses países à mercê de seus pares desenvolvidos, quase sempre do Norte Global.
O impacto da Guerra Fria: A ascensão de dois blocos em disputa em questões de relações internacionais durante o pós-guerra causou alguns desafios para novos países pequenos, uma vez que muitos deles foram obrigados a se associar a um dos dois blocos 10. A razão para tal escolha por parte destes países novos e pequenos foi garantir sua assistência econômica e acesso a armas e munições.
Questões das políticas dos Estados Unidos da América (EUA) e da antiga União Soviética: Durante a Guerra Fria (1945-1990), os EUA e a URSS procuraram aumentar suas respectivas áreas de influência. Isso os levou a explorar as necessidades econômicas de países novos e pequenos 11. Isso é descrito por Talton (2011), depois do discurso do presidente Kenneth Kaunda, como criação de fraquezas. Os EUA e a União Soviética exploraram países por vários meios, entre os quais: ofertas de empréstimos, ajudas externas e controle sobre a economia internacional e instituições econômicas. Talton 12 — aludindo ao discurso de Kenneth Kaunda, o primeiro presidente da Zâmbia, em março de 1966 — explica que o desafio das nações africanas se deve principalmente à falta de pessoal treinado e a restrições financeiras. Por isso, “não nos resta outra escolha senão nos alinharmos com os soviéticos, os americanos, ou melhor, com ambos” 13. Isso sugere a razão pela qual as nações africanas se aliaram a um dos blocos. Segundo Dinesh 14, a prática de nações jurar fidelidade a um dos dois blocos levou os EUA e outras potências ocidentais a se concentrarem na criação de diferentes dependências econômicas enquanto a União Soviética criou seus países satélites. Essas atividades por parte dos EUA, das potências ocidentais e da União Soviética buscaram operacionalizar o neocolonialismo nas relações internacionais. Dinesh 15 explica que “dependências econômicas” são usadas para designar países novos, pequenos e soberanos cujos interesses econômicos estão sob o controle de países desenvolvidos, poderosos e ricos; no caso, os EUA. Por outro lado, países “satélites” são usados para representar países soberanos pequenos e novos cuja política e economia são conectadas e em grande parte dependentes de países poderosos e ricos 16 como a União Soviética.
3. Seção Dois: Programa da Visão Africana 2063 em Alinhamento com o Desenvolvimento das Nações Rurais Africanas e as Exigências da Quarta Revolução Industrial
O programa da União Africana (UA) para 2063 implica que, até esse ano, a paz, a integração, a unidade e a prosperidade seriam a ordem para a associação panafricana e seus países membros 17. Ndlovu-Gatsheni o descreve como futuros africanos. De acordo com o autor 18, para que a União Africana (UA) seja capaz de alcançar com sucesso tal sonho/projeto, ela deve primeiro estar pronta para lutar interminavelmente contra a colonialidade global. Nesse sentido, acredita-se que a União Africana (UA) seja capaz de combater e lutar contra práticas que promovem várias formas de legados do colonialismo europeu. Isso poderia se dar na forma de ordens sociais e/ou conhecimento, o que implica que a União Africana (UA) pode ser capaz de liderar as nações e populações africanas a criar futuros desejados onde reinam a unidade, a paz, a prosperidade, entre outros, e não se tenta seguir o sistema do mundo moderno nem suas ordens globais em constante mudança, que estão principalmente centradas nos continentes europeu e norte-americano 19. As ordens globais cambiantes tendem a eventualmente impactar as nações e continente africanos. Da mesma maneira, Keegan 20 já explicou as quatro mudanças na ordem global: em 1648 com a paz de Vestfália, 1815, com o Congresso de Viena, 1919, em Paris após a Primeira Guerra Mundial, e 1945 em São Francisco após a Segunda Guerra Mundial. Ndlovu-Gatsheni 21, ao criticar Keegan 22, lembra e afirma a mudança na ordem global de 1884-85 em Berlim, onde diferentes potências europeias dividiram as nações africanas entre si para conquistar seu território. Isso sugere que as nações africanas da história foram consideradas como azarões, o que pode não importar necessariamente nas ordens globais em mudança. Adebajo, citado em Ndlovu-Gatsheni 23, descreveu a ordem global em mudança de Berlim de 1884-85 como: “Berlim e suas consequências se assemelharam a ladrões invadindo uma casa à força e dividindo seus bens enquanto os donos da casa — que haviam sido amarrados com cordas grossas — estavam acordados, mas impotentes para impedir o assalto”. 24 Essa descrição explica quão indefesos estavam os africanos durante esse período. No entanto, séculos depois, enquanto as nações africanas são consideradas independentes e espera-se que sejam soberanas, elas aparentemente ainda são submetidas a experiências como as de Berlim em 1884-85, embora de maneiras diferentes e mais sutis, especialmente com o uso de tecnologias e práticas recentes. Por exemplo, a questão da língua e do conteúdo educacional de diferentes nações africanas, especialmente as das instituições de ensino de base rural, deve ser motivo de grande preocupação. Isso será explicado mais detalhadamente na próxima seção (Terceira Seção).
