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O papel da análise fundamental na seleção de ações para investimento

The role of fundamental analysis in stock picking for investment

El papel del análisis fundamental en la selección de acciones para inversión

Rui Carlos Lobo Miranda
Instituto Politécnico de Setúbal, Portugal
Maria Teresa Venâncio Dores Alves
Instituto Politécnico de Setúbal, Portugal

O papel da análise fundamental na seleção de ações para investimento

Revista Contemporânea de Contabilidade, vol. 15, núm. 36, pp. 211-234, 2018

Universidade Federal de Santa Catarina

Recepção: 30 Dezembro 2017

Revised document received: 28 Maio Setembro 2018

Aprovação: 15 Outubro 2018

Resumo: O comportamento das cotações das ações em Bolsa, em geral, espelha o estado da própria economia, daí que a opção por este tipo de investimento nem sempre gere um retorno positivo. A análise fundamental de avaliação de ações desempenha um papel relevante na tomada de decisões de investimento e implica a análise do desempenho das empresas a que essas ações se referem. O objetivo do presente estudo consiste em verificar, entre as empresas selecionadas, qual a que constitui o melhor ativo para investimento com potencial de valorização e criação de mais-valias para o investidor. Efetuou-se uma pesquisa bibliográfica; documental; quantitativa; e de estudo de caso explicativo. Calculou-se um conjunto de indicadores chave relativos ao período 2010-2013, tendo como fonte dos dados relatórios e contas anuais. Verificou-se que, entre as empresas indicadas, a que constituía o melhor ativo para investimento era a Mota Engil, pois foi a que apresentou melhores desempenhos nos indicadores selecionados.

Palavras-chave: Análise fundamental, Indicadores económico-financeiros, Indicadores de mercado.

Abstract: Prices’ behaviour of the shares on the stock exchange, as a rule, mirrors the state of the economy hence the option for this type of investment does not always generate a positive return. Fundamental analysis for equities assessment plays an important role in making investment decisions and implies the analysis of companies' performance. The aim of this study is to verify, among the selected companies, which is the best asset for investment with a potential for appreciation and creation of capital gains for investors. We have conducted a bibliographic; documentary; quantitative and exploitive case study research. We have calculated a set of key indicators for the period 2010-2013, having as data source annual accounts. It was found that among the mentioned companies, the best asset for investment was Mota Engil, as it has showed the best performance regarding the selected indicators.

Keywords: Fundamental analysis, Economic and financial indicators, Market indicators.

Resumen: El comportamiento de los precios de las acciones en la bolsa de valores, en general, refleja el estado de la economía, por lo tanto, la opción para este tipo de inversión no siempre genera un retorno positivo. El análisis fundamental de evaluación de las acciones juega un papel importante en la toma de decisiones de inversión e implica el análisis del desempeño de las empresas a las cuales se refieren estas acciones. El objetivo de este estudio es verificar, entre las empresas seleccionadas, cual es el mejor activo de inversión con potencial de apreciación y creación de plusvalías para los inversores. Llevamos a cabo una investigación bibliográfica; documental; cuantitativa; y de estudio de caso explicativo. Ha sido estimado un conjunto de indicadores clave para el período 2010-2013, tiendo como fuente de los datos las cuentas anuales. Se encontró que, entre las empresas indicadas, el mejor activo de inversión fue Mota Engil, como se presentó el mejor desempeño en los indicadores seleccionados.

Palabras clave: Análisis fundamental, Indicadores económicos y financieros, Indicadores de mercado.

1 Introdução

Desde a crise do subprime que atingiu em 2008 a economia portuguesa ocorreram fortes quedas nas cotações dos títulos das empresas semelhantes ao ocorrido após o colapso da bolha tecnológica.

O Economic Sciences Prize Committee of the Royal Swedish Academy of Sciences (ESPCRSAS, 2013) defende que o comportamento dos preços dos ativos é essencial para muitas decisões importantes, não só para os investidores profissionais, mas também para a maioria das pessoas no seu quotidiano. Segundo os membros deste Comité os preços dos ativos são, também, de uma importância fundamental para a macroeconomia porque fornecem informações cruciais e fundamentais para as decisões económicas em matéria de investimentos e de consumo. Preços errados de ativos podem contribuir para crises financeiras que podem danificar a economia em geral. O ESPCRSAS (2013) desenvolveu um estudo empírico com o objetivo de compreender de que forma os preços dos ativos são determinados. Considerou que se é possível prever com um grau elevado de certeza que um ativo irá aumentar mais de valor do que outro, então, devem realizar-se as mais-valias mas destaca que a situação refletiria uma falha básica do mecanismo de mercado.

No momento atual a economia portuguesa apresenta uma melhoria evidente nos seus indicadores macroeconómicos, existindo um moderado otimismo no que concerne ao Portuguese Stock Ìndex (PSI) geral O objetivo do presente estudo consiste em verificar entre as empresas selecionadas, qual a que constitui o melhor ativo para investimento com potencial de valorização e criação de mais-valias para o investidor. Efetua-se uma pesquisa bibliográfica; documental; quantitativa; e de estudo de caso explicativo e aplica-se a análise fundamental de avaliação de ações. Assim, calcula-se um conjunto de indicadores (económicos, financeiros e de mercado) chave relativos às empresas incluídas no PSIgeral e no setor da construção, no período 2010-2013, tendo como fonte dos dados os respetivos relatórios e contas anuais. Analisam-se, ainda, as taxas médias de crescimento anual desses indicadores e compara-se alguns resultados com o indicador do risco sistemático (beta - β). O estudo justifica-se, sobretudo, numa perspetiva pedagógica pois poderá constituir um exemplo de um caminho para uma análise mais ampla, incluindo um maior número de títulos, na constituição de uma carteira de ativos financeiros. Além de que o tema, embora, muito explorado em diferentes perspetivas, o mesmo não ocorre nesta e tendo como base empresas desta natureza a operar em Portugal e ao nível internacional.

A partir do conhecimento empírico espera-se que, entre as empresas selecionadas e no período analisado, a que constitua o melhor ativo para investimento nas condições enunciadas seja a Mota Engil.

Após esta introdução, o artigo está estruturado da seguinte forma: no ponto 2 revisão da literatura apresenta-se um breve panorama da economia e do setor da construção no período; foca-se a teoria dos mercados eficientes relacionada com o tema em análise e caracteriza-se a análise fundamental de avaliação de ações; no ponto 3 enuncia-se a metodologia adotada no desenvolvimento do estudo empírico; no ponto 4 descreve-se os principais resultados obtidos e, por fim, no ponto 5 enuncia-se a conclusão, limitações do estudo e algumas linhas de investigação futura possíveis.

