Resumo: Este artigo analisa como o jornalismo narra a periferia, território ocupado por populações pobres, racializadas, excluídas das metrópoles brasileiras. Para isso, investiga matérias jornalísticas sobre Parelheiros ou que referenciam o território, região periférica da cidade de São Paulo, Brasil, publicadas em 2023. Utiliza-se a técnica da análise de conteúdo. Foram analisadas 55 matérias publicadas online nesse período em 10 veículos jornalísticos, entre eles Globo.com, Metrópoles e Folha de S. Paulo. Ainda, analisa e problematiza como o princípio da objetividade e os valores-notícia afetam a cobertura das periferias. Os achados destacam a falta de aprofundamento em pautas relevantes para esse território periférico.
Palavras-chave: Periferia, Jornalismo, Parelheiros, Análise de Conteúdo, Objetividade Jornalística.
Abstract: This article analyzes how journalism portrays the outskirts, a territory inhabited by poor, racialized populations excluded from Brazilian metropolises. To this end, it examines the journalistic articles about Parelheiros or that reference the territory, a outskirts area of the city of São Paulo, Brazil, published in 2023, using content analysis. Fifty-five articles published online in this period in 10 journalistic outlets, including Globo.com, Metrópoles and Folha de S. Paulo, were analyzed. Furthermore, it analyzes and problematizes how the principle of objectivity and the news values affect the coverage of the outskirts. The findings highlight the lack of in-depth analysis of relevant topics for this peripheral territory.
Keywords: Outskirts, Journalism, Parelheiros, Content Analysis, Journalistic Objectivity.
Resumen: Este artículo analiza cómo el periodismo narra la periferia, un territorio habitado por poblaciones pobres, racializadas y excluidas de las metrópolis brasileñas. Para eso, se examinan artículos periodísticos sobre Parelheiros o que hagan referencia al territorio, una región periférica de la ciudad de São Paulo, Brasil, publicados en 2023, recurriendo al análisis de contenido. Se analizaron 55 artículos publicados online durante el período en 10 medios de comunicación, entre ellos Globo.com, Metrópoles y Folha de S. Paulo. Además, se analizan y problematizan cómo el principio de objetividad y los valores noticiosos afectan la cobertura de las periferias. Los resultados ponen de relieve la falta de un análisis profundo de las cuestiones relevantes para este territorio periférico.
Palabras clave: Periferia, Periodismo, Parelheiros, Análisis de Contenido, Objetividad Periodística.
Secção Temática/Thematic Section/Sección Temática. Artigos/Articles/Artículos
A Periferia Pelo Jornalismo: Uma Análise de Conteúdo das Matérias Jornalísticas Que Referenciam Parelheiros em 2023
The Outskirts Through Journalism: A Content Analysis of News Stories Referencing Parelheiros in 2023
Las Periferias a Través del Periodismo: Un Análisis de Contenido de Noticias Que Refieren Parelheiros en 2023

Recepción: 21 Abril 2025
Aprobación: 14 Junio 2025
Publicación: 22 Diciembre 2025
Estudos sobre como o jornalismo retrata as periferias mostram que, apesar de alguns avanços, a representação jornalística das periferias ainda privilegia enquadramentos ligados à pobreza, violência e escassez (Almada, 2012; Ferreira, 2004; Ramos & Paiva, 2007; Schwartz et al., 2015; Silva & Silva, 2015; Tavares, 2019; Vaz & Baiense, 2011). Este artigo parte da inquietação diante desses enquadramentos jornalísticos para questionar como a objetividade e os valores-notícia vêm sendo acionados na construção dessas representações. Com foco na região de Parelheiros, extremo sul da cidade de São Paulo, Brasil, a pesquisa analisou peças publicadas em 2023 por 10 veículos jornalísticos, concentrando-se nos títulos, subtítulos e trechos em que o território é citado. O objetivo é contribuir para a problematização de como o jornalismo contribui para a construção de um imaginário sobre as periferias.
Historicamente referenciados a partir de lógicas econômicas e espaciais, o conceito de periferia sofreu mudanças ao longo dos anos. Foi compreendido como um lugar oposto ao centro urbano, onde essa oposição centro/periferia é fruto da história da urbanização brasileira (Nascimento, 2015). Segundo Magnani (2006), essa visão de oposição, que é recorrente nos estudos acadêmicos, decorre da lógica de ausência do Estado e de equipamentos urbanos nesses territórios, se diferenciando dos centros. Ainda, há abordagens que a compreenderam como o resultado da especulação imobiliária e da exclusão das classes trabalhadoras dos serviços urbanos, mas funcional à economia (Kowarick, 1979).
Bondunki e Rolnik (1982) optaram por definir o conceito de periferia a partir da articulação entre o espaço urbano e a estratificação social. Para os autores, periferias são áreas urbanas caracterizadas por baixa renda diferencial, o que evidencia uma relação direta entre a ocupação do território e a posição social de seus habitantes. Essa condição econômica faz com que esses espaços sejam majoritariamente habitados por trabalhadores.
A partir dos anos 1990, o conceito passou por ressignificação, uma vez que o movimento hip-hop ganha força entre a juventude periférica e passa a reivindicar a palavra periferia (D’andrea, 2020), sendo na cultura que o termo passa a ter mais fluidez em seu uso, afastando-se da concepção espacial (Cortado, 2018). Com isso, os movimentos e coletivos de arte e cultura passam a narrar esses territórios a partir de suas potencialidades e sua força de resistência (D’andrea, 2020; Magnani, 2006). Assim, o conceito de periferia não é mais visto apenas como um lugar afastado e distante do centro, pobre e de violência, onde o Estado não se faz presente, mas também como um lugar de potências artísticas, culturais e humanas, de luta e de resistência (D’andrea, 2020).
