ARTIGOS
MANUSCRITOS AFRO-ISLÂMICOS DO BRASIL OITOCENTISTA: OS AMULETOS ÁRABES DA COLEÇÃO NINA RODRIGUES*
AFRO-ISLAMIC MANUSCRIPTS FROM 19TH-CENTURY BRAZIL: THE ARABIC AMULETS OF THE NINA RODRIGUES COLLECTION
MANUSCRITOS AFRO-ISLÂMICOS DO BRASIL OITOCENTISTA: OS AMULETOS ÁRABES DA COLEÇÃO NINA RODRIGUES*
Afro-Ásia, núm. 61, pp. 78-117, 2020
Universidade Federal da Bahia
Recepção: 28 Abril 2020
Aprovação: 10 Junho 2020
Resumo: Amuletos islâmicos de papel, com versículos do Qur'ān ou outros textos mágico-religiosos em escrita árabe, eram de amplo uso entre pessoas africanas no Brasil do século XIX. Este artigo oferece uma análise detalhada dos textos árabes em manuscritos talismânicos colecionados pelo médico e antropólogo baiano Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), que foram descritos e reproduzidos em seu livro Os africanos no Brasil, publicado postumamente em 1932. A análise inclui reconstruções e traduções dos textos árabes e sua localização no contexto da tradição islâmica, comparando-os a outros manuscritos do Brasil e da África Ocidental. Finalmente, o artigo propõe um novo inventário dos amuletos árabes da coleção Nina Rodrigues.
Palavras-chave: Amuletos islâmicos, Pessoas africanas no Brasil, Manuscritos árabes, Malês, Qur'ān.
Abstract: Islamic amulets made of paper with Qur'ānic verses or other magico-religious texts in Arabic script were widely used by Africans in 19th-century Brazil. This article offers a detailed analysis of the Arabic writings in talismanic manuscripts collected by the Bahian physician and anthropologist Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), which were described and reproduced in his book Os africanos no Brasil (“Africans in Brazil”), posthumously published in 1932. The analysis includes reconstructions and translations of the Arabic texts and their contextualization within Islamic tradition by comparing them to other manuscripts from Brazil and West Africa. Finally, the article proposes a new inventory of the Arabic amulets from the Nina Rodrigues collection.
Keywords: Islamic amulets, Africans in Brazil, Arabic manuscripts, Malês, Qur'ān.
A escrita árabe parece ter chegado ao Brasil com pessoas muçulmanas escravizadas da África Ocidental, que formaram comunidades islâmicas em diferentes regiões do Brasil oitocentista, nomeadamente na Bahia, mas também no Rio de Janeiro, em Pernambuco e no Rio Grande do Sul.1 Numerosos viajantes do século XIX relatam práticas de escrita árabe que viram a ser executadas no Brasil por africanos escravizados e libertos.2 Esse cultivo da escrita ganhou notoriedade com a Revolta dos Malês3 em Salvador, em 1835, quando papéis e livros escritos em árabe foram encontrados junto aos corpos dos rebeldes tombados e nas casas de africanos suspeitos de rebeldia.4 Nas investigações policiais que se seguiram à derrota da revolta, as autoridades consideraram esses documentos como prova incriminadora, o que fez que pessoas africanas que os possuíam fossem presas, ainda anos depois do levante. Porém, a maioria dos documentos árabes confiscados em 1835 e preservados até hoje contém apenas textos religiosos, frequentemente escritos em folhas de papel que se usavam, na sua maioria, como amuletos, conforme a tradição islâmica. Inseridas em pequenas bolsas de couro ou pano, as folhas de papel dobradas, inscritas com versículos do Qur'ān, orações ou outros textos mágico-religiosos, deviam conferir proteção a quem as carregasse junto ao corpo.5
Os estudos sobre os escritos afro-islâmicos do Brasil iniciaram-se em finais do século XIX, quando Nina Rodrigues colecionou vários amuletos, cujas descrições e reproduções são objeto deste artigo.6 Seguiram-se, nos anos 1960, os estudos de Rolf Reichert e Vincent Monteil sobre a maior parte dos manuscritos árabes depositados no Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), todos eles confiscados depois do levante de 1835.7 Recentemente, foram descobertas novas fontes afro-muçulmanas em escrita árabe, entre elas o “Livrinho malê” do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), no Rio de Janeiro, descrito por João José Reis.8 Trata-se de um pequeno livro de preces, usado como amuleto por um dos insurretos africanos em 1835, em cujo pescoço foi encontrado pelas autoridades baianas. Um livro parecido, achado após a mesma revolta no bolso de outro insurreto, foi encontrado por Nikolay Dobronravin na Bibliothèque Municipale de Le Havre, França.9 Depois, Dobronravin descobriu na Biblioteca Pública Municipal do Porto um outro livro manuscrito árabe, que fora levado a Portugal da Bahia depois do levante de 1835.10 No IHGB, está preservado um livro manuscrito árabe proveniente do Rio Grande do Sul, confiscado em 1838 num “club de negros minas” em Porto Alegre.11 Além desses, existem vários manuscritos afro-árabes de Pernambuco na coleção privada de Paulo Farah, professor da Universidade de São Paulo.12 Atualmente, Reis e Dobronravin estão preparando uma monografia abrangente sobre os documentos árabes do APEB e os livros manuscritos afro-islâmicos da Bahia.13
A coleção de Nina Rodrigues
Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), médico e antropólogo maranhense que se estabeleceu na Bahia, é considerado o “fundador dos estudos afro-brasileiros” (Ricard) e o “primeiro estudioso competente dos malês” (Reis), mas também o “principal doutrinador racista brasileiro da sua época” (Skidmore).14 Em 1906, Rodrigues faleceu inesperadamente em Paris, antes de poder publicar o seu livro Os africanos no Brasil. Os capítulos do livro, assim como uma “vasta documentação fotográfica”, foram entregues ao seu discípulo Oscar Freire, que levou o material para São Paulo. Apenas em 1932, Homero Pires, discípulo de Freire, providenciou a publicação da obra.15 O capítulo II, “Os negros mahometanos no Brasil”, já tinha sido publicado em 1900 no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Nele, Rodrigues informa:
