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				<journal-title>Educação &amp; Sociedade</journal-title>
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					<subject>DOSSIÊ 1</subject>
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				<article-title>SOCIALIZAÇÃO POLÍTICA</article-title>
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				<season>Oct-Dec</season>
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		<disp-quote>
			<p><italic>A questão de saber se as novas gerações são mais ou menos politizadas em relação às mais velhas é algo que não se pode responder de modo unívoco. Porque toda geração retoma em parte os usos da cidadania e os modos de participação política daqueles que as precederam, mas elas também recompõem e reinventam essa herança. Continuidades e rupturas se ajustam em função de eventos, de circunstâncias, assim como pela evolução das instituições e do sistema político</italic> (Anne Muxel).</p>
		</disp-quote>
		<p>O ano de 2016 entrará para a história do Brasil sob o signo da mais profunda crise política vivenciada no período pós-regime militar: o ano em que nossa recente, embora a mais “longa”, experiência democrática foi abalada por um processo de impedimento da presidenta eleita, Dilma Roussef, pela posse do vice-presidente, Michel Temer, e pelo evidente aprofundamento da política de ajuste fiscal e austeridade no controle dos “gastos” públicos, já iniciada no governo do Partido dos Trabalhadores (PT). Essa descrição sumária dos episódios e efeitos mais marcantes desse processo, que se desenrolou ao longo de quase dois anos, não chega sequer a constituir uma pálida exposição do cenário político multifacetado e contraditório - que envolveu diretamente diferentes setores, movimentos e organizações políticas -, cuja compreensão exigirá ainda tempo e rigorosos esforços de análise e interpretação. No entanto, é possível identificar, grosso modo, alguns “fenômenos” que se destacaram na cena pública nos últimos dois anos: o surgimento do dito “antipetismo”, nesse momento associado a um suposto combate à corrupção, marcado por manifestações de ódio e intolerância que chegaram a se desdobrar em agressões físicas contra militantes do PT e pedidos de retorno da ditadura civil-militar; a divisão do campo da esquerda em um amplo espectro de posições - dos defensores do governo Dilma à bandeira do “Fora Todos”; o ascenso de um discurso conservador multifacetado, com fortes traços religiosos e meritocráticos, que tende ao ataque às minorias, bem como a determinadas políticas de redistribuição de renda e/ou afirmativas; o desencantamento de parte significativa da população em relação à política que vem se materializando, nas urnas, em um número crescente de votos brancos, nulos e abstenções.</p>
		<p>Vale lembrar que esses fatos ocorreram muito proximamente da data que marcou os 50 anos do golpe militar no Brasil, e em um momento no qual também houve a conclusão dos trabalhos das “Comissões da Verdade” por todo país, primeiro esforço concreto e sistematizado do Estado Brasileiro na investigação e no reconhecimento dos crimes cometidos pelo próprio Estado contra civis durante a ditadura civil-militar, o que levou a questionamentos profundos sobre o que poderia explicar um suposto “apagamento” ou “esquecimento” dos fatos relacionados a um período tão recente (e sombrio) da história do Brasil. Ignorância dos episódios? Falta de informações? Ausência de discernimento?</p>
		<p>Embora, evidentemente, não seja o objetivo desta publicação realizar uma análise dos acontecimentos políticos desse período, não resta dúvida que muitas de suas dimensões remetem a questões que serão aqui tratadas e poderiam ser assim sintetizadas:</p>
		<p>
			<list list-type="bullet">
				<list-item>
					<p>Sobre quais elementos, objetivos e subjetivos, se sustentam as tomadas de posição de caráter político ou em relação ao mundo da política?</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Como se constituem as opiniões, os sentimentos, os valores, as posições e os comportamentos em relação à política?</p>
				</list-item>
				<list-item>
					<p>Qual é o papel de diferentes e variados processos de socialização - dos não intencionais aos processos formais de educação - na formação dos modos como os indivíduos se relacionam, se comportam e atuam no mundo da política?</p>