Ainda, D’andrea (2020) identifica seis fenômenos centrais para essa transformação: a produção musical, com destaque para o grupo musical Racionais MC’s; o surgimento de uma nova subjetividade marcada pelo orgulho periférico; a atuação dos coletivos artísticos; a presença do Primeiro Comando da Capital; o crescimento das igrejas evangélicas; e o lulismo. A arte, segundo ele, passa a ser uma forma de emancipação e sobrevivência material. D’andrea (2020) observa também que a ampliação de políticas públicas e da atuação de organizações não-governamentais contribuiu para a valorização identitária do “sujeito periférico”, caracterizado como alguém que reconhece e se orgulha de sua condição, agindo politicamente a partir dela.
No entanto, Oliveira (2019) questiona a visão de D’andrea (2020), sobretudo por ele criar uma hierarquia implícita sobre quem pode, ou não, ser considerado sujeito periférico, desconsiderando a complexidade dos contextos vividos. A autora critica a noção de potência proposta por ele, que inclui elementos como o uso da violência e a disputa por poder, características que Oliveira (2019, p. 157) aponta como masculinas e elitistas. Ela propõe uma análise mais sensível às vivências das mulheres periféricas e reforça que subjetividades políticas não se consagram em etapas rígidas. Assim, a ideia de periferia deve ser examinada à luz das desigualdades de gênero e das múltiplas vivências.
Ainda, Brito et al. (2023) demonstram que o racismo estrutural e a segregação territorial foram ignorados por parte da literatura sobre planejamento urbano. Sodré (2002) e Rolnik (1989) revelam como, desde a escravidão até às reformas urbanas do século XX, a população negra foi sistematicamente empurrada para as margens das cidades e “com esse pano de fundo ideológico, o antigo escravo era alguém a ser afastado ( … ) por qualquer plano de remodelação da cidade” (Sodré, 2002, p. 45). Rolnik (1989) já mostrava que a exclusão territorial foi reforçada após a abolição da escravatura, com o favorecimento de imigrantes europeus e a marginalização da população negra nos cortiços e bairros periféricos. Essas análises indicam que as diversidades de gênero e raça são importantes para se compreender a periferia.
É evidente que o conceito de periferia já não pode ser limitado à tradicional oposição entre centro e margem, tampouco reduzido a uma visão pautada na carência, na violência, na ausência estatal ou na pobreza. Atualmente, a periferia tem se reinventado a partir de si mesma, promovendo uma leitura mais ampla e complexa, que reconhece e valoriza suas potências humanas, culturais, artísticas e ambientais.
Porém, o jornalismo segue retratando as periferias pelo viés da escassez e da violência. A mídia, segundo Muller (2012), mantém estereótipos raciais e ignora as raízes históricas da desigualdade. Para Moraes (2022), a objetividade jornalística tem sido usada como ferramenta para legitimar relatos carregados de preconceitos, que pouco contribuem para a construção de outras narrativas sobre as populações vulnerabilizadas:
explico melhor a partir de um critério objetivo citado ainda há pouco por mim: a “busca de fontes variadas e compatíveis ao assunto em tela". Esta ação necessária, realizada por diversas/os e competentes jornalistas, não fez com que, por exemplo, o resultado dessas buscas trouxessem historicamente à praça pública pessoas negras, principalmente enquanto especialistas, como dotadas de um saber socialmente mais valorizado. (p. 15)
Diante desse contexto, este artigo busca questionar os enquadramentos jornalísticos dados às periferias e problematizar esse modelo. Para isso, o estudo analisou o conteúdo das matérias publicadas em 2023 em 10 órgãos de comunicação de grande porte[1], especificamente aquelas que mencionam Parelheiros, uma região periférica no extremo sul de São Paulo — Brasil. A análise se concentrou nos títulos, subtítulos e trechos das matérias em que o território é citado.
A seguir, apresentamos o distrito de Parelheiros e seus indicadores de infraestrutura e qualidade de vida com base no Mapa da Desigualdade 2023 (Rede Nossa São Paulo, 2023). Em seguida, detalhamos a metodologia e a análise das matérias jornalísticas e seus resultados.
Parelheiros (Figura 1), no extremo sul de São Paulo, Brasil, abriga duas áreas de proteção ambiental (Capivari-Monos e Bororé-Colônia), essenciais para o abastecimento de água, a qualidade do ar e a produção de alimentos orgânicos. Ocupando cerca de 25% do território da capital, o distrito é marcado por uma população majoritariamente jovem — 48,8% têm até 29 anos, e 11,6% são crianças de até seis anos, sendo a maior proporção dessa faixa etária no município (Rede Nossa São Paulo, 2023). A população negra representa 56,6%, a terceira maior concentração na capital.
Apesar de sua relevância ambiental, Parelheiros enfrenta desafios sociais, como a taxa de feminicídios (0,42 por 10 000 mulheres de 20 a 59 anos) e o sétimo maior índice de violência policial da cidade. Além disso, os registros oficiais não refletem a realidade no que se refere a existência de espaços culturais independentes, mesmo com a forte presença de coletivos e organizações locais. Por outro lado, destaca-se pela segunda maior cobertura vegetal da cidade e baixos níveis de poluição do ar. Porém, é também a terceira região com mais áreas contaminadas em São Paulo, evidenciando a urgência de ações de recuperação ambiental (Rede Nossa São Paulo, 2023).

