RESENHAS

A ÁFRICA NÃO É UM CONTINENTE INERENTEMENTE POBRE (OU COMO A EUROPA SUBDESENVOLVEU A ÁFRICA)

Eduardo Antonio Estevam Santos
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, Brasil

A ÁFRICA NÃO É UM CONTINENTE INERENTEMENTE POBRE (OU COMO A EUROPA SUBDESENVOLVEU A ÁFRICA)

Afro-Ásia, núm. 67, pp. 771-778, 2023

Universidade Federal da Bahia

RODNEY Walter. Como a Europa subdesenvolveu a África. 2022. São Paulo. Boitempo. 352 ppp.

Traduzido para a língua portuguesa por uma editora brasileira, pela primeira vez, em novembro de 2022, cinquenta anos após a primeira edição, o livro Como a Europa subdesenvolveu a África, de autoria do Walter Anthony Rodney, historiador marxista, pan-africanista e líder da organização Aliança dos Trabalhadores (Workers People Alliance), mostra sua força e rigor político diante dos debates historiográficos mais recentes sobre a escravidão e o colonialismo.

Publicado em 1972, circulou na Tanzânia e Inglaterra simultaneamente, sendo editado nos Estados Unidos em 1974. Na primeira versão, o posfácio foi escrito por um ministro do governo da Tanzânia. A primeira tradução para o português se deu em 1975, a cargo da editora lisboeta Seara Nova. Essa edição comemorativa do cinquentenário da obra, fiel à edição original, conta com a apresentação de Angela Davis (que acompanhou a recepção do livro nos Estados Unidos na época do seu lançamento).

Antes de analisarmos a obra máxima de Walter Rodney, faz-se necessário conhecermos sua trajetória política e acadêmica. Walter Rodney nasceu em Georgetown, Guiana, em 23 de março de 1942. Graduou-se em História pela West Indies University (WIU), campus da Jamaica, em 1962. Entre 1964 e 1966, participou de um grupo de estudos sob a liderança do historiador marxista C. L. R. James, o autor de Os jacobinos negros. Em função do seu bom desempenho, por ser muito aplicado nos estudos, Rodney partiu diretamente para o doutorado na Inglaterra, obtendo diploma em Estudos Orientais e Africanos em 1966, na London University. Sua tese de doutorado, A History of the Upper Guinea Coast (1545-1800), foi publicada em 1970.

Convidado por Julius Nyerere, presidente da Tanzânia, onde se desenvolvia uma política socialista, Walter Rodney lecionou na Universidade de Dar es Salaam durante o período de 1966-1968. Essa instituição, conhecida como Escola de Pensamento de Dar es Salaam, atraiu investigadores de esquerda, negros e brancos - o historiador inglês Terence O. Ranger também fazia parte do grupo. Rodney dedicou-se aos estudos da natureza interna das sociedades africanas; chamava a atenção para os constrangimentos externos, as pretensões de superioridade europeia e apelava para a descolonização do conhecimento histórico.1

Após esse período, retornou à Jamaica para lecionar na WIU. Devido à sua participação ativa nos movimentos de protesto e contestação ao governo do primeiro-ministro jamaicano Donald Sangster, foi convidado a se retirar do país. No ano de 1969, Rodney retornou à Tanzânia, ali permanecendo até o ano de 1974. Ao final desse périplo retornou à Guiana, onde viveu até o ano de sua morte, em 1980.

Para C. L. R. James, Rodney era o único intelectual e militante que lograva realizar de fato a ligação do movimento pan-africanista entre a África, os Estados Unidos e a América, uma vez que nasceu na Guiana, tinha profundas raízes no continente africano e os seus escritos foram amplamente divulgados nos Estados Unidos.2

Walter Rodney se defrontou, nos anos 1970, com a seguinte dualidade: de um lado, a especialização acadêmica e uma inserção plena na vida universitária institucionalizada, e, do outro, a militância política marxista. Seus biógrafos afirmam que, diante da qualidade dos seus trabalhos de pesquisa e escrita, Rodney tinha condições de lecionar em universidades britânicas e norte-americanas, bem como consolidar a carreira na Jamaica, na Guiana ou na África. Em uma entrevista no ano de 1974, ele apontou uma certa missão que ele e outros historiadores tinham de contar uma nova história do Caribe, em razão de que, até as independências nos anos 1960, os livros em sua maioria contavam a história de um ponto de vista colonial.

