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O trovador do porão e seu pequeno mapa do tempo: possíveis articulações entre o ensino das categorias geográficas e a obra de Belchior
The troubadour of the basement and his little map of time: possible articulations between the teaching of geographical categories and Belchior’s work
O trovador do porão e seu pequeno mapa do tempo: possíveis articulações entre o ensino das categorias geográficas e a obra de Belchior
Geografares, vol. 5, núm. 41, e-48190, 2025
Universidade Federal do Espírito Santo

Recepción: 24 Abril 2025
Aprobación: 02 Octubre 2025
Publicación: 15 Octubre 2025
Resumo: O artigo em questão tem como objetivo analisar as letras das canções do cantor e compositor cearense Antônio Carlos Belchior (1946-2017) à luz das principais categorias geográficas: espaço, território, região, paisagem e lugar. A elaboração do texto envolveu, como procedimentos metodológicos, a revisão bibliográfica e documental sobre a utilização da música enquanto recurso didático, as categorias geográficas no ensino de geografia e biografias do artista. Posteriormente, realizou-se um levantamento de suas composições, e partir de leitura e sistematização, sendo identificadas possíveis relações de cada categoria geográfica com as suas obras. Por fim, propôs-se a análise aprofundada de canções selecionadas e suas contribuições para o ensino geográfico. Desse modo, conclui-se que o uso da música no ensino de Geografia contribui para a valorização da cultura brasileira, amplia o repertório linguístico dos estudantes e favorece a construção de um olhar crítico e analítico tanto sobre a cultura nacional quanto sobre a própria geografia brasileira.
Palavras-chave: categorias geográficas, música, Belchior, ensino de geografia.
Introdução
Cada ciência possui as suas próprias leis, diretrizes e elementos resultantes de longos anos de estudos que seguiram determinados métodos e abordagens teórico-metodológicas. Com a Geografia não é diferente. Esta ciência, oficialmente reconhecida e institucionalizada na Europa do século XIX, já possuía um acúmulo de conhecimentos à época. Conforme afirma Sodré (1976), foi por meio do conhecimento geográfico que antigas civilizações se formaram e fizeram prevalecer seus interesses e territórios, ainda que esta ciência não estivesse legitimada como tal. No âmbito escolar a Geografia já era uma disciplina de estudos antes mesmo da criação de licenciaturas específicas para a formação de professores desta ciência.
Atualmente, num mundo globalizado, o ensino de geografia apresenta novos desafios, os quais têm sido objetos de estudos e reflexões de vários docentes e pesquisadores(as) que se debruçam sobre ensino da geografia escolar. A disciplina de geografia deve ensinar o(a) estudante a ler o mundo, por meio de suas ferramentas pedagógicas e científicas. O(a) aluno precisa compreender o mundo no qual vive, situar-se no espaço de modo consciente e estabelecer relações com diferentes escalas (Castrogiovanni, 2000).
Dentre as ferramentas que possibilitam a construção do processo de ensino-aprendizagem da geografia, existem as categorias de análise geográfica, cujas principais são: espaço, território, região, paisagem e lugar. Elas permitem, a partir de uma abstração da materialidade, compreender os fenômenos geográficos, articulando-os, criando relações, comparações, e acima de tudo, possibilitando a visualização de elementos da ciência geográfica em nosso cotidiano. E é função do(a) docente, por meio da abordagem socioconstrutivista, estabelecer a mediação para a construção deste conhecimento (Cavalcanti, 2006).
As categorias geográficas devem ser inseridas desde as séries iniciais do processo escolar, de acordo com cada faixa etária e capacidade cognitiva dos(as) estudantes. Partindo-se de uma abordagem socioconstrutivista (Vigotsky, 1991), é possível inferir que a criança aprende na interação com as demais, tendo, dentro da geografia, por meio de metodologias lúdicas, a capacidade de situar-se no espaço, pelo reconhecimento do seu próprio corpo, das distâncias entre ele e as demais pessoas e objetos. Enfim, é um princípio para estabelecer relações de proximidade, comparações, que aos poucos consolidam a formação da leitura geográfica (Cavalcanti, 1998).
Uma das dificuldades do processo de apreensão das categorias geográficas é o distanciamento entre a geografia acadêmica e a geografia escolar, entre a teoria e a empiria, entre a objetividade e a subjetividade, e esses elementos, longe de constituírem pares opostos e dicotômicos, integram o processo de ensino-aprendizagem da totalidade do espaço (Suertegaray, 2001).
Andreis e Callai (2019) criaram uma metáfora para auxiliar o entendimento de tal situação. Elas exemplificam o ensino-aprendizagem das categorias com os pavimentos de uma casa. Existe o porão, onde estão os princípios teóricos que fundamentam a formação das categorias, conceitos e teorias. A casa em si, que representa a aula, na qual os(as) estudantes têm a mediação dialógica conduzida pelo docente. E o sótão, onde os estudantes, a partir do conhecimento construído junto ao professor, podem dar luz a sua criatividade e imaginação, lançando voos na compreensão do espaço por meio das categorias.
A leitura, a explicação, a exemplificação, as discussões e as atividades envolvendo a intertextualidade nas aulas expositivas dialogadas facilitam o entendimento dos estudantes sobre as categorias, quando são utilizadas ferramentas pedagógicas além do tradicional livro didático. A utilização de jornais, obras literárias, filmes, documentários, mapas mentais, pinturas, jogos, músicas, entre outros, constitui um importante meio de despertar a curiosidade, estimular a imaginação e o interesse dos(as) estudantes, além de ampliar seu repertório cultural e favorecer a compreensão das categorias geográficas em articulação com a sua própria realidade.
Considerando este contexto e embasamento teórico, pretende-se neste artigo apresentar a relevância da música para o entendimento das categorias geográficas por parte de estudantes do Ensino Médio, mais especificamente, das letras das canções do cantor e compositor Belchior. A música constitui uma importante ferramenta cultural e artística a ser trabalhada pelos(as) profissionais da educação, propiciando aos(às) estudantes inúmeros benefícios de acordo com a faixa etária e os temas trabalhados em sala de aula. O(a) educador(a) deve estar atento(a) e sensível ao cotidiano de seus estudantes, para então elaborar atividades instigantes e criativas.
Johansson e Bell (2016) explicam que a música é uma parte integral da experiência humana e que estamos expostos a ela ativamente ou passivamente, quando transitamos em locais que reproduzem qualquer tipo de música. A música que consumimos diz muito a respeito de nós, de nossa cultura e nossos valores. Os autores afirmam que há uma natureza territorial da música, e que existem desigualdades geográficas tanto na produção quanto no consumo de música. Do lado do consumo, apesar das tendências de globalização e homogeneização cultural, ainda existem padrões locais distintos de preferência musical, como é o caso de Newfoundland, no Canadá, onde habitantes locais e membros da diáspora se conectam com sua terra natal por meio da música local na internet.
Além dessa introdução, dos objetivos, da metodologia e das considerações finais, o presente artigo encontra-se estruturado em quatro tópicos. No tópico a seguir, explana-se a respeito das vantagens da música para o desenvolvimento humano, quando inseridas em dinâmicas educacionais; o segundo item explora a discussão das relações entre a música e o ensino de geografia; no terceiro tópico são apresentados aspectos biográficos e características da obra de Belchior; e finalmente, no quarto item, apresenta-se os resultados obtidos pelo estudo das canções de Belchior e contribuições para o ensino do espaço, do território, da região, da paisagem e do lugar.