A seleção das matérias ocorreu por meio da plataforma Media Cloud [2], onde foi utilizada a palavra-chave “Parelheiros”, considerando o intervalo de tempo entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2023. A busca inicial retornou 441 matérias, que foram organizadas em uma planilha no Excel. Contudo, 62 não apresentavam links acessíveis, inviabilizando sua análise e levando à sua exclusão. Dessa forma, o total de matérias consideradas passou a ser de 379.
Além disso, verificou-se que 79 dessas matérias eram republicações com títulos idênticos, resultando em 224 ocorrências repetidas. As 145 duplicatas foram removidas, mantendo apenas um exemplar de cada, o que reduziu o total para 234 matérias elegíveis para análise.
Na seleção, estava previsto, inicialmente, seguir a metodologia convencional sugerida por Herscovitz (2018), que propõe a técnica da "semana artificial". Essa técnica busca garantir representatividade, escolhendo, aleatoriamente, dias distintos da semana dentro de diferentes períodos, equilibrando a amostra e reduzindo vieses na pesquisa. Dado que não foram encontradas publicações diárias sobre ou que referenciam Parelheiros, foi necessário ajustar o critério de seleção. Para isso, estabeleceu-se um ranqueamento artificial na planilha, selecionando a primeira matéria de cada semana entre janeiro e dezembro de 2023. Ao final desse processo, foram selecionadas 55 matérias para a análise. Os veículos responsáveis por essas matérias foram: UOL (14), Globo.com (11), Metrópoles (nove), Terra (sete), Folha de S. Paulo (seis), IG (três), IstoÉ e IstoÉ Dinheiro (três), CartaCapital (uma) e R7 (uma).
Os dados extraídos das matérias foram comparados com informações do Mapa da Desigualdade 2023, da Rede Nossa São Paulo (2023), para verificar se a cobertura jornalística desses veículos dialoga ou reflete os indicadores dessa região. Além disso, os temas abordados nas peças foram categorizados de acordo com os tópicos presentes neste relatório. A utilização do Mapa da Desigualdade como referência nesta pesquisa se dá pela necessidade de ancorar a análise em dados concretos que reflitam aspectos estruturais da realidade social de Parelheiros. Embora reconheçamos que os dados públicos disponíveis não esgotam a complexidade do território, eles oferecem uma importante leitura institucional das desigualdades e acessos a direitos nas diferentes regiões da cidade. O Mapa da Desigualdade, ao sistematizar esses indicadores, permite um ponto de partida fundamentado para a compreensão das condições de vida no território, servindo como contraponto às narrativas muitas vezes baseadas apenas em percepções ou em generalizações. Portanto, o uso do Mapa da Desigualdade não tem por objetivo cristalizar uma visão limitada ou estatística da região, mas sim garantir que a investigação dialogue com dados objetivos da realidade, ampliando a consistência da análise e evitando suposições que possam desconsiderar desigualdades estruturais ainda presentes em Parelheiros.
Optou-se por analisar e comparar as matérias jornalísticas sobre Parelheiros ou que fazem referência ao território com o Mapa da Desigualdade de 2023, pois é a primeira vez que, após dois anos consecutivos (Rede Nossa São Paulo, 2021, 2022), o território não aparece entre os 10 piores distritos da cidade. Nesse sentido, haveria a possibilidade de reportar o território a partir das suas potencialidades e para além da violência. Reportar os territórios periféricos a partir da violência é uma tendência do jornalismo, como apontam diversos estudos (Silva & Silva, 2015; Tavares, 2019; Vaz & Baiense, 2011) e essa pesquisa busca compreender se essa tendência permanece.
O estudo partiu de duas hipóteses principais: (1) o jornalismo não apresenta uma abordagem ampla e aprofundada sobre Parelheiros, limitando-se a poucos temas; e (2) as matérias sobre ou que fazem referência a Parelheiros nesses veículos tendem a enfatizar o valor-notícia do negativismo, entendido como um valor notícia guarda-chuva que reúne temas/situações por seus aspectos negativos (Silva, 2005).
Para a análise das peças, optou-se pela técnica de análise de conteúdo, seguindo as diretrizes estabelecidas por Laurence Bardin (1977). Esse processo foi estruturado em três etapas principais: (1) pré-análise; (2) exploração do material; e (3) tratamento dos resultados, incluindo inferência e interpretação, com abordagem mista. Foram definidos os itens da categoria temática. Para isso, escolheu-se utilizar os temas listados no Mapa da Desigualdade 2023, da Rede Nossa São Paulo (2023). Essa escolha permite comparar os resultados obtidos na análise das matérias com os indicadores que caracterizam a região. Abaixo, segue a Tabela 1 com os temas selecionados.
Nesta pesquisa, optou-se por adotar uma abordagem ampliada em relação aos temas meio ambiente, cultura e direitos humanos. No caso do meio ambiente, foram incluídas matérias que ressaltam as riquezas naturais de Parelheiros, compreendendo que a valorização e a proteção da biodiversidade local também são expressões de uma agenda ambiental. Da mesma forma, o tema cultura foi estendido para abarcar peças que evidenciam manifestações artísticas e culturais do território, reconhecendo sua relevância na construção de identidades e na mobilização comunitária. Já em direitos humanos, foram consideradas matérias que abordam diversidade e inclusão, por entender que tais pautas são estruturantes para a garantia de direitos e para a promoção da equidade.
Essa ampliação se justifica pela limitação das categorias utilizadas em ferramentas como o Mapa da Desigualdade que, embora relevantes, refletem majoritariamente o recorte técnico e estatístico dos dados oferecidos pelas políticas públicas formais. Tais categorizações, ainda que importantes, não captam toda a complexidade das dinâmicas territoriais nem a potência das ações locais que resistem, criam e transformam a realidade a partir de suas próprias referências. Por isso, a análise optou por incorporar olhares mais abrangentes, sensíveis às especificidades e potencialidades do território de Parelheiros.
