RESENHAS
QUINHENTOS ANOS DE LUTA PELA TERRA NO CARIBE
QUINHENTOS ANOS DE LUTA PELA TERRA NO CARIBE
Afro-Ásia, núm. 67, pp. 703-706, 2023
Universidade Federal da Bahia
| DUBOIS Laurent, TURITS Richard Lee. Freedom Roots: Histories from the Caribbean. 2022. Chapel Hill. University of North Carolina Press. 395 ppp. |
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Escrever a história do Caribe em um único volume é uma tarefa árdua. Não apenas porque 500 anos de história colonial desafiam qualquer tipo de modelo interpretativo e/ou narrativo rotineiramente utilizado pelos historiadores, mas porque a região continua a ser constituída por possessões coloniais e, ao mesmo tempo, por países independentes. Para alguns caribenhos, o domínio colonial terminou há mais de duzentos anos, como no Haiti, enquanto na Martinica e em Guadalupe, territórios franceses, a independência é um projeto em andamento. Além disso, franceses, britânicos, espanhóis, holandeses, dinamarqueses e americanos ocuparam territórios no Cariba, que consiste numa área geográfica relativamente pequena, e deixaram seus legados culturais em termos de idiomas, direito e laços duradouros de dependência. De fato, talvez nenhuma outra região geográfica concentrada no globo tenha testemunhado uma batalha tão intensa e contínua de múltiplas potências imperiais pela hegemonia e o desejo de países individuais de afirmar suas soberanias.
Como resultado, as histórias gerais do Caribe, como aquelas escritas por por Eric Williams (1970), Franklin Knight (1978) e B. W. Higman (2011), para listar apenas algumas, tendem a tratar dos temas dominantes da história do Caribe que moldaram a região - temas como a aniquilação das populações indígenas, o colonialismo europeu, o sistema de plantação operado por africanos escravizados e a luta pela reforma e a revolução. Laurent Dubois e Richard Lee Turits devem muito a esses trabalhos anteriores de síntese, e esses tópicos certamente são abordados pelos autores, mas eles optaram por uma contra-narrativa ao modelo de plantação imperial como a história dominante e unificadora do Caribe. Em vez disso, procuram colocar o controle da terra e o acesso à terra como característica central da história do Caribe ao longo de cinco séculos. Ao focar na terra, eles podem encadear o deslocamento indígena do território ancestral no século XVI, sob o domínio espanhol, até a reforma agrária no século XX, sob a Revolução Cubana.
Além disso, ao focar na terra, eles elaboram o tema da “contra-plantação” que se desenvolveu lado a lado e muitas vezes de dentro do próprio sistema de plantação. Podiam ser terras de comunidades indígenas, chamadas conucos, que forneciam alimentos para os trabalhadores das plantações; as roças de subsistência de escravos, que também tinham a oportunidade de comercializar seus próprios produtos; ou a capacidade dos camponeses de trabalhar em suas próprias terras durante o tiempo muerto, fora do ciclo da safra. Os autores fornecem uma variante atualizada do famoso conceito de “contraponto”, do estudioso cubano Fernando Ortiz. Ao invés de contrastar açúcar e fumo, como Ortiz havia feito, porém, eles examinam como foi a batalha pelo acesso à terra entre a plantação e a contra-plantação.
Enquanto história temática, o livro se assemelha a um ensaio estendido e bem documentado, com base em fontes secundárias e fontes primárias impressas, que mapeia questões da terra e das lutas por terra durante momentos-chave na história do Caribe. Por exemplo, na “Parte I: Terra e Liberdade: Histórias do Caribe Colonial”, os historiadores examinam o desenvolvimento da agricultura do açúcar no Caribe e, em seguida, como ela foi desmontada por rebeliões e revoluções. Esses capítulos iluminam o desenvolvimento inicial da plantação na ilha de Hispaniola, no século XVI. Em vez de considerar o século XVI como um “precursor” inicial, ou mesmo um “falso começo”, em comparação com a escravidão em larga escala posterior, perspectiva comum aos estudos anteriores, eles demonstram que Hispaniola foi um modelo para desenvolvimentos futuros. Nestes primeiros capítulos, os autores se baseiam, particularmente, em grande parte dos excelentes trabalhos recentes sobre a Jamaica britânica do século XVIII e nos trabalhos mais conhecidos sobre a Saint-Domingue francesa do século XVIII. É reconfortante que, em vez de apresentar as principais quebras da periodização na história do Caribe - por exemplo, entre a escravidão e a abolição -, Dubois e Turits vinculam esses dois períodos históricos da plantação e da contra-plantação, mostrando como a batalha contínua contra o colonialismo e a escravidão foi feita para obter acesso à terra.
Na segunda parte do livro, intitulada “Império e Revolução: Histórias do Caribe Independente”, os autores examinam o século XX em quatro capítulos. Nesses capítulos, a ocupação pelos Estados Unidos e o controle imperial do Caribe, e o desenvolvimento, o curso e a influência da Revolução Cubana tornam-se os tópicos centrais do estudo. A Revolução Cubana de 1959 e suas políticas de reforma agrária constituem, naturalmente, um tema central de estudo nessa altura do livro. Além disso, os autores mostram como a decidida resistência para afirmar a autonomia camponesa levou a um controle imperial mais duro por parte das empresas e do governo dos Estados Unidos. E como consequência, na esteira da revolução a política de Guerra Fria dos Estados Unidos buscou minar as tentativas de reforma agrária na República Dominicana, Jamaica, Granada e Haiti.
Sem dúvida, uma história temática não pode abordar todas as questões históricas que moldaram uma região e seu povo ao longo de cinco séculos. Dado o interesse dos leitores da Afro-Ásia na história da diáspora africana, alguns provavelmente vão querer saber mais sobre como as origens dos escravizados trazidos pelo Atlântico moldaram suas experiências, ou talvez mais sobre como seus sistemas de crenças, como o Vodu e a Santeria, influenciaram as práticas culturais, de forma semelhante a como os estudiosos investigaram o candomblé brasileiro, por exemplo. Para esse tipo de desdobramentos paralelos explícitos entre a história do Caribe e do Brasil, os leitores terão que se dirigir a outro lugar. Mas isso seria culpar o livro pelo que ele não se propõe a fazer, em vez de focar no que ele faz tão bem.
Dubois e Turits apresentaram uma abordagem inovadora para tratar de 500 anos de história, examinando como as transformações da relação com a terra desenvolveram o modelo de plantação caribenho, e como a contra-plantação foi engenhosamente formulada por meio de estratégias sobre como obter acesso à terra para afirmar e proteger a liberdade dos ex-escravizados. Nesse sentido, a história paralela à do Brasil é facilmente visível, com semelhanças em termos da luta pelo direito à terra no Nordeste brasileiro, por exemplo, particularmente por comunidades quilombolas e indígenas. E quanto à questão da terra, Freedom Roots certamente encontrará no Brasil leitores interessados e especializados nesses tópicos, que procurarão fazer suas próprias comparações com a história do Caribe.
Autor notes
childsmd@mailbox.sc.edu