A independência da Jamaica, em 1962, por exemplo, demandava uma nova abordagem sobre o passado dessa sociedade, afirmava Rodney. Devido à sua história de vida e trajetória política, optou primeiramente por um meio termo, mas pendendo para a militância. Não se conformou com a docência universitária, o que lhe causou problemas a ponto de se fixar nas lutas fora da universidade, contexto que ocasionaria sua morte. Rodney foi assassinado em 1980, na Guiana, num atentado à bomba.

O pan-africanismo foi a perspectiva encontrada para a universalização da sua luta, uma seara em que tinha protagonismo e força no sentido de fazer vicejar as ideias que perpassaram suas pesquisas e mesmo sua história de vida. Seu pan-africanismo, sempre acoplado ao socialismo e à perspectiva marxista, era o que o diferenciava de outros líderes de sua época. Quando publicou seu trabalho mais divulgado, este aqui resenhado, Rodney tinha apenas 30 anos de idade. Possuía uma sólida formação marxista e notória militância política, de modo que podemos associá-lo a uma geração de outros brilhantes pensadores caribenhos que seguiram essa linha, como Eric Williams, C. L. R. James, Frantz Fanon. E ainda: Rodney, juntamente com Cheikh Anta Diop e Joseph Ki- Zerbo, pertence à geração dos que redescobriram a história africana e reinterpretaram a história mundial a partir de uma perspectiva africana.

Como a Europa subdesenvolveu a África foi pioneiro em narrar a história da África numa perspectiva marxista, sendo uma obra de economia política que fornece elementos para uma teoria racial marxista. É obra eminentemente de denúncia política, de combate ao atraso econômico, para desconstruir a ideia de que a África é inerentemente pobre. Para tanto, apresenta o grau de responsabilidade da Europa para o subdesenvolvimento, conceito hoje pouco usado; as relações entre o capitalismo e a escravidão que favoreceram o crescimento da Inglaterra, apresentadas no trabalho de Eric Williams, inspiraram a obra de Walter Rodney.

De acordo com Immanuel Wallerstein, o livro já articulava de maneira pioneira a ideia de economia-mundo, numa angulação diacrônica, algo que só se tornaria usual uma década depois.3 Walter Rodney se utilizou do materialismo histórico para fazer uma interpretação da história da África. Salientou que o próprio Marx deu muita ênfase às fontes de acumulação primitiva do capital, mas marxistas proeminentes como Maurice Dobb e Eric J. Hobsbawm, que se concentraram por muitos anos no estudo da evolução do capitalismo desde as suas origens na Europa, fizeram apenas breves e marginais referências à exploração dos africanos, asiáticos e indígenas americanos (p. 130). Denunciou também os trabalhos de língua inglesa que raramente levavam em conta os efeitos causados pela França, Holanda e Portugal por sua participação no tráfico de escravos e outras formas de comércio que exploraram a África.

Entre as dezenas de suas publicações, duas foram fundamentais para a produção de sua obra máxima: West Africa and the Atlantic Slave-Trade e A History of the Upper Guinea Coast (1545-1800). Nesses dois estudos monográficos, que antecedem Como a Europa subdesenvolveu a África, Rodney preza pelo rigor metodológico, pois baseou-se em fontes primárias, apresentando notas de rodapé substantivas e, sobretudo, interpretou as peculiaridades de algumas regiões do continente. O livro, que marcou sua carreira política, acadêmica e intelectual é abertamente didático, voltado para um público de estudantes universitários e pessoas com formação acadêmica, em geral, interessadas em África.

O “guia breve de leitura” que Rodney apresenta ao final de cada capítulo demonstra muito bem o seu espírito, sua preocupação em descolonizar pontos de vista que justificavam “o tráfico de escravos absolutamente afastados da realidade e da lógica”. “Devem ser denunciados como propaganda racista burguesa”, sustentava ele, uma vez que a cena cultural era dominada pelos “editores capitalistas e os acadêmicos burgueses” (p. 146).

