HOMENAGEM

SERGIO FIGUEIREDO FERRETTI: ANTROPÓLOGO E PESQUISADOR DA CASA DAS MINAS (MA) (1937-2018)*

Mundicarmo Ferretti
Universidade Federal do Maranhão, Brasil

SERGIO FIGUEIREDO FERRETTI: ANTROPÓLOGO E PESQUISADOR DA CASA DAS MINAS (MA) (1937-2018)*

Afro-Ásia, núm. 61, pp. 358-373, 2020

Universidade Federal da Bahia

Para mim a Casa das Minas é a continuação do Mosteiro de São Bento. O silêncio, a obediência, a liturgia...… Gosto muito de liturgia. Fiquei um ano e três meses no Mosteiro do Rio. Sou de família espírita, mas, quando terminei o segundo grau,queria ser padre...1

Na madrugada de 23 de maio de 2018, o coração de Sergio Ferretti - o professor Ferretti da Casa das Minas - parou de bater. Há tempos que anunciava a proximidade de sua partida, mas o espírito dele era muito forte e, por pouco, não caiu na Universidade do CEUMA (São Luís), onde era esperado para uma miniconferência. Entrou na Emergência do Hospital São Domingos, ficou 24 dias na unidade de tratamento intensivo (UTI), passou por vários procedimentos, mas não conseguiu sair com vida. Na unidade de tratamento semi-intensivo, ainda orientou alunos, confirmou bancas de doutorado e lamentou não poder participar do lançamento do livro do professor João Leal, sobre Festa do Divino, no qual deveria apresentar o texto que foi lido no evento por uma de suas orientandas. E, na véspera do seu falecimento, entubado e quase sem poder se comunicar, solicitou, na visita vespertina, a uma professora-pesquisadora de sua equipe, notícia sobre um trabalho realizado recentemente por ela em escolas públicas de municípios maranhenses próximos a São Luís, utilizando o Museu Afro-Digital da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), do qual ele foi o principal organizador.

Durante sua hospitalização, recebeu mais de cem bolsas de sangue doadas por pessoas que o encontraram no campo de pesquisa, leram seus artigos, assistiram as suas aulas, suas conferências, ouviram na mídia ou que participaram no WhatsApp do grupo Amigos de Ferretti, criado naqueles dias para mobilizar as doações de sangue. Deveria ainda se submeter a mais uma cirurgia, mas não resistiu e, na madrugada de 23 de maio, deu o seu último suspiro. Ferretti ainda conseguiu comemorar, como desejava, os 25 anos do seu grupo de pesquisa com seus alunos e companheiros de trabalho; seu 80º aniversário com familiares e amigos; e suas bodas de ouro quase também realizada por seus avós paternos que, segundo ele, foram as pessoas mais bem-casadas de sua família. Enfrentou alguns problemas, mas foi uma pessoa realizada e contribuiu para o êxito de muitos dos que cruzaram seu caminho.

A morte de Sergio Ferretti irmanou grande número de pessoas de categorias sociais e de credos diferentes, que o acompanharam na sua última luta pela vida. E como “por encanto”, na semana que sucedeu sua morte, foi observado em São Luís o que ele sempre desejou, mas nunca ninguém acreditou que pudesse acontecer em nossos dias: a integração de pessoas de credos diferentes numa mesma atividade, sem discriminação, num clima de muita cordialidade e respeito. No seu velório, várias delas haviam se manifestado espontaneamente rogando a Deus, aos santos, aos voduns, orixás, encantados e aos ancestrais que o recebessem e o acompanhassem até sua nova morada. E, já tarde da noite, uma moça vestida “à moda cigana” cantou em sua homenagem uma música de refrão conhecido e versos “improvisados”, falando dele e de sua contribuição para a cultura popular maranhense.

No sétimo dia após sua morte, recebeu uma grande homenagem na UFMA, organizada por seu grupo de pesquisa (GP Mina), com apoio de familiares, da Comissão Maranhense de Folclore, de colegas e com a participação de grupos de bumba meu boi, tambor de crioula, de caixeiras do divino e de diversas comunidades religiosas. Após sua grande partida, foi também homenageado por várias instituições acadêmicas,2 deu nome ao Prêmio FAPEMA 2018, da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão, e, na Universidade Federal do Maranhão, deu nome também ao prédio novo destinado aos grupos de pesquisa do Centro de Ciências Humanas e ao auditório do Centro de Ciências Sociais, próximo da sala que passou a ser ocupada pelo GP Mina - grupo de pesquisa do qual muito se orgulhava e que se encarregará da continuidade de sua obra.

