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Avaliação do perfil de prescrição de dentifrícios fluoretados por cirurgiões dentistas em crianças menores de 6 anos
Evaluation of the prescription profile of fluoridated dentifrices by dentists in children under the age of six years
Avaliação do perfil de prescrição de dentifrícios fluoretados por cirurgiões dentistas em crianças menores de 6 anos
ConScientiae Saúde, vol. 17, núm. 1, pp. 32-40, 2018
Universidade Nove de Julho

Recepção: 22 Junho 2017
Aprovação: 02 Março 2018
Resumo: Introdução: A escovação com dentifrício fluoretado é o melhor meio para prevenir a cárie dentária, independente da idade. Objetivo: Avaliar o perfil de prescrição de dentifrício fluoretado por cirurgiões dentistas em crianças menores de 06 anos. Métodos: Foram entrevistados 62 odontólogos da rede pública do município de Cascavel – PR, e entregue um questionário com seis questões específicas. Resultados: Os cirurgiões dentistas relataram prescrever dentifrício fluoretado (64,5%), e orientam a quantidade a ser colocada na escova (93,5%), também conhecem sobre toxicidade do flúor e as causas da fluorose. Quanto a idade indicada para início da escovação com dentifrício fluoretado as prescrições foram a partir dos 6 anos de idade (24,2%) ou quando a criança soubesse cuspir (17,7%). Conclusão: Os entrevistados prescrevem dentifrício fluoretado para crianças menores de 6 anos de idade. Porém grande parte diferiu sobre a concentração ideal de flúor que deve ser utilizada, além da idade inicial que deve ser prescrito o creme dental fluoretado.
Palavras-chave: Criança, Dentifrícios, Escovação dentária, Flúor.
Abstract: Introduction: Flossing with fluoride dentifrice is the best way to prevent tooth decay, regardless of age. Objective: To evaluate the prescription profile of fluoridated dentifrice by dentists in children under 06 years of age. Methods: We interviewed 62 dentists from the public service of the county of Cascavel - PR, and delivered a questionnaire with six specific questions. Results: Dentists reported prescribing fluoride dentifrice (64.5%), guide the amount to be placed on the toothbrush (93.5%), also know about fluorine toxicity and the causes of fluorosis. As to the age indicated for the beginning toothbrushing with fluoridated dentifrice the prescriptions were from the age of six years (24.2%) or when the child knew how to spit (17.7%). Conclusion: Interviewees prescribe fluoridated toothpaste for children under 6 years of age. However much of it differed on the ideal concentration of fluoride that should be used in addition to the initial age that should be prescribed fluoride toothpaste.
Keywords: Child, Dentifrices, Toothbrushing, Fluorine.
Introdução
Desde a sua propagação o dentifrício fluoretado já apresentava benefícios em sua utilização na prevenção e controle da cárie dentária. Porém, com o surgimento da fluorose dentária, que ocorre devido à ingestão de forma inadequada do flúor, como também o risco de toxicidade, levantou-se a dúvida se deveria ser usado na primeira infância1,2.
A fluorose dentária é classificada como uma toxicidade crônica que decorre da ingestão de fluoretos durante a formação e mineralização dos dentes. O que vai determinar a sua aparência será a dose que essa criança foi exposta. O esmalte dentário acometido pela fluorose se apresenta mais poroso, e em função disso, a aparência dos dentes se altera3. Porém, apenas o flúor verdadeiramente absorvido tem potencial de causar fluorose, todavia nem todo flúor que é ingerido é absorvido2. Destaca-se assim a prevenção da fluorose dentária em pacientes menores de 6 anos, que corresponde ao período de mineralização do esmalte, e isto, se o flúor for usado em excesso, ressaltando a importância da orientação quanto a sua utilização4.