A partir do reconhecimento que a música adquiriu para o processo de ensino-aprendizagem, em especial para a geografia, este artigo têm como principais objetivos:
Incentivar a inserção de artistas da Música Popular Brasileira (MPB), em especial o cantor e compositor Belchior nas práticas de ensino, visando o conhecimento e valorização das novas gerações sobre a cultura brasileira;
Refletir sobre as potencialidades e formas de utilização da música para o ensino de geografia no Ensino Médio;
Propor a inclusão da análise das canções de Belchior nas aulas de Geografia, considerando, sobretudo, as principais categorias geográficas.
Metodologia
A abordagem adotada para a análise das canções de Belchior neste artigo envolveu diferentes etapas. Após a revisão bibliográfica sobre o ensino das categorias de análise, as relações entre a música e a geografia e a biografia do cantor, foi realizada a leitura e análise de todas as letras1 de sua obra.
A leitura atenta permitiu a identificação das categorias de análise geográfica (espaço, território, região, paisagem e lugar) em várias de suas músicas. Algumas canções permitem o estudo de mais de uma categoria. Foi possível verificar também alguns conceitos, teorias e temas trabalhados nos Ensinos Fundamental e Ensino Médio em diversas composições. A partir dessa sistematização foram selecionadas algumas canções para aprofundamento na compreensão das categorias geográficas.
Devido à imensa possibilidade de abordagens proporcionadas pelas canções, foram selecionadas as seguintes composições para uma apreciação mais aprofundada: Ypê; S.A.; Onde Jazz Meu Coração; Galos, Noites e Quintais; Passeio e Tudo Outra Vez. A escolha de tais músicas se articula respectivamente com as categorias de espaço, território, região paisagem e lugar. Em suma, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de cunho analítico e descritivo, pautada na perspectiva fenomenológica de análise e no socioconstrutivismo da educação (Vygotsky, 1991).
Referencial teórico
A música como ferramenta do processo de ensino-aprendizagem
A música é uma linguagem universal que ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço (Oliveira, 2009). É um tipo de arte presente em praticamente todas as culturas do mundo, em situações simbólicas, ritualísticas e festividades. A linguagem musical pode ser um meio de ampliação de conhecimentos, pois permite conscientizar o(a) estudante sobre fenômenos e conceitos diversos (Tennroller; Cunha, 2012).
De acordo com Matos e Santos (2005), a linguagem musical pode promover o desenvolvimento do ser humano devido a interdependência que a música promove entre o corpo e a mente, entre a razão e a sensibilidade, entre a ciência e a estética, entre a objetividade e a subjetividade, por meio de ações que incentivam a liberdade e a criação.
Vygotsky (1991), por sua vez, afirmou que o desenvolvimento de funções psíquicas acionadas pela educação musical possui estreita relação com as condições histórico-culturais nas quais as pessoas estão inseridas. Algumas capacidades mentais dos seres humanos são construídas por meio de interações que as pessoas estabelecem ao longo da vida. Essas interações são permeadas por signos, um destes signos é a música.
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais-PCN (Brasil, 1998), não há indicações específicas sobre como devem ser trabalhados os conteúdos da música em sala de aula, recomendando-se que o(a) professor(a) tenha versatilidade e sagacidade para compreender a realidade trazida pelos estudantes, enfatizando o contexto sociocultural daquela comunidade. Não é incomum que alguns/algumas estudantes tenham o seu primeiro contato com formas diferenciadas de arte por meio da escola. Essa é uma realidade frequente em escolas públicas periféricas brasileiras. É por meio de atividades pedagógicas desenvolvidas pelas escolas que muitas crianças e adolescentes vão pela primeira vez ao cinema, ao teatro, ao museu, ao planetário. São experiências inesquecíveis, visto que inauguram o conhecimento de um universo e linguagem diferentes, conforme a diversidade de idades dos alunos.
Sérgio Vaz (2016), poeta responsável pela Cooperativa Cultural da Periferia (COOPERIFA), relatou que ao palestrar2 certa vez na Fundação Casa, perguntou a um grupo de jovens quem gostava de poesia. A resposta foi um sonoro: “Nínguém, senhor.” Então, ele recitou um trecho da música “Negro drama”, dos Racionais. E eles o perguntaram se aquilo era poesia. Ele respondeu afirmativamente e disseram: “Então, ‘nóis’ gosta”. Ou seja, aqueles jovens acreditavam que a poesia se limitava a textos eruditos, porque não tiveram uma educação que ampliasse seu espectro cultural.
O contato educativo com a música fortalece a imaginação e a formação global da personalidade, permitindo ao(à) estudante a capacidade de sintetizar forma e conteúdo. É necessário que o professor saiba aproveitar os significados pedagógicos dos elementos presentes no cotidiano do aluno. A música está presente de modo único na vida da sociedade. Hodiernamente, com a presença massiva das mídias, isso se torna ainda mais forte, embora os conteúdos musicais de maior abrangência sobre os(as) estudantes sejam, majoritariamente, de âmbito comercial, o chamado mainstream.
Segundo Johansson e Bell (2016), a música popular é uma forma cultural que produz ativamente discursos geográficos e pode ser utilizada na compreensão sobre a identidade, a etnicidade, o apego ao lugar, economias culturais, ativismo social e político. A música pode ajudar a comunicar um sentimento comum de parentesco entre diásporas, como o rap e o hip hop proporcionam um senso de identidade a grupos minoritários, tornando a música uma forma de resistência à marginalização.
A música e seu potencial como recurso didático no ensino das categorias geográficas
Lucas Panitz (2021) geógrafo que possui uma trajetória ligada aos estudos sobre música e geografia, a partir da contextualização em diferentes países e no Brasil, afirma que os alemães Friedrich Ratzel (geógrafo) e seu discípulo Leo Frobenius, etnólogo e arqueólogo africanista, registraram os primeiros estudos que articulavam a música com a dimensão espacial. Posteriormente, nos Estados Unidos, mais precisamente na Universidade de Berkley, Carl Sauer e seus seguidores desenvolveram estudos geográficos sobre a música. Os geógrafos anglófonos também trouxeram contribuições (principalmente estadunidenses e canadenses) influenciados pela Escola de Berkley, concentrando seus estudos em representações espaciais das canções, análises locacionais e difusão de rimos, instrumentos e práticas musicais e na regionalização destes. Até que em meados de 1990, a partir da conferência “The Place of Music” e das sessões especiais de geografia da música na Associação de Geógrafos Americanos, surge uma renovação crítica da geografia cultural anglófona, destacando-se nomes como James Duncan e Denis Cosgrove.
Já na França, Panitz (2021) explica que o enfoque é territorial, sendo a música um elemento para a compreensão da identidade territorial. Destacam-se os trabalhos de George Gironcourt, que demonstrou interesse sobretudo pelas formas imateriais como ritmos, harmonias e melodias. Outros geógrafos franceses dedicaram-se aos estudos sobre a música, como Jacques Lévy e Jean-Marie Romagnan, este último segundo (Panitz, 2021, p. 19):
[...] defende o diálogo da ciência geográfica com a sociologia da música e a etnomusicologia, e insere a ideia da atividade musical como um geo-indicador do território ao abordar temas como política cultural, música e espaço público, sistemas de produção musical, uso dos lugares de práticas musicais e seus significados, entre outros temas.