				</list-item>
			</list>
		</p>
		<p>Podemos concordar que o acesso a determinadas informações é fundamental para a constituição de diferentes pontos de vista sobre a realidade. No entanto, informações não são conteúdos neutros, apreendidos por todos e qualquer um do mesmo modo; suas assimilação e incorporação passam pelo crivo das emoções e das predisposições individuais e coletivas a se compreender o mundo, enfim, depende dos quadros de percepção cognitiva e moral resultantes de uma dada posição no mundo social. Assim, a análise dos processos de formação de certa posição política ou em relação à política não pode ser concebida somente em termos de acesso ao “conhecimento dos fatos”, mas exige que nos debrucemos, de um lado, (i) sobre a compreensão dos processos que formaram os esquemas de percepção e avaliação da realidade de determinados indivíduos, ou seja, dos processos de socialização; e, de outro, (ii) sobre o “peso” das conjunturas ou dos acontecimentos de ordem social, econômica e política, o que inclui as transformações das próprias instituições e movimentos políticos, que podem precipitar a tomada de certas posições.</p>
		<p>O presente dossiê tem como objetivo central apresentar um conjunto de artigos que assumem por objeto de estudo processos de transmissão, formação e aquisição de opiniões, preferências, valores, condutas e comportamentos em relação ao “mundo da política”. A premissa que sustentou sua organização é de que o modo como cada indivíduo e/ou grupo social percebe e reage aos eventos de ordem política é o resultado de diversos processos educativos, que se desenvolvem em variadas instâncias socializadoras, tais como família, escola, trabalho, igreja, universidade e diferentes espaços associativos. Portanto, a compreensão da emergência de determinadas tendências de comportamentos políticos passa necessariamente pela análise rigorosa e minuciosa de tais processos de caráter educativo. Além disso, pretende-se apresentar como as “relações entre educação e política” podem ser concebidas em, pelo menos, duas dimensões fundamentais: de um lado, os processos educativos em si possibilitam a formação de determinados modos de se conceber e se relacionar com fatos, eventos e instituições políticas; de outro, a experiência de participação política em si constitui um processo educativo específico, capaz de ressocializar indivíduos de diferentes grupos sociais, faixas etárias ou gerações, alterando seus quadros de percepção e avaliação das questões de ordem política, inicialmente formados ao longo da socialização primária.</p>
		<p>Os processos de transmissão e formação de opiniões, preferências, condutas e comportamentos em relação à política constituem o objeto de investigação do campo de estudos que se convencionou chamar de “Socialização Política”. A rigor, seria impossível separar a socialização política dos processos gerais de formação de crenças, valores e atitudes concernentes à existência humana, à relação com o outro, às hierarquias sociais e às regras de comportamento, bem como à significação moral e religiosa dos atos. No entanto, não se pode negar que seja possível apreender, de diferentes formas, os processos de transmissão que concernem especificamente ao mundo da política. O conjunto de artigos que compõem esse dossiê, apresentados por autores de diferentes universidades e países, pretende apresentar um amplo e consistente panorama de resultados de pesquisas, constituição de objetos de análise e possibilidades teórico-metodológicas concernentes a diferentes processos de socialização política.</p>
		<p>Os organizadores do dossiê, Kimi Tomizaki, Hamilon Harley-Carvalho e Maria Gilvania Valdivino Silva, analisam, no primeiro artigo, “Socialização política e politização entre famílias do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto”, as especificidades da socialização política e a politização entre as classes populares, com ênfase sobre o papel da família na aquisição de valores, da ressignificação de valores e atitudes em função de determinadas experiências individuais, conjunturas econômicas e políticas e a militância. Os dados apontam que os militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), cujo vetor de politização mais evidente é a vulnerabilidade econômica