Secção Temática/Thematic Section/Sección Temática. Nota Introdutória/Introductory Note/Nota de Introducción

Práticas Comunicacionais de Proximidade em Contextos Locais: Desafios e Modelos Participativos de Ligação à Comunidade

Proximity Communication Practices in Local Contexts: Challenges and Participatory Models of Community Connection

Prácticas Comunicativas de Proximidad en Contextos Locales: Retos y Modelos Participativos de Conexión con la Comunidad

Miguel Midões
Instituto Politécnico de Viseu, Viseu, Portugal
Centro de Estudos Comunicação e Sociedade, Universidade do Minho, Braga, Portugal
Giovanni Ramos
Instituto Politécnico de Coimbra, Coimbra, Portugal

Práticas Comunicacionais de Proximidade em Contextos Locais: Desafios e Modelos Participativos de Ligação à Comunidade

Revista Comunicando, vol. 14, núm. 2, e025026, 2025

Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação

Publicación: 29 Diciembre 2025

Resumo: Esta secção temática, para pensar o jornalismo de proximidade, foca-se em três eixos: sustentabilidade, participação e ligações à comunidade. Não são tópicos isolados, mas dimensões de um mesmo problema central: como pode o jornalismo, ancorado nas comunidades, não apenas sobreviver, porém florescer como um serviço público essencial, inclusive na preservação das democracias e no combate à desinformação?

Vivemos em plena sociedade digital, globalizada, na qual o jornalismo de proximidade compete com o jornalismo nacional e internacional, e com uma imensa gama de produtos mediáticos, informativos e de entretenimento, organizados e distribuídos por plataformas de redes sociais que controlam o espaço público digital.

Os media de proximidade foram os últimos a entrar no redemoinho da comunicação digital e possivelmente serão os últimos a sair da tempestade. Fecho de jornais, redução de redações, demissões em massa e precarização do trabalho são problemas dos media no século XXI que se agravam em escalas menores. Os desertos de notícias (Jerónimo et al., 2022) são apenas uma faceta das consequências da crise no jornalismo local.

A transição para o digital, por exemplo, foi um tema que permeou os estudos sobre o jornalismo de proximidade nas duas primeiras décadas do século XXI. A revolução tecnológica mudou os modelos de negócio, as formas de produção e de consumo em todo o ecossistema mediático e nos meios de proximidade, que inicialmente foram poupados da revolução, as mudanças também foram e continuam a ser sentidas.

Esta secção temática, para pensar o jornalismo de proximidade, foca-se em três eixos: sustentabilidade, participação e ligações à comunidade. Não são tópicos isolados, mas dimensões de um mesmo problema central: como pode o jornalismo, ancorado nas comunidades, não apenas sobreviver, porém florescer como um serviço público essencial, inclusive na preservação das democracias e no combate à desinformação?

A sustentabilidade constitui, talvez, o maior dos desafios. Para além da crise de modelos de negócio que aflige a indústria em geral, os meios de proximidade enfrentam obstáculos específicos de escala e recursos (Hindman, 2018). Não se trata apenas de viabilizar a sustentabilidade financeira, é preciso uma sustentabilidade editorial e social. É preciso pensar em inovações para os modelos de negócios, embora dentro de uma perspetiva local e até comunitária, porque não há como pensar nos modelos de negócios locais sem pensar na participação e nas ligações às comunidades.

Se por um lado, o jornalismo de proximidade possui limitações de escala que dificultam os negócios, por outro, a proximidade com as audiências permite pensar em modelos em que a comunidade tenha participação ativa e efetiva na sustentabilidade do meio.

Nesta secção temática, os artigos discutem a proximidade no jornalismo a partir de questões ligadas aos desertos de notícias, questões culturais, ambientais, o uso de novos espaços digitais, a importância do jornalismo de proximidade no contexto de diásporas e da imprensa alternativa.