Rodney fez uso do materialismo histórico porque enxergava nessa metodologia a possibilidade de construir uma história que contribuísse para impulsionar o desenvolvimento humano como um todo, uma história a serviço das organizações sociais, das classes potencialmente revolucionárias, dos oprimidos pela própria história, pois pretendia demonstrar as forças estruturais que constituíam o capitalismo histórico e o processo de inserção da África no contexto mundial moderno.

Parafraseando Marx, para Rodney os historiadores (idealistas) se limitaram a interpretar a história da África e, agora, o que importava era transformá-la, e para isso precisava-se desconstruir as forças visíveis e invisíveis constituídas pelas elites e poderes dominantes que estariam aprisionando o destino do continente africano. No entanto, sua síntese histórica, sob o olhar crítico das novas tendências historiográficas, evidencia a ausência de sujeitos, de suas vontades, subjetividades e liberdades, um caminho aberto pela História Social (vide E. P. Thompson), ao conceber a história como processo da vida real dos sujeitos em suas experiências sociais. O caminho estruturalista trilhado por Rodney produziu inflexões na historiografia africana. Embora o período analisado já se constituísse enquanto um campo de estudo historiográfico, praticamente inexistiam trabalhos que refletissem sobre o conjunto dos países africanos sob a ótica do desenvolvimento. As críticas abriram novos caminhos, mas sem desprezar a força historiográfica de Como a Europa subdesenvolveu a África.

Influenciado pela Escola dos Annales, Rodney privilegia durações longas, uma visão de conjunto, com abordagens econômicas, demográficas e das mentalidades das elites africanas, com pouco destaque para a ação humana na história ou para os acontecimentos políticos, pois pretendia demonstrar as forças estruturais do capitalismo em formação. Walter Rodney realizou uma interpretação estruturalista dos complexos processos de desenvolvimento e subdesenvolvimento, antes e depois das sistemáticas relações comerciais entre a Europa e a África, tomando como elementos centrais o tráfico de escravos e o capitalismo.

O livro está dividido em seis capítulos: 1) Algumas questões sobre desenvolvimento; 2) Como a África se desenvolveu até a chegada dos europeus. Até meados do século XV; 3) A contribuição africana para o desenvolvimento capitalista europeu. O período pré-colonial; 4) A Europa e as raízes do subdesenvolvimento africano. Até 1815; 5) O contributo da África para o desenvolvimento capitalista da Europa. O período colonial; e 6) O colonialismo como sistema para subdesenvolver a África.

O tema do desenvolvimento é o fio condutor de todo o livro. Segundo o historiador Joseph Ki-Zerbo, a palavra “desenvolvimento”, no sentido que ora debatemos, foi criada pelos americanos, depois da Segunda Guerra Mundial. Como se diz “desenvolvimento” nas línguas africanas?, indaga Ki-Zerbo. A palavra não existe como tal, embora a ideia exista, evidentemente. Sobre esse tema, Rodney afirma que todos os povos provaram sua capacidade para livremente desenvolverem suas aptidões para viver a vida de forma satisfatória através dos seus recursos naturais. O desenvolvimento é um fenômeno universal que não podia ser visto como algo puramente econômico, mas como processo global da sociedade.

Ele apresenta um conceito complexo de desenvolvimento, multilinear e multifacetado, procurando dar ênfase à produção econômica e à revolução técnica e tecnológica em meio aos diferentes poderes e conflitos de classe. Quanto ao subdesenvolvimento, explica que o conceito usado no livro não significa ausência de desenvolvimento, porque todos os povos se desenvolvem à sua maneira. Subdesenvolvimento só tem sentido se usado para comparar diversos níveis de desenvolvimento das forças produtivas. O fator básico para o subdesenvolvimento africano foi a escravidão, principalmente quando ela foi transformada numa instituição em que os escravos desempenhavam um papel essencial na economia. Desde então, a categoria marxista “modo de produção escravista” passou a ser amplamente utilizada em África.

