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Transformações no Pampa Gaúcho: olhar da agropecuária familiar agroecológica

Transformations in The Gaucho Pampa: The view from agroecological family farming

Joélio Farias Maia
Universidade Federal de Pelotas (PPGSPAF/UFPEL), Brasil
Mitali Daian Alves Maciel
Universidade Estadual de Campinas (IE/UNICAMP), Brasil
Alessandra Troian
Universidade Federal do Pampa (PPGA/UNIPAMPA), Brasil

Transformações no Pampa Gaúcho: olhar da agropecuária familiar agroecológica

Mundo Agrario, vol. 26, núm. 61, e277, 2025

Universidad Nacional de La Plata

Recepción: 29 Abril 2024

Aprobación: 01 Octubre 2024

Publicación: 01 Abril 2025

Resumo: O estudo visa analisar as perspectivas de agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos sobre as transformações no Pampa Gaúcho, a partir do processo de modernização da agricultura. A pesquisa possui abordagem qualitativa e caráter descritivo, realizada através de estudo de caso. Foram entrevistados onze agricultores e pecuaristas, entre outubro de 2021 e fevereiro de 2022. Os dados foram tratados mediante análise de conteúdo. As transformações no Pampa Gaúcho, a partir da modernização da agricultura, causam efeitos negativos ao território. Para os agricultores familiares, esses efeitos se relacionam a aspectos produtivos. Já para os pecuaristas, além de causarem efeitos nas questões físicas, causam impacto prejudicial nos aspectos sociais, econômicos e culturais. A agropecuária familiar, pelo modo de vida atrelado ao território, ocupação e uso dos atributos materiais e imateriais disponíveis, apresenta-se como uma importante estratégia para a promoção do desenvolvimento territorial no Pampa Gaúcho.

Palavras-chave: Território, Agropecuária, Modernização da agricultura, Bioma.

Abstract: The study aims to analyse the perspectives of agroecological family farmers and ranchers on the transformations in the Gaucho Pampa as a result of the modernization of agriculture. The research has a qualitative approach and is descriptive in nature, carried out through a case study. Eleven farmers and ranchers were interviewed between October 2021 and February 2022. The data was processed using content analysis. The transformations in the Gaucho Pampa as a result of the modernization of agriculture have had negative effects on the territory. For family farmers, these effects are related to productive aspects. For cattle ranchers, on the other hand, as well as having an effect on physical issues, they have a detrimental impact on social, economic and cultural aspects. Family farming, due to the way of life linked to the territory, occupation and use of the material and immaterial attributes available, is an important strategy for promoting territorial development in the Gaucho Pampa.

Keywords: Territory, Agriculture, Modernisation of agriculture, Biome.

1. Introdução

O desenvolvimento territorial compõe uma gama de processos que mobiliza os atores e o uso dos recursos, via identificação coletiva e construção social (Pecqueur, 2005)1. A noção permite explicar o papel do contexto e do espaço social, como fator de desenvolvimento. Sua origem advém da lacuna no enfoque vinculada à questão rural, especialmente no que diz respeito a fatores de sustentabilidade ambiental e social, junto à atuação dos indivíduos. A partir desse entendimento, tem-se a proposição de que o desenvolvimento foca no território e nas suas dinâmicas, que envolvem dimensões espaciais, sociais, políticas, econômicas e institucionais (Schneider e Tartaruga, 2004).

Nessa direção, a partir do desenvolvimento territorial, tem-se a revelação do território, entendendo-o como mais amplo do que o espaço físico, isto é, como uma construção a partir das formas de uso e ocupação, bem como a inter-relação das características materiais e imateriais, que se desdobram em um espaço multidimensional (Santos, 2005; Saquet, 2011; Oliveira, 2020). O desenvolvimento territorial é um processo que ocorre a partir da mobilização dos atores aliados ao aspecto imaterial, bem como o uso dos recursos disponíveis ligados aos aspectos materiais, em formas estratégicas através de identificação coletiva e construção social, ou seja, o uso do próprio território (Maia, 2022).

Uma das ferramentas que auxiliam na promoção do território é a agroecologia. De acordo com Caporal e Costabeber (2004), ela é a ciência que fornece suporte e possibilita a promoção de estilos de produção aliados a processos de desenvolvimento territorial, visando garantir a preservação ambiental. Como campo de estudo, estimula os pesquisadores a aprofundarem os conhecimentos e imergir nas práticas dos agricultores para construir agroecossistemas com independência de insumos químicos e externos. A agroecologia atua na busca e identificação dos recursos e da identidade local para, a partir desses elementos, recriar a heterogeneidade do cenário rural, através de formas de ação coletiva e de caráter participativo (Batista e Stoffel, 2022).

As práticas sustentáveis oportunizam novas formas de pensar a produção agrícola e pecuária. Neste sentido, a agroecologia, busca resgatar os conhecimentos tradicionais, deixados à margem pela modernização da agricultura, visando agroecossistemas sustentáveis. Os quais valorizam o conhecimento prático dos atores locais, recorrendo-se à abordagem transdisciplinar que compõem princípios agronômicos, ecológicos e socioeconômicos, objetivando uma agropecuária ecologicamente sustentável, econômica e socialmente justa (Gliessman, 2000; Caporal e Costabeber, 2004; Altieri, 2011).

O sistema de produção agrícola familiar, de base agroecológica, contribui para a valorização dos conhecimentos e rompe com o paradigma do modelo convencional de produção, estruturando-se na agricultura sustentável. Dispõe da capacidade de resiliência, adaptação aos mercados, simultaneamente respeita o uso dos recursos naturais e contribui para a produção e oferta de alimentos, como também para a segurança alimentar2, colaborando para caminhos viáveis rumo ao desenvolvimento sustentável (Maciel e Troian, 2022).

A soberania alimentar é uma das condições para que a segurança alimentar seja alcançada. Conforme Mendes e Gonçalves (2023), o conceito nasce da emergência da criação de um novo paradigma alimentar que enfatizasse também a soberania e a autodeterminação alimentar dos povos. As primeiras ideias relativas ao conceito de soberania alimentar têm destaque por meio da via campesina e partem da perspectiva que os alimentos não devem ser tratados meramente como mercadorias. Além disso, questiona-se o domínio das grandes corporações no sistema alimentar global e se advoga em favor da preservação da cultura e hábitos alimentares, além da sustentabilidade ambiental.