2 Revisão de Literatura

2.1 Desempenho económico-financeiro e de mercado

A análise fundamental de avaliação de ações implica a necessidade de ter uma perspetiva do estado da economia e do setor de atividade em que se integram, no período, as empresas cujas ações são objeto dessa avaliação. Assim, ao nível da economia internacional, no período 2010-2013, verificou-se um

abrandamento do crescimento nos EUA e no Japão e um crescimento mais moderado na União Europeia, com evoluções muito distintas nos Estados Membros. As economias emergentes também desaceleraram, apesar dos países asiáticos continuarem com um elevado dinamismo. … 2009 e 2012 foram drásticos para os países da União, provocando recessões em vários Estados Membros e conduzindo a quedas acentuadas na produção da construção (InCI, 2013, p. 37).

Quanto ao panorama conjuntural europeu, o comportamento do produto interno bruto (PIB) na zona euro entre 2010-2013 decresceu dos 2.3% em 2010 para 0.5%, tendo sido estimado um crescimento para 0.9% em 2014 e 1.6% em 2015 (BANCO DE PORTUGAL - BdP, 2014).

Portugal foi um dos países em que a recessão se fez sentir acentuadamente. A economia portuguesa viveu tempos conturbados neste período pautado, também, pela crise financeira instalada internacional e nacionalmente e pelas restrições impostas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela União Europeia. De acordo com o InCI (2013, p. 37) “2011 e 2012 ficaram marcados por desacelerações significativas na atividade económica. O ano de 2013 começou ainda com a atividade económica em queda, no entanto, não tão acentuada como nos dois anos anteriores”.

Relativamente à economia nacional é importante considerar o panorama conjuntural pois, como verificaram Benaković e Posedel (2010) no seu estudo sobre a relação entre as variações dos fatores macroeconómicos (inflação; produção industrial, taxas de juro; índice de mercado; e as variáveis de preços do petróleo) e o retorno das ações, bem como a direção e a força dessa relação; o fator índice de mercado evidenciou ter o impacto mais significativo sobre os retornos das ações, tendo mesmo um prémio de risco positivo, enquanto a inflação evidenciou uma relação negativa diferentemente de todos os outros fatores considerados. O comportamento no período de algumas destas variáveis pode ser descrito da seguinte forma (InCI, 2013, p. 5):

No que se refere a esta última variável o BdP (2014) refere que se assistiu a um decréscimo de 2.2% em 2010 para 0.8 % em 2013, estimando-se um decréscimo para 0.6% em 2014 e um aumento para 1.1% em 2015.

Quanto ao comportamento do setor da construção (setor em que se inserem as empresas objeto do presente estudo), no período, constatou-se uma elevada degradação seja ao nível do volume de negócios, da autonomia financeira ou, particularmente, ao nível das rendibilidades. Desta forma, em virtude da sua relevância, o setor contribuiu para o desalavancar do conjunto da economia. A boa saúde da atividade da construção, normalmente, reflete-se na boa saúde da economia pois esta atividade, além de criar riqueza, é geradora de emprego de per se mas, também, pelo impacto que tem em muitas outras atividades (INSTITUTO DA CONSTRUÇÃO E DO IMOBILIÁRIO - InCI, 2013).

O Decreto-Lei (DL) n.º12/2004, de 9 de janeiro (com as alterações introduzidas pelo DL n.º69/2011 de 15 de junho) regulamenta a atividade da construção, obrigando as empresas do setor a possuir um alvará ou um título de registo que é emitido pelo InCI (InCI, 2013). Esta legislação obriga, ainda, à existência de uma determinada capacidade económico-financeira por parte das empresas do setor, “aferida em função do valor do capital próprio, do volume de negócios global e em obra e dos indicadores de liquidez geral e autonomia financeira” (InCI, 2013, p. 28).

De acordo com o InCI (2013), em dezembro de 2013, o setor da construção incluía 19 546 empresas possuidoras de alvará, podendo cerca de 75% executar obras, apenas, até 332 000€. A larga maioria destas empresas são pequenas e médias empresas.

Em 2010 mais de 50%, em 2011 mais de 60% e em 2012 mais de 65% das empresas do setor da construção viram o seu volume de negócios decrescer. Neste último ano o setor apresentou a maior queda do volume de negócios entre as empresas do Setor Não financeiro (SNF), sendo que, em 2013, o volume de negócios no setor comportou-se em sentido inverso à maioria dos outros setores de atividade, no mesmo contexto, perdendo relevância. A favor do setor verificou-se, em 2013, taxas de crescimento dos juros suportados negativas (-5%) e redução das taxas de crescimento dos custos da atividade operacional (BdP, nov. 2014, p.17). Estas últimas taxas vinham, no entanto, já a decrescer, pelo menos, desde 2011, acompanhando a diminuição do volume de negócios.

Quanto à “autonomia financeira média … de 2008 para 2012 … setores com as menores variações foram a Indústria (36%, em 2012) e a Construção, sendo que neste último se registou também a menor autonomia financeira média de todos os setores (20%)”. Considerando “o limite mínimo atualmente exigido (5%) às empresas da classe 2 ou superior”, em 2013, houve quase 400 empresas que não satisfizeram o limite referido (BdP, nov. 2013, p.17-26).

A dívida financeira foi, ao longo do período em análise, a principal fonte de financiamento das empresas do setor da construção. Além de que ocorreu um aumento do “número de empresas em processo de insolvência no setor … de 2010 a 2012 (mais significativo) e diminuição em 2013.” (InCI, p. 33).

Em 2012 ou na média dos três últimos períodos, cerca de 500 empresas não apresentaram um rácio de liquidez geral igual ou superior a 100% como previsto na legislação referida anteriormente (InCI, 2013).

A rendibilidade dos capitais próprios apresentou uma tendência decrescente (com rendibilidades negativas) de 2010 a 2012, sendo que, em 2013, registou uma melhoria face a 2012. No entanto, evidenciou a maior queda em relação às RCP obtidas pelo conjunto das SNF e manteve-se como a atividade com mais baixas rendibilidades entre estas. O número de empresas do SNF com capitais próprios negativos agravou-se até 2012, iniciando-se, em 2013, uma ténue recuperação, mantendo-se, ainda, em níveis muito abaixo da linha de água.

É de salientar, ainda, que perante este panorama as empresas do setor, sobretudo, as de maior dimensão sentiram a necessidade de se internacionalizar, tendo optado por investir em países como os Estados Unidos; o Brasil; Angola; ou Moçambique. Em termos nacionais, face a alterações na legislação, as PME encontraram mercado na reabilitação urbana (InCI, 2013).

As perspetivas para os períodos subsequentes não eram animadoras: “O setor continuará a ter que enfrentar uma conjuntura desfavorável - os grandes ajustamentos eram previsíveis face aos excessos da construção nova em Portugal nas últimas duas décadas, quer de edifícios, quer de infraestruturas” (InCI, 2013, p. 37).

