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A Proximidade na Imprensa Regional. A Geografia Territorial do Diário de Viseu à Luz dos Desertos de Notícias
Proximity in the Regional Press. The Territorial Geography of Diário de Viseu in the Light of News Deserts
La Proximidad en la Prensa Regional. La Geografía Territorial del Diário de Viseu a la Luz de los Desiertos de Noticias
Revista Comunicando, vol. 14, núm. 2, e025015, 2025
Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação

Secção Temática/Thematic Section/Sección Temática. Artigos/Articles/Artículos


Recepción: 17 Marzo 2025

Aprobación: 27 Mayo 2025

Publicación: 12 Diciembre 2025

DOI: https://doi.org/10.58050/comunicando.v14i2.447

Resumo: Este artigo aborda a proximidade enquanto valor-notícia, do ponto de vista geográfico, num jornal diário de âmbito regional, o Diário de Viseu, através de um estudo de caso que recorre a uma análise quantitativa, através da análise de conteúdo de 3 093 peças jornalísticas durante o ano de 2024. Considerando que a zona Centro de Portugal apresenta vários desertos de notícias e que 25% do distrito de Viseu não tem nenhum meio de comunicação social a produzir notícias, torna-se relevante analisar os dados da sede do distrito, onde existem oito meios de comunicação social, entre os quais um jornal diário. Os dados recolhidos acerca dos referentes geográficos das peças jornalísticas publicadas pelo jornal revelam uma predominância, superior a 50%, em termos da cobertura informativa do concelho de Viseu face aos restantes concelhos e mostra que os concelhos do distrito de Viseu classificados como desertos de notícias são aqueles que estão (quase) ausentes das páginas de informação do periódico.

Palavras-chave: Imprensa Regional, Proximidade, Desertos de Notícias.

Abstract: This article looks at proximity as a news value, from a geographical point of view, in a regional daily newspaper, Diário de Viseu, through a case study, which uses a quantitative analysis, through content analysis of 3,093 journalistic pieces during the year 2024. Considering that the Center region of Portugal has several news deserts and that 25% of the district of Viseu has no media outlet producing news, it was relevant to analyze the data from the district main city, where there are eight media outlets, including a daily newspaper. The data collected on the geographical references of the journalistic pieces published by the newspaper reveals a predominance, of more than 50%, in terms of information coverage of the municipality of Viseu compared to the other municipalities and shows that the municipalities in the district of Viseu classified as news deserts are the ones that are (almost) absent from the newspaper's information pages.

Keywords: Local Press, Proximity, News Deserts.

Resumen: Este artículo aborda la proximidad como valor informativo, desde el punto de vista geográfico, en un diario regional, el Diário de Viseu, a través de un estudio de caso que recurre a un análisis cuantitativo, mediante el análisis de contenido de 3093 artículos periodísticos durante el año 2024. Teniendo en cuenta que la zona centro de Portugal presenta varios desiertos informativos y que el 25 % del distrito de Viseu no cuenta con ningún medio de comunicación que produzca noticias, resulta relevante analizar los datos de la sede del distrito, donde existen ocho medios de comunicación, entre ellos un diario. Los datos recopilados sobre las referencias geográficas de los artículos periodísticos publicados por el periódico revelan un predominio, superior al 50%, en términos de cobertura informativa del municipio de Viseu frente al resto de municipios, y muestran que los municipios del distrito de Viseu clasificados como desiertos informativos son aquellos que están (casi) ausentes de las páginas de información del periódico.

Palabras clave: Prensa Regional, Proximidad, Desiertos Informativos.

1. Introdução

A lei da proximidade é o crivo através do qual o jornalista deve passar as suas informações e esta proximidade pode ser geográfica, afetiva, psicológica, temporal, socioprofissional ou sociocultural, político-ideológico-existencial ou, ainda, estar patente na vida quotidiana (Wolf, 2009). No âmbito do jornalismo a proximidade é, por isso, um valor-notícia, ou seja, um componente da noticiabilidade dos acontecimentos (Wolf, 2009).

Precursores do estudo dos valores-notícia enquanto conjunto de requisitos que um acontecimento deve ter para que se torne notícia, Galtung e Ruge (1993) foram os primeiros a sistematizar uma teoria da noticiabilidade, materializada numa lista de caraterísticas do noticiário estrangeiro, que ajudava a explicar o fluxo das notícias. Uma das hipóteses propostas pelos autores, a significância, referia-se, numa das suas interpretações, à proximidade cultural. Segundo Galtung e Ruge (1993), “aquele que procura o acontecimento dará particular atenção ao familiar, ao semelhante culturalmente” (p. 65).

Ericson et al. (1987) também estudaram os valores-notícia e na listagem proposta incluem o critério da simplificação, que além da ausência de ambiguidade implica, ainda, que a proximidade cultural de um evento o torna mais significante para o meio de comunicação social. Mauro Wolf (2009), cujo trabalho na área das teorias da comunicação também aborda os valores-notícia, identifica o critério da proximidade, “quer como vizinhança geográfica, quer como afinidade cultural” (p. 203).

No caso português, Nelson Traquina (2002) propõe uma divisão entre os critérios de noticiabilidade de seleção (que operam no momento de selecionar um acontecimento como notícia) e os critérios de noticiabilidade de construção (que operam no modo como a notícia vai ser construída). A proximidade figura como o segundo critério de noticiabilidade de seleção substantivo (concreto) proposto por Traquina (2002). O autor considera-o como um valor fundamental, quer em termos geográficos, quer em termos culturais, e socorre-se da lei de McLurg, que estabelece uma relação entre o número de mortos e a distância geográfica para aferir a noticiabilidade de um acontecimento. Segundo esta lei, “um europeu equivale a 28 chineses, 2 mineiros galeses equivalem a 100 paquistaneses” (Wolf, 2009, p. 204).

