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<journal-title specific-use="original" xml:lang="en">Revista Comunicando</journal-title>
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<publisher-name>Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação</publisher-name>
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<subject>Secção Temática/Thematic Section/Sección Temática. Artigos/Articles/Artículos</subject>
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<article-title xml:lang="pt">A Diáspora Digital Lusófona e a Presença das Culturas Negras nos Média: Um Estudo a Partir de Entrevista aos Fundadores da BANTUMEN</article-title>
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<bold> Lusophone Digital Diaspora and the Presence of Black Cultures in the Media: A Study on an Interview With the Founders of BANTUMEN</bold>
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<bold>La Diáspora Digital Lusófona y la Presencia de las Culturas Negras en los Medios de Comunicación: Un Estudio Basado en una Entrevista con los Fundadores de BANTUMEN</bold>
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<bold>Gessica</bold>
<bold> Correia Borges</bold> é comunicadora social licenciada pela Universidade Anhembi Morumbi (Brasil), mestre em Estudos Africanos pela Universidade do Porto (Portugal), com pesquisa sobre memória, identidade e resistência através de história oral de mulheres negras brasileiras. É doutoranda em Estudos Culturais pela Universidade do Minho (Portugal), com bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia (2023.01522.BD), e integrou a equipa do projeto de investigação <italic>MigraMediaActs</italic>
<italic> — Migrações, Media e Ativismos em Língua Portuguesa: Descolonizar Paisagens Mediáticas e Imaginar Futuros Alternativos</italic> (PTDC/COM-CSS/3121/2021). Suas pesquisas focam-se habitualmente em temáticas como os ativismos decoloniais, história oral e mulheres negras. Possui textos publicados em antologias brasileiras, incluindo <italic>Poetas Negras Brasileiras</italic> (2021). Faz parte de coletivos e associações antirracistas portugueses, como a União Negra das Artes (UNA).</p>
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<p>
<bold>Chisoka</bold>
<bold> Simões</bold> é doutorando em Estudos Culturais na Universidade do Minho (Portugal) e foi bolseiro de investigação no projeto <italic>MigraMediaActs</italic>
<italic> — Migrações, Media e Ativismos em Língua Portuguesa: Descolonizar Paisagens Mediáticas e Imaginar Futuros Alternativos</italic> (PTDC/COM-CSS/3121/2021), desenvolvido no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho). A sua investigação foca-se no património da imigração no noroeste de Portugal, explorando conceitos dos estudos críticos de património, como transnacionalismo, políticas de reconhecimento e justiça espacial.</p>
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<p>
<bold>Patricia</bold>
<bold> Posch</bold> é doutora em Estudos Culturais. É investigadora colaboradora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Portugal) e membro do Grupo de Pesquisa Arte, Cultura e Poder (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil). Integrou a equipa do projeto <italic>MigraMediaActs</italic>
<italic> — Migrações, Media e Ativismos em Língua Portuguesa: Descolonizar Paisagens Mediáticas e Imaginar Futuros Alternativos</italic> (PTDC/COM-CSS/3121/2021). Além da carreira científica, atua como consultora em projetos de comunicação, marketing, sustentabilidade e responsabilidade social corporativa.</p>
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<season>July-December</season>
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<title>Resumo</title>
<p>No panorama mediático atual em Portugal, pessoas migrantes e/ou racializadas são frequentemente enquadradas pela sua alteridade, enfrentando dinâmicas de (in)visibilidade. Quando não são marginalizadas nos média mainstream, são representadas, não raras vezes, por meio do uso de estereótipos. Contudo, o crescimento dos meios de comunicação digitais alternativos, especialmente nas últimas décadas, tem permitido a estes grupos amplificar as suas vozes. Nestes espaços, são ativamente construídas contranarrativas que desafiam representações sociais hegemónicas. Este estudo centra-se na plataforma mediática digital alternativa BANTUMEN e analisa, tendo como foco a visão e voz dos seus fundadores, como esta funciona como uma diáspora digital, reproduzindo as experiências identitárias das comunidades negras lusófonas. Subsequentemente, visa perceber como a plataforma contribui para questionar as representações dominantes no panorama mediático português. Os procedimentos metodológicos focam-se na análise de conteúdo qualitativa de uma entrevista semiestruturada com as duas pessoas que fundaram a BANTUMEN, os jornalistas Vanessa Sanches e Eddie Pipocas. Os resultados evidenciam que a plataforma constrói a sua atuação a partir de uma linha editorial comprometida em fortalecer novas referências culturais para comunidades negras lusófonas dentro e fora da Europa. A análise também destaca a dimensão ativista do projeto, marcada pela resistência às dinâmicas coloniais e racistas que atravessam o espaço midiático, reforçando uma necessária problematização das paisagens mediáticas no espaço lusófono e destacando uma presença que é simultaneamente pessoal e política: um exercício que reconfigura margens em centros de criação discursiva e cultural.</p>
</abstract>
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<title>Abstract</title>
<p>In the current media landscape in Portugal, migrants and/or racialised people are often framed by their otherness, facing dynamics of (in)visibility. When not marginalised in the mainstream media, they are usually represented through the use of stereotypes. However, the growth of alternative media, especially in recent decades, provides these groups with a crucial platform to amplify their voices. In these alternative spaces, counter-narratives are actively constructed to challenge the hegemonic social representations. This study focuses on the alternative digital media platform BANTUMEN and analyses, with a focus on the vision and voice of its founders, how it functions as a digital diaspora, reproducing the identity experiences of black Lusophone communities. Subsequently, aims to understand how the platform contributes to questioning the dominant representations in the Portuguese media landscape. The methodological procedures focus on the qualitative content analysis of a semi-structured interview with the two people who founded BANTUMEN, journalists Vanessa Sanches and Eddie Pipocas. The results indicate that the platform builds its work on an editorial line committed to strengthening new cultural references for Portuguese-speaking black communities inside and outside Europe. The analysis also highlights the activist dimension of the project, marked by resistance to colonial and racist dynamics that permeate the media space, reinforcing a necessary problematisation of media landscapes in the Lusophone space and emphasising a presence that is both personal and political: an exercise that reconfigures margins into centres of discursive and cultural creation.</p>
</trans-abstract>
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<title>Resumen</title>
