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MUITO LASTRO, POUCA VELA: A HERANÇA INCÔMODA DE NICHOLAS WADE. WADE, Nicholas. Uma herança incômoda: genes, raça e história humana. Traducao Pedro Sette-Camara. Sao Paolo: Tres Estrelas, 2016. 336p.
Afro-Ásia, núm. 53, pp. 323-327, 2016
Universidade Federal da Bahia



Há livros que nascem polêmicos. Outros que, por conta do seu conteúdo, criam polêmicas. Outros, ainda, cuja razão de ser é apenas, e tão somente, gerar a polêmica. Ou seja, na própria tessitura do texto já se apresenta (ou encobre) sua intenção maior: provocar o leitor e assim fazer fumaça. A característica desse tipo de obra segue, em geral, um mesmo padrão: por mais que se leia, é difícil entender a calibragem e a seriedade da polêmica.

Pois bem, me refiro ao novo livro de Nicholas Wade, Uma herança incômoda. Wade é um jornalista britânico dos mais conhecidos, especializado na cobertura e divulgação científicas. Formado em Ciências pelo King’s College, em Cambridge, Reino Unido, por lá também terminou seu Mestrado. Na década de 1970 mudou-se para os Estados Unidos e nesse país ele se voltou mais diretamente para o jornalismo. Foi repórter e editor de revistas importantes, como Nature e Science, e colaborou, de forma frequente, em jornais de destaque, como o The New York Times. Hoje aposentado, Wade desenvolve, sem sombra de dúvida, uma carreira consistente na área de divulgação científica, sobretudo interessado na veiculação de novas obras, teorias e seus intérpretes.

Em questão não está, portanto, o percurso do autor do livro; mais interessa entender o objeto maior dessa obra em particular e dimensionar a repercussão que tem gerado. O autor dividiu a crítica. Muitos o chamaram de racista, a despeito dele abrir e fechar o livro dizendo que não é. Wade também foi aclamado pela direita, que viu na obra uma justificativa para políticas que vêm hostilizando imigrantes e adulando comportamentos xenófobos. Por es- sas e outras, acabou muito hostiliza- do pela academia; por sinal, e como veremos, o alvo dileto de ataque do jornalista.

E não é para menos: usando a famosa técnica do “bate e sopra”, Wade usa de afirmações fortes, para depois, e nos detalhes, diminuir os efeitos de suas próprias conclusões. A retórica também deve muito a esse gênero de livro (divulgação científica), que inclui “teses gerais”, mas evita, sempre, dar “nome aos bois”; isto é, deixar explícito a quem está se opondo.

Mas vamos logo à tese central. Wade afirma que os intelectuais — os cientistas humanos e em especial os historiadores e antropólogos —, por motivos meramente políticos, e temendo serem chamados de “racistas”, acabaram negando e camuflando dados tão “científicos” como “objetivos.”

Já sabemos onde deu e tem dado essa boutade, que supõe que existiria “racionalidade” apenas num tipo de pensamento, e tão somente “subjetividade e superficialidade” em outro. Muitas guerras e conflitos foram provocados e sustentados por esse tipo de falácia, que significa supor que só há “certeza” no reino das ciências e das ciências que se escolhe. Sabemos, porém, e a história está aí para provar, como os cientistas estão tão sujeitos aos ares nervosos de seu tempo como nós, cientistas sociais e humanos.

Em entrevista à Folha de São Paulo, por exemplo, mais exatamente no dia 22 de setembro de 2016, Wade afirmou:

Senti que era meu dever contar ao público o que estava sendo desco- berto sobre a natureza das raças humanas — os fatos estavam todos lá, na literatura científica, mas colocados de uma forma oblíqua, por meio de uma série de eufemismos. Parecia que os cientistas estavam traindo o público e sendo subservientes a uma ortodoxia política que, nas uni- versidades de hoje, inclina-se muito à esquerda.

Termos como esses — “missão”, “traição”, “ortodoxia”, “esquerda” — estão presentes não só nas páginas do jornal, como aparecem a todo momento no livro. Sabemos que palavras não são ingênuas, até porque carregam consigo os usos da história e certos significados políticos. O pressuposto do autor, porém, é que o livro viria “redimir” e “iluminar” o que nós, cientistas humanos, insistimos em “esconder.” Por isso o estilo da obra é didático, com o jornalista se esforçando em “ajudar” o leitor a, finalmente, entender o que há por detrás desse grande conluio universitário.