Além disso, para a análise, foram acrescentados quatro temas (Tabela 2) que não constam do relatório mencionado anteriormente. Apesar de não constar no Mapa da Desigualdade, esses temas são bastante recorrentes nas matérias analisadas e diferentes entre si, portanto, seria mais limitado analisá-los conjuntamente apenas como “outros” temas.


Primeiramente, ressaltamos que esta análise busca compreender se as matérias jornalísticas de 2023 que referenciaram Parelheiros têm evidenciado tanto os desafios enfrentados por este território quanto suas potencialidades. Essa abordagem segue a perspectiva de denúncia e anúncio proposta por Paulo Freire (1997). Dessa forma, ao apontarmos que um artigo não aprofundou determinados aspectos cruciais para Parelheiros, isso não significa que tenha deixado de abordar outros temas relevantes para São Paulo ou para diferentes regiões. Com isso em mente, o primeiro critério de análise foi a frequência com que os diferentes temas apareceram nas matérias publicadas ao longo de 2023. No total, foram identificados 17 temas, incluindo outros adicionais. A distribuição desses temas nas matérias analisadas foi a apresentada na Tabela 3.

Inicialmente, observa-se que os órgãos de comunicação apresentaram maior frequência de matérias na categoria de política (10), seguida por serviço e lazer (sete), clima (sete), outros (cinco) e cultura (quatro). Com menor incidência, as categorias direitos humanos, mobilidade, saúde e segurança pública registraram três matérias cada. Já as categorias de esporte, infraestrutura digital e infraestrutura urbana, meio ambiente e trabalho e renda tiveram duas matérias cada, enquanto habitação e educação apareceram apenas uma vez.
Nesta fase, optou-se por analisar as matérias individualmente por tema e unidade de análise, permitindo comparações que evidenciam semelhanças e contrastes. Assim, a apresentação dos dados se inicia pelos temas que tiveram maior recorrência.
Das 10 matérias relacionadas à política, apenas uma abordava exclusivamente Parelheiros. Nenhuma delas mencionou o nome do território na manchete, enquanto uma o trouxe no subtítulo e três deram algum destaque ao distrito ao longo do texto.
A única matéria focada exclusivamente em Parelheiros e que enfatizou o território no conteúdo foi publicada pelo Metrópoles em 8 de maio de 2023. Sua manchete era “Nunes triplica verba para redutos de Milton Leite, seu fiador político”, com o subtítulo “Ricardo Nunes cedeu R$ 165 milhões a mais do que o previsto para M’Boi Mirim e Parelheiros, redutos do presidente da Câmara, Milton Leite”. No texto, podemos ler:
São Paulo – As subprefeituras do M’Boi Mirim e de Parelheiros, na zona sul de São Paulo, aparecem disparadas como as que mais receberam recursos da Prefeitura de São Paulo após a atualização do orçamento da capital. Os dois bairros são redutos eleitorais do presidente da Câmara, Milton Leite (União), que exerce forte influência sobre a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), de quem é fiador político. (Metrópoles, 8 de maio de 2023)
O foco está muito mais na atuação dos candidatos e políticos para a corrida eleitoral que se daria no ano seguinte, em 2024. Ou seja, as matérias não aprofundam e debatem o território de Parelheiros, mas sim se voltam para as eleições municipais, como podemos ver nos trechos acima.
As outras duas matérias que dão destaque a Parelheiros no corpo do texto, “Câmara de SP turbina verba para reduto eleitoral de presidente da Casa”, da Metrópoles em 18 de janeiro de 2023, e “Maioria das subprefeituras de São Paulo não cumpriu orçamento de 2022” do Terra em 27 de março de 2023, também se referem à mesma pauta, que informa que Parelheiros é a subprefeitura que mais recebeu verba na cidade. Embora as matérias mencionem Parelheiros, elas pouco discutem como essa verba será utilizada e se atenderá às necessidades do território, contribuindo para a resolução de seus desafios. Além disso, as outras sete matérias apenas fazem referência ao distrito, sem aprofundamento ou destaque.
Embora a matéria intitulada “‘Melhor desafio da vida’, diz Aline Torres sobre ser Secretária Municipal de Cultura de SP”, publicada em 20 de abril de 2023 no portal Terra, aborde temas relevantes como mobilidade e cultura, o foco da narrativa está concentrado na figura da então secretária Aline Torres. O tempo médio de deslocamento por transporte público em Parelheiros está abaixo da média da cidade (Rede Nossa São Paulo, 2023) e é um problema recorrente apontado pela população do território. Nesta matéria, Parelheiros é mencionado apenas como exemplo, sem que haja uma discussão aprofundada sobre os problemas enfrentados, suas causas e consequências.
Das sete matérias sobre serviço e lazer, apenas uma trata exclusivamente de Parelheiros. Nenhuma delas menciona o distrito na manchete ou no subtítulo, mas três destacam o território. A matéria específica, ou seja, que aborda exclusivamente este território, publicada pelo portal Terra em 20 de dezembro de 2023, tem como manchete “Hospedagens na cidade de São Paulo para se sentir no interior” e apresenta opções de estadia em Parelheiros, evidenciando seu potencial turístico e ambiental. As outras duas matérias que dão destaque ao território também são do mesmo veículo. Aqui, podemos identificar um exemplo de destaque para o seu potencial ligado ao meio ambiente, já que Parelheiros está acima da média na cobertura vegetal (Rede Nossa São Paulo, 2023).