O biofilme sobre a superfície dos dentes gerado por diversos tipos de microrganismos, quando em contato com açúcares fermentáveis ocasionam uma queda no pH, a medida que este atinge valores abaixo de 5,5 inicia a desmineralização do esmalte. Ciclos de desmineralização e remineralização ocorrem ao longo do dia. Quando a perda de mineral do dente for maior que a reposição de mineral pela saliva, surgem as lesões de cárie, onde primeiramente tem aparência de manchas brancas opacas e, em período mais evoluído sob forma de cavidades5. O fluoreto de cálcio que se forma a partir de concentrações altas (>1000ppm) na saliva serve como um reservatório local, quando necessário, ou seja, quando o pH cai, é então dissolvido, liberando o íon reagindo com cálcio na superfície dentária e no biofilme, intervindo no processo da cárie. Devido a estes episódios acidogênicos frequentes devem-se utilizar produtos de baixa concentração de flúor em altas frequências, como, por exemplo, os cremes dentais fluoretados2.
Os dentifrícios denominados como convencionais ou ainda de concentrações padrão dispõem de uma concentração em torno de 1000 a 1500 ppm, comumente encontrados sob forma de fluoreto de sódio ou monufluorfosfato de sódio6. Foi certificado que apenas dentifrícios com concentrações de 1000 ppm de flúor ou mais tem efeito anticárie e que estes produtos com concentrações menores não são eficazes, nem conferem proteção contra a fluorose e não possuem recomendações científicas7. Assim, a Associação Brasileira de Odontopediatria (ABO) afirma que para ter uma ação anticárie é necessário apenas uma pequena quantidade de dentifrício, desde que contenha a concentração de 1000-1100 ppm. Com isso, previne-se a cárie dentária e assegura-se em relação ao risco de fluorose8.
O flúor não deve ser abolido da higiene bucal das crianças, devido ao seu benefício anticárie, e sim utilizado racionalmente. No entanto, os profissionais de odontologia devem realizar e orientar ações de promoção de saúde orientando os pais/responsáveis para supervisionarem a escovação dentária das crianças. Com isto, o objetivo deste estudo foi avaliar o perfil de prescrição de dentifrício fluoretado por cirurgiões dentistas em crianças menores de 6 anos.
Métodos
Foi realizado um estudo transversal no ano de 2016 para avaliar o perfil de prescrição de dentifrícios fluoretados por cirurgiões dentistas da rede pública do município de Cascavel-PR para crianças menores de 6 anos de idade.
A amostra foi por conveniência por estes profissionais atenderem uma população mais carente do município e assim, esta demanda ser mais dependente do uso do flúor devido ao fator socioeconômico e consequentemente um maior risco à cárie dentária.
A cidade de Cascavel - PR, localizado na região Centro Oeste do Paraná (Brasil) possui, segundo o censo de 2016, uma população de 316.226 habitantes, sendo o quinto município mais populoso do estado9.
Para a obtenção dos nomes e endereços dos cirurgiões dentistas, foi contatado a Secretaria Municipal da Saúde, solicitando-se uma listagem dos profissionais que atuam na atenção básica. Os critérios de exclusão foram: cirurgiões dentistas (CDs) que atuam na atenção secundária e odontólogos que exercem cargos administrativos.
Ao todo eram 89 cirurgiões dentistas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Saúde da Família (USF). O estudo foi realizado por duas acadêmicas de graduação de odontologia da Universidade Paranaense (UNIPAR) campus Cascavel-PR.
O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos (CEPEH) da UNIPAR sob o protocolo número 1.522.154. Os odontólogos foram submetidos à pesquisa após a autorização do secretário municipal de saúde do município de Cascavel - PR.
No primeiro momento, os profissionais receberam a carta de informações, pela qual eram informados e esclarecidos a respeito dos objetivos da pesquisa, bem como a autorização pelo secretário de saúde. Também foi entregue o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) e após a assinatura deste, recebiam o questionário estruturado com seis questões específicas para seu preenchimento (ANEXO).
As perguntas direcionadas aos CDs referiram-se a: idade que orienta o início da escovação com dentifrício fluoretado; concentração de flúor dos dentifrícios; quantidade de creme dental que deve ser utilizada na escova; conhecimento a respeito da toxicidade do flúor e causas da fluorose. Constaram também questões como: gênero; idade; tempo de formação profissional; área de atuação (particular, rede pública, docente ou outra).