Sergio Ferretti viveu oitenta anos. E, de acordo com um dito popular, foi um homem realizado - “teve um filho, plantou uma árvore e escreveu um livro” que o eternizou: Querebentã de Zomadônu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão. Nasceu no Rio de Janeiro, numa família de imigrantes italianos, e foi referência em cultura popular e religião afro-brasileira no Maranhão. Chegou a São Luís aos 26 anos, saído da Faculdade Nacional de Filosofia e da Escola de Belas Artes, depois de ter passado pelo Colégio Pedro II e pelo Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, e trabalhou ali até quase a sua última hora. Deixou um filho (André), casado com a curitibana Carolina de Paula Soares Paiva Ferretti, e duas netas (Bruna e Camila).

Carioca erudito referência em cultura popular no Maranhão

Sergio Figueiredo Ferretti nasceu em Bangu (no Rio de Janeiro-RJ), em 8 de novembro de 1937, filho de Sérvulo Ferretti e de Zeni Figueiredo Ferretti. Seu avô paterno, com quem teve longa convivência, era italiano, de Reggio dell’Emilia. Chegou ao Brasil em 1898 ou 1899, com a mãe, a irmã e um irmão de uns dezenove anos. Segundo relatos de família e matéria publicada pelo jornal O Globo, em 1933,3 seu bisavô paterno foi sapateiro do papa Pio IX, de quem era sobrinho por linha bastarda. A avó paterna de Sergio (Teresa Pinheiro Ferretti) era mineira, de Lavras. Faleceu três meses após a morte do marido, pouco antes de suas bodas de ouro, que não chegou a festejar.

O avô paterno de Ferretti, chegando ao Brasil, foi para uma fazenda de café em São Paulo e, depois, para o Rio de Janeiro, onde seu irmão trabalhou na construção da fábrica de tecelagem Bangu, e ele foi ajudante de “apontador” (fiscal do ponto). Depois da Primeira Guerra Mundial, seu avô conseguiu ganhar dinheiro vendendo ferro, que comprara dos ingleses, de uma estrada cuja construção fora interrompida. E, associando-se ao irmão, tornou-se próspero comerciante, abrindo inclusive, em Bangu, a casa de ferragem, onde o pai de Sergio Ferretti trabalhou quase a vida toda.

Ferretti não conheceu seus bisavós e avós maternos (Virgínea Franco Figueiredo e Pedro Figueiredo), mas conviveu bastante com as irmãs de sua mãe e pelo menos com um dos irmãos dela. E, apesar de ter encontrado no Rio e em Minas Gerais várias pessoas da família de sua avó paterna (Pinheiro), suas lembranças de infância eram muito atreladas à família Ferretti. Gostava de ouvir o avô contar a história da família e, talvez por se identificar com a Itália, quando aluno do Científico, fez dois anos em um curso de italiano de três anos de duração.

Na infância, em Bangu, morava numa casa grande com quintal, que pertencera ao seu avô materno, também comerciante como o seu avô paterno. Foi filho único até os sete anos e tinha poucos amigos, pois não lhe era permitido brincar na rua com as crianças de sua idade. Seu avô paterno tinha bens, mas a família vivia modestamente. Contou que, certa vez, ficou muito interessado por uns brinquedos populares artesanais vendidos na feira livre que passara a acontecer em frente à sua casa, mas não conseguiu ganhar dos pais nenhum deles. Sua mãe queria que ele fosse médico e sonhava em sair do subúrbio e morar no Centro da cidade, onde já residiam suas duas inseparáveis irmãs mais velhas. Mas só saíram de Bangu em 1946, quando ele tinha nove anos e sua irmã estava com dois anos de idade.

