ARTIGO DE REVISÃO
Critérios e Indicações para o Transplante Hepático: Uma Revisão Integrativa
Criteria and Indications for Liver Transplantation: An Integrative Review
Critérios e Indicações para o Transplante Hepático: Uma Revisão Integrativa
Brazilian Journal of Transplantation, vol. 28, e2025, 2025
Associação Brasileira de Transplante de Órgãos
Received: 26 October 2024
Accepted: 18 March 2025
RESUMO
Introdução: O transplante hepático é essencial para tratar doenças hepáticas terminais ou que comprometem a qualidade de vida.
Objetivos: Este estudo revisa as indicações para o transplante de fígado, como cirrose, colangite, síndrome de Budd–Chiari, insuficiência hepática fulminante e carcinoma hepatocelular.
Métodos: A revisão integrativa foi realizada com buscas nas bases SciELO, Biblioteca Virtual de Saúde e Google Acadêmico, selecionando treze estudos após análise dos critérios definidos pelas autoras.
Resultados: Foram analisados treze estudos sobre transplante hepático, destacando cirrose (33,3%), carcinoma hepatocelular (38,0%) e insuficiência hepática aguda (5,8%), com bons resultados em insuficiência aguda e tumores iniciais.
Conclusão: A indicação para o transplante deve seguir critérios rigorosos, destacando carcinoma hepatocelular, cirrose alcoólica e cirrose pelo vírus C.
Descritores: Transplante hepático+ Hepatopatias+ Falência hepática.
ABSTRACT
Introduction: Liver transplantation is essential to treat terminal liver diseases or those that compromise quality of life.
Objectives: This study reviews the indications for liver transplantation, such as cirrhosis, cholangitis, Budd–Chiari syndrome, fulminant liver failure, and hepatocellular carcinoma.
Methods: The integrative review was carried out by searching the SciELO, Virtual Health Library, and Google Scholar databases, selecting thirteen studies after analyzing the criteria defined by the authors.
Results: Thirteen studies on liver transplantation were analyzed, highlighting cirrhosis (33.3%), hepatocellular carcinoma (38.0%), and acute liver failure (5.8%), with good results in acute failure and initial tumors.
Conclusion: The indication for transplantation should follow strict criteria, especially hepatocellular carcinoma, alcoholic cirrhosis, and cirrhosis caused by the C virus.
Descriptors: Liver transplantation, Hepatopathies, Liver failure.
INTRODUÇÃO
O fígado é a maior glândula do organismo e desempenha um papel essencial no metabolismo da glicose e dos lipídios, além da conversão da amônia em ureia. Além disso, é responsável pela síntese de proteínas, pelo metabolismo de gorduras, pelo armazenamento de vitaminas e pela produção da bile.
No Brasil, os primeiros transplantes de fígado ocorreram em 1968, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Em 1984, o transplante de fígado foi reconhecido como uma terapia médica, deixando de ser um procedimento experimental1. De acordo com a Associação Brasileira de Transplantes, o Brasil é o segundo país do mundo em número de transplantes realizados anualmente, com 2.365 transplantes de fígado realizados em 2023, sendo mais de 90% deles realizados pelo Sistema Único de Saúde.2
O transplante hepático ortotópico é o tratamento indicado para doenças hepáticas graves incuráveis por outros métodos, substituindo o fígado doente por um saudável de um doador vivo ou falecido. É recomendado para casos terminais com alta mortalidade em tratamentos convencionais, oferecendo maior sobrevida e qualidade de vida. Pode ser eletivo ou de urgência, com a maioria dos casos eletivos envolvendo cirroses graves e baixa expectativa de sobrevida.
Diante disso, este trabalho tem o objetivo de revisar as principais condições e doenças que possam levar a uma indicação de transplante hepático.
METODOLOGIA
O método selecionado foi a revisão integrativa (RI). A condução do trabalho envolveu a formulação de uma questão norteadora, a busca na literatura por estudos primários, a avaliação dos estudos incluídos na revisão, a análise e síntese dos resultados e a apresentação da RI.
A questão norteadora da RI surgiu da necessidade de entender como diversas enfermidades hepáticas influenciam a decisão de realizar um transplante de fígado. Isso resultou na seguinte pergunta: “quais são as principais doenças hepáticas que indicam a necessidade de transplante hepático?”