<p>En el panorama actual de los medios de comunicación en Portugal, las personas migrantes y/o las personas racializadas se encuentran a menudo enmarcadas por su alteridad, enfrentándose a dinámicas de (in)visibilidad. Cuando no son marginadas en los medios mainstream, se las representa mediante el uso de estereotipos. Sin embargo, el crecimiento de los medios alternativos, especialmente en las últimas décadas, proporciona a estos grupos una plataforma crucial para amplificar sus voces. En estos espacios alternativos se construyen activamente contranarrativas que desafían las representaciones sociales hegemónicas. Este estudio se enfoca en la plataforma mediática digital alternativa BANTUMEN y analiza, con base en la visión y la voz de sus fundadores, cómo funciona como una diáspora digital, reproduciendo las experiencias identitarias de las comunidades lusófonas negras. Por consiguiente, pretende comprender cómo contribuye la plataforma a cuestionar las representaciones dominantes en el panorama mediático portugués. Los procedimientos metodológicos se centran en el análisis cualitativo del contenido de una entrevista semiestructurada con las dos personas que fundaron BANTUMEN, los periodistas Vanessa Sanches y Eddie Pipocas. Los resultados evidencian que la plataforma construye su actuación en una línea editorial comprometida con el fortalecimiento de nuevas referencias culturales para las comunidades negras lusófonas tanto dentro como fuera de Europa. El análisis también destaca la dimensión activista del proyecto, marcada por la resistencia a las dinámicas coloniales y racistas que atraviesan el espacio mediático, reforzando una necesaria problematización de los paisajes mediáticos en el espacio lusófono y destacando una presencia que es es a la vez personal y política: un ejercicio que reconfigura los márgenes en centros de creación discursiva y cultural.</p>
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<title>Palavras-chave</title>
<kwd>Diáspora Digital</kwd>
<kwd>Média Alternativos</kwd>
<kwd>Identidades Negras</kwd>
<kwd>Lusofonia</kwd>
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<title>Keywords</title>
<kwd>Digital Diaspora</kwd>
<kwd>Alternative Media</kwd>
<kwd>Black Identities</kwd>
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<title>Palabras clave</title>
<kwd>Diáspora Digital</kwd>
<kwd>Medios Alternativos</kwd>
<kwd>Identidades Negras</kwd>
<kwd>Lusofonía</kwd>
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<bold>1. Introdução</bold>
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<p>Os média têm a capacidade de influenciar a opinião pública e de reafirmar, ou contestar, as representações sociais dominantes, especialmente no que diz respeito a pessoas historicamente marginalizadas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref37">Martins et al., 2020</xref>). Nesse sentido, em resposta às práticas hegemónicas dos média mainstream (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref15">Couldry &amp; Curran, 2003</xref>), as plataformas de média alternativos surgem como espaços independentes onde vozes marginalizadas produzem as suas próprias narrativas. Entre estas vozes estão as pessoas racializadas e migrantes, que encontram a possibilidade de desafiar discursos culturais dominantes e promover representações mais plurais das suas identidades (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref28">Ihlebæk et al., 2022</xref>).</p>
<p>Estas oportunidades de pluralidade discursiva também se encontram presentes em Portugal, onde, especialmente na última década, se observou a ascensão e a consolidação de plataformas alternativas de comunicação com forte ligação às temáticas das identidades, especificamente negras, como as plataformas Afrolink, Afrolis e BANTUMEN (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref14">Correia Borges et al., 2024</xref>)<italic>.</italic> Deste modo, iniciativas como estas inserem no ecossistema mediático português outras possibilidades de representação para as comunidades negras, afrodescendentes e/ou racializadas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref37">Martins et al., 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref46">Posch et al., 2024</xref>), uma função assumida de um modo mais presente e permanente pelo canal estatal RTP África, criado em 1998.</p>
<p>A BANTUMEN é uma plataforma cujo slogan principal é “a cultura negra da lusofonia”, deixando explícito o seu posicionamento editorial voltado para comunidades negras e migrantes na esfera da língua portuguesa. Neste contexto, as "fronteiras” referidas vão além das geográficas. São, assim, delimitações socioculturais, que abrangem dimensões identitárias, migratórias e de género, que pretendem ser questionadas pela plataforma através da prática de um jornalismo com foco na cultura negra de vários países, especialmente dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), mas também do Brasil, de Timor-Leste e de Portugal. Assim, pode-se afirmar que a BANTUMEN se configura como uma “diáspora digital” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref42">Nedelcu, 2024</xref>) que propõe contribuir para a alteração das paisagens mediáticas no contexto português, como uma resposta às dinâmicas de (in)visibilidades (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref44">Pereira et al., 2020</xref>), ao racismo estrutural e a outras repercussões quotidianas do legado colonial português. Idealizada em 2007, materializada em 2014 e oficialmente lançada em 2015, a BANTUMEN foi cocriada pelo jornalista e produtor musical Eddie Pipocas e a jornalista Vanessa Sanches, em Angola, e estabeleceu-se, inicialmente, como uma revista digital para o público masculino lusófono, mas que sempre visou ser generalista. Ao longo do tempo, foi adotando estratégias multimédia e multimodais — como textos, podcasts, vídeos e eventos —, explorando formas interativas e hipertextuais de comunicação digital e facilitando, assim, o deslocamento de produção de narrativas para públicos diversos, como pessoas migrantes e racializadas.</p>
<p>Os estudos de média têm-se focado nos efeitos capacitantes ou empoderadores das tecnologias de informação e comunicação (TIC). Contudo, ainda são incipientes investigações sobre as nuances das práticas em ambientes digitais — ou seja, de como elas são exercidas, dos contextos sociais em que ocorrem e das limitações, negociações, contradições e desigualdades que as moldam.</p>
<p>Assim, as questões de investigação que norteiam este estudo são: (1) de que forma a BANTUMEN<italic>, </italic>segundo a visão dos seus fundadores, pode reproduzir as experiências identitárias das comunidades negras lusófonas?; e (2) de que forma os argumentos presentes nas narrativas dos fundadores apontam para o questionamento das representações dominantes no panorama mediático português?</p>
<p>Este estudo adota o método qualitativo e aplica a técnica da entrevista semiestruturada com as duas pessoas fundadoras da BANTUMEN<italic>, </italic>os jornalistas Vanessa Sanches e Eddie Pipocas. Propomos refletir sobre como as tecnologias digitais transformam a agência humana, entendida como um processo social contínuo, enraizado no passado, voltado ao futuro e ajustado às contingências do presente (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref17">Emirbayer &amp; Mische, 1998</xref>).</p>
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<sec sec-type="intro">
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<bold>2. Perspetivas Teóricas: Identidades Negras Lusófonas e o Panorama Mediático na Diáspora Digital</bold>
</title>
<p>“Esforçar-se por ser ao mesmo tempo europeu e negro requer algumas formas específicas de dupla consciência” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref22">Gilroy, 2001, p. 33</xref>). É com esta frase que Paul <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref22">Gilroy (2001)</xref> começa o seu livro <italic>O Atlântico Negro</italic>, uma obra emblemática no campo dos Estudos Culturais sobre as horizontalidades e a “solidariedade translocal” (p. 9) das culturas negras ao longo da história. Se aceitamos que a cultura não deve ser vista como um facto dado, mas sim como algo que está em constante produção — não se tratando de uma questão de ser, mas sim de se tornar (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref25">Hall, 2003</xref>) — em contextos transnacionais, como o espaço lusófono, as migrações e as trocas potencializadas pelos média digitais possibilitam criar múltiplas identidades culturais dentro e fora das nações de origem e de acolhimento, mesclando aspetos transnacionais de formas diversas.</p>