No Centro da cidade, a família ficou mal acomodada durante vários anos, mas, ali, ele e a irmã puderam estudar em colégio orientado por Anísio Teixeira e, em 1950, aprovado em concurso, Ferretti entrou para o renomado Colégio Pedro II, onde estudou até 1956, quando concluiu o científico. Seu pai era contador, mas, saindo de Bangu, trabalhou como porteiro de edifício e, com a ajuda da esposa e de alguns auxiliares, vendeu cafezinho em prédios comerciais. Sua mãe, associando-se a uma amiga, realizou ali, por algum tempo, trabalhos de costura. Mas, pouco antes da morte do seu avô, o pai de Ferretti voltou a trabalhar na loja de Bangu, ficando sua esposa e seus filhos ora na casa de uma de suas irmãs, ora em pequeno apartamento alugado, até que, recebendo uma herança do seu avô materno e depois de muita pressão, a ajuda do seu avô paterno, conseguiram comprar um apartamento na Tijuca.

Sergio Ferretti passava parte de suas férias na casa de seus avós paternos, em Bangu, onde a família costumava se reunir aos domingos e ele podia encontrar o filho de sua tia, Arieta Ferretti, casada com um médico que estudou em colégio militar e fez carreira no Exército. Desde o curso primário, Ferretti foi um assíduo frequentador de bibliotecas - passou muitas vezes o horário do recreio nelas. No fim do curso ginasial, além da biblioteca do Colégio Pedro II, frequentava o Gabinete Português de Leitura e, ao final do científico, a Biblioteca Nacional e outras. No científico, fez parte do Grêmio Estudantil e, apoiado em programa do Ministério da Educação e Cultura (MEC), organizou várias visitas às cidades de Teresópolis e Petrópolis. Também no Científico, em companhia de amigos judeus, tão isolados no colégio quanto ele, passou a frequentar aos domingos o Concerto da Juventude, da programação gratuita do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e, com a ajuda do porteiro, conseguiam assistir, sem pagar, a óperas e balés da temporada.

Não recebia mesada dos pais, mas costumava receber dinheiro do avô, quando o levava ao médico, da avó, quando a acompanhava em suas viagens a Minas, e quando lavava as louças finas e os lustres da casa dela antes das festas natalinas. Com suas economias, no fim do primário, comprou a roupa da sua primeira comunhão e, terminando o ginásio, adquiriu um summer com gravata borboleta para ir a bailes de formatura, de que gostava muito, pois adorava dançar. Ao término do ginásio e do científico, pagou também sua orientação profissional no Instituto de Seleção e Orientação Profissional, da Fundação Getúlio Vargas (ISOP-FGV), pois não queria ser médico, como desejava sua mãe, e nem comerciante, como eram seu pai e seu avô, mas não sabia “o que deveria ser e o que fazer na vida”.

No segundo ano científico, interessado em Barroco, por indicação de um professor, conheceu um especialista que era do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e passou a frequentar o Mosteiro, a participar de saraus de música gregoriana e terminou desejando ser padre, o que não era aceito por sua mãe que, além de espírita, era anticlerical, como fora o pai dela. Ferretti, na época, embora considerasse o espiritismo inferior ao catolicismo e sentisse vergonha de ter um tio que recebia entidade espiritual, frequentava centro espírita com sua mãe e sua irmã.

Em setembro de 1957, logo após o falecimento de seus avôs, enquanto sua mãe julgava que ele estivesse estudando para o vestibular de medicina, sem avisar em casa, entrou para o Mosteiro do Rio de Janeiro, provocando violenta reação de sua mãe. Em decorrência das pressões de sua família, quinze meses depois foi aconselhado a sair, fazer uma faculdade e, depois, com mais maturidade, decidir se deveria voltar.

No Mosteiro de São Bento, Sergio estudou história da Igreja, grego, latim e leu bastante sobre liturgia, de que gostava muito, quase tudo em francês. Como tivera no Pedro II um grande professor de história e o curso da Faculdade Nacional de Filosofia era muito conceituado, saindo do Mosteiro, fez um mês de cursinho pré-vestibular e conseguiu entrar na faculdade e, também, para um curso superior de museus, na Escola de Belas Artes. Como as aulas de história eram pela manhã e as de museus à tarde e os dois se completavam, conseguiu concluir ambos os cursos no tempo normal. Na Faculdade, integrou um grupo de cinco rapazes que se encontravam nos fins de semana para estudar. O curso tinha uma carga de leitura muito grande, quase toda em língua estrangeira, e Ferretti lia francês, outro lia bem inglês, um terceiro estava se especializando em arqueologia. Segundo Ferretti, na época, o curso de história era muito bom e os professores excelentes. Cursou História Contemporânea, História do Brasil, História da América, Etnologia e outras disciplinas. E, no curso de museus, foi aluno também de bons professores, como Manoel Barata que, logo após sua formatura, o convidou para trabalhar com ele naquele curso, e Jenny Dreyfus, que mais tarde trabalhou na organização do Museu Histórico e Artístico do Maranhão.

