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AÇÕES SOCIOEDUCATIVAS COMO PRÁTICAS DE INOVAÇÕES SOCIAIS: UM ESTUDO DE CASO

SOCIO-EDUCATIONAL ACTIONS AS SOCIAL INNOVATION PRACTICE: CASE STUDY

Evandro Schutz
Univali, Brasil
Icaro Picolli
Unisul, Unisul
Simone Sehnem
Unisul, Unisul
Nei Antônio Nunes
Unisul, Unisul

AÇÕES SOCIOEDUCATIVAS COMO PRÁTICAS DE INOVAÇÕES SOCIAIS: UM ESTUDO DE CASO

Desenvolvimento em Questão, vol. 15, núm. 38, pp. 343-379, 2017

Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

Recepção: 02 Fevereiro 2016

Aprovação: 24 Março 2016

Resumo: O presente artigo procura analisar se as ações socioeducativas realizadas pelo Instituto Engevix podem ser consideradas práticas de inovações sociais. Este Instituto desenvolve ações no âmbito da educação, procurando atender determinada parcela de uma comunidade da cidade de Florianópolis que vive em situação de vulnerabilidade econômico-social. A pesquisa consiste em um estudo de caso desenvolvido com os informantes-chave e beneficiados do projeto. Para subsidiar esta investigação foram abordadas visões teóricas das concepções de ações socioeducativas e inovações sociais, buscando detectar os possíveis elos entre elas. De modo geral, tanto as ações socioeducativas quanto as práticas de inovações sociais auxiliam no processo de desenvolvimento social. Mesmo podendo existir como dois processos independentes, há a possibilidade de convergência e fusão entre elas. A investigação evidencia que mesmo não sendo original, o projeto socioeducativo promovido pelo Instituto Engevix configura-se numa prática de inovação social, pois contribui para a inclusão dos sujeitos que dele participam. Constata-se, contudo, com o aprofundamento teórico da pesquisa que há, no projeto, um aspecto dissonante em relação às linhas definidoras das práticas de inovação social. Trata-se da ausência de participação mais autônoma e ativa da comunidade assistida nos rumos e decisões tomados pelo projeto. Por fim, o interesse por desenvolver este estudo está ancorado, sobretudo, na possibilidade de contribuir com o debate atual, no âmbito da Administração, acerca dos processos inclusivos constitutivos das ações de inovação social.

Palavras-chave: Inovação social, Ações socioeducativas, Responsabilidade social, Estudo de caso.

Abstract: This article seeks to analyze if the socio-educational activities carried out by the Institute Engevix social innovation practices can be considered. This Institute develops actions in education, seeking to meet certain portion of a community of Florianópolis living in a situation of economic and social vulnerability. The research consists of a case study developed together with key informants and beneficiaries of the project. To support this research, theoretical views of the conceptions of social and educational activities and social innovations were discussed, trying to detect possible links between them. Overall, both the social and educational activities as social innovations of practical help in the social development process. Even can exist as two independent processes there is the possibility of convergence and fusion there between. Research shows that while not unique, the socio-educational project sponsored by the Institute Engevix is configured in a practice of social innovation as it contributes to social inclusion of individuals who participate in it. It appears, however, to the theoretical further research there in the project, a jarring aspect in relation to defining lines of the practices of social innovation. It is the absence of more autonomous and active participation of the community attended the directions and decisions taken by the project. Finally, interest in developing this study is anchored mainly on the possibility of contributing to the current debate within the administration, of the constitutive inclusive processes of the actions of social innovation

Keywords: Social innovation, Social and educational actions, Social responsibility, Case study.

Sabe-se que a inovação é um tema de grande representatividade no contexto organizacional. É perceptível, por exemplo, a necessidade de inovação diante de um mercado econômico cada vez mais competitivo. Fica evidenciada, nas inúmeras declarações de missão empresarial e seus documentos sobre estratégia, a importância atribuída às práticas de inovação, quer seja para a prosperidade ou para a sobrevivência do negócio, ou ainda para o benefício exclusivo de clientes e acionistas (BESSANT; TIDD, 2009).

Fairweather (1972) sustenta que o maior obstáculo para a realização de mudanças estruturais nas sociedades tidas como tecnológicas é a cristalização de valores e modos de gestão constituídos e partilhados ao longo da História por distintas coletividades. Diversamente desse engessamento de princípios e modelos de organização, uma inovação, para ser gerada e absorvida socialmente, deve propor respostas e soluções aos problemas sociais fundamentais da sociedade. Há, contudo, claras dificuldades em realizá-la, pois instituir práticas de inovações sociais requer, em tantos momentos, mudanças radicais no status quo, na estrutura social e nos comportamentos e hábitos individuais e coletivos (HASEL; ONAGA, 2003).

O comprometimento ético e humanista, por parte de indivíduos, grupos sociais e corporações requer um conhecimento profundo dos problemas sociais do ponto de vista das pessoas que vivem em situação de maior vulnerabilidade econômico-social (HASEL; ONAGA, 2003). Entre os valores que devem orientar as ações sociais podem ser citados: o direito à dignidade humana, à justiça social, à liberdade individual e coletiva, à equidade jurídica e econômica, o direito à diferença e à manifestação do afeto e dos sentimentos, entre outros (FAIRWEATHER, 1972). O processo de transformação social implica, portanto, enfrentar os entraves que obstaculizam a materialização destes valores como práticas econômicas, políticas e organizacionais.

Quando se fala em inovação num sentido mais amplo, contudo, logo se remete à visão econômica e consequentemente à ideia de inovação tecnológica. Apesar disso, o termo inovação transcende essa categorização, à medida que se vincula a distintas áreas do conhecimento e da experiência humana, como: educação, política, cultura e sociedade. Neste artigo o termo inovação é abordado dentro de um enfoque social (leia-se: inovações sociais) buscando compreender a complexidade do tema na sua aplicabilidade teórica e prática.

Bignetti (2011) define inovações sociais nos seguintes termos: trata-se de uma incursão por ideias, tendências e focos de pesquisa. É o resultado do conhecimento aplicado a necessidades sociais por meio da participação individual e coletiva, havendo interação e cooperação de todos os atores envolvidos, com o objetivo de gerar soluções novas e duradouras para a sociedade em geral.