No Brasil, Panitz (2021) afirma que o primeiro trabalho brasileiro foi elaborado por João Baptista Ferreira de Mello, com a dissertação defendida em 1991 na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a qual buscou interpretar a cidade do Rio de Janeiro a partir de seus compositores, entre os anos de 1928 e 1991. A partir dos anos 2000, a música passa a ser uma área de interesse efetivo da Geografia brasileira.
Panitz (2021, p. 21), a partir de uma cuidadosa pesquisa, identifica os principais eixos de interesse desses estudos:
1) A música popular (Almeida, 2002; Souza, 2011; Tamburo, 2014) e a diversidade dos gêneros regionais brasileiros, como forró (Fernandes, 2001), o maracatu (Santana, 2006), o movimento manguebit (Picchi, 2011), a música caipira (Malaquias, 2019), o fandango paranaense (Torres, 2009), a música missioneira (Barbosa, 2015) entre outros. 2) As cenas e circuitos musicais (Alves, 2014; Diniz, 2015; Panitz, 2017; Stoll, 2018), produtores de redes, fixos e fluxos. 3) O samba e o carnaval (Ferreira, 2002; Dozena, 2009) e suas práticas territorializantes nas metrópoles brasileiras. 4) O rap e o movimento hip hop (Xavier, 2005; Oliveira, 2006; Gomes, 2012) produzindo territórios, representações e sociabilidades nos espaços periféricos.
Segundo o autor, também são ressaltadas pesquisas sobre festivais e eventos musicais, música erudita, música indígena, música no ensino de Geografia e paisagem sonora. No que tange ao ensino da geografia, o autor acredita que a música tem oferecido elementos para a construção de conceitos geográficos e a compreensão das sociabilidades no espaço escolar.
Nesse sentido, compreende-se que a música é uma das diversas linguagens que podem permear a sala de aula e o ensino de geografia, seja no ensino básico ou superior, pois estimula a valorização de saberes além dos científicos.
Alessandro Dozena (2019), geógrafo reconhecido pela dedicação ao estudo das relações entre a música e a geografia, afirma que os sons podem ser lidos como linguagens espaciais e que é um desafio para a ciência geográfica a busca por novos horizontes geográficos-sonoros. Segundo o autor, a geografia brasileira vem há décadas trabalhando com as possíveis interpretações dessa relação, tendo como fonte de estudos primordiais textos em francês e inglês resultantes da virada cultural.
O autor supracitado (2019, p. 31) destaca que além do uso de letras de música como instrumento didático de ensino de geografia, discussões profícuas têm sido elaboradas nesses estudos, suscitando inclusive a criação de novas conceituações, quais sejam: territórios musicais, percepções e representações espaciais dos sons e das músicas, paisagens sonoras, cenas musicais, a dimensão espacial dos sons e das músicas.
As possíveis articulações entre a música e a geografia são inúmeras. Um ritmo musical facilmente pode estar atrelado a um determinado contexto espacial: o frevo e o maracatu em Pernambuco, o forró no sertão nordestino, o carimbó no Pará, o fandango no Rio Grande do Sul. As canções também podem associar-se às paisagens, instigando imaginários geográficos, como a bossa nova ou o funk que nos remetem a capital carioca (Dozena, 2019).
A globalização, para Dozena (2019), é um conceito que nos ajuda a pensar o fenômeno das músicas de massa e como vivenciarmos uma temporalidade na qual há simultaneamente gostos musicais desterritorializados e territorializados, estes últimos se manifestando como resistência dos lugares, pelo apego individual e identificação coletiva. Esse processo transforma os territórios musicais em espaços de constante mudança e recriação. Para o autor, embora ainda haja uma resistência inicial quanto à abordagem geográfica de elementos musicais, seus conteúdos potencializam a expansão das capacidades espaciais, por meio de mapeamentos, inventários de paisagens imaginadas, mapas mentais, percussão corporal, estimulando a ritmicidade de crianças e jovens e possibilitando a preservação cultural dos lugares.
A partir da revisão bibliográfica é possível encontrar alguns trabalhos de autores e autoras que se dedicaram a pensar em modos de inclusão da música nas aulas de geografia. Fuini (2013) propõe sugestões de práticas didático-pedagógicas para o Ensino Fundamental com letras de músicas a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). As músicas indicadas nas propostas foram as seguintes: ‘Aquarela brasileira’, de Silas de Oliveira (paisagem); ‘Lugar nenhum’, dos Titãs, ‘Sampa’, de Caetano Veloso e ‘Asa branca’, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (lugar); e as canções ‘Disneylândia’, dos Titãs e ‘Parabolicamará’ de Gilberto Gil (território, escala geográfica e globalização).
Em trabalho posterior, Fuini (2014), a partir de músicas que trazem em suas letras significativas conotações geográficas com determinados espaços (‘Saudosa Maloca’, de Adoniran Barbosa; ‘Sobradinho’, de Luís Carlos Sá e Guttemberg Guarabyra; ‘Aluga-se’, de Raul Seixas e Cláudio Azevedo; ‘Disneylândia’, da banda Titãs), estabelece uma associação com imagens e indica atividades e reflexões em relação ao ensino de processos que envolvem a categoria território, os conceitos de territorialização, desterritorialização, reterritorialização, territorialidades e microterritorialidades. Segundo Fuini (2013), para o alcance de um ensino de geografia que promova a consciência espacial, a interpretação do lugar e a cidadania dos(as) estudantes, é imprescindível a aprendizagem dos conceitos geográficos, visto que são eles que proporcionam o entendimento de fenômenos sociais e econômicos e sua materialização em paisagens, lugares e territórios. Fuini (2013) sublinha que a utilização de músicas nas aulas de Geografia deve estimular a consciência espacial dos(as) discentes de modo associado à reflexão, a interação e a elaboração de significados sobre os espaços e lugares de vivência dos(as) educandos(as), visando a construção de um raciocínio espacial.
Já Macedo, Oliveira e Silva (2020) elaboraram uma proposta e a aplicaram com estudantes de duas turmas de 3º ano do Ensino Médio Integrado do Instituto Federal de Educação do Pará (IFPA). A partir da pesquisa-ação, as autoras realizaram uma intensa atividade que compreendeu diversas fases do processo de ensino-aprendizagem, desde a exposição de conteúdo teórico por meio de livro didático, formação de grupos, discussões, pesquisa, seleção pelos próprios estudantes, de músicas que contemplassem os temas das aulas, apresentação de seminário e por fim, as autoras realizaram entrevistas com os(as) educandos(as) visando a obtenção de impressões sobre as percepções das experiências vivenciadas neste projeto.