Ferretti tinha boas recordações da época do científico, do Mosteiro e da Faculdade, quando teve grande crescimento intelectual e fez muitos amigos. A Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil era muito politizada, e ele, se envolvendo bastante com o Diretório Acadêmico e com a Juventude Universitária Católica (JUC), da Ação Católica, participou de muitos encontros, acampamentos, dias de estudo etc. Naquela época havia muitas atividades culturais. Assistiu a muitas conferências, às vezes em francês, ia frequentemente ao cinema, participou de muitos debates sobre o Cinema Novo, frequentou assiduamente a Livraria Francesa e ainda tinha tempo para tomar um chope com amigos - saía de casa de manhã cedo e só voltava bem tarde da noite.

Durante dois anos, recebeu uma bolsa do Instituto de Ciências Sociais, hoje da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que dividia com um amigo, mas, para ganhar algum dinheiro, desde o segundo ano de faculdade, dava aulas à noite, em cursinho pré-vestibular. Em 1962, no último ano da faculdade, deu aula no Colégio de Aplicação e recebeu o título de “Melhor Aluno-Mestre” do ano. Quando concluiu sua graduação, além de receber um convite para dar aula no Colégio de Aplicação, foi convidado para trabalhar na Escola de Belas Artes, em História da Arte. E, informado sobre a existência de uma vaga de trabalho no Movimento de Educação de Base (MEB), onde uma amiga sua trabalhara em Pernambuco e outra ia começar a trabalhar no Maranhão, candidatou-se e, sendo aceito, foi para o Maranhão. Antes de ir para São Luís, fez uma viagem pelo Nordeste para conhecer a experiência do MEB em várias capitais, as Ligas Camponesas de Pernambuco e o trabalho do Centro Popular de Cultura (CPC) - movimento universitário de cultura popular ligado à União Nacional de Estudantes (UNE), muito forte naquele estado - e passou o Carnaval em Recife, onde ficou hospedado no Mosteiro de São Bento.

Maranhão, “terra de Gonçalves Dias” ou de mina?

Sergio Ferretti, licenciado em História e museólogo carioca, chegou a São Luís em março de 1963. Trabalhou no MEB-MA durante um ano, incluindo o período de dois meses que passou no Uruguai, fazendo um curso sobre cooperativismo. Ficou hospedado no Palácio Episcopal, onde residia o bispo, alguns rapazes ligados a trabalhos da Igreja Católica e onde ficava a sede do MEB. Ao chegar a São Luís, participou de uma Caravana Cultural do MEB, na Maioba (área rural da capital maranhense), quando conheceu e começou a se interessar por bumba meu boi e por tambor de crioula. Logo depois viajou para o interior do estado em um pequeno avião, conhecido como “teco-teco” e, nessa viagem, andou a cavalo e a pé, percorreu caminhos estreitos, estradas sem asfalto, atravessou rios com pontes caídas, levando um verdadeiro choque cultural.

Os primeiros meses vividos por ele no Maranhão, mesmo na capital, foram muito difíceis, principalmente porque o salário do MEB era muito baixo e ele chegara a São Luís sem conhecer ninguém da cidade. E, embora tenha se acostumado rapidamente a dormir em rede de palha, estranhou a comida do “bandejão” (restaurante popular) do Lar Maria Goretti, onde residiam moças do interior, o linguajar e os costumes da população tradicional, a falta de informação de alguns universitários que participavam de atividades promovidas pelo MEB etc. Mas logo Ferretti foi descobrindo os encantos de São Luís e começando a se interessar por sua história, arqueologia e arquitetura, o que nem sempre era muito valorizado pelas pessoas com as quais entrara em contato, que pareciam mais interessadas na sua modernização. Com alguns companheiros, comeu melancia à beira mar, foi de barco à praia de Ponta d´Areia e, com uma amiga, visitou as galerias da Fonte do Ribeirão e começou a conhecer suas lendas.