2.2 Teoria dos mercados eficientes

O mercado de capitais eficiente, de acordo com Fama (1970), é um mercado onde, em qualquer momento, os preços dos títulos refletem toda a informação disponível, transmitindo sinais adequados para a alocação de recursos. No entanto, o autor salienta que esta é uma hipótese extrema nula, daí que não seja esperado que seja literalmente verdade. Assim, estabelece as hipóteses de mercados eficientes nas formas:fraca (os preços parecem ajustar-se à informação obviamente disponível ao público; os preços atuais refletem a informação contida na sequência histórica dos preços ou dos retornos); intermédia ou semi-forte (os preços atuais refletem plenamente o conhecimento público sobre as empresas como, por exemplo, o anúncio dos lucros anuais) e forte (os preços refletem toda a informação pública e a que resulta de análise aprofundada à empresa e à economia). Acrescenta que a categorização dos testes de eficiência nestas formas servirá o objetivo útil de permitir focar o nível de informação no qual a hipótese de eficiência cai. Defende que, com poucas exceções o modelo dos mercados eficientes comporta-se bem. Posteriormente Fama (1991), corroborando a posição de Jensen (1978), defende que um mercado é considerado eficiente quando os preços refletem informação até ao ponto em que o rendimento marginal gerado de atuar sobre essa informação não excede os custos marginais da sua obtenção. O autor conclui que esta versão tem a vantagem de constituir um benchmark que permite ultrapassar o problema da decisão sobre o que é informação razoável e o que são custos de transação. Mas, acrescenta que a ambiguidade sobre a informação e os custos de transação não é o principal obstáculo para a inferência sobre a eficiência do mercado, tendo esta eficiência de ser testada em conjunto com um modelo de precificação de ativos.

O tema da teoria dos mercados financeiros eficientes tem vindo a ser tratado há muito tempo. Markowitz (1952), na sua Teoria da Carteira, descreve as decisões que os investidores racionais deverão tomar num mercado de capitais eficiente para a constituição da carteira de ativos financeiros, visando a obtenção de um nível de rendibilidade superior.

LeRoy (1973) formulou a teoria da eficiência dos mercados com base nas vantagens comparativas: um investidor que conhece a informação não terá vantagem sobre os outros porque ela está refletida nos preços dos ativos.

Shiller (1981) procurou interpretar o uso das medidas de volatilidade referidas em estudos empíricos anteriores; descrever alguns modelos alternativos que permitissem maior variação nos preços; e comparar os testes de volatilidade com métodos mais convencionais de avaliar a eficiência dos mercados. Porém, verificou que os testes formais de eficiência do mercado podem ter vantagens sobre os testes convencionais, podendo aqueles constituir, em determinadas circunstâncias, um maior poder de robustez para os erros dos dados tais como o desalinhamento; e de simplicidade e compreensibilidade.

Fama e French (1993) estudaram os fatores de risco comuns nos retornos das ações e das obrigações e testaram se estes riscos partilhados capturavam a cross-section dos retornos médios. Verificaram a existência de cinco fatores que explicavam bem a variação comum nos retornos das ações e das obrigações e a cross-section dos retornos médios. Consideraram, então, que a escolha, especialmente, dos fatores dimensão e book-to-market, era motivada pela experiência empírica e que sem uma teoria que especifique a forma exata das variáveis estabelecidas ou fatores comuns nos retornos, a escolha de qualquer versão dos fatores é algo arbitrária. Os autores defenderam, ainda, que em princípio, os resultados que obtiveram poderiam ser usados em qualquer aplicação que requeira estimativas dos retornos das ações como, por exemplo, na seleção e avaliação da performance de carteiras.

2.3 Análise fundamental de avaliação de ações

Podem ser consideradas, complementarmente, dois tipos de análises e avaliação de ações: a análise técnica (permite selecionar o momento do investimento em títulos identificados através da análise fundamental) e a análise fundamental (permite selecionar os títulos para investimento). Assim:

- A análise técnica (não será objeto de desenvolvimento no presente estudo): segundo Fama (1965) baseia-se no pressuposto de que as tendências históricas tendem a repetir-se, ou seja, os padrões de comportamento dos preços no passado tenderão a ocorrer no futuro. Assim, os analistas técnicos usam essa informação para prever o comportamento futuro provável das séries. Para Kumar, Mohapatra e Gaurvinder (2013) este tipo de análise é essencialmente um reflexo da ideia de que os preços se movem em tendências que são determinadas através da alteração das atitudes dos investidores numa variedade de forças económicas, monetárias, políticas e psicológicas. Os autores referem que, nesta análise, são utilizados modelos e regras de negociação baseados no preço e no volume e têm como instrumento tradicional uma vasta tipologia de gráficos; e

- A análise fundamental ou método do valor intrínseco1: de acordo com Fama (1965) tem como pressuposto que, em qualquer momento no tempo, um título individual tem um valor intrínseco que depende do retorno potencial desse título. Este retorno depende de fatores fundamentais como, por exemplo, a qualidade da gestão, as perspetivas para o setor de atividade e para a economia. Através de um estudo cuidadoso destes fatores fundamentais, o analista deve ser capaz de determinar se o preço real de mercado de uma ação está acima ou abaixo do seu valor intrínseco. Se os preços reais se moverem em direção aos valores intrínsecos, então, tentar determinar este valor de um título equivale a fazer a previsão do seu preço no futuro e esta é a essência do procedimento preditivo implícito na análise fundamental.

Mohanram (2005) defende que a análise fundamental procura identificar vencedores e perdedores ex-post na base da informação contida nas demonstrações financeiras que não está completamente ou perfeitamente refletida nos preços.

Samaras, Matsatsinis e Zopounidis (2008) observam que a análise fundamental visa determinar a saúde financeira da empresa, através de indicadores úteis, com base em demonstrações financeiras da empresa. Referem que é um dos métodos de análise mais eficazes, uma vez que fornece uma análise dinâmica da posição financeira da empresa e avalia com precisão as vantagens e desvantagens da empresa.

Pavlou, Blanas e Golemis (2007) consideram que a análise fundamental baseia-se no cálculo e avaliação dos rácios financeiros os quais fornecem aos analistas elementos sobre a eficiência e o desempenho das empresas ou até mesmo setores específicos de uma empresa. Desenvolveram um estudo sobre este tipo de análise em que afirmam reforçar a teoria desenvolvida por Lam (2004). Esta teoria baseia-se no estudo de todas as informações financeiras disponíveis ao público com o intuito de avaliar o valor intrínseco de uma ação, calculado através de rácios financeiros específicos (eficiência, rendibilidade, liquidez, alavancagem, investimento), de modo a obter uma visão abrangente sobre o desempenho de uma empresa. Seng e Hancock (2012) afirmam que existe uma ligação entre os indicadores fundamentais e a previsão de ganhos e que é influenciada por fatores contextuais.