A proximidade é indubitavelmente um dos critérios que ajuda a explicar a seleção da informação, mas é face à realidade dos meios de comunicação social de índole regional e local que esta proximidade ganha maior significado, sobretudo se considerarmos a proximidade geográfica entre o meio e os leitores, a partilha de referentes temáticos e a pertença a uma mesma comunidade. Por estar inserido no meio do qual reporta acontecimentos, o jornalista de imprensa regional e local acaba por, de algum modo, trabalhar nas notícias que também lhe dizem respeito. Existe uma “quase promiscuidade entre o jornalista e o seu público”, tal como afirma Areal (1997, p. 30).

Partindo da ótica da proximidade geográfica enquanto critério de noticiabilidade, é objetivo desta análise compreender qual o referente geográfico de um jornal regional diário. O objeto de estudo é o Diário de Viseu, localizado num distrito (Viseu) particularmente afetado pela realidade dos desertos de notícias.

2. Jornalismo de Proximidade e Desertos de Notícias

“Jornalismo de proximidade” foi um termo introduzido por João Carlos Correia (2001) e trabalhado por Carlos Camponez (2002), quando estudou a imprensa regional e local, o seu comprometimento com os leitores e, particularmente, os casos dos jornais da região de Leiria. A imprensa regional e local articula-se com os conceitos de território, comunicação e comunidade, sendo que, na ótica de Carlos Camponez (2002), existe um pacto comunicacional que define aquilo que se entende por jornalismo regional e esse pacto realiza-se dentro das comunidades de lugar, ou seja,

comunidades que se reconhecem com base em valores e interesses construídos e recriados localmente, a partir de uma vivência territorialmente situada – e onde intervêm critérios como o espaço geográfico de implantação do projecto editorial; o lugar de apreensão, recolha e produção dos acontecimentos noticiados; o espaço privilegiado de difusão da informação; o tipo de conteúdos partilhados e de informação disponibilizada; enfim, a definição dos públicos. (p. 37)

Segundo o Estatuto de Imprensa Regional (Decreto-Lei n.º 106/88, 1988), uma das razões de ser dos meios de comunicação de índole local ou regional é precisamente veicular acontecimentos e informações que digam respeito à comunidade onde se insere. Os leitores esperam que estes media cumpram precisamente essa função até porque, como afirma Areal (1997), os acontecimentos afetam o público de forma direta e interessa-lhes saber aquilo que “se relaciona, de maneira mais ou menos directa, com o seu campo de afectos, interesses, necessidades, etc.” (pp. 23–24).

Nesta ótica de comunidade, os meios de comunicação social de índole local e regional não representam apenas o território onde se inserem, mas também têm um papel importante na partilha de um referente comunitário entre o público e os media, pelo que ambos estão unidos por mais do que a proximidade geográfica (Nielsen, 2015).

Nos media regionais e locais, a proximidade é essencialmente geográfica e tem implícita a partilha de um referente temático, qualquer que seja a forma de presença que permite aos participantes debruçarem-se sobre um tema (Correia, 2023). Deste prisma, é de notar a sobreposição das dimensões de produção noticiosa, do conteúdo em si e da receção da informação por parte do público (Carvalheiro et al., 2021). Dado que todos (jornalistas e leitores) partilham a mesma comunidade, a esfera jornalística da imprensa regional e local trabalha sobre matéria noticiosa de um dado território a que pertencem esses mesmos jornalistas e leitores, pelo que os leitores são membros da mesma comunidade em que se insere o jornal e os seus referentes temáticos e, simultaneamente, os protagonistas dos acontecimentos desse território.

Apesar do predomínio da geografia, a proximidade na imprensa regional e local vai além do referente geográfico, quer face à diáspora e comunidade emigrante (Carvalheiro et al., 2021), quer face à cobertura que eventos internacionais de grande dimensão, como por exemplo a guerra na Ucrânia, assumem nos media regionais e locais. No primeiro caso, o próprio Estatuto da Imprensa Regional (Decreto-Lei n.º 106/88, 1988) identifica como uma das funções da imprensa regional “proporcionar aos emigrantes portugueses no estrangeiro informação geral sobre as suas comunidades de origem, fortalecendo os laços entre eles e as respectivas localidades e regiões” (Art. 2.º). No segundo caso, apesar de a Ucrânia estar distante de Portugal, as relações internacionais e diplomáticas entre os países, a forte presença de uma comunidade ucraniana imigrante em Portugal e até a iminência de uma possível guerra mundial, colocaram este assunto num contexto de proximidade cultural, de interesses e de afinidade com o tema nos dias imediatamente após o início do conflito (Midões & Martins, 2023).

Assim, o conceito de proximidade não se esgota nas fronteiras da região nem do local e encarar o conceito desse prisma pode até ser redutor. Midões e Martins (2024) entendem que “todo o jornalismo deveria ser próximo” (p. 403) e concretizam esta afirmação face à necessidade de o jornalismo estar próximo das suas fontes, dos assuntos que noticia ou da sua comunidade, independentemente do referente geográfico. Também Jerónimo (2015) tem em conta que os jornalistas dos meios de comunicação social nacionais fazem jornalismo de proximidade “quando as referências são Portugal e os portugueses” (p. 11). Ainda assim, atualmente, quando falamos em jornalismo de proximidade pensamos maioritariamente na ótica da imprensa regional e local, sobretudo porque o conceito está subjacente a uma maior aproximação geográfica entre o meio de comunicação social e a sua audiência, as instituições e os espaços que partilham aquele referente geográfico.

