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O RECRUTAMENTO DE NEGROS NAS TROPAS DA UNIÃO DURANTE A GUERRA CIVIL AMERICANA *
African American recruitment in the Union Army during the American Civil War.
Afro-Ásia, núm. 55, pp. 175-210, 2017
Universidade Federal da Bahia

ARTIGOS


Recepção: 2 Março 2016

Aprovação: 7 Junho 2016

Resumo: Este artigo discute os dilemas do alistamento de afro-americanos, culminando no difícil, complicado e bem-sucedido arranjo que levou à criação dos United States Colored Troops (USCTs), as tropas negras que lutaram pelo exército da União durante a Guerra Civil (1861-1865). Após um breve histórico da participação dos negros nas guerras travadas pelos Estados Unidos no período anterior à secessão, investigo as condições sob as quais a administração republicana decidiu pelo recrutamento de afro-americanos. O presente artigo examina as controvérsias políticas que marcaram o recrutamento e a organização específica dessas unidades de combate. Finalmente, demonstro como o recrutamento dos afro-americanos, especialmente no Sul, acelerou o processo de abolição e de concessão de direitos, beneficiando livres, libertos e escravos.

Palavras chave: Guerra Civil Americana, segregação, afro-americanos, emancipação, exército da União, nacionalização.

Abstract: This paper discusses the dilemmas involved in recruiting African Americans, culminating in the difficult, complicated, but successful arrangement that lead to the creation of the United States Colored Troops (USCTs), the black units that fought for the Union during the American Civil War (1861-1865). After a brief review of black participation in wars fought by the United States during the antebellum period, I investigate conditions under which the Republican administration decided in favor of the recruitment of African Americans. This article will examine the political controversies around the recruitment, and the specific organization of black combat units. Finally, I will show how African American recruitment, especially in the South, accelerated the processes of abolition and the extension of rights, benefiting the free, the freed people and the slaves.

Keywords: American Civil War, segregation, African Americans, republican administration, emancipation Union Army.

Na sua autobiografia, Turlow Weed descreveu o assassinato do Major Benjamin Brisdall num acampamento militar em Albany. A tragédia ocorreu em 1817, quando Weed iniciava suas atividades como advogado e político na capital do estado no qual seria figura central nas máquinas partidárias Whig e, posteriormente, Republicana. A vida de Brisdall chegou ao fim pela mão de um dos seus comandados, o soldado Harrison. Tratava-se de um veterano branco que servira continuamente sob suas ordens desde a guerra de 1812 contra os ingleses. Cinco anos depois, o major Brisdall realistou outro veterano da mesma guerra. Tratava-se de um “mulato claro”, que foi descrito como “um soldado jovem e de boa aparência”. Era raro que não brancos servissem na milícia, mesmo nos estados do Norte. Essa ocupação era uma marca da cidadania e, portanto, um privilégio destinado apenas a brancos. O que fez a diferença nesse caso é que o major Brisdall pretendia improvisar o novo soldado como seu garçom, ou seja, um servidor pessoal do seu comandante, não alguém destinado a pegar em armas. É possivel que Brisdall acreditasse que essa pequena brecha nas rígidas convenções raciais então vigentes na organização militar norte-americana pudesse ser tolerada pelos demais soldados. De acordo com o relato de Weed, que posteriormente serviu como advogado de defesa do assassino, o alistamento de um negro deixou Harrison fora de si: “Quando Harrison soube que um negro havia sido recrutado ele carregou seu rifle, e partiu em busca do ‘negro’ que, informado das ameaças a sua vida, manteve-se escondido, até que Harrison o viu atrás de uma barraca”. Naquele momento, o major Brisdall ordenou a Harrison que “voltasse para o seu lugar”. “O rifle, que já estava carregado para atirar no soldado, foi instantaneamente utilizado contra o major”. Em sua defesa, Weed atribuiu o crime de Harrison à influência do álcool, observando que: “Se estivesse sóbrio, teria arriscado a própria vida para defender Brisdall”. 1

Este artigo discute os dilemas do alistamento de negros no exército norte-americano, culminando no difícil, complicado e bem-sucedido arranjo que levou à criação dos United States Colored Troops (USCTs), as tropas negras que lutaram pelo exército da União durante a Guerra Civil (1861-1865). 2 Após um breve histórico da participação dos negros nas guerras travadas pelos Estados Unidos no período anterior à secessão, investigarei as condições sob as quais a administração republicana decidiu pelo recrutamento de afro-americanos. Ao fazê-lo, examinarei as controvérsias políticas que marcaram o recrutamento e a organização específica dessas unidades de combate.

Os negros na tradição militar norte-americana

O recrutamento de negros sempre foi marcado pela ambivalência na América Inglesa. Durante o período colonial, fatores demográficos e o preconceito racial latente restringiram o recrutamento de afrodescendentes. 3 Nas treze colônias, o uso de soldados negros era limitado pelo predomínio de uma população branca (da qual podiam ser retirados os milicianos), pela existência de pequeno aparato militar e pela forte conexão entre o serviço militar e a cidadania. 4 Consequentemente, o direito a portar armas ou ser temporariamente alistado na milícia inexistia (pelo menos oficialmente) para os negros, fossem escravos, libertos ou livres. A milícia fornecia uma das bases cívicas para a identidade dos colonos, mas esse caminho encontrava-se aberto apenas para aqueles considerados como cidadãos, isto é, homens brancos não servos. 5

A exclusão dos negros não significou, entretanto, a impossibilidade do seu alistamento. A necessidade de soldados levou, geralmente, ao recrutamento de minorias segregadas na maioria das sociedades coloniais, e a América Britânica não foi exceção a esse costume. Os descendentes de africanos sempre estiveram presentes nos períodos mais turbulentos, preenchendo as fileiras para lutar contra os inimigos dos colonos. 6 Ainda que as condições demográficas reforçassem a segregação racial nas milícias, ela podia ser suspensa temporariamente quando alguma emergência se interpusesse. Como a historiografia produzida ao longo dos últimos vinte anos demonstrou, emergências desse tipo eram mais comuns, com negros sendo chamados para lutar nas revoltas coloniais como a Rebelião de Bacon na Virgínia, em 1676, nas campanhas contra os índios, tais como a guerra dos Tuscarora entre 1711-1712 e a Guerra dos Yamasee, na Carolina do Sul, em 1715. 7 De acordo com Peter Voelz:

O desespero constituiu uma condição para o recrutamento e o armamento dos negros, escravos e livres, no contexto colonial. Foi necessária uma emergência para superar os temores habituais dos fazendeiros e senhores, temores não apenas de que os escravos pudessem voltar suas armas contra seus senhores, mas também de que eles pudessem se juntar ao inimigo e destruir a colônia. 8

Os colonos da América Inglesa discutiram o alistamento de negros no exército numa escala nacional durante a guerra de independência (1775-1781). 9 Os líderes do lado patriota encararam um conflito extenso até levarem os ingleses e seus aliados locais à mesa de negociações. Da mesma forma que havia ocorrido em outras revoltas coloniais, as lideranças pró-independência enfrentaram uma crônica falta de soldados. A ideia de um exército profissional constituía anátema para a população, tornando difícil manter uma grande quantidade de soldados nos acampamentos por períodos mais longos. Dos 300.000 soldados americanos que, possivelmente, lutaram na guerra do lado patriota, estima-se que 5.000 (1,6%) eram negros. 10 Basicamente, os negros substituíram os brancos mais afluentes em batalhões não segregados, servindo na maioria dos teatros daquela campanha. Alguns desses mesmos indivíduos eram homens livres de cor que se alistaram voluntariamente. 11 Outros eram escravos, que viram na participação militar uma boa oportunidade de ganhar sua liberdade nos campos de batalha por meio de uma alforria condicional. 12 Os negros do Sul, por razões óbvias, não participaram significativamente, ainda que muitos tenham se alistado no lado britânico, especialmente após o oferecimento da liberdade feito por Lorde Dunmore.

Segundo Alain Taylor, no início de 1776, cerca de 800 escravos com suas famílias afluíram ao acampamento de Dunmore. Tão forte foi o impacto da proclamação de Dunmore, que o administrador da fazenda de George Washington, situada bem ao norte do referido acampamento, informou que “não há um homem entre eles [os escravos] que não nos deixaria se acreditasse ser possível escapar”. 13 De fato, a guerra desestabilizou a existência da escravidão no Sul por pelo menos uma década. A posição insegura das colônias do Sul foi manifestada anos depois numa carta enviada por um comitê de fazendeiros, intitulado Comitê de Defesa da Louisiana, para o general Andrew Jackson, descrevendo a região como “forte por natureza, mas extremamente fraca pela composição da sua população”. 14

Em 1792, o Congresso aprovou o Federal Militia Act, que definiu a milícia em todo o território como composta por “cidadãos brancos, livres e capazes dos respectivos estados”, 15 ato esse que manteve o controle da milícia pelos estados, incorporando restrições raciais que excluíam os negros e os índios do serviço militar. Essas restrições também se aplicavam ao exército profissional, drasticamente reduzido no pós-guerra, excetuando apenas os ocasionais batedores negros e índios, que não eram considerados como soldados regulares. Grande parte do exército foi transferida para guarnições nas fronteiras, tornando a carreira pouco atrativa para indivíduos mais ambiciosos. 16

A despeito da segregação oficial, os negros continuaram sendo alistados quando alguma emergência afetava os padrões raciais dominantes. Durante a guerra de 1812, negros livres foram aceitos em vários estados. Nas tropas organizadas na Louisiana pelo general Andrew Jackson, dois batalhões, compostos por 180 soldados cada, enfrentaram forças britânicas que possuíam entre 1.000 e 1.500 soldados negros, a maioria recrutada nas colônias caribenhas. Mas as operações das forças britânicas, especialmente na Virginia, demonstraram o perigo potencial dos escravos, quando a liberdade era oferecida pelo inimigo, tal como fizeram os ingleses, recrutando agressivamente os fugitivos das plantações costeiras daquele estado. A despeito desse recurso, não era objetivo dos ingleses acabar com a escravidão nos Estados Unidos. Apenas estavam interessados em desestabilizar as regiões costeiras, recrutando alguns escravos como fuzileiros.