4. Terceira Seção: Língua e Educação como Desafios para Nações Africanas
A língua e a educação são consideradas, nesse sentido, fontes de desafio para o Sul Global, especialmente para as nações africanas, o foco deste estudo. Crystal 25 descreve a língua inglesa como uma língua global. Segundo Crystal, algumas das razões pelas quais o inglês é considerado uma língua global incluem sua aceitabilidade em diferentes partes do mundo e seu uso em mídias impressas, como jornais, revistas, livros, resenhas, entre outros. Além disso, segundo Crystal, o inglês tornou-se a língua da mídia não impressa como filmes, podcasts, vídeos, sites, entre outros. Isso sugere o poder da linguagem em todo o mundo. Além disso, isso implica que o inglês tende a ser uma língua bem reconhecida em diferentes partes do mundo, o que pode contribuir para explicar por que ela se tornou uma língua comum que foi adotada como meio oficial de instrução em diferentes nações africanas. A questão da língua é evidente quando se se refere às línguas oficiais das nações africanas e às línguas oficiais reconhecidas e adotadas para as reuniões da associação panafricana e suas subassociações. Por implicação, isso sugere que as nações panafricanas continuam a vivenciar uma escravidão moderna. Segundo os trabalhos de diferentes estudiosos como Lee 26 e Jennings, Vinson e Proctor (2014) 27, a língua pode ser adotada como ferramenta para escravizar pessoas. Assim, estudiosos africanos como Ngugi wa Thiong’o 28 (citado em Kgatla 29) consideram “a linguagem como o instrumento mais potente nas mãos dos colonizadores para capturar a mente dos colonizados”. Kgatla, citando ainda Ngugi wa Thiong’o, afirma que a língua desempenha uma das funções de um agente responsável pela formação de imagens na mente dos alunos quando é considerada como parte da cultura. Isso porque tende a criar novas imagens na mente dos alunos que, com o tempo, começam a se desconectar de seu ambiente nativo. Isso significa que a linguagem é uma ferramenta importante capaz de escravizar um indivíduo. Assim, Ngugi wa Thiong’o e Kgatla urgem a descolonização da mente a fim de ajudar os africanos a atingir o auge da autolibertação da escravidão interna e externa e do controle de seus colonizadores e garantir seu autoempoderamento. No entanto, quão tangível isso pode ser ou quão facilmente alcançado quando muitas instituições de ensino em todo o continente africano adotam uma língua estrangeira como meio de instrução? Os trabalhos de Kamwangamalu 30, Brock-Utne 31 e Mukama 32 mostram que muitas das línguas adotadas como meio de instrução em diferentes instituições de ensino na África são as dos antigos colonizadores. Por exemplo, o inglês é adotado em países africanos anglófonos como a Gâmbia, Nigéria, Serra Leoa, Gana, entre outros; o francês é adotado como meio de instrução em países africanos francófonos como Madagascar, Burquina Fasso, Senegal, entre outros; e o português é adotado como meio de instrução em países lusófonos como a Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique, entre outros. Brock-Utne 33 afirma ainda que a adoção das línguas dos antigos colonizadores como meio de instrução nas escolas provavelmente servirá apenas alguns alunos, deixando uma porcentagem maior para trás. No caso das escolas rurais, foco deste estudo, onde a taxa de analfabetismo é alta 34, acredita-se que a situação seja pior, considerando vários fatores como a alta taxa de pobreza, falta de exposição, escassa infraestrutura básica necessária para o ensino e aprendizagem, entre outros. Basta afirmar que a adoção de línguas estrangeiras como meio de instrução nas escolas africanas não promove a compreensão do que se ensina e se aprende. Enquanto isso, de acordo com Bamgbose 35:
Fora da África, ninguém questiona por que as línguas dos países com populações menores na Europa devem ser utilizadas como um meio, incluindo mesmo até o nível universitário. O que parece faltar em muitos países africanos é a vontade política para romper com a política colonial e sua prática de limitar o ensino da língua materna à educação primária. Onde existe tal vontade, muito pode ser feito em um curto período de tempo.