<p>A modernidade da construção do termo “África” para definir um conglomerado essencializado da diversidade cultural dos povos de países localizados no continente sob o denominador comum da escravatura acaba por ocultar que as culturas negras são, como referiu <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref25">Hall (2003)</xref>, “o resultado do maior entrelaçamento e fusão, na fornalha da sociedade colonial, de diferentes elementos culturais africanos, asiáticos e europeus” (p. 31). Isso significa que, apesar da tese de uma cultura distinta e autoconsciente (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref22">Gilroy, 2001</xref>), as culturas negras não estão imunes a disputas sobre a partir de que significantes é escrita a história do movimento negro do século XX. Nesse contexto, definir as identidades e as culturas negras em diáspora torna-se, fundamentalmente, uma questão de “interpretar a ‘África’, reler a ‘África’, do que a ‘África’ poderia significar” para as pessoas negras migrantes e em diáspora (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref25">Hall, 2003, p. 40</xref>).</p>
<p>Considerando o atual contexto de intensificação e diversificação das migrações (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref38">Massey et al., 2005</xref>), de que se tratam as diásporas digitais? Elas referem-se à presença e às atividades de comunidades de pessoas migrantes e/ou racializadas ao redor do mundo que utilizam as tecnologias digitais para manter, transformar e/ou fortalecer o seu sentido de pertença e as suas conexões identitárias com a cultura de origem (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref12">Candidatu et al., 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref32">Leurs &amp; Ponzanesi, 2024</xref>). A diáspora, como apontou <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref25">Hall (2003)</xref>, torna as identidades múltiplas, potencializadas por um contexto de globalização no qual “as culturas se recusam a ser perfeitamente encurraladas dentro das fronteiras nacionais” (p. 34). Além disso, as intersecções entre “raça”, cultura e os média digitais têm sido o foco de diversos estudos que ajudam a refletir sobre o avanço exponencial do ativismo negro nos média digitais, como as redes sociais online (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref19">Florini, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref40">McIlwain, 2020</xref>). Desta forma, o conceito de interseccionalidade (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref16">Crenshaw, 1992</xref>) permanece relevante para pensar a articulação entre múltiplas estruturas de opressão — como raça, género e classe — e a relevância de perspetivas ancoradas nas experiências específicas das pessoas.</p>
<p>Em Portugal, este tem sido um trabalho contínuo frente à ampla invisibilização e amnésia sobre a história e as estórias das pessoas migrantes e racializadas. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref18">Florentino (1999)</xref> entende que essa perda da memória negro-africana em Portugal foi estimulada por uma suposta natureza secundária das relações esclavagistas no seio da formação da sociedade lusitana: “mitos profundamente enraizados na consciência histórica lusitana promoveram, por séculos a fio, uma inextricável ligação entre Raça e Cultura” (p. 9), tornando a historiografia portuguesa, nas palavras de Isabel Castro Henriques, “ainda muito surda à recuperação da voz autónoma do Outro africano” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref26">Henriques, 1997, p. 33</xref>) — “especialmente quando este Outro se encontrava estabelecido no próprio território peninsular” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref18">Florentino, 1999, p. 9</xref>). A recusa recente em se incluir uma questão relativa à pertença étnico-racial nos Censos 2021 é exemplo de um Portugal que se recusa a aprofundar-se acerca da sua diversidade populacional e desigualdades étnico-raciais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref49">Roldão, 2024</xref>), acabando por “evitar uma segregação ativa por intermédio de uma segregação passiva” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref53">Tavares, 2023</xref>, para. 6). O que se segue é a perpetuação do racismo que figura como pano de fundo da discriminação social sofrida pelas pessoas migrantes em Portugal, muitas delas racializadas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref33">Loza, 2024</xref>).</p>
<p>Testemunhamos o reflexo deste cenário no ecossistema mediático mainstream português (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref46">Posch et al., 2024</xref>), que parece promover uma espécie de “amnésia organizada” sobre determinados grupos, para usar as palavras que <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref2">Assmann (2011, p. 231)</xref> utiliza quando se refere ao poder dos meios de comunicação para produzir imaginários coletivos. A imprensa portuguesa carece, por exemplo, de colunistas negros, sendo que os pouco presentes escrevem quase exclusivamente sobre questões étnico-raciais e justiça social (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref53">Tavares, 2023</xref>). Além disso, termos como “imigrantes”, “minorias étnicas” e “raças” são recorrentemente ligados a pessoas que diferem de uma “norma” racial, cultural e socialmente construída (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref35">Macedo et al., 2024</xref>) — ou seja, pessoas “outrificadas” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref23">Giuliane et al., 2021</xref>).</p>
<p>Por outro lado, o início do século XXI, marcado pela popularização da internet, dos computadores pessoais e da blogosfera (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref13">Cerqueira, et al., 2009</xref>), permitiu a democratização da produção de informação na internet. Também sob influência de outros fatores, como a instabilidade económica que o mundo atravessava ao fim da primeira década de XXI, começam a surgir e ressurgir plataformas digitais orientadas para o ativismo e justiça social. É nesse movimento que se insere também o aparecimento, em diversas dimensões, de média vocacionados para afrodescendentes, corroborando que a imprensa sempre foi um instrumento fulcral de autodeterminação de comunidades “outrificadas” no contexto português. Iniciou-se, então, uma nova fase da imprensa negra portuguesa, que remete ao início do século XIV, com publicações como <italic>O Negro: Órgãos dos Estudantes Negros</italic> (1911), <italic>A Voz D’Africa</italic> (1912-1913 e 1927-1930) e <italic>Tribuna D’Africa </italic>(1913 e 1931-1932; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref49">Roldão et al., 2024)</xref>. Já mais recentemente, em 2008, foi emblemática, por exemplo, a criação da revista <italic>Afro </italic>que se posicionava como um espaço de reflexão de projetos que buscavam promover uma “visibilidade positiva dos Africanos no espaço público português”, em especial aqueles que se configuravam como “um desafio/resistência à construção da identidade Portuguesa” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref20">Fortes, 2013, p. 239</xref>) — mas também (e sobretudo) como um movimento estratégico para “mudar o estado das ‘coisas’ nas relações entre Africanos, imigrantes e Portugueses, com os quais quotidianamente dividem espaços conflituosos” (p. 248).</p>