Para aprofundar a discussão é necessário analisar distintas abordagens e conceitos, como também a sua aplicação prática e os campos de atuação existentes. O presente estudo de caso analisou, assim, um instituto do terceiro setor que (constituído como organização sem fins lucrativos e não governamental) atua na área social via ações socioeducativas. Por ações socioeducativas compreende-se o seguinte conjunto de atividades: grupos socioeducativos, campanhas socioeducativas, grupos de convivência familiar, grupos de desenvolvimento familiar que promovem exercício da cidadania e o desenvolvimento social.

O Instituto Engevix é um Programa de Responsabilidade Social da Engevix Engenharia S.A. e iniciou as atividades em 1º de março de 2004, com a missão de promover a melhoria da qualidade de vida de comunidades de baixa renda da Grande Florianópolis (SC). O programa tem como meta a educação e o resgate da cidadania de seu público-alvo, buscando formas de enriquecer o aprendizado e a capacidade criativa da comunidade, auxiliando no seu desenvolvimento social.

As ações da instituição são embasadas em uma proposta de trabalho que busca, continuamente, formas inovadoras de enriquecer o aprendizado e a capacidade criativa das crianças e adolescentes de uma comunidade da Grande Florianópolis (SC). Visa, assim, a auxiliar no desenvolvimento social e, com isso, promover o exercício da cidadania, bem como assegurar os direitos estabelecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei Federal n° 8069/90 que regulamenta o artigo 227 da Constituição Federal. No ano de 2013 o Instituto Engevix pôs em prática um novo projeto social, o Aprender Brincando, juntamente com outros dois projetos já conhecidos pela comunidade atendida: a Jornada Ampliada e o Curso de Informática Profissionalizante.

Este artigo tem como objetivo principal analisar se as ações socioeducativas desenvolvidas pelo Instituto Engevix podem ser consideradas inovações sociais, e para que o objetivo geral seja alcançado são propostos os seguintes objetivos específicos: a) descrever as práticas socioeducativas desenvolvidas pelo Instituto Engevix; b) identificar como os atores do Instituto concebem a inovação social; c) analisar as interfaces existentes entre práticas socioeducativas e inovações sociais.

O estudo aqui proposto almeja explicitar a relação existente entre as inovações sociais e as ações socioeducativas a partir de um estudo de caso em um instituto do terceiro setor, que tem a missão de desenvolver a promoção da melhoria na qualidade de vida de uma comunidade em situação de vulnerabilidade social. A pergunta que orienta esta investigação é: As ações socioeducativas promovidas pelo Instituto Engevix podem ser consideradas inovações sociais?

A opção pelo tema de pesquisa justifica-se pelo interesse científico e social dos pesquisadores em compreender a relação que se estabelece entre as ações socioeducativas (como aquelas realizadas pelo projeto proposto pelo Instituto Engevix) e as práticas de inovações sociais. A intenção de desenvolver este estudo na área de inovações sociais é, sobretudo, refletir criticamente sobre questões capitais do campo da gestão social e, assim, contribuir – mesmo que introdutoriamente – com um debate ainda novo na comunidade acadêmica.

O trabalho segue dividido nas seguintes seções: Referencial teórico, que possibilita fundamentar, dar consistência a todo o estudo; Metodologia, que inclui a explicação dos procedimentos que são necessários para a execução da pesquisa; Análise dos dados, que consiste em explicitá-los e analisá-los de forma clara e objetiva; Discussão dos resultados, usando tabelas, em conformidade com os objetivos específicos do trabalho. Ao final, uma conclusão que visa, sobretudo, a responder à pergunta de pesquisa.

REFERENCIAL TEÓRICO

Inovação

Inovação é um tema corrente no atual debate, promovido pelas ciências sociais aplicadas, sobre o desenvolvimento tecnológico e econômico. Aliás, numa era de alterações quase instantâneas, na qual o conhecimento se multiplica com espantosa rapidez e a competitividade torna-se cada vez mais acirrada, os modelos de inovação têm cada vez mais capturado o interesse de teóricos de diferentes áreas do saber, a exemplo da economia e das organizações.

O pensamento de Joseph Schumpeter (1883-1950) é um marco na teoria da inovação tecnológica. Com os seus escritos econômicos – como a Teoria do Desenvolvimento Econômico, originalmente publicada em 1912 e só traduzida para outras línguas na década de 30 – inaugura um campo de reflexão calcado na experiência industrial do início da contemporaneidade (SCHUMPETER, 1985). Conforme Bessant e Tidd (2009)........., depreende-se, com base no economista austríaco, que os empreendedores desenvolvem e utilizam a inovação tecnológica, geradora de novos produtos, processos e serviços, com o fim precípuo de obter vantagem competitiva/estratégica no mercado (BESSANT; TIDD, 2009).

Para Schumpeter (1985), os ciclos que alternam estágios de prosperidade econômica e de crise são decisivamente marcados pelos processos de desenvolvimento tecnológico. O ente propulsor da mudança que permite superar os momentos de declínio econômico é, sobretudo, a capacidade de inovar em termos tecnológicos. Explicando melhor, por meio de um processo de “destruição criativa”, pelo qual se procura constantemente criar algo novo (e, com isso, destrói-se antigas regras, artefatos, saberes, práticas, etc.), é viabilizada a superação da crise e a emergência de maior lucratividade e competitividade econômica, condição para a consolidação de um novo ciclo de prosperidade (SCHUMPETER, 1985).

Vê-se, portanto, que tradicionalmente o termo inovação remete à ideia de solução tecnológica e/ou econômica. Nas últimas décadas, contudo, a discussão sobre inovação tem ocupado o interesse de teóricos e profissionais de outras áreas, a exemplo da educacional, política, cultural e social. Percebe-se, então, uma ampliação do campo investigativo para além do interesse das demandas do mercado competitivo.

É possível dizer que uma das características marcantes das sociedades ocidentais modernas e contemporâneas é o desejo incessante pela criação, adoção e difusão de inovações. Cabe ilustrar, há práticas inovadoras no ensino (por exemplo: metodologias, ferramentas tecnológicas de aprendizagem...) promovidas por diversas instituições públicas e privadas, contudo toda prática de inovação no ensino é uma prática de inovação social? Com base na literatura sobre o tema é possível deduzir que não, pois a maior potencialidade da inovação social está no fato de que ela reflete e evoca uma mudança na percepção de como o conhecimento e as diversas práticas profissionais, cidadãs, etc., podem gerar transformações inclusivas no meio social. Pode-se concluir, portanto, que nem toda inovação tecnológica no ensino pode ser considerada uma prática de inovação social (POL; VILLE, 2008).