No levantamento bibliográfico, realizou-se a busca nas bases de dados da SciELO, da Biblioteca Virtual de Saúde e do Google Acadêmico, e também foi feita uma pesquisa no capítulo 18, “Fígado e Trato Biliar”, no livro Robbins & Cotran – Patologia: Bases Patológicas das Doenças3. Para a busca dos artigos na literatura, foram utilizados os seguintes descritores: “transplante hepático”; “hepatopatias” e “falência hepática” (Tabela 1).

Os critérios de inclusão para a seleção das análises tomaram como base artigos publicados em português, na íntegra, com a temática referente à RI, além de textos publicados e indexados nessas bases de dados, com limitação para a data de publicação nos últimos 25 anos. Os critérios de exclusão abarcaram artigos que não se enquadravam no escopo definido, aqueles publicados além da data estabelecida e estudos que apresentam dados insuficientes.
A seleção inicial foi realizada pela leitura dos títulos e resumos. Em seguida, foram analisados integralmente os artigos, e aqueles que atenderam aos critérios de inclusão foram incorporados à amostra da RI (Tabela 2).

RESULTADOS
A indicação para o transplante hepático é destinada a pacientes com quadros avançados de doenças hepáticas, cuja expectativa de vida é inferior a 20% em 12 meses sem o procedimento. A avaliação requer um entendimento detalhado da história da doença e fatores prognósticos, considerando parâmetros clínicos e bioquímicos. Pacientes assintomáticos podem não estar prontos para o transplante, enquanto aqueles com sintomas significativos que afetam a qualidade de vida podem optar pelo procedimento, mesmo com uma expectativa de vida favorável.4
A Tabela 3 sintetiza os estudos analisados, destacando os principais achados sobre pacientes transplantados hepáticos. Foram avaliados 85 prontuários, dos quais 52 eram de transplantados, com taxa de óbito pós-transplante de 38% e apenas 1% de mortalidade na lista de espera, evidenciando a eficácia do MELD na priorização dos transplantes1. A cirrose alcoólica foi a principal indicação (31,4%), e a hipertensão arterial, a comorbidade mais comum (51,4%). A média de idade foi 52,7 anos, com predominância masculina (60,8%). Além disso, complicações como ascite (56,9%) e hipertensão portal (52,9%) foram frequentes8. Os critérios de King’s College, amplamente utilizados, apresentam boa especificidade, mas baixa sensibilidade. Embora diversos marcadores tenham sido testados para aprimorar a acurácia prognóstica, os resultados ainda são inconclusivos. Fatores como idade, incompatibilidade ABO e má qualidade do enxerto são apontados como possíveis causas de futilidade terapêutica. Ademais, os sistemas de suporte hepático extracorporal demonstram melhorias clínicas e laboratoriais, mas sem impacto significativo na sobrevida dos pacientes.9

Considera-se que os candidatos à espera de um transplante hepático devem atender a quatro requisitos fundamentais:
Estabelecimento de um diagnóstico específico da doença;
Evidência clara da gravidade da doença por meio de provas documentadas;
Identificação de possíveis complicações que possam comprometer a sobrevida do paciente;
Estimativa de sobrevida do paciente com e sem o transplante.
Os critérios de alocação de órgãos seguem diretrizes globais, priorizando situações emergenciais, como hepatites fulminantes e trombose pós-operatória. O sistema Model for End-stage Liver Disease (MELD) é utilizado no Brasil desde 2007 para avaliar a gravidade dos candidatos ao transplante, atribuindo um índice de 6 a 40. Pacientes com MELD mais alto, indicando maior gravidade e menor expectativa de sobrevivência, têm prioridade na lista de espera para transplante hepático.