Neste episódio da série 'SP fica bem aqui´, o Viagem em Pauta não só chegou de um jeito diferente, navegando por um dos mais conhecidos reservatórios de água da cidade, mas também conheceu três opções diferentes de hospedagem em Parelheiros e Marsilac, no extremo sul paulistano. Polo de Ecoturismo reúne 120 pequenos empreendedores e quase 600 propriedades rurais de produção orgânica. Aliás, algumas contam inclusive com opção de hospedagem em meio às artes populares, história e, claro, muita Mata Atlântica no quintal, como um sítio em Marsilac, o último bairro no sul da cidade. (Terra, 20 de dezembro de 2023)
Mesmo destacando o seu potencial turístico e natural, a matéria do Terra, “Ilha Maldita foi o destino brasileiro mais procurado, em 2023”, em 24 de dezembro de 2023, recupera o seu passado associado a violência: “muito além do passado violento que, por anos, esteve associado a Parelheiros, esse distrito na zona sul de São Paulo é destino turístico que pouca gente conhece”.
As quatro matérias restantes apenas mencionam serviços, informando sobre estabelecimentos que abrem ou fecham em feriados ou citando rapidamente endereços em Parelheiros, sem dar destaque ao território.
Sete matérias com o tema clima citaram Parelheiros. Apesar do número expressivo, elas apenas informam sobre as baixas temperaturas comuns no território, como por exemplo a intitulada “Até quando vai o frio em SP e no resto do Brasil? Veja previsão”, de 15 de maio de 2023 do Uol. Nenhuma dessas matérias é específica sobre Parelheiros, apresenta Parelheiros na manchete ou no subtítulo ou destaca o território. De seguida coloca-se um exemplo de uma destas matérias e da forma como são apresentadas:
Conforme o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) da Prefeitura de são Paulo, anteriormente a madrugada mais fria havia sido registrada no feriado de Tiradentes, no dia 21 de abril, com 11,3°C de média na cidade e valor absoluto de 5,6°C na região de Parelheiros, no extremo sul da capital paulista. As estações meteorológicas do município indicam que os valores absolutos não atingiram valores recordes, já que a menor temperatura foi de 8,6°C na região de Perus, na zona norte. (Uol, 15 de maio de 2023)
Se fossem matérias sobre Parelheiros, poderiam aproveitar a oportunidade para destacar seu potencial natural e sua reserva de Mata Atlântica, que podem justificar as menores temperaturas em relação ao restante da cidade.
No grupo "Outros", foram incluídas matérias que não se enquadram em um tema específico. Das cinco matérias, duas abordavam a questão da privatização dos cemitérios na cidade. Nenhuma matéria é específica sobre Parelheiros, apresenta Parelheiros na manchete ou no subtítulo ou destaca o território. Um exemplo é a matéria da Folha de S. Paulo no dia 6 de março de 2023 com a manchete “Iniciativa privada assume operação dos cemitérios em São Paulo na terça (7)”.
No tema cultura, nenhuma matéria analisada é específica sobre Parelheiros, apresenta Parelheiros na manchete ou no subtítulo ou destaca o território. Vale lembrar que os indicadores culturais do distrito são pouco expressivos nos levantamentos oficiais, sendo nos espaços culturais independentes um dos piores e abaixo da média da cidade (Rede Nossa São Paulo, 2023), o que não reflete a realidade local. Assim, as matérias jornalísticas não capturam a complexidade e a riqueza cultural do território. Saraus, slams (competições de poesias autorais), espaços culturais independentes organizados por coletivos e organizações sociais, bem como iniciativas culturais das populações negras, indígenas e alemãs seguem ausentes.
No entanto, os artigos “Era Outra Vez: Heloisa Prieto lança antes nos EUA livro sobre povos indígenas brasileiros”, publicado pelo UOL a 2 de março de 2023, e “Velia Vidal: 'Exercer nosso direito de ler é reivindicar nossa existência'”, da CartaCapital a 15 de agosto de 2023, apresentam potencial para valorizar o território e suas expressões artísticas e culturais. Ainda assim, limitam-se a menções pontuais, sem aprofundar ou explorar essas dimensões com mais destaque, como se pode verificar no excerto seguinte:
Todo esse contexto aparece no novo livro de Prieto, que acaba de ser lançado. "Os personagens trazem coisas que ouvi de pajés que cuidaram de mim, além de falas do Krenak e de outras pessoas", diz ela, mencionando especialmente os moradores da aldeia guarani Krukutu, em Parelheiros, na zona sul de São Paulo. Nío à toa a história é dedicada a Karai Papa Mirim, Olívio Jekupé, Maria Kerexu, Aparício, Kamila Pará Mirim, Owera, Tupí Mirim, Ailton Krenak, Kaká Werá e Daniel Munduruku. (Uol, 2 de março de 2023)
Das três matérias sobre direitos humanos, apenas uma é específica sobre Parelheiros. Essa mesma matéria também apresenta Parelheiros no subtítulo e destaca o território. Trata-se da publicação do ig.com.br, em 1 de fevereiro de 2023, com a manchete “TJM condena policial que pisou em pescoço de mulher negra em SP” e o subtítulo “Agressão ocorreu em Parelheiros, zona sul da cidade, em 2021”. A matéria traz o seguinte trecho:
São Paulo - Por unanimidade, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) condenou o policial militar que agrediu e pisou no pescoço de uma mulher negra, dona de um bar na comunidade de Parelheiros, zona sul da capital paulista, cujo nome é mantido sob sigilo. A agressão ocorreu em julho de 2020. (ig.com.br, 1 de fevereiro de 2023)
Apesar de Parelheiros registrar um baixo percentual de pessoas vítimas de violência por racismo e injúria racial, segundo o Mapa da Desigualdade (Rede Nossa São Paulo, 2023), o território ocupa a 18.ª posição no ranking de mortes por intervenção policial e a 19.ª em feminicídio. Esses dados não são abordados na matéria. Vale lembrar que Parelheiros é o terceiro território com maior concentração de população negra (56,6%) da cidade.