Quadro 1 – Características das inovações sociais, quem os executa, os resultados, os autores/referências
Quadro 1 – Características das inovações sociais, quem
os executa, os resultados, os autores/referências
Fonte: MAURER; SILVA, 2014, p. 132.

Segundo Maurer e Silva (2014), podem ser identificados diferentes conceitos de inovação com base em distintos autores. Acrescenta-se que, além de estar diretamente vinculada às mudanças e transformações sociais (o que abre espaço para uma vanguarda de temáticas, objetos de investigação, procedimentos de análise, etc.), a inovação social é um campo de estudos bastante novo.

Os atores envolvidos em ações que culminam em projetos de inovação social têm invariavelmente o desejo de transformação social. Para tanto buscam encontrar, ante os problemas vivenciados por diversas comunidades, nas dificuldades do dia a dia, alternativas que resultem na melhoria na qualidade de vida. Segundo Cloutier (2003, p. 9 apud BIGNETTI, 2011, p. 9), "as inovações sociais geram transformações significativas nas atribuições das organizações, com o intuito de satisfazer as demandas do campo social".

Salientam Bittencourt e Carrieri (2005) que a interação social acontece a partir das relações que os sujeitos estabelecem durante a vida nos distintos espaços em que estão inseridos. Na medida em que não pode prescindir da interação, a inovação social pode ser concebida como uma intervenção dos atores sociais em resposta a inúmeras carências da sociedade, com ênfase nos problemas que atingem os estratos mais pobres. Ela visa a satisfazer as necessidades mais prementes da população, subvertendo estruturas político-econômicas de exploração e oportunizando, por exemplo, novas orientações pedagógicas, formativas e culturais.

No Quadro 2 é possível observar diferentes abordagens do tema inovações sociais, sustentadas por diversos autores.

Quadro 2 – Definições de inovação social segundo diferentes autores e fontes
Quadro 2 – Definições de inovação social segundo diferentes autores e fontes
Fonte: BIGNETTI, 2011, p. 6.

Os defensores mais entusiasmados das inovações sociais talvez dissessem que quando pessoas transformadoras se unem, grandes mudanças ocorrem. Exageros à parte, o que é possível sustentar é que os projetos de inovações sociais devem ser orientados na direção de construírem modos de emancipação social que, por meio de transformações nos campos das tecnologias, das pedagogias, da política, da economia, do ordenamento jurídico e da organização social, gerem a inclusão como condição para uma sociedade com mais justiça social e equidade.

Conforme mostra o Quadro 3, Datta (2011) apresenta os seguintes exemplos de práticas de inovações sociais extraídos da literatura sobreo tema:

Quadro 3 – Exemplos de inovação social na literatura
Quadro 3 – Exemplos de inovação social na literatura
Fonte: Adaptado de DATTA (2011, p. 57).

As inovações sociais podem ser criadas por diferentes atores – por exemplo: empresas públicas ou privadas, governos, pessoas voluntárias, entre outros – com o objetivo de prestar serviços em benefício da população. Sabe-se que há várias pessoas e instituições que se identificam com as propostas de ações sociais de combate às formas de desigualdade e, por isso, tornam-se empreendedoras sociais. Na busca de soluções aos problemas coletivos, utilizam saberes e práticas inovadoras visando a alcançar soluções e, por meio delas, mudanças estruturais na sociedade. Conforme Silva, Souza e Faria (2013), parte considerável das iniciativas do terceiro setor, em nossos dias, identifica-se com esta perspectiva de ação promotora de bens sociais, na medida em que não orienta suas práticas exclusivamente para a obtenção de lucro e de vantagens competitivas e concorrenciais.[5]

Entre as diversas práticas de inovações sociais podem ser identificadas as ações socioeducativas. Como afirmam André e Abreu (2006), a inovação social é composta por processos diversos e, tal qual acontece nas ações socioeducativas inclusivas, visa a promover a inclusão social e, assim, a capacitação dos sujeitos em situação de maior vulnerabilidade econômico-social.

Vê-se que as ações socioeducativas inclusivas fazem parte do universo das práticas que visam a criar condições para as transformações sociais. São processos que objetivam promover o indivíduo em condição de vulnerabilidade, dando a ele as ferramentas necessárias para perceber-se como um sujeito com múltiplas potencialidades e, por isso, com capacidade de apropriação de informações, de conhecimentos, como também de intervenção autônoma no meio social. Tal propósito, no que respeita a educação de crianças e adolescentes, é ratificado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei Federal n° 8069/90, que regulamenta o artigo 227 da Constituição Federal. Em coerência com este intento proposto no documento, Zucchetti, Moura e Menezes (2010) asseveram que as práticas socioeducativas devem ser compreendidas como ações complementares à escola. Assim, devem acontecer como modalidade extraescolar, no contraturno e com os seus conteúdos priorizando a formação para a cidadania. Nessa perspectiva, Carvalho (2006) dirá que uma ação socioeducativa abrange o estabelecimento de saberes e práticas, aplicados de múltiplas formas, que visam ao aprendizado integral para além do tempo tradicionalmente determinado na escola formal. Entre os seus objetivos ganha relevo o fomento à participação social na vida pública comunitária, de forma intencional, baseada em valores éticos, estéticos e políticos.

METODOLOGIA

O estudo de caso é um procedimento de pesquisa que utiliza, geralmente, dados qualitativos coletados a partir de eventos reais, com o objetivo de explicar, explorar e/ou descrever fenômenos atuais inseridos em seu próprio contexto (Creswell, 2007). Representam estratégias preferidas quando se colocam questões do tipo “como” e “por que”, desse modo visa a contribuir com o conhecimento que temos dos fenômenos individuais, organizacionais, sociais, políticos e de grupo (YIN, 2005). O estudo de caso é utilizado quando pretende-se combinar com o método de coleta de dados como arquivos, entrevistas, questionários e observações. As evidências podem ser qualitativas ou quantitativas (EISENHARDT, 1989).

O método aqui utilizado é o qualitativo. Nesta investigação procura-se, portanto, captar/compreender as práticas dos sujeitos em seus espaços de ação dando ênfase tanto ao âmbito individual quanto ao coletivo. Creswell (2007) esclarece que esse método de pesquisa é fundamentalmente interpretativo. Isso significa que o pesquisador faz uma interpretação dos dados, e a pesquisa ocorre em um cenário tido como natural.