A maioria dos autores trata a proximidade na lógica da delimitação do espaço geográfico a que o meio de comunicação social diz respeito, ou seja, falamos essencialmente de uma proximidade física e geográfica, mas este conceito compreende, ainda, a proximidade afetiva e emocional, cultural e até institucional. A questão das fontes de informação é um dos pontos onde a proximidade institucional ganha peso, até porque é estreita a geografia que separa o meio de comunicação social, as fontes, os atores e as instituições que fazem o acontecimento. A este propósito, um artigo de Midões e Martins (2020) sobre as fontes utilizadas pelo Jornal da Bairrada no período do primeiro confinamento, em 2020, durante a pandemia de COVID-19, mostra que a maioria dos artigos tem apenas uma fonte de informação (o que indicia a falta de contraditório) e que as fontes oficiais representam 65,5% de todas as fontes humanas entrevistadas pelo jornal. Jerónimo (2015) sublinha que a proximidade pode “resultar numa dependência excessiva das mesmas fontes e levar à impossibilidade de manter o distanciamento e a independência que a ética e a deontologia jornalísticas exigem” (p. 11). Estas conclusões vão ao encontro de estudos anteriores, como o de Ribeiro (2008), que ao investigar a produção jornalística em dois periódicos do distrito de Braga (Correio do Minho e Diário do Minho), confirmou a dependência das fontes oficiais e o predomínio destas na agenda dos jornais, o que, considera a autora, não pode ser dissociado da escassez de recursos e pressão do tempo. Um estudo de Torre et al. (2023), junto de jornalistas portugueses de imprensa regional, demonstra que 80% dos inquiridos utiliza, mais frequentemente, fontes locais e regionais e que cerca de 70% destes utiliza fontes documentais.

A proximidade pode ser olhada através de duas lentes e, se por um lado, representa uma maior ligação ao um público mais concreto e reduzido, traduzindo-se num jornalismo mais humano e numa relação de quase vizinhança (Areal, 1997), por outro lado, a proximidade pode acarretar alguns problemas. Desde logo a ligação a elites e poderes locais, que pode traduzir-se numa menor autonomia editorial dos meios de comunicação, e proximidade em relação aos agentes e às instituições sociais que dominam o espaço geográfico, dos quais nem sempre se conseguem distanciar para estabelecer a agenda do meio de comunicação social com independência (Correia, 2023).

Nielsen (2015) resume as diferentes visões em torno da qualidade do jornalismo regional e local dividindo-as entre “terrível” e “terrivelmente importante”. O autor recorda que, por um lado, encontramos a visão deste jornalismo como superficial e dependente dos poderes locais e servil perante os anunciantes e demissionário perante a sua comunidade. Esta visão “terrível” do jornalismo regional e local contrasta com a visão de um jornalismo que fornece informações importantes, responsabiliza as elites locais, une as comunidades e proporciona um espaço de debate. Para Nielsen (2015), a realidade estará na combinação dos dois extremos: “o jornalismo local nem sempre desempenha bem os seus papéis, mas os papéis que desempenha são importantes” (p. 2). Concomitantemente, Néveu (2005) defende a existência de uma espécie de “pacto de leitura implícito” (p. 40) entre o jornalista e os leitores na imprensa regional, dado que o facto de o público acarretar um sentimento de pertença face ao local de implantação do jornal, pode levar a que seja feita uma seleção de “personagens e acontecimentos que valorizam o ‘nós’ territorial, quer em termos da cobertura de conquistas e feitos, quer no que toca à prudência na cobertura de conflitos que ponham em causa agentes e poderes locais” (Néveu, 2005, p. 40).

Os títulos de âmbito regional e local encontram na proximidade, talvez, a sua principal função e, simultaneamente, a mais-valia destes meios face aos media de âmbito nacional. Esta proximidade é, também, o garante do acesso de uma determinada comunidade à informação de índole local e regional, sobretudo se considerarmos que a rede lançada pelos meios de comunicação social nacionais para fazer a cobertura das diferentes áreas de responsabilidade geográfica (Tuchman, 1983) tem vários buracos, dada a concentração de recursos em Lisboa (Traquina, 2002).

3. Imprensa Regional em Portugal: Desertos de Notícias

Os dados do Digital News Report Portugal 2024 (Cardoso et al., 2024) mostram que 65% dos inquiridos confia nas notícias locais ou regionais. Por outro lado, quando considerados os dados do relatório global (Newman, 2024), Portugal é um dos países onde é menor o interesse pelas notícias locais em geral.

Pedro Jerónimo (2015) sublinha que em Portugal, segundo dados da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) de 2010, estavam registados mais de 700 títulos, o que o torna num dos países europeus com mais publicações regionais. “Porém, quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade, isto é, não quer dizer que a existência de muitos títulos se traduza em elevados índices de leitura ou de cidadãos mais informados” (Jerónimo, 2015, p. 112). Já os dados mais recentes de Ramos (2021), também recolhidos a partir da ERC, mostram que em Portugal existem 1 754 publicações impressas e digitais, das quais 764 são títulos de imprensa regional.

Considerando os jornalistas deste setor, um estudo de Torre et al. (2023) mostra que os jornalistas de imprensa regional em Portugal estão maioritariamente em Lisboa e 76% possuem formação superior, a maioria dos quais no campo das Ciências da Comunicação, Comunicação Social ou Jornalismo. Já quanto à situação laboral, os dados do inquérito revelam que cerca de metade são contratos sem termo, havendo perto de 20% de jornalistas com vínculos precários. A remuneração de mais de 75% dos inquiridos está abaixo dos 1 000 euros e mais de metade dos respondentes trabalha na redação, enquanto cerca de 30% o fazem a partir de casa.

Sabemos, pois, que o jornalismo local regional é um dos setores da comunicação social mais afetados pela crise económica, não só porque as suas estruturas são mais reduzidas, mas também porque as novas tecnologias trouxeram desafios em termos de gestão e modelo de negócio (Jerónimo, 2015, 2017; Ramos & Torre, 2023).

Especificamente no que diz respeito à zona Centro, um estudo de Morais et al. (2020) denota que entre os principais problemas identificados pelos jornalistas de imprensa regional e local daquela região se prendem com a redução do número de profissionais nas redações, algo relacionado com a expansão das mudanças tecnológicas e consequente dificuldade de inovar nos formatos e nos conteúdos. Entre as preocupações mais referenciadas estão ainda a sustentabilidade financeira dos títulos, a precariedade profissional, a diminuição de vendas e de número de leitores e dependência de fontes oficiais. O cenário da pandemia agravou a crise económica, particularmente para os meios de comunicação social regionais, que vivem “uma situação verdadeiramente asfixiante, com poucas formas de garantir a continuidade da sua lógica operativa” (Cardoso et al., 2021, p. 9).