A matéria “Após 2 anos em queda, número de feminicídios volta a subir em São Paulo”, publicada pelo UOL em 12 de março de 2023, menciona que Parelheiros apresenta um dos maiores índices de feminicídio, mas não volta a discutir o território ao longo do texto:
A área sob responsabilidade da delegacia do Capão Redondo, na zona sul da capital, respondeu pela maior quantidade de feminicídios nesse período: 14. As dos distritos policiais de Parelheiros e Jardim Herculano, também na zona sul, aparecem em seguida, com 11 e 9 casos, respectivamente.
Aqui, mais uma vez, associa o território a violência e a uma pauta negativa, o feminicídio, sem discutir a problemática, as políticas públicas de enfrentamento à violência ou possíveis ações locais para lidar com o problema.
Das três matérias classificadas como mobilidade, apenas uma é específica sobre Parelheiros, apresentando o nome do território na manchete, no subtítulo e no corpo do texto. Trata-se de uma notícia da Globo.com, publicada em 17 de setembro de 2023, com o título “Ônibus capota e deixa 20 feridos na região de Parelheiros, no extremo Sul de SP”. No corpo da matéria, o número de vítimas é atualizado para “32 feridos e um morto”. As outras duas matérias tratam da paralisação e greve de motoristas e metroviários, mas não aprofundam a questão da mobilidade no território. É importante destacar que Parelheiros é um dos distritos com o pior tempo médio de deslocamento por transporte público (pico da manhã) e acesso ao transporte de massa, segundo o Mapa da Desigualdade (Rede Nossa São Paulo, 2023), uma realidade que não foi abordada nas matérias. Mais uma vez, a pauta se liga ao negativismo, reportando o território nessa temática sobretudo quando algum desastre acontece.
No tema saúde, nenhuma das três matérias é específica sobre Parelheiros, apresenta o nome do território na manchete ou no subtítulo, ou dá destaque à região. Além disso, não há aprofundamento sobre os desafios da saúde em Parelheiros, apesar de o distrito apresentar índices preocupantes, como um dos piores indicadores de gravidez na adolescência e uma baixa idade média ao morrer (63 anos), segundo o Mapa da Desigualdade (Rede Nossa São Paulo, 2023).
No tema segurança pública, nenhuma das três matérias é específica sobre Parelheiros, apresenta o nome do território na manchete ou no subtítulo, ou dá destaque à região. Apesar de, segundo o Mapa da Desigualdade (Rede Nossa São Paulo, 2023), Parelheiros ocupar a 18.ª posição no ranking de mortes por intervenção policial e a 19.ª posição em feminicídio, esses temas não são abordados nas matérias analisadas.
No tema esporte, nenhuma das duas matérias é específica sobre Parelheiros, apresenta o nome do território na manchete ou no subtítulo, ou dá destaque à região. Os indicadores culturais do território também são pouco expressivos. O número de quadras esportivas em escolas públicas está abaixo da média da cidade, e, apesar dos equipamentos públicos de esporte estarem na média municipal, a 63.ª posição ocupada por Parelheiros demonstra que ainda são insuficientes (Rede Nossa São Paulo, 2023). Porém, coletivos esportivos que promovem o esporte, o lazer e a cultura estão presentes no território, como o coletivo Perifeminas, um projeto que fomenta o futebol feminino de várzea (Perifeminas, s.d.), e o Projeto FUTVIDA, com foco na socialização, inclusão social e transformação territorial por meio do futebol (Projeto FUTVIDA, s.d.).
No tema infraestrutura digital e infraestrutura urbana, nenhuma das duas matérias é específica sobre Parelheiros, apresenta o nome do território na manchete ou no subtítulo, ou dá destaque à região. Uma das matérias trata do apagão/falta de energia na cidade, enquanto a outra discute a falta de água na zona sul da capital. No entanto, nenhuma delas aborda o baixo acesso ao saneamento básico em Parelheiros ou o fato de o distrito ter o segundo pior acesso à internet móvel da cidade (Rede Nossa São Paulo, 2023).
No tema meio ambiente, das duas matérias, apenas uma é específica sobre Parelheiros e destaca o território. Publicada pela UOL em 22 de janeiro de 2023, a matéria intitulada “São Paulo tem bairro em cratera de meteoro, cachoeiras e visão 360° da cidade” é a única, entre as 55 analisadas, que enfatiza a potência ambiental de Parelheiros. Ela menciona a Cratera de Colônia e as cachoeiras da região, reforçando sua relevância ecológica e turística.
Cachoeiras em Parelheiros
A Cachoeira do Jamil fica na região de Parelheiros dentro de uma propriedade privada. Para chegar lá, é só pegar um ônibus dentro do terminal Parelheiros com destino ao bairro Barragem. Depois é preciso fazer uma caminhada de cerca de 10 quilômetros até o local, que tem uma taxa de entrada. Também é possível acampar lá. (Uol, 22 de janeiro de 2023)
Já a segunda matéria, do ig.com.br, publicada a 2 de julho de 2023, com o título “Estudos mostram benefícios das florestas para grandes cidades”, apenas cita Parelheiros ao destacar a importância da vegetação na cidade de São Paulo.
Segundo os últimos dados disponíveis, de 2020, quase 50% do território da capital paulista é coberto por vegetação. “Nos extremos da cidade, a gente tem a maior quantidade de vegetação, a Cantareira, na região norte; Parelheiros, na região sul; e temos um tanto de vegetação no extremo da região leste. (ig.com.br, 2 de julho de 2023)
Apesar de Parelheiros ser referência ambiental, com a maior cobertura vegetal por habitante da capital (Rede Nossa São Paulo, 2023), a cobertura jornalística não reflete essa relevância, tornando sua riqueza ambiental pouco explorada na mídia.