As canções selecionadas pelos estudantes envolvidos no projeto supracitado, em ambas as turmas, notadamente faziam referência a protestos, principalmente em relação à ditadura militar e às denúncias sobre a desigualdade social e o fenômeno da seca no Nordeste. Compareceram nas escolhas dos autores músicas como: ‘Apesar de você’ (Chico Buarque), ‘Para não dizer que não falei de flores’ (Geraldo Vandré), ‘Fotografia 3x4’ (Belchior), ‘Súplica cearense’ (composta por Waldeck Artur de Macedo interpretada pela banda O rappa), para citar alguns exemplos. De acordo com as respostas obtidas nas entrevistas, as autoras puderam confirmar a relevância do projeto, pois os(as) estudantes enfatizaram a satisfação em se envolverem com atividades que fugiam do monótono e do tradicional, fazendo algo diferente do convencional, geralmente caracterizado por leituras, aulas expositivas e provas escritas.
Macedo, Oliveira e Silva (2020) concordam que a música é um elemento cultural bastante presente na vida de adolescentes e jovens, mesmo na escola. O que acontece é que a instituição tende a torná-la clandestina, pois na formalidade da organização escolar o ato de ouvir música é controlado. Correia e Kozel (2009) também realizaram uma proposta aplicada com estudantes de Ensino Médio de uma escola pública no interior do Paraná, articulando o uso da música com mapas mentais. Os autores consideram que o processo de inclusão de elementos lúdicos e diferenciados nas aulas perpassa a ressignificação dos conteúdos geográficos. Para os autores, as percepções individuais são concebidas subjetivamente (primeiras representações), e posteriormente, compartilhadas intersubjetivamente (representações sociais e geográficas), tornando então o aprendizado das categorias geográficas algo objetivo.
Apesar dos evidentes cruzamentos com a ciência geográfica, é praticamente inexistente a referência a trabalhos acadêmicos que dialoguem de modo mais significativo com as canções de Belchior, no sentido de analisá-las à luz da leitura geográfica. A partir da procura em buscadores acadêmicos, encontrou-se somente um artigo que tem como proposta estabelecer uma relação entre Belchior e a geografia. Trata-se do texto intitulado “A potencialidade da linguagem musical no ensino de geografia: fluxos migratórios no Brasil na canção ‘Fotografia 3x4’ de Belchior”, publicado em 2020 na ‘Revista Brasileira de Educação em Geografia’.
Atentos a proposta da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), que prevê a utilização de linguagens para além somente da visual, como a corporal, sonora e digital, Paula, Silva e Nascimento (2020, p. 291) defendem a utilização da linguagem sonora nas aulas de geografia. Desse modo, os autores propõem a utilização da música para uma aula expositiva e dialogada com o 7º ano do Ensino Fundamental, relacionando a dinâmica da população brasileira, com as migrações internas. A proposta de atividade incialmente incluiu a pesquisa por parte dos(as) educandos(as), de suas próprias famílias migrantes, contemplando-as com fotografias e documentos. Posteriormente, indicou-se a exploração de mapas de fluxos migratórios, levantamento de questionamentos e a sugestão da comparação com outra linguagem, a análise de uma charge, finalizando com o desafio da elaboração de uma paródia ressaltando elementos das migrações inter-regionais, utilizando palavras específicas.
Segundo Straforini (2004), no ensino de Geografia os conceitos permitem a compreensão fragmentada da realidade, que é necessária para depois, entendê-la em sua totalidade e complexidade. Para a geografia, as categorias são muito caras, pois caracterizam-na como um saber científico, além de auxiliarem os(as) estudantes na compreensão de conceitos e teorias. Para este artigo, o que se pretende é, a partir da leitura, análise e sistematização das letras de composições de Belchior, indicar as possíveis articulações entre elas e as categorias da geografia, selecionando algumas músicas para uma análise mais aprofundada. Antes de adentrar nessa proposta, faz-se necessária uma breve contextualização sobre a biografia do artista.
Resultados
Apenas um rapaz latino-americano? A vida, a obra e a geografia de Belchior
Belchior foi um artista que se dedicou com primazia a pensar a juventude, e as relações entre as gerações, sendo temas recorrentes em suas composições. Infelizmente, apesar do conteúdo de suas letras terem um caráter acrônico, poucos jovens o conhecem. Recentemente, graças a um sample da música ‘Sujeito de sorte’, incluído na canção ‘AmarElo’, música do rapper Emicida, lançada em 2019, e a regravação da música “Comentário a Respeito de John”, pela cantora Vanessa da Mata com a participação do cantor João Gomes em 2023, a atual geração de adolescentes e jovens pode conhecer e iniciar um contato com a obra do cantor cearense.
Antônio Carlos Belchior nasceu no dia 26 de outubro de 1946, na cidade de Sobral3, Ceará e faleceu no dia 30 de abril de 2017, aos 70 anos de idade, em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, vítima de uma ruptura de um aneurisma da aorta. Na época do ocorrido, o governo do Ceará decretou luto de três dias e efetuou o traslado do corpo do cantor para ser enterrado em sua cidade de origem. Seu falecimento foi precedido por seu desaparecimento dos palcos e da mídia em meados dos anos 2000, passando anos distante do público, vivendo no Uruguai e no estado gaúcho com sua companheira, Edna. O sumiço do cantor foi motivo de curiosidade e especulações, além das polêmicas sobre dívidas e processos judiciais (alguns envolvendo a ausência de pagamento da pensão de suas filhas caçulas) que reverberaram no bloqueio de seus imóveis e contas bancárias. De acordo com Medeiros (2017) e Santos (2020), para muitos de seus fãs, o desaparecimento do autor é interpretado como uma atitude coerente com a filosofia de vida do mesmo.
Medeiros (2017) descreve que Belchior se formou em Filosofia na década de 1960, em um colégio de padres de Fortaleza. Neste percurso de formação religiosa aprendeu latim, italiano, canto gregoriano e literatura clássica num mosteiro franciscano no interior do estado. Posteriormente, retornou a capital, onde cursou quatro anos de medicina na Universidade Federal do Ceará (UFC), quando decidiu abandonar a graduação e se dedicar a carreira artística no início dos anos 1970. Integrou o movimento denominado ‘Pessoal do Ceará’, juntamente com Fagner, Fausto Nilo, Ednardo, Amelinha, Rodger Rogério e Téti.
Aqui cabe uma observação especialmente interessante para a análise da Geografia. As décadas de 1960 e 1970 marcaram a criação de grupos musicais regionalizados no país. Primeiro surgiu o ‘Clube da Esquina’, em Minas Gerais, que com amplas influências musicais consagrou a música mineira nas vozes e canções de Milton Nascimento, Toninho Horta, Wagner Tiso, Beto Guedes, Lô Borges e Márcio Borges. Em 1967 é criado na Bahia a ‘Tropicália’, marcado por inovações estéticas e pela mistura de ritmos, e seus maiores expoentes foram os baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, além de Gal Costa e da banda Os Mutantes. Em 1971 é criada em São Paulo a banda Secos & Molhados, integrada por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad. O grupo cearense “Pessoal do Ceará” foi o último a ser formado, em 1972. Todos esses movimentos musicais, especializados nas regiões Nordeste e Sudeste, salvo as diferenças de combinações sonoras e apresentação visual, convergiam no sentido de uma articulação maior pelas circunstâncias sociais e políticas daquele período, em busca de transformações culturais e contra a ditadura militar.