As dificuldades que a imprensa regional e local enfrentam são sinal de um enfraquecimento do acesso das comunidades à informação e o estudo acerca dos desertos de notícias em Portugal (Jerónimo et al., 2022) constata uma realidade preocupante, na medida em que identifica as comunidades onde os residentes enfrentam acesso significativamente reduzido ao tipo de notícias e informações importantes que alimentam a democracia de base.

De acordo com o estudo de Jerónimo et al. (2022), em Portugal metade dos municípios portugueses (53,9%) estão classificados como desertos de notícias (não existe nenhum meio de comunicação social com sede no concelho a produzir notícias), semideserto (locais onde há apenas um jornal ou rádio, mas não serve suficientemente a comunidade) ou estão ameaçados. As regiões Norte, Centro e Alentejo concentram mais de 80% dos desertos e semidesertos de notícias de Portugal.

O mapa dos desertos de notícias em Portugal (Jerónimo et al., 2022) mostra que, no distrito de Viseu, há seis concelhos (25% do distrito) em deserto de notícias: Armamar, Oliveira de Frades, Penedono, Santa Comba Dão, Sernancelhe e Tabuaço. Penalva do Castelo e Tarouca estão classificados como semidesertos e há, ainda, vários concelhos ameaçados, como Carregal do Sal, Cinfães, Moimenta da Beira, Mortágua, Nelas, Resende, Sátão, Vila Nova de Paiva.

Considerando que “este levantamento não considerou a cobertura jornalística que alguns media se propõem a realizar, atuando em âmbito regional, podendo cobrir determinados concelhos que aparecem no mapa em deserto de notícias” (Ramos, 2021, p. 47), é importante perceber se os jornais que ocupam a sede do distrito atenuam ou não os desertos e semidesertos existentes, bem como os concelhos ameaçados. Assim, tendo como base a lista de jornais regionais de informação geral em atividade da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (2025), atualizada a 4 de fevereiro de 2025, percebemos que estão registados 11 periódicos no concelho de Viseu. Destes, há apenas um jornal regional diário impresso, o Diário de Viseu, que será o alvo da nossa análise, que pretende avaliar qual o referente geográfico das notícias publicadas por este meio de comunicação social ao longo de um ano.

4. O Estudo: Abordagem Metodológica

O distrito de Viseu, localizado no Centro-Norte de Portugal, engloba 24 concelhos e, segundo o Instituto Nacional de Estatística (Instituto Nacional de Estatística, 2022), tem uma população de 363 253 habitantes, tendo registado uma quebra em relação a 2011. O concelho de Viseu, capital do distrito e o mais populoso da sub-região de Viseu Dão Lafões, registava 99 561 habitantes nos Censos 2021 e é composto por 25 freguesias (Instituto Nacional de Estatística, 2022).

Para a prossecução do objetivo deste estudo, avaliar o referente geográfico das notícias publicadas no jornal Diário de Viseu durante o ano de 2024, optámos por uma análise de conteúdo, metodologia de análise quantitativa (Bryman, 1988), de modo a recolher, quantificar e categorizar as peças informativas do jornal selecionado. Tal como define Ferin (2012), a análise de conteúdo é “uma técnica de investigação, aplicável a todos os conteúdos dos meios de comunicação, que tem por finalidade a descrição sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto” (p. 82). Assim, foi escolhido o ano de 2024 e foi selecionada uma amostra aleatória de 52 edições (Tabela 1), que partiu da seleção de datas com início na primeira segunda-feira do ano, segunda terça-feira do ano, terceira quarta-feira do ano, quarta quinta-feira do ano, etc. O jornal Diário de Viseu publica-se de segunda-feira a sexta-feira, pelo que os fins de semana e feriados não foram considerados.

Tabela 1
Excerto do Total de Peças Analisadas

Em cada edição, foram contabilizadas todas as peças jornalísticas dos géneros jornalísticos “notícia” e “breve” (Tabela 2) e excluídos da análise os artigos de opinião. Ao todo, foram consideradas 3 093 peças.

Tabela 2
Géneros Jornalísticos Considerados Para Análise

As peças jornalísticas, aqui identificadas como notícias e como breves, foram classificadas e categorizadas de acordo com o seu referente geográfico concelhio, regional ou distrital. Sempre que a peça dizia respeito a um acontecimento ou personalidade de um dado concelho era categorizada nesse referente regional. Se fossem mencionados até dois concelhos (por exemplo nas notícias sobre a jornada desportiva com enfoque nos resultados das equipas de futebol sénior), a peça jornalística era contabilizada duas vezes (uma para cada concelho) e sempre que mencionados três ou mais concelhos (por exemplo nas notícias sobre fundos comunitários aplicados a municípios da região Centro) a notícia ou breve era contabilizada com o referente “região”.

Dentro das categorias geográficas considerámos o critério local para os 24 concelhos do distrito de Viseu (Armamar, Carregal do Sal, Castro Daire, Cinfães, Lamego, Mangualde, Moimenta da Beira, Mortágua, Nelas, Oliveira de Frades, Penalva do Castelos, Penedono, Resende, Santa Comba Dão, São João da Pesqueira, São Pedro do Sul, Sátão, Sernancelhe, Tabuaço, Tarouca, Tondela, Vila Nova de Paiva, Viseu e Vouzela) e o critério regional para os distritos limítrofes e/ou pertencentes à zona Centro (Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda e Leiria). Coimbra, Aveiro e Leiria foram distritos considerados na grelha de análise, dado que o grupo editorial que detém o Diário de Viseu é dono de jornais diários em Coimbra, Aveiro e Leiria e as notícias desses jornais muitas vezes integram as suas páginas. Guarda foi considerada, na medida em que alguns dos concelhos deste distrito estão mais próximos das fronteiras do distrito de Viseu do que do distrito a que pertencem, como é o caso de Seia e Aguiar da Beira, pelo que o jornal lhes dá destaque do ponto de vista editorial. Castelo Branco foi integrado posteriormente, após percebermos que era um distrito com bastante atenção mediática na secção designada “Região das Beiras”. Considerámos o critério nacional para os restantes distritos portugueses e o critério internacional para todas as notícias que dizem respeito a outros países que não Portugal.