Do lado norte-americano, o recrutamento de negros continuou nos anos finais do conflito. Por seus esforços na guerra de 1812, especialmente na batalha de Nova Orleans, os veteranos afro-americanos foram citados por Andrew Jackson como merecedores de reconhecimento por bravura em combate. A despeito dessa consideração prestada por seu líder militar imediato, esses mesmos contingentes foram rapidamente desmobilizados. Pelas décadas seguintes, pouco mudaria na postura da instituição, mesmo em face da crônica falta de soldados. 17

A questão racial durante a crise da secessão

Quando a Guerra Civil começou, a questão do alistamento negro tornou-se um dilema para o governo da União. O governo federal deveria ser a arena decisória dessa questão por estarem os estados proibidos de alistar negros em suas milícias. As comunidades negras do Norte e seus aliados do movimento abolicionista exigiam a inclusão de afrodescendentes nas tropas organizadas pela União. A liderança negra via oportunidades na crise, engajando-se numa campanha para o recrutamento de afro-americanos. Dessa forma, eles esperavam que as contribuições negras ao esforço de guerra fossem compensadas, ajudando os afro-americanos a obter ambas: a emancipação e a cidadania a partir da sua contribuição ao esforço de guerra. Em outubro de 1861, os “cidadãos de cor” de Cleveland expressaram publicamente seu apoio à causa da reunificação do país, declarando que: “Nós rezaremos pela União, doaremos [dinheiro] para a União, e lutaremos pela União”. Mas a maior parte da população do Norte apoiava a decisão de Lincoln de que apenas brancos deveriam ser alistados. O preconceito era forte nos estados da União, e poucos brancos fora dos círculos abolicionistas acreditavam que os negros teriam a têmpera necessária para aguentar os combates. Frederick Douglass, o mais famoso dos líderes abolicionistas negros, lamentou a recorrência desses argumentos num editorial publicado em maio de 1861: “Estamos prontos para partir, sentindo-nos felizes em servir e sofrer pela causa da liberdade e das instituições livres. Mas vocês não nos deixarão ir”. 18

No início das operações, grande parte da liderança republicana apoiava as restrições raciais, acreditando que a segregação ajudaria a alcançar o objetivo principal: trazer de volta os estados separatistas com o mínimo possível de danos. Uma política restritiva auxiliava a ambos: o governo federal e as legislaturas estaduais alinhando-se, simultaneamente, com as tradições racistas do serviço militar nos Estados Unidos. Essa posição também era consistente com a devoção de Lincoln à Constituição, tal como existia até então. Um dos temas favoritos de Lincoln dizia respeito à excepcionalidade da experiência norte-americana. 19 Durante os primeiros meses da guerra, o presidente lutou para manter os Border States na União. 20 Esses estados, apesar de possuírem escravos, tinham uma expressiva população livre, constituindo uma vantagem militar significativa no tocante à invasão do Sul. Por outro lado, Lincoln também esperava pela materialização do apoio dos setores unionistas da confederação, sulistas contrários à secessão, boa parte deles ligados ao antigo partido Whig. Portanto, nesses primeiros tempos, a não interferência com a escravidão nos estados nos quais a instituição era sancionada pela lei constituía um dos pilares da política oficial da administração republicana. Essa posição ficou bem clara no discurso de posse, quando afirmou: “Não tenho a intenção, direta ou indireta, de interferir com a instituição da escravidão nos estados nos quais ela existe”. 21

O exército da União em face dos fugitivos

Logo que as tropas da União começaram a atravessar territórios do Sul, seus comandantes tiveram de escolher como lidar com os escravos fugitivos que chegavam aos acampamentos. No início da guerra, os regimentos do Norte constituíam microcosmos das suas comunidades, refletindo os costumes e preconceitos existentes em diferentes partes da região. Para muitos soldados, ver o Sul pela primeira vez foi uma experiência que os convenceu de que se tratava de uma sociedade atrasada, carente de mudanças fundamentais. Como observou um soldado: “Eles [os sulistas] são certamente o povo mais primitivo e ignorante com quem já tive contato”. 22

O comportamento dos soldados do Norte e suas atitudes a respeito dos escravos são temas de acirrados debates historiográficos. A maior parte das análises concorda que a condenação da escravidão pelo Norte não levou à aceitação dos negros como iguais. 23 Muitos soldados condenavam a escravidão, demonstrando, simultaneamente, reservas quanto aos negros, fossem livres, libertos ou escravos. Com a exceção de alguns abolicionistas e dos negros do Norte, nem a sociedade nortista como um todo nem o partido Republicano apoiavam a extensão completa dos direitos de cidadania aos negros (ainda que alguns republicanos o fizessem individualmente). Essa posição pode ser comprovada pela extensão dos “códigos negros” que existiam na maioria dos Estados da União, com exceção dos Estados da Nova Inglaterra. De acordo com Leon Litwack, a extensão da antiescravidão e do sentimento antissulista em 1860 não podem ser tomados como um índice do sucesso do abolicionismo, uma vez que muitos republicanos, provavelmente a grande maioria, se opunham explicitamente à doutrina da abolição imediata, e os negros não compartilharam dos direitos inerentes à expansão da democracia durante a primeira metade do século XIX. 24 Somente depois de muitos anos e milhares de vítimas, foi possível à ala radical do partido Republicano adquirir força suficiente para organizar essas demandas numa plataforma política consistente. Mas apenas após o final da guerra é que essa plataforma se mostraria capaz de operar grandes transformações nas estruturas raciais da nação. 25

Com a mobilização militar do Norte e a consequente ocupação de territórios sulistas no entorno da capital, os acampamentos militares começaram a receber levas de escravos fugitivos provenientes do “upper south”. Inicialmente, essas levas eram compostas, predominantemente, por escravos jovens do sexo masculino. Aos poucos, entretanto, famílias inteiras começaram a afluir, num movimento que se generalizaria para outras partes do Sul. Nem as ameaças senhoriais, nem as patrulhas das milícias estaduais confederadas conseguiram deter essas movimentações escravas. Os deslocamentos dos cativos afetaram tanto a economia como o esforço de guerra confederado, um fato de importância vital para o desenrolar da guerra. Claramente, os escravos “votavam com seus pés”, abandonando as plantações em direção aos exércitos da União. 26

Não houve uma resposta uniforme aos fugitivos. Como as comunicações com Washington eram lentas, muitos comandantes arbitraram pessoalmente o tratamento dispensado aos escravos que chegavam às linhas da União. As respostas dependeram das crenças morais de cada comandante, assim como das relações entretecidas entre o comandante, seus soldados e os escravagistas da região. Enquanto alguns entenderam, imediatamente, a importância dos escravos para o esforço de guerra confederado, outros preferiram retornar os fugitivos, esperando obter a cooperação dos proprietários leais à União. Durante a campanha da Península (mar.-jul. 1862), o Major General John A. Dix esforçou-se para excluir os escravos das suas linhas, garantindo aos proprietários que “instruções especiais foram dadas para que não se interfira na condição de qualquer pessoa presa ao serviço doméstico”. Essa posição contemporizadora foi criticada por alguns republicanos, como o deputado Owen Lovejoy, de Illinois, que declarou não ser “parte do dever dos soldados dos Estados Unidos capturarem e retornarem escravos fugitivos”. 27

A situação de cada grupo de escravos variou segundo as circunstâncias. Em alguns casos, os escravos deixaram seus senhores; em outros, os próprios senhores haviam fugido, deixando seus escravos para trás; ainda em outros casos, os senhores ficaram, declarando sua lealdade à causa da União. A primeira situação envolvia decisões de caráter pessoal ou coletivo da parte dos escravos. Desde o início da guerra civil, muitos escravos perceberam que o conflito levaria à destruição da escravidão e, assim, se pudessem escapar para as regiões controladas pelo exército da União, encontrariam a liberdade. Susie King Taylor, uma jovem escrava da Carolina do Sul descreveu suas impressões à época em que sua família escapou: “Eu queria tanto encontrar esses maravilhosos Yankees, enquanto ouvia meus pais dizerem que os Yankees iriam nos libertar a todos”. 28 Outro fugitivo, informado por um general da União de que não poderia se alistar no exército porque “não se tratava de uma guerra do homem negro”, respondeu “que seria uma guerra do homem negro antes que eles [os brancos] percebessem”. 29

Durante os primeiros meses da guerra, a região do Tidewater, no Estado Sulista da Virgínia, foi o teatro no qual as tropas da união mais frequentemente encontraram escravos fugitivos. De acordo com Gerteis, a população negra sob controle do governo federal na Virgínia cresceu de, aproximadamente, 1.500 pessoas no início de 1862 para quase 5.000 ao final daquele mesmo ano. O general Benjamin Butler, então no comando das forças estacionadas no Forte Monroe, recusou-se a retornar fugitivos sob a alegação de que eles deveriam ser considerados como “contrabando de guerra”. A justificativa de Butler foi útil para os esforços de guerra do Norte, porque ela associava o trabalho dos fugitivos às necessidades militares sem basicamente definir um status para os deslocados pela guerra. A partir de então, a expressão “contrabandos” se generalizou, criando um precedente para a inclusão desses refugiados no esforço de guerra nortista. 30

A situação daqueles que procuravam ajuda sob a proteção das forças nortistas era precária. Em muitos acampamentos, o número de mulheres e crianças ultrapassava significantemente o de homens. Um relatório feito num campo de fugitivos em Natchez, Mississippi, de 12 de dezembro de 1863, apontava 495 homens, 1.612 mulheres e 875 crianças, para um total de 2.982 refugiados. Os fugitivos que entravam em contato com as forças federais precisavam ser alimentados, vestidos e abrigados. Eles também tinham de ser colocados para trabalhar tão rapidamente quanto fosse possível, ou se tornariam um obstáculo para um exército ávido por suprimentos, cujos movimentos não poderiam ser retardados por refugiados. 31 Em parte, para aliviar o problema, o Congresso aprovou o Segundo Ato do Confisco em 6 de agosto de 1862. Essa lei permitia aos comandantes da União confiscar e empregar os escravos que vinham sendo usados pelos confederados ou que trabalhavam para senhores leais à Confederação. O ato confirmava, basicamente, a política instituída pelo general Butler no Forte Monroe. O senhor que permitisse que seus escravos fossem usados contra o governo anulava sua reivindicação pelo trabalho do seu escravo. O ato nada fez, entretanto, em favor daqueles escravos que não se encontravam prestando serviços aos confederados. 32

As relações entre soldados e fugitivos tornaram-se mais complexas à medida que as forças da União avançavam para o coração da Confederação, assumindo o controle de plantações e lidando com populações negras cujo trabalho era potencialmente útil ao esforço de guerra. Inicialmente, o problema de administrar amplas populações de escravos constituiu uma dificuldade adicional para o exército da União. Quando as ilhas oceânicas da Carolina do Sul foram ocupadas, em novembro de 1861, os senhores e suas famílias abandonaram a região, deixando para trás uma população escrava de cerca de 10.000 pessoas. Os escravos, assim como as plantações, foram, a partir de então, supervisionados pelo Departamento do Tesouro. O experimento de Port Royal, como essa situação ficou conhecida, uniu diferentes expectativas que existiam no Norte, versando sobre a capacidade de aplicar os preceitos do “free labor” diretamente à paisagem confederada. Enquanto os melhores quadros do abolicionismo da Nova Inglaterra aportaram nas ilhas como professores e assistentes sociais, alguns administradores militares e civis também arribaram, incluindo homens de negócio, menos interessados no bem-estar dos moradores do que em lucrar com as circunstâncias; afinal, as ilhas alojavam excelentes plantações de algodão, artigo essencial para a indústria têxtil nortista. Conflitos envolvendo os oficiais do Norte, os habitantes, os agentes comerciais e os missionários emergiram imediatamente. Esses entreveros expunham os limites dos ideais reformistas. Em retrospecto, a experiência de Port Royal pode ser considerada atípica, quando comparada à administração nortista do trabalho escravo em outras partes do Sul, porque ali não havia senhores, circunstância que deixava indefinido o status de seus antigos escravos. 33