DOENÇAS HEPÁTICAS COM INDICAÇÕES PERIÓDICAS
Cirrose biliar primária
A cirrose biliar primária (CBP) é uma doença autoimune inflamatória que afeta principalmente os ductos biliares intra-hepáticos, causando sua destruição não supurativa. Essa condição pode progredir para hepatite periportal, cirrose e outras complicações. É caracterizada pela destruição dos ductos biliares de tamanho médio e representa uma série ameaça à saúde hepática.4-7
A CBP afeta principalmente mulheres de meia-idade, com início insidioso e sintomas como fadiga, prurido, desconforto abdominal e hepatomegalia. As indicações para o transplante incluem situações como icterícia progressiva, varizes de esôfago sangrantes, ascite incontrolável ou encefalopatia hepática. A CBP apresenta um bom prognóstico após o transplante, com uma taxa de sobrevida de 90% em cinco anos, sendo o transplante o tratamento mais eficaz para estágios terminais da doença.4-7
Colangite esclerosante primária
A colangite esclerosante primária (CEP) é uma doença de origem idiopática caracterizada por inflamação e fibrose obliterativa dos ductos biliares intra-hepáticos e extra-hepáticos, com dilatação dos segmentos preservados. A CEP é frequentemente associada à doença intestinal inflamatória, especialmente à colite ulcerativa crônica.4-7
A CEP afeta principalmente homens adultos com idade entre 20 e 40 anos, sendo eles bons candidatos ao transplante hepático. As indicações clínicas são semelhantes às da CBP, com uma taxa de sobrevida após o transplante de 85%, em 1 ano, e 75%, em 3 anos.4-7
Cirrose hepática
As principais causas de cirrose incluem abuso de álcool, hepatite viral e a esteatohepatite não alcoólica. Outras causas são doenças biliares e sobrecarga de ferro. Cerca de 40% dos pacientes com cirrose são assintomáticos até os estágios avançados. Quando apresentam sintomas, eles são geralmente inespecíficos, como anorexia, perda de peso e fraqueza e, em estágios avançados, podem incluir sinais de insuficiência hepática.4-7
A cirrose hepática é a principal indicação para transplante hepático, representando 70% a 90% dos casos, as principais causas incluem consumo de álcool e hepatite viral, especialmente pelo vírus B e C, que podem levar a cirrose em 20% a 50% dos casos. A recorrência da hepatite viral no fígado transplantado é comum, com a recorrência do vírus B sendo mais grave que a do vírus C. A sobrevida de pacientes transplantados devido à cirrose é de cerca de 60% em 5 anos.4-7
Síndrome de Budd–Chiari
A síndrome de Budd–Chiari é uma doença venosa hepática rara, mais comum em adultos jovens, podendo se manifestar de forma aguda, subaguda ou crônica, resultando em hipertensão portal. O transplante hepático é indicado quando não é possível controlar a ascite ou ocorre insuficiência hepática. Uma avaliação angiográfica é necessária para avaliar o comprometimento trombótico significativo e a cronicidade do quadro clínico, evidenciada pela presença de ascite, hemorragia digestiva ou encefalopatia hepática.4-7
Alcoolismo
O alcoolismo afeta diversos sistemas do corpo e a cirrose alcoólica é uma das principais causas de transplante, especialmente em homens. Para aumentar as chances de sucesso, candidatos ao transplante devem estar abstêmios por pelo menos 6 meses. A recorrência ao uso do álcool é mais comum naqueles que deixaram de beber por menos de 6 meses. Os resultados do transplante em 5 anos são semelhantes aos dos pacientes com outras doenças hepáticas, com uma taxa de recaída inferior a 15%.4-7
Insuficiência hepática fulminante
A insuficiência hepática é a consequência mais grave da doença hepática, resultando em necrose hepática maciça e encefalopatia, com mortalidade em torno de 80%. O encaminhamento a um centro de transplante deve ocorrer ao surgirem os primeiros sinais de encefalopatia hepática. O transplante é indicado quando fatores de coagulação, como o fator V, estão abaixo de 20%, associado a um estado de coma ou confusão mental severa, com uma mortalidade superior a 90%.4-7
Tumor de fígado
Os tumores primários malignos do fígado têm uma indicação primordial para transplante hepático, especialmente quando se trata de um único tumor com diâmetro de até 5 cm ou até três lesões de 3 cm, sem invasão vascular ou metástase. O transplante é o único tratamento que garante a remoção completa de todos os focos hepáticos de tumor, bem como do tecido em risco de recorrência tumoral, resultando em índices de sobrevida livre de recidiva tumoral significativamente superior aos obtidos pela ressecção cirúrgica.4-7
O hepatocarcinoma é uma complicação comum em cirróticos com uma taxa de sobrevida de 18% a 35%, em 5 anos, considerada inaceitável para transplante.4-7
Indicações não usuais
Com exceção da rejeição crônica, as indicações para o retransplante são de urgência: rejeição hiperaguda, ausência de função imediata do enxerto e trombose da artéria hepática, desde que ocorram nos primeiros trinta dias após o transplante de fígado.4-7
CONCLUSÃO
O transplante hepático é essencial para pacientes com doenças hepáticas em estágio avançado e condições que não respondem a outras terapias. Este estudo destacou que cirrose, insuficiência hepática aguda, doenças metabólicas, carcinoma hepatocelular e doenças congênitas são as principais indicações para o transplante, proporcionando melhora significativa na qualidade de vida e na sobrevida dos pacientes. Com o avanço das técnicas de transplante e a ampliação dos critérios de elegibilidade, torna-se cada vez mais importante uma avaliação criteriosa para garantir que o transplante seja direcionado a casos onde seu benefício seja máximo, promovendo resultados positivos e sustentáveis para os pacientes.