O conceito de segurança alimentar é amplo e engloba os âmbitos da disponibilidade, do acesso, da estabilidade e da utilização (Graziano da Silva e Tavares, 2008). Tornando-se cada vez mais notória a importância de uma agricultura que produza alimentos diversificados com adequada qualidade biológica e não apenas commodities agrícolas. Isto é, assegurar o acesso aos alimentos para todos, em quantidade e qualidade suficientes para garantir uma vida saudável e ativa do próprio núcleo familiar, por meio do autoconsumo, e dos consumidores dos alimentos (Caporal e Costabeber, 2003).

A pecuária familiar se vincula a um tipo específico de agricultor familiar, que apresenta características próprias (Borba, 2016). Para Ribeiro (2009), constitui-se como uma categoria social única, mesmo com as similaridades apresentadas entre agricultor e pecuarista familiar (Ribeiro, 2018; Maia, 2022). A sua contribuição está no fortalecimento e no desenvolvimento do Pampa Gaúcho3, como forma de expressão de uma cultura única, dotada de particularidades que cooperam para a promoção de desenvolvimento territorial sustentável, ao usufruir de forma responsável os recursos disponíveis no território (Azevedo e Fialho, 2016).

No território Pampa Gaúcho, encontram-se os elementos tangíveis – como a fauna e flora – e intangíveis – como a cultura e identidade (Maia e Troian, 2022). Contudo, diversas são as adversidades observadas no Pampa Gaúcho, principalmente no que tange às transformações sociais, ambientais e econômicas. Novas dinâmicas estão modificando o território, a partir da expansão da agricultura moderna em escala industrial, mais precisamente nas zonas rurais, causando reflexos no cenário rural, motivadas por questões financeiras e produtivas (Maia, 2022).

Com efeito, nem todos os agricultores e pecuaristas foram incluídos no processo de modernização do campo. A modernização da agricultura foi um processo excludente que beneficiou apenas parte dos atores envolvidos no cenário rural, em particular as elites rurais (Maia, 2022; Maia e Troian, 2022). Fontoura (2014) cita elementos, como a falta de associações de classes e obstáculos naturais como o relevo, o solo, que impediram ou dificultaram o trabalho mecanizado dos maquinários – uma das condições para alcançar os níveis produtivos e de padronização que a agricultura moderna necessita – resultando, assim, na exclusão de um considerável número de agricultores e pecuaristas familiares.

A conjuntura, a partir do advento da modernização agrícola, apresenta-se como ameaça ao desenvolvimento do Pampa Gaúcho, dado que desconsidera as potencialidades existentes e únicas desse território. O avanço da soja no Pampa provoca diversos efeitos perversos. Em Dom Pedrito, por exemplo, o monocultivo tem incitado questões como esvaziamento demográfico, substituição de atividades tradicionais (como o arroz e pecuária), perda de fatores socioculturais e, principalmente, impactos causados ao ambiente natural do bioma (Maia e Troian, 2020). Na Argentina, o modelo de agroextrativismo também está entre os principais condicionantes tendo em vista crises socioambientais e alterações climáticas (Gárgano, 2024).

Ainda, como exemplo das ameaças que o modelo de agronegócio abarca, tem-se a catástrofe ambiental que ocorreu no estado do Rio Grande do Sul em maio de 2024, a qual assolou grande parte do estado, vitimando fatalmente 183 pessoas, além de outras desaparecidas. Estima-se que mais de 600 mil pessoas tiveram que deixar suas residências (G1RS, 2024). A catástrofe ambiental impactou social, econômica e ambientalmente as populações presentes em 471 dos 497 municípios gaúchos (Formentin, 2024). Para Melgarejo (2024), uma das causas do desastre está diretamente relacionada ao modelo ambientalmente insustentável do agronegócio e ao avanço dos monocultivos, principalmente a soja. As atividades agrícolas substituem ambientes naturais, como pastagens nativas, matas ciliares, rios e banhados, além de outros ecossistemas, provocando desequilíbrios ambientais, que por sua vez, perderam a capacidade biológica de reter a águas das chuvas, assoreando rios e, por consequência, inundando áreas rurais e urbanas, provocando uma tragédia sem precedentes vivenciada no estado.

Assim, tendo em conta o contexto de alterações, modificações e transformações as quais o território está enfrentando, o presente estudo visa analisar as perspectivas de agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos sobre transformações no território Pampa Gaúcho, a partir do processo de modernização da agricultura. A pesquisa se justifica, dada a carência de ações em pesquisa direcionadas para a agroecologia e para a agricultura e pecuária familiar, como citado em alguns estudos sobre o Pampa Gaúcho. Dentre eles, Matei e Filippi (2012), em que ambos discorrem acerca da necessidade de investigações sobre agroecologia e produção aliada às potencialidades do território e seus atributos, para a articulação de forças visando à construção de conhecimento sobre desenvolvimento territorial. Maia (2022) destaca que no estado do Rio Grande do Sul, em poucas décadas, a produção de soja ocupou rapidamente uma extensa área de campos naturais no Pampa, promovendo repentinas transformações no território.

Beling, Cancelier e Flores (2022), reforçam que as transformações no espaço rural do Bioma Pampa no Rio Grande do Sul são notórias, sobretudo, pela modernização tecnológica da agricultura que tem provocado mudanças na produção, no trabalho e na forma de vida dos sujeitos do campo. O avanço da agricultura moderna tem ocasionado perda da biodiversidade, das características e das especificidades da população pampeana, acarretando transformações na paisagem, que são visíveis, principalmente pela diminuição das atividades pastoris e dos demais elementos que, tradicional e culturalmente, estavam presentes neste espaço. A agroecologia tem potencialidades de oferecer ferramentas que possam mitigar os efeitos nocivos como crises socioambientais e mudanças climáticas causadas pelo modelo produtivista do agronegócio, de maneira a reconfigurar o território a partir de seus recursos (Gárgano, 2024).

Além do mais, os números do Pampa são preocupantes, observa-se uma elevação de 27,2% na área desmatada de 2021 para 2022. O cenário projeta a expectativa de que o desmatamento aumentará de forma crescente. E, como consequência, a conversão das terras do Bioma Pampa, aliada a outros fatores climáticos têm contribuído para as mudanças no clima e para o aquecimento global (MAPBIOMAS, 2023). Assim, a seguir, apresenta-se a discussão sobre o processo de modernização agrícola e suas implicações para o desenvolvimento territorial.