Possuo grande coleção de gri-gris, mandingas ou amuletos dos negros musulmis. Não querendo confiar na tradução dos escritos árabes pelos negros malês desta cidade, enviei alguns exemplares para Paris, onde foram traduzidos no Office Hasenfeld des traductions légales et autres en toutes langues, 12, Place de la Bourse. O padre maronita, Rev.mo Pierre Andonard, teve a gentileza de traduzir outros. São todos versetos do Alcorão ou algumas palavras místicas, escritas de modo simbólico ou mágico.16
Segundo Oscar Freire, Os africanos no Brasil era o resultado de estudos que Rodrigues efetuara de 1890 a 1905.17 Como o capítulo com as descrições dos amuletos já fora publicado em 1900, deverá ter sido na última década do Oitocentos que Rodrigues adquiriu esses manuscritos talismânicos e os mandou para Paris a fim de serem traduzidos.18 Pode-se presumir que os documentos originais ter-lhe-ão sido devolvidos mais tarde, juntamente das traduções, tendo eles assim voltado à Bahia. É possível que eles tenham sido consumidos por um incêndio acontecido em 1905, na Faculdade de Medicina da Bahia, que destruiu o gabinete de medicina legal dirigido por Rodrigues.19 Contudo, pelo menos parte dos seus documentos deve ter sobrevivido a esse incêndio, pois sua viúva, Dona Maricas, informou que ela entregou a Freire os materiais guardados pelo falecido marido no seu laboratório e em casa, incluindo “livros, originais, notas, apontamentos, objetos africanos, [e] fotografias de coisas africanas”.20 Depois da morte de Freire, em 1923, o espólio de Rodrigues foi levado à Faculdade de Medicina e, em seguida, ao Instituto Nina Rodrigues, de onde Dona Maricas pediu de volta em 1933. Não obstante, o paradeiro atual dos amuletos árabes da coleção Rodrigues permanece desconhecido, não se sabendo se ainda existem.21
Em Os africanos no Brasil, Rodrigues relata ter ganhado a confiança do limamo da Bahia - o imām, ou líder espiritual da comunidade afro-muçulmana local - e frequentado a sua casa em Salvador: “Na sala de visitas ou de estudo e de ensino do Limamo vê-se uma grande mesa com os livros religiosos, com tábuas de escrita, tinteiros, penas especiais etc.”22 Talvez tenha sido desse limamo, um nagô chamado Luís, que ele recebeu alguns dos manuscritos talismânicos da sua coleção. Rodrigues indica também que um alufá23 de Salvador lhe explicou os poderes dos amuletos colecionados por ele, aludindo à ligação entre o “valor venal” e a alegada eficácia desses talismãs.24 É, portanto, de supor que os amuletos islâmicos da coleção Rodrigues provenham da Bahia, tal como aqueles que foram confiscados depois da insurreição de 1835. Contudo, trata-se, provavelmente, de amuletos mais tardios, confeccionados na segunda metade do século XIX.
Rodrigues enviou para Paris cinco manuscritos originais (“peças” 1-5) e uma “folha fotografada”, cujas descrições e traduções foram reproduzidas no capítulo II de Os africanos no Brasil. Nas edições do livro de 1932 e 1935, Pires incluiu um caderno de imagens, que contém quatro figuras descritas como “Mandinga ou amuleto dos negros musulmis”.25 Ao redigir o capítulo com as descrições dos amuletos, Rodrigues já pretendera juntar imagens dos manuscritos a esse texto. Na primeira edição do capítulo no Jornal do Commercio, escreveu: “Como um exemplo destes documentos, grigris, talismãs, mandingas, damos em seguida a reprodução litográfica da peça n. 5.”26 Porém, o jornal não contém nenhuma imagem pertencente ao artigo de Rodrigues. Quando Pires editou o livro, encontrou na documentação de Rodrigues quatro “reproduções de amuletos”, algumas com a indicação “Situação p. 63”, o que o fez concluir que Rodrigues quisera inserir essas imagens no seu livro. São essas as quatro imagens de amuletos publicadas em Os africanos no Brasil.27 Pires também adicionou duas indicações no capítulo, segundo as quais a primeira imagem (“fig. n° 1” da obra) corresponderia à “peça n. 5” e a segunda (“fig. n° 2” da obra) à “peça n. 2”.28 No entanto, ao comparar as descrições e traduções dos amuletos com as imagens, constata-se que deverá ter ocorrido um erro na escolha das imagens, pois as identificações de Pires são incorretas. A análise que segue dos amuletos descritos e traduzidos em Os africanos no Brasil e daqueles reproduzidos no caderno de imagens do mesmo livro mostrará que se trata, com exceção de um caso, de amuletos diferentes.
Os amuletos traduzidos em Paris
As “peças” 1-4 e a “folha fotografada” descritas por Rodrigues não têm figuras correspondentes no caderno de imagens de Os africanos no Brasil. Seguem agora as suas descrições e traduções pelos tradutores franceses, vertidas para o português por Rodrigues, e a tentativa de reconstrução dos textos árabes dos amuletos. Vale salientar que os textos originais mostravam numerosos erros e irregularidades, segundo uma nota dos tradutores:
Estas diferentes peças […] [s]ão todas escritas em um árabe deformado […]. Em muitos lugares destes documentos encontram-se palavras destacadas, incorretas e truncadas, tiradas daqui e dali dos versetos do Alcorão; nessas palavras falta geralmente a sílaba final, às vezes a do começo, ora a principal, a alma da palavra.29
Sendo impossível saber quais eram os erros e as divergências linguísticas nos manuscritos originais, representam-se aqui os textos hipotéticos desses amuletos e suas transcrições em árabe correto, reconstruídos com base nas traduções.30
“Peça n. 1”