Nos temas habitação e educação, há apenas uma matéria para cada, e nenhuma delas é específica sobre Parelheiros, apresenta o território na manchete ou subtítulo, ou o destaca. Na educação, o território enfrenta desafios significativos, como o tempo elevado para atendimento em creches, alto índice de abandono escolar no ensino fundamental municipal, nota do índice de desenvolvimento da educação básica abaixo da média da cidade e baixo esforço docente (Rede Nossa São Paulo, 2023). Na habitação, Parelheiros abriga zonas de risco de desabamento e moradias precárias, problemas que não são abordados na cobertura jornalística analisada (Rede Nossa São Paulo, 2023).
No tema trabalho e renda, foram identificadas duas matérias que referenciam Parelheiros, mas nenhuma é específica sobre o território, não dá destaque a ele e não aparece na manchete ou no subtítulo da matéria. Parelheiros está abaixo da média municipal em relação a remuneração média mensal do emprego formal e a Oferta de emprego formal (Rede Nossa São Paulo, 2023). Porém, uma das matérias levanta um debate sobre os desafios para as pessoas trabalhadoras dessa região que precisa se deslocar até o centro da cidade, já que a região é bastante afastada da região central do município, além de tocar no tema da Mobilidade Urbana, outro desafio enfrentado pela população de Parelheiros. A matéria em questão é a intitulada “Volta ao escritório esbarra em demanda do trabalhador por modelo híbrido” de 21 de maio de 2023, da Uol:
Trabalhando de casa, a auditora Ayra Sehenem, 24, diz que trocaria de emprego para continuar no modelo remoto. "Moro em Parelheiros [zona sul de são Paulo] e trabalho com auditoria no ambiente de TI, gastaria pelo menos três horas do dia em transporte. Em casa, ganho tempo e começo o dia mais disposta", disse, em uma enquete sobre o tema lançada pela Folha. (Uol, 21 de maio de 2023)
A análise (Tabela 4) evidencia que, embora os veículos tenham abordado 15 temas, o território recebeu pouco destaque na cobertura jornalística. Das suas 55 matérias selecionadas, apenas cinco eram específicas sobre Parelheiros, uma apresenta Parelheiros na manchete, duas no subtítulo e nove destacam o território no seu corpo.

A análise das reportagens sobre Parelheiros ou que fazem referência ao território, publicadas em 2023, em diálogo com os dados do Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo (2023), revela que os paradigmas tradicionais do jornalismo não dão conta de captar a complexidade dos temas, do território e das populações envolvidas, confirmando a primeira hipótese deste estudo. Entre as cinco matérias específicas sobre Parelheiros identificadas e examinadas neste estudo, duas reforçam uma abordagem negativa: “TJM condena policial que pisou em pescoço de mulher negra em SP”, do ig.com.br em 1 de fevereiro de 2023, e “Ônibus capota e deixa 20 feridos na região de Parelheiros, no extremo Sul de SP”, da Globo.com, publicada em 17 de setembro de 2023. Portanto, a segunda hipótese não se confirma. Por outro lado, outras duas matérias trazem um olhar mais positivo, destacando o potencial ambiental da região: “São Paulo tem bairro em cratera de meteoro, cachoeiras e visão 360° da cidade” pela UOL em 22 de janeiro de 2023 e “Hospedagens na cidade de São Paulo para se sentir no interior” pelo Terra em 20 de dezembro de 2023. Apesar disso, o enquadramento sobre as potencialidades é minoritário.
Essa pesquisa analisou as matérias do ano de 2023 e reconheceu os seus limites, portanto os resultados obtidos aqui se resumem exclusivamente à cobertura do ano em questão e a pesquisa pretende ser mais aprofundada em um período maior. Ainda assim, podem verificar-se algumas tendências destacadas por outras pesquisas.
Uma discussão importante é como o jornalismo participa ativamente da construção de imaginários sobre as periferias, sendo corresponsável pela forma como esses territórios e suas populações são percebidos socialmente. De acordo com Sodré (1992), os meios de comunicação funcionam como equipamentos sociais que moldam comportamentos e valores, enquanto Coimbra (2001) enfatiza o poder da mídia em selecionar temas e discursos, determinando o que deve ser lembrado ou esquecido. Essa seletividade impacta diretamente as representações sociais das periferias, contribuindo para a legitimação de estereótipos.
Além disso, pesquisas como a de Vaz e Baiense (2011) observaram que mesmo peças que tentam abordar aspectos positivos das periferias o fazem a partir de uma narrativa ainda centrada na violência. Schwartz et al. (2015) identificam uma mudança no enquadramento, com a periferia vista como um “exército de consumidores”, mas ainda tratada como um “outro” em relação ao centro urbano. Segundo Silva e Silva (2015), a separação simbólica entre a periferia e o jornalismo reproduz estigmas de classe, raça e gênero. Tais representações reforçam a imagem da periferia como lugar de pobreza e criminalidade, negligenciando sua diversidade cultural e social. Muller (2012) denuncia o papel da mídia na perpetuação de estereótipos raciais e na omissão das causas históricas da desigualdade, mostrando como a população negra segue sendo retratada de forma reducionista, como carente ou criminosa. Nesta pesquisa, observou-se que o enquadramento privilegiado a essa região periférica não é mais o da violência, tendência identificada por Schwartz et al. (2015). Porém, a partir das matérias analisadas não foi possível identificar a transição de enquadramento identificada pela autoria, o exército de consumidores. Autores como Ferreira (2004) e Almada (2012) destacam que essa representação enviesada da periferia não pode ser dissociada da maneira como a mídia representa ou silencia a população negra. Ferreira (2004) propôs uma formação jornalística mais crítica e interdisciplinar, que enfrente o racismo estrutural e as desigualdades históricas que moldam a realidade brasileira, não visando a censura, mas sim o convite à revisão de suas práticas.