Quanto ao tipo de destaques de capa, foram categorizados de acordo com a Tabela 3.

Tabela 3
Tipo de Destaques de Primeira Página

5. Caraterização do Objeto de Estudo

O Diário de Viseu foi fundado no dia 2 de junho de 1997 por Adriano Lucas (1925- 2011) e nasceu com o título de “Diário Regional de Viseu”. Já se publicava anteriormente como Diário Regional - Aveiro Viseu, publicação que servia ambas as cidades desde 1993, mas foi em 1997 que se autonomizou e deu os primeiros passos em Viseu. Dez anos depois de ter surgido nas bancas, o jornal passou a denominar-se Diário de Viseu, na sequência da aquisição de um título que se encontrava registado com este nome (Mota, 2017).

O jornal diário generalista publica-se de segunda a sexta-feira e integra um grupo editorial onde se incluem ainda o Diário de Coimbra, Diário de Aveiro e Diário de Leiria. Os dados mais recentes da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação (2025) que englobam o Diário de Viseu são do ano de 2011, ano em que a circulação paga do título rondava os 1 500 exemplares. Desde então, a tiragem do jornal não voltou a constar dos dados publicados trimestralmente pela entidade.

Segundo o seu estatuto editorial (Diário de Viseu, s.d.-a), o Diário de Viseu, “tem como missão principal levar ao leitor a informação do que de mais relevante se passa em Viseu, na Região das Beiras, em Portugal, na Europa e no Mundo, com verdade, seriedade e rigor” (para. 1). A publicação destaca ainda a independência como uma das suas principais linhas de ação. O mesmo estatuto editorial (Diário de Viseu, s.d.-a) reitera que o Diário de Viseu

pauta a sua ação pela defesa do cidadão e das minorias, da valorização de Viseu, da Região das Beiras e das suas gentes, da livre iniciativa privada, da economia de mercado e da sã concorrência, bem como da plena integração europeia, numa Europa federada, numa Europa dos Cidadãos e das Regiões. (para. 2)

Concomitantemente, o diário é defensor da regionalização e, mais concretamente, da Região das Beiras, dizendo acreditar na “regionalização do país, enquanto processo de efectiva descentralização e transferência de poderes e competências para as várias regiões, para que cada comunidade regional ou local possa decidir sobre o que mais directamente lhe diz respeito” (Diário de Viseu, s.d.-a, para. 2).

Segundo a sua ficha técnica (Diário de Viseu, s.d.-b), o diretor do Diário de Viseu é Adriano Callé Lucas e a publicação tem como diretores-adjuntos Miguel Callé Lucas, Daniela Homem Pinto e Eduarda Macário.

O jornal é composto por oito secções. A secção de Viseu engloba a necrologia e fala sobre os acontecimentos cujo referente geográfico é o concelho de Viseu e onde se inclui uma agenda dos principais acontecimentos do dia e dos dias seguintes designada “Tome Nota”. A secção Opinião engloba os artigos assinados pelos colaboradores e leitores do jornal. A secção Região das Beiras veicula as notícias cujo referente geográfico são os concelhos do distrito de Viseu, bem como alguns concelhos dos distritos da Guarda e Castelo Branco. Segue-se a secção Desporto, onde se fala sobre os acontecimentos que envolvem os clubes desportivos do distrito e, por vezes, de acontecimentos desportivos nacionais ou internacionais que envolvam atletas da região. A secção Empresas & Negócios tem como referente o sector económico, sobretudo de uma perspetiva regional, mas inclui muitas vezes notícias de âmbito nacional. Na secção Nacional/Internacional publicam-se as notícias mais relevantes do dia em Portugal e no resto do mundo. Segue-se uma página de agenda e classificados. A última página do jornal não tem uma vocação claramente definida, pelo que não a entendemos como uma secção, na medida em que podem ser publicadas notícias de qualquer uma das secções, até mesmo de âmbito nacional. Às quartas-feiras o jornal publica um suplemento de quatro páginas denominado “Saúde”.

6. Os Diferentes Níveis de Territorialidade Geográfica no Diário de Viseu: Análise dos Dados

6.1. Primeiras Páginas

O Diário de Viseu tem uma estrutura gráfica com uma manchete e um destaque fotográfico e publica, em média, 7,1 chamadas de primeira página por edição.

Numa primeira fase desta análise identificámos o referente geográfico dos principais destaques nas capas das 52 edições do jornal Diário de Viseu. Assim, classificámos geograficamente, por concelho e por temática, manchetes, destaques fotográficos e chamadas.


Figura 1
Total de Manchetes nas Primeiras Páginas do Jornal Diário de Viseu, Distribuídas por Referente Geográfico, Durante o Ano de 2024 (n = 53)

O concelho de Viseu faz manchete 29 vezes e ocupa 26 destaques fotográficos, conquistando, como já era expectável, o lugar cimeiro em termos de escolhas para a primeira página (Figura 1 e Figura 2). Olhando apenas para a realidade do distrito, seguem-se os concelhos de Tondela e Carregal do Sal, mas a distância é considerável, já que estes municípios têm, respetivamente, sete e duas manchetes e três destaques fotográficos cada um. De realçar que indo além do distrito, a segunda categoria geográfica com mais peso nas capas é a “região”, com 11 manchetes e oito destaques fotográficos.