2. O processo de modernização da agricultura e suas implicações no desenvolvimento territorial do Pampa Gaúcho

Na esteira da discussão sobre o processo técnico no campo, as especificidades da agricultura, torna-se um elemento importante. Ainda que ela dependa de fatores naturais, como solo, água e condições atmosféricas, ela necessita também de insumos, máquinas e equipamentos para elevar a produtividade e para complementar o processo produtivo. O funcionamento adequado do sistema agrícola estaria atrelado, sobretudo, ao crescimento da vegetação, diferentemente do que ocorre na indústria, que necessita basicamente da existência de matérias-primas para fornecer os insumos necessários e promover a produtividade (Graziano da Silva, 1999).

As inovações relevantes na agricultura ocorreram na indústria de insumos, processamento, armazenamento e transporte da produção, como também dentro do estabelecimento rural (Alves, 2007). De acordo com Veiga (1991), a partir da Primeira Revolução Agrícola4, houve profundas mudanças tecnológicas oriundas da atração animal e pela integração da agricultura e pecuária, com o emprego de fertilizante animal, dependente de matéria orgânica para fertilização constante da terra. Já a Segunda Revolução Agrícola, ocorrida entre os séculos XVIII e XIX, foi marcada pela inovação dos fertilizantes químicos. As descobertas do uso da química na agricultura foram o pilar da dominação da natureza pelo homem, uma vez que todas as inovações tecnológicas verticais (setor agrícola) e transversais (setores da química, genética e mecânica) foram reunidas por volta de 1960 a 1970 e direcionadas à agricultura (Ehlers, 1996).

O entendimento se baseava na esperança de combate à miséria no mundo, por isso organizações internacionais e governos de países subdesenvolvidos decidiram imergir na nova concepção de agricultura, alicerçada no que foi intitulado de Revolução Verde. Isto é, dominar a natureza, baseada na indústria química de adubos sintéticos e de agroquímicos, bem como no uso intensivo de energia, pesquisa genética, máquinas e equipamentos (Ehlers, 1996). Essa modalidade de agricultura é simplificada a ponto de adequar qualquer meio ambiente para o gerenciamento padronizado por pacotes tecnológicos. Assim, desde a Revolução Verde, houve a intensificação por unidade de área de cultivo, relacionada ao crescimento da monocultura, de fertilizantes, pesticidas e agrotóxicos e as lavouras passaram a ser mecanizadas.

Ainda na década de 1960, no Brasil, o Estado ambicionava modernizar o setor agrícola, principalmente, nas regiões sul e sudeste. Com esse fim, estimulava os agricultores a adotarem e importar o modelo tecnológico dominante da época para ser utilizado nas terras brasileiras, com o intuito de torná-las mais produtivas. Entretanto, as especificidades e as necessidades locais não foram devidamente consideradas no momento anterior à modernização do setor, o que gerou diversos efeitos negativos, como êxodo rural, concentração fundiária e pobreza (Mazzoleni e Oliveira, 2010). Segundo Fontoura (2014), em meados do final do Século XX, as primeiras lavouras mecanizadas foram implantadas na metade sul do estado do Rio Grande do Sul, mais especificamente na região central e litoral sul do estado, com os cultivos de arroz e trigo. A partir da modernização agrícola, os cultivos migram para as áreas da Campanha Gaúcha, onde encontram terras de várzeas, que combinadas à construção de açudes, permitem os plantios em diversos municípios, como Dom Pedrito, Bagé e Quaraí, além de outros países, como o Uruguai.

O cultivo de arroz rapidamente se tornou hegemônico na região, ocorrendo de forma concomitante à pecuária de corte. O mesmo movimento ocorreu com o cultivo da soja, algumas décadas depois. Entretanto, Neske, Marques e Borba (2014) salientam que embora o modelo de produção moderna de agricultura permaneça hegemônico, o movimento não é um processo homogeneizador. Ou seja, a modernização da agricultura não atingiu todos os atores no cenário rural. Tais indivíduos têm encontrado maneiras de permanecer no campo, de forma a resistir às pressões meramente econômicas, visando ainda à construção de estratégias de produção a partir de valores sustentáveis e em consonância com o território.

O Pampa Gaúcho sofre com a inserção da agricultura moderna, pautada em pacotes tecnológicos que vai de encontro ao sistema tradicional de criação pecuária, praticado à base de campo nativo, complementando que esse sistema pecuário está sendo substituído pelo cultivo de grãos (Delanoy, Viana e Troian, 2020). De acordo com Ribeiro (2018) a formação histórica do Pampa Gaúcho se deu a partir da mescla de ambiente naturalmente propício, formado por campos de pastoreio, juntamente com o imenso contingente de gado bovino asselvajado e somado às formas de uso e ocupação da terra. Assim, começa a enraizar de fato a criação pecuária à sociedade e economia do Pampa Gaúcho. Além de atividade econômica, a pecuária extensiva, passaria a ser o modo de vida do gaúcho se tornando indissociável e reproduzida por séculos.

A tradicional pecuária de corte extensiva, no final do Século XX, que tinha por prática manter o gado solto no campo, com base na alimentação natural, foi aos poucos sendo substituída pela pecuária de corte intensiva empresarial, a qual faz uso de pacotes tecnológicos, como melhoramento genético, rações, capital e investimentos estrangeiros, visando à exportação da carne produzida (Alves, 2007). Ribeiro (2009) destaca que o sistema tradicional de criação pecuária extensiva existente na Campanha Gaúcha, continua em atividade, reduzido principalmente por pecuaristas familiares, que foram excluídos dos processos de modernização da agricultura. Esse tipo de pecuarista apresenta a potencialidade de praticar a atividade de forma sustentável, pois a região do Pampa Gaúcho é considerada um dos lugares do planeta que replica o modo extensivo de criação pecuária, de maneira sustentável (Alves, 2007).

Nesse contexto, como alternativa à promoção do desenvolvimento do Pampa Gaúcho, mudança na estrutura fundiária de extensão de áreas de campo concentradas em poucos proprietários, bem como o direcionamento industrial dado à produção oriunda do campo, no final dos anos 1980, inicia-se o processo de reforma agrária. Começa, assim, uma lenta e gradual mudança de padrões produtivos, recebendo e envolvendo outros atores ao cenário rural pré-existente (Alves, 2007; Ferron e Troian, 2020).

A transformação na organização agrária passa pela presença dos assentados e novos meios de produção e vida no campo são vivenciados. Assim, dá-se início à modificação da estrutura fundiária em atividade na região, ainda que de forma singela. Chelotti e Pessoa (2006) relatam que, nos anos 1990, o Pampa Gaúcho serviu de palco para movimentos sociais rurais e/ou conflitos fundiários sob a posse e direito de uso da terra, envolvendo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (FARSUL).