<p>Sendo o ciberespaço considerado frutífero para se estabelecerem redes virtuais entre cidadãos de países que têm português como língua comum, a conectividade proporcionada pelos média digitais tem contribuído para esse processo. A presença e atuação das pessoas migrantes nos ambientes digitais permite-lhes posicionarem-se tanto local quanto transnacionalmente. Isso ocorre com a promoção de novas formas de ações coletivas em comunidades diaspóricas e globais, bem como fomentando mudanças sociais e a produção de contranarrativas, ou seja, histórias que ganham significado, dialogando, resistindo ou criticando as narrativas dominantes produzidas pelos média mainstream (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref34">Lundholt et al., 2018</xref>). Funcionam como um recurso de posicionamento social e identitário e como um instrumento estratégico para compreender resistências, promover diálogo e gerar mudanças construtivas. Assim, considerando a produção de sentido e a identidade como dinâmicas e relacionais, as identidades negras cada vez mais “estereofónicas, bilíngues ou bifocais”, “originadas pelos — mas não mais propriedade exclusiva dos — negros dispersos nas estruturas de sentimento, produção, comunicação e memória” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref22">Gilroy, 2001, p. 35</xref>). Em Portugal, o ativismo negro diaspórico e digital tem conseguido operacionalizar a lógica descrita por <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref25">Hall (2003)</xref> de se “subverter e ‘traduzir’, negociar e fazer com que se assimile o assalto cultural sobre as culturas mais fracas” (p. 45), como apontam os estudos de <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref27">Henriques (2017)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref46">Posch et al. (2024)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref50">Rua (2023)</xref>. Como resultado, são trazidos para o centro e potencializados debates contemporâneos sobre as dinâmicas identitárias das culturas negras inscritas em discursos afrocentrados (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref30">Kumah-Abiwu, 2024</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref39">Mazama, 2002</xref>).</p>
<p>Isso é verdade também para o espaço lusófono, uma criação abstrata supranacional que suscita, erroneamente, uma conceção lusocêntrica. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref36">Martins (2015)</xref> entende que, pelo contrário, a lusofonia não é um projeto concluído, mas sim em construção; que, ao contrário da “homogeneização empobrecedora e de sentido único, estabelecida pela globalização cosmopolita”, deve ser perspetivada mais como uma “rede capaz de resistir à redução do diverso a uma unidade artificial” (p. 25). Seguindo essa linha e, porque conecta países cuja dimensão sociopolítica e simbólica não é comparável, o conceito tem transitado de uma visão eurocêntrica para uma conceção plural e multicêntrica de um espaço de diferenças e híbrido (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref1">Andión, 2011</xref>).</p>
<p>Entre 2010 e 2020, a imprensa negra assume o seu caráter digital, mais independente, e fortemente ligada à cultura e causa antirracista. Neste período, surgiram, em Portugal, diversos média alternativos digitais vocacionados especificamente para afrodescendentes<sup>[<xref ref-type="fn" rid="fn4">1</xref>]</sup>. Apesar disso, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref46">Posch et al. (2024)</xref> observaram que o estudo científico das plataformas de média alternativos portuguesas da esfera afrodescendente, entre as quais se inclui a BANTUMEN, apresenta ainda uma evolução limitada quando comparado com o tratamento dado aos média alternativos mais generalistas, como o Gerador ou o Divergente. Esta discrepância de publicações revela, por um lado, a crescente atenção académica dedicada ao campo dos média alternativos em Portugal, mas, por outro, evidencia um afastamento quando o foco incide sobre iniciativas com uma dimensão étnico-racial<sup>[<xref ref-type="fn" rid="fn5">2</xref>]</sup>. Embora não tenha sido alvo específico de um estudo de caso, a BANTUMEN surge em trabalhos como o de <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref46">Posch et al. (2024)</xref>, que desdobra o mapeamento anteriormente mencionado, ao apresentar as linhas gerais destas plataformas, e de<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref56"> Vanspauwen (2024)</xref>, que analisa os discursos produzidos nos média digitais portugueses.</p>
<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref3">Atton (2002)</xref>, os média alternativos digitais são aqueles que, nos seus conteúdos, apresentam narrativas e discursos que diferem das construções simbólicas hegemónicas que são frequentemente partilhadas pelos média mainstream. São, na maioria, média operados e geridos em dinâmicas participativas e inclusivas geradas pela sociedade civil (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref5">Bailey et al., 2008</xref>). Dentre outros aspetos característicos desses média estão a escassez de recursos financeiros (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref4">Atton, 2015</xref>), a dimensão lenta e consciente na produção de conteúdos (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref41">Mendes &amp; Marinho, 2024</xref>) e o caráter interdependente entre a motivação e os valores pessoais dos fundadores com o contexto social-cultural e a necessidade de expressão em sintonia com as comunidades de interesse (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref5">Bailey et al., 2008</xref>). Apesar de não se focar naqueles que estão ligados às migrações e/ou pessoas racializadas, como o fazemos neste trabalho, a literatura sobre a presença e operação desses média no contexto português tem-se avolumado (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref10">Bonixe, 2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref54">Teixeira &amp; Jorge, 2021</xref>).</p>
<p>Atualmente, a BANTUMEN apresenta-se como uma plataforma cultural com atuação online e offline, operando transnacionalmente para dar visibilidade a temas e debates ligados às culturas e identidades negras lusófonas, como a afropeanidade, negritude, identidade<italic> queer</italic>, cultura urbana e diáspora africana contemporânea. Com uma média diária de 5.000 acessos, o portal online inclui categorias como Música, Sociedade, Cultura, GRL PWR, Entrevistas, Opinião, Podcast, entre outros<italic>,</italic> alimentadas por colaboradores fixos e sazonais, a maioria a realizar trabalho voluntário. Já a categoria Marcas por Escrever abrange notícias e reportagens sobre marketing, impacto, empreendedorismo e comunicação. Além do website, a plataforma realiza a curadoria, produção e promoção de eventos através da Agenda Cultural. Anualmente, edita a PowerList 100, na qual são celebradas as realizações de 100 personalidades negras influentes nos países de língua oficial portuguesa.</p>
</sec>
<sec sec-type="materials|methods">
<title>
<bold>3. Procedimentos Metodológicos</bold>
</title>
<p>Para responder às questões de investigação, o foco desta pesquisa incidiu sobre a história e o contexto da criação da plataforma e a sua evolução desde então, com base na perspetiva das pessoas que a fundaram. Com isto, o objetivo deste estudo foi analisar como esta plataforma pode funcionar como uma diáspora digital, reproduzindo experiências identitárias das comunidades negras lusófonas e, subsequentemente, entender como as ideias dos fundadores apontam para o questionamento das representações dominantes no panorama mediático português.</p>
<p>Os dados foram recolhidos através de uma entrevista semiestruturada com os dois fundadores da BANTUMEN em simultâneo<italic>, </italic>o jornalista e produtor musical angolano Eddie Pipocas e a jornalista portuguesa Vanessa Sanches. A conversa teve a duração de uma hora e 33 minutos, tendo sido realizada na modalidade online<italic>, </italic>por meio do software Zoom, em agosto de 2024<sup>[<xref ref-type="fn" rid="fn6">3</xref>]</sup>. No plano temático, baseou-se em três eixos principais: a BANTUMEN enquanto negócio (fundação, estratégias editoriais, de negócio e financiamento); a sua inserção como um meio de comunicação alternativo no contexto mediático português; e, por fim, um eixo centrado nas questões identitárias, nomeadamente o espaço lusófono, incluindo as migrações e as mobilidades.</p>
<p>A gravação da entrevista foi transcrita e submetida a uma análise de conteúdo qualitativa orientada pelo método da análise de conteúdo de <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref9">Bardin (2011)</xref>. Este processo dividiu-se em três etapas: pré-análise, exploração do material e o tratamento/interpretação dos resultados. Durante a pré-análise, foram definidos os objetivos da investigação e, posteriormente, a transcrição da entrevista foi objeto de leitura flutuante (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref9">Bardin, 2011</xref>) por todas as pessoas autoras deste trabalho.</p>