Quando consideramos a totalidade das primeiras páginas (manchetes, destaques fotográficos e chamadas – n = 472), mantém-se a superioridade do concelho de Viseu (com 43% do total de destaques), seguido da secção internacional (11%), o que representa uma surpresa na análise (Figura 3). Em todas as edições do Diário de Viseu há uma chamada na capa (e uma notícia no interior) sobre a guerra na Ucrânia e todos os dias essa chamada é acompanhada pelo título “Invasão da Ucrânia” com as cores da bandeira ucraniana. Essa chamada está sempre no mesmo sítio, no topo da coluna das restantes chamadas, sem qualquer referente regional, pois o ângulo são sempre os ataques russos, os avanços da Ucrânia ou os apoios e proteção da Europa à Ucrânia. Só em terceiro lugar surgem os destaques da região (10%).


Figura 2
Total de Destaques Fotográficos nas Primeiras Páginas no Jornal Diário de Viseu, Distribuídos por Referente Geográfico, Durante o Ano de 2024 (n = 48)


Figura 3
Percentagem do Total de Destaques (Incluindo Manchetes, Destaques Fotográficos e Chamadas) nas Primeiras Páginas no Jornal Diário de Viseu, Distribuídos por Referente Geográfico, Durante o Ano de 2024 (n = 472)

Olhando apenas para os concelhos do distrito de Viseu, no que toca à totalidade de destaques nas capas do Diário de Viseu, a seguir à capital do distrito encontramos os concelhos de Tondela (7%), Nelas (3%) e Carregal do Sal (3%).

Em sentido inverso, os dados mostram que os concelhos de Armamar e Penalva do Castelo nunca aparecem nas primeiras páginas do jornal em nenhuma categoria de destaque. Já Penedono e Tarouca motivam uma única chamada na capa, cada um, e Tabuaço soma apenas duas chamadas no total das edições analisadas.

6.2. Peças Jornalísticas

No corpus de análise considerado para este estudo, com um total de 52 edições, foram identificadas 3 093 peças jornalísticas (1 620 notícias e 1 473 breves). O Diário de Viseu tem, em média, 18,3 páginas por edição, incluindo suplementos e cadernos especiais. São publicadas cerca de 31,4 notícias por edição, excluindo as breves, cuja média ronda as 28,3.

Considerando a análise geográfica efetuada, o concelho de Viseu ocupa o lugar cimeiro em termos de notícias publicadas pelo periódico. Os dados estão em linha com as opções editoriais da primeira página e mostram que das 1 620 notícias identificadas e analisadas mais de metade (55%) têm como referente geográfico o concelho de Viseu (Figura 4). Tondela é o segundo concelho com mais peso noticioso (7%), seguido por Nelas e Carregal do Sal com 4% do peso total cada um. Em sentido inverso, São João da Pesqueira, Penedono, Sernancelhe, Armamar, Tabuaço e Tarouca são os concelhos com menor peso noticioso no Diário de Viseu e cada um tem menos de 10 notícias no jornal.


Figura 4
Percentagem do Total de Notícias Publicadas no Diário de Viseu, Distribuídas por Referente Geográfico, Durante o Ano de 2024 (n = 1620)

Considerando apenas as breves identificadas (n = 1 473), ou seja, as colunas de agenda (uma publicada nas páginas da secção de Viseu e outra publicada nas páginas da secção Região das Beiras) e alguns cabeçalhos de secção, mais de metade (53%) destes textos dizem respeito ao concelho de Viseu e nenhum dos restantes 23 concelhos se destaca particularmente. A categoria “nacional” é aquela que motiva mais breves a seguir a Viseu e só depois surge Tondela e Penalva do Castelo. Em sentido inverso, os concelhos menos retratados em formato breve são Tarouca, Armamar e Tabuaço (Figura 5).


Figura 5
Percentagem do Total de Breves Publicadas no Diário de Viseu, Distribuídas por Referente Geográfico, Durante o Ano de 2024 (n = 1473)

6.3. Temas em Destaque

A abrir o jornal, em pouco mais de metade (28) das 52 edições analisadas há uma secção de destaque, que na maioria das vezes ocupa a página dois. Essa secção foi objeto de uma análise mais pormenorizada, para aferir sobre os temas selecionados, o seu referente regional e a ligação com a primeira página.

O tema de destaque está quase sempre presente na capa do jornal (há apenas duas edições em que isso não acontece) e o tipo de destaque é, maioritariamente, um destaque fotográfico ou uma chamada. Os temas predominantes são cultura e economia e Viseu é o concelho mais representado (em 17 dos 30 temas em destaque), à semelhança do que acontece com os temas de primeira página e com as notícias e breves publicadas.

Nesta secção há algumas opções editoriais que poderão ser explicadas, em estudos futuros, com entrevistas aos responsáveis editoriais e jornalistas e prendem-se com a presença de temas nacionais, sem qualquer referente regional, na secção de destaque. Isto acontece em três edições. No dia 18 de janeiro uma das chamadas de primeira página é sobre o facto de o tabaco aquecido deixar de ter regras específicas. A notícia sobre a publicação do novo regulamento nacional ocupa uma página inteira na secção destaque e a notícia tem como fonte a Agência Lusa, sem qualquer ângulo regional. No dia 22 de fevereiro, a página de destaque é sobre um estudo com a participação da Universidade de Coimbra sobre rios e biodiversidade. No dia 6 de junho, a página 2 é o destaque com uma entrevista à bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados. Não há nenhuma menção a Viseu, à exceção da fotografia que inclui o primeiro vogal da lista com a indicação de que é de Viseu.

7. A Representatividade Geográfica no Diário de Viseu: Discussão dos Dados

Para aferir a representatividade geográfica dos 24 concelhos do distrito de Viseu nas páginas do jornal Diário de Viseu, somámos o número de notícias e o número de breves de cada concelho (considerando apenas as notícias que dizem respeito ao distrito de Viseu) e fizemos a média para o total de edições analisadas (52). A Figura 6 mostra os dois extremos da representatividade concelhia: o município de Viseu está presente, em média, 25 vezes por edição, enquanto o concelho de Tarouca aparece, em média, uma vez a cada quatro edições do periódico. Há, aliás, 14 concelhos do distrito de Viseu que aparecem menos de uma vez por edição: Armamar, Castro Daire, Cinfães, Moimenta da Beira, Mortágua, Oliveira de Frades, Penedono, Resende, Santa Comba Dão, Sátão, Sernancelhe, São João da Pesqueira, Tabuaço e Tarouca.