Bamgbose explica em parte como as nações africanas ainda são escravizadas e como provavelmente continuarão sendo se não tomarem as devidas medidas. Assim, para que o projeto da União Africana (UA) para 2063 seja alcançado, deve-se considerar as questões em torno da língua de instrução e das línguas oficiais nas nações africanas.
Da mesma forma, enquanto as nações africanas continuam clamando pela descolonização do sistema educacional, o que por si só pode ser bom e desejável 36, o currículo que controla todas as atividades e práticas sob a orientação da escola tende a não promover esse objetivo. Assim, Tavernaro-Haidarian 37 defende uma recurriculação que infundirá a filosofia africana do Ubuntu (fraternidade). Enquanto isso, do ponto de vista de Mampane, Omidire e Aluko 38, a descolonização da educação deve ser vista considerando-se os estudantes de várias nacionalidades em todo o continente africano. Mampane, Omidire e Aluko afirmam ainda que alcançar um currículo descolonizado e aplicar a tecnologia na educação implica enfrentar AS injustiças e marginalização do passado ao se considerar e alavancar as línguas e culturas locais ao mesmo tempo em que se integra uma tecnologia significativa e econômica. Isso implica que a descolonização na educação não conota remover a tecnologia — considerada ocidental, como alude Arnold 39, que afirma que a tecnologia é considerada uma inovação colonial que pode falhar se colidir com a cultura daqueles a quem se destina a beneficiar. Nesse sentido, as tecnologias são incentivadas a serem transferidas para as aldeias rurais. Além disso, a tecnologia não é apenas uma função da inovação, mas envolve questões de adoção por uma massa de usuários, coevoluindo com diferentes domínios como o cultural, político, econômico, entre outros, cada um dos quais impacta e/ou é afetado pelo outro 40. No entanto, Christie 41 sugere que a descolonização tende a ser inatingível porque as diferentes intervenções do governo nos muitos anos anteriores ao tempo recente fizeram com que as questões coloniais, bem como a construção de diferenças racializadas, permanecessem e se reproduzissem em novas formas.
Outro exemplo é a busca por ajustes em muitos currículos das nações africanas nos últimos anos rumo a uma adequação às demandas da Quarta Revolução Industrial. Enquanto isso, muitas das nações africanas ainda não consideraram e exploraram a necessidade de prover a infraestrutura necessária para permitir que o ensino e a aprendizagem promovam o desenvolvimento desejado em níveis locais. Por exemplo, a Government Gazette 42 mostra que o Departamento de Educação Básica (DBE) da África do Sul desenvolveu um currículo de codificação e robótica para séries primárias, precisamente as Séries R – 3, embora em muitos países esse tipo de currículo só comece nas séries posteriores. Por esta razão, a África do Sul está sendo aplaudida por ter iniciado esta intervenção numa fase mais inicial. Trata-se de preparar seus alunos para a demanda de trabalho da Quarta Revolução Industrial. Embora o Norte Global possa aplaudir este passo, a questão ainda permanece em torno do fato de muitas instituições rurais de ensino no país ainda carecerem das infraestruturas necessárias para garantir um ensino e aprendizagem de qualidade. Isso implica que, embora o “padrão” do país seja estabelecido pelas práticas do Norte Global em relação à ordem cambiante na busca pela Quarta Revolução Industrial ao revisar e ajustar seus currículos, muitos alunos provavelmente serão preteridos, especialmente em áreas rurais. Isso ocorre principalmente porque a qualidade do ensino e da aprendizagem em muitas instituições rurais permanece questionável devido à falta de infraestrutura necessária.