AGRADECIMENTOS
Não se aplica.
REFERÊNCIAS
Pacheco L. Transplante de fígado no Brasil. Rev Col Bras 2016; 43(4): 223-4. https://doi.org/10.1590/0100-69912016004014
Associação Brasileira de Transplantes. Dimensionamento dos Transplantes no Brasil e em cada estado (2016–2023). Registro Brasileiro de Transplantes 2024 [acesso em 22 mar 2025]; 30(4). Disponível em: https://site.abto.org.br/wp-content/uploads/2024/03/RBT_2023-Populacao_Atualizado.pdf.
Kumar V, Abbas AK, Fausto N, Aster JC. Robbins & Cotran Patologia: bases patológicas das doenças. Elsevier; 2015.
Castro e Silva Jr. O, Sankarankutty AK, Oliveira GR, Pacheco E, Ramalho FS, Dal Sasso K, et al. Transplante de fígado: indicação e sobrevida. Acta Cir Bras 2002; 17(supl. 3): 83-91. https://doi.org/10.1590/S0102-86502002000900018
Vieira VPA, Cavalcante TMC, Leite MG, Diccini S. Sucesso do transplante hepático de acordo com o tempo em lista. Rev Enferm UFPE on line 2017 [acesso em 22 mar 2025]; 11(7): 2751-7. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/revistaenfermagem/article/view/23449
Ferreira AOM. Indicações e contraindicações para o transplante hepático: saber para cuidar. Enfermagem Brasil 2009; 8(1): 51-5. https://doi.org/10.33233/eb.v8i1.4639
Grupo Integrado de Transplante de Fígado. Protocolo de transplante hepático. HC–FMRP–USP; 2017 [acesso em 22 mar 2025]. Disponível em: https://sites.usp.br/dcdrp/wp-content/uploads/sites/273/2017/05/protocolotx.pdf
Gomes MO. O desempenho dos estados do Nordeste na realização do transplante hepático: 2015 a 2019. Salvador. Trabalho de conclusão de curso [Graduação em Medicina] – Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Bahia; 2022. https://repositorio.bahiana.edu.br:8443/jspui/handle/bahiana/6826
Aguiar MIF, Braga VAB, Almeida PC, Garcia JHP, Lima CA. Gravidade da doença hepática e qualidade de vida no transplante de fígado. Acta Paul Enferm 2016; 29(1): 107-14. https://doi.org/10.1590/1982-0194201600015
Siqueira LR, Siqueira LR, KDS Mendes, Galvão CM. Perfil epidemiológico e complicações de pacientes em fila de espera para transplante de fígado. BJT 2023; 26: e1923. https://doi.org/10.53855/bjt.v26i1.508_PT
Dias DM, Diogo D, Madaleno J, Tralhão JG. Critérios de seleção para transplantação hepática e modalidades terapêuticas como ponte na falência hepática aguda. BJT 2023; 26(1): e0823. https://doi.org/10.53855/bjt.v26i1.457_PORT
Meirelles Júnior RF, Salvalaggio P, Rezende MB, Evangelista AS, Della Guardia B, Matielo CEL, et al. Transplante de fígado: história, resultados e perspectivas. Einstein 2015; 13(1): 149-52. https://doi.org/10.1590/S1679-45082015RW3164
Marroni C, Brandão ABM, Zanotelli ML, Cantisani GPC. Transplante hepático em adultos. Revista AMRIGS 2003; 47(1) :29-37.
Ferreira CT, Vieira SMG, Silveira TR. Transplante hepático. J Pediatr 2000 [acesso em 22 mar 2025]; 76 (Supl.1): S198-S208. Disponível em: https://www.jped.com.br/pt-pdf-X2255553600029100
Furlan GF, Okamoto CT, Zini C, Peixoto IL. Transplante de fígado com órgãos de critérios expandidos e complicações relacionadas à internação. Rev Méd 2021; 79(2): 73-5. https://doi.org/10.55684/79.2.1626
FINANCIAMENTO
DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
Author notes
* Autora correspondente: yasminchristine100503@gmail.com
Conflict of interest declaration