Nos departamentos do Centro e do Golfo do México, a experiência do exército foi bem diferente. A invasão de áreas densamente povoadas da Louisiana e do Vale do Mississipi não garantiu o controle completo do território, nem a lealdade da sua população. Tirando vantagem da precária distribuição do poder, muitos senhores declararam lealdade à União, pressionando o exército a reforçar a disciplina. O programa de trabalho inicialmente implantado pelo exército ao longo do rio Mississipi refletia a frágil situação militar na região, mantendo o domínio senhorial. Na medida em que as relações de trabalho deterioraram-se, muitos escravos fugiram das plantações. A principal preocupação do exército, entretanto, era o controle da força de trabalho, especialmente dos fugitivos, geralmente classificados como “negros indolentes”. 34 O general Nathaniel P. Banks garantiu à população branca da Louisiana que “o bem-estar desse povo [escravos] requer que eles devam trabalhar, e serem preservados dos hábitos indolentes e ociosos”. 35

Nessas áreas, os senhores de escravos mantiveram um alto grau de controle sobre a força de trabalho afro-americana, contando com a cooperação dos principais chefes militares da União quase até o final da guerra. Esses comandantes partiram de uma interpretação particular da ideologia “free labor”, a qual responsabilizava a suposta falta de iniciativa dos escravos por sua fragilidade econômica. Ao final da guerra, um editorial publicado no Norte expressou a preocupação de parte da opinião pública branca com relação à ruptura da hierarquia social sulista: “a ideia da liberdade não contaminou os escravos com o princípio do trabalho, por isso encontram-se num estado de perfeita ociosidade. Muitos perambulam pelas ruas, tantos ao ponto de tornarem-se um mal cada vez maior”. 36

O Segundo Ato do Confisco resolveu parte do problema, ao dar aos comandantes poder total para empregar, pagar e, eventualmente, ordenar a cooperação dos escravos para fins militares 37 . Entretanto, essa lei não deu aos mesmos comandantes uma direção básica para lidar com os escravos recentemente emancipados. Ainda assim, as políticas implantadas pelas autoridades federais, por mais ambíguas que fossem, não tinham como bloquear o deterioro da escravidão, que constituía um resultado imediato da guerra. Os deslocamentos, as migrações e a introdução do trabalho assalariado impeliram a destruição da escravidão, mas a fuga e o recrutamento militar seriam os fatores decisivos a prevenir um retorno ao status quo existente antes da guerra. De acordo com Mays, de uma população de cerca de quatro milhões em 1861, aproximadamente 520.000 afro-americanos da Confederação cruzaram para as linhas da União durante a Guerra. 38 Um oficial servindo na Louisiana sob o comando do general Butler escreveu a seguinte nota em seu diário em dezembro de 1862:

Mais negros chegando, a pé ou em carroças puxadas por bois ou mulas, trazendo galinhas, e porcos, e a pouca mobília que possuem. A maior parte tão ignorante da escrita quanto as mulas que conduzem; mas tão sagazes e determinados como um Yankee ativo. 39

Experiências iniciais com soldados negros

Na medida em que as tropas da União ocupavam estados escravistas, tinha início o recrutamento não autorizado de soldados negros. Inicialmente, oficiais da união, por iniciativa própria e sem sansão oficial, recrutaram negros. O governo federal tolerou algumas dessas iniciativas, mas muitos oficiais foram severamente censurados por práticas semelhantes. Durante a primavera de 1862, David Hunter na Carolina do Sul, Benjamin Butler na Louisiana e James Lane no Kansas viram a chance de armar ex-escravos contra seus senhores. Ainda que essas ações pioneiras fossem desautorizadas pela administração federal, elas pavimentaram o caminho para uma mudança na política militar federal, quando as demandas por soldados associadas à crescente relutância dos brancos em servir permitissem a aceitação final do recrutamento negro. Mas no princípio, em cada caso, a iniciativa local respondeu à percepção de uma emergência em regiões consideradas vulneráveis a guerrilhas confederadas e nas quais a densidade de soldados federais era pequena em face da extensão do território. Enquanto o presidente mantinha-se “avesso a armar negros”, ele permitiu que comandantes locais “armassem os escravos que chegassem aos seus acampamentos, para propostas puramente defensivas”. 40

Nas regiões ocupadas da Louisiana, o general Butler, enfrentando uma escassez de soldados e sob permanente ameaça confederada, recrutou 1.400 homens da extinta Louisiana State Guard, uma força de negros livres que servira como milícia auxiliar para os confederados no período precedente. 41 Butler tornou-se o primeiro general da União a organizar, com sucesso, um regimento negro, ainda que seu regimento não entrasse em combate até meados do ano seguinte. As fileiras dos Native Guards eram compostas por homens livres, a maioria descrita como “mulatos claros”, que haviam previamente servido à Confederação (ainda que o seu serviço fosse recusado quando oferecido, em 1861). Em 1860, 18.647 negros livres viviam na Louisiana, dos quais 10.689 em Nova Orleans. 42 O seu recrutamento ajudou a cooptar essa importante minoria local, que possuía alguma propriedade e certa influência em Nova Orleans. “o mais claro deles”, afirmou o general Butler, “tinha compleição semelhante a do falecido [Senador Daniel] Webster”. 43

A comunidade não branca da Louisiana era fortemente estratificada. Diferenças entre os homens livres de cor e os escravos eram mais fortes ali do que em qualquer outra parte do Sul. Consequentemente, nessa fase inicial, o recrutamento de soldados negros da Louisiana não se relacionou com uma política abolicionista, respondendo à situação clássica das emergências, comuns a outras guerras travadas no território dos Estados Unidos. Essa circunstância tornou o regimento de Butler mais palatável tanto para a opinião pública do Norte, quanto para os escravagistas leais do próprio estado. Ainda assim, o sucessor de Butler, Nathaniel P. Banks, fez o que pôde para desmobilizar os oficiais negros do regimento. 44

Em maio de 1862, enquanto os esforços de Butler na Louisiana estavam em andamento, o general David Hunter, comandante militar da ocupação da Carolina do Sul, ordenou o alistamento de todos os afro-americanos em condições. 45 Tratava-se de um grupo de ex-escravos sob a tutela do exército de ocupação. O recrutamento em Port Royal constituía uma tarefa complexa, porque ameaçava os ganhos econômicos obtidos pelos recentemente liberados escravos. Muitos se encontravam empregados como assalariados, recebendo uma renda oriunda do trabalho nos campos de algodão. Era a primeira vez em suas vidas que o trabalho ajudava a melhorar o padrão de vida. Além disso, seu status recentemente adquirido ajudara na recomposição das famílias e numa limitada liberdade pessoal. Eles não se sentiam motivados a tornarem-se soldados, arriscando o status precário numa atividade incerta. A decisão de Hunter instituiu o primeiro recrutamento forçado de afro-americanos durante a Guerra Civil, uma prática que se espalharia mais tarde por outras regiões do Sul. A ativação do recrutamento espalhou o pânico nas plantações, levando os homens a fugir para as florestas, tentando escapar da caçada humana promovida pelos soldados da União, uma imagem familiar a muitos brasileiros da mesma época. Aqueles que eram pegos tentando fugir eram escoltados à força, como se ainda fossem escravos. Pelo menos seiscentos homens foram despachados para o quartel de Hunter para serem treinados.

O regimento não durou muito. O presidente Lincoln recusou-se a sancionar o recrutamento de tropas negras na ocasião e nunca autorizou Hunter a pagar-lhes ou a equipá-los oficialmente. Por volta de agosto, o regimento de Hunter foi dispensado, para a alegria dos potenciais ex-soldados. Hunter foi substituído pelo general Rufus Saxton como comandante militar das ilhas oceânicas da Carolina do Sul. O efeito mais deletério da experiência de Hunter foi a má impressão deixada entre a população negra de Port Royal. Como resultado dos métodos draconianos postos em prática naquela ocasião, muitos ex-escravos permaneceram desconfiados das intenções do exército da União. O coronel Thomas Wentworth Higginson, que mais tarde comandaria o primeiro batalhão de voluntários da Carolina do Sul, reclamou a respeito das práticas de Hunter, descrevendo-as como prejudiciais aos seus próprios esforços recrutadores:

O problema está na herança de amargo descontentamento inaugurada pelo regimento abortado do General Hunter — para o qual eram levados como gado, mantidos nos campos por várias semanas e então, retornados sem um centavo, por ordem do Ministério da Guerra. A formação do regimento constituiu uma grande injúria a esse [novo empreendimento]... aqueles que agora recusam-se a alistar-se têm grande influência em impedir outros. 46

No Kansas, o senador republicano James Lane, um veterano das guerras civis nos territórios, empreendeu uma estratégia diferente para obter o recrutamento negro. Em julho de 1862, Lane introduziu um sistema de recrutamento sob o qual agentes negros eram autorizados a alistar ex-escravos com a promessa de que esses mesmos agentes recrutadores poderiam vir a tornar-se oficiais nos novos regimentos. O sistema funcionou muito bem, ainda que claros nas fileiras fossem ocasionalmente preenchidos mediante recrutamentos forçados. Por volta de outubro de 1862, o primeiro regimento de voluntários negros do Kansas foi formado. Muitos se voluntariaram para responder às promessas de pagamento e promoções semelhantes aos oferecidos nos regimentos de brancos. Entretanto, como Lane agiu sem autorização federal, os regimentos ficaram sem soldo, e seus oficiais sem as respectivas comissões pelo menos até 1864. Outro problema residia na autorização para que alguns recrutadores virassem oficiais, criando a figura de oficiais negros, que constituía anátema para a hierarquia militar do Norte. 47

A proclamação da emancipação

Em meados de 1863, os republicanos de todas as tendências aceitavam o alistamento dos escravos. A difusão dessa percepção foi uma consequência da dinâmica da guerra, do enorme número de baixas e do entendimento de que o conflito voltava-se para a destruição da fábrica social do Sul. Ao longo de 1862, a opinião pública do Norte direcionou-se para a adoção de medidas mais drásticas em relação aos escravos e à propriedade rebelde no Sul. Anteriormente à Proclamação da Emancipação, existiu uma possibilidade concreta de que o Sul viesse a obter a sua independência. As vitórias defensivas no campo de batalha haviam abalado a moral do Norte, e o alistamento no exército da União decaía drasticamente em relação aos primeiros meses do conflito, quando predominara o entusiasmo. Havia indicações de que a Confederação poderia ser reconhecida pelos governos da Inglaterra e da França, fato que tornaria a guerra uma empresa ainda mais árdua. A proposta de Lincoln ao apresentar a Proclamação da Emancipação como uma medida de guerra não era um subterfúgio. O Norte encontrava-se desesperado por soldados para conduzir uma guerra ofensiva contra a Confederação. Além de derrotar os exércitos confederados, o exército da União precisava ocupar e administrar extensas áreas do território sulista. O exército precisava proteger longas linhas de suprimentos e comunicações dos ataques da cavalaria confederada e dos guerrilheiros leais à causa do Sul. As forças da União tinham de atacar, continuamente, posições entrincheiradas dos confederados, e essas ações provaram-se custosas em vidas. As listas de baixas levaram o governo e muitos cidadãos a ver favoravelmente o alistamento de negros. Muitos negros do Norte e do Sul estavam dispostos a alistarem-se diante da possibilidade de a emancipação estender-se, encorajando os escravos do Sul a fugir em números cada vez maiores, privando a Confederação de trabalhadores compulsórios. Por sua vez, os negros, servindo como trabalhadores, fortaleciam os exércitos da União, liberando mais soldados dos trabalhos ordinários para posições combatentes. A Proclamação final da Emancipação, de 1º de janeiro de 1863, autorizava os libertos “a serem recebidos nas forças armadas dos Estados Unidos” para trabalhos de guarda e destacamento. Em alguns dias, Lincoln foi além, autorizando os afro-descendentes, fossem livres, libertos ou escravos, a tornarem-se soldados sem restrições (full scale soldiers). 48