e social, vivenciam, ao longo de suas trajetórias, um complexo processo de “negociações” e “acomodações” entre os valores familiares e aqueles adquiridos na militância, o que resulta em um quadro que integra valores das classes populares e alguns princípios do ideário socialista. Seguindo ainda na discussão sobre o papel da família nos processos de socialização política e politização, Catherine Leclercq, no artigo “Nativos mas não cativos: ‘no berço’ das socializações comunistas e a fabricação de papéis militantes”, apresenta o caso dos herdeiros de “dinastias comunistas”, nascidos em famílias e universo de sociabilidades marcados por forte influência do Partido Comunista Francês (PCF), com a seguinte interrogação: seria correto pensar que a socialização política a que são submetidos desde a primeira infância, em um meio social e local no qual a instituição comunista é onipresente, só poderia produzir um <italic>habitus</italic> em “osmose” durável em relação aos modelos partidários? Nesse sentido, o artigo discute como se opera a constituição precoce do <italic>habitus</italic> militante, menos por uma pedagogia explícita e, sobretudo, por meio de uma aprendizagem dos corpos e das mentes, em diálogo com as transformações da instituição partidária e as trajetórias sociais dos “nativos”. Lucia Rabello de Castro e Felipe Salvador Grisolia, no artigo “Subjetivação pública ou socialização política? Sobre as articulações entre o ‘político’ e a infância”, ampliando a discussão em torno da família para abarcar também a instituição escolar, problematizam o conceito de socialização política a partir das novas posições ocupadas pelas crianças como sujeitos de fala e de direitos, tendo em vista discutir a emergência do político nas relações intergeracionais, entendidas como espaços de disputas em função do crescente mal-estar contido nas relações de transmissão educacional. O artigo apresenta a noção de subjetivação pública como aquela que pode dar conta do processo de crescente visibilização das disputas e demandas geracionais no contexto escolar.</p>
		<p>Abordando diretamente a questão da socialização política dos jovens, o artigo “Socialização política e internet na construção de uma cultura política juvenil no Sul do Brasil”, de Marcello Baquero, Rute Baquero e Jennifer Azambuja de Morais, trata da disseminação de novas ferramentas tecnológicas, sobretudo a internet, como espaços de formação de identidades coletivas, constituição de capital social e comunicação das demandas da juventude perante o Estado, constituindo-se, portanto, uma nova modalidade de socialização política. A internet e, por consequência, os sites de redes sociais estão gerando um ambiente no qual ocorrem novas formas de interação social entre o campo político e a sociedade, e os avanços tecnológicos de comunicação podem ser poderosos indutores de transformação de atitudes e de comportamentos dos cidadãos, bem como da formação de identidades coletivas entre os jovens. Assim, o artigo problematiza como os jovens internalizam normas e valores políticos em um contexto de novas tecnologias de comunicação e como esses elementos ajudam a construir uma imagem do mundo político e as expectativas que são geradas em relação ao futuro. Em outra perspectiva, Marília Pontes Sposito e Felipe de Souza Tarábola, no artigo “Experiência universitária e afiliação: multiplicidade, tensões e desafios da participação política dos estudantes”, discutem a necessidade de - diante de um quadro contraditório de redução de participação dos jovens em espaços com partidos e sindicatos, mas de aumento de adesão juvenil em atos e manifestações de rua - investir esforços investigativos para esmiuçar de que “política” se trata, afinal, quando pensamos a participação ou o engajamento do jovem contemporâneo. Assim, o artigo apresenta uma reflexão sobre as diferentes formas de ação de jovens universitários de algumas instituições de ensino púbicas do Estado de São Paulo, tendo em vista contribuir com o debate sobre o atual significado e experiência de engajamento juvenil em um panorama de declínio de uma dada concepção de militantismo político e, ao mesmo tempo, de crescimento de novas formas de atuação na esfera pública.</p>