Os desertos de notícias em Portugal servem de âncora a estudos que aprofundam realidades locais particulares: Luísa Torre reflete como se informam as populações de concelhos em deserto ou semideserto no distrito de Castelo Branco, Joana Martins aprofunda o mesmo fenómeno no distrito de Viseu, e João Limão aborda a longevidade dos jornais do distrito de Beja, região de baixa densidade populacional, parcos recursos mediáticos e escassez de profissionais, nomeadamente de jornalistas.

Numa ponte comparativa entre as realidades portuguesa e brasileira centra-se o artigo de Carolina Guedes, que traçou um perfil do jornalismo de proximidade no Tik Tok a partir de meios portugueses e brasileiros.

Os desafios da comunicação de proximidade no Brasil foram o foco dos artigos de Maurício Pimentel Homem de Bittencourt e Myrian Regina Del Vecchio-Lima, Gabriel Razo da Cunha e Cláudia Lago, Frederico de Mello Brandão Tavares e Elton Antunes. Maurício Pimentel Homem de Bittencourt e Myrian Regina Del Vecchio-Lima associam o jornalismo ambiental numa análise sobre comunicadores ambientais na região da Amazónia e Gabriel Razo da Cunha com Cláudia Lago tratam a “periferia do jornalismo” a partir da comunidade de Parelheiros, na região de São Paulo. Já Frederico de Mello Brandão Tavares e Elton Antunes abordam territorialidades e colonialidades a respeito de comunidades indígenas, através de uma análise ao podcast Ilustríssima Conversa.

O áudio continua em análise pela mão de Rita Curvelo, que observa como os conteúdos da Rádio Comercial Ucrânia favoreceram a inclusão e o acolhimento da comunidade de imigrantes ucranianos em Portugal durante os primeiros tempos de invasão russa ao território ucraniano. Este artigo mostra como o uso do termo jornalismo de proximidade em detrimento de jornalismo local acontece ao incluir comunidades que não estão fisicamente próximas, e que se unem por afetividades ou sentimentos comuns. Nesta linha, Gessica Correia Borges, Chisoka Simões e Patrícia Posch escrevem sobre a cultura negra na diáspora lusófona e como os media alternativos e de proximidade podem surgir como uma contracorrente para dar voz a culturas menorizadas pelos media mainstream.

Esta secção temática traz ainda reflexões sobre a proximidade nos media alternativos. Alessandra Natasha Costa-Ramos discute o papel das comunidades online no jornalismo digital, definindo modelos e práticas, enquanto Cátia Guimarães observa o fenómeno da pandemia na imprensa alternativa partidária portuguesa mostrando também como, consoante o partido e a comunidade de interesses inerente ao medium, os assuntos variam na sua forma de abordagem e surgem com subtemáticas secundarizadas pelos media mainstream.

Referências

Hindman, M. (2018). The internet trap: How the digital economy builds monopolies and undermines democracy. Princeton University Press.

Jerónimo, P., Ramos, G., & Torre, L. (2022). Desertos de notícias Europa 2022: Relatório de Portugal. Labcom. https://labcom.ubi.pt/desertos-de-noticias-europa-2022-relatorio-de-portugal/

Notas de autor

Miguel Midões é professor adjunto na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viseu e investigador integrado do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. É coordenador do Grupo de Trabalho de Media Regionais e Comunitários da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação. Leciona disciplinas de jornalismo, rádio e podcast. É também membro da direção da Associação de Literacia para os Media e Jornalismo. Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra, investiga na área do jornalismo de proximidade, media comunitários (com especial foco na rádio) e literacia mediática.
Giovanni Ramos é professor adjunto convidado da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Coimbra e membro integrado do Labcom da Universidade da Beira Interior. Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior, atua na investigação com foco em media regionais, modelos de negócios e as transformações dos media. É cocoordenador do Grupo de Trabalho de Media Regionais e Comunitários da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação.

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