A ideia central está contida no último trecho de Herança incômoda, justamente chamado “Compreendendo a raça”. Vamos a ele:

A ideia de que as populações humanas são geneticamente diferentes uma das outras tem sido fortemente ignorada por acadêmicos e por criadores de políticas públicas por medo de que essa investigação possa promover o racismo. (p. 298)

Ou, ainda, nos últimos dois parágrafos:

A visão pressuposta de muitos acadê- micos é que a evolução humana parou no passado distante [...]. Normalmente se considera que o conhecimento é uma base melhor para as políticas públicas do que a ignorância.... (p. 301)

Como se vê, o autor comunga da noção de que apenas um complô da academia permitiria gerar tal “obscurantismo”, o qual implica em não deixar perceber que raças são fenômenos reais, bem como a evolução humana. E ele está falando aqui de genética. Trocando em miúdos, o jornalista acusa os cientistas humanos de preferirem silenciar sobre a questão do que dizer a verdade e assim informar corretamente à população.

Fico imaginando que, de um lado, Wade confere imenso poder à “academia” e aos cientistas humanos, uma vez que, por mais de um século, eles teriam conseguido lograr o tento de evitar que a “verdade” viesse à tona. Se fico de alguma maneira “envaidecida” com tal hipótese, que envolve dar a nós, historiadores, sociólogos e antropólogos, um imenso poder, por outro, me pergunto por que o jornalista não se preocupa em fazer um balanço e mostrar, com detalhes, aonde reside esse verdadeiro ato de expropriação intelectual. A acusação é séria; por- tanto, o mínimo que se espera de um “cientista” é sua comprovação.

O paradoxo é que não faltam obras sobre o assunto. Afinal, desde finais do século XIX o tema foi amplamente debatido nesses ambientes que Wade localiza como “a academia”, e está longe de representar um consenso. Se não temos espaço para refazer todos os caminhos dessa imensa produção, nem seria o caso nessa resenha, ninguém há de negar que existe imenso e consolidado debate sobre o tema. São muitos os estudiosos que admitem, sim, a ideia de que existiriam diferenças pequenas entre as raças, mas que elas não teriam grande poder explicativo. Existem outros, ainda, e me incluo modestamente entre eles, que apostam na tese de que, mais importante do que delimitar se raças existem ou não, trata-se de apontar como as sociedades criam “raças sociais.” Ou seja, a maneira como as sociedades reproduzem e trapaceiam com a natureza, criando novos marcadores sociais da diferença, como classe, região, geração, gênero, sexo, e raça também. Essas práticas, por sua vez, têm enorme papel na produção de racismos, discriminações e diferen- ças que, de meramente acidentais, tornam-se fundamentais.

Assim, menos do que apostar na existência (ou não) de raças biológicas, o que preocupa — ainda mais nos dias de hoje — é o uso político que se faz dela. Aliás, esse é outro perigo em que incorre essa obra em particular.

Ainda mais, como o objetivo do livro é antes desqualificar, e não fazer um balanço e lidar com as dife- renças de opinião, ou até com os efeitos (reais e racionais) que o debate sobre raças criou em vários contextos históricos, Wade acha por bem citar e atacar, basicamente, um antropólogo alemão, Franz Boas, radicado nos EUA entre finais do século XIX e inícios do XX, e um etnólogo francês, Claude Lévi-Strauss, e assim liqui- dar o assunto. Os dois seriam quase “exemplares” emblemáticos de um comportamento mais disseminado.

Ocorre que Boas, em primeiro lugar, teve um papel monumental no contexto em que defendeu suas teses contra o evolucionismo e contra o determinismo racial, teoria que fazia grande sucesso naquele momento. Boas acompanhava, apreensivo, o crescimento da intolerância de fundo racial, tanto na Europa como nos Estados Unidos, e foi líder de uma escola antropológica — a escola culturalista — que defendeu uma pauta revolucionária no seu tempo. Invertendo a equação evolucionista, que supunha que “consequências gerais” eram resultado de “causas iguais” — ou seja, povos que usavam máscaras (a consequência) só poderiam corresponder ao mesmo estágio de evolução (selvageria, diriam os teóricos evolucionistas) —, ele deu um verdadeiro nó na teoria da época. Mostrou que “efeitos iguais” pode- riam decorrer de “causas” diferentes, e que as culturas tinham a capacidade de criar e consolidar novas reali- dades, e de maneira reflexiva. Quer dizer: produziam costumes, hábitos, imaginações, sociedades por sua ca- pacidade metalinguística. O suposto era que não apenas existiam culturas, mas que o conceito era muito mais do que decorrência imediata e fácil da biologia. Carregava sua própria lógica e era essa lógica que ele queria estudar e explorar.