Esse documento apresenta um quadrado no meio, no qual foram agrupados os nomes de diferentes profetas corânicos, do arcanjo Gabriel e de 'Alī, o quarto califa do Islã. Essa concepção do amuleto é comum em talismãs islâmicos, nos quais a escrita de nomes de personagens sagrados - profetas, anjos ou os primeiros quatro califas - engendra a presença das suas forças espirituais. Tal como nesse amuleto brasileiro, esses nomes são habitualmente colocados dentro de figuras gráficas, como os quadrados que simbolizam o universo.32
“Peça n. 2”

Nesse amuleto, é interessante a menção à estrela desenhada no verso com o nome do profeta Muḥammad “em cada raio”. Existe um documento semelhante, de 1835, na coleção do APEB, com um pentagrama dentro de um quadrado e o nome de Muḥammad nos quatro cantos.34 Esse “polígono estrelado regular de cinco ângulos”, inscrito nos amuletos protetores de pessoas afro-muçulmanas, era conhecido como “signo de Salomão”.35 No documento do APEB, Dobronravin identificou a língua de uma seção do texto por cima do quadrado como haussá.36 O manuscrito contém também algumas palavras árabes como a basmala,37 de modo que se trata de um documento bilíngue haussá-árabe. Considerando o fato de que o texto da “peça n. 2” causou tantas dificuldades aos tradutores franceses, que sequer conseguiram dar uma tradução aproximada, pode-se supor que o texto desse manuscrito fosse igualmente escrito numa língua africana, misturada com expressões árabes, tais como a basmala.

“Peças” n. 3 e 4


Nesses dois amuletos foram escritos versículos da sura Quraysh (“Os Coraixitas”, Qur'ān 106), que foi reproduzida na íntegra na “peça n. 3” e parcialmente na “peça n. 4”. A mesma sura encontra-se também num dos manuscritos confiscados em 1835.43 Parece que a repetição escrita dessa sura era apreciada na Bahia, pois o texto foi repetido quarenta vezes na folha do APEB e seis vezes na “peça n. 3”. Reichert opinou que o manuscrito do APEB seria o trabalho de um estudante. Porém, a repetição de versículos corânicos, que ocorre também na “folha fotografada” de Rodrigues, nem sempre constituía um exercício de escrita, mas também uma técnica para conferir força supernatural aos amuletos islâmicos.44 Existem várias fontes manuscritas árabes do Brasil, nas quais a sura Quraysh foi copiada dentro de conjuntos de suras consecutivas: uma folha confiscada na Bahia depois da revolta de 1835,45 os dois livros das bibliotecas de Le Havre e do Porto, encontrados depois da mesma revolta,46 e o livro do Rio Grande do Sul, confiscado em 1838.47
A “folha fotografada”