5. Quarta Seção: O Caminho a se Seguir
Ndlovu-Gatsheni 43 afirma que “No campo epistemológico, os africanos ainda estão presos ao pensamento euro-norte-americano-cêntrico. Eles de alguma forma respiram isso diariamente porque é uma grande tecnologia de dominação”. Isso implica que um elemento central importante para medir o “padrão” gira em torno da mentalidade euro-norte-americana. Esta é a razão pela qual acredita-se que a África e os africanos, em diferentes instâncias, não acreditam em si mesmos 44. Por exemplo, de acordo com as palavras do presidente russo Vladimir Putin, a África não acredita em si mesma, crendo na América e nos americanos, na China e nos chineses, na Europa e nos europeus. O Presidente Putin acrescenta ainda que, por essa razão, a África nunca será independente e continuará dependente. Kelland e Sánchez 45 já haviam afirmado que o continente africano possui muitas das economias mais rápidas do mundo, enquanto eles falham em acreditar em si mesmos. Segundo os autores, algumas das razões pelas quais os africanos não acreditam em si mesmos incluem as seguintes noções (descritas como mitos e equívocos): 1. a contínua taxa de pobreza dos países africanos, especialmente já que 47% de sua população vive com menos de US$ 1,25 por dia; 2. A África é sempre quente, seca e ensolarada; 3. A África tem tudo a ver com pastagens e vida selvagem; 4. Falta de acesso à tecnologia moderna; 5. Falta de indústria artística; 7. Fracasso dos africanos em se ajudarem; 8. Falta de uma língua unificadora e sua enorme dependência da língua inglesa; 9. O pequeno tamanho do continente; e 10. Má governância em todos os países do continente.
Além disso, de acordo com uma resenha de Nyikal 46, as nações africanas, bem como a União Africana (UA), precisarão planejar e promover políticas que incentivem a autoajuda ao mesmo tempo que desencorajam a exploração de opções de empréstimos de organizações internacionais e nações do Norte Global. Além disso, Verharen e colegas 47 acreditam que há necessidade de se desenvolver um currículo panafricano através de pesquisa financiada pela União Africana (UA). O currículo é projetado para incluir disciplinas que impulsionam a inovação em ciência e tecnologia. Assim, propõe-se uma nova disciplina que vincule ciência, engenharia e tecnologia ao desenvolvimento sustentável e ético.
Enquanto o mundo global pode continuar a considerar a globalização como padrão, as nações panafricanas podem precisar explorar a opção de glocalização. O termo ‘glocalização’ é uma combinação de global e localização, usado para se referir à produção para atender às necessidades/demandas locais usando o padrão global. Neste caso, propõe-se uma redefinição da norma. Por exemplo, na abordagem e uso da tecnologia, a inclusão de línguas africanas é considerada e mantida. As necessidades da população rural são consideradas e, para oferecer soluções duradouras, os currículos das escolas são revisados para incluir a infusão de itens que possam oferecer soluções duradouras para os desafios da comunidade local.
Conclusão e Recomendações
Este estudo explorou a questão do padrão estabelecido pelo Norte Global e perseguido pelo Sul Global. Embora o Sul Global (constituído predominantemente por países africanos) possa buscar tal padrão inconscientemente, ele tende a lhe trazer algumas novas formas de escravidão. A agenda da União Africana (UA) para alcançar sua visão para 2063 (em que as nações panafricanas estarão unidas, experienciando paz e prosperidade) pode ser inatingível se ela não desfrutar de sucesso no seu combate contínuo contra a decolonialidade. Enquanto isso, fatores como as questões em torno da linguagem, do currículo educacional e/ou das práticas/sistemas educacionais podem dificultar a obtenção de tal visão. Da mesma forma, as nações africanas que não tomam uma posição decisiva nem definem e mantêm seus próprios padrões podem continuamente se incapacitar perante o Norte Global ao mesmo tempo que se relegam a posições insignificantes. Assim, as nações africanas devem deixar suas posições relegadas para definir e perseguir seus próprios padrões — que deveriam incluir áreas rurais em vez de se concentrarem apenas nas urbanas. Com base nas revisões e nos resultados deste estudo, as seguintes recomendações são feitas:
As nações no continente africano devem definir seu próprio desenvolvimento e trabalhar em direção aos seus objetivos. Isso pode ser feito junto da associação panafricana. Assim, as nações panafricanas precisam se unir, estabelecer um padrão para si e começar a trabalhar para sua realização, caso contrário, as nações africanas provavelmente permanecerão marionetes das nações do Norte Global. Isso continuará a promover o neocolonialismo, que pode ser descrito como escravidão moderna.