Em 1971 Belchior migrou para São Paulo. No mesmo ano concorreu ao IV Festival Universitário de Música Brasileira, organizado pela TV Tupi do Rio de Janeiro, sendo premiado com a canção “Hora do almoço”. Mas o sucesso de fato chegou após suas canções se imortalizarem na voz da cantora Elis Regina, principalmente com a música “Como nossos pais”, interpretada pela gaúcha em 1975 (Medeiros, 2017; Sartorelli, 2017).
Suas canções possuem diversas temáticas que ilustram a década de 1970, destacando-se assuntos como a ditadura militar, o Nordeste, as migrações, a América Latina e a desigualdade social. É também característica de suas composições a interdiscursividade e a intertextualidade, mecanismos textuais pelos quais o autor consegue inserir diálogos com as obras de outros músicos brasileiros, como Luiz Gonzaga, e estrangeiros, como John Lennon, Paul McCartney e Bob Dylan; e poetas e escritores, como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego, Dante Alighieri, Honoré de Balzac, Edgar Alan Poe, Arthur Rimbaud, Federico Garcia Lorca, Víctor Jara, apenas para citar alguns exemplos. Isso torna as suas músicas oportunas para explorar outras culturas e acontecimentos históricos.
Medeiros (2017, p. 39), responsável por uma das biografias mais conhecidas do cantor, destaca que além das interlocuções supracitadas, Belchior também se esmerava em mesclar gêneros musicais estrangeiros com os brasileiros. A musicalidade do cantor tinha influências da MPB, do baião e do rock, do folk e do blues, mas “toda vez que se apropriava de um gênero estrangeiro, ele usava isso como um meio de atingir sua meta, de fundir sua leitura da brasilidade com a geografia cultural do mundo”.
Outra particularidade do cantor é que apesar de tratar de temas delicados, sensíveis e politizados, ele o faz com uma linguagem simples e exemplos do cotidiano. Em muitas de suas canções ele dialoga diretamente com o seu ouvinte, inserindo-o em questionamentos, criando uma conexão mais pessoal. Isto ocorre porque parte considerável de sua obra se baseia em experiências próprias, são autobiográficas.
Sartorelli (2017) afirma que a imagem de Belchior circulada pela indústria cultural era de uma artista brega, ofuscando o conteúdo acidamente crítico de suas composições. Por meio de suas letras, Belchior também criticava de forma, certas vezes, explícita outros artistas, sobretudo Caetano Veloso, que teve trechos de suas composições inseridas de modo irônico nas canções de Belchior. Este se posicionava de modo bastante revolto com estética hippie e alegre do movimento Tropicália, possivelmente por uma postura radicalmente reflexiva sobre os problemas sociais da época.
Longe de ser definido de modo superficial como um artista militante de esquerda, Belchior foi além desta conotação, pois teceu críticas sobre o dinheiro em si, o trabalho alienado, a civilização e sua corrupção moral (inclusive no âmbito da própria esquerda, como a autocrítica presente em ‘Dandy’). Nas palavras de Sartorelli (2017, s/p):
[...] uma crítica mais profunda do que a mera crítica do capitalismo.” Foi um artista que tinha uma profunda consciência do poder de suas palavras e de sua voz como ferramenta para o “despertar da consciência contra a opressão e seus mecanismos ideológicos, politizar a massa (s/p).
A obra de Belchior expõe de forma patente a realidade dos excluídos. Conforme Carlos (2014, p. 61), Belchior se posicionava ao lado dos verdadeiros outsiders da época (e porque não dizer, também, do atual período?): “os negros, os pobres, as mulheres, os gays, os trabalhadores nas fábricas, as prostitutas, os sem-teto”.
Carlos (2014) afirma que o repertório de Belchior expressava a ética do marginal, por isso suas canções dialogam com o movimento de poesia marginal dos anos de 1970 que buscava a livre expressão contra a repressão e opressões políticas e econômicas. Paulo Leminski4 foi um dos poetas que integrou esse movimento.
As formas de comunicação artística, seja um texto literário ou a letra de uma música, difundem expressões de poder, representação e significado. Assunção e Moura (2017, p. 166) explicam que dentre as ferramentas discursivas da análise de discurso existe a paratopia: “caracterizada pela localização indefinida, paradoxal e fronteiriça entre um lugar e um não lugar que ocupa o autor, analisada a partir de suas produções discursivas literárias”.
Carlos (2014), ao analisar os discursos contidos na obra de Belchior, identificou quatro tipos de paratopias:
A espacial: representada pela figura do migrante, cujos principais lugares paratópicos estão no Sudeste, mais especificamente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro (‘Fotografia 3x4’). Os sujeitos retratados em suas canções sempre estão distantes de seu lugar de origem, o interior, o Sertão. E o retorno para o local desejado, parece impossível, como nos tristes versos que encerram ‘Monólogo das grandezas do Brasil’: Vou voltar pro Norte semana que vem, Deus já me deu sorte, mas tem um porém, não me deu a grana, pra eu pagar o trem;
A temporal: que se estabelece entre os períodos pré e pós ditadura (1964-1985), com nítidos exemplos em músicas como ‘Pequeno mapa do tempo’ “Eu tenho medo de que chegue a hora em que eu precise entrar no avião [...] Faca de ponta e meu punhal que corta e o fantasma escondido no porão” e Caso comum de trânsito: “Meu melhor amigo foi atropelado, voltando para casa, caso comum de trânsito...” No primeiro caso, o autor indica o latente medo de ser exilado e no segundo, expõe os “desaparecimentos” frequentes naquela época;
A linguística: exposta pela fala nordestina, a despeito da mídia incentivar uma língua “nacional”, como nos versos de ‘Tudo outra vez’: “[...] Minha fala nordestina, quero esquecer o francês.” Ou ainda, nas canções ‘Alucinação’ e ‘Rodagem’, nas quais ele intencionalmente pronuncia as palavras “teoria” e “Europa”, com sotaque nordestino: tiuria e Oropa. No último caso, inclusive a grafia da palavra foi redigida exatamente assim na composição.
A identidade: se apresenta de diferentes formas: familiar, social, regional, profissional ou sexual.
Não é uma tarefa difícil identificar referências na obra do cantor sobralense que nos remetam a categorias, conceitos e temas de Geografia. Conforme exposto, essa relação é quase que inerente e já foi apontada até por pesquisadores(as) de outras áreas.
Na biografia escrita por Medeiros (2017, p.16) é possível encontrar minúcias que estreitam desde a infância a proximidade de Belchior com a ciência geográfica. Quando criança ele foi matriculado no Colégio Sobralense, uma escola bastante tradicional. Era um menino com senso de humor e boa memória, o que lhe transformou em orador de sua turma da quarta série. Entretanto, não era um estudante excelente, conforme descreve o biógrafo: “[...] aos dez anos, seu boletim carregava as notas 5,5 para matemática e minguados 5,2 para português. Foi salvo pelo 9,0 em geografia”.