Os dois versículos da sura al-Tawba, (“O Arrependimento”, Qur'ān 9: 128-129), presentes nessa folha, cuja fotografia Rodrigues enviou para Paris, também se encontram, junto de outros versículos, em amuletos afro-islâmicos confiscados na Bahia depois da Revolta dos Malês de 1835: o livro de Le Havre e um bifólio do APEB.50 O “Livrinho malê” do IHGB contém apenas o versículo 128.51
“Peça n. 5”

O único dos amuletos descritos em Os africanos no Brasil que poderia corresponder a uma das figuras do caderno de imagens é a “peça n. 5”, da qual a “fig. nº 4” parece ser uma fotografia. Os tradutores não conseguiram decifrar e traduzir esse manuscrito, uma vez que se trataria de um texto numa língua africana “da região de Tumbuctu”, escrita com caracteres árabes. Notaram que havia nele apenas algumas linhas intactas porque “o suor humano […] desfez a maior parte das palavras deste documento”.53 Rodrigues, por sua vez, presumiu que se tratava de um texto escrito em haussá.54 Na fotografia do amuleto, podem-se identificar algumas palavras árabes nas três primeiras linhas e na nona linha, enquanto o restante do texto permanece enigmático. A recorrência da partícula vocativa yā indica que se trata de uma série de invocações.

Dobronravin descobriu que o texto do amuleto da “fig. n.° 4” de Rodrigues também tinha sido copiado, com ligeiras divergências, num dos documentos do APEB confiscados em 1835.55

Nesse manuscrito mais legível, são reconhecíveis alguns outros termos árabes, sobretudo nas partes do texto que ficaram deterioradas no manuscrito de Rodrigues:
jahd (?), “esforço” (l. 2);
sadaja (?), “mentiu” (l. 4);
ḥusām, “espada” (l. 5);
sallamūhā (?), “salvaram-na” ou “entregaram-na” (l. 8);
allāh, “Deus” (ll. 9; 13);
wa-yā allāh, “Ó Deus” (l. 10);
'alā, “sobre”;
fīhā (?), “nela” (l. 11). O texto fecha com o segundo versículo da primeira sura do Qur' ān (al-Fātiḥa “A Abertura”): al-ḥamdu li-llāhi rabbi l-' ālamīn, “Louvado seja Deus, o Senhor dos mundos”, com o erro de
allāh em vez de
li-llāh. Contudo, como no caso do amuleto de Rodrigues, não se consegue estabelecer uma relação sintática e semântica entre as palavras árabes na maior parte do texto, uma vez que aparecem isoladas dentro de um tecido textual dominado por termos enigmáticos que não parecem ser de origem árabe.
A hipótese de Rodrigues sobre a origem haussá das palavras no seu amuleto não chegou a ser confirmada, já que Reichert fez analisar o manuscrito do APEB por especialistas em várias línguas da África Ocidental, como o haussá, o iorubá e o fula, os quais excluíram que se tratava de termos numa dessas línguas.57 Também Dobronravin considera, atualmente, que o amuleto não foi escrito em nenhum idioma africano. A invocação yā batūtā (l. 2), no início do texto, indica que os dois manuscritos baianos de Rodrigues e do APEB representam um certo tipo de amuleto comum na África islâmica, cujos textos começam por essa invocação. Embora o termo batūtā seja também usado na África Ocidental para designar a magia em geral ou determinadas práticas de magia, presume-se que, em textos talismânicos do Senegal, batūtā denote uma entidade espiritual que faz parte dos rawḥān (termo ligado ao árabe rūḥ, “espírito”), seres entre anjos e jinn. As fontes senegalesas contêm invocações a várias outras dessas entidades, chamadas, por exemplo, sa' tā, j?bātā, waḥtūtā, watūt e waḥtanūt.58 A morfologia desses nomes remete a algumas das palavras enigmáticas nos manuscritos de Rodrigues e do APEB, que também parecem finalizar em -tā e -ūt.59 Portanto, é bem possível que se trate de nomes de entidades espirituais que são invocadas nesses amuletos da Bahia, para além das invocações a Deus (allāh). A invocação yā wadūd, “Ó Afetuoso!” (l. 9), dirige-se igualmente a Deus, sendo al-wadūd um dos 99 “belíssimos nomes” (al-asmā' al-ḥusnā' ) de Deus no Islã, os quais constituem elementos importantes em talismãs islâmicos.60 Amuletos chamados batuta são ainda usados no Sudão contemporâneo, na região de Darfur, onde se alega que tal amuleto pode tornar seu portador invisível e fazer o adversário dele adormecer.61
Os outros amuletos do caderno de imagens de Os africanos no Brasil
Ao contrário do amuleto fotografado na “fig. nº 4” (“peça n. 5”), os manuscritos reproduzidos nas figuras nº 1, nº 2 e nº 3 de Os africanos no Brasil não aparecem nas descrições e traduções dos tradutores franceses. Obviamente, não faziam parte dos exemplares que Rodrigues enviou para Paris. Como esses amuletos não foram estudados ainda, segue, aqui, minha análise deles.
“Fig. nº 1” e “Fig. nº 2”