<p>Para a exploração do material, este foi importado para o software QualCoder. Considerando-se que “a análise qualitativa não rejeita toda e qualquer forma de quantificação” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref9">Bardin, 2011, p. 146</xref>), inicialmente, recorreu-se a uma abordagem quantitativa para organizar os assuntos (categorias) que surgiram espontaneamente na fala dos entrevistados. A entrevista foi então codificada a partir de códigos que emergiram num processo de codificação aberta — <italic>bottom-up</italic> indutiva (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref55">Tracy, 2020</xref>) — que teve como unidade de registo o objeto/referente, ou seja, temas-eixo que concentram “tudo o que o locutor exprime a seu respeito” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref9">Bardin, 2011, p. 136</xref>). Esta primeira vertente analítica resultou numa lista de 30 temas-eixo evocados pelos entrevistados, listados por frequência dentro de quatro categorias, como se pode observar na <xref ref-type="fig" rid="gf1">Tabela 1</xref>: aspetos contextuais, aspetos identitários, ativismo e BANTUMEN<sup>[<xref ref-type="fn" rid="fn7">4</xref>]</sup>. Em um segundo momento, seguiu-se uma orientação qualitativa para a análise dos vários trechos organizados dentro de cada código (tema-eixo).</p>
<p>
<fig id="gf1">
<label>Tabela 1</label>
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<bold>Temas-Eixo e Respetiva Frequência, por Categoria</bold>
</title>
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<alt-text>Tabela 1 Temas-Eixo e Respetiva Frequência, por Categoria</alt-text>
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<alt-text>Tabela 1 Temas-Eixo e Respetiva Frequência, por Categoria</alt-text>
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</fig>
</p>
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<sec sec-type="results">
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<bold>4. Resultados</bold>
</title>
<p>Dadas as limitações de espaço, a análise que apresentamos neste artigo está centrada no aprofundamento e reflexão sobre os temas-eixo (códigos) com maior frequência dentro de cada assunto (categoria), bem como no diálogo com o enquadramento teórico que apresentamos acima, resultado de uma revisão de literatura. Entendemos que os temas-eixo com maior expressão são ainda aqueles que têm maior relevância crítica e relacionam-se diretamente com as questões de investigação.</p>
<sec>
<title>
<bold>
<italic>4.1. BANTUMEN: A Visão Fundadora no Editorial e Desafios do Financiamento</italic>
</bold>
<italic/>
</title>
<p>Na categoria BANTUMEN destacam-se três codificações com maior frequência: a BANTUMEN hoje (67), linha editorial (53) e financiamento (44). Uma das características mais salientadas na entrevista foi a de como a plataforma evoluiu de forma a alinhar-se com uma perspetiva mais generalista e inclusiva, sobretudo em abrangência de público. A questão da exclusividade ao género masculino foi progressiva e propositalmente abandonada na estratégia editorial, embora mantida no nome da marca. Um exemplo prático deste esforço é a secção “GRL PWR” presente no website da plataforma, que atualmente é destacada na página inicial e foca-se exclusivamente em notícias, entrevistas e artigos em que mulheres negras são protagonistas. “Não podemos falar de homens quando, em mais uma década, os géneros vão acabar. Então, estamos a antecipar o futuro”, afirma Eddie Pipocas. A declaração indica a interseccionalidade do discurso, ao mesmo tempo que aponta para um alinhamento da atualidade do debate acerca das questões de género, com um apelo à abolição do binário — a divisão entre "homem" e "mulher" como categorias fixas e opostas — como forma de dissidência ao regime biopolítico e colonial que patologiza identidades não-normativas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref47">Preciado, 2020</xref>).</p>
<p>Quando o tema é a linha editorial, a credibilidade jornalística é uma preocupação que — embora influenciada pelo sentido cívico-político dos fundadores — segundo Vanessa Sanches, “foge de polémicas, sensacionalismos e de sentimentos de revolta” e foca-se no “empoderamento e na reflexão crítica”, especialmente quando se trata de temas sensíveis, como os recentes casos de violência policial racista em Portugal (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref43">Oliveira Rocha, 2021</xref>). Em outubro de 2024, por exemplo, a BANTUMEN publicou um artigo e podcast intitulado <italic>A Resistência de Cláudia Simões</italic>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref7">(</xref>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref6">BANTUMEN, 2024a</xref>), na esteira do encerramento do julgamento do caso de agressões ocorrido naquele ano e de grande repercussão mediática. A escolha da fotografia que ilustra ambos os conteúdos contraria o regime violento de visualidade que, à época, explorou as imagens do rosto ferido de Cláudia Simões, facilmente identificáveis, numa busca pelas palavras “Cláudia Simões” no Google Imagens. Na produção da BANTUMEN, a mulher é retratada com figurino e maquiagem elaborados, transmitindo uma imagem de altivez e de confiança. O texto contextualiza o caso e introduz uma entrevista em áudio na qual Cláudia Simões apresenta a sua versão dos factos e reflete sobre as repercussões pessoais e sociais do episódio. Esse gesto de “ouvir a voz” das pessoas minorizadas constitui, precisamente, uma das estratégias possíveis para a descolonização mediática. A estratégia editorial, entretanto, tem o seu foco voltado para questões culturais, incluindo a produção e curadoria de eventos fora da internet, com efeito propulsor para a sustentabilidade financeira do projeto.</p>
<p>O modelo de atuação presente da BANTUMEN e a sua linha editorial são intrínsecos às questões de financiamento e sustentabilidade financeira da plataforma, que aparecem já na sua origem. Entre a idealização e a materialização do projeto, passaram-se cinco anos, muito devido à falta de recursos. No decorrer de uma década de atuação, o financiamento da BANTUMEN passou pela tentativa de diversos modelos de negócio, como editais, venda de produtos e apoio do público (crowdfunding), sem grande sucesso. Hoje, a plataforma sustenta-se especialmente por meio de venda de publicidade e conteúdo de marca, além de uma equipa que realiza trabalho voluntário produzindo conteúdo. Neste sentido, a BANTUMEN espelha a experiência de comunidades negras lusófonas, pois percebe-se, por um lado, um sentido de identificação e de comunidade que mantém o projeto vivo, e por outro, a imersão em dinâmicas de precarização de recursos e do próprio trabalho, características frequentes nos média alternativos (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref3">Atton, 2002</xref>), mas também do capitalismo global (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref29">Klikauer, 2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref51">Sandoval &amp; Fuchs, 2010</xref>).</p>
<p>Ao serem questionados sobre a independência editorial e a liberdade de expressão, Vanessa Sanches destaca que a BANTUMEN valoriza a independência editorial: aceita <italic>branded content</italic>, mas recusa conteúdos que contrariem seus valores ou os da sua audiência. Ou seja, embora a BANTUMEN não esteja imune às dinâmicas de financiamento mais tradicionais, como venda de publicidade, a narrativa demonstra que o próprio meio, como marca, valoriza um sentido de integridade próprio dos fundadores: “se nós de alguma forma percebermos que aquele conteúdo, marca ou produto não vai ao encontro daquilo que nós somos enquanto <italic>BANTUMEN</italic>, ou aquilo que o nosso público é, então nós não o faremos”. Ao utilizar-se da expressão “daquilo que nós somos”, Vanessa Sanches relaciona diretamente a atuação da plataforma com um sentido de identidade próprio das pessoas que ali trabalham, mas também aproxima esta mesma identidade com um público maioritariamente negro e lusófono.</p>
</sec>
<sec>
<title>
<bold>
<italic>4.2. Construir Presença Negra no Digital: Representação, Comunidade e Práticas Face à Discriminação na Europa</italic>