Na Semana Santa, indo ao Teatro Arthur Azevedo assistir a uma peça sacra de Cecílio Sá, teatrólogo maranhense, foi apresentado por um companheiro do MEB a uma estudante de Filosofia, Mundicarmo, que anos depois se tornou sua esposa e foi uma das principais responsáveis por seu retorno e sua fixação no Maranhão. Com ela, passou a discutir notícias de jornais sobre o Concílio Vaticano II, percorreu as ruas da cidade, admirando a arquitetura colonial e seus azulejos, conheceu a coleção de arte sacra da diocese, viu o pôr do sol na Praça Gonçalves Dias e a chegada de barcos do interior na Praia Grande. E, como um irmão mais velho, foi pouco a pouco sendo ouvido e admirado por seus colegas de trabalho e pelos universitários que participavam de atividades organizadas pelo MEB e com eles foi se aproximando da cultura popular do Maranhão.

Em setembro e outubro de 1964, quando estava no Uruguai, incentivado por uma amiga que fazia pós-graduação na Bélgica, solicitou uma bolsa daquele país para um curso de Sociologia do Desenvolvimento, na Universidade Católica de Louvain, no período 1964-1966, sem muita esperança de ser atendido. Voltando a São Luís, continuou o trabalho no MEB e deu aula de história no curso pré-vestibular do Diretório de Filosofia. No ano seguinte, passou o Carnaval em São Luís e, em 15 de março, viajou de férias para o Rio de Janeiro, devendo retornar um mês depois, o que não aconteceu devido a problemas enfrentados pelo MEB no governo militar instaurado no Brasil em 31 de março. Desligado do MEB, enquanto aguardava o julgamento da bolsa solicitada ao governo belga, assumiu algumas aulas no Colégio de Aplicação e em outros cursos, trabalho esse interrompido depois, às pressas, para preparar sua saída do Brasil.

Na Bélgica, morou na Maison Saint Jean, que recebia anualmente cerca de vinte estudantes de vários países e de várias religiões, e por onde passaram muitos bispos no final do Concílio Vaticano II, dando conferência ou para encontrar os estudantes brasileiros. O curso da Universidade de Louvain tinha bons professores e uma excelente biblioteca, mas era muito cansativo e estressante. Os brasileiros, que na época eram muito numerosos naquele país, procuravam se ajudar e se reunir sempre que possível na casa de alguns para conversar, comemorar aniversários, planejar viagens etc. Ferretti, nos fins de semana, viu muitas exposições no Palácio de Belas Artes de Bruxelas e, nos dois anos que esteve na Bélgica, visitou vários países. No final da temporada, passou um mês em um kibutz de Israel e outro viajando “de carona” pelos países árabes, em companhia de uma amiga com quem trabalhara no MEB do Maranhão.

Em Louvain, Ferretti teve seu primeiro contato com a obra de Roger Bastide, As religiões africanas no Brasil: contribuição a uma sociologia das interpenetrações de civilizações, lançada em 1961, que lera na biblioteca antes de iniciar o curso “Contato de Civilizações” embasado na obra, que o “iniciou” nas religiões afro-brasileiras. No Rio, durante sua graduação, havia feito algumas leituras sobre candomblé em curso ministrado por Marina Vasconcelos, que fora assistente de Artur Ramos, um dos fundadores da antropologia afro-brasileira, mas esse campo continuava quase desconhecido por ele. No final de 1966, voltando para o Brasil, passou uns dias em Recife e foi para São Luís, quando ficou noivo. Em São Luís, recebeu um convite para trabalhar na Superintendência de Desenvolvimento do Maranhão (SUDEMA), órgão de planejamento do estado do Maranhão, mas, preferindo ficar no Rio, foi trabalhar no Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS), instituição católica fundada por um sociólogo que estudou em Louvain e trabalhou ali durante três anos, até sua mudança para São Luís.