Ao mesmo tempo em que a administração federal agia com cautela nos Border States, ela ainda enfrentava forte resistência em algumas regiões do Norte nas quais as controvérsias políticas envolvendo o recrutamento de soldados negros ainda eram consistentes, confrontando aquilo que Eric Foner definiu como “a guerra civil interna” (Inner Civil War). 49 Os democratas do Norte ainda mantiveram forte influência quase até o final da guerra. No interior do partido, a corrente conhecida como “democratas pacifistas” opunha-se à emancipação e ao alistamento negro, posições muito populares principalmente entre os imigrantes e os habitantes do meio-Oeste. Muitos desses indivíduos temiam que a liberdade trouxesse um fluxo de migrantes para o Norte, competindo pelos postos de trabalho menos qualificados nas cidades. Outros agiam apenas baseados nas suas concepções sobre a superioridade branca e a importância da homogeneidade racial para a organização da nação. 50

A imprensa democrata, além de políticos e soldados ligados ao partido, reclamavam, amargamente, contra o que percebiam como uma subversão dos objetivos da guerra. Após receber sua indicação pelas primárias do Partido Democrata para concorrer a governador do estado de Nova Iorque, em setembro de 1862, Horatio Seymour expressou as ressalvas mais comuns dos nortistas a respeito da Emancipation Proclamation:

O esquema para a emancipação imediata e o armamento geral dos escravos ao longo do Sul constitui uma proposta para a carnificina de mulheres e crianças e para cenas de luxúria e rapina, de incêndios e assassinatos sem paralelo na história mundial.

Em novembro, ele venceu nas urnas, uma das várias derrotas dos republicanos naquele outono. 51 Nova Iorque seria o único estado no Norte no qual o governo evitou cooperar com a administração federal na organização de um regimento negro. O recrutamento em Nova Iorque seria promovido diretamente por autoridades federais em conexão com um grupo de cidadãos afluentes organizados por meio da Union League. 52

De contrabandos a soldados

Quando o Congresso começou a discutir a possibilidade de recrutamento dos soldados negros, ele era impelido por uma opinião pública disposta a sacrificar alguns de seus mais arraigados preconceitos em troca de uma estratégia de mobilização mais efetiva. Também estava instigado por uma implacável escassez de tropas, parcialmente aliviada por uma política de recrutamento compulsório que se mostrara parcial e difícil de implantar. O senador John Sherman, da ala conservadora do partido Republicano, capturou essa transformação numa carta ao irmão, o lendário comandante William T. Sherman:

Você não faz ideia da mudança de opinião sobre a questão negra. Homens de todos os partidos que agora apreciam a magnitude do conflito e que se mostram determinados a preservar a unidade do governo contra todos os perigos, concordam que devemos buscar e fazer do interesse dos negros nos ajudar. 53

A percepção popular sobre a guerra havia mudado muito no Norte já na primavera de 1863. Muitos soldados haviam morrido, outros estavam incapacitados ou fora de combate, e o número de deserções crescia, especialmente entre os imigrantes, os substitutos e os recrutas provenientes de comunidades mais heterogêneas. 54 Após a aprovação da lei do recrutamento compulsório, o Enrollment Act, em março de 1863, a pressão sobre a população branca cresceu substancialmente, e logo surgiram focos de resistência à loteria. A lei limitava o papel do voluntarismo, criando um sorteio sempre que os estados se mostrassem incapazes de cumprir com as suas cotas. As tensões políticas resultantes da aplicação do ato levaram o ministro da Marinha, Gideon Welles, a observar que o “partidarismo” parecia mais forte que o “patriotismo” na maioria dos estados da União. 55 De fato, Lincoln tinha de lidar com um sistema político extremamente competitivo, no qual os democratas desempenhavam o papel de uma minoria não desprezível. A execução das leis federais podia chegar a medidas extremas para lidar com as emergências públicas, como no caso da suspensão temporária do direito de habeas corpus, mas as eleições não foram suspensas, e os políticos ainda tinham de levar em conta os efeitos de suas ações sobre a opinião pública. Um grupo de homens de negócio de Boston expressou o senso comum sobre as conexões entre a crise do recrutamento do Norte e o recrutamento de soldados negros, principalmente os oriundos do Sul:

Nos estados livres os grandes contingentes já retirados dos postos de trabalho e dos campos embaraçam seriamente muitos ramos da indústria sobre os quais a produção do país depende, e é desejável reduzir o chamado sobre esses recursos aos menores níveis que sejam consistentes com a perseguição vigorosa da guerra... Por essas e outras razões, nós recomendamos seriamente que seja dada permissão aos estados leais para recrutar soldados (de acordo com as cotas assinaladas) naquelas partes dos estados rebeldes sob nosso controle, para tanto preencher as cotas dos regimentos brancos agora em campo como para criar tantos regimentos negros quanto seja necessário autorizar. 56

O recrutamento oficial de soldados negros na esteira da Emancipation Proclamation começou oficialmente durante o primeiro semestre de 1863, quando os efeitos do Enrollment Act foram mais fortemente sentidos. Inicialmente, esse processo envolveu vários estágios, quando o governo federal estendeu a permissão para o recrutamento de escravos aos estados do Norte. Ao submeter a massa de brancos nortistas ao recrutamento, o Enrollment Act encorajou a utilização de soldados negros: que negros poderiam “receber uma bala tão bem como qualquer homem branco” tornou-se uma atitude normal no Norte, à medida que a guerra na Virginia e no Tennessee se tornava cada vez mais custosa. O senador do partido Republicano por Massachusetts, Henry Wilson, um líder na proposição do uso de tropas negras, reconheceu com entusiasmo o impacto do recrutamento compulsório sobre as atitudes dos brancos do Norte:

Quando o [Enrollment] Act passou, existia um preconceito irracional e selvagem contra o uso do homem negro para lutar as batalhas do nosso país. Mas quando as pessoas que eram influenciadas por esses preconceitos viram que deveriam ir de peito aberto enfrentar os tiros do inimigo, aprenderam que o sangue do homem negro não era menos sagrado que o seu, e que logo teriam um homem negro levantando e lutando as batalhas que o país precisa travar. 57

Em maio, a Secretaria das Tropas de Cor (Bureau of Colored Troops) foi criada para tratar da organização das tropas negras e da uniformização dos procedimentos. O Bureau também completou o processo de centralização, na medida em que a maioria dos regimentos seria ligada ao governo federal, não aos estados. Em meados de 1863, o secretário da guerra deu permissão a todos os estados do Norte para recrutar libertos no Sul. O governo da União tinha chegado ao final de um longo processo pelo qual ele se comprometeu com o recrutamento de tropas negras nos estados, fossem eles nortistas, sulistas ou border. 58

Os parâmetros da mudança

No segundo semestre de 1863 o cansaço com a guerra no Norte tornou os brancos crescentemente mais dispostos a aceitar o impacto da emancipação e do alistamento negro. Ao mesmo tempo, muitos setores conservadores, em ambos os partidos, entenderam que a população de origem afro-americana oferecia a solução possível para a falta de soldados.

Com a ameaça de um recrutamento compulsório tão próximo, muitos brancos do Norte passaram a ver o recrutamento dos negros como preferível aos de seus parentes e amigos. Um soldado de Illinois expressou esse estado de espírito: “Da minha parte eu gostaria de ver todos os negros que pudéssemos levantar armados e colocados sob disciplina militar [...] Eu penso que se um negro puder salvar as vidas [dos brancos] através do sacrifício da sua, eles [os brancos] estariam dispostos”. 59 Contra um panorama de baixas crescentes, deserções e sacrifícios pessoais, esse soldado chegou a ver o recrutamento dos negros como um mal menor. Uma carta do governador do estado de Iowa ao comandante em chefe ilustra essa mesma atitude de uma forma ainda mais cruel: “Quando a guerra acabar”, ele escreveu, “e tivermos resumido a perda total que tiver sido imposta a esse país, eu não terei arrependimentos se for constatado que uma parte dos mortos for composta por negros, não homens brancos”. 60

Mobilizando os regimentos negros no Norte

A Emancipation Proclamation estipulava o alistamento de negros no exército e na marinha da União. Durante os últimos meses de 1863, poucas unidades foram recrutadas. O general Rufus Saxton nomeou Thomas Wentworth Higginson, um pastor abolicionista de Massachusetts, para reorganizar a unidade dissolvida pelo general David Hunter, então renomeada como o 1º regimento de voluntários da Carolina do Sul. 61 O regimento era composto principalmente de homens das ilhas oceânicas da Carolina do Sul, acrescidos por refugiados provenientes das áreas costeiras da Flórida, da Geórgia e da Carolina do Norte. Apesar da importância normalmente associada a essa iniciativa, o regimento viu pouca ação durante seu primeiro ano de serviço, exceto pelas incursões ocasionais às áreas costeiras do golfo. 62

As primeiras etapas do recrutamento no Norte seguiram o padrão tradicional, no qual os governadores dos estados encarregavam-se da organização e da designação dos oficiais. Em Massachusetts e Rhode Island, os governadores John Andrew e William Sprague receberam autorização para organizar os primeiros batalhões negros da Nova Inglaterra. O governador abolicionista de Massachusetts nomeou, imediatamente, líderes negros proeminentes como Frederick Douglass, Martin Delany, John M. Langston e vários ministros para recrutar em diversas partes do Norte. Entre fevereiro e maio de 1863, dois regimentos foram organizados e treinados, o 54º e o 55º de infantaria “colored” de Massachusetts. 63 Logo, seguindo os exemplos de Massachusetts e Rhode Island, a maioria dos estados do Norte requereu autorização para levantar seus próprios regimentos negros. 64 O 54º obteve fama nacional em consequência do ataque ao Fort Wagner, na Carolina do Sul, em 18 de julho de 1863. Apesar de terem sido repelidos pelos confederados, o número grande de baixas ajudou o regimento a adquirir uma reputação de coragem que animou o recrutamento negro em outros estados do Norte. 65

A administração federal logo percebeu que o pequeno número de negros livres em idade militar do Norte não supriria as necessidades de soldados da União. O número de negros livres entre as idades de 18 e 45 anos no Norte, excluindo os Border States, totalizava aproximadamente 46.150. Um impressionante contingente de 32.672, ou 71% desses homens serviram nos exércitos da União. 66 Como a proporção de afro-americanos em todas as localidades era muito pequena, esses regimentos acabaram sendo compostos por pessoas de muitas áreas diferentes.