A coleta de dados teve início pelas bases de dados Scielo, Google Acadêmico e Capes por meio de pesquisa eletrônica. Esse material foi utilizado para elaborar a fundamentação do artigo. A análise documental abrangeu os documentos produzidos pela Instituição, Relatório de Atividades 2013 e Plano de Ação de 2014. O Relatório de Atividades de 2013 proporcionou aos investigadores uma visão geral do conjunto de ações e dos resultados alcançados por meio do trabalho realizado com os 126 alunos atendidos diariamente na instituição nesse ano. Já o Plano de Ação de 2014 trouxe uma apresentação do Instituto com a descrição atual das atividades desenvolvidas, plano pedagógico, estrutura, missão, visão, princípios e valores, equipe profissional e ações realizadas em 2014. Na visão de Stake (1995 apud LÖBLER; LEHNHART; AVELINO, 2014, p. 7), “a documentação proporciona uma complementaridade às demais fontes de evidência”. Stake (1995) ressalta que as informações assim obtidas contribuem significativamente para a ampliação da compreensão de fenômenos que não sofreram observações diárias.

A seguir apresenta-se o número de crianças e adolescentes atendidos atualmente pelo instituto:

Tabela 1 – Relatório de atendimento do Instituto Engevix
Tabela 1 – Relatório de
atendimento do Instituto Engevix
Fonte: Relatório de Atividades 2013 do Instituto Engevix (2013).

A Tabela 1 revela o total de alunos e a capacidade de atendimento (proporcional ao tamanho da casa, local onde é desenvolvido o projeto).

Num primeiro momento foi realizada uma entrevista com a assistente social e a psicóloga, visando a alcançar uma compreensão satisfatória dos elos estabelecidos entre o modelo de responsabilidade social e as ações socioeducativas.

As observações fizeram parte do processo de coleta de informações. Por meio de visita à Instituição, em horário comercial, foi possível aos pesquisadores a observação dos alunos e dos colaboradores em sua rotina de atividades diárias. Esse processo ocorreu num período de 30 dias (entre setembro e outubro de 2014) e foi fundamental para a compreensão da complexidade das ações desenvolvidas.

A coleta de dados, por meio de questionário com roteiro estruturado e previamente definido, foi aplicada aos colaboradores e aos pais/responsáveis pelos alunos. Foram coletados, assim, 15 questionários de colaboradores (funcionários) com 9 perguntas abertas e 18 questionários de pais/responsáveis pelos alunos com 4 perguntas abertas que foram tabuladas e interpretadas. O Quadro 4 apresenta os sujeitos pesquisados em cada etapa.

Quadro 4 – Etapas da pesquisa e instrumentos adotados
Quadro 4 – Etapas da pesquisa e instrumentos adotados
Fonte: Os autores (2014).

Com a utilização de diferentes fontes de evidência, como também do método de triangulação de dados foi realizada a análise documental, a entrevista, a observação direta e a aplicação de questionário para facilitar a compreensão do caso investigado. Segundo Triviños (2011), a triangulação de dados tem como objetivo a amplitude na descrição e compreensão do foco de estudo, pois é impossível conceber a existência isolada de um fenômeno social.

Além disso, os dados empíricos foram cruzados com a abordagem de inovação social elucidada por Tardif e Harrison (2005). Estes autores enfatizam que os conceitos essenciais, na definição de uma inovação social orientada para a transformação social, consistem nas seguintes dimensões, descritas no Quadro 5.

Quadro 5 – Dimensões das inovações sociais na percepção de Tardif e Harrison (2005)
Quadro 5 – Dimensões das inovações sociais
na percepção de Tardif e Harrison (2005)
Fonte: Adaptado de TARDIF; HARRISON (2005); MAURER; SILVA (2014).

a) Transformações: estão associadas ao contexto em que a inovação é desenvolvida, geralmente um ambiente problemático que estimula a criação de inovação. É um ambiente marcado por crises, sejam econômicas ou sociais, a exemplo do desemprego. Do mesmo modo, alterações levam à ruptura ou descontinuidade de uma determinada estrutura do sistema social em vigência, por exemplo, diferentes modos de governança nas relações de trabalho – o que implica modificações estruturais;

b) Caráter inovador: a ação social que leva à formação de uma inovação, o tipo de economia ao qual pertencem e os diferentes modelos que podem ser gerados com a sua elaboração e divulgação. Assim, no que se refere ao contexto de mudança, os atores são levados a agir, isto é, a desenvolver soluções para atenuar uma situação-problema em particular. Essas soluções devem ser novas no ambiente no qual emergem. Para desenvolvê-las, os atores constituem novos arranjos institucionais, que são o resultado de sua ação coletiva.

c) Características da inovação: inovações sociais podem estar localizadas ao longo de um continuum, do social ao técnico. As inovações técnicas assumem a forma de um produto ou tecnologia. Já as inovações sociotécnicas ocorrem dentro das organizações, com o desenvolvimento de uma tecnologia. Outro tipo de inovação que se dá no interior das organizações são as chamadas de inovações sociais organizacionais, que proporcionam melhorias nas condições de trabalho. Com diferenças expressivas, entende-se por inovações sociais aquelas ações desenvolvidas por atores da sociedade civil, que não são promulgadas em organizações e/ou empresas privadas ou estatais quando estas buscam resolver problemas que garantam tão somente vantagens competitivas no mercado.

d) Os atores envolvidos: apresenta os vários atores envolvidos no desenvolvimento e execução de uma inovação social. Estes podem ser de diferentes tipos, tais como: social, organizacional, institucional e intermediário;

e) Processo de desenvolvimento da inovação: está associado aos modos de coordenação, que por sua vez representam a maneira pela qual os players interagem e coordenam o desenvolvimento de uma inovação social. Assim, entre as suas características estão a mobilização e a participação dos atores.

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

Procura-se aqui descrever os resultados do estudo de caso de acordo com a pergunta de pesquisa: As ações socioeducativas podem ser consideradas inovações sociais? Esse procedimento acontece por meio da descrição dos dados obtidos via questionários, buscando alinharas respostas aos conceitos desenvolvidos na revisão da literatura. Primeiramente, apresentam-se os questionários respondidos pelos colaboradores e depois pelos pais/responsáveis dos alunos, com base nos dados coletados, entendendo que essas informações revelam-se fundamentais para a compreensão do estudo de caso.

Posteriormente são descritos os dados: obtidos via observação direta realizada nas visitas à instituição, nas entrevistas efetivadas com duas colaboradoras e nos dados documentais com base nos relatórios cedidos pela própria instituição.