O fato resultou na institucionalização da região da Campanha Gaúcha, como uma área de prioridade para fornecer abrigo ao movimento de reforma agrária, estabelecendo uma nova concepção no que diz respeito ao desenvolvimento territorial do Pampa. Nessa direção, o cenário rural e agrário da região recebeu novos agentes e foram criados assentamentos rurais. Esses atores passaram a residir, produzir e reproduzir suas culturas e cultivos no Pampa Gaúcho, na tentativa de reorganizar assim a dinâmica produtiva da região (Ferron e Troian, 2020). O estabelecimento dessas novas relações provocou o movimento de reterritorialização, através da agricultura familiar assentada, com base em pequenas propriedades (Chelotti e Pessoa, 2006). Todavia, esse processo foi concebido principalmente em terras de uso de pecuária de corte e lavoura de arroz e não por parte dos pecuaristas e agricultores familiares do Pampa Gaúcho.

2.1 A reprodução da agropecuária familiar agroecológica

A agricultura e a pecuária familiar integram o Pampa Gaúcho desde os primórdios. Isso se deve, pela aptidão natural do território, desde as condições edafoclimáticas, relevo, paisagem natural, solo, água e vegetação. Adicionam-se também, questões socioculturais únicas e específicas como a cultura e as tradições, que moldaram o modo de vida no espaço e o desenvolvimento dessas atividades são balizadoras da dinâmica socioeconômica do Pampa Gaúcho (Maia, 2022). De acordo com Ribeiro (2009), historicamente, a pecuária se estabelece no Pampa a partir da criação das estâncias5 e a na criação extensiva do gado de corte, principal atividade característica da economia desta região.

A pecuária familiar mantém seu modo de produção e de trabalho no campo com base familiar, a partir da criação de bovinos de corte e/ou ovinos, como também vivenciando uma relação de dependência com a natureza (Waquil et al., 2016). A atividade não é pautada na lógica de mercado ou econômica, exclusivamente, mas em uma ampla e complexa inserção sobre as formas como são conduzidos os processos, guiados por uma realidade peculiar, na qual os valores materiais e imateriais são tão importantes quanto à busca pelo lucro e produtividade (Maia, 2022).

Na tentativa de superar entraves causados pela modernização da agricultura, os pecuaristas familiares buscam maneiras de se reproduzir, mesmo estando à margem dos processos modernos de produção e inserção mercadológica. Assim, o modo de vida dos pecuaristas familiares pode ser identificado a partir das principais características: i) os sistemas de cria; ii) o gado como mercadoria de reserva; iii) produção à base de campo natural; e iv) baixa utilização de insumos químicos externos (Ribeiro, 2018).

Para Azevedo e Fialho (2016), tais particularidades fazem com que a pecuária familiar se alicerce em um modo de sobrevivência, garantindo fluxo contínuo de bens, energia e matérias ao fazer uso dos recursos disponíveis na natureza, de forma abrangente e amistosa, preservando e mantendo fatores materiais, como os recursos naturais e paisagens. Ainda, segundo os autores, a forma de produção desenvolvida é considerada de baixo impacto, capaz de promover serviços ecossistêmicos de relevância, tornando-se, assim, fator estratégico para a preservação da natureza e contribuindo para a conservação do Bioma Pampa.

Assim, a pecuária familiar, ao fazer uso dos preceitos da agroecologia constroi e compartilha os saberes locais, possibilitando aos envolvidos se apropriar da carga cultural e social do lugar, através da observação dos fenômenos, aprimorando a atividade produtiva e a vida familiar, que passa a observar o campo como um complexo ecossistema e espaço de vida, visando à sustentabilidade econômica e ambiental de sua propriedade (Netto e Azevedo, 2019).

Para Cunha (2018), através dos princípios agroecológicos aplicados ao cenário rural e à produção de alimentos no Pampa, tem-se a possibilidade de perceber um caminho pelas quais diversas experiências isoladas possam se integrar, sob o viés da agroecologia. Seja agricultura ou pecuária, seja produzindo hortaliças ou leite. Para o autor, esse é o caminho para a transformação da lógica existente e das relações socioculturais, econômicas e ambientais. Corrobora Ribeiro (2018) afirmando que as características encontradas na pecuária familiar do Pampa Gaúcho auxiliam na identificação das potencialidades locais.

Os agricultores entendem a importância da conservação do Pampa para seus cultivos e criação animal, percebem e utilizam o potencial econômico das espécies em sistemas produtivos que aliam a produção de alimentos e a conservação da natureza, desfrutando da troca de saberes como uma estratégia de valorização do Bioma (Sandim et al., 2021). Nessa direção, a agricultura familiar, caracteriza-se como uma forma produtiva que coexiste na natureza, permitindo que o ambiente desempenhe sua resiliência de modo natural e proporcione o resgate cultural, a subsistência e a permanência do homem no campo, utilizando-se dos bens naturais de forma ambientalmente adequada e socialmente justa (Diedrich, Biondo e Bulhões, 2021).

Os agricultores familiares agroecológicos têm adotado práticas produtivas como forma de potencializar a reprodução socioeconômica familiar em um cenário adverso e em oposição ao modelo hegemônico de produção agrícola. Eles contribuem para promover qualidade, segurança alimentar e nutricional aos produtos ofertados, além de fortalecer a relação com os consumidores. Tais medidas ampliam a sustentabilidade rural e têm a potencialidade de galgar um desenvolvimento mais harmonioso e sustentável (Maciel, Troian e Breitenbach, 2023).

Por sua vez, a agroecologia pode ser entendida como um conjunto de princípios cuja base é a utilização de técnicas que garantam a preservação do meio ambiente, visando à agricultura efetivamente sustentável (Caporal e Costabeber, 2004). Logo, ela contrapõe-se ao uso abusivo de insumos industriais e ao ser considerada como uma ciência que busca o entendimento dos agroecossistemas complexos, tem como princípio a conservação e a ampliação da biodiversidade para produzir autorregulação e sustentabilidade (Altieri, 2011). Assim, a agroecologia é por um lado, o estudo de agroecossistemas e processos econômicos e, por outro, um meio para as mudanças sociais e ecológicas complexas (Gliessman, 2000).