Essas duas litografias foram produzidas a partir da mesma folha manuscrita, sendo a primeira a impressão das partes escritas com tinta preta e a segunda a das partes escritas com tinta vermelha. Não se sabe onde Rodrigues fez imprimir as litografias do amuleto, mas o litógrafo errou quando se esqueceu de juntar as impressões das duas cores. Além disso, a litografia preta foi impressa de forma invertida em todas as edições de Os africanos no Brasil. Agora, a combinação das imagens das duas litografias permitiu reconstruir o texto original da folha manuscrita (Figura 6).63

Trata-se de um trecho do Qur'ān, que começa com o oitavo e último versículo da sura al-Sharḥ (“O Dilatar”, Qur'ān 94) e termina no meio do terceiro versículo da sura al-Tīn (“As Figueiras”, Qur'ān 95), com alguns erros ortográficos e gramaticais e uma ligeira divergência textual.

O estilo de escrita corresponde àquele de outros documentos afro-islâmicos do Brasil, sendo uma variedade da escrita árabe magrebina, usada na África Ocidental.67 A escrita do amuleto mostra algumas características que são consideradas típicas de manuscritos oeste-africanos do Qur'ān, tal como a altura da letra fā' (l. 1) e do bā' da basmala (l. 4), que corresponde à altura das letras alif e lām.68 Foram escritos em vermelho o título da sura al-Tīn, com a indicação do número de seus versículos, as vogais dos versículos e a decoração dos sinais de pontuação e do marcador do ḥizb na margem direita. No entanto, os pontos diacríticos da seção vermelha do título foram colocados em tinta preta. O uso combinado de tintas preta e vermelha é comum em manuscritos afro-islâmicos do Brasil.69 Destaca-se, nomeadamente, o uso do vermelho para a vocalização de textos corânicos, como acontece num dos documentos do APEB, nos dois livros árabes do IHGB, e no livro baiano da biblioteca do Porto.70 A vocalização vermelha prevalecia em manuscritos do Qur'ān dos séculos X ao XII. Para além dessa época, manteve-se apenas na parte ocidental do mundo islâmico, ou seja, na África Setentrional e Ocidental e na Península Ibérica, enquanto já tinha caído em desuso no Oriente.71


Até agora, são conhecidos três outros manuscritos do Brasil que contêm o mesmo trecho do Qur'ān que esse amuleto de Rodrigues, todos eles copiados na década de 1830 ou antes: o livro da Bibliothèque Municipale de Le Havre (confiscado em Salvador em 1835), o livro maior do IHGB (confiscado em Porto Alegre em 1838) e o livro baiano da Biblioteca Pública Municipal do Porto (ofertado à biblioteca em 1839).74 Ao comparar a configuração dos textos corânicos na folha de Rodrigues, no livro do Rio Grande do Sul (Figura 7) e no livro baiano do Porto (Figura 8), notam-se paralelos óbvios e algumas diferenças.75 Nos três casos, a tinta vermelha foi usada não apenas para a vocalização, mas também para o título da sura, que segue a mesma estrutura: depois do nome da sura, esta é identificada como “mecana”76 e indica-se o número dos seus versículos, embora, no caso dessa sura, o copista do livro do Rio Grande do Sul tivesse esquecido de adicionar o número, escrevendo apenas a palavra āya, “versículo(s)”. A diferença mais evidente reside no fato de o livro do Rio Grande do Sul não denominar essa sura pelo seu nome comum al-Tīn (“As Figueiras”), mas pelo nome al-Zaytūn (“As Oliveiras”). Vale salientar que os nomes das suras não fazem parte do texto do Qur'ān tal como fora revelado ao profeta Maomé, e que os manuscritos corânicos mais antigos ainda não continham títulos ou outras indicações no início das suras.77 Quando os muçulmanos começaram a dar nomes às suras, várias receberam, ao longo do tempo, múltiplos nomes diferentes. Na maioria dos casos, as suras foram designadas por uma palavra-chave do seu primeiro versículo.78 Embora a sura 95 seja geralmente conhecida pelo nome al-Tīn (“As Figueiras”), tal como na folha de Rodrigues e no livro baiano da biblioteca do Porto, existem também as denominações Wa-l-tīn (“Pelas Figueiras”), al-Tīn wa-l-zaytūn (“As Figueiras e as Oliveiras”), e, tal como no livro manuscrito do Rio Grande do Sul, al-Zaytūn (“As Oliveiras”).79 No texto da sura, chama a atenção que esses três manuscritos corânicos do Brasil compartilhem o mesmo erro gramatical no versículo 2 (wa-l-ṭūri em vez de wa-ṭūri), e que a folha de Rodrigues e o livro do Rio Grande do Sul compartilhem a mesma divergência textual no versículo 3 (bi-hādhā em vez de wa-hādhā). No livro baiano da biblioteca do Porto, havia, inicialmente, um outro erro no versículo 1 (wa-l-zaytīni em vez de wa-l-zaytūni), que foi corrigido depois, quando o copista adicionou as vogais com tinta vermelha.
Para separar os versículos, os três manuscritos usam três pontos colocados em forma de triângulo. Esse sinal de pontuação, que ocorre de igual forma em vários documentos do APEB e no “Livrinho malê” do IHGB, é comum em manuscritos corânicos desde os tempos medievais.80 Contudo, observa-se que a divisão dos versículos da sura não é a mesma nos manuscritos brasileiros. Faltam os divisores depois da palavra sīnīn, no amuleto de Rodrigues, e depois da palavra zaytūn, no livro do Rio Grande do Sul. Com exceção do divisor depois da palavra zaytūn no amuleto de Rodrigues, os divisores de versículos presentes nesses dois manuscritos têm um contorno vermelho, o que não ocorre nos divisores do livro baiano do Porto. O estilo de divisores de versículos triangulares contornados em vermelho encontra-se também em manuscritos do Qurʾān da África Ocidental, como, por exemplo, numa cópia setecentista do reino de Borno, na qual os pontos dos divisores foram escritos em amarelo (Figura 9).