Abarbanell e Bushee (1997) e Seng e Hancock (2012) referem que a análise fundamental envolve as seguintes etapas: (1) análise da atual envolvente macroeconómica (dados agregados da despesa, investimento, taxa de desemprego, inflação, etc.); (2) determinação da estrutura temporal das taxas de juro; estudo do setor de atividade em que a empresa se integra; e (3) verificação do ciclo de crescimento do negócio descontando os efeitos cíclicos. Observadas e analisadas estas etapas deve-se ter a noção da vantagem comparativa do setor em que a empresa se insere (baixos custos de produção; vantagem tecnológica; de marketing) da qualidade de gestão; competência; experiência; e sobretudo, na capacidade de prever resultados, custos e ganhos potenciais. Onde se gerar a vantagem comparativa e for adicionado valor económico, fazendo parte da cadeia de valor da empresa, então, poderá fazer sentido considerar um goodwill ou prémio. Também, Kumar, Mohapatra e Gaurvinder (2013) sustentam que os analistas fundamentais têm que estudar a economia global e o setor de atividade bem como a posição financeira e a gestão das empresas, assentando a análise em dados reais para avaliar o valor de uma ação.

Dutta, Bandopadhyay e Sengupta (2012) consideram que analistas, investidores e pesquisadores utilizam os indicadores financeiros para projetar tendências futuras dos preços de ações. A análise dos indicadores surgiu, portanto, como um dos principais parâmetros utilizados pelos gestores de fundos e investidores para determinar o valor intrínseco das ações. Este estudo emergiu como uma nova disciplina após a crise no mercado de ações na década de 1990 e do início de 2000 nos Estados Unidos e em algumas partes da Europa e do sul da Ásia. Hoje, os indicadores são usados extensivamente na análise fundamental para prever o desempenho futuro de uma empresa, sendo os indicadores financeiros amplamente utilizados na avaliação das ações.

Na análise fundamental os dados históricos assumem um papel muito relevante. Através destes dados pode-se observar o comportamento das demonstrações financeiras ao longo dos períodos em estudo. É através da análise histórica que se pode perceber as causas que levaram a empresa a obter determinados resultados, como cresceu ou como diminuiu. Também, a comparação dos dados da empresa em análise com os dados de outras empresas do mesmo setor, com a finalidade de se obter uma melhor compreensão da sua evolução perante a média do setor em que se insere, se reveste da maior importância.

Mas, a avaliação de ações, segundo Pinho e Soares (2008, p.50), sendo mais complexa que a dos restantes ativos, atende sobretudo a dois pressupostos principais: as fontes de rendimento como o dividendo e a mais-valia de capital; e a análise do risco do rendimento que depende de muitas variáveis.

Segundo Markowitz (1952) a maioria dos investidores dispersa o seu capital por diferentes ações, na convicção de que diversificando consegue reduzir o risco do seu investimento. Desta forma, dever-se-á ter em consideração o risco sistemático ou de mercado que não é diversificável.

Como sustentado por Treynor (1965) para analisar o risco sistemático pode-se recorrer ao cálculo da variável beta (β). Para Esperança e Matias (2009: p.172) o coeficiente estatístico β “mede as variações de um determinado título face às variações de um mercado de referência”. Este mercado é mensurado através de um índice representativo, sendo em Portugal, em geral, considerado o PSI20 ou o PSIgeral. O β calcula-se através da fórmula:

β(i,m) = COV(i,m) / VAR(m)

(Onde: i = Título i; m = mercado; COV = Covariância; VAR = Variância.)

Se o β for maior que 1 a cotação da ação tende a subir mais do que o índice quando este sobe e a descer mais quando este desce, ou seja, é mais agressiva. Se for menor que 1 ocorre a situação inversa e a ação é considerada defensiva. Um beta negativo que é muito raro ocorrer indica uma ação em contra-ciclo, subindo quando o índice desce e vice-versa.

Pettit e Westerfield (1972) desenvolveram um modelo para derivar e mensurar os fatores subjacentes usados pelo mercado para avaliar o coeficiente β de um ativo, considerando que este constitui uma estimativa do risco desse ativo De acordo com Sprecher e Pertl (1983) os autores procuraram identificar o risco do negócio através de rácios financeiros e examinaram os efeitos da alavancagem usando diferentes rácios (Debt/Equity, Debt/Total Assets, rácios de cobertura, etc.). Porém, na maior parte da informação recolhida não encontraram qualquer relação entre a alavancagem e o risco sistemático.

2.3 Estudos empíricos anteriores

Abarbanell e Bushee (1997) analisaram as relações empíricas entre as regras da análise fundamental e as alterações reais nos ganhos futuros, as previsões dos ganhos pelos analistas e o retorno das ações contemporâneas; e procuraram estabelecer um ponto de referência para avaliar a eficiência dos indicadores. Usaram uma amostra constituída por empresas listadas no índice AMEX, no período de 1983 a 1990, e como fonte dos dados recorreram ao Compustat PST Active file e ao CRSP (Center for Research in Security Prices), em ambos os casos, referentes a 1992. Examinaram a capacidade dos indicadores fundamentais em prever resultados futuros e verificaram que as variáveis macroeconómicas como a inflação, o PIB, bem como outras variáveis específicas das empresas, tais como notícias de ganhos anteriores, e o crescimento dos lucros esperados, condicionavam algumas das relações entre os indicadores fundamentais e os ganhos futuros, revisões e erros de previsão.

Piotroski (2000) analisou se uma estratégia simples de análise fundamental baseada na contabilidade, quando aplicada a um grande portfólio de empresas com book-to-market (BM) elevado, podia alterar a distribuição dos retornos auferidos pelo investidor e descriminar entre empresas com fortes e com fracas perspetivas. Verificou que o retorno médio obtido por um investidor pode ser aumentado anualmente, pelo menos 7.5%, através da seleção de empresas, fortes financeiramente, com BM elevado; e dentro deste portfólio, os benefícios da análise fundamental concentravam-se nas empresas de pequena e média dimensão com baixo turn-over e empresas sem seguimento pelos analistas. O autor afirma que as demonstrações financeiras representam a fonte de informação mais fiável e mais acessível sobre estas empresas e que o mercado não incorpora nos preços, completamente e numa forma tempestiva, a informação histórica.

Mohanram (2005) procurou verificar se a aplicação da análise fundamental podia ajudar os investidores a obter retornos superiores numa grande amostra de empresas em crescimento ou com um BM baixo. Combinou fundamentais tradicionais como resultados e cash flows com medidas trabalhadas para grandes empresas, tais como estabilidade dos resultados; estabilidade do crescimento e intensidade da investigação e desenvolvimento, despesas de capital e publicidade, para criar um índice (GSCORE). Constatou que a análise fundamental, devidamente modificada para empresas em crescimento, tinha sucesso na diferenciação entre ganhadoras e perdedoras ex-post e foram robustos ao longo do tempo, obtendo retornos positivos em todos os anos da amostra. E, também, que uma abordagem contextual direcionada para a análise fundamental funciona melhor com a análise tradicional apropriada para ações com BM elevado e a análise fundamental orientada para o crescimento apropriada para ações com BM baixo.