</bold>
<italic/>
</title>
<p>Em relação aos aspetos contextuais, três temas-eixo tiveram maior recorrência: lugar das pessoas negras na Europa (27), discriminação social (26) e novas referências negras (18). Esta categoria reflete a importância de olhar os processos detalhados, quotidianos e situados nos quais a presença da BANTUMEN é constantemente construída, contestada e exercida, assim como a influência das experiências de discriminação e das tentativas de afirmação e resistência no espaço europeu. Afinal, “as diásporas digitais são mutuamente constituídas aqui e ali ( ... ) por utilizadores e plataformas, através de práticas materiais, simbólicas e emocionais, todas elas reflexo de relações de poder interseccionais” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref12">Candidatu et al., 2019, p. 34</xref>). O tema-eixo lugar das pessoas negras na Europa é simbolicamente construído pela experiência de Vanessa Sanches, que Eddie Pipocas descreve como “uma mulher negra europeia que nasceu na Europa, mas que vive como imigrante”. Pipocas condiciona a sua análise à questão da representatividade — “os irmãos europeus, que nasceram cá, desde a escola até à televisão, eles nunca estiveram habituados a ser personagens principais, entende?” — e da impossibilidade de acesso às subjetividades, conjuntamente com o que entende ser a “alienação perpétua de um ‘outro’ racializado” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref44">Pereira et al., 2020, p.11</xref>). A esse respeito, diz: “se um negro faz uma porcaria, foram todos os negros que fizeram, não é algo individual”. Esta estigmatização social é um sintoma do racismo estrutural presente em Portugal e noutras partes do mundo, como parte constituinte da tradição e pensamento ocidental, e que desagua noutra das temáticas mais presentes na entrevista: a discriminação racial. Eddie Pipocas exemplifica como tal marginalização sistemática se manifesta institucionalmente, a despeito de méritos qualificatórios:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>dói-me mais porque, no final das contas, quando me mandam para a minha terra, eu sei de onde sou. Dói-me mais pelos pretos europeus ( ... ) Pelo número de colaboradores que temos, de parceiros que temos, que têm uma carreira de excelência na faculdade, com mestrado, doutoramento em jornalismo, com tudo… que passaram por todas as redações portuguesas e não ficaram em nenhuma.</p>
</disp-quote>
</p>
<p>Quanto às novas referências negras, interessa notar a missão intrínseca na plataforma em valorizar novas referências negras emergentes no espaço lusófono. Uma das iniciativas mais representativas é a Power List 100 da BANTUMEN<italic>,</italic> que segundo Vanessa Sanches “tem como propósito criar visibilidade para pessoas que têm percursos que são modelos para qualquer um de nós e que não estão visíveis nos grandes meios de comunicação”. A lista anual busca ser abrangente quanto às pessoas eleitas: “conseguimos chegar da jovem do bairro ao futebolista negro”, afirma. Em 2024, em termos de género, a lista foi composta por 49% mulheres, 47% homens, e 4% de pessoas não-binárias (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref6">BANTUMEN<italic>,</italic> 2024b</xref>, para. 6). Em termos de inspiração para as nomeações e discurso da Power List 100, Eddie Pipocas exprime uma visão crítica ao modelo “ocidental, americano, que é sempre visto como o expoente máximo do que uma pessoa negra, a nível global, pode fazer”, e reforça a ideia de autodeterminação oriunda do seu lugar de fala como pessoa africana e já marcada em outros momentos da entrevista: “é para criarmos modelos entre nós mesmos, sem precisarmos de alguém de fora da comunidade para nos dizer o que é um modelo de excelência, ou seja lá o que for”. Da mesma forma, a BANTUMEN promove o Mês da Identidade Africana em Portugal<italic> (MIA)</italic> anualmente em novembro, buscando destacar histórias da presença afrodescendente no contexto geográfico português.</p>
<p>Ambos os fundadores insistem na dimensão política de representatividade e pertença comunitária, com uma dimensão política que é inerente às comunidades diaspóricas digitais. Nesta dimensão, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref21">Georgiou (2013)</xref> considerou que “as atividades culturais e políticas da diáspora se desenvolvem para além das fronteiras, assim como o sentimento de pertença às comunidades” (p. 95). Nesse sentido, podem desenvolver-se ao redor de características essencialistas e numa hipotética comunidade lusófona negra, culturalmente uniforme.</p>
<p>.</p>
</sec>
<sec>
<title>
<bold>
<italic>4.3. As Raízes Ativistas do Projeto: Da Trajetória Pessoal à Visibilidade Negra</italic>
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<italic/>
</title>
<p>Na categoria ativismos, destacam-se dois temas-eixo com maior frequência: ativismos negros (24) e descolonização (33). Faz-se importante notar a relevância destas temáticas nas posições ideológicas e político-sociais dos fundadores, que — intencionalmente — acabam por refletir na posição editorial da BANTUMEN como meio de comunicação alternativo, que na seção “Sobre Nós” do website, declara: "A BANTUMEN é reconhecida pela sua independência editorial, pelo rigor informativo e pela defesa de valores como a igualdade, justiça social e combate a todas as formas de discriminação" (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref8">BANTUMEN, s.d.</xref>, para 3). Por exemplo, quando Eddie Pipocas detalha a sua motivação pessoal para atuar na comunicação social, refere:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>na minha adolescência, em Portugal, a única forma de eu andar com o pessoal à volta, onde eu morava, era eu fotografar ou escrever sobre o que eles faziam, e fui desenrolando como <italic>blogger</italic> na altura, estava na moda, de nada comecei a ser conectado com marcas que mandavam peças de roupa, comecei a entrar dentro do universo musical, que estava muito ligado com hip-hop, skates, devido ao Lil Wayne na altura ( ... ) Comecei a perceber que um preto que escreve é automaticamente ativista, não tem escolha: é preto, escreve, é ativista.</p>
</disp-quote>
</p>
<p>A afirmação evidencia a criação da BANTUMEN a partir de um lugar de fala sociopoliticamente engajado, que espelha as suas identidades sociais influenciadas por fortes marcadores culturais negros, como a cultura de rua e o hip-hop, além do ativismo. A própria necessidade de ampliar a visibilidade sobre as subjetividades negras foi um grande fator propulsor para idealização da plataforma, mas que, novamente, sofreu com barreiras típicas do racismo institucional, entre outras dinâmicas de poder, neste caso presentes num meio mainstream.</p>
<p>
<disp-quote>
<p>Eu quis criar um site em que a única forma de as pessoas poderem ouvir a música era lerem a biografia do artista. Então, eu dei essa ideia para o SAPO. Fui corrompido. Eles falaram: “A ideia é muito boa, vamos construir essa ideia, mas, enquanto isso, trabalhas connosco”. Quando assustei [sic], tinham passado muitos anos. Eu estava lá, a minha ideia não desenrolava. Esbarrei com a Vanessa, discutimos a ideia. Estávamos em Angola, a perceber que os nossos patrões, na altura portugueses, a única coisa que queriam de Angola era dinheiro. Não estavam a contribuir com nada. Então decidimos avançar por conta própria. ( ... ) Era os anos 2000, foi o início da internet para as pessoas negras, seja para o ativismo, seja para a vaidade, seja para o futebol, para tudo. Então escolhemos a melhor altura e as melhores pessoas.</p>
</disp-quote>
</p>
<p>A conjuntura histórica e a colonialidade do poder (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref48">Quijano, 2000</xref>) mais uma vez cruzam-se com as trajetórias pessoais dos fundadores e da própria plataforma que, encontrando obstáculos para nascer como parte de uma empresa mainstream e com um modelo de negócio tradicional (SAPO), teve de surgir de forma independente e à revelia dos média mainstream, na altura, em Angola, geridos por interesses financeiros e não por interesses das comunidades, como descreve Eddie Pipocas. Noutro trecho da entrevista, Vanessa Sanches diz que “a cultura negra na Europa é dominada por pessoas brancas”. Neste contexto, surge a BANTUMEN que se propõe a disseminar a “nossa cultura [cultura negra] para todos, não apenas para pessoas negras. Até porque qualquer pessoa que está na Europa e tem dois dedos de testa vê que toda essa branquitude veste de negro”. Tais afirmações denotam não só uma consciência sobre as implicações das apropriações culturais e tokenismo<bold>