A agricultura familiar é o lócus ideal para o desenvolvimento dessa lógica produtiva e suas principais vantagens são: o desenvolvimento econômico e social dos agricultores; agregação de valor aos produtos; maior valor comercial em relação ao convencional e maior vida útil no período pós-colheita; diversificação produtiva; geração de empregos; menor dependência de insumos externos; eliminação do uso de agrotóxicos; necessidade de poucos espaços para desenvolver a produção; envolvimento do produtor e seus familiares no cultivo, o que proporciona maior qualidade nos alimentos; e a possibilidade de redução de custos com a produção interna de insumos (Altieri, 2011; Caporal e Costabeber, 2004). Assim, Batista e Stoffel (2022) reforçam que os princípios da agroecologia, apresentam possibilidades de promover desenvolvimento, ao potencializar recursos locais, fazendo frente ao processo de modernização e padronização imposta pela agricultura convencional.

A agricultura familiar agroecológica produz alimentos saudáveis e sustentáveis resistindo às pressões de mercado e ao modelo hegemônico de agricultura (Maciel, Troian e Oliveira, 2024). A agricultura de base sustentável, a partir do sistema de produção agroecológico, revela-se como uma estratégia de negócio viável para os agricultores familiares, ao passo que potencializa a relação harmoniosa entre os seres humanos, o meio ambiente e a biodiversidade, alinhada à produção responsável de alimentos e do desenvolvimento sustentável no setor agrícola (Maciel e Troian, 2022).

Ademais, Brum, Rigon e Brum (2022) destacam que os sistemas produtivos familiares são relevantes para a promoção da sustentabilidade no Bioma Pampa, devido à resiliência, diversificação produtiva e oferta de produtos de qualidade. Os autores alertam a necessidade de considerar o desenvolvimento sustentável em sua integralidade e evidenciar a participação da agricultura familiar enquanto ator social, econômico e político do campo, com intenção de subsidiar políticas públicas sustentáveis de desenvolvimento para o Bioma Pampa. A seguir são descritos os procedimentos metodológicos do estudo.

3. Metodologia

O estudo possui abordagem qualitativa, caráter descritivo, elaborado através de estudo de caso (Yin, 2005). O caso estudado foi a visão dos agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos, situados no Pampa Gaúcho, sobre as transformações no território, a partir do processo de modernização agrícola. As técnicas de coleta de dados adotadas foram: entrevista semiestruturada e observação não participante. Realizaram-se onze entrevistas, seis com agricultores, quatro com pecuaristas familiares agroecológicos e uma com participante que é agricultor e pecuarista familiar, entre os meses de outubro de 2021 e fevereiro de 2022, mediante a utilização de roteiros de questões elaboradas previamente.

Para a escolha dos participantes considerou-se a realidade de cada agricultor e pecuarista familiar, seu papel no território, a disponibilidade e capacidade de fornecer informações. A seleção dos entrevistados ocorreu via técnica bola de neve, que é indicada para o estudo de grupos de difícil acesso, tendo em vista o pouco conhecimento sobre a população-alvo da pesquisa. Por isso, aceitaram-se indicações por participantes, que recomendam outros e, assim, sucessivamente (Vinuto, 2014). O contato com os entrevistados foi efetuado por ligações telefônicas ou pelo aplicativo de mensagens WhatsApp e nele foi solicitado o agendamento de visitas às Unidades Familiares de Produção (UFP).

A localização das UFP contempla as três microrregiões da Campanha Gaúcha: Campanha Meridional, Campanha Central e Campanha Ocidental (IBGE, 1990). O critério foi utilizado visando maior representatividade diante da dimensão do território pesquisado, que compreende os municípios de Bagé, Dom Pedrito, Hulha Negra, Lavras do Sul, Quaraí, Rosário do Sul e Santana do Livramento. A amplitude de abrangência da pesquisa é representada na Figura 1, com a localização dos pontos de referências de cada participante.

Figura 1
Localização das unidades familiares de produção dos agricultores e pecuaristas familiares participantes do estudo
Localização das unidades familiares de produção dos agricultores e pecuaristas familiares participantes do estudo
Fonte: Dados da pesquisa (2022).

As entrevistas foram gravadas, transcritas e a análise dos dados coletados ocorreu através da análise de conteúdo (Bardin, 2010). Para subsidiar as análises e possibilitar maior gama de informações, utilizaram-se diário de campo e travessia, combinados de forma a melhor reproduzir o ambiente em que cada família está inserida. Para manter a integridade da identidade dos participantes da pesquisa, os entrevistados foram apresentados por código de identificação: siglas “AF” para agricultores familiares ou “PF” para pecuaristas familiares, ou, ainda, a mescla dos dois códigos “APF”, representando a ordem cronológica das visitas realizadas. Na seção a seguir, evidenciam-se os resultados da pesquisa.

4.A estratégia da agropecuária familiar na promoção do Desenvolvimento Territorial

O Pampa Gaúcho é um território propício para o desenvolvimento de práticas produtivas agroecológicas e conservação do bioma, tanto relacionado a atributos materiais – vinculados ao ambiente natural e às questões produtivas de reprodução social – como atributos imateriais, que se expressam no modo de vida, cultura e identidade (Maia, Troian e Maciel, 2024).

A organização produtiva contribui para a promoção de práticas de produção agropecuária que geram externalidades positivas decorrentes de seu desenvolvimento, como: a compreensão de um contexto local único (Saquet, 2011); a produção de alimentos diversificados e qualificados com potencial de melhoria na segurança alimentar; preservação das características paisagísticas do território, mobilizando atores e o uso dos recursos disponíveis, para melhor utilizar as potencialidades inerentes a um contexto único, possibilitando produção e conservação dos recursos naturais (Santos, 2005).

A agropecuária familiar agroecológica possui características que a diferenciam da produção convencional no Pampa Gaúcho, que se vinculam à melhor utilização das potencialidades locais (Schneider e Tartaruga, 2004). Os principais aspectos se relacionam à resistência em produzir alimentos, mesmo em um cenário com baixa valorização e incentivo. Uma vez que, o mainstream agrícola é calcado na especialização produtiva de commodities, lavouras de grãos, diminuição do número de propriedades rurais, concentração de terras em poucos produtores, entre outros. A agropecuária familiar agroecológica no Pampa Gaúcho tem condições de mitigar efeitos causados pelo modelo agroexportador, igualmente tem ocorrido no contexto argentino, reconfigurando os territórios (Gárgano, 2024).