PERFIL E ANÁLISE DE DADOS NA VISÃO DOS FAMILIARES

Foram pesquisadas 18 pessoas entre pais e responsáveis. Os entrevistados têm idades entre 26 e 59 anos. Em relação ao grau de instrução/nível de escolaridade 50% (n = 18; 50%) estão no Ensino Fundamental e 50% com Ensino Médio concluído ou a concluir. Entre estes, 17 trabalham (89%), 1 é estudante (5,5%) e 1está desempregado (5,5%).

O projeto cria condições para que pais/responsáveis fiquem certo tempo do dia sem a incumbência de cuidar das crianças. Isso permite que estes possam dedicar mais tempo as suas atividades laborais. Os pais/responsáveis expressam que sentem maior segurança e tranquilidade pelo fato de os filhos estarem num ambiente que consideram saudável e seguro. Explicando melhor, a convicção de que são proporcionados boa alimentação, auxílio nas atividades escolares, cuidados adicionais com profissionais das áreas da saúde e educação, cria a sensação, nos pais/responsáveis, de que as crianças estão seguras e, também, que podem vislumbrar uma melhor perspectiva de vida. Estes dados coadunam-se com a ideia de transformação social – meta da inovação social – apresentada por Tardif e Harrison (2005).

Gráfico 1 – Na percepção do senhor/a, o projeto
realizado pelo instituto é uma inovação na comunidade

Gráfico 1 – Na percepção do senhor/a, o projeto realizado pelo instituto é uma inovação na comunidade
Fonte: Elaborado pelos autores (2014)

De acordo com as respostas dos pesquisados descritas no Gráfico 1, pode-se interpretar que os pais/responsáveis avaliam positivamente as atividades do projeto. Essa avaliação favorável está associada principalmente à maior disponibilidade de tempo para que eles possam trabalhar. Quando estão ausentes do lar, sabem que os filhos encontram-se em um ambiente seguro, desenvolvendo algo útil e não ficam perambulando pelas ruas.

De acordo com as respostas dos 18 pesquisados, infere-se que na percepção dos pais/responsáveis frequentar o projeto contribui com a qualificação da educação do discente e, assim, com o seu aprimoramento disciplinar (por exemplo: estar mais bem preparado para compreender as regras institucionais, educacionais e sociais). Isto porque os alunos tornam-se mais responsáveis e organizados, tendo mais interesse nas atividades da escola. E mais, o processo formativo contribui com o aperfeiçoamento da comunicação da criança com os colegas e a família. Além da formação cognitiva e social é oferecida e incentivada uma alimentação saudável. Vê-se, portanto, que o projeto atende às premissas de Tardif e Harrison (2005) como resposta propositiva que visa a alcançar soluções ante o contexto de crise econômica e social (ambiente problemático).

A seguir o Gráfico 2 apresenta as mudanças percebidas pelos pais em relação aos filhos, no período em que estes frequentam o projeto social.

Gráfico 2 – Mudanças
percebidas pelos pais nos filhos que frequentam o projeto

Gráfico 2 – Mudanças percebidas pelos pais nos filhos que frequentam o projeto
Fonte: Elaborado pelos autores (2014).

A partir do momento em que as crianças estão inseridas no projeto inicia-se um processo de aprendizagem e até de mudança de interação e sociabilidade, que são vistos de forma positiva pelas famílias e a comunidade. Esse olhar positivo é, em certa medida, efeito das mudanças alcançadas pela prática pedagógica orientada para a formação de valores cidadãos como: respeito, dignidade, valorização do próximo, convívio social e trabalho em equipe. Essa Pedagogia prioriza o desenvolvimento subjetivo e social a partir do lúdico, da brincadeira, da construção do conhecimento pela fantasia, pelos sonhos, etc. Essas práticas de ensino, calcadas na possibilidade de transformação, vão ao encontro das teses elencadas por Tardif e Harrison (2005). Os autores asseveram que os processos inovadores podem modificar estruturalmente a sociedade, criando modos inauditos de vida motivadores da equidade e da justiça social. Esse novo contexto poderia produzir, cabe ilustrar, novas relações de trabalho, de associação, de participação política, mas também de produção e de consumo.

De acordo com as respostas dos pais/responsáveis pelos alunos, deduz-se que mantê-los num lugar seguro, com incentivo a atividades de esporte/música e à criação de novas habilidades, pode tanto gerar oportunidades diversas na vida adulta quanto aproximá-los e melhor integrá-los à comunidade. Seriam esses os maiores reflexos do projeto na vida comunitária. Isso é evidenciado nas respostas descritas no Gráfico 3.

Gráfico 3 – Percepção dos pais/responsáveis em relação aos
filhos que frequentam o projeto

Gráfico 3 – Percepção dos pais/responsáveis em relação aos filhos que frequentam o projeto
Fonte: Elaborado pelos autores (2014)

Na percepção dos pais/responsáveis o projeto desenvolve novas habilidades e amplia o repertório cognitivo e interação intersubjetiva. Esses aspectos contribuem para criar, nas crianças, condições para um empoderamento futuro, reduzindo o sentimento de abandono, injustiça e privação. De certo modo, a existência do projeto pode ser considerada um novo arranjo institucional, pois potencializa a formação de cidadãos capazes de lutar por condições mais dignas de existência. Essa formação educacional procura solidificar aspectos cruciais do desenvolvimento subjetivo à medida que visa proporcionar, aos infantes, maior equilíbrio emocional diante das dificuldades da vida. Para tanto, o projeto disponibiliza, quando necessário, suporte emocional e psiquiátrico, como formação complementar. Conforme asseveram Tardif e Harrison (2005), uma formação geral, nesse nível, auxilia na reestruturação e reconstrução de laços sociais: por meio de diversificadas dinâmicas de ensino ou pela instrução para múltiplas ações laborais. Ante as diversas carências socioeconômicas da comunidade, as ações de ensino e formação do Instituto Engevix permitem aos indivíduos assistidos pelo projeto buscarem alternativas em sua vida e na sociedade para superar os estados de marginalização e exclusão social.

Obteve-se 16 respostas sim, logo 89%dos questionados consideram o projeto uma inovação na comunidade e 2 pesquisados (11%) não responderam. Os que responderam afirmativamente justificam que o projeto é uma inovação na comunidade, estabelecendo a seguinte comparação: vários bairros da cidade não têm acesso a um projeto que retira das ruas as crianças no contraturno, complementando o ensino, ensinando novas atividades (esporte, música, computação), além de oportunizar aos pais/responsáveis mais tempo para se dedicarem ao trabalho. Tais respostas são descritas no Gráfico 4.