Em 1967, sua noiva, fazendo mestrado em Administração na FGV, passou dez meses no Rio de Janeiro, assumindo o compromisso de trabalhar depois, pelo dobro do tempo, na Escola de Administração Pública do Estado do Maranhão, criada recentemente, curso esse que deveria concluir até cinco anos depois. Casaram-se em São Luís e moraram no Rio de Janeiro até março de 1969, Ferretti trabalhando vinte horas por semana no CERIS e dando aula de História da América na Universidade Santa Úrsula e na Gama Filho; de Economia Social em Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica (PUC); e de Metodologia de Pesquisa Museológica no Museu Histórico Nacional, depois Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Em 1968, Mundicarmo deu aula de Psicologia Educacional e de Didática na Faculdade Católica de Campos (RJ). Ferretti tinha ali uma vida muito cansativa, pois, além de sair cedo de casa e de, às vezes, voltar quase à meia-noite, passava os fins de semana preparando aula.

No início de 1969, depois de realizar um trabalho em Pedreiras (MA) para pesquisa participada pelo CERIS, passou trinta dias de férias em São Luís. Nesse período, ele e Mundicarmo receberam propostas de trabalho em tempo integral na Escola de Administração Pública do Estado do Maranhão (EAPEM), onde deveriam reger as disciplinas Sociologia e Psicologia Aplicada à Administração e realizar algumas atividades técnicas e administrativas. Resolveram aceitar, apesar de Ferretti estar satisfeito com o trabalho que estava realizando no Rio de Janeiro e gostar muito da “vida cultural” de sua cidade. Ao chegar a São Luís, os dois foram também convidados pela Universidade do Maranhão (mais tarde Universidade Federal do Maranhão - UFMA) para dar aula, como professores substitutos, até a abertura de concurso, nos Departamentos de Sociologia e de Psicologia.

Em 1970, quando a Universidade se preparava para uma grande reforma, Ferretti foi indicado como professor de História da Arte do recém-criado curso de Biblioteconomia e designado para dirigir o Departamento de Educação e Cultura da Superintendência de Ensino e Pesquisa (SEPE). Nesse órgão, com o professor Jocy Rodrigues, iniciou um amplo projeto sobre cultura popular e folclore no Maranhão. Em 1969, a convite de seu sogro, que era folclorista, assistiu em São Luís, pela primeira vez, a um ritual de mina ou de umbanda, com toque de tambor e transe religioso, em um terreiro localizado próximo à Praia do Olho d’Água, aguçando seu interesse sobre aquela manifestação cultural.

Em 1973, um ano após o nascimento do seu filho André, exercendo no estado a função de museólogo e a coordenação do Departamento de Assuntos Culturais da recém-criada Fundação Cultural, foi convidado para trabalhar na organização do Museu Histórico e Artístico, com Jenny Dreyfus, que fora sua professora no Rio, no curso de museus, aceitando com satisfação todas aquelas indicações e realizando o trabalho exigido por cada uma delas com competência e dedicação, o que se tornou uma de suas principais características. Trabalhou por dez anos no Museu Histórico e, na década de 1970, coordenou na Fundação Cultural uma pequena pesquisa sobre a dança do lelê e outra sobre tambor de crioula, com apoio da Fundação Nacional de Artes (FUNARTE). Realizou também visitas a terreiros de tambor de mina, em busca de doações para o Museu do Negro, em organização, na Cafua das Mercês (antigo depósito de escravos). E, encontrando no Museu Histórico um livro de Nunes Pereira que ele não conhecia sobre a Casa das Minas, publicado em 1947,4 releu a obra de Bastide que conhecera na Bélgica, que falava naquele terreiro, e começou a entrar em contato com ele, tornando-se mais tarde um dos maiores pesquisadores daquele terreiro.

Em 1979, Ferretti publicou em revista da UFMA um trabalho sobre tambor de crioula e, tomando conhecimento de um programa de mestrado em Antropologia criado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), por meio de uma professora que estudara na Bélgica na mesma época que ele, juntamente com Mundicarmo, participou da seleção e foram para Natal, onde residiram por dois anos, retornando depois, em junho de 1983, para a defesa de suas dissertações, ambas orientadas pelo professor Kabenguele Munanga - a de Mundicarmo sobre baião de Luiz Gonzaga e a dele sobre a Casa das Minas. Voltando a São Luís, após a conclusão das disciplinas no mestrado, Ferretti conheceu o escritor alemão Hubert Fichte, interessado em religiões de matriz africana, que passou cerca de nove meses em São Luís, e com ele realizou muitas entrevistas com dona Deni, chefe da Casa das Minas. Seu livro Querebentã de Zomadônu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão, que teve três edições, produzido no mestrado, tem sido considerado por muitos sua principal contribuição aos estudos afro-brasileiros.