		<p>Finalmente, os três últimos artigos tratam de processos de socialização política intrinsicamente associados a instituições, mais especificamente, escola e sindicato. Samara Mancebo Lerner, em “Entre o moderno e o autoritário, o liberal e o conservador: o projeto de socialização político-ideológico contido na disciplina de Estudo de Problemas Brasileiros”, analisa a obrigatoriedade, durante o regime militar, da disciplina “Estudo de Problemas Brasileiros” (EPB) nos cursos de Ensino Superior com o propósito de preparar moral e civicamente os jovens para, dentre outros objetivos, defender a “democracia”, os valores espirituais e éticos da nacionalidade e contribuir para a segurança e o desenvolvimento nacional. A tríade Deus-Pátria-Família permeava o conteúdo da disciplina e fazia frente aos inimigos que deveriam ser vencidos por meio de sua socialização: a ameaça comunista, o movimento estudantil e o esfacelamento dos valores morais cristãos associados a eles. Assim, o artigo contribui tanto com os estudos que enfocam projetos de socialização política conduzidos pelo Estado, via processo educacional, quanto para ampliar nosso entendimento sobre a compreensão da ideologia que deu sustentação ao golpe de 64 e ao regime que o sucedeu, assim como valores e princípios que orientavam e articulavam, ao mesmo tempo, ações: desenvolvimentistas, mas repressivas; e modernas, mas conservadoras e autoritárias. No artigo, “A socialização política dos estudantes no plural: dos modelos de integração às gramáticas políticas”, de Pedro Jorge Caetano, trata das inquietações da sociedade europeia, mais especificamente de Portugal, concernentes à eficácia da transmissão intergeracional de determinadas práticas e valores associados a uma (con)vivência democrática plena, com ênfase sobre o papel da escola nesse processo de formação cidadã das novas gerações. No entanto, identifica-se que a escola sofre de muitos problemas disciplinares que se tornaram uma “questão” a ser resolvida por diferentes instâncias do sistema e ensino, tornando tais problemas como incumprimentos, os alunos como infratores e os professores como guardiões da aplicação uniforme da lei. Por essa abordagem, privilegiando os instrumentos disciplinares, os alunos são considerados insuficientemente socializados, sendo que a punição visa precisamente o fortalecimento da regra que foi transgredida, como suplemento à socialização. Uma perspectiva que Durkheim, há cerca de um século, em <italic>L’Éducation Morale</italic>, havia reconhecido como anacrônico na instituição escolar moderna. Ela corresponde ao “governo de polícia” de Foucault, segundo o modelo da ordem, da disciplina preventiva e da integração no todo. Os dados da pesquisa foram coletados tendo em vista apreender as percepções e as ações dos estudantes do ensino secundário português - questionários para 725 estudantes de 4 escolas da Grande Lisboa -, e a análise sugere que os estudantes mobilizam diferentes gramáticas políticas em situação e, como tal, mostram envolvimentos qualitativamente contrastados relativamente às regras escolares. Fechando o dossiê, Karel Yon, no artigo “Os efeitos de socialização política de um sindicalismo ‘apolítico’: um estudo de caso”, realiza uma análise processual do engajamento político no interior da <italic>Confédération Force ouvrière</italic>, interrogando os efeitos de uma socialização política que se legitima tomando distância em relação à própria política. Esse caso demonstra que a desconfiança em relação à política pode facilitar ou dificultar a carreira sindical em determinados espaços, assim como as relações interpessoais e aprendizagens militantes conduzem a um determinado modo de se conceber o trabalho sindical, sua função e seu lugar em relação, sobretudo em relação à política sindical. Observando os agentes no curso de diferentes ações sindicais, tais como manifestações públicas ou cursos de formação, foi possível compreender que a distância em relação à política não poderia ser considerada com uma “cegueira” por parte desses sujeitos; tratava-se, sobretudo, de uma condição para a “ação legítima” no interior desse campo sindical, uma regra pragmática que regia suas interações interna e externamente ao sindicato. Nesse sentido, não se tratava de um fenômeno antagônico, mas de uma modalidade específica de socialização política.</p>
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