Gráfico 4 – Percepção dos entrevistados sobre se os projetos realizados pelo Instituto podem ser considerados uma inovação na
comunidade

Gráfico 4 – Percepção dos entrevistados sobre se os projetos realizados pelo Instituto podem ser considerados uma inovação na comunidade
Fonte: Elaborado pelos autores (2014).

Os pesquisados consideram o projeto uma inovação pelo fato de prestar serviços que não existiam na comunidade até a chegada do Instituto. Nesse ambiente são priorizados processos educacionais que visam a subsidiar a formação das identidades subjetivas ede valores sociais. Ao aprenderem novos conhecimentos e habilidades, os sujeitos participam de dinâmicas de ensino focadas na formação da subjetividade num ambiente coletivo, no qual vivenciam a experiência autônoma da escolha individual articulada à geração de novas regras e novos padrões de convivência sociais.

PERFIL E ANÁLISE DE DADOS NA VISÃO DOS TRABALHADORES

Os questionários revelaram que os participantes do projeto têm idade entre 18 e 60 anos. Em relação ao nível de escolaridade 1 (7%) dos questionados tem o Ensino Fundamental, 9 (60%) possuem o Superior concluído ou a concluir e 5 (33%) possuem Pós-Graduação concluída ou a concluir.

Na sequência apresentam-se as respostas coletadas dos questionários aplicados aos trabalhadores no projeto Instituto Engevix.

De acordo com os dados descritos no Gráfico 5, observa-se que entre as principais mudanças observadas nos jovens que fazem parte das ações sociais ofertadas pelo Instituto foram mencionadas: a melhoria na educação por meio da transferência de conhecimento, a inclusão social, as novas habilidades que facilitam a convivência com os demais, incluindo uma maior disciplina e melhoria da qualidade de vida. No seu conjunto, essas mudanças podem contribuir substantivamente na formação da cidadania. Destacando a importância da formação cidadã para o mundo do trabalho, cabe enfatizar, com base em Alves (2013, p.43), que os "valores fundamentais estabelecidos em uma sociedade [...] afetam a percepção da empresa ao assumir a responsabilidade social na sua cultura".

Percepção dos questionados sobre a forma como
o Instituto impacta na vida dos pesquisados
Gráfico 5
Percepção dos questionados sobre a forma como o Instituto impacta na vida dos pesquisados
Fonte: Elaborado pelos autores (2014)

Novas habilidades cognitivas e de sociabilização são geradas pelas ações desenvolvidas no projeto, aumentando a probabilidade de inclusão social e construção do processo de cidadania. Isso evidencia, pois, que projetos sociais como este que ora é analisado têm um papel de transformação nos indivíduos e na sociedade, pois podem auxiliar na criação de formas de emancipação social por meio, por exemplo, do empoderamento tanto de pessoas singularmente quanto dos estratos sociais mais pobres. Assim, o desenvolvimento dos atores participantes dos projetos, por meio da formação científica, política e ética, pode culminar na geração de maiores oportunidades de inclusão.

Conforme descrito no Gráfico 6 a seguir, os trabalhadores entendem que os projetos sociais do Instituto Engevix promovem a aproximação entre pais e filhos, que inclui o aprofundamento nos laços afetivos (mais carinho, respeito e acolhimento...), reflexos de relações intersubjetivas incentivadas na vivência diária no projeto. E mais: maior disponibilidade de tempo para os pais trabalharem, pois estes partilham da sensação de que os filhos estão seguros e protegidos. Além disso, maior comprometimento da família com os direitos e deveres em relação aos filhos – consequentemente, ampliação do diálogo no espaço familiar. Esse processo socioeducativo teria por meta, portanto, contribuir para a ampliação da qualidade de vidados participantes do projeto (incluindo suas famílias).

Percepção dos questionados sobre as mudanças que se percebe na vida das
famílias
Gráfico 6
Percepção dos questionados sobre as mudanças que se percebe na vida das famílias
Fonte: Elaborado pelos autores (2014)

No que se refere ao relacionamento intersubjetivo, são percebidas mudanças expressivas no espaço familiar. Amplia-se a comunicação entre pais e filhos e passa a existir, também, a partilha de novos valores e de habilidades para dirimir conflitos próprios da convivência em grupo. Esses avanços nos laços de convivência podem ser propulsores de mudanças em outras fases da vida, podendo gerar, por exemplo: maior capacidade para realização de trabalhos em grupo, melhor preparo para a convivência no mercado de trabalho e para o exercício da cidadania. Em síntese, o processo pedagógico do projeto oportuniza a ampliação das capacidades de negociação dos sujeitos dando condições para que possam construir (com laços mais profundos de integração, com maior diálogo e recursos para gerar parcerias...) novos modos de relacionamentos pelos quais a emancipação singular e coletiva pode consolidar-se.

Em relação a essas percepções, entre as categorias de resposta o que mais apareceu, de acordo com o Gráfico 7 a seguir, foram: transformação social e desenvolvimento da aprendizagem, seguido de apoio pedagógico e psicológico.

Percepção dos questionados sobre as ações
socioeducativas
Gráfico 7
Percepção dos questionados sobre as ações socioeducativas
Fonte: Elaborado pelos autores (2014).

Interpretadas como novas formas de aprendizagem – que apresentam como elemento chave o apoio pedagógico constante – as ações socioeducativas criadas pelo projeto potencializam as habilidades de convívio social, ação que pode auxiliar na ampliação de relações mais inclusivas no meio social.

O questionário também abordou o papel do educador em relação às inovações. É possível perceber no Gráfico 8 a seguir que a palavra educação aponta na direção do estabelecimento de caminhos inovadores.

Sugere-se, primeiramente, uma mudança gradativa no atual paradigma (tradicional) escolar. Assim sendo, o ensino deve dar maior ênfase à criatividade em substituição à reprodução dos conteúdos. Nessa perspectiva, é importante privilegiar a dúvida, a divergência e a busca de novas alternativas e de múltiplos caminhos, como momentos pedagógicos de problematização e busca de soluções. Para além da reprodução de conteúdo é preciso fomentar/estimular o exercício da reflexão crítica.

Percepção dos questionados
sobre o papel do educador nas ações de inovação para os jovens
Gráfico 8
Percepção dos questionados sobre o papel do educador nas ações de inovação para os jovens
Fonte: Elaborado pelos autores (2014).