O sistema educacional dos países africanos deve ser concebido de tal forma que as instituições educacionais de base rural e urbana estejam primeiro destinadas a satisfazer as necessidades e exigências da sua comunidade imediata e/ou de acolhimento antes de considerar o mundo global.
Sugestão para estudos futuros
Este estudo focou principalmente em revisar a literatura existente. Assim, estudos futuros que acomodem o uso de métodos quantitativos, qualitativos ou mistos devem ser considerados. Isso pode ser feito comparando-se dois ou mais países africanos no contexto deste estudo.
Referências
ADEBAJO, A. The Curse of Berlin: Africa after the Cold War. Scottsville: University of KwaZulu-Natal Press, 2010.
AFRICAN UNION (AU). Agenda 2063 Vision and Priorities: Unity, Prosperity and Peace. Addis Ababa: African Union, 2013.
AJANI, O. A. Decolonisation of Education in African Contexts. African Renaissance, Centurion, v. 16, n. 2, p. 101-120, 2019. DOI: https://doi.org/10.31920/2516-5305/2019/v16n2a5
Allenby, B. R.; Sarewitz, D. The techno-human condition. Cambridge: MIT Press, 2011.
Arnold, D. Europe, technology, and colonialism in the 20th century. History and Technology, Abingdon, v. 21, n. 1, p. 85-106, 2005. DOI: https://doi.org/10.1080/07341510500037537.
Badat, S. Deciphering the Meanings, and Explaining the South African Higher Education Student Protests. Unpublished manuscript, 2015.
Bamgbose, A. Mother tongue education: Lessons from the Yoruba experience. In: Brock-Utne, B.; Hopson, R. K. (eds.). Languages of instruction for African emancipation: Focus on postcolonial contexts and considerations. Cape Town: Casas. Dar es Salaam: Mkukina Nyota. Oxford: African Books Collective. East Lansing: Michigan State University Press, 2005. p. 231-257
Brock-Utne, B. Language of Instruction in Africa – The Most Important and Least Appreciated Issue. International Journal of Educational Development in Africa, Pretoria, v. 1, n. 1, p. 4-18, 2014.
Christie, P. Decolonising Schools in South Africa: The Impossible Dream? 1. ed. London: Routledge, 2020.
Crystal, D. English as a Global Language. 2. ed. New York: Cambridge University Press, 2003.
Dinesh. Top 7 Methods of Neo-colonialism. 2012. Available at: https://www.yourarticlelibrary.com/international-politics/top-7-methods-of-neo-colonialism/48501. Accessed 09 October 2021
Dinesh. Top 6 Reasons of Emergence of Neo-Colonialism. 2021. Available at: https://www.yourarticlelibrary.com/international-politics/top-6-reasons-of-emergence-of-neo-colonialism/48500. Accessed: 09 Oct. 2021.
Gamede, B. T.; Uleanya, C. Review of the Impact of Stakeholders’ Participation in Rural School Education. Multicultural Education, [s.l.], v. 7, n. 5, p. 18-25, 2021. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.4734190.
Jennings, E. P.; Vinson, B.; & Proctor, F. T. In “The Language of The Criminal”: Slavery and Colonialism in Ibero-America. Latin American Research Review, Ann Arbor, v. 49, n. 2, p. 282-294, 2014. Available at: http://www.jstor.org/stable/43670185. Accessed: 22 May 2023.
GOVERNMENT GAZETTE. Summary Report & Recommendations Presented by the Commission on the Fourth Industrial Revolution. Pretoria: Department of Communications and Digital Technologies, 2020.