Depois do mestrado, Ferretti, que já era bastante conhecido como professor, tornou-se referência em cultura popular e religião afro-brasileira, especialmente sobre a Casa das Minas, o que teve muito a ver com o trabalho desenvolvido por ele na Fundação Cultural, no Museu Histórico e na Comissão Maranhense de Folclore, reorganizada na década de 1970 pelo professor Domingos Vieira Filho e, depois, por Ferretti, em 1992.

Em 1983, Ferretti recebeu o troféu “Mirante 83”, da Empresa Mirante de Comunicações, atestando sua boa relação com a mídia e, em 2002, cerca de vinte anos depois, recebeu da Câmara Municipal o título de “Cidadão de São Luís”, comprovando o reconhecimento de seu trabalho e sua integração à cultura maranhense. Foi também muito importante nesse processo o trabalho realizado por ele por ocasião do Colóquio Internacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), realizado em São Luís, em 1985, quando sua dissertação de mestrado sobre a Casa das Minas foi publicada pela UFMA. Na ocasião, ele se tornou mais conhecido e amigo de renomados pesquisadores, em especial de Pierre Verger, com quem participou no Benin, com Mundicarmo e dona Celeste da Casa das Minas, de um festival de cultura do vodum, em 1993. A relação de Verger com aquela Casa teve início em 1947, quando ele esteve em São Luís e, a partir de entrevistas com vodunsis da Casa, levantou a hipótese de que a Casa das Minas poderia ter sido fundada pela rainha Nã Agontimè, viúva do rei Agonglô (1789-1797) e mãe do rei Guêzo (1818-1858) do Daomé, que diz ter sido escravizada por Adandozan, meio irmão do seu filho.5

Em 1986, quando foi iniciado na UFMA o tão esperado curso de graduação em Ciências Sociais, pelo qual Ferretti muito se empenhara, ele estava se afastando de São Luís, para doutorado em Antropologia na Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo, onde residiu por quatro anos. Defendeu sua tese de doutorado em 1992, publicada pela EDUSP em 1995 e pela EDUSP e Arché, em 2013, com o título Repensando o sincretismo. Voltando para São Luís, assumiu a coordenação daquele curso e, em 1992, fundou o GP Mina, contribuindo para a formação de muitos pesquisadores de religião e de cultura popular. Depois do doutorado, Ferretti ampliou sua participação em congressos, seus contatos com pesquisadores de outros estados e do exterior, as orientações a alunos de graduação e pós-graduação e suas publicações em Antropologia. Foi um dos principais responsáveis pela criação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais daquela Universidade (mestrado em 2003 e doutorado em 2011) e, mais recentemente, do Museu Afro-Digital da UFMA, pelo qual tinha grande predileção.

Em 2018, quando Ferretti “partiu”, a Casa das Minas já não estava realizando muitos dos seus rituais e já não se podia mais ouvir ali o canto das vodunsis com seus senhores e suas senhoras africanas. Mas, naquele silêncio, uma voz evocada pelos Amigos de Ferretti na homenagem póstuma de 29 de maio, parecia ecoar inspirando confiança no futuro: “A Antropologia não pode prever o futuro de uma religião, porque nenhuma religião constitui um fenômeno controlado exclusivamente pelo homem”.6

Bibliografia selecionada de Sergio Ferretti

Com José Valdelino Dias e Joíla Moraes. Dança do lelê. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.

Tambor de Crioula, ritual e espetáculo. São Luís: SIOGE, 1979 (2ª ed. CMF, 1995; 3ª ed. rev. 2002).

Querebentã de Zomadonu: etnografia da Casa das Minas. São Luís: EDUFMA, 1985 (2ª ed. 1996; 3ª ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2009; trad. italiano Milão: Edizioni del Gattaccio, 2018).

“Da etnopoesia afro-americana”. Anuário Antropológico, n. 87 (1990), pp. 231-242.