Notadamente os questionados revelam que os educadores cumprem um papel social decisivo na formação dos futuros cidadãos. Faz parte de suas práticas pedagógicas, portanto, incentivar, apoiar, orientar, instigar a superação, evidenciar o potencial, mediar, contribuir para a promoção de mudanças na realidade incutindo valores éticos e sociais. Todos esses propósitos educativos visam à formação de pessoas capazes de conviver em comunidade, tornando-se colaborativas e comprometidas com a sociedade na qual vivem.

De acordo como Gráfico 9 a seguir, o crescimento social é o item que tem maior relevância na percepção dos trabalhadores.

Percepção dos questionados sobre o
impacto causado pelo projeto na comunidade
Gráfico 9
Percepção dos questionados sobre o impacto causado pelo projeto na comunidade
Fonte: Elaborado pelos autores (2014).

O impacto do projeto na comunidade está relacionado com o crescimento social de forma sustentável, possibilitando aos alunos e pais uma melhoria na qualidade de vida.

Conforme o Gráfico 10, é possível observar que a visibilidade institucional é a resposta que aparece com mais frequência. Alves (2013) relata que a empresa que exerce a atividade social por intermédio de projeto social beneficia-se no ponto de vista do volume de vendas, na sua imagem e na visibilidade que ganha no mercado, atingindo o fortalecimento de sua marca. Na percepção do público a entidade é tida, por suas ações, como socialmente responsável.

A percepção dos trabalhadores em relação aos ganhos do Instituto por desenvolver
o projeto
Gráfico 10
A percepção dos trabalhadores em relação aos ganhos do Instituto por desenvolver o projeto
Fonte: Elaborado pelos autores (2014).

De acordo com os dados coletados nos questionários, conclui-se que os pais e responsáveis pelos alunos valorizam o projeto. Isso porque as ações socioeducativas aplicadas pelo Instituto são realizadas no contraturno, possibilitando que os alunos estejam em um ambiente considerado seguro, no período em que os pais trabalham e, por isso, podem ampliar a renda familiar. Ao mesmo tempo que estão evitando que as crianças fiquem nas ruas sem supervisão e orientação, geram conhecimentos, capacitam para novas habilidades, aperfeiçoam a sociabilidade pelo aprofundamento das experiências de comunicação e interação intersubjetiva. No seu conjunto, estes efeitos das ações socioeducativas podem contribuir substantivamente com a maior inclusão social dos participantes do projeto.

Com referência aos resultados extraídos dos questionários aplicados aos trabalhadores, é possível concluir que as ações do projeto proporcionam à comunidade uma alternativa para manter os alunos em um ambiente saudável e seguro, construindo valores por meio de novos aprendizados, ampliando a capacidade de sociabilidade, buscando novos caminhos para a transformação e construção de uma sociedade menos desigual – condição para a inclusão social.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Nesta etapa discutem-se os resultados da pesquisa avaliando os dados coletados e observados, problematizando-os à luz do referencial teórico. Busca-se, pois, na articulação entre teoria e prática, responder à pergunta de pesquisa.Com base na triangulação dos dados coletados no Instituto Engevix, conclui-se que houve coerência entre as respostas avaliadas e observadas e as ações praticadas pelo Instituto (ações socioeducativas).

Em relação às respostas, no que diz respeito a qual categoria de inovação social seria a mais consistente – com base nas quatro proposições apresentadas –, avalia-se que não houve consenso. Observa-se, apesar disso, que para os pesquisados as ações socioeducativas são formas inovadoras de atuar na comunidade. Nas respostas são indicados valores (e habilidades de interação intersubjetiva e cognitivas) que seriam expressões das inovações geradas, mas não são vistos como originais, pois já estariam presentes, de certo modo, em nossa cultura. Dado mais fundamental parece ser a constatação de que, apesar dos inúmeros benefícios do projeto, há certa dependência dos pais/responsáveis em relação aos serviços oferecidos, pois eles não têm outro espaço para deixar os filhos no contraturno.

De acordo com a análise em relação às interfaces existentes entre práticas socioeducativas e inovações sociais, observa-se que os entrevistados consideram as ações socioeducativas como inovações na comunidade, levando em consideração que esses serviços não estavam disponíveis até a chegada do Instituto à localidade.

Na observação dos pesquisadores todas as atividades desenvolvidas pelo Instituto (idealizadas e materializadas) já foram disponibilizadas por outras instituições sociais. Enfatize-se o fato de que há certa dependência das famílias assistidas em relação ao projeto, entretanto estão alinhadas com as premissas mencionadas por Novy e Leubolt (2005), que afirmam que a inovação social deriva principalmente de: satisfação de necessidades humanas básicas (em que o projeto Engevix trabalha a sociabilidade e uma formação pautada em princípios e valores para uma formação cidadã); aumento de participação política de grupos marginalizados (que ocorre a partir de uma formação sólida e inclusão social); aumento na capacidade sociopolítica e no acesso a recursos necessários para reforçar direitos que conduzem à satisfação das necessidades humanas e à participação.

Quanto à ideia de gerar valor constata-se que as ações socioeducativas atendem a esse quesito, pois desenvolvem novas habilidades cognitivas e de relacionamento intersubjetivo nos alunos que podem converter-se num caminho que auxilie na consolidação de maior inclusão e emancipação social. E isso reflete em mudanças na forma como o indivíduo se reconhece no mundo e nas expectativas recíprocas entre pessoas, decorrentes de abordagens, práticas e intervenções, o que converge com a concepção de Rodrigues (2006).

Conclui-se, então, que o Instituto auxilia a comunidade com as atividades que desenvolve na busca da melhoria na qualidade de vida, contribuindo assim para o processo de inclusão social que é, enfatize-se, um dos pilares da inovação social. Prova disso é que suas ações visam a resgatar e gerar valores por meio das ações socioeducativas, criando caminhos para a inclusão social e desenvolvimento da cidadania. Destaque-se que esses preceitos são identificados, pelos autores aqui estudados, como indicadores de uma prática de inovação social. Parte da perspectiva Hazel e Onaga (2003), os quais afirmam queuma inovação, para ser gerada e absorvida socialmente, deve propor respostas e soluções aos problemas sociais fundamentais da sociedade. Há, contudo, claras dificuldades em realizá-la, pois instituir práticas de inovações sociais requer, em tantos momentos, mudanças radicais no status quo, na estrutura social enos comportamentos e hábitos individuais e coletivos.