<sup>[<xref ref-type="fn" rid="fn8">5</xref>]</sup>
</bold> próprias do jogo colonial de poder, mas também uma afirmação da força das culturas negras na Europa, como um espaço em constante negociação com as comunidades diaspóricas.</p>
</sec>
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<italic>4.4. Aspetos Identitários em Análise: Identidades Negras, Representatividade e o Espaço Lusófono</italic>
</bold>
<italic/>
</title>
<p>A categoria aspetos identitários também foi identificada através da codificação, sendo os códigos mais frequentes identidades negras (63), representatividade (25) e lusofonia (23). A centralidade destes temas revela, por um lado, a relevância da afirmação e representação de identidades negras contemporâneas no espaço lusófono e, por outro, um possível estreitamento temático, apesar do esforço declarado de comunicar “para todas as pessoas”.</p>
<p>A noção de identidades negras atravessa as narrativas, assumindo frequentemente um caráter político e afrocentrado. Especialmente nas falas de Eddie Pipocas, evidencia-se a noção de identidade associativa descrita por <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref25">Hall (2003)</xref>, marcada pela ligação persistente às culturas de origem e pela crítica às representações ocidentais.</p>
<p>
<disp-quote>
<p>Eu falo, e tem orixás a falar e tambores a reger. Eu abro a boca e todo mundo sabe de onde eu sou. Eu sou Thomas Sankara, eu sou Shaka Zulu. Eu sou o gajo que olha para o <italic>Black Panther</italic> e vê erros… [No filme] tens uma parte onde se vê uma das nações mais tecnológicas do mundo ( ... ). Mas há um rio onde as pessoas pescam e depois vendem na rua. Essa é a perspetiva branca do que é ser negro. ( ... ) Se o início do mundo é em África, só o facto de seres preto devia escolher a tua base para depois reconstruir tudo, devia ser a base para todos: para os americanos, para os brasileiros, para os europeus, entende?</p>
</disp-quote>
</p>
<p>O tema da lusofonia surge na entrevista como uma tensão discursiva entre a crença pessoal das pessoas entrevistadas, mais ligadas a ideais afrocentrados, e às estratégias editorial e de negócio atual da BANTUMEN, cujo objetivo é abranger diversas comunidades usando a língua como fator identitário comum. O discurso dos fundadores do projeto revela um posicionamento crítico, complexo, mas também pragmático: embora reconheçam que “o termo lusofonia só por si é problemático” e tenham plena consciência disso, propõem uma interpretação do espaço lusófono enquanto uma ponte entre experiências negras nos diferentes países de língua portuguesa. “Nós somos uma plataforma online que chega, tem contacto e informa sete países que falam português. Nem a RTP África faz isso. Nós conseguimos trazer à internet realidades de sete países diferentes”, refere Eddie Pipocas. E adiciona: “nosso nicho é lusófono, sim, o português, o colono, mas o nome BANTUMEN, ele diz tudo. Bantu, de onde vem? Estamos a falar do maior povo etnolinguístico africano. Portanto, nós sabemos qual é a nossa raiz, independentemente das nomenclaturas”. Assim como o tema-eixo novas referências negras, a questão da representatividade no discurso das pessoas entrevistadas foca-se primordialmente na crítica à ausência e invisibilização de pessoas e iniciativas negras na comunicação social portuguesa, mas também na expressão de uma esperança de mudança deste paradigma. Ao descrever a experiência de uma das colaboradoras a gravar conteúdos para a plataforma, Vanessa Sanches conta: “ela formou-se em jornalismo, mas desde muito cedo achou que, por ser muito retinta, só servia para a rádio. E a primeira vez que esteve em frente a uma câmara e falou alguma coisa foi connosco. A menina chorou”. A página dedicada à equipa no site da plataforma reforça os argumentos dos fundadores, descrevendo-a como “multi-disciplinar, multi-cultural” e revelando os perfis diversos de cronistas, jornalistas, estagiários e produtores de conteúdo mutimédia negros que “fazem o projecto acontecer” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref8">BANTUMEN, s.d.</xref>). Desta forma, a BANTUMEN também se posiciona como um espaço para correção de desigualdades estruturais da sociedade, mas não só: também, como sugere <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref12">Candidatu et al. (2019)</xref>, como sendo uma diáspora digital, “um lugar de pertença e conforto, uma forma de criar lugares que atravessam os paradigmas de encapsulamento voltado para dentro <italic>versus</italic> cosmopolitização voltada para fora” (p. 265).</p>
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<bold>5. Considerações Finais</bold>
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<p>Este trabalho focou-se no meio digital alternativo BANTUMEN. Através da visão, das ideias e da voz dos seus fundadores, Vanessa Sanches e Eddie Pipocas, analisámos como a plataforma funciona como uma diáspora digital, reproduzindo as experiências identitárias das comunidades negras lusófonas. Subsequentemente, visámos perceber a contribuição para questionar as representações dominantes no panorama mediático português.</p>
<p>A revisão da literatura revelou que a diáspora digital não é uma extensão tecnológica da migração, mas uma força viva de rearticulação identitária, resistência cultural e construção de pertença. A análise aponta que a BANTUMEN, nos argumentos dos seus fundadores, mas também na atuação prática, enquadra-se neste conceito, pois conecta narrativas afrodescendentes nos territórios lusófonos de língua oficial portuguesa e incorpora essa metamorfose quotidiana: transformando a internet em território, a memória em futuro, e a exclusão em potência criadora. A exemplo de outras iniciativas predominantemente negras no ecossistema mediático português, como Afrolis e Afrolink, a BANTUMEN também possui uma dimensão ativista, desafiando o silenciamento histórico de vozes marginalizadas. Cumpre este papel ao reimaginar identidades em trânsito e ao reunir, não só na linha editorial, como na sua própria história e das pessoas que a fundaram, uma conjunção complexa de identidades, referências e territórios físicos e simbólicos expressos digitalmente. A análise demonstrou que esta afirmação se evidencia através dos códigos mais frequentes (identidades negras, representatividade, lusofonia), das afirmações dos fundadores profundamente vincadas pela ideia de pertencimento negro e ativismo (“é preto e escreve, é ativista”), e de referências a iniciativas como a Power List 100 e o Mês da Identidade Africana em Portugal (MIA), que se propõem a repensar as representações dominantes no cenário mediático lusófono.</p>
<p>Ecoando as reflexões de outros autores (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref32">Leurs &amp; Ponzanesi, 2024</xref>), a análise da entrevista demonstrou que a presença e atuação digital das pessoas migrantes e racializadas é simultaneamente íntima e política — um exercício que reconfigura margens em centros de criação discursiva e cultural. A articulação das narrativas das pessoas entrevistadas com conceitos teóricos permite sugerir que, quando comunidades migrantes e racializadas são colocadas no centro da produção mediática, fomentam-se contranarrativas na esfera pública e negociações das suas próprias identidades. Há um exercício de autodeterminação que espelha as experiências identitárias de comunidades negras lusófonas, constantemente em disputa. “É para criarmos modelos entre nós mesmos, sem precisarmos de alguém de fora da comunidade para nos dizer o que é um modelo de excelência, ou seja lá o que for” (Eddie Pipocas). Numa perspetiva ontológica, pode-se dizer que a plataforma contribui para a criação de um arquivo negro (Ishmael et al., 2021) porque, enquanto armazenador de memória, conserva, seleciona e dá acesso a outras representações (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref2">Assmann, 2011</xref>).</p>