Entretanto, a principal reserva da União residia nos negros do Sul, que estavam acorrendo em grandes números para as linhas da União. Eles constituíam o recurso demográfico que Lincoln tentava desesperadamente utilizar. Um editorial no Frank Leslie’s Illustrated mostrou a transformação sofrida pela opinião pública branca quando confrontada com a ameaça do recrutamento compulsório. Após meses de lutas, com dezenas de milhares de baixas e o alistamento voluntário em descenso, o jornal reconsiderou sua posição em relação às tropas negras. No seu editorial de natal para 1862, a publicação rendeu-se às evidências:

Qualquer que seja a opinião abstrata da comunidade com respeito à política dos regimentos de ex-contrabandos, não pode haver dúvidas sobre o grande interesse com o qual o público deve ver a primeira colisão hostil entre os escravos e seus antigos senhores. 67

Recrutamento, emancipação e os Estados

A experiência dos soldados negros ilustra a importância do poder do Estado federal na conformação da cidadania americana. Durante a Guerra Civil, o exército emergiu como o setor mais importante da burocracia federal, suas funções indo muito além da esfera propriamente militar a que estava constitucionalmente habilitado a desempenhar. 68 O exército pós 1863 possuía um comando centralizado e uma burocracia nacional. 69 Como uma força de ocupação, tornou-se o ramo organizacional do governo federal no Sul, executando políticas que romperam com práticas tradicionais de trabalho, confrontando os interesses dos oligarcas sulistas, quando as necessidades da guerra demandavam. Na sua busca para fortalecer a autoridade federal, o exército interferiu em questões locais de maneiras anteriormente não permitidas a nenhum ramo da administração federal. Esse movimento alterou a relação fundamental entre os cidadãos e o governo federal, na medida em que os direitos dos negros foram basicamente federalizados. Muitos comandantes assumiram posições como governadores militares de territórios confederados dominados pelas tropas da União, tornando-se árbitros do conflito social que se seguiu à conquista e à emancipação. Nos Border States, sua autoridade muitas vezes superou a exercida pelos governadores leais, especialmente quando afetou a estrutura do mercado de trabalho. Após a Emancipation Proclamation, as vitórias militares alargaram o poder imediato dos generais e dos seus aliados locais entre os brancos não escravocratas. 70 William H. Johnson, um negro livre servindo como soldado em Connecticut, descreveu as conexões entre as vitórias do exército e a emancipação:

A abolição da escravatura está progredindo rapidamente no Sul — é o curso natural dos eventos, e deve ser; porque onde quer que o exército federal vá, o assim chamado “senhor” morre, e os escravos, anteriormente propriedade, são transformados em homens!

Com o recrutamento de soldados negros, o governo nacional confrontou as sensibilidades sulistas mais intensamente que em qualquer outra área. Essa interferência precipitou uma série de crises entre as autoridades federais e estaduais. Os senhores leais nos Border States foram forçados a reconhecer o avanço real no recrutamento de regimentos negros e sua forte correlação com a abolição nas partes ocupadas do Sul. Alguns lutaram contra essas mudanças. Do Kentucky, o deputado William H. Wadsworth protestou contra a política, argumentando, corretamente, que: “se eles [...] armam o negro [então] estão logicamente propensos a reconhecer sua liberdade e igualdade”. O Kentucky constituiu o caso mais extremo de resistência senhorial, mas a situação encontrava-se longe de ser excepcional. Alguns escravocratas do Tennessee assentiram com mais facilidade, reconhecendo sua impotência: “Não importa qual [sic]deveriam ser nossas opiniões sobre essa questão”, escreveu um deles, “ou se preferimos um estado de coisas diferente, a destruição da escravidão negra nesse país é um fato consumado e inalterável, e estamos dispostos a aceitá-lo como tal”. 71

Recrutar escravos da Confederação significou a expropriação de um recurso valioso ao inimigo, já que os escravos ajudavam tanto na agricultura quanto nos trabalhos de fortificação. Rupturas na economia de “plantation” não afetaram a economia nortista, mas destruíram os fundamentos econômicos tanto dos Border States como do sul da Louisiana e do Vale do Mississipi. Nessas regiões, até então, alguns senhores “leais” tinham sido capazes de manter parte dos seus plantéis, pressionando o governo federal por concessões. No entanto, assim que essas áreas perderam sua posição estratégica para o esforço de guerra da União, as garantias oferecidas aos escravagistas desapareceram. No início de 1864, o secretário-geral do exército informou o secretário da guerra a respeito da destruição da escravidão no Kentucky:

Estando informado neste lugar que os escravos do Kentucky nas fronteiras com Ohio, Indiana, Illinois e Tennessee, estão constantemente cruzando as linhas e um número expressivo deles alistando-se em organizações para os estados distantes de Massachusetts e Michigan, sugiro [ao governador] a organização de regimentos dentro dos limites, de forma a assim obter créditos para os negros dentro da cota do estado. 72

O governador de Massachusetts, John Andrew, correlacionou o recrutamento dos negros do Sul à manutenção de uma força de trabalho ativa no seu estado natal:

Penso que não seja impróprio para [Massachusetts] [...] recrutar os regimentos desperdiçados nos mesmos campos nos quais esses regimentos sustentaram a bandeira nacional com honra, e nos mesmos estados que ajudaram a repelir a usurpação rebelde. Todo homem que possamos induzir a juntar-se às fileiras, seria mais um civil poupado à indústria nacional, um soldado adicionado ao exército da União, uma vítima a menos da corrupção rebelde, um partidário da União no Sul usufruindo, na forma de uma gratificação de Massachusetts, de alguma compensação pelo desperdício e necessidades que a Rebelião lhe ofereceu. Agora, [não importando] se homem branco ou negro, porque não deveríamos nos permitir convidá-los a participar? 73

A partir do Sul, o recrutamento negro foi inseparável da política de emancipação. Apesar das garantias de Lincoln aos direitos de propriedade dos sulistas leais, não havia estratégia para conter a destruição trazida pela emancipação, pelo recrutamento e pelas forças sociais liberadas, superando os limites originalmente estabelecidos na própria proclamação presidencial. Os oficiais da União e os agentes recrutadores crescentemente interferiam no trabalho nas “plantations” tanto no Sul como nos Border States. Ao longo do primeiro semestre de 1864, o alistamento de afro-americanos foi conduzido em larga escala na maioria das regiões do Sul. O direito de emancipação, concedido para todo escravo conscrito (e sua família), foi autorizado por um ato do Congresso, de março de 1865, tornando-se uma das últimas medidas tomadas contra os direitos dos senhores nesses estados.

A despeito do papel crucial desempenhado pelo governo federal no desmantelamento da escravidão, foram os próprios escravos que deram a maior contribuição. Os escravos moveram-se rapidamente para tirar vantagem das oportunidades abertas pela invasão do Sul pelo Norte. Durante 1863 e 1864, um número vasto de escravos abandonou as plantações, rumando para os acampamentos, num movimento que destruiu os vínculos de servidão. O processo foi estimulado pelos créditos dados aos soldados negros em relação às cotas de recrutamento nos estados, formando um verdadeiro mercado de bônus e incentivos. Consequentemente, em 1863 e 1864, os EUA assistiram à destruição prática da escravidão e ao desenvolvimento da liberdade numa escala desconhecida em qualquer outra sociedade das Américas, com a possível exceção do Haiti revolucionário. Augustin L. Taveau, um senhor de Charleston, na Carolina do Sul, comentou sobre as realidades do pós-emancipação no Sul, surpreendendo-se com a falta de apego dos ex-escravos à antiga ordem social:

Eu acreditava que esse povo [escravos] estava contente e alegre, e afeiçoado aos seus senhores [...] Se eles estavam contentes, satisfeitos e afeiçoados por que desertaram deles [senhores] no momento de necessidade, arrebanhando-se com o inimigo a quem desconheciam, e assim deixando talvez senhores realmente bons que conheciam desde a infância? 74

Por volta de abril de 1865, 10% do exército da União (ou 178 mil soldados) eram oriundos de regimentos negros, muitos deles ex-escravos. 75 Durante os últimos dois anos da campanha, os afro-americanos compunham 13,1% dos 1.261.571 soldados recrutados desde março de 1863. Aproximadamente 78,5% (144.000) das tropas de origem afro-americana que entraram nas fileiras da União provinham de estados escravistas. Num contraste evidente com o caráter local do recrutamento branco anterior a 1863, o Ministério da Guerra (Department of War) e a Secretaria das Tropas Negras (Secretaria das Tropas de Cor) recrutaram diretamente a maioria dos afro-americanos. Apenas uns poucos dos 144 regimentos das United States Colored Troops carregaram uma designação estadual. Após maio de 1863, esses regimentos foram convocados diretamente para o serviço federal, organizados e liderados por oficiais brancos agindo sob a autoridade do governo dos Estados Unidos, não dos estados componentes da União. Dessa forma, o Ministério da Guerra decretou que dali por diante todos os novos regimentos negros seriam regulados e numerados como United States Colored Troops (USCTs), mesmo que sua organização fosse patrocinada por algum estado nortista individualmente. Eventualmente, todos os regimentos negros, com as exceções daqueles organizados em Massachusetts e Connecticut, seriam designados como USCT.

O recrutamento dos afro-americanos deu continuidade à gradual subversão da escravidão, um fato que Ira Berlin denominou “minor revolution”. Essa situação teve repercussões no que tange à cidadania, já que o sistema antigo era baseado na tradicional supremacia do direito dos estados (states’ rights) e na suposição de que a lealdade primária do corpo de cidadãos era ligada ao estado em que viviam e às fontes locais de poder. Sob as regras do “voluntarismo”, o serviço militar era visto como um privilégio de raça cujo monopólio pertenceria aos homens brancos. Mas o recrutamento federal de soldados negros alterou, ainda que temporariamente, essas práticas, criando um paradoxo que contribuiria para o avanço da cidadania, primeiro militar, posteriormente civil, dos negros.

Ao final do conflito, muitos afro-americanos reconheceram as oportunidades essenciais que a guerra lhes havia oferecido, a despeito do preconceito latente que prevalecia nas forças armadas. O conflito proporcionou uma plataforma valiosa para o combate às décadas de preconceito racial, criando novas expectativas, oportunidades e uma renovada consciência entre as comunidades negras. O alistamento no exército da União encorajou a reforma social no território sulista. Ele politizou milhares de soldados negros, criando uma liderança determinada e orgulhosa. Dessa forma, o recrutamento acelerou o debate por igualdade política e social, durante e depois da guerra.