Apesar da alta valorização financeira no mercado internacional, a renda oriunda dessa produção não tem gerado desenvolvimento, de fato, para a região, muito menos geração de renda. Região que é considerada, historicamente, como atrasada e sem perspectiva de crescimento, com altos índices de pobreza e estagnação econômica. Além da degradação ambiental que, a partir do uso inadequado dos recursos naturais, pode atingir proporções irreversíveis, como o desaparecimento do ambiente de campos naturais (Maia, 2022).

Por outro lado, a produção desenvolvida pelos agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos fomenta a mobilização de atores e uso dos recursos, de forma responsável (Oliveira, 2020), com a proteção do capital sociocultural. Logo, esses atores se encontram no contramovimento produtivo fomentando a conservação dos recursos naturais (Pecqueur, 2005), garantindo produções livres de agentes nocivos, como agrotóxicos. Assim, destacam-se como oportunidade de reprodução socioeconômica, não dependente dos pacotes tecnológicos impostos pela agricultura moderna. E, diferentemente da produção de commodities, as produções de base familiar agroecológicas, sejam elas agrícolas ou pecuárias, prezam pela diversidade e qualidade produtiva, tornando-se elemento-chave para a região por manter as características locais, como a paisagem e a agrobiodiversidade, auxiliando na manutenção socioeconômica das famílias e dinamização da região.

Os agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos possuem formas de se relacionar com o meio ambiente mais próxima da sustentabilidade. Essas relações se expressam nas interações entre os indivíduos e o respeito à agrobiodiversidade e aos ciclos naturais que ocorrem no campo; além das práticas alinhadas à conservação do Bioma, perante o modo de vida particular do Pampa Gaúcho. Assim, a seguir, discute-se a estratégia e perspectivas de agricultores e pecuaristas familiares sobre as transformações no território, a partir do processo de modernização da agricultura.

4.1 Perspectivas sobre as transformações no território Pampa Gaúcho

O conjunto das principais características que auxiliam a traçar um perfil dos agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos participantes da pesquisa é definido a partir das seguintes particularidades: idade elevada (54 a 55 anos em média), maioria homens (sete), com ensino fundamental incompleto e casados. Os achados corroboram com o perfil da população rural no Brasil, evidenciado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2019). O Quadro 1 apresenta o perfil dos entrevistados, bem como suas principais atividades produtivas.

Quadro 1
Perfil e atividades produtivas dos participantes do estudo
Perfil e atividades produtivas dos participantes do estudo
Fonte: Dados da pesquisa (2022).

No que tange aos aspectos de produção, a agropecuária agroecológica presente no Pampa Gaúcho é diversa e heterogênea, conforme expõe o Quadro 1. São inúmeras as atividades produtivas desenvolvidas, das quais se destaca: olericultura, fruticultura, cultivo de grãos, cereais e flores ornamentais. Convém destacar que a olericultura está presente nas onze UFP visitadas no estudo. Sobre a produção pecuária, cabe destacar: a criação de bovinos, ovinos, caprinos, equinos, aves, suínos e peixes. Há na pecuária proeminência para criação de bovinos e ovinos. Há ainda um terceiro grupo de produção, que compreende a agroindústria e artesanato, como os produtos, a saber: derivados de origem animal (queijo, embutidos, doces de leite), derivados de origem vegetal (doces, sucos, geleias, compotas, pães) e artesanatos (vestuário, itens decorativos e diversos).

Os aspectos que dizem respeito às produções oriundas da agropecuária familiar agroecológica presentes no Pampa Gaúcho evidenciam a importância das categorias sociais no que tange à produção de alimentos, mas também questões socioculturais, presentes nos próprios alimentos e nos agroindustrializados, bem como nos itens de artesanatos tradicionais do território. A principal característica das produções é em questões materiais a relação com o Pampa, o campo nativo. Em aspectos imateriais é no modo de fazer, pautado em conhecimento antigo. De acordo com Maia e Troian (2022) e Maia, Troian e Maciel (2024), esses elementos combinados, compõem características que afirmam e consolidam o território.

Nesse sentido, ao buscar compreender as perspectivas dos agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos que residem e desenvolvem as atividades produtivas no Pampa Gaúcho sobre as transformações no território, considerando os impactos na modernização agrícola, destacam-se argumentos sobre os atuais rumos dessa atividade no Pampa Gaúcho e as alterações que elas causam na vida e na produção. Assim, através das análises, foi possível o estabelecimento de duas categorias, a saber: i) causam alterações; e ii) não causam alterações.

Na categoria em que os atuais rumos da atividade agropecuária no Pampa Gaúcho causam alterações na vida e atividade produtiva, foram identificados dez participantes, sendo seis agricultores familiares e quatro pecuaristas familiares (AF01, PF02, AF03, AF04, AF05, AF06, PF07, PF08, AF10 e PF11). Para representar os discursos, estruturam-se duas subcategorias: i) alterações no contexto de vida; e ii) alterações na produção.

Na subcategoria alterações no contexto de vida, os atuais rumos das atividades agropecuárias no Pampa Gaúcho causam mudanças nos aspectos gerais do território, que permeiam as questões produtivas. Integram a subcategoria seis entrevistados, sendo quatro pecuaristas familiares (PF02, PF07, PF08 e PF11), isto é, a totalidade de pecuaristas participantes do estudo e dois agricultores familiares (AF04 e AF05). Para eles, há amplo sentido nas relações com o território, em que os rumos das atividades agropecuárias estão afetando questões diversas e distintas no Pampa Gaúcho. O panorama se reflete em aspectos produtivos, mas vão além, causando alterações na sociedade, na economia e no ambiente como um todo. O Quadro 2 ilustra o cenário sobre as questões produtivas e ambientais que sofrem com o avanço do monocultivo da soja no Pampa Gaúcho.

Quadro 2
Alterações no contexto de vida do Pampa Gaúcho
Alterações no contexto de vida do Pampa Gaúcho
Fonte: Dados da pesquisa (2022).

Fonte: Dados da pesquisa (2022).

Observa-se a preocupação com o avanço dos monocultivos, posto que o contexto de vida no Pampa Gaúcho tem sido gradativamente alterado através da inserção da agricultura moderna, ao longo das últimas décadas. Em um primeiro momento, altera-se o ambiente natural que, por consequência, causa efeitos nos atores locais e na economia do território. Matei e Filippi (2012), Delanoy, Viana e Troian (2020) e Maia e Troian (2020) abordam sobre as mudanças provocadas a partir da inserção da agricultura moderna no Pampa Gaúcho. Segundo os autores, essas transformações alteram drasticamente o ambiente natural, impactando em fatores socioeconômicos e ambientais.