<p>A BANTUMEN<italic>, </italic>ao longo do seu desenvolvimento, e conforme a visão inicial dos seus fundadores, transcende o papel de meio de comunicação focado na promoção das culturas negras e assume-se como um polo digital de intercâmbio cultural e ativismo: promovendo uma reconfiguração transnacional através da pluralidade cultural negra e exercendo uma prática de mediação contra-hegemónica, profundamente ancorada no quotidiano digital da diáspora, assim como descrevem <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref32">Leurs e Ponzanesi (2024)</xref>.</p>
<p>Os resultados da análise e as conclusões a que conduzem permitem compreender que a BANTUMEN foi fundada e tem sido direcionada pelos seus dinamizadores para a criação de contranarrativas que questionam as representações predominantes sobre as pessoas migrantes e/ou racializadas no panorama mediático em português. Embora enfrente desafios comuns aos média independentes e alternativos, especialmente de natureza financeira e escassez de recursos, a plataforma<italic>, </italic>com uma equipa maioritariamente voluntária e engajada, mantém-se na ampliação de vozes, histórias, personagens e experiências que têm pouco espaço nos média mainstream. Recentemente, por exemplo, tem divulgado no YouTube e noutras plataformas digitais entrevistas semanais com profissionais da cultura relatando as suas trajetórias e reflexões críticas. Tal atuação tem uma relevância sociopolítica para o panorama mediático português, especialmente se considerarmos que, a exemplo de outras nações mundiais como Itália, Estados Unidos da América e Argentina, Portugal tem enveredado com mais força para valores conservadores e de intolerância à diversidade identitária que forma o país (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref57">Zanetti, 2024</xref>).</p>
<p>Considerando que não era o objetivo deste trabalho, não foram analisadas as perspetivas de outros membros da equipa em diferentes níveis de atuação, por exemplo, as quais poderão ser exploradas em estudos futuros. Importa ainda destacar que as considerações aqui apresentadas baseiam-se maioritariamente nas entrevistas realizadas com os dois fundadores da plataforma, não incluindo uma análise aprofundada aos conteúdos publicados e difundidos pela BANTUMEN. Outro possível viés para o aprofundamento do debate que aqui trouxemos surge do questionamento que faz <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref2">Assmann (2011)</xref> sobre a relação entre as tecnologias digitais e a memória, quando questiona: “a escrita digital ainda é um <italic>medium</italic> de memória, ou antes, um <italic>medium</italic> do esquecimento?” (p. 441). Na busca por uma resposta, estudos futuros poderiam, portanto, analisar os conteúdos do website, confrontando-os com os discursos dos fundadores e realizar um cruzamento da tipologia de meio de comunicação alternativo com o conceito de arquivo negro, entendido como uma prática de construção e preservação de memórias e narrativas que desafiam os regimes tradicionais de visibilidade.</p>
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<article-title>Portugal migrante: Ativismo e resistência em tempos de ascensão da extrema-direita</article-title>
<source>Cadernos de Campo</source>
<year>2024</year>
<volume>33</volume>
<issue>1</issue>
<fpage>1</fpage>
<lpage>18</lpage>
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<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v33i1pe220715">https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v33i1pe220715</ext-link>
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<title>Notas</title>
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<label>1</label>
<p>Citamos, como exemplo, o surgimento do Buala e Afrolis, que tal como a BANTUMEN, conquistaram um espaço e visibilidade no ecossistema mediático lusófono (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref46">Posch et al., 2024</xref>). Estas são, também, algumas das plataformas presentes no mapeamento de médias alternativos digitais relacionados a pessoas migrantes e/ou racializadas publicado por <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref14">Correia Borges et al. (2024)</xref>.</p>
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<label>2</label>
<p>Apesar de termos identificado, por exemplo, estudos recentes sobre a plataforma Afrolis como <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref45">Posch (2025)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref24">Golemo (2025)</xref>.</p>
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<label>3</label>
<p>No plano ético, a realização da entrevista foi antecedida pela recolha do Termo de Consentimento Informado, formalizado via formulário digital assinado por ambas as pessoas entrevistadas. A participação foi voluntária, sem compensação financeira, autorizando a gravação e utilização dos dados para fins científicos. A investigação integra projetos financiados pela FCT, com parecer favorável da Comissão de Ética da Universidade do Minho, em conformidade com o RGPD, assegurando o respeito pelos princípios de autonomia, transparência, confidencialidade e uso responsável da informação recolhida.</p>
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<label>4</label>
<p>Apesar das críticas à aplicação de testes de confiabilidade em pesquisas qualitativas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref31">LeCompte &amp; Goetz, 1982</xref>), priorizando-se a reflexão e a reflexividade (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref52">Spencer et al., 2003</xref>), uma vez que a entrevista foi codificada por duas das pessoas autoras deste trabalho, realizamos testes de confiabilidade (<italic>agreement rate</italic> e coeficiente Kappa (k) de Cohen) no software QualCoder. Os resultados iniciais demonstraram concordância nas categorias, mas divergências quanto ao momento em que apareciam nas falas dos entrevistados. Essa situação levou a uma revisão dos códigos (temas-eixo) e nova rodada de codificação, alcançando mais de 96% de concordância simples em 90% dos códigos e Kappa acima de 0,4 em 73% dos casos, considerados resultados moderadamente satisfatórios (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_774782605016_ref11">Burla et al., 2008</xref>).</p>
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<label>5</label>
<p>Refere-se à prática superficial ou simbólica de inclusão de pessoas e/ou comunidades minorizadas para criar uma falsa aparência de diversidade, enquanto mantêm-se as estruturas de poder.</p>
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<label>*</label>
<p>
<bold>Contribuições</bold>
</p>
<p>Gessica Correia Borges realizou a conceitualização, análise formal, investigação, redação do rascunho original e redação – revisão e edição. Chisoka Simões realizou a conceitualização, redação do rascunho original e redação – revisão e edição. Patricia Posch realizou a metodologia, análise formal, redação do rascunho original e redação – revisão e edição.</p>
</fn>
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<label>*</label>
<p>
<bold>Agradecimentos</bold>
</p>
<p>Este artigo foi desenvolvido no âmbito do projeto “MigraMediaActs – Migrações, media e ativismos em língua portuguesa: descolonizar paisagens mediáticas e imaginar futuros alternativos” (referência PTDC/COM-CSS/3121/2021), financiado por fundos nacionais através da FCT — Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P.</p>
<p>Este artigo contou com o apoio financeiro da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., por meio do programa Pessoas 2030 / Portugal 2030, coparticipado pelo Fundo Social Europeu e por fundos nacionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, pela atribuição de bolsa de investigação com referência 2023.01522.BD.</p>
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