Pavlou, Blanas e Golemis (2007) tentaram aplicar a análise financeira no mercado de derivados e destacar se os retornos dos derivados estavam relacionados com os resultados da análise fundamental e comparar o tipo de informações fornecidas ao investidor através deste método. Aplicaram a análise através de cinco tipos de rácios financeiros. Usaram uma amostra composta por empresas cotadas incluídas no Ftse-20, Ftse-40 e Eps-50, de 2001 a 2005. As fontes dos dados foram as demonstrações financeiras e a base de dados dos índices referidos. Constataram que o desempenho da maioria das empresas da amostra não estava correlacionado com o setor; o índice; a dimensão; a data; bem como com os dados importados da Athens Stock Exchange. Verificaram que as ações não se comportavam da mesma maneira que outras ações que tinham algumas características iguais, mas as alterações dependiam dos atributos particulares e específicos das ações.

Dutta, Bandopadhyay e Sengupta (2012) desenvolveram um modelo para a classificação das ações em duas categorias (positiva ou negativa), com base na sua taxa de retorno. Aplicaram métodos estatísticos para o levantamento e análise de dados financeiros com o intuito de desenvolver um modelo simplificado para a interpretação. Classificaram as ações de uma empresa como “bom” se o desempenho do retorno das ações fosse acima do retorno do mercado apresentado pelo índice composto da Bolsa de Valores Indiana. Usaram uma amostra constituída por trinta grandes empresas cotadas no mercado ao longo de um período de quatro anos. Tiveram em consideração os dados de 12 meses e, no final do 12º mês, os preços foram comparados com os do ano anterior, para determinar o desempenho. Utilizaram a regressão logística e vários rácios financeiros como variáveis independentes para investigar os indicadores que afetavam significativamente o desempenho das ações negociadas no mercado de ações indiano. Verificaram que os resultados podiam ser observados através de oito rácios financeiros e as empresas podiam ser classificadas a um nível de 74.6% de precisão em duas categorias (positiva ou negativa), com base na sua taxa de retorno.

Seng e Hancock (2012) estudaram o modo como as alterações nos sinais fundamentais podiam fornecer informações sobre as alterações nos ganhos subsequentes. Avaliaram a utilidade das demonstrações financeiras investigando os ganhos e/ou prejuízos resultantes dos rácios gerados por essa informação, permitindo a tomada de decisão dos analistas e investidores. Recorreram a uma amostra constituída por empresas de trinta e três países. Usaram dados globais de 1990 a 2000 (inclusive) obtidos através da Standard and Poor’s em comparação com a versão americana do COMPUSTAT. Verificaram que a utilização da análise fundamental permitiu a previsão, no curto e longo prazos, das alterações dos lucros futuros. Os resultados forneceram evidências para apoiar a utilização da análise fundamental.

Kumar, Mohapatra e Gaurvinder (2013) apresentaram um estudo visando melhorar a compreensão e a previsão do comportamento do preço das ações. Determinaram o uso e a perceção da análise fundamental e da análise técnica; e da importância dada aos fatores estratégicos. Investigaram a importância dos fatores de risco de liquidez; financeiros; técnicos; económicos; específicos do setor; da empresa; e outros fatores na previsão de preço das ações no longo prazo, numa tentativa de compreenderem a importância dos fatores que os investidores têm em consideração quando investem no mercado de valores no longo prazo. Usaram uma amostra constituída por 262 investidores selecionados, registados na Bombay Stock Exchange, no final de 2009. Utilizaram a técnica de amostragem aleatória e recorreram à entrevista tendo como base a escala de Likert de 10 pontos. Efetuaram uma análise de variância One-Way e realizaram testes de Post Hoc. Constataram ser recomendável que os investidores investigassem fatores específicos da empresa tais como a qualidade da gestão; a qualidade dos relatórios de auditoria; bónus; e questões que afetam a decisão de investimento.

Assim, constata-se que os indicadores fundamentais são condicionados por diversas variáveis micro e macroeconómicas (ABARBANELL e BUSHEE, 1997); que mesmo que as ações possuam algumas características semelhantes, apresentam desempenhos dependentes dos atributos dos próprios títulos e não refletem da mesma forma o comportamento de determinadas variáveis externas (PAVLOU, BLANAS e GOLEMIS, 2007); que há determinados indicadores que afetam significativamente o desempenho das ações (DUTTA, BANDOPADHYAY e SENGUPTA, 2012); e, ainda que a análise fundamental de avaliação de ações pode ser útil na previsão dos lucros futuros (SENG e HANCOCK, 2012; KUMAR, MOHAPATRA; e GAURVINDER, 2013) e na diferenciação entre ações ganhadoras e perdedoras (PIOTROSKI, 2000; MOHANRAM, 2004).

3 Metodologia

O objetivo do presente estudo consiste em procurar verificar, entre as empresas selecionadas, qual a que constitui o melhor ativo para investimento, com um potencial de valorização e criação de mais-valias para o investidor. Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, documental, quantitativa e de estudo de caso explicativo. Os dados financeiros, económicos e de mercado foram recolhidos dos relatórios e contas anuais (fonte considerada fiável e acessível, entre outros, por Pietroski, 2000) do período de 2010 a 2013, publicados pelas empresas referidas ou através do programa SABI.

A metodologia aplicada baseia-se na ideia defendida por Samaras, Matsatsinis e Zopounidis (2008) de que a análise fundamental das empresas é um dos métodos de análise mais eficazes, uma vez que fornece uma análise dinâmica da posição financeira da empresa e avalia com precisão as vantagens e desvantagens da empresa.

As empresas foram selecionadas por, no período 2010-2013, serem as únicas dentro do setor da construção (setor a partir do qual, de acordo com o objetivo do estudo, o investidor pretende selecionar uma empresa para posterior investimento) a estarem cotadas no mercado NYSE Euronext Lisbon e incluídas no PSIgeral. Estas empresas possuem uma atividade diversificada relacionada com a construção civil e têm, ao longo da sua história, sofrido alterações significativas que se revelaram determinantes para a sua posição no mercado. Constituem uma referência, tanto nacional como internacionalmente. A opção pela integração na carteira de ações de uma empresa incluída neste setor de atividade tem a ver com a necessidade de diversificação da carteira e, como referido anteriormente, com a relevância do setor na economia nacional e a previsão da sua recuperação no futuro. As empresas são todas do mesmo setor de atividade porque os diferentes setores sentiram a crise de forma diferente.