Verificam-se, contudo, algumas lacunas que não devem ser negligenciadas. As famílias não participam ativamente nas decisões que orientam o projeto. Sabe-se que a interação ativa dos distintos atores sociais e a gestão participativa são pilares das práticas de inovações sociais. O projeto parece falhar nesse aspecto. Outro dado relevante é que ainda não se tem informação dos efeitos e impactos do projeto em longo prazo. Tais aspectos estão associados ao pensamento de Fairweather (1972), que salienta que o maior obstáculo para a realização de mudanças estruturais nas sociedades tidas como tecnológicas é a cristalização de valores e modos de gestão constituídos e partilhados ao longo da História por distintas coletividades.

No que se refere à abordagem de Tardif e Harrison (2005), os conceitos de transformação, a dimensão analítica, os atores e a dimensãodo processo subsidiam a reflexão do tema proposto, com ênfase na discussão do perfil dos sujeitos acolhidos pelos projetos sociais do Instituto Engevix, bem como no desenvolvimento das ações realizadas, entretanto não há adequação consistente com os conceitos de caráter inovador e características da inovação.

Sobretudo a postura ética e humanista é derivada do conhecer (HAZEL; ONAGA, 2003). O Instituto Engevix, por meio dos projetos que desenvolve, dá a oportunidade para a promoção de integração, de formação cidadã, de ensejo e gera bem-estar para os envolvidos. Esse conjunto de experiências vivenciadas pelos participantes do projeto são elementares para a sociabilidade, a interação intersubjetiva, a intersubjetividade e a relação intersubjetiva. E se alinham também aos dizeres de Bignetti (2011), o qual destaca que inovação social é uma incursão por ideias, tendências e focos de pesquisa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste estudo foi analisar se as ações socioeducativas desenvolvidas pelo Instituto Engevix podem ser consideradas práticas de inovações sociais. O Instituto atende ao quesito responsabilidade social pelo fato de ser uma instituição do terceiro setor, sem fins lucrativos, mas que depende financeiramente do Grupo Engevix.

Quanto às ações socioeducativas realizadas observa-se que o Instituto atende à demanda da comunidade oferecendo um serviço de considerável relevância social. Entende-se como ações socioeducativas um processo que possibilita ao indivíduo perceber a si próprio como um sujeito dotado de muitas potencialidades e que, ao desenvolvê-las por meio da interação e da apropriação de conhecimentos, pode intervir como cidadão na sociedade na qual está inserido. Trata-se, pois, nas ações oportunizadas pelo Instituto, de iniciativas que se identificam, em aspectos fundamentais, com as práticas de inovação social.

Tardif e Harrison (2005) Explicando melhor, no que se refere a essas ações socioeducativas serem (ou não) práticas de inovação social, conclui-se que, embora não sejam integralmente, atendem em larga medida a essa identificação. Quanto aos limites e às potencialidade identificados: a) ideias novas ou híbridas – todos os serviços desenvolvidos pelo Instituto já existem em outras instituições; b) gerar autonomia, independência, sustentabilidade – os usuários tornam-se parcialmente dependentes dos serviços prestados, posto que não têm outra alternativa para deixar os filhos no contraturno; c) empoderamento – apesar da formação autônoma para a vida em sociedade, não existe participação ativa dos pais na decisão dos rumos tomados pelo processo; d) gerar valor social – os serviços prestados atendem a esse quesito, pois geram uma solução social; e) inclusão social e processo de cidadania – os serviços prestados também atendem a este quesito por meio do desenvolvimento de novas habilidades cognitivas e comportamentais. Nos termos propostos na análise de Tardif e Harrison (2005), as ações do Instituto expressam coerência com as seguintes categorias: transformação, dimensão analítica, atores e dimensão do processo, entretanto não condizem com os conceitos de caráter inovador e características da inovação.

Como visto, compreende-se por inovação social uma nova solução para um problema social, ou seja, uma resposta criativa, efetiva, eficiente, sustentável e/ou justa. Como resposta aos problemas sociais mais urgentes, espera-se que uma inovação social seja gerada e executada em parceria e com transparência, que seja geradora de valor social e, em consequência, benefício à sociedade, sobretudo aos seus estratos mais pobres. Em outras palavras, inovação social pode ser um novo produto ou serviço, um novo processo ou metodologia, uma nova proposta de valor para um novo público-alvo, novos insumos ou modelos de parcerias ou novos modelos organizacionais, que criam valor para a sociedade ao contribuir com a solução de problemas gerando, com isso, maior inclusão social.

Acerca das interfaces existentes entre práticas socioeducativas e inovações sociais é possível inferir que ações socioeducativas auxiliam no processo de desenvolvimento social, tanto quanto as inovações sociais. Os dois processos são independentes, mas também muito próximos. A possibilidade de vinculação é clara, o que permite que uma ação socioeducativa converta-se numa prática de inovação social geradora de emancipação (cognitiva, econômica e ético-política) de grupos até então excluídos das esferas econômica e política da sociedade.

Quanto às limitações da pesquisa, não foi dado ênfase aos aspectos negativos, às restrições e aos fatores desfavoráveis ao desenvolvimento das ações do Instituto Engevix. Certamente a incerteza da dinâmica social, a resistência dos atores e as tensões associadas à interação, bem como determinados meios utilizados para incentivar as pessoas a aderirem aos projetos sociais são fatores que podem impactar nos resultados obtidos. Esses são seguramente pontos que podem ser explorados em pesquisas futuras.

Por fim, neste estudo investigou-se somente uma instituição que desenvolve projetos socioeducativos, na intenção de explicitar se estes se configuravam em práticas de inovações sociais. Tendo em conta a pertinência da temática para o campo da gestão social, recomenda-se a ampliação do número de pesquisas (inquirindo novos projetos socioeducativos por meio de estudos de caso) na intenção de aprofundar o debate sobre questões cientificamente relevantes, mas ainda pouco estudadas no âmbito das organizações.

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Notas

[5] O terceiro setor é constituído por Organizações Não Governamentais e sem fins lucrativos, que têm como objetivo gerar serviços de caráter público. Como explicam Silva, Souza e Faria (2013), o terceiro setor pode atuar na promoção de bens sociais como: suprir necessidades básicas, gerar valores cidadãos e éticos, fomentar a participação solidária, garantir a liberdade política e a equidade econômica, entre outros. E mais, suas ações não estão limitadas à obtenção de vantagens competitivas e concorrenciais no âmbito do mercado.

Autor notes

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