O questionário foi entregue ao sujeito da pesquisa e recolhido logo após o término do seu preenchimento. Este foi realizado sem nenhum tipo de esclarecimento das pesquisadoras a respeito das interpretações das perguntas ou da formulação das respostas. Foi estabelecido também que, para evitar constrangimentos, as acadêmicas não deveriam ficar por perto durante a leitura e preenchimento do questionário. Para evitar que, de alguma forma, a presença das mesmas pudesse influenciar nas respostas ou, até mesmo, que as pesquisadoras e o sujeito da pesquisa conversassem e discutissem o tema investigado.
Para a análise dos resultados, os dados foram submetidos à estatística descritiva e a prescrição de dentifrício fluoretado foi associada as demais variáveis por meio do teste estatístico Qui-quadrado e ANOVA, com nível de significância de 5%.

Resultados
Dos 89 cirurgiões dentistas da rede pública do município de Cascavel - PR 62 participaram da pesquisa, seguindo os critérios de exclusão previamente estabelecidos. Quanto ao grau de formação 42,32% (25) especificaram ser apenas clínico geral, 4,89% (3) possuíam mestrado, 3,22% (2) doutorado e 51,62% (32) se identificaram como especialista. As especialidades citadas foram: ortodontia, endodontia, cirurgia bucomaxilofacial, dentística e seis odontopediatras. Do total de profissionais submetidos à pesquisa 61,3% eram do gênero feminino e 38,7% do gênero masculino. Quanto à idade 59,7% cirurgiões dentistas apresentavam mais de 40 anos de idade, 37,1% com idade inferior a 40 anos e 3,2% não responderam. Em relação ao tempo de formação profissional 79% dos entrevistados relataram mais de 10 anos de profissão. Quando indagados ao local de atuação 37,1 % apontaram apenas o serviço público e 59,7% atuam tanto no serviço público como no privado e 3,2% não responderam. Não foi observada nenhuma associação estatisticamente significativa entre a prescrição de dentifrício fluoretado realizada pelos CDs e as demais variáveis coletadas (Tabela 1).
Quanto à indicação da escovação com dentifrício fluoretado para crianças menores de 6 anos 64,52% responderam que prescrevem o dentifrício fluoretado e 35,48% não fazem essa prescrição ou deixaram em branco (Figura 1).
Com relação à concentração de flúor em ppm no dentifrício fluoretado dos profissionais que prescrevem a escovação com dentifrício fluoretado 45% destes afirmaram não saber a concentração, e 22,5% dos odontólogos indicam 500 ppm. Enquanto 2,5% utilizam a concentração de 550 ppm, destes 3 eram odontopediatras. Já 2,5% dos profissionais utilizam a concentração de 1500 ppm e 17,5% dos entrevistados responderam 1100 ppm de flúor, e 10% informaram outros valores como 800 ppm, 0,2%; 0,02% e 0,05%. Destes, um odontopediatra indicou a concentração de 0,05% de flúor no dentifrício (Figura 2).
Sobre a orientação da quantidade de creme dental a ser colocada na escova foi verificado que 93,55% fornecem essa orientação e apenas 6,45% não orientam ou deixaram em branco. Dos profissionais que fazem essa orientação diversos tipos de respostas foram encontrados, como um grão de arroz (40,32%), metade de um grão de arroz (3,22%), um grão de ervilha (12,91%) e 37,1% informaram outro tipo de orientação como um grão de feijão, um grão de lentilha, mínima quantidade, largura da escova (Figura 3).
No que diz respeito à toxicidade do flúor 90,32% afirmaram que o flúor é um elemento tóxico, destes, 24,56% acrescentaram que apenas será tóxico quando usado de forma incorreta, 6,46% responderam não ser um elemento tóxico e 3,22% deixaram em branco (Figura 4).
Na avaliação sobre as causas da fluorose, constatou-se que 96,78% dos profissionais afirmaram saber e apenas 3,22% deixaram em branco (Figura 5).