“O conhecimento erudito da tradição afro-brasileira”. Afro-Ásia, n. 15 (1992), pp. 231-241.

Repensando o sincretismo. São Paulo: EDUSP, 1995 (2ª ed. São Paulo: EDUSP ; Arché, 2013).

“Festa de Acossi e o arrambã: elementos do simbolismo da comida no tambor de mina”. Horizontes Antropológicos, v. 2, n. 4 (1996), pp. 61-70.

“Casa das Minas: religião popular e mudança”. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, v. 25 (1997), pp. 38-41.

“Sincretismo afro-brasileiro e resistência cultural”. In Carlos Caroso e Jeferson Bacelar (orgs.), Faces da tradição afro-brasileira (Rio de Janeiro: Pallas, 1999), pp. 113-130.

Reeducando o olhar: estudos sobre feiras e mercados. São Luís: UFMA; PROIN-CS, 2000.

“Notas sobre o sincretismo religioso no Brasil”. Tempo, n. 11 (2001), pp. 13-26.

“Religious Syncretism in an Afro-Brazilian Cult House”. In Sidney M. Greenfield e André Droogers (orgs.), Reinventing Religion (Maryland: Rowman & Litlefield, 2001), pp. 87-97.

Com Adroaldo Almeida e Lyndon Santos (orgs.). Religião, raça e identidade. Colóquio do centenário da morte de Nina Rodrigues (São Paulo: Paulinas, 2009).

Com José Ramalho (orgs.). Amazônia: desenvolvimento, meio ambiente e diversidade sociocultural, São Luís: EDUFMA , 2009.

Com Lyndon Santos e Gamaliel Carreiro (orgs.). Religiões & religiosidades no Maranhão. São Luís: EdUFMA, 2011.

“Candomblé da Bahia”. Afro-Ásia , n. 41 (2011), pp. 267-274.

Museus afrodigitais e política patrimonial. São Luís: EDUFMA , 2012.

Com Lyndon Santos , Gamaliel Carreiro e Thiago Santos (orgs.). Missa, culto e tambor: os espaços das religiões no Brasil. São Luís: EDUFMA , 2012.

Com Lyndon Santos , Gamaliel Carreiro e Thiago Santos (orgs.). Todas as águas vão para o mar. Poder, cultura e devoção nas religiões. São Luís: EDUFMA , 2013.

Com Lyndon Santos , Gamaliel Carreiro e Thiago Santos . Religião, carisma e poder. As formas da vida religiosa no Brasil. São Paulo: Paulinas , 2015.

“Le Tambor de Crioula: patrimoine culturel du Maranhão”. Les Carnets du Lahic, v. 11 (2015), pp. 162-180.

Notas

1 Entrevista de Sergio Ferretti para o livro organizado por Maria Michol Pinho de Carvalho e Antônio Torres Montenegro, Memória de velhos: depoimentos, uma contribuição à memória oral da cultura popular maranhense, São Luís: SECMA, 2006, pp. 95-168.
2 Comissão Maranhense de Folclore (CMF); Associação Brasileira de História da Religião (ABHR); Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS); Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS); Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e outras.
3 “Dos thesouros sombrios do Vaticano para três lares de Bangu. A fortuna de Pio IX e a sua distribuição. Uma história curiosa revelada pelos herdeiros do Brasil”, O Globo, Rio de Janeiro, Anno IX, n. 2715, edição das 14 horas, 4 fev. 1933, p. 1.
4 Manoel Nunes Pereira, A Casa das Minas: contribuição ao estudo das sobrevivências dos voduns, do panteão daomeano, no Estado do Maranhão-Brasil, 2ª ed., Petrópolis: Vozes, 1979. Edição original de 1947.
5 Pierre Verger, “Uma rainha africana mãe de santo em São Luís”, Revista USP, n. 6, (1990), pp. 151-158.
6 Sergio Ferretti, Querebentam de Zomadonu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão, São Luís: EDUFMA, 1996, p. 279.
* Artigo baseado em entrevistas concedidas pelo antropólogo Sergio Figueiredo Ferretti - referência em cultura popular tradicional e religião afro-brasileira do Maranhão -, em conversas com sua esposa e em observações dela em seus cinquenta anos de convivência e de parceria com ele.
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