Lutando pela reunificação e pela liberdade

O recrutamento de soldados afro-americanos ilustra algumas das complexas ramificações das questões raciais durante a Guerra Civil. Em 1861, etnicidade, classe, status e local de nascimento fragmentavam as comunidades negras nos Estados Unidos. Contrastes óbvios distinguiam os recrutas no Norte daqueles do Sul, da mesma forma que distinções também existiam entre aqueles que nasceram livres e os que tinham vivido como escravos na Confederação. No Norte, os negros vinham de uma população livre nativa, bem como de migrantes do Sul e do exterior, especialmente do Caribe Britânico. Alguns desses voluntários eram membros ativos e educados do movimento abolicionista, acostumados a trabalhar em organizações birraciais. Se alguns deles haviam conhecido a escravidão apenas por referência, outros nunca tinham visto um escravo. Enquanto muitos negros se voluntariaram para lutar pela liberdade, outros, que serviram sob o regime de cotas estabelecido pelos estados do Norte, foram forçados a lutar por oficiais recrutadores e agentes dos Estados. Alguns regimentos refletiam a preponderância de grupos específicos. O 36º USCT de Infantaria foi formado por escravos da Carolina do Norte que buscaram refúgio nas tropas da União. O 5º regimento de infantaria USCT foi composto por membros livres da comunidade negra de Ohio. 76

No Sul, muitos recrutas eram ex-escravos, repentinamente libertados para alistarem-se. Outros eram fugitivos, compelidos ao serviço por agentes do Norte operando nos “contraband camps”. Também havia comunidades de negros livres, cujos membros lutaram para preservar seu status depois da guerra. Muitas comunidades do Norte contribuíram para a compra de substitutos, eliminando os brancos das cotas dos seus estados. A alta porcentagem de pessoas nascidas no Sul, especialmente ex-escravos nas cotas de estados do Norte, ilustra a alta correlação entre o declínio do voluntarismo e a aceitação do recrutamento negro, na medida em que a maior parte dessas tropas era composta por negros substituindo brancos. Dessa forma, por volta do final de 1863, o recrutamento de negros havia se tornado funcional aos interesses demográficos dos estados do Norte, abrindo o serviço militar para grupos até então excluídos de qualquer expectativa mais forte de acesso a direitos mínimos.

As motivações dos soldados voluntários negros, sua conduta durante a guerra e as associações formadas com os oficiais brancos que os comandaram em batalha eram diferentes daquelas dos alistados no Sul. Para muitos libertos, o exército proporcionava um escape da escravidão, uma fonte de renda e uma chance de pegar em armas contra seus antigos senhores. Para os negros livres do Norte, o serviço militar surgia como um argumento para ganhar direitos iguais sob a lei, além de um caminho certo para a destruição da escravidão. A despeito das diferenças, ambos os grupos tinham muito a ganhar com o alistamento. Samuel Cobble, um escravo fugitivo que se alistou no 55º regimento de infantaria de Massachusetts, exemplifica alguns desses sentimentos. Numa carta endereçada à mulher, esse soldado explicou as razões para o seu alistamento:

Gostaria de saber se você ainda permanece na escravidão. Se está, não demorará muito até que esmaguemos esse sistema que agora te oprime. Em três meses você será livre. Grande é a efusão do povo de cor que nesse momento encontra-se combatendo com os corações de leão contra essa praga que separou você de mim. 77

Para muitos negros, do Norte e do Sul, a decisão de alistar-se não era fácil. O alistamento significava, na prática, um afastamento da família e dos amigos, assim como uma quebra com os novos padrões de trabalho assalariado e renda pessoal. Para alguns no Sul, a fuga para o alistamento trazia o risco adicional do encontro com as patrulhas que controlavam as fronteiras da Confederação. Um comandante do Norte observou que a coragem era um atributo de cada voluntário do Sul, enfatizando que: “Existem mais de cem homens nas fileiras que enfrentaram mais riscos na sua fuga da escravidão que qualquer dos meus capitães em toda a sua vida”. 78 Essa insegurança era especialmente dolorosa para os parentes que ficavam para trás, nas mãos dos antigos senhores, podendo sofrer alguma forma de retaliação. O testemunho da viúva de um soldado dá uma ideia dos perigos aos quais as famílias dos soldados negros estavam expostas:

Meu marido tinha estado em serviço somente por um mês quando foi morto. A partir daquele momento [meu senhor] me tratou com mais crueldade que antes, chicoteando-me frequentemente sem qualquer razão e insultando-me em qualquer ocasião... 79

Diferentemente da situação enfrentada pelos soldados brancos, havia poucos caminhos abertos para o avanço hierárquico dos negros na organização militar. A linha de cor constituía um obstáculo poderoso à acepção profissional. Nos USCTs, os negros não podiam se tornar oficiais, nem podiam eleger seus comandantes imediatos como ocorria nos batalhões brancos. Os suboficiais não recebiam salários iguais aos dos seus congêneres brancos. A maioria dos soldados não podia escolher os regimentos, diferentemente do que os brancos vinham fazendo. Com exceção de alguns capelães e médicos, poucos negros tornaram-se oficiais, e mesmos esses oficiais estavam sujeitos a preconceitos de todo tipo nos acampamentos. Os afro-americanos tinham de servir em regimentos segregados, comandados por oficiais brancos, sob uma disciplina muito mais pesada. A inferioridade das condições de acampamento fica evidenciada pela alta taxa de mortes por doenças, assim como pelo número excessivo de punições infligidas, além das sentenças capitais que foram aplicadas em função de pretensos atos de indisciplina. 80

Os afro-americanos que serviram no exército da União o fizeram sob condições mais difíceis que aquelas enfrentadas por seus compatriotas brancos. Eles foram designados para serviços mais pesados que os expunham a grandes riscos de doenças. Quando ficavam doentes, recebiam cuidados insuficientes. À medida que a guerra prosseguiu, foram sendo mais constantemente designados para posições de combate. Curiosamente, esse era um dever mais saudável. Um sargento negro descreveu a saúde dos soldados no seu regimento, acampado no Forte Redoubt, na Flórida:

Num certo momento quase todos os nossos homens estavam doentes. Minha companhia não podia reunir mais de dezessete homens para o serviço, e algumas das outras companhias não podiam reunir sequer esse número. 81

Consequências imediatas

Ao final da Guerra Civil, muitos afro-americanos reconheceram as oportunidades oferecidas pela guerra, a despeito do preconceito e das condições de serviço. A guerra forneceu uma plataforma valiosa para combater décadas de preconceito racial, elevando novas expectativas, oportunidades e uma consciência entre os negros do Norte e do Sul que serviram nas fileiras do exército da União. Em contraste com situações anteriores, o alistamento nas forças do Norte encorajou a reforma social no Sul, após a derrota, e politizou milhares de negros, criando uma liderança orgulhosa e determinada que seria importante no período subsequente, a Reconstrução. Acelerou, dessa forma, a luta pela igualdade, tanto durante, quanto após a guerra, com os soldados conseguindo a reparação no sentido da igualdade dos salários e das pensões militares. É importante ressaltar que as comunidades negras no Norte eram informadas sobre os vários aspectos da vida militar por meio das cartas, divulgadas em alguns jornais que eram dirigidos à população negra, tais como: o Christian Recorder, na Filadélfia, o Weekly Anglo-African e o Douglass’s Monthly, que eram publicados por editores negros. Outros jornais como The Liberator publicavam, ocasionalmente, cartas de soldados negros. 82

Outro fato importante para o sucesso dessa iniciativa foi a existência de uma opinião pública negra nos estados do Norte. Ainda que muitos ex-escravos tenham sido recrutados à força no Sul, a formação de vários batalhões voluntários derivou de pressões públicas e do trabalho das lideranças negras do Norte. Os afro-americanos foram, assim, participantes ativos no debate político sobre o recrutamento. Eles mantiveram a pressão sobre o presidente e o congresso no sentido da abolição da escravatura, do alistamento negro e da luta pela igualdade racial e pelo fim da discriminação nas fileiras. Nessa luta, contaram com o apoio de suas próprias igrejas, de líderes seculares e de jornais que circulavam informações sobre a situação no front, publicando cartas e comentários. Eles formaram associações de libertos, que ajudaram a recrutar em certas partes do Norte.

O recrutamento de afro-americanos durante a Guerra Civil Norte-Americana constituiu uma parte essencial do processo que destruiu a escravidão, iniciando o reordenamento das relações raciais. O alistamento, especialmente daqueles que fugiram da escravidão, proveu oportunidades para ajudar a derrotar a Confederação e promover mudanças para os negros, a mais importante das quais foi a aprovação da 13ª Emenda, em janeiro de 1865, garantindo a liberdade para todos os escravos.

O fardo da raça, entretanto, assombrou os soldados negros virtualmente a cada degrau do caminho: segregados nos campos, destacados para as funções mais degradantes e, frequentemente, desprezados por seus companheiros brancos, os afro-americanos eram considerados como cidadãos de segunda classe, num exército cujas fortunas eles haviam abrilhantado tanto, fornecendo os contingentes que permitiram a vitória numa guerra de atrito permanente.

Apesar desses problemas, a presença dos negros nos USCTs ajudou a transformar a ação das forças da União no Sul, transformando-as numa real força de libertação. A visão dos regimentos negros marchando pelas cidades sulistas e o comportamento, por vezes épico, desses mesmos batalhões em batalhas como a do Forte Wagner e The Creater ajudaram a acelerar a obtenção da cidadania para os negros do Norte e do Sul. Em incontáveis situações, os soldados negros comunicavam aos libertos o significado da liberdade, o papel desempenhado na derrota da Confederação e na destruição da escravidão, os novos direitos e as responsabilidades que lhes eram inerentes. Muitos indivíduos que integraram as fileiras entenderam que estavam lutando por uma causa justa e ajudando a construir uma nova situação política para o pós-guerra. Tudo isso contribuiu para mudar o sentido da guerra: um conflito iniciado pela reunificação nacional transformava-se numa guerra de destruição da escravidão.

Infelizmente, o grau de integração do exército era, na melhor das hipóteses, apenas relativo. Ele apresentou um degrau genuíno na democratização da sociedade norte-americana, mas era também limitado pelos estereótipos culturais e raciais que ainda prevaleciam no Norte. Se a estrutura da sociedade tinha sido transformada pela guerra, as atitudes raciais e os estereótipos sobreviveram, recobrando parte da sua força ao longo do tempo. Ainda assim, a guerra equipou a população negra com elementos para continuar a luta por igualdade social. Esse processo não tem paralelo em nenhuma outra sociedade multirracial (com exceção do Haiti) e foi perpetuado na História da Nação com a ocupação do Sul derrotado e, posteriormente, pela distribuição de pensões federais aos veteranos da guerra nas décadas seguintes.