No contexto económico internacional, nacional e setorial descrito anteriormente, pretendendo um investidor integrar na sua carteira de ativos financeiros, com objetivo de diversificação, ações de uma empresa do setor da construção, qual a mais indicada entre as de maior notoriedade? A aplicação da análise fundamental parece ser uma estratégia adequada para responder a esta questão. Ou seja, como referem Pavlou, Blanas e Golemis (2007), considera-se que é útil efetuar a análise e avaliação antes de decidir investir num título específico, algo para que a análise fundamental pode dar um contributo válido.

Assim, optou-se por calcular um conjunto de indicadores (Quadro 1) financeiros e de mercado relativos às empresas selecionadas pois, considera-se que os resultados destes cálculos e sua análise ajudarão a projetar o desempenho destas empresas.

Indicadores fundamentais
Quadro 1
Indicadores fundamentais
Fonte: Adaptado de Matos (2013, p.246-250)

De acordo com Terrell, K. e Terrell, R. (2005) os rácios de liquidez avaliam a capacidade de uma empresa gerar dinheiro suficiente para satisfazer as suas obrigações de curto prazo. A importância da liquidez deriva do facto de todas as decisões económicas terem de a considerar pois se uma empresa não consegue satisfazer as suas obrigações correntes, pode não conseguir manter-se e ser rentável no longo prazo. Em particular os credores de curto prazo e a gestão da empresa prestam atenção cuidada a este indicador. Selecionaram-se os seguintes rácios:

- Grau de liquidez corrente: mede a capacidade de uma empresa satisfazer o passivo corrente com o dinheiro gerado a partir dos ativos correntes e reflete o montante de ativos correntes por cada unidade monetária (u.m.) de passivos correntes. Em geral, um rácio de 2 u.m. de ativos correntes por cada u.m. de passivos correntes parece ser adequado devido à natureza incerta de determinados ativos correntes (ex.: contas correntes incobráveis ou inventários obsoletos). No entanto, não existe unanimidade quanto a este valor. Eakins (1999), por exemplo, defendia que um rácio acima de 1 poderia proporcionar a segurança desejada;

- Grau de liquidez reduzida: compara ativos correntes altamente líquidos com passivos correntes da mesma natureza. Geralmente é menor do que o rácio anterior porque o denominador fica inalterado e no numerador são retirados os inventários que são menos líquidos. Parece ser indicado manter um rácio de 1 u.m. de ativos correntes altamente líquidos para cada u.m. de passivos correntes pois a empresa poderá satisfazer as dívidas de muito curto prazo.

Os rácios de financiamento, segundo Eakins (1999), medem o nível de endividamento das empresas, estando este intimamente ligado com o risco da empresa.

Como Matos (2013) selecionaram-se os seguintes indicadores:

Os rácios de rendibilidade: medem a performance passada de uma empresa e ajudam a prever o seu nível de rendibilidade futura. Todas as empresas têm de manter pelo menos um nível mínimo de rendibilidade para satisfazer as suas obrigações, tais como o serviço da dívida de longo prazo e o pagamento de dividendos aos acionistas (TERRELL, K. e TERRELL, R., 2005). Selecionaram-se os seguintes rácios:

De acordo com Eakins (1999) os rácios de mercado (financeiro) conferem uma visão da forma como o mercado de ações e obrigações perspetiva o futuro da empresa. Diferem dos outros rácios na medida em que se baseiam, pelo menos em parte, em informação não incluída nas demonstrações financeiras da empresa. Selecionaram-se os seguintes rácios:

Além dos indicadores enunciados anteriormente e devido aos contributos referidos, calculou-se, também, para cada unidade de análise e cada indicador, a respetiva taxa média de crescimento anual (intervalos regulares de tempo) referente ao período de 2010 a 2013, tendo sido aplicada a seguinte fórmula:

Taxa média de crescimento = (presente / passado)1/n - 1

Calculou-se, ainda, o β das empresas à data da decisão de investimento, com o objetivo de comparação com outros indicadores relevantes.

No ponto seguinte procede-se, então, à apresentação e análise dos resultados obtidos.

4 Apresentação e Análise dos Resultados

Procede-se desta forma à análise das empresas Mota Engil, SDC, Teixeira Duarte e Martifer sob o ponto de vista fundamental a partir da análise dos indicadores de liquidez, de financiamento, de rendibilidade e de mercado e respetivas taxas médias de crescimento anual, bem como o β das empresas, com o objetivo de analisar entre estas empresas, qual a que constitui o melhor ativo para investimento, com um potencial de valorização e criação de mais-valias para o investidor.

4.1 Indicadores de liquidez

A tabela 1 apresenta os valores encontrados para os indicadores de liquidez das empresas em análise no período estudado e respetivas taxas médias de crescimento anual.

Da análise dos indicadores de liquidez verificou-se que:

Tabela 1
Indicadores de liquidez
EmpresaAnoGrau de liquidez correnteTaxa média de crescimento anualGrau de liquidez reduzidaTaxa média de crescimento anual
20100.960.58
SDC20110.94-4.43%0.6-10.52%
20121.070.69
20130.80.37
20101.030.63
MARTIFER20111.020.56%0.69-0.63%
20120.860.51
20131.050.62
20100.960.78
MOTA ENGIL20110.941.05%0.73-1,83%
20120.940.67
201310.72
20101.030.6
TEIXEIRA DUARTE20111.08-1.80%0.67-1.76%
20120.90.51
20130.960.56
Fonte: Elaboração própria

4.2 Indicadores de financiamento

A tabela 2 apresenta os valores encontrados para os indicadores de financiamento das empresas selecionadas no período estudado e respetivas taxas médias de crescimento anual.

A análise da tabela 2 permite observar o seguinte:

Tabela 2
Indicadores de financiamento
EmpresaAnoDebt-to-equity ratioTaxa média de crescimento anualRácio de solvabilidadeTaxa média de crescimento anualAutonomia financeiraTaxa média de crescimento anual
201010.950.090.08
SDC201114.3326.19%0.07-20.75%0.07-19.72%
201232.810.030.03
201327.760.040.03
20102.550.390.28
MARTIFER20113.3128.20%0.3-22.00%0.23-18.09%
20124.550.220.18
20136.880.150.13
20107.410.130.12
MOTA ENGIL201110.266.40%0.1-6.20%0.09-5.56%
201210.110.10.09
20139.570.10.09
20104.750.210.17
TEIXEIRA DUARTE20119.7512.27%0.1-10.93%0.09-9.43%
20129.970.10.09
20137.550.130.12
Fonte: Elaboração própria

4.3 Indicadores de rendibilidade

A tabela 3 apresenta os valores encontrados para os indicadores de rendibilidade das empresas selecionadas no período estudado e respetivas taxas médias de crescimento anual.