A comparação da folha de Rodrigues com a mesma seção do Qur'ān no manuscrito de Borno permite notar semelhanças evidentes na configuração desses dois manuscritos corânicos da África e do Brasil. Percebe-se que a distribuição das tintas preta e vermelha no título da sura do amuleto de Rodrigues segue um padrão tradicional da África Ocidental, com os pontos diacríticos em preto e o rasm, ou seja, a estrutura consonântica sem diacríticos, não vocalizado em vermelho.82 Também a definição da sura como “mecana” e a indicação do número dos versículos depois do título são idênticas nos dois manuscritos. Aliás, eles compartilham o mesmo erro gramatical de
em vez de
, que está igualmente presente no livro do Rio Grande do Sul e no livro baiano do Porto, e que foi corrigido no Qur'ān de Borno pela inserção posterior de um alif por um comentador. Tanto no amuleto de Rodrigues como no manuscrito de Borno e na maioria das suras do livro baiano do Porto e do livro do Rio Grande do Sul, as palavras wa-hiya (literalmente: “e ela”) precedem a indicação do número de versículos. Esse complemento ocorre em vários manuscritos africanos do Qur'ān, sobretudo da região do Chade.83
Na margem direita da folha de Rodrigues, há um ornamento oblongo, em tinta vermelha, com a letra árabe
por dentro, que serve de marcador de divisões litúrgicas em manuscritos corânicos. O Qur' ān inteiro consta de trinta partes (juz' ) de igual tamanho. A metade de cada parte (ḥizb, pl. aḥzāb) corresponde a um sexagésimo do texto. Nalguns manuscritos do Qur' ān, nomeadamente da África Setentrional e Ocidental, são marcados não apenas os inícios de cada juz' e ḥizb, mas também as divisões dos aḥzāb em oitavos, cujos inícios são indicados à margem do texto com as letras
,
e
. Essas letras, por sua vez, são cercadas por linhas verticais ou quadros que podem ter diferentes formas e decorações.84 Na África Ocidental, parece ter sido comum escrever as letras do marcador dos oitavos em preto e as linhas ornamentais em vermelho, tal como acontece no Qur'ān de Borno (à margem esquerda) e num Qur'ān oitocentista da África Ocidental descrito por Brockett.85 O mesmo padrão foi aplicado em manuscritos corânicos do Brasil, tanto no amuleto baiano de Rodrigues, como no livro do Rio Grande do Sul (Figuras 10 e 11) e no livro baiano do Porto (Figura 12).86 No “Livrinho malê” do IHGB existe, igualmente, um marcador de um oitavo de ḥizb, provavelmente também em vermelho, mas sem decorações reconhecíveis.87