Notas

1 O incidente completo pode ser encontrado em Thurlow Weed, Life of Thurlow Weed, Boston: Houghton Mifflin and Company, 1884, v. 1, pp. 64-5.
2 Abstenho-me aqui de discutir a validade do conceito de raça. Sigo a discussão tal qual me parece ter sido ela processada pelos atores políticos sublinhados no decorrer do texto.
3 Carl Neumann Degler, Neither Black nor White: Slavery and Race. Relations in Brazil and the United States, New York: Macmillan, 1971, pp. 80-1.
4 De acordo com Robert A. Gross, ainda no período colonial na cidade de Concord em Massachusetts, apenas dois grupos estavam isentos do serviço na milícia: estudantes de Harvard e uma dúzia de escravos. Robert A. Gross, The Minutemen and their World, New York: Hill and Wang, 1976, p. 70. Para o tamanho limitado do exército, ver capítulo 2, pp. 30-41.
5 J. C. A. Stagg, “Soldiers in Peace and War – Comparative Perspectives on the Recruitment of the United States Army, 1802-1815”, The William and Mary Quarterly, v. 57, n. 1 (2000), pp. 79-120; John Whiteclay Chambers II, To Raise an Army: the Draft Comes to Modern America, New York: The Free Press, 1987, pp. 13-72; Vitor Izecksohn, “A experiência miliciana norte-americana – antimilitarismo ou pragmatismo?”, Anos 90, v. 22, n. 41 (2015), pp. 22-41.
6 Winthrop Jordan, White over Black: American Attitudes Toward the Negro, 1550-1812, Baltimore: Penguin Books, 1969, desenvolveu essa tese. A discussão a respeito dos temores dos brancos quanto a uma revolta pode ser encontrada na nota 562. Sobre as distintas imagens atribuídas aos negros na literatura e na sociedade dos EUA, ver George M. Fredrickson, The Black Image in the White Mind: the Debate on African-American Character and Destiny, 1817-1914, New York: Harper & Row, 1971, pp. 97-129.
7 Sylvia R. Frey, Water from the Rock: Black Resistance in a Revolutionary Age, New Jersey: Princeton University Press, 1971, p. 77.
8 Peter M. Voelz, Slave and Soldier: The Military Impact of Blacks in the Colonial Americas, New York: Garland, 1993, p. 29. Uma lista completa sobre o recrutamento de negros pode ser encontrada nas tabelas 1-4, pp. 24-8, 34-5, 46-7 e 66-7.
9 Ira Berlin, Slaves without Masters: the Free Negro in the Antebellum South, New York: Pantheon Books, 1974, pp. 15-24; Benjamin Arthur Quarles, The Negro in the American Revolution, Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1961, pp. 68-93.
10 Pete Maslowski, “National Policy toward the Use of Black Troops in the Revolution”, The South Carolina Historical Magazine, v. 73, n. 1 (1972) pp. 2-6; Duncan J. MacLeod, Slavery, Race, and the American Revolution, New York: Cambridge University Press, 1974, pp. 109-47; Charles Neimeyer, American Goes to War: a Social History of the Continental Army, New York: NYU Press, 1996, pp. 65-8, incorpora uma excelente discussão sobre a participação de afro-americanos na guerra.
11 David Brion Davis, The Problem of Slavery in the Age of Revolution, 1770-1823, Ithaca: Cornell University Press, 1975, pp. 73-83. Davis define a Revolução Americana como um movimento de “criollos conservadores”.
12 Para um estudo de caso, ver David O. White, Connecticut’s Black Soldiers, 1775-1783, Chester: Pequot Press, 1973, especialmente pp. 17-39.
13 Lund Washington para George Washington, 3 de dezembro de 1775, citado em Alain Taylor, The Internal Enemy: slavery and war in Virginia, 1772-1832, Nova York: W. W. Norton, 2013, pp. 30-1.
14 Andrew Jackson, Correspondence of Andrew Jackson Edited by John Spencer Bassett, Washington: Carnegie Institute of Washington, 1931, v. 2, pp. 51-4.
15 Apêndice ao Annals of Congress, 1st session, p. 1392.
16 Sobre a dificuldade para avançar a causa da abolição ao final do período “revolucionário”, ver dois estudos de caso: Gary B. Nash e Jean R. Soderlund, Freedom by Degrees: Emancipation in Pennsylvania and its Aftermath, New York: Oxford University Press, 1991; e Shane White, Somewhat More Independent: the End of Slavery in New York City, 1770-1810, Athens: University of Georgia Press, 1991. Ambos os autores culpam o racismo do Norte pela falta de uma política mais vigorosa em relação à emancipação.
17 David Rankin, “The Impact of the Civil War on the Free Colored Community of New Orleans”, Perspectives in American History, v. 11 (1977-1978), pp. 379-416. O estado da Louisiana pagou pensões aos soldados negros após o final da guerra. Sobre a presença de negros nos exércitos britânicos do Caribe, ver David Patrick Geggus, “Slavery, War and Revolution in the Greater Caribbean, 1789-1815”, in David Barry Gaspar e David Patrick Geggus (orgs.), A Turbulent Time: the French Revolution and the Grater Caribbean (Bloomington: Indiana University Press, 1997), pp. 1-50; Roger Norman Buckley, Slaves in Red Coats: the British West India Regiments, 1795-1815, New Haven: Yale University Press, 1979, pp. 63-81.
18 Douglass’ Monthly, 3 (maio de 1861), p. 371.
19 Sobre os impasses constitucionais envolvendo a emancipação, ver Donald G. Nieman, Promises to Keep: African-Americans and the Constitutional Order, 1776 to the Present, Oxford: Oxford University Press, 1991, pp. 50-7.
20 Os Border States eram: Delaware, Kentucky, Maryland, and Missouri.
21 Discurso de posse, 04/03/1861. Citado em Don E. Fehrenbacher (ed.), Abraham Lincoln: A Documentary Portrait through His Speeches and Writings, Stanford: Stanford University Press, 1964, p. 151.
22 James S. Sight para sua mulher. 17 de janeiro de 1862. Citado em Randall C. Jimerson, The Private Civil War: Popular Thought During the Sectional Conflict, Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1994, p. 133.
23 Bell Irvin Wiley, The Life of Billy Yank: the Common Soldier of the Union, Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1992, p. 44; James McPherson, For Cause and Comrades: Why Men Fought in the Civil War, New York: Oxford University Press, 1997, pp. 117-30; Nina Silber, Yankee Correspondence; Civil War Letters between New England Soldiers and the Homefront, Charlottesville: University Press of Virginia, 1996; Jimerson, The Private Civil War, pp. 86-123; Reid Mitchell, Civil War Soldiers, New York: Viking, 1988, pp. 117-26; Earl J. Hess, Liberty, Virtue, and Progress: Northerners and Their War for the Union, New York: NYU Press, 1988, pp. 81-102. O caso extremo parece ser Michael Barton, Goodmen: the Character of Civil War Soldiers, State College: The Pennsylvania State University Press, 1981. Barton sustenta que nortistas e sulistas defendiam a mesma escala de valores.
24 Leon F. Litwack, North of Slavery: The Negro in the Free States, 1790-1860, Introduction, Chicago: University of Chicago Press, 1961.
25 Litwack, North of Slavery, pp. 30-63. Para uma posição diferente, enfatizando as conexões entre a ideologia “free-labor” e a crítica à escravidão, ver Eric Foner, Free Soil, Free Labor, Free Men: the Ideology of the Republican Party Before the Civil War, New York: Oxford University Press, 1979, especialmente pp. 23-4 e 261-2. A despeito das atitudes raciais dos republicanos, Foner defende que aquela agremiação era qualitativamente mais progressista que a média nortista.
26 Ira Berlin et al. (orgs.), Freedom: A Documentary History of Emancipation, séries I, v. 1, New York: Cambridge University Press, 1985, pp. 1-12; James McPherson, Negro’s Civil War: How Americans Felt and Acted During the War for The Union, 1965, reprint, New York: Ballantine Books, 1991, pp. 19-36.
27 Congressional Globe, 37th Congress, 1st Sess., p. 32. Owen Lovejoy era irmão do mártir abolicionista Elijah Lovejoy, que foi linchado em Illinois anos antes.
28 Susie King Taylor, Reminiscences of My Life: A Black Woman’s Civil War Memories, edited by Patricia W. Romero and Willie Lee Rose, Nova Iorque: Marckus Wiener, 1988, p. 32.
29 Testemunho prestado pelo ex-escravo da Virginia, Harry Jarvis. Citado em John W. Blassingame, Slave
Testimony: two centuries of letters, speeches, Interviews, and autobiografies. Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1977, p. 608.
30 O incidente envolvendo Butler aconteceu em 22 de maio de 1861. Louis Gerteis, From Contraband to Freedmen: Federal Policy Toward Southern Blacks, 1861-1865, Westport: Greenwood Press, 1969, pp. 11-3. Ver, também, McPherson, Negro’s Civil War, p. 28. Para a correspondência relativa ao incidente, “War of the Rebellion: A Compilation of the Official Records of the Union and Confederate Armies (Washington DC, 1889-1901)”, v. 2, pp. 52-4, 648-51.
31 The Liberator, 15/01/1864, citado em Dan R. Frost, “Blacks and Emancipation: The Decisive Factores that Resuted in Union Victory in the Civil War” (Dissertação de Mestrado, Fullerton State University, 1987), pp. 103-4.
32 Statutes at Large: Treaties and Proclamations of The United States of America, Boston: Little Brown and Company, 1850-1873, v. 12, p. 319.
33 Sobre os conflitos em Port Royal, ver: Willie Lee Rose, Rehearsal for Reconstruction: The Port Royal Experiment, Indianapolis: Bobbs-Merril, 1964, pp. 119-216; Ira Berlin (ed.) The Destruction of Slavery: Freedom, A Documentary History of Emancipation, 1861-1867, 1st ser., v. 1, New York: Cambridge University Press, 1985, pp. 101-4; Eric Foner, Reconstruction: America’s Unfinished Revolution, 1863-1877, New York: Harper & Row, 1988, pp. 51-5.
34 J. Thomas May, “Continuity and Change in the Labor Program of the Union Army and the Freedman’s Bureau”, Civil War History, v. 17, n. 3 (1971), pp. 245-54.
35 Louis Gerteis sustenta que a experiência dos negros na Louisiana durante a Guerra Civil, na qual o general Nathaniel P. Banks estabeleceu um sistema de trabalho que os críticos interpretaram como semelhante à escravidão, plasmou a Reconstrução de uma forma mais profunda que o sistema implantado nas ilhas oceânicas. Gerteis, From Contraband to Freedmen, pp. 65-8.
36 Frank Leslie’s Illustrated Newspaper, 21/05/1864.
37 O Primeiro Ato do Confisco, de agosto de 1861, propunha medidas semelhantes. Em relação aos escravos, o projeto propunha que fossem alvos de procedimentos jurídicos para sua expropriação. Dada a delicada situação da guerra naquele momento, aliada à relutância presidencial em executá-lo, o ato teve pouquíssimas consequências práticas. Michael Linfield, Freedom Under Fire: U.S. Civil Liberties in Times of War, Cambridge/MA: South End Press, 1990, pp. 30-2.