Neste estudo, apontamos que o jornalismo tem abordado Parelheiros de forma limitada, recorrendo a poucos temas e frequentemente restringindo o território a uma simples menção. Como se verificou, apenas cinco das 55 matérias analisadas eram especificamente sobre Parelheiros, o que demonstra uma baixa cobertura jornalística sobre o território periférico em questão, que representa 25% da área da cidade de São Paulo. Nesse contexto, a comparação entre o conteúdo das matérias e os dados do Mapa da Desigualdade revela-se fundamental: ela nos ajuda a vislumbrar outras possibilidades de abarcar o território, seja no sentido de denunciar as desigualdades que o atravessam, seja no de anunciar as potências que nele resistem e florescem. Sem esse exercício, analisaremos o conteúdo das matérias apenas por uma citação, descolada de sua complexidade social, artística, humana, natural e cultural.
Em relação à hipótese de que as matérias sobre Parelheiros ou que referenciam o território tendem a enfatizar aspectos negativos, observa-se que, embora a maioria das matérias não esteja explicitamente enquadrada no valor-notícia do negativismo, aquelas em que o território aparece com maior destaque frequentemente tratam de temas como mortes, desastres e acidentes. Esse padrão sugere uma recorrência na associação de Parelheiros a acontecimentos trágicos ou problemáticos, reforçando estigmas e limitando a diversidade de narrativas possíveis sobre o território. Ramos e Paiva (2007) referem que essa distância entre as redações e a vivência periférica reflete nessa cobertura sensacionalista e enviesada, que reforça desigualdades.
Portanto, é preciso repensar o fazer jornalístico. Como aponta Moraes (2022), a objetividade, invocada, mas pouco pensada criticamente no interior das redações, pode servir para justificar abordagens preconceituosas, perpetuando estereótipos sobre grupos marginalizados. Fatores como gênero, raça, orientação afetivo-sexual e localização territorial influenciam tanto a interpretação da realidade quanto a produção do conhecimento teórico e prático no jornalismo (Moraes, 2022). Além disso, valores-notícias, como o negativismo, priorizam crimes e tragédias, deixando de lado narrativas mais amplas sobre territórios periféricos (Silva, 2005).
Embora seja frequentemente definida como a capacidade de relatar fatos sem interferência de crenças ou sentimentos pessoais, autores como Downie Jr. e Heyward (2023) destacam que tal definição de objetividade não está formalmente inscrita nos códigos da profissão e vem sendo cada vez mais desafiada diante de contextos sociais marcados por desigualdades estruturais. Desde Peucer (2004), passando por clássicos como Kovach e Rosenstiel (2003), até pesquisas mais recentes como as de Demeneck (2012) e Ekström e Westlund (2019), nota-se um deslocamento do foco da objetividade como neutralidade para a exigência de transparência nos métodos jornalísticos e a problematização do uso de citações como forma de se eximir de responsabilidade discursiva.
O debate sobre os valores-notícia, por sua vez, aprofunda esse tensionamento ao revelar como critérios como personalidades, proximidade ou negativismo operam seletivamente, conforme os grupos sociais retratados. Silva (2005) define esses valores como filtros primários da notícia. Moraes (2022) critica sua aplicação enviesada, que reforça estruturas racistas e classistas. O negativismo, valor frequentemente associado a coberturas sobre as periferias, contribui para a construção de uma imagem limitada e estigmatizante desses territórios. Nesse sentido, o jornalismo que se ancora na suposta neutralidade pode deixar de cumprir seu papel social e ético, tornando-se cúmplice das violências simbólicas que afirma combater.
Porém, foi possível observar em algumas matérias analisadas, mesmo que em menor número, uma discussão que debatia os desafios do território e que evidenciava a suas potências. Ou seja, é possível pensar um jornalismo que não reproduza a outrofobia, como destacam Moraes e Lima (2023), no qual o drible e o hackeamento surgem como estratégias de enfrentamento à desumanização. Tais práticas podem se manifestar não apenas em veículos independentes, mas também em grandes corporações midiáticas, contribuindo para “restaurar humanidades feridas” (Moraes & Lima, 2023, p. 15).
A adesão acrítica à objetividade e aos valores-notícia como critérios universais compromete a capacidade do jornalismo de operar como ferramenta democrática e de justiça social. Quando pautas que envolvem desigualdades históricas e estruturais são enquadradas a partir de critérios como negativismo ou proximidade sem refleti-los criticamente, corre-se o risco de reforçar estigmas em vez de apontar para transformações. Como alerta Moraes (2022), não se trata de abandonar os princípios éticos do jornalismo, mas de reconhecer que a pretensa neutralidade tem sido, muitas vezes, um álibi para perpetuar silenciamentos e invisibilidades. Um jornalismo comprometido com a pluralidade de vozes e com a justiça epistêmica exige responsabilidade com os contextos e sujeitos. O jornalismo precisa compreender a sua responsabilidade social diante da população historicamente vulnerabilizada, incluindo a periferia.
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Gabriel Razo da Cunha realizou a concetualização, curadoria dos dados, análise formal, metodologia, redação do rascunho original e redação – revisão e edição. Cláudia Lago realizou a concetualização, metodologia, redação – revisão e edição.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.