Netto e De Vargas (2019) salientam que transformações no território, alteram as relações sociais e a vida no meio rural, convertendo e mudando as características intrínsecas da vida no Pampa Gaúcho. Assim, conforme Matei e Filippi (2012), torna-se necessário a valorização do território do Pampa e de todos os recursos inerentes ao contexto de vida, aliado a um planejamento em perspectivas territoriais, de forma adequada no sentido de buscar um novo modelo de desenvolvimento. Para Gárgano (2024), essa é a contribuição da agroecologia nos territórios, principalmente no que tange à mitigação dos efeitos provocados pelo agronegócio.

Maia e Troian (2022) destacam a importância de fatores naturais considerando as modificações em curso no território, as quais têm origem quando a agricultura moderna se instala no Pampa Gaúcho. Evento que os autores chamam de terceiro ciclo das transformações no território. Isso porque antes do terceiro ciclo, vivia-se uma estabilidade pecuária, dinâmica homogênea no Pampa. Contudo, com a inserção da agricultura moderna, baseada em monocultivos, quebra-se a dinâmica da atividade pecuária e se iniciam transformações no território.

Na subcategoria alterações na produção, os atuais rumos das atividades agropecuárias no Pampa Gaúcho, repercutem em questões mais direcionadas aos aspectos produtivos. Fazem parte desta subcategoria quatro entrevistados, todos são agricultores familiares (AF01, AF03, AF06 e AF10). O Quadro 3 ilustra as falas dos entrevistados sobre alterações no contexto de produção da agricultura familiar no Pampa Gaúcho.

Quadro 3
Alterações na produção do Pampa Gaúcho
Alterações na produção do Pampa Gaúcho
Fonte: Dados da pesquisa (2022).

Para os entrevistados, as principais alterações em relação à atividade agropecuária no Pampa Gaúcho, estão relacionadas à aplicação de produtos químicos, em monocultivos e ação gera externalidades negativas com efeitos nas unidades produtivas agroecológicas, conforme apresenta o Quadro 03. Já a agricultora familiar AF10, complementa que o uso de agrotóxicos causa impactos negativos e severos principalmente à produção de alimentos (para autoconsumo e comercialização) nas atividades produtivas no Pampa Gaúcho.

As produções monocultoras que empregam agrotóxicos, como as plantações de soja, estão cada vez mais próximas das unidades de produção familiares agroecológicas, resultando em malefícios ao meio ambiente e à saúde (Maciel, Troian e Oliveira, 2024). A utilização indiscriminada de agrotóxicos pode acarretar diversos problemas para o meio ambiente, como a contaminação do ar, das águas e do solo, causando a morte de animais e plantas. Essas substâncias podem se deslocar no ambiente através dos ventos e da água da chuva para locais distantes de onde foram aplicados, causando efeitos drásticos em espécies não alvo, afetando a biodiversidade, as redes alimentares e os ecossistemas aquáticos e terrestres (Gliessman, 2000; Fernandes, 2019).

Conforme Caporal e Costabeber (2004) há o consenso de que o atual modelo de desenvolvimento rural e de agricultura convencional é insustentável e tem sido responsável por crescentes danos ambientais e pelo aumento das diferenças socioeconômicas no meio rural, dada à dependência de recursos não renováveis e limitados.

O avanço da soja no Pampa, além de toda a cadeia de desequilíbrios resultante da expansão desse modelo produtivo causam, em alguma medida, alterações ao modo de vida de agricultores e dos pecuaristas familiares agroecológicos do Pampa Gaúcho. Fatores já apontados por Matei e Filippi (2012), Delanoy, Viana e Troian (2020) e Maia e Troian (2020), no que tange às transformações no Pampa Gaúcho e apontados por Gárgano (2024), no que compete às transformações que o agronegócio causa a territórios argentinos. Dentre os fatores que alteram o modo de vida no território, pode-se citar o esvaziamento demográfico, a concentração de terras em poucos proprietários, o êxodo rural, perdas sociais e culturais, degradação ambiental, substituição do modo de vida tradicional, dentre outros efeitos nocivos ao território.

Na categoria que representa os agricultores e pecuaristas que acreditam que a inserção da modernização agrícola não causa modificações nos rumos da atividade agropecuária no Pampa Gaúcho, foi identificado apenas um participante, o aposentado rural APF09. A fala do entrevistado retrata esse ponto: “Não tem [impactos na agropecuária e no território]. Preservado, o verde, esse movimento aí! A fazenda [pecuária] mais grande é aqui do “véio”, que eu trabalhava, é quase toda essa volta aí e lá onde eu morava também” (APF09 – Lavras do Sul). A percepção do entrevistado se diferencia dos demais, principalmente por ser aposentado rural e não ter atividades produtivas voltadas ao comércio ou obtenção de renda. Sua produção agrícola e pecuária é exclusiva para o autoconsumo. Para o participante, a importância do território está na produção atrelada à renda (pois antes de ser aposentado, vivia de seu trabalho como peão de estância). Entretanto, em questões de reprodução social no território e impactos da modernização da agricultura nas atividades agropecuárias no Pampa Gaúcho não foram mencionadas.

Outro elemento que pode corroborar a afirmação do entrevistado se vincula à localidade onde ele está inserido. Geograficamente, as atividades de modernização da agricultura ainda não estão presentes ou perceptíveis. Trata-se de uma região de difícil acesso, estradas precárias, matas, rios e afloramentos de rochas, que podem dificultar ou retardar o avanço das atividades modernizadas. Assim, na região são conservadas formas de cultivos e criações antigas, baseadas apenas nos recursos disponíveis do território. Tendo em vista, os discursos dos entrevistados em relação a alterações no Pampa Gaúcho, a Figura 2 ilustra a categorização dos resultados do estudo.

Figura 2
Categorização dos participantes do estudo quanto à percepção sobre as transformações no território
Categorização dos participantes do estudo quanto à percepção sobre as transformações no território
Fonte: Dados da pesquisa (2022).