As posições dos marcadores dos aḥzāb em manuscritos corânicos podem indicar a tradição de “leitura” (qirā'a) representada no manuscrito respectivo. Existem várias versões ou leituras do Qur'ān, canonizadas no século X e denominadas pelos nomes dos seus transmissores, que diferem ligeiramente na vocalização e na divisão litúrgica do texto. A leitura prevalecente no Império Otomano era a de 'Āṣim via Ḥafṣ, que foi divulgada por meio da edição cairota do Qur'ān de 1924, e constitui, até hoje, a mais importante no mundo islâmico. No Magreb e na África Ocidental, no entanto, predominava a leitura de Nāfi' via Warsh.91 No amuleto de Rodrigues, a posição do marcador de ḥizb, no início da sura al-Tīn, indica que esse manuscrito não aplica nem a leitura de Ḥafṣ, nem a de Warsh, uma vez que, nelas, esse marcador, com o qual começa a segunda metade (ou o quinto oitavo) do último ḥizb do Qur'ān, se situa já no início da sura precedente. Parece que o copista do amuleto seguiu a leitura de Abū 'Amr, na qual esse marcador está colocado no início da sura al-Tīn. Provavelmente, trata-se da leitura de Abū 'Amr via al-Dūrī, que era divulgada em partes da África Ocidental, do Sudão, da Somália e do Iêmen.92
Seria de supor que o Qur'ān de Borno (Figura 9), com o marcador na mesma posição que o amuleto de Rodrigues, tivesse igualmente seguido a leitura de Abū 'Amr via al-Dūrī. Porém, determinadas vocalizações e posicionamentos de marcadores no texto desse manuscrito fazem parte da leitura de Warsh e diferem da de Abū 'Amr.93 No livro do Rio Grande do Sul, algumas das posições dos marcadores dos oitavos dos aḥzāb correspondem à leitura de Warsh, e outras à de Abū 'Amr. Não obstante, muitos dos marcadores foram omitidos, nomeadamente no último juz' do texto corânico, em que se situa a sura al-Tīn. Por isso, não podemos concluir, pela falta do marcador na margem do início dessa sura (cf. Figura 7), que a tradição de leitura corânica nesse manuscrito seja diferente daquela do amuleto de Rodrigues. No livro baiano da biblioteca do Porto, que contém apenas o último ḥizb do Qur'ān, falta a maior parte dos marcadores. Porém, o posicionamento do marcador do primeiro oitavo na sura al-Ghāshiya (“A Envolvente”, Qur'ān 88, cf. Figura 12) corresponde à leitura de Warsh e difere da leitura de Abū 'Amr. No “Livrinho malê” do IHGB, em contrapartida, a posição do marcador do último oitavo do quadragésimo quarto ḥizb, na fl. 74r, corresponde à leitura de Abū 'Amr e difere da de Warsh. Tanto o trecho do Qur'ān do Rio Grande do Sul como o Qur'ān de Borno parecem reunir características das leituras de Warsh, por um lado, e de Abū 'Amr, por outro. Talvez tenha havido leituras híbridas do Qur'ān na África Ocidental, que foram transmitidas para o Brasil.94 São precisos estudos mais aprofundados nesse âmbito para esclarecer essa questão.
A presença do marcador de ḥizb na folha de Rodrigues, assim como a estrutura do texto, que começa pelo versículo final de uma sura e termina no meio do terceiro versículo da sura seguinte, indicam que essa folha, originalmente, não era avulsa, antes fazia parte de um livro com um conjunto de múltiplas suras corânicas consecutivas, copiadas na íntegra. Considerando a distribuição do texto por apenas seis linhas e poucas palavras por linha, podemos concluir que se trata de uma folha de formato pequeno. Provavelmente, fazia parte de um livrete usado como amuleto, tal como acontece com o “Livrinho malê” do IHGB, que também tem apenas seis linhas por página e mede 7,4 × 5 cm.95 A posição do marcador na margem direita do amuleto indica que, dentro do livro, a página litografada se encontrava no verso da folha.96 A frente deverá ter sido inscrita com os versículos precedentes da sura al-Sharḥ (Qur'ān 94), que consta de oito versículos breves, já estando o oitavo presente na página litografada. Com o tamanho da folha de seis linhas, porém, não terá cabido a sura inteira, nem seu título. O texto do lado da frente, que precede o da página litografada, pode, portanto, ser reconstruído como segue:

Se essa reconstrução estiver certa, a página terá começado com a palavra
no canto superior direito. Talvez o erro da duplicação da letra waw, na palavra inicial da página litografada (
em vez de
), tenha sido cometido por analogia gráfica com a palavra que se encontrava no mesmo lugar da página anterior. O texto do lado da frente do fólio terá sido escrito com tinta preta com vogais em vermelho. Talvez tenha sido essa a razão pela qual Rodrigues optou por fazer litografar o verso da folha, já que parecia mais interessante com o título da sura e o ornamento do marcador do ḥizb em tinta vermelha. Possivelmente, não se tratava de um livro encadernado, como no caso dos quatro livros árabes do Brasil já descobertos, mas de um livrinho guardado em folhas soltas dentro de um estojo de couro, como era comum em manuscritos corânicos da África Ocidental oitocentista.99 Isto explicaria como Rodrigues pôde adquirir essa folha solta, embora também seja possível que tivesse adquirido o livro inteiro e apenas tenha feito litografar uma página dele. Em todo caso, identificou-o como “mandinga ou amuleto”.
“Fig. nº 3”

Essa fotografia apresenta um manuscrito talismânico com dois componentes: a repetição de uma frase do Qur'ān em cinco linhas na parte superior da folha, e um quadrado composto de 25 campos com a inscrição yā allāh (“Ó Deus”) em escrita diagonal na parte inferior. O papel mostra vários traços e manchas escuras, que indicam ter sido dobrado múltiplas vezes até chegar a um tamanho pequeno, o que confirma seu uso como amuleto acomodado dentro de uma pequena bolsa de pano ou couro. A folha original deverá, portanto, ter sido de um formato maior, que requeria ser dobrada. Tal como a folha litografada das figuras nº 1 e nº 2 e os outros documentos afro-árabes do Brasil, esse manuscrito foi redigido em escrita árabe magrebina, num estilo oeste-africano, e seu copista usou como sinal de pontuação os três pontos triangulares para indicar o final dos versículos corânicos. O texto da parte superior consta de cinco repetições da última frase do versículo 64 da sura Yūsuf (“José”, Qur'ān 12), escritas a tinta preta, sem vocalização. No início, encontra-se a palavra fā'ida, literalmente “proveito”, que denota textos de magia ou medicina em manuscritos da África Ocidental.101