Ao contrário da posição de Ki- Zerbo, quando afirmava que a colonização foi muito mais curta do que o tráfico, porém mais determinante, Rodney se preocupou com a determinação do comércio escravo e a natureza dessas relações comerciais com a Europa, mas reconhecia que nem todas as regiões participaram daquele comércio; algumas até prosperaram, dizia. Articulou as categorias centrais da dialética marxista para apreender as dinâmicas essenciais de cada fenômeno histórico, em especial, a escravidão e o colonialismo.

Alguns críticos argumentam que ambos os historiadores, além de outros, defendiam uma tese, hoje ultrapassada, de que o subdesenvolvimento africano fora resultado da malevolência de poderes exteriores, mantendo-a em estado de sujeição, e ainda que a África tradicional, pré-tráfico, era um mundo coerente e dinâmico.

Essa crítica não pode recair sobre a obra do Walter Rodney, pois ele apresenta as dessemelhanças, os contrastes marcantes dentro de cada região e os diferentes ritmos de desenvolvimento das sociedades africanas, por meio de um sólido domínio da bibliografia então disponível e dos seus trabalhos anteriores.

Quanto à questão da consciência de classe e da revolução, temas típicos de seu tempo, Rodney afirmava que, na África contemporânea a classe operária aparecia incompletamente cristalizada. Apresenta uma relação complexa entre base e superestrutura, conceitos básicos do marxismo, demonstrando o quanto as crenças religiosas e as instituições políticas também agiam sobre a base material das sociedades.

Seu livro trouxe a teoria da dependência latino-americana de Celso Furtado para a África. Suas teses invertiam a visão dos economistas ortodoxos acerca dos benefícios do comércio: as trocas eram essencialmente desiguais e favoreciam progressivamente os bens manufaturados em detrimento de matérias-primas. “Existe uma interpretação curiosa da luta pela partilha da África que quase acaba por dizer que o colonialismo tentou satisfazer as necessidades da África e não da Europa. A África exigia colonização europeia porque queria ultrapassar o estado a que chegou no século XX”, diziam os europeus, segundo Walter Rodney (p. 197). Por fim, Rodney fez questão de demonstrar que, durante os séculos XVII, XVIII e a maior parte do século XIX, a exploração da África e do trabalho africano continuou a ser uma fonte de acumulação primitiva de capital para o crescimento capitalista na Europa Ocidental.

Nenhuma coletividade humana foi mais inferiorizada do que os negros depois do século XV, como sugere Ki-Zerbo, quer por força da ideologia ou da opressão material, quer pela produção historiográfica, apesar das críticas a esta feitas. A África evoluiu (complexamente, descontinuamente, com saltos, cortes e com rupturas no tempo e no espaço) como todos os outros povos do mundo, de maneira progressiva. Nos séculos XIII e XIV, a cidade de Tombuctu, no Mali, era mais escolarizada que a maioria das grandes cidades na Europa. O tráfico de escravos foi o ponto de partida para a desaceleração.

Na atual conjuntura política e econômica do continente africano, não obstante alguns países que apresentam crescimento econômico, segundo Ndongo Samba Sylla, economista senegalês, nos deparamos com uma contínua pilhagem dos recursos naturais; recessões prolongadas em meio à crescente pressão da dívida; crises alimentares e energéticas; altas taxas de inflação e de juros; efeitos climáticos adversos; reduzido sistema de proteção social e de saúde; crescimento sem emprego; avanço das desigualdades econômicas; e transferências de recursos para o exterior.

Essa realidade, por si só, demonstra a força persuasiva de Como a Europa subdesenvolveu a África.

Notas

1 Frederick Cooper, Histórias de África: capitalismo, modernidade e globalização, Lisboa: Edições 70, 2016, p. 52.
2 Robert Hill, “Walter Rodney and the Restatement of Pan-Africanism in Theory and Practice”, Ufahamu: A Journal of African Studies, v. 38, n. 3 (2015), pp. 136-137 .
3 Immanuel Wallerstein, Walter Rodney: The Historian as Spokesman for Historical Forces, Binghamton: Fernand Braudel Center, 1986, pp. 330-337.
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