Medeiros (2017) ainda menciona que durante os anos em que cursou medicina, Belchior fez amizade com estudantes de diversos cursos. Um de seus amigos criou um cursinho pré-vestibular para estudantes carentes de Fortaleza. As aulas aconteciam num local cedido pela Rede Ferroviária e cobrava-se uma mensalidade simbólica. Belchior lecionava as disciplinas de português, história e geografia:
Não é sem razão que em ‘Caso comum de trânsito’, o próprio cantor diz: “Pela geografia aprendi que há no mundo um lugar onde um jovem como eu pode amar e ser feliz. Procurei passagem: avião, navio, não havia linha praquele país”. Era antes de tudo, um homem que conhecia profundamente a sua região e o seu lugar. Nos próximos subtópicos, serão expostas algumas canções e suas possíveis interpretações para o ensino das categorias de espaço, território, região, paisagem e lugar, respectivamente.
Contribuições das canções de Belchior para a compreensão e ensino das categorias geográficas
Espaço
O espaço é a principal categoria da análise geográfica, uma vez que é a partir dele que as outras categorias são propostas. O espaço geográfico é resultado de uma acumulação desigual de tempos (Santos, 1996), desse modo a espacialidade e temporalidade são inerentes. Milton Santos define o espaço como uma síntese sempre provisória entre conteúdo e formas espaciais, integrado pela inseparabilidade entre sistemas de objetos e ações (Santos, 2008). Por ser uno e múltiplo, o espaço carrega em si o conflito e o movimento. Para Doreen Massey (2008), o espaço está sempre em devir, é indeterminado, pois trata-se de uma construção contínua.
Essas definições dialogam especialmente com a canção ‘Ypê’, gravada em 1980 no disco ‘Objeto Direto’. É uma delicada poesia que remete a uma reflexão existencial sobre os desejos humanos, o ser e o ter, o passado, o presente e o futuro.
Seguem algumas estrofes:
“Contemplo o rio, que corre parado, e a dançarina de pedra que evolui. Completamente sem metas, sentado, não tenho sido. Eu sou, não serei nem fui”.
“A mente quer ser, mas querendo erra, pois só sem desejos é que se vive o agora. ‘Vêde’ o pé de ypê, apenasmente flora, revolucionariamente, apenso ao pé da serra”.
O cantor elabora seus versos a partir de paradoxos. O rio não corre parado, mas com o movimento das águas. Uma dançarina de pedra não pode evoluir, já que não possui mobilidade para dançar. O ypê “apenasmente flora”, ou seja, não se move, mas no seu tempo, apesar de estar “apenso ao pé da serra” consegue florir, como um ato de resistência, um rompimento. Assim é o espaço, que na perspectiva dialética, é criado e recriado por meio de relações contraditórias e contínuas, em constante transformação.
Território
O território, desde a geografia tradicional alemã, é tido como uma categoria que implica, sobretudo, relações de poder e fronteiras. Para Souza (1999), temos de distinguir a visão de poder implicada em dominação e violência, daquela que corresponde a coesão de um grupo, pelo consentimento.
A partir desse pensamento, é possível reconhecer uma diversidade de territórios, constituídos desde uma escala micro até o global, e sob um prisma temporal secular ou periódico, graças às redes e aos fluxos. Tem-se então, o território como relações de poder projetadas no espaço (Souza, 1999). Isso permite reconhecer áreas de prostituição, zonas de tráfico de drogas e conflitos de facções como territórios. É uma visão possível graças às ideias foucaultianas de poder, nas quais o poder não se centraliza nas instituições autoritárias, mas se dissipa.
Fuini (2018), ao abordar as contribuições de Michel Foucault para a categoria geográfica de território, explica que:
[...] território é mais que apenas terra, sendo definido tanto pelas estratégias que são aplicadas a ele, através do mapeamento, ordenação, medição, demarcação e circulação, quanto como representação do conceito de espaço como categoria política, espaço distribuído, calculado, delimitado e controlado.
Haesbaert (2006) caracteriza o território a partir de uma multiplicidade de agentes e sujeitos. A territorialidade, forma como os indivíduos se organizam no espaço, pode se dar de diferentes formas, seja pela identidade, pela funcionalidade ou ainda pela sua apropriação simbólica.
Como um poeta de denúncia, há várias composições de Belchior que podem ser trabalhadas para a compreensão dos territórios. Para tal proposta, foi escolhida a música ‘S.A’., lançada em 1993, no disco ‘Baihuno’, que diz o seguinte:
“Assaltantes, bêbados, índios, nordestinos, retirantes, prostitutas, pivetes, punks, pobres suicidas solitários. De onde eles vêm? Viciados, velhos, vagabundos, de onde eles vêm? Viciados, velhos, vagabundos, de onde eles vêm?”.
“[...] Eu não sou cachorro não, para viver assim, tão humilhado. Mas esses senhores não querem nada. Não querem perder tempo, com essa porcaria que se chama gente”.
Nesta música Belchior narra grupos de sujeitos vulnerabilizados e marginalizados das grandes cidades na década de 1970, São Paulo e Rio de Janeiro, um contingente de pessoas deslocadas de seus territórios de origem. No caso dos nordestinos retirantes, integram os aglomerados de exclusão tradicional, os quais vivenciam situações endêmicas de exclusão social, fome, áreas ecologicamente frágeis e isoladas, conforme as ideias de Haesbaert (1995).
Alguns grupos citados na canção compõem microterritorialidades urbanas, como as profissionais do sexo e os punks. Notadamente, é uma canção atemporal, como a maioria de suas músicas. As populações indígenas são grupos que ainda morrem lutando pelo direito aos seus territórios. E o que dizer dos dependentes químicos, que hoje formaram um reduto na capital paulista, a Cracolândia? A obra do cantor talvez seja, além de veículo de protesto, também visionária.
O próprio título da canção, ‘S.A.’, sigla para Sociedade Anônima, indica sujeitos excluídos, indesejáveis e esquecidos pelos políticos, “esses senhores que não querem perder tempo com essa porcaria chamada gente”. É interessante destacar a autoidentificação que o cantor traça com esses indivíduos, ele se reconhece como parte deles, pois como afirma, se recusa a viver humilhado como um cachorro, animal que inclusive, ele utiliza como metáfora na música ‘Populus’, para se referir ao povo.
Região
A região é também uma categoria que teve grande relevância na abordagem tradicional, principalmente na escola francesa. Assim, como todas as categorias, ao longo dos anos, a interpretação sobre a região foi sendo alterada, de acordo com a perspectiva teórico-metodológica vigente. Lencioni (2009) explica que por muito tempo a região era uma categoria descritiva, que previa a integração e síntese, abrangendo uma determinada área do espaço que possuía homogeneidades. Houve ainda, na Corrente Teorética, uma tentativa de instrumentalizar a identificação de regiões, seguindo critérios estatísticos, de produção, mapeamento e ordenamento.
Segundo Lencioni (2019), a partir da globalização a região ganha notoriedade como uma categoria para análise de escala intermediária, pois passou a mediar o singular e o universal, sobretudo com a divisão internacional do trabalho cada vez mais complexa. Segundo Gomes (1995), as regiões manifestam, na atualidade, redefinições do papel do Estado, nacionalismos e regionalismos fragmentadores, desacordos e disputas internas.
Santos alertava sobre as regiões do fazer e as regiões do mandar (2008), algo que se relaciona com a abordagem crítica da geografia, pensando-se o espaço a partir da dialética da lógica de acumulação capitalista. Moreira (2007) explana que a região hoje existe a partir da contiguidade das redes e fluxos, que permitem uma abrangência cada vez mais ampla, haja vista a configuração de arranjos de blocos econômicos de países que não são fisicamente próximos.