Tabela 3
Indicadores de rendibilidade
Empresa AnoROATaxa média de crescimento anualROETaxa média de crescimento anualROITaxa média de crescimento anual
20103.01%11.51%0.96%
SDC20113.35%-1.74%-0.11%-
20120.39%-90.57%-2.68%
2013-1.74%-150.00%-5.21%
2010-2.01%-17.80%-5.02%
MARTIFER2011-1.87%--20.76%--4.81%-
2012-1.64%-31.82%-5.74%
2013-2.66%-69.00%-8.76%
20103.82%9.00%1.07%
MOTA 20114.74%13.95%10.54%12.24%0.94%6.00%
ENGIL20124.75%12.65%1.14%
20136.44%14.29%1.35%
20103.09%9.73%1.69%
TEIXEIRA 20111.85%7.37%-78.13%19.29%-7.26%8.04%
DUARTE20125.17%9.52%0.87%
20134.10%19.69%2.30%
Fonte: Elaboração própria

Da análise da tabela 3 constata-se o seguinte:

4.4 Indicadores de mercado

A tabela 4 apresenta os valores encontrados para os indicadores de mercado das empresas selecionadas no período estudado.

Tabela 4
Indicadores de mercado
Empresa AnoEPSDPS (%)Payout ratio (%)PERPBVPCFMKVDiv. Yield(%)
20100.10.010.135.40.62-0.54863.70
SDC20110.010.000.0029.60.51-0.04590.00
2012-0.30.000.00-0.430.390.04210.00
2013-0.320.00.00-1.041.550.02530.00
2010-0.550.000.00-2.670.480.031470.00
MARTIFER2011-0.490.000.00-2.20.46-1.081080.00
2012-0.560.000.00-10.32-0.01560.00
2013-0.690.000.00-1.060.730.73730.00
20100.180.050.309.590.860.033556.32
MOTA ENGIL20110.160.050.336.430.680.0421210.58
20120.20.050.277.810.990.043207.01
20130.250.050.2217.282.470.048812.55
20100.110.010.046.670.650.733072.74
TEIXEIRA DUARTE2011-0.480.000.00-0.440.340880.00
20120.060.010.085.60.53-0.011346.25
20130.150.010.035.841.15-0.043742.25
Fonte: Elaboração própria

Analisados os indicadores de mercado para as empresas selecionadas verifica-se o seguinte:

A tabela 5 evidencia a taxa média de crescimento anual dos indicadores de mercado das empresas selecionadas, no período considerado.

Tabela 5
Taxa média de crescimento anual dos indicadores de mercado
Empresa EPSDPSPayout ratioPERPBVPCFMKVDividend Yield
SDC ----25.72%--11.58%-
Martifer ----11.30%122,10%-16.05%-
Mota Engil 8.35%0%-7.71%15.85%30.03%12.23%25.53%-20.34%
Teixeira Duarte 8.61%0%-7.92%-3.25%15.41%-5.08%-4.83%
Fonte: Elaboração própria

Quanto à taxa média de crescimento anual dos indicadores de mercado constata-se o seguinte:

Assim, ao nível dos indicadores de mercado, a Mota Engil destaca-se, entre os seus pares, em 2013, ao nível do PER, do PBV e do MKV.

4.5 Empresas selecionadas vs setor de atividade

De acordo com Estudos da Central de Balanços divulgados pelo BdP (2010-2013) o setor da construção apresentou nos indicadores analisados e no período de 2010 a 2013 os resultados constantes da tabela 6.

Tabela 6
Indicadores de setor da construção
IndicadoresMédia do agregado setor da construção
2010201120122013
Liquidez
Liquidez Geral (%)129.46133.28137.13141.25
Liquidez Reduzida (%)120.23124.09131.16132.38
Estrutura Financeira
Autonomia Financeira (%)25.4121.1122.2020.50
Taxa de Endividamento (%)393.59437.77450.52498.87
Solvabilidade (%)34.0626.7528.5325.07
Rendibilidade
Rendibilidade dos Capitais Próprios (%)16.13-4.224.927.46
Rendibilidade do Ativo (%)7.243.075.394.74
Fonte: BdP (2010, 2011, 2012, 2013).

Relativamente à comparação dos resultados dos indicadores estudados entre as empresas selecionadas e o setor em que se integram, no período de 2010 a 2013, destaca-se o seguinte ao nível:

- Da liquidez: a liquidez geral (compara com a liquidez corrente) do setor apresentou uma tendência crescente. Enquanto, nas empresas em estudo (exceto a SDC) a tendência foi decrescente até 2012, só melhorando em 2013. De salientar que, enquanto o agregado cumpriu sempre os requisitos da legislação, as empresas selecionadas nem sempre o fizeram. A liquidez reduzida das empresas do setor teve um comportamento semelhante ao da liquidez geral, enquanto nas empresas em estudo, o comportamento deste indicador foi, em geral, um pouco aleatório;

- Do financiamento: a autonomia financeira do setor registou um decréscimo no período, o mesmo se verificando, apenas, nos resultados obtidos pela SDC e pela Martifer. Enquanto, naturalmente, o endividamento apresentou uma tendência inversa. Houve um aumento no quadriénio, o mesmo se verificou nos resultados obtidos pelas empresas em estudo. O setor observou um decréscimo, de 2010 para 2013, da solvabilidade no quadriénio, o mesmo se verificando, em geral, nos resultados obtidos pelas empresas em estudo.

- Da rendibilidade: a média das empresas do setor evidenciou um decréscimo das ROE de 2010 para 2011 (para valores negativos), voltando a crescer a partir de 2012. As empresas em análise (exceto a SDC) tiveram comportamentos semelhantes, embora, melhores do que o setor. Nas empresas do setor o comportamento das ROA foi algo errático, sendo que, entre as quatro empresas, apenas, a Teixeira Duarte registou uma tendência semelhante.

Constata-se, também, que exceptuando os indicadores de rendibilidade em que a Mota Engil (e a Teixeira Duarte na ROA) apresentou em 2013, resultados melhores do que o agregado do setor, em todos os indicadores analisados as empresas estudadas obtiveram resultados inferiores aos deste agregado.

No presente estudo foram, ainda, calculados os β (indicador do risco sistemático) das empresas selecionadas relativamente ao período de 2013. Considerou-se o PSIgeral como sendo o índice representativo do mercado (Tabela 7).

Tabela 7
β das empresas (2013)
SDCMARTIFERMOTA ENGILTEIXEIRA DUARTE
VARIANCIA 0.000150.000150.000150.00015
COVARIANCIA 0.000040.000070.000030.00003
β0.25820.47920.21230.2162
Fonte: Elaboração própria.

Verifica-se que, em 2013, a Teixeira Duarte e a Mota Engil apresentavam um β muito próximo, em comparação com a Martifer que apresentava um β muito superior aos seus pares indicando uma reação mais agressiva do mercado quando de uma variação no índice PSIgeral.