Ataque também leviano recebeu o etnólogo francês Claude Lévi-Strauss. Sem se referir a qualquer obra dele em específico, Wade o acusa de difundir uma visão essencialista da cultura. Ora, estruturalista que era, Lévi-Strauss jamais afirmaria que a cultura “é” algo. Ela só “está”, pois se revela como um conceito sempre “em relação” e, nesse sentido, “relativo.” Enfim, a tática de Wade parece ser exatamente essa: de alguma maneira caricaturar autores e obras clássicas, e assim seguir em frente com sua tese.

Mais reveladora é a estrutura de Herança incômoda. O livro é dividido em duas partes. A primeira versa sobre as diferenças genéticas mais gerais entre as chamadas raças humanas, e não é muito controversa em seu conteúdo. Penso que hoje em dia ninguém se daria ao luxo de negar esse tipo de tese, ou supor que diferenças genéticas são inócuas na nossa história familiar, por exemplo. A questão é entender a proporção e a importância delas, e aí é que mora o perigo.

A segunda parte do livro é definida, pelo próprio jornalista, como “uma conjectura” ou “um palpite bem informado.” O argumento central é que existiria uma diferença sutil no comportamento social apre- sentado nas várias regiões do mundo, em especial no que se refere ao nível de confiança entre os indivíduos. Ao longo da história, tal “diferença” teria levado ao desenvolvimento de civilizações com características em tudo distintas. E dá-lhe comparação pretensamente isenta, quando menciona as variações hoje perceptíveis entre, por exemplo, a “civilização europeia” e a “civilização africana.”

Tudo é explicado de forma su- postamente lógica — do tipo dois mais dois são quatro —, sem prestar atenção, por exemplo, e como mos- tra Claude Lévi-Strauss em Raça e história, qual seria o índice da comparação. Ora, comparamos tecnologias e não padrões de religiosidade.

Se os critérios fossem outros, os resultados seriam também distintos.

Mas o que Wade deixa mesmo de lado é a própria história. Na verdade, seria preciso entender o quanto a assim chamada “civilização europeia” foi culpada pelo que ocorreu com a “civilização africana.” Vamos ao óbvio: na história moderna uma metrópole jamais foi colônia ou teve um passado colonial, assim como uma nação imperial nunca teve que sofrer o padrão de exploração vigente nos seus domínios. Além do mais, hoje sabemos que o que cria o desenvolvimento de poucas nações é exatamente o subdesenvolvimento de muitas outras. Portanto, tomadas fora de contexto, as realidades po- dem parecer mais autoevidentes do que deveras o são.

Mais uma vez, o suposto é que na ciência tudo é límpido, nada borra os resultados; nem ao menos a (danada da) realidade. Mas o que mais impressiona é como o próprio jornalista é o primeiro a reconhecer como a “nossa base genética” é em tudo “plástica” e “flexível”, e como os genes não determinam nosso comportamento; só “dão um ligeiro empurrão numa direção ou outra”, conclui ele (p. 123). E assim, se a questão é tão diminuta, por que abrir guerra contra aqueles que o jornalista localiza como meros “ideólogos” que só estão nessa vida para mascarar as certezas da genética? Por que valer-se de uma batalha que não se sustenta até o final, uma vez que ela não passa, nos próprios termos do jornalista, de mera “conjectura”?

Peço, assim, perdão aos leitores por conta do estilo mais informal dessa resenha. Ela segue, acreditem, o estilo de Wade. Também gostaria de explicar a tímida inclusão de referências bibliográficas. Elas precisariam ser muitas, demasiadas, e, mais uma vez, me oriento pela condução do autor de Herança incômoda —que acusa sem jamais citar; permite-se omitir debates de maneira aprofundada; e até mesmo se escusa de explicar o que teóricos com os quais discorda efetivamente escreveram ou defenderam.

Debates em torno de conceitos, interpretações variadas, modelos diversos são sempre bem vindos. Sou partidária do diálogo aberto e sempre julgo que diferença é mais, nunca menos. O que não vale é perpetuar uma imagem de “certeza” onde encontramos o terreno da especulação. Pior ainda é, como diz o ditado, usar um canhão para matar um passarinho. Se os genes pouco explicam, a questão que resta é por que insistir em tamanha repercussão?

Como diria o historiador Sérgio Buarque de Holanda, nesse caso, me parece “muito lastro para pouca vela.”



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