A região é uma categoria intensamente presente nas composições do cantor sobralense, sendo possível interpretá-la a partir de diferentes escalas, desde a divisão intrarregional em macrorregiões, que em algumas de suas músicas ainda compareciam como uma separação mais ampla, entre Norte e Sul, até uma articulação solidária sobre a união da América Latina. Esse trabalho dará a interpretação de tal categoria a partir da música ‘Onde jazz meu coração’, lançada no mesmo disco da canção anterior.
“Ei, senhor meu rei do tamborim, do ganzá, cante um cantar, forme um repente pra mim. Aqui, Nordeste, um país de esquecidos, humilhados, ofendidos e sem direito ao porvir. Aqui, Nordeste, Sul-américa do sono. No reino do abandono, não há lugar pra onde ir”.
Belchior faz uma mescla interessantíssima nesta música. A princípio, pela sonoridade, que mistura ritmos e gêneros musicais, inclusive mencionados na própria letra: baião, jazz, blues, country e folk. No início da música, o compositor cearense dialoga com Bob Dylan, de quem era fã, mais precisamente com a música ‘Mr Tambourine Man’, como que fazendo uma provocação: se nos Estados Unidos há o blues, o jazz (presente no trocadilho do título), aqui no Nordeste, no Brasil e na América Latina (numa ampliação de escalas), também temos os nossos ritmos.
A comparação entre as “regiões sonoras” continua:
“De Nashville pro sertão (se engane, não) tem meu irmão, fora da lei, muito baião. E, em New Orleans, bandos de negros afins, tocam em bandas, banjos, bandolins, onde ‘jazz’ meu coração”.
Aqui o cantor parece expressar que embora as sonoridades nordestinas soem homogêneas, seu interlocutor não deve cair neste engano, indicando a riqueza e diversidade da música de sua região. Nashville é uma cidade estadunidense do Tennesse, sudeste do país, reconhecida mundialmente como um centro da indústria fonográfica, onde Johnny Cash, Elvis Presley e o próprio Bob Dylan já gravaram discos. Já New Orleans trata-se de uma cidade de Luisiana, no sul dos Estados Unidos, conhecida como a capital mundial do jazz. Trata-se de uma região do país onde a população afro-americana teve grande contribuição na formação de ritmos musicais como jazz, rhythm and blues e rock and roll.
Belchior prossegue, afirmando que apesar das dificuldades do Sertão e da América Latina em ditaduras, o seu canto é um canto de resistência, fazendo com que ele sobreviva em meio a pobreza e opressões:
“Em mim, desse canto daqui, lugar comum, como no assum, azul de preto. O canto é que faz cantar, cresce e aparece em minha vida, e eu me renovo no canto, o pio do povo. Pio, é preciso piar.”
‘Assum preto’ é o nome de uma música de Luiz Gonzaga, e de um pássaro típico da caatinga, que só canta durante à noite. Assim, Belchior traz mais elementos em homenagem à sua região de origem, a qual ele chama de país.
Paisagem
Milton Santos (1996) afirmou que a paisagem é tudo aquilo que a nossa visão alcança, e destacou que ela perpassa outros sentidos, além da visão, já que envolve volumes, cores, movimentos, odores, sons. Existindo inclusive, paisagens sonoras (Frias, 2018). A paisagem é a acumulação de tempos desiguais revelados no espaço. Por meio da técnica, a sociedade se relaciona com a natureza, modificando-a e construindo o espaço geográfico. Logo, a paisagem é testemunha das sucessões dos meios de trabalho, um resultado histórico acumulado (Santos, 1996).
Vitte (2007) destaca que a paisagem é uma categoria polissêmica, pois integra aspectos naturais, sociais e culturais sob o olhar geográfico. As paisagens podem receber diferentes classificações, de acordo com as suas características, quanto mais tecnificadas, mais artificializadas ela serão. Para Aziz Ab’ Saber (2003), a paisagem é sempre uma herança de processos fisiográficos, biológicos e de patrimônio coletivo dos povos que historicamente a herdaram como território de atuação de suas comunidades. Callai (2013) ressalta que a paisagem está em constante transformação, que por sua vez, pode ocorrer de modo acelerado ou lento, a depender das relações estabelecidas pelas sociedades. Ao estudar a paisagem, é possível compreender melhor o espaço no qual vivemos e assim, agir conscientemente sobre ele.
Para abordar a categoria de paisagem, foram selecionadas duas músicas de Belchior, a primeira é ‘Galos, noites e quintais’, gravada em 1977, no disco ‘Coração Selvagem’; e a segunda, ‘Passeio’, lançada no primeiro disco de Belchior, em 1974.
“Quando eu não tinha o olhar lacrimoso que hoje eu trago e tenho. Quando adoçava meu pranto e meu sono no bagaço de cana do engenho. Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus fazendo eu mesmo o meu caminho. Por entre as fileiras do milho verde que ondeia, com saudade do verde marinho”.
Nesta canção Belchior usa as lembranças bucólicas, da simplicidade do interior e do sertão como contraponto às mudanças relacionadas à urbanização intensa das cidades e como um refúgio afetivo no período ditatorial. Na sequência afirma não ser feliz, mas tampouco ser mudo, e que, portanto, canta muito mais. Outra vez o seu canto torto aparece como uma forma de resistência.
Ao observar atentamente o trecho da música, nota-se que o cantor descreve uma paisagem tipicamente rural e interiorana, com galinhas e plantações de milho. Mas não somente isso, traz algo comum do sertão nordestino, os engenhos, e a experiência do paladar ao descrever essa paisagem, pelo sabor açucarado do bagaço.
Já em ‘Passeio’, o compositor registra ao som flautado uma visão encantada da cidade de São Paulo. O que é curioso, pois, na maioria de suas composições, os aspectos urbanos destacados são geralmente os negativos, a exclusão, a violência, o medo. Na música em questão, ocorre o contrário:
“Vamos andar pelas ruas de São Paulo, por entre os carros de São Paulo, meu amor, vamos andar e passear. Vamos sair pela rua da Consolação, dormir no parque, em plena quarta-feira, e sonhar com o domingo em nosso coração”.
“Meu amor, meu amor, meu amor: a eletricidade desta cidade me dá vontade de gritar que apaixonado eu sou. Nesse cimento, meu pensamento e meu sentimento só têm o momento de fugir no disco voador. Meu amor, meu amor, meu amor!”.
Trata-se de uma canção autobiográfica e que foi gravada em seu primeiro álbum, recém migrante. Uma possível interpretação é a de que na visão do retirante narrado, apesar das dificuldades vividas na metrópole e das saudades do sertão, há um sentimento encorajador e entusiasmante ao viver em São Paulo com sua amada. Embora, nos últimos versos, ao citar o cimento e a vontade de fugir num disco voador, o autor parece dar margem às suas fantasias para amenizar as dores e tristezas da vida de migrante. De todo modo, é uma composição que homenageia a capital paulista. Os elementos da paisagem dessa canção se contrapõem com a anterior. Na cidade não há galos, não há terra, mas sim o cimento; não há engenhos manuais, mas há eletricidade e espaços públicos como praças e parques.