Observam-se, no texto do amuleto, alguns erros que se aplicam a todas as repetições das palavras, tais como a escrita de
al-r-ḥ-m, em vez de
arḥam, e
ḥāfiẓ, em vez de
ou
ḥāfiẓan. Nas linhas 2 e 4, o copista escreveu
fa-lllāh, em lugar de
fa-llāh, e, em todos os campos do quadrado, falta a letra alif da palavra allāh.
O conteúdo do versículo corânico da sura Yūsuf (Qur' ān 12:64) remete à proteção divina que a dona ou o dono do amuleto buscava. Na tradição islâmica, esse versículo faz parte dos assim chamados “versículos de proteção” (āyāt al-ḥifẓ) do Qur' ān, que são habitualmente inscritos em amuletos.103 No Egito oitocentista, por exemplo, usavam-se amuletos com o mesmo versículo, guardados junto ao corpo das pessoas, para protegê-las contra quaisquer males. Ainda hoje, manuscritos talismânicos com esse versículo são produzidos no norte da Nigéria.104
Quanto ao grande quadrado desse amuleto, trata-se de um khātim (“selo”), ou seja, uma figura gráfica típica em manuscritos árabes sobre magia e talismãs, que pode ser representada como um quadrado ou sob outras formas.105 Uma variedade de khātim são os “quadrados mágicos” (awfāq) cujos campos contêm números, e que também eram usados por pessoas afro-muçulmanas no Brasil do Oitocentos.106 Quadrados parecidos àquele do amuleto de Rodrigues eram igualmente comuns na África Ocidental, como mostra, por exemplo, um manuscrito talismânico do Chade (Figura 14). Nota-se nele, da mesma forma, um quadrado com 25 campos, com o posicionamento diagonal das palavras correspondendo ao do quadrado no amuleto de Rodrigues. Em todos os campos está escrita a palavra árabe jabbār, sendo al-jabbār (“o Gigante” ou “o Poderoso”) um dos “belíssimos nomes” de Deus (cf. p. 96). O nome allāh, inscrito no amuleto de Rodrigues, faz também parte desses nomes, que eram frequentemente escritos dentro de quadrados em talismãs islâmicos.107

O amuleto da coleção Rodrigues mostra, além do mais, paralelos com outros documentos baianos, confiscados em 1835. Dois manuscritos talismânicos do APEB, que pertenciam a um nagô escravizado chamado Luís, apresentam a mesma estrutura, com a repetição de uma parte de um versículo do Qur' ān na parte superior (em ambos: Qur' ān 46:11),109 e a invocação a Deus (yā allāh) na parte inferior, nesse caso acompanhada pela invocação ao profeta Maomé (yā Muḥammad).110 No documento n. 26, as invocações são também inscritas num quadrado, embora este tenha uma configuração diferente da do amuleto de Rodrigues. Segundo Dobronravin, o livro baiano da biblioteca de Le Havre inclui igualmente um khātim com as invocações yā allāh e yā Muḥammad.111 Mais uma vez se confirma, nesses três manuscritos de Rodrigues e do APEB, que a repetição de versículos corânicos ou de outras fórmulas religiosas constituía um dos recursos textuais mais recorrentes em amuletos afro-islâmicos do Brasil.

Conclusão
A análise das descrições, traduções e reproduções de amuletos afro-islâmicos em Os africanos no Brasil revelou que a coleção de Nina Rodrigues incluiu pelo menos oito manuscritos talismânicos diferentes, na maioria dos quais foram inscritos versículos do Qur' ān. Resumindo os resultados deste artigo, proponho o seguinte inventário:

Embora os manuscritos originais pareçam perdidos, suas descrições e reproduções por Rodrigues permitem-nos conhecer pelo menos parte dos seus conteúdos, ampliando destarte a nossa compreensão da cultura de escrita e erudição religiosa de pessoas afro-muçulmanas no Brasil do Oitocentos. A análise dos textos prova a ligação estreita dos amuletos da coleção Rodrigues à tradição islâmica da África Ocidental e, concomitantemente, aos escritos confiscados nos anos 1830 na Bahia e no Rio Grande do Sul. Assim, os textos talismânicos deixam transparecer uma continuidade inequívoca na cultura manuscrita afro-muçulmana do Brasil oitocentista, desde os tempos do Levante dos Malês até finais do século, quando Rodrigues adquiriu seus amuletos.
Notas