Com relação a faixa etária para início de escovação com dentifrício fluoretado verificou-se que 12,91% recomendam para crianças abaixo de 0 anos de idade. Já 11,3% orientam para crianças de 1 a 2 anos e 29% aconselham o início para crianças de 3 a 5 anos. Enquanto que 24,2% sugerem o uso do creme dental fluoretado a partir dos 6 anos e 17,75% dos entrevistados orientam a partir do momento que a criança souber cuspir. Já 4,84% dos cirurgiões dentistas deixaram em branco (Figura 6).
| Número de entrevistados | % de entrevistados | Valor de p* | ||
| Gênero | Feminino | 38 | 61,3% | 0,131 |
| Masculino | 24 | 38,7% | ||
| Faixa etária | < 40 anos | 23 | 37,1% | 0,763 |
| > 40 anos | 37 | 59,7% | ||
| Não respondeu | 2 | 3,2% | ||
| Tempo de formado | < 10 anos | 11 | 17,7% | 0,947 |
| > 10 anos | 49 | 79% | ||
| Não respondeu | 2 | 3,3% | ||
| Área de atuação | Rede pública | 23 | 37,1% | 0,765 |
| Ambas (rede pública e privada) | 37 | 59,7% | ||
| Não respondeu | 2 | 3,2% |
Nota: *Teste Qui-quadrado p < 0,05.
Elaborado pelos autores, com base em autores (2016).

Nota: *Teste Qui-quadrado p < 0,05.
Elaborado pelos autores, com base em autores (2016).





Discussão
A pesquisa realizada demonstra importância não só devido aos efeitos preventivos do flúor relacionado à doença cárie, mas também, ao melhor modo para utilizá-lo em quantidade satisfatória, a fim de minimizar as chances de desenvolvimento de fluorose dental com comprometimento estético. Os resultados obtidos indicam que a prescrição de dentifrícios fluoretados por cirurgiões dentistas da rede pública do município de Cascavel - PR para crianças menores de 6 anos é discutível. Verificou-se que 64,52% dos profissionais entrevistados prescrevem escovação com creme dental fluoretados e 35,48% não prescrevem. Esses resultados mostraram-se superiores aos achados da pesquisa sobre o flúor em Manaus - AM com 22 médicos pediatras e 23 odontopediatras onde verificaram que 50%, para ambos os grupos, indicam escovação com dentifrício fluoretado. Já os que não fazem esta indicação são compostos de 52,9% de pediatras e 41,1% de odontopediatras10.
Os dentifrícios, que são os produtos odontológicos mais frequentemente usados, contêm uma concentração de flúor variando entre 500 e 1500 ppm, tanto na forma de fluoreto de sódio quanto na forma de monofluorfostato de sódio5. Em relação à quantidade de creme dental que deve ser colocada na escova, no presente estudo, verificou-se que 93,5% dos cirurgiões dentistas afirmaram fazer esta orientação. Em uma pesquisa em Bauru e Marília-SP com odontopediatras constataram que 100% desses profissionais orientam sobre a quantidade11. A fluorose é um distúrbio na formação do dente, em decorrência da ingestão excessiva de flúor durante o seu período de desenvolvimento, assim a prevenção deve se concentrar em crianças menores de 6 anos5.
Alguns autores sugerem que para reduzir o risco de fluorose a escovação deva ser executada ou acompanhada por um adulto e pouca quantidade de dentifrício deve ser utilizado na escova dental7. Considerando que a quantidade média colocada nas escovas, por crianças menores de 6 anos de idade, é de 0,55g por escovação8,10-16, se o dentifrício contém 1000 ppm de flúor, isto implica em uma exposição de 0,55 mg de flúor por escovação. Em média, 48% dessa quantidade é ingerida por crianças de 02 a 03 anos de idade, 42% por crianças de 4 anos e 34% por crianças de 5 anos16. No Brasil, estudos conduzidos com crianças de 2 e 3 anos de idade, residentes em áreas com água fluoretada, mostraram que as mesmas ingerem em média 0,061 mg/kg/dia de flúor (variação de 0,011 a 0,142), a partir do dentifrício; e que o creme dental contribuía com 55% da quantidade total de flúor ingerida diariamente11. Portanto, fica evidente que a escovação com dentifrício fluoretado, mesmo com os de 500 ppm F, aumenta significativamente a ingestão diária de flúor, em particular entre as crianças de 2 a 3 anos de idade, pois quanto mais nova a criança, maior a ingestão. Assim, o conhecimento dos profissionais de saúde, que trabalham especificamente com crianças, a respeito desses aspectos relacionados à concentração de flúor e à correta utilização dos dentifrícios fluoretados é fundamental na prevenção da fluorose10.