Lugar
O lugar é uma categoria peculiar, pois trata da dimensão espacial mais próxima do nosso cotidiano, tornando possível a compreensão de fenômenos que ocorrem em escalas mais distantes. Callai (2012) recomenda cautela para não atribuir a esta categoria apenas uma dimensão pontual de localização, pois isso prejudica a leitura de mundo dos(as) estudantes.
Na perspectiva da Geografia Humanista, baseada na fenomenologia, o lugar está intimamente ligado à afetividade (sejam experiências positivas ou negativas). Para Tuan (1983) e Relph (1979), o lugar resulta das experiências pessoais com o mundo, na criação de raízes, na proteção, e no pertencimento. São espaços carregados de: sensações, percepção, lembranças, significados, identidade, singularidades e vínculos afetivos.
Para a geografia crítica, há menos subjetividade, já que os lugares são compreendidos, com base no materialismo histórico-dialético, como espaços de reprodução da vida, inseridos na dinâmica capitalista, podendo expressar paradoxos: degradação-preservação; opressão-resistência (Carlos, 1996). A divisão internacional do trabalho se expressa no lugar e articula-os com demais lugares no mundo, expondo hierarquias, conflitos e exclusões.
Para Santos (2005), é o nível de inserção no meio técnico-científico-informacional que diferencia os lugares. De modo que eles podem situar-se como espaços do acontecer solidário, de resistência aos fenômenos externos, ou de submissão e disparidades internas. A partir da globalização, todos os lugares se mundializam, mas há mais lugares globais simples do que complexos (Santos, 2005). Massey (2000) alerta para o sentido global do lugar. Ainda que um lugar seja mais íntimo e familiar, ele não está fechado ou isolado, mas mantêm relações globais contínuas promovendo interações socioespaciais complexas.
Finalizando a interpretação das canções a partir de categorias geográficas, propõe-se a análise do lugar com a música ‘Tudo outra vez’, gravada em 1979, no disco ‘Era uma vez um homem e seu tempo’. Trata-se de um período bastante simbólico, já que no fim de 1978 houve a revogação dos atos institucionais da ditadura militar.
A música refere-se a alguém que está muito distante do seu lugar, aparentemente um estudante universitário, mas os demais detalhes indicam se tratar de um exilado da ditadura militar, que descreve a emoção de seu retorno à pátria:
“Há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa. E nessas ilhas, cheias de distância, o meu blusão de couro, se estragou! Oh! Oh! Oh! [...] Sentado à beira do caminho, pra pedir carona, tenho falado à mulher companheira: Quem sabe lá no trópico, a vida esteja a mil”.
O sujeito narrado está há uma distância continental de sua casa. Ademais, ao se referir ao Brasil, o faz como se estivesse em outro país, os trópicos são linhas imaginárias que cortam o globo terrestre. O Trópico de Capricórnio, no sentido Leste-Oeste, atravessa o Brasil. O seu blusão, um objeto pessoal e simbólico, apesar de ser feito em tecido animal, couro, bastante resistente, estragou, indicando que além da distância física, há uma temporalidade considerável em sua ausência.
“Minha rede branca, meu cachorro ligeiro, sertão, olha o Concorde, que vem vindo do estrangeiro. O fim do termo saudade, como o charme brasileiro, de alguém sozinho a cismar. [...] Até parece que foi ontem minha mocidade, com diploma de sofrer de outra universidade. Minha fala nordestina, quero esquecer o francês”.
Nos versos acima, o sujeito revela-se nordestino, que sente falta de seu idioma nativo e seu sotaque. Ele descreve elementos que identificam a sua casa, o seu lugar: a rede, o cachorro, o sertão, o interior. É possível interpretar esses trechos como uma leitura de lugar a partir da perspectiva humanista, pelos objetos simbólicos, pelo sentimento de pertencimento, pela saudade do próprio sotaque, característica que remete a uma identificação.
Ao repetir um dos versos, Belchior troca o nome de um tipo de avião, “Concorde’, por “o bom rock”:
“Minha rede branca, meu cachorro ligeiro, Sertão, olha o bom rock, que vem vindo do estrangeiro. O fim do termo Saudade, como o charme brasileiro, de alguém sozinho a cismar”.
Essa alteração faz alusão às influências culturais que eram disseminadas no Brasil, a partir do retorno de migrantes que estavam em exílio político. A partir de uma leitura geográfica, aqui, a categoria lugar, se aproxima mais de uma concepção de lugar mais ampla, que recebe fluxos de informações externos, ou seja, uma relação local-global.
Considerações finais
A realização da pesquisa para este artigo revelou uma estreita aproximação entre as canções de Belchior e a Geografia, seja em termos das categorias exploradas no texto (espaço, território, região, paisagem e lugar), ou ainda quanto às teorias e temas abordados no ensino de geografia, como por exemplo: as redes, as escalas, a desterritorialização, a migração, a urbanização, a industrialização, a desigualdade social e a ditadura militar.
A biografia do cantor e compositor evidencia uma possibilidade analítica e diálogo com a ciência geográfica. As referências geográficas se manifestam em várias das letras que compôs, muitas vezes nos próprios títulos das canções, como ‘Pequeno Mapa do Tempo’, ‘Conheço o meu Lugar’, ‘Apenas um Rapaz Latino Americano’. Entretanto, verificou-se que as suas músicas não são objeto de análise geográfica, e mesmo no âmbito do ensino foi encontrado apenas um artigo que propõe a utilização didática mais expressiva com uma de suas músicas em sala de aula.
Uma provável explicação para essa constatação é o fato se tratar de um cantor que não se encontra no cenário de artistas ouvidos pelas gerações mais jovens. É contraditório, uma vez que Belchior compôs várias canções tratando da juventude, além de a maior parte de suas músicas serem atemporais. Desse modo, seria interessante se os(as) professores(as) pudessem incentivar a ampliação do horizonte cultural de seus/suas estudantes, apresentando-os de modo contextualizado e articulado, músicas, filmes, poesias, pinturas, obras literárias. Todavia, convém lembrarmos que isso só é possível quando os(as) docentes têm consigo essa bagagem, dificilmente o professor consegue construir um repertório de linguagens ampliado se o seu próprio repertório não teve essa amplitude.
A partir da análise das músicas de Belchior foi possível notar o quanto elas podem contribuir para a compreensão das categorias geográficas, pois exemplificam elementos abstratos de um modo simples e cotidiano, além de articulá-las com outros processos e fenômenos espaciais. As próprias sonoridades de suas canções são riquíssimas para demonstrar como os diferentes ritmos se regionalizam pelo país, processo que ocorreu também em outros países, como nos Estados Unidos, por exemplo.
Conforme explicam Callai e Andreis (2019), por meio da metáfora da casa (sótão e porão), é no subsolo que se encontram os princípios fundamentadores da geografia enquanto ciência e disciplina escolar, sem a compreensão eficaz de categorias, conceitos e teorias, sem a capacidade de leitura do mundo, dificilmente a geografia cumprirá o objetivo de formar cidadãos e cidadãs conscientes de sua realidade e capacidade transformadora. Logo, resgatar “o simples cantador das coisas do porão” nas aulas de geografia, além de torná-las mais interessantes e dinâmicas, pode ajudar os estudantes a alcançarem o sótão, lançando-se em voos cada vez mais altos.
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Notas
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