Da mera observação dos dados obtidos (Tabelas 2 e 3 vs 7) e relativamente às empresas em análise, parece poder afirmar-se, diferentemente de Pettit e Westerfield (1972), que em 2013 as empresas que apresentavam o menor β (estando, por isso, menos expostas ao risco de mercado), eram aquelas que se encontravam em melhor posição financeira. Mas, por outro lado, estas eram, também, as que apresentavam melhores rendibilidades, o que contraria a teoria financeira que refere que, em geral quanto maior o risco maior a rendibilidade.

Em síntese, parece verificar-se que, entre as empresas selecionadas, e no período de 2010 a 2013, a que constituía o melhor ativo para investimento com um potencial de valorização e criação de mais-valias para o investidor era a Mota Engil, empresa esta que, em termos das rendibilidades superou mesmo o agregado do setor. Quanto ao risco sistemático, em 2013, as ações destas empresas tiveram um comportamento defensivo pois apresentaram β inferiores à unidade, ou seja, β inferiores ao β do mercado. Também, ao nível da taxa média de crescimento anual a Mota Engil foi, entre as quatro, a empresa que, em média, obteve melhores desempenhos ao nível da liquidez, financiamento, rendibilidade e mercado, embora a Teixeira Duarte tenha também apresentado taxas médias de crescimento anual dos diferentes indicadores passíveis de serem tidas em consideração para constituição de carteira de ativos financeiros.

Ao nível da análise dos indicadores de liquidez, financiamento, rendibilidade e mercado durante o período de 2010 a 2013, a Mota Engil foi, entre as empresas analisadas, a que apresentou menor variação dos indicadores de ano para ano. Esta empresa era, à data da decisão de investimento, também, a que apresentava menor risco sistemático, o que seria vantajoso, sobretudo, para um investidor conservador, dado este tipo de risco não ser controlável nem diversificável. É evidente que esta decisão baseia-se, essencialmente, em indicadores fundamentais que, tal como verificado por Abarbanell e Bushee (1997) e Pavlou, Blanas e Golemis (2007), entre outros, são condicionados por variáveis quer macro quer microeconómicas. Além de que, como defendem Kumar, Mohapatra e Gaurvinder (2013), seria importante proceder, também, a uma análise técnica de avaliação das ações em estudo, no período considerado, pois as análises fundamental e técnica de avaliação de ações complementam-se.

5 Conclusão

A crise económica e financeira atual e o seu impacto nos mercados financeiros têm conduzido a uma cada vez maior incerteza quanto à geração de retorno dos investimentos em Bolsa. A análise fundamental de avaliação de ações tem um papel relevante na seleção das empresas cujas ações poderão ser incluídas na carteira de ativos financeiros.

O setor da construção tem sofrido o impacto da crise referida, associada à crise originada no próprio setor. Devido à instabilidade que se tem verificado as empresas têm-se visto obrigadas a ter uma presença nos mercados globais de forma a procurar a inversão da tendência negativa registada nos últimos anos. Este é um setor de atividade com um elevado peso na economia nacional.

O principal objetivo do presente estudo consistiu em procurar verificar, entre as empresas selecionadas, qual a que constituía o melhor ativo para investimento com um potencial de valorização e criação de mais-valias para o investidor utilizando-se como instrumento básico os indicadores económicos, financeiros e de mercado. Efetuou-se uma pesquisa bibliográfica, documental, quantitativa e de estudo de caso explicativo. A metodologia aplicada baseia-se, sobretudo, em Samaras, Matsatsinis e Zopounidis (2008).

A aplicação da análise fundamental usando os indicadores selecionados permitiu um conhecimento mais profundo do funcionamento das empresas e do setor em geral.

Verificou-se que as empresas do setor da construção enfrentavam um cenário desafiador na procura de novos mercados e de novas oportunidades de negócio. As empresas estudadas possuem uma atividade diversificada relacionada com a construção civil e têm uma importante posição no mercado, constituem mesmo uma referência, tanto interna como externamente.

Constatou-se que entre as empresas estudadas e no período analisado, a que constituía o melhor ativo para investimento com um potencial de valorização e criação de mais-valias para o investidor era a Mota Engil. Ao nível da taxa média de crescimento anual foi a empresa que, em média, obteve melhores desempenhos nos indicadores selecionados da liquidez, financiamento, rendibilidade e mercado e foi, também, a empresa com menor risco sistemático. No entanto, as ações da Teixeira Duarte, com resultados, em geral, não muito distantes, também, poderiam ser integradas na carteira de ativos financeiros com o mesmo objetivo. Verificou-se, ainda, que as ações das quatro empresas, em 2013, apresentavam um comportamento defensivo o que pode ser interessante, especialmente, para os investidores com um perfil de risco conservador.

Reconhece-se algumas limitações no presente estudo como seja o facto de se tratar de um caso de, apenas, quatro empresas; as características da própria análise pois os resultados são válidos só para o contexto do caso; e o uso de indicadores que comporta alguns inconvenientes (ex.: tratam, apenas, dados quantitativos e, a comparação com outras empresas similares ou do setor, poderá originar falsas interpretações pois poderão estar subjacente políticas e práticas contabilísticas distintas). Além de que a análise podia ser complementada com a análise técnica. No entanto, considera-se que o estudo pode constituir um exemplo de um caminho a seguir na avaliação de ações com base na análise fundamental, para posterior decisão de investimento, pois observou-se o estado da economia e do setor, no período, e calculou-se indicadores fundamentais relevantes. Efetuou-se, depois, a comparação dos resultados obtidos para as empresas selecionadas com os do setor e discutiu-se uma eventual relação entre o risco sistemático e os referidos resultados dos indicadores.

Como possíveis linhas de investigação futura poder-se-á aprofundar a análise acrescentando um outro conjunto de indicadores (por exemplo, indicadores de cash flow) que possa explicar melhor a situação e conduzir a uma melhor seleção das ações a incluir na carteira de ativos financeiros. Ou, ainda, estudar empresas de outros setores de atividade com menor ou maior risco e no período pós-crise.

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Notas

1 No contexto da análise fundamental podem ser considerados vários modelos de equilíbrio (ex.: Capital Asset Pricing Model (CAPM) e Arbitrage Pricing Theory (APT) e de valorização intrínseca (ex.: modelo de Gordon-Shapiro; modelo de Malkiel; modelo H; modelo de Molodovsky; modelo de Bauman). No entanto, este tema não é desenvolvido no presente estudo.

Autor notes

Rui Carlos Lobo Miranda. Mestre em Contabilidade e Finanças pela Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal. Endereço: Campus do IPS - Estefanilha. CEP: 2914-503 - Setúbal - Portugal. E-mail: rclmiranda@sapo.pt. Telefone: 351 265 709 300.
Maria Teresa Venâncio Dores Alves. Doutora em Gestão, Especialidade Contabilidade no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e das Empresas. Professora Coordenadora da Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto. Politécnico de Setúbal. Endereço: Campus do IPS - Estefanilha. CEP: 2914-503 - Setúbal - Portugal. E-mail: teresa.alves@esce.ips.pt. Telefone: 351 265 709 300

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