KAMWANGAMALU, N. M. The issue of the medium of instruction in Africa as an “inheritance situation.” Current Issues in Language Planning, Abingdon, v. 19, n. 2, p. 133-135, 2018. DOI: https://doi.org/10.1080/14664208. 2017.1357987.
Keegan, J. Book Review: Paris 1919 by Margaret McMillan. Washington Post, Washington, 15 Dec. 2002.
Kelland, Z.; Sánchez, E. Debunking 15 Common Myths and Misconceptions About Africa. Global Citizen, [s.l.], 12 Jan. 2018. Available at: https://www.globalcitizen.org/en/content/africans-are-all-poor-and-15-other-myths/. Accessed: 09 Oct. 2021.
Kgatla, S. T. The decolonisation of the mind: Black consciousness community projects by the Limpopo council of churches. Missionalia, Pretoria, v. 46, n. 1, p. 146-162, 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.7832/46-1-270.
Lee, L. Y. The Politics of Language in Frederick Douglass’s Narrative of the Life of an American Slave. Melus, Oxford, v. 17, n. 2, p. 51-59, 1991. DOI: https://doi.org/10.2307/466999.
Mampane, R. M.; Omidire, M. F.; Aluko, F. R. Decolonising higher education in Africa: Arriving at a glocal solution. South African Journal of Education, [s.l.], v. 38, n. 4, p. 1-9, 2018.
Mheta, M. B. Why African Leaders do not Believe in Themselves. Media Review Network News, [s.l.], 29 Jun. 2020. Available at: https://mediareviewnet.com/2020/06/why-african-leaders-do-not-believe-in-themselves/. Accessed 09 October 2021.
Verharen, C.; Gutema, B.; Tharakan, J.; Bugarin, F.; Fortunak, J.; Kadoda, G.; Liu M.; Middendorf, G. African philosophy: a key to African innovation and development. African Journal of Science, Technology, Innovation and Development, Abingdon, v. 6, n. 1, p. 3-12, 2014. DOI: https://doi.org/10.1080/20421338.2014.902565
Mukama, E. Rethinking languages of instruction in African schools. Policy & practice: a development education review, Belfast, v. 4, p. 53-57, 2007.
Ndlovu-Gatsheni, S. J. Global Coloniality and the Challenges of Creating African Futures. Strategic Review for Southern Africa, Pretoria, v. 36, n. 2, p. 181-202, 2014.
Nyikal, H. Neo-Colonialism in Africa: The Economic Crisis in Africa and the Propagation of the Status Quo by the World Bank/IMF and WTO. [s.l.], 2005. Available at: https://web.stanford.edu/class/e297a/Neo-Colonialism%20in%20Africa.pdf. Accessed: 09 Oct. 2021
Olasupo, O.; Oladeji, I. O.; Ijeoma, E. O. C. Nationalism and Nationalist Agitation in Africa: the Nigerian Trajectory. The Review of Black Political Economy, Thousand Oaks, v. 44, p. 261-283, 2017. DOI: https://doi.org/10.1007/s12114-017-9257-x.
Talton, B. The Challenge of Decolonization in Africa. Africana Age: African and African Diaspora Transformations in the 20th Century. [S.l.]: Schomburg Center for Research in Black Culture, 2011. Available at: http://exhibitions.nypl.org/africanaage/essay-challenge-of-decolonization-africa.html#intro. Accessed: 22 May 2023.
Tavernaro-Haidarian, L. Decolonization and development: Reimagining key concepts in education. Research in Education, Thousand Oaks, v. 103, n. 1, p. 19-33, 2019. DOI: https://doi.org/10.1177/0034523719839750.
Thiong’o, N. Decolonising the mind: The politics of language in African literature. London: J. Currey, 1986.
Uleanya, C.; Yu, K. Review of Preparedness of Rural African Communities Nexus Formal Education in The Fourth Industrial Revolution. South African Review of Sociology, Abingdon, v. 50, n. 3-4, p. 91-103, 2019. DOI: https://doi.org/10.1080/21528586.2019.1639074.
Notes
Author notes
chinazau@uj.ac.za kyassim@uj.ac.za