38 Joe H. Mays, “Black Americans and Their Contribution toward Union Victory in the American Civil War, 1861-1865” (Tese de Doutorado, Middle Tennessee State University, 1983), p. 53.
39 Registro feito em 21/09/1862. David C. Rankin (ed.), Diary of a Christian Soldier: Rufus Kinsley and the Civil War, New York: Cambridge University Press, 2004, p. 109.
40 David Herbert Donald (ed.), Inside Lincoln’s Cabinet: The Civil War Diaries of Salomon P. Chase, New York: Longmas; Green, 1954, pp. 96, 99-100.
41 No início do segundo semestre de 1862, os confederados reverteram o progresso inicial das tropas da União, recapturando Baton Rouge, a capital da Louisiana. O controle completo do estado só seria alcançado após a queda de Vicksburg e Port Hudson, em julho de 1863.
42 Em 1830, cerca de 750 homens livres de cor possuíam 2.351 escravos. A área rural da Louisiana desenvolveu um grupo significativo de negros livres proprietários de escravos. Ver Tunel, “Free Negroes and the Freedmen – Black Politics in New Orleans during the Civil War”, Southern Studies, n. 19 (1980), pp. 5-28.
43 Thomas Wentworth Higginson, Army Life in a Black Regiment, 1869, reprint, Boston: Beacon Press, 1970, p. 1. De acordo com Joshi e Reidy, à época do início da Guerra Civil, os negros livres de Nova Orleans possuíam mais de dois milhões de dólares. Cerca de 85% deles trabalhavam como artesãos, profissionais liberais ou eram proprietários. Os mais prósperos possuíam plantações escravistas. Manoj K. Joshi e Joseph P. Reidy, “To Come Forward and Aid in Putting Down this Unholy Rebellion –
The Offices of Louisiana’s Free Black Native Guard During the Civil War Era”, Southern Studies, v. 21, n. 2 (1983), p. 326. Daniel Webster (1782-1852), senador por Massachusetts pelo partido Whig, foi um dos políticos mais influentes do chamado “Segundo Sistema partidário” (1828-1854).
44 Ira Berlin (ed.) The Black Military Experience. Freedom, A Documentary History of Emancipation, 1861-1867, 2nd ser., New York: Cambridge University Press, 1982, pp. 41-4.
45 Na sequência, Hunter proclamou a emancipação de todos os escravos da Carolina do Sul, Georgia e Flórida, dentro ou fora das linhas da União.
46 Higginson, Army Life, pp. 15-6.
47 Para os procedimentos executados por James [Big] Lane, ver Dudley Taylor Cornish, The Sable Army: Negro Troops in th Union Army, 1861-1865, 1956, reprint, Lawrence: University Press of Kansas, 1987, pp. 69-76.
48 “Emancipation Proclamation”, in Fehrenbacher, Abraham Lincoln, p. 212. Ver também John Hope Franklin, The Emancipation Proclamation, New York: Anchor Books, 1965.
49 Foner, Reconstruction, pp. 11-8. A expressão “inner civil war” foi originalmente cunhada por George Fredrickson, em 1865, na discussão dos intelectuais nortistas.
50 Benjamin Quarles, The Negro in the Civil War, New York: Da Capo, 1963, p. 166-7.
51 Horatio Seymour, Public Record: Including Speeches, Messages, Proclamations, Official Correspondence, and Other Public Utterances of Horatio Seymour, from the Campaign of 1856 to the Present Time with an Appendix, London: Forgotten Books, p. 54. Citado em William Seraile, “The Struggle to Raise Black Regiments in New York State, 1861-1864”, New York Historic Societal Quarterly, v. 58, n. 3 (1974), p. 224.
52 Henry W. Bellows, Historical Sketch of the Union League Club of New York: its Origin, Organization and Work, 1863-1879, New York: Press of G. P. Putnam’s sons, 1879.
53 Senador John Sherman para o General William Tecumseh Sherman, 24/08/1862. Citado em Quarles, The Negro in the Civil War, p. 158.
54 De acordo com Geary, soldados brancos desertaram em número crescente durante os dois últimos anos da guerra. James W. Geary, We Need Men: The Union Draft in the Civil War, DeKalb: Northern Illinois University Press, 1991, pp. 116-25. Ver, também, Dora L. Costa e Matthew E. Kahn, Heroes and Cowards: The Social Force of War, Princeton: Princeton University Press, 2008., pp. 80-119.
55 Howard K. Beale (ed.), Diary of Gideon Welles: Secretary of Navy under Lincoln and Johnson, v. 1, New York: Norton, 1960, p. 324. A observação é de janeiro de 1863.
56 Amos A. Lawrence et al. Para o ilustre E. M. Stanton, 10/12/1863. Citado em Berlin, The Black Military Experience, Doc. 39A, pp. 108-9.
57 Congressional Globe, 38th Congress, p. 80.
58 Cornish, The Sable Army, pp. 94-111.
59 David Givler para amigo, 14/02/1863. In “Intimate Glimpses of Army Life During the Civil War; Autobiography, Diaries, Letters, of David B. Givler, Company C, 7th Illinois Infantry…” typewritten MS, Illinois State Historical Library, p. 101. Citado em Victor Hicken, “The Record of Illinois’ Negro Soldiers in the Civil War”, Journal of the Illinois State Historical Society, v. 56, n. 3 (1963), pp. 538-9.
60 Governador Samuel J. Kirkwood para General Henry W. Halleck, 5/08/1862. Citado em Berlin, The Black Military Experience, Doc. 25, pp. 87-8.
61 Geary estima que entre dois e três mil escravos alistaram-se nesses regimentos experimentais. Geary, We Need Men, p. 30.
62 O diário de Higginnson, posteriormente publicado com o título: Army Life in a Black Regiment, constitui uma das melhores fontes para a história desse regimento. Ver também Louis F. Emilio, A Brave Black Regiment: the history of the Fifty-fourth Regiment of Massachusetts Volunteer Infantry, 1863-1865, New York: Da Capo, 1995.
63 As atitudes racistas prevalecentes em certas partes do Norte levaram muitos negros de outros estados para os regimentos de Massachusetts. Seraile, “Struggle to raise a Black Regiment”, pp. 215-33; Michael O. Smith, “Raising a Black Regiment in Michigan: Adversity and Triunph”, Michigan Historical Society Review, v. 16, n. 2 (1990), pp. 22-41. No 54º de Massachusetts, 106 indivíduos (11%) dos seus 961 soldados eram originários do estado da Virgínia. Ervin L. Jordan Jr., The Black Confederates and Afro-Yankees in Civil War Virginia, Charlottesville: University of Virginia Press, 1995, p. 268.
64 Cinco regimentos foram originalmente organizados no norte: o 54º e o 55º de Voluntários de Infantaria de Massachusetts, o 5º de Cavalaria de Massachusetts, o 29º de Infantaria de Connecticut e o 14º de Artilharia Pesada de Rhode Island. Berlin, Black Military Experience, p. 407.
65 Sobre a ação e o papel do primeiro comandante do regimento, ver Russell Duncan (ed.), Blue-Eyed
Child of Fortune: The Civil War Letters of Colonel Robert Gould Shaw, Athens: University of Georgia Press, 1999; Emilio, A Brave Black Regiment.
66 De acordo com Quarles, de um total de 980 recrutas alistados no 54º, 287 (29,2 %) haviam sido escravos. Ver Quarles, The Negro in the Civil War, p. 187.
67 Frank Leslie’s Illustrated Newspaper, 20/12/1862.
68 Allan Nevins, The War for the Union, Old Saybrook: Konecky and Konecky, 1971 apresenta uma descrição acurada das transformações na organização do exército da União.
69 Mark R. Wilson, The Business of Civil War: Military Mobilization and the State, 1861-1865, Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2006, pp. 34-71.
70 Cerca de 60% dos negros aptos do Kentucky serviram no exército da União. Foner, Reconstruction, p. 8.
71 John W. Bowen et al. para Ilustríssimo Secretário da Guerra, 26/09/1863. Citado em Berlin, The Black Military Experience, Doc. 65, p. 174.
72 Secretário Geral do Exército Lorenzo Thomas para Ilustríssimo Edwin Stanton, 01/02/1864. Citado em Berlin, The Black Military Experience, Doc. 98, pp. 253-4.
73 Discurso de Sua Excelência John A. Andrew aos dois ramos da legislatura de Massachusetts, 09/01/1863, p. 73.
74 New York Tribune, 10/06/1865. Citado em Eugene D. Genovese, Roll, Jordan, Roll: The World the Slaves Made, New York: Vintage, 1976, p. 112.
75 Jacob Metzer, “Records of Civil War African American Troops inspire Major Archival Project”, The Record, v. 3, n. 2 (1996), pp. 9-11. Por conveniência metodológica, estou usando dados da O. R., War of the Rebellion: A Compilation of the Official Records of the Union and Confederate Armies, 128 vs. Washington, D.C.: Government Printing Office, 1889-1901, compilados por Ira Berlin (ed.), The Black Military Experience, 2nd ser. e por Joseph T. Glatthaar, Forged in Battle: The Civil War Alliance of Black Soldiers and White Officers, New York: Meridian, 1990.
76 Estudos regimentais produzidos durante a década de 1990 procuraram explorar a diversidade desses grupos. Ver, por exemplo: James Kenneth Bryant II, “A Model Regiment: The 36th United States Colored Infantry in the Civil War” (Dissertação de Mestrado, University of Vermont and State Agricultural College, 1996); Michael James Paradis, “Strike the Blow: A Study of the Sixth Regiment of United States Colored Infantry” (Tese de Doutorado, Temple University, 1995).
77 Samuel Cabble para esposa, 1863. NARA, Record Group 94, Records of the Adjutant General’s Office, citado em Susan Cooper, “Records of Civil War African American Troops Inspire Major Archival Project”, The Record, v. 3, n. 2 (1996). pp. 9-11.
78 Higginson, Army Life in a Black Regiment, p. 248.
79 Berlin, The Black Military Experience. Doc. 106, pp. 268-9. Essa mulher conseguiu fugir com o seu bebê, deixando quatro outros filhos para trás.
80 Mesmo os suboficiais negros recebiam os mesmos salários dos soldados. Para as taxas de mortalidade entre os soldados afro-americanos, ver Andrew K. Black, “In the Service of the United States: Comparative Mortality Among African-American and White Troops in the Union Army”, The Journal of Negro History, v. 81, n. 4 (1994), pp. 317-33. De acordo com Black, os soldados brancos eram duas vezes mais propensos a morrer de doenças que em batalha, enquanto os soldados negros eram dez vezes mais propensos a morrer de doenças.
81 Sargento Milton Harris, Companhia F, 25th USCI, Christian Recorded, 17 dez. 1864. Citado em Edwin Redkey (ed.), A Grand Army of Black Men: Letters from African American Soldiers in the Union Army 1861-1865, New York: Cambridge University Press, 1991, p. 151.
82 Sobre os negros e a imprensa de guerra, ver o “prefácio” em Redkey, A Grand Army of Black Men.

Autor notes

* Agradeço a Amanda Mesquita, bolsista Pibic-CNPq. A pesquisa para este artigo contou com o apoio do Gilder Lehrman Center for the Study of Slavery, Resistance, and Abolition/ Universidade de Yale. Possíveis problemas com as traduções das citações são responsabilidade do autor.


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