A primeira conclusão que podemos retirar dos dados recolhidos é que o Diário de Viseu faz jus ao nome e mais de metade das suas opções editoriais em termos informativos recaem sobre o concelho de Viseu. Em comparação apenas com os restantes concelhos do distrito, este domínio esmagador verifica-se nas capas (56%), na secção de destaque (17 destaques num total de 22), nas notícias (55%) e nas breves (53%). Assim, o Diário de Viseu denota uma cobertura maioritariamente de índole local e não regional.

A discrepância geográfica em termos das escolhas editoriais para a primeira página do Diário de Viseu denota um peso muito significativo do concelho de Viseu, por um lado, e uma ausência ou quase ausência dos concelhos de Armamar, Castro Daire, Cinfães, Oliveira de Frades, Penalva do Castelo, Penedono, Resende, Sátão, Tabuaço e Tarouca. De facto, há um número ligeiramente superior de notícias destacadas na primeira página e referentes aos concelhos do distrito da Guarda, ou até com ângulo nacional, do que qualquer um destes concelhos do distrito de Viseu.


Figura 6
Média das Peças Informativas dos Concelhos do Distrito de Viseu com Mais de 0,5 de Notícias nas Páginas do Diário de Viseu Durante o Ano de 2024 (n = 3091)

No entanto, o grau de atenção diária que o periódico dedica a um acontecimento internacional, a guerra na Ucrânia, dois anos depois do início do conflito, não tem aparente justificação, sobretudo se considerarmos que há concelhos completamente ausentes das capas do jornal, como Armamar e Penalva do Castelo, cujos acontecimentos noticiados nestes concelhos nunca chegam à primeira página do periódico.

No caso da informação internacional, o Diário de Viseu confirma a ideia da glocalização, ou seja, ligação entre local e global, sobretudo porque falamos da cobertura e destaque que é dado a um conflito internacional como a guerra da Ucrânia, onde o referente de proximidade pode ser a Europa. Esta presença de eventos globais em media locais e regionais tem precedentes. Por um lado, existem estudos realizados numa perspetiva de notícias nacionais (Van Leuven & Berglez, 2015), onde se conclui que “a fronteira entre a cobertura nacional e a cobertura estrangeira é cada vez mais permeável” (p. 2). Por outro lado, estudos anteriores centrados da cobertura da guerra na Ucrânia na imprensa regional mostravam uma preponderância do tema, precisamente no Diário de Viseu, nas primeiras duas semanas após o início do conflito, período durante o qual o tema motivou sete manchetes, dois destaques fotográficos e cinco chamadas (Midões & Martins, 2023). Face à presente análise, o mais surpreendente é que o tema se mantenha na capa do jornal dois anos depois.

Já no que toca ao conteúdo do jornal, a discrepância geográfica ainda é mais evidente e sublinha não só o peso que o concelho representa (588 notícias são acerca do concelho de Viseu e os restantes 23 concelhos somam apenas 45% das notícias publicadas), mas também a baixa atenção noticiosa que merecem os concelhos a norte do distrito: São João da Pesqueira, Penedono, Sernancelhe, Armamar, Tabuaço e Tarouca.

Estes concelhos são, simultaneamente, aqueles que estão em deserto de notícias (Armamar, Tabuaço, Penedono e Sernancelhe) ou em semideserto (Tarouca; Jerónimo et al., 2022). Os dados são, por isso, preocupantes e reforçam a franca desigualdade em termos mediáticos no distrito de Viseu.

Tal como referem Jerónimo et al. (2022), os desertos de notícias “são a consequência maior da crise no jornalismo de proximidade, sobretudo em pequenas comunidades” (p. 8), razão pela qual os dados deste estudo confirmam não só a crise relacionada com a falta de cobertura dos concelhos mencionados, mas também o espaço em branco deixado por este vazio, face à importância do jornalismo para a democracia e cidadania. Falamos, pois, de concelhos de um distrito do interior, distante dos grandes centros, sendo que dois desses concelhos estão também na lista dos menos populosos, como é o caso de Penedono (o 9.º concelho menos populoso do país) e Sernancelhe (o 56.º concelho menos populoso do país) (Instituto Nacional de Estatística, 2022). Segundo Ramos (2021), a concentração populacional e a concentração económica são decisivas para combater os desertos de notícias.

No distrito de Viseu, apenas estão fora do deserto de notícias os concelhos de Castro Daire, Lamego, Mangualde, São João da Pesqueira, São Pedro do Sul, Tondela, Viseu e Vouzela. Destes concelhos, quatro (Lamego, Mangualde, Tondela e Viseu) estão no topo da lista em termos de cobertura noticiosa no jornal Diário de Viseu. Por outro lado, nesta lista, em terceiro e quarto lugar, estão dois dos concelhos ameaçados, Nelas e Carregal do Sal, o que representa um bom indicador tendo com conta que são concelhos que têm apenas um meio com produção noticiosa regular e esta produção noticiosa é reforçada pelo jornal diário impresso da sede do distrito.

8. Conclusão

Para Carlos Camponez (2012), “na sua dimensão geográfica, a proximidade pode funcionar numa lógica de criação de interesses e de fragmentação de públicos” (p. 36). A análise do ano de 2024 no Diário de Viseu mostra que a seleção de notícias referentes ao concelho de Viseu representa mais de metade do jornal em termos informativos, o que denota um primeiro grau de proximidade geográfico e, por isso, fragmentação do público sediado no local de implantação do jornal, sendo esse, a nosso ver o “nós territorial” (Néveu, 2005) do jornal aqui analisado: um “nós” essencialmente local e menos regional.