Nesse sentido, são preocupantes os resultados desta pesquisa com os odontólogos da rede pública de Cascavel, no que se refere ao conhecimento destes profissionais sobre a concentração de flúor nos dentifrícios e à idade ideal para se iniciar o uso desses produtos. Embora a legislação que estabelece as normas para a fluoretação dos dentifrícios no Brasil esteja em vigor desde 198912, e este seja um dos principais produtos utilizados na prevenção da cárie dentária em larga escala, grande parte dos profissionais pesquisados não soube informar a concentração de flúor desses produtos. Dentre os profissionais que orientam escovação com dentifrício fluoretado 45% afirmaram não ter esse conhecimento da concentração; 22,5% dos cirurgiões dentistas indicam 500 ppm; 2,5% concentração de 550 ppm, destes 3 eram odontopediatras; 2,5% concentração de 1500 ppm e 17,5% dos entrevistados responderam 1100 ppm de flúor e 10% dos entrevistados informaram outros valores. Resultados semelhantes foram encontrados em um estudo realizado com médicos pediatras e odontopediatras de Bauru e Marília onde 24% dos odontopediatras não souberam informar a concentração de flúor desses produtos. Além destes, 16% informaram concentrações erradas; ou seja, 40% dos odontopediatras não souberam informar a concentração de flúor dos cremes dentais11.
A orientação do Ministério da Saúde é o emprego de pequena quantidade de dentifrício fluoretado, com concentração de flúor convencional em torno de 1100 ppm12. Como prevenção primária o creme dental fluoretado deve-se usar 2 vezes ao dia. A escova deve ser de tamanho adequado e usar o dentifrício com cautela, apenas um esfregaço para crianças menores de 2 anos e como o tamanho de uma ervilha para crianças na faixa etária de 2 a 5 anos13,14. O uso de quantidade equivalente ao tamanho de uma ervilha utiliza no máximo entre 0,3 e 0,5g de creme dental na escovação, sendo que esta técnica diminui em 45% a quantidade na escova quando comparada com a técnica longitudinal, reduzindo potencialmente os riscos de fluorose13. Dados recentes mostram a fluorose dentária com ingestão de flúor de menos de 0,04 mg/kg peso corporal/dia2,5. Ainda assim, quando se pretende determinar este nível, é importante que todas as fontes de ingestão de flúor, sem exceção, sejam consideradas15,16.
O uso satisfatório dos dentifrícios não depende unicamente de sua quantidade aplicada na escova, fator tão importante quanto este é a concentração de flúor utilizada5. Porém outros autores mencionam que a concentração mínima de flúor para se obter efeito anticárie é 1000 ppm, e este deve estar solúvel na formulação15. Uma revisão sistemática da literatura apontou que apesar da fraca e duvidosa evidência sobre o uso de dentifrícios fluoretados estar associada ao aumento do risco de fluorose, se o risco é motivo de preocupação, é recomendado uso de creme dental com concentração inferior a 1000 ppm16. Porém, para pacientes cárie ativos, o dentifrício de baixa concentração se mostra menos eficaz que o dentifrício de 1100 ppm5. Além de que cremes dentais de nenhuma ou baixa concentração de flúor exercem efeito anticárie 29,1% inferior aos dentifrícios de maiores concentrações16.
Referente à toxidade do flúor, verificou-se neste estudo que 90,3% dos cirurgiões dentistas afirmam que o flúor é um elemento tóxico. Muito diferente de um estudo realizado com médicos pediatras e odontopediatras em Manaus onde apenas 56,1% dos odontopediatras veem o flúor como agente tóxico10. Ainda que tenha entendimento da vinculação entre o uso do flúor e a redução de cárie dentária, sabe-se que o flúor é um elemento tóxico e possivelmente pode deixar sequelas quando usado altas doses, ou mesmo, baixas doses cronicamente10,17,18.
Ainda pior é o resultado da idade correta para se iniciar a escovação com dentifrícios fluoretados. No presente estudo, 12,9% dos cirurgiões dentistas recomendam para crianças abaixo de 0 anos de idade; 11,3% para crianças de 1 a 2 anos; 29% orientam para crianças de 3 a 5 anos; 24,2% a partir dos 6 anos; 17,74% orientam o creme dental fluoretado a partir