Os aspectos encontrados nesta pesquisa corroboram aos achados de Ribeiro (2009), Neske, Marques e Borba (2014) e Borba (2016), os quais afirmam que a modernização da agricultura não se consolidou em áreas marginais do Pampa. Ou seja, em localidades afastadas e de características físicas peculiares, como relevos acidentados, pequenas serras, matas e rios, além de lugares distantes dos centros urbanos. Para os autores, onde a modernização agrícola não chega, é conservado o modo de vida tradicional do Pampa Gaúcho, alicerçado principalmente na pecuária familiar, como é possível visualizar na Figura 02, na qual os pecuaristas familiares estão concentrados na subcategoria de alterações no contexto de vida, enquanto os agricultores familiares estão distribuídos entre as subcategorias.

Portanto, ao revelar as perspectivas de agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos sobre as transformações no território Pampa Gaúcho, a partir do processo de modernização da agricultura, observa-se que os agricultores familiares destacam que há impactos, particularmente desfavoráveis, que causam alterações no território e no contexto de vida dos atores locais. Para eles, esses elementos se expressam nas questões vinculadas ao desenvolvimento da produção. Já os pecuaristas familiares percebem que a modernização agrícola está causando alterações diretamente relacionadas ao cultivo da soja, alterando não apenas o aspecto produtivo do território, mas influenciando as questões de vida, aspectos sociais, ambientais e econômicos no Pampa.

Nesse sentido, a estratégia de promoção do desenvolvimento territorial fica evidenciada na agropecuária agroecológica presente e em movimento no Pampa Gaúcho. A afirmação é assentada nos casos em que a agroecologia, mais do que uma forma de produzir, orienta o modo de vida no território. Destaca-se que o modo de vida é embasado no uso de atributos materiais, como solo, relevo, clima, vegetação e nos atributos imateriais, como a cultura, tradições, saber-fazer, conhecimento antigo entre outros. A revelação e combinação destes recursos aliados ao modo de vida de agricultores e pecuaristas familiares do Pampa Gaúcho é o que permeia a reprodução social das categorias, contribuindo para a conservação e consolidação do território, constituindo assim uma sólida estratégia para o alcance do desenvolvimento territorial.

5 Considerações finais

O estudo objetivou analisar as perspectivas de agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos sobre transformações no território Pampa Gaúcho, a partir do processo de modernização da agricultura. No que tange às perspectivas sobre as transformações no território, o estudo evidencia que, para agricultores e pecuaristas familiares, há impactos desfavoráveis, causadores de transformações no Pampa e em todo contexto de vida local. Ao passo que, para os agricultores familiares, a modernização agrícola afeta as questões materiais e vinculadas à produção. Já para pecuaristas familiares, além de aspectos produtivos, a modernização da agricultura altera o modo de vida no Pampa Gaúcho, influenciando negativamente nos aspectos ambientais, sociais e econômicos do território. Assim, em contrapartida ao modelo de agronegócio, tem-se na agropecuária familiar a possibilidade de uma sólida estratégia no que tange a conservação do Pampa Gaúcho, assentado no uso dos recursos disponíveis e no modo de vida singular visando, deste modo, à promoção do desenvolvimento territorial.

É possível traçar direcionamentos ao desenvolvimento territorial justo e equilibrado, que valorize a sociedade e o ambiente como um todo, incluindo questões produtivas e econômicas. Os caminhos que apontam para o desenvolvimento territorial para o Pampa Gaúcho podem ser obtidos pela busca do equilíbrio social, ambiental e econômico. Isso pode ser possível, por exemplo, através da distribuição de terras, da valorização do poder público e da sociedade local sobre essas importantes questões territoriais, da disponibilização e acesso ao crédito a agricultores e pecuaristas familiares agroecológicos, acesso aos canais de comercialização, entre outros.

Embora exista um contraste nos modos de desenvolvimento no campo, de um lado agricultores e pecuaristas familiares produzindo de forma agroecológica e de outro as grandes propriedades rurais monocultoras e pecuária extensiva e empresarial. Os primeiros se destacam por promover a sustentabilidade do Bioma Pampa, bem como a sua visão de desenvolvimento que prioriza a conservação da biodiversidade em oposição às práticas hegemônicas inerentes à região. Assim, percebe-se que a contribuição da produção familiar agroecológica para a sustentabilidade do Pampa tem relevância significativa como prática agrícola, pecuária, social, cultural, econômica e ambiental.

Espera-se que o estudo possa contribuir para o debate sobre a agricultura e pecuária familiar como promotora de desenvolvimento de regiões historicamente deprimidas e estagnadas. Ainda, que ele desperte a curiosidade e instiga investigações futuras o Pampa Gaúcho, sobretudo a partir da perspectiva do território, considerando seus atributos materiais e imateriais, bem como a inter-relação entre homem e ambiente. Questões essas, que ultrapassam os aspectos produtivos e econômicos, alvos de diversas investigações, e englobam fatores sociais, culturais e ambientais, para assim obter melhores perspectivas para o desenvolvimento dos territórios.

Contribuição de autoria


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A pesquisa foi elaborada no âmbito do grupo de pesquisa CNPq Círculo de estudos em Desenvolvimento e Ruralidades (CEDER) (https://sites.unipampa.edu.br/ceder/), ela contém resultados parciais da pesquisa de mestrado do primeiro autor.

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Notas

1 A pesquisa foi elaborada no âmbito do grupo de pesquisa CNPq Círculo de estudos em Desenvolvimento e Ruralidades (CEDER) (https://sites.unipampa.edu.br/ceder/), ela contém resultados parciais da pesquisa de mestrado do primeiro autor.
2 A utilização do conceito de segurança alimentar relaciona-se ao fato de que ela alerta para a importância de sistemas agroalimentares sustentáveis, garantindo a promoção de dietas seguras e saudáveis, com menor pegada de carbono, que protejam e conservem o meio ambiente e a biodiversidade, em oposição ao modelo de produção convencional, o qual apresenta limitações como a contaminação dos alimentos por resíduos de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos.
3 Conhecido como Campos do Sul ou Sulinos, o Bioma Pampa abrange de cerca de 2% do território nacional (176,5 mil km²). Constitui-se, especialmente, por vegetação campestre (gramíneas, herbáceas e algumas espécies arbustivas). No Brasil, o Pampa está restrito ao estado do Rio Grande do Sul, ocupando cerca de 63% do território gaúcho. Os Campos da Região Sul do Brasil são denominados como “Pampa”, pelo termo indígena que significa “região plana” (IBF, 2024).
4 A primeira revolução agrícola ocorreu há dez mil anos, no período neolítico. Nessa época histórica, os homens migraram do sistema de caça e coleta para a agricultura (Veiga, 1991).
5 Estabelecimento rural destinado à criação de gado, típico da região do Pampa Gaúcho.

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