A representatividade do concelho de Viseu é superior à representatividade da soma dos restantes 23 concelhos do distrito, o que denota diferentes graus de relação do público com o jornal. Assim, e considerando a vocação geográfica expressa no estatuto editorial do Diário de Viseu (“tem como missão principal levar ao leitor a informação do que de mais relevante se passa em Viseu, na Região das Beiras, em Portugal, na Europa e no Mundo” [Diário de Viseu, s.d.-a, para. 1]), todas estas dimensões estão presentes na informação veiculada pelo periódico, mas o fosso entre elas traduz diferentes posicionamentos face aos leitores.

Se, por um lado, os leitores do concelho de Viseu são simultaneamente o público do jornal e os atores sociais mediatizáveis, o mesmo não podemos dizer do público a norte do distrito, que permanecem apenas como destinatários e são excluídos enquanto atores noticiosos. A sobreposição territorial entre atores sociais mediatizáveis, jornalistas e público, caraterística dos media regionais (Carvalheiro et al., 2021) tem expressão em termos da sede do distrito, mas nos concelhos com menor representatividade (Armamar, Castro Daire, Cinfães, Moimenta da Beira, Mortágua, Oliveira de Frades, Penedono, Resende, Santa Comba Dão, Sátão, Sernancelhe, São João da Pesqueira, Tabuaço e Tarouca) o público mantém-se apenas como recetor da informação e poucas vezes surge como ator noticioso.

De uma perspetiva geográfica, um dos referentes da proximidade no jornalismo, os dados mostram ainda a presença mais significativa de notícias sobre os concelhos de Tondela, Nelas e Carregal do Sal, três concelhos que fazem fronteira com o concelho de Viseu, confirmando assim a relação entre a menor distância geográfica e a maior noticiabilidade de um acontecimento. No entanto, o facto de as principais ausências em termos concelhios coincidirem com os desertos de notícias identificados por Jerónimo et al. (2022) nesses mesmos concelhos, agudiza a falta de acesso dos cidadãos dessas localidades a informação jornalística. Tal como referem os autores, “os espaços deixados vazios pelo jornalismo rapidamente são ocupados por outras realidades, menos ou mesmo nada comprometidas com a procura pela verdade, pela ética e a deontologia” (Jerónimo et al., 2022, p. 6).

Não podemos deixar de salientar que a falta de recursos humanos tem sido apontada como uma das principais mudanças nos meios de comunicação social locais e regionais e uma das que mais afetou o trabalho das redações (Morais et al., 2020). Segundo Nielsen (2015), as equipas editoriais dos media regionais são limitadas e trabalham com um número considerável de potenciais histórias para cobrir na comunidade. Considerando essa dificuldade, pode existir um paralelismo entre a facilidade de uma redação fazer a cobertura de acontecimentos com referente geográfico mais próximo da sede da redação. No caso do Diário de Viseu, não podemos assinalar com certeza esta causa, mas estudos futuros poderão procurar aferir esta realidade, nomeadamente através do cruzamento com as fontes de informação das peças noticiosas, de modo a tentar compreender que predomina, ou não, um jornalismo sentado, que visa essencialmente refazer os textos de outras pessoas, essencialmente comunicados de imprensa ou textos de agências noticiosas, por oposição ao jornalismo de rua, mais orientado para o trabalho de campo (Néveu, 2005). Aliás, os dados do inquérito levado a cabo por Torre et al. (2023) demonstram que mais de 70% dos 485 inquiridos, todos jornalistas portugueses de imprensa regional, dizem recorrer a fontes documentais com frequência e muita frequência e 99,4% dizem ter autonomia para escolher as suas fontes. Assim, e considerando as preocupações aqui elencadas, será pertinente, em estudos futuros, incluir entrevistas a responsáveis editoriais, nomeadamente diretos de informação e chefes de redação, bem como aos jornalistas, que por vezes também funcionam como gatekeeper, de modo a compreender critérios editoriais e limitações operacionais.

Retomando a lógica das dificuldades enfrentadas pelos meios locais e regionais (Correia, 2023; Jerónimo, 2015; Morais et al., 2020; Nielsen, 2015), e considerando que entre as necessidades destes meios está a recuperação de receitas, o aumento de escala e uma maior retenção da atenção do seu público-alvo (Ramos & Torre, 2023), o caminho de redução da distância geográfica através de uma lógica de proximidade e consolidação de uma identidade regional (neste caso no que toca à região de Viseu) pode permitir traçar vários objetivos. Desde logo, porque há um espaço a ocupar em localidades que estão em deserto noticioso, existe um público-alvo cujo território não tem presença mediática e a maior atenção jornalística que possa ser dada a essas comunidades pode permitir ao meio de comunicação social ganhar escala para eventuais novos formatos de financiamento, nomeadamente subscrições e financiamento coletivo, a par com a aposta na publicidade digital cujo modelo de negócio precisa de uma audiência maior.

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Notas

* Agradecimentos

Este trabalho é financiado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto Ref.ª UID/05507/2025 com o identificador DOI https://doi.org/10.54499/UIDB/05507/2025. Agradecemos adicionalmente ao Centro de Estudos em Educação e Inovação (Ci&DEI) e ao Politécnico de Viseu pelo apoio prestado.

Notas de autor

Joana Martins concluiu o Doutoramento em Ciências da Comunicação em 2017 pela Universidade de Coimbra, o Mestrado em Ciências da Comunicação em 2008 pela Universidade Fernando Pessoa e a Licenciatura em Jornalismo em 2005 pela Universidade de Coimbra. É Professora Adjunta no Instituto Politécnico de Viseu - Escola Superior de Educação de Viseu, onde coordena a licenciatura em Comunicação Social. Investiga na área das ciências da comunicação, essencialmente nos campos de literacia mediática, coberturas jornalísticas e jornalismo de proximidade. Soma 15 anos de experiência como jornalista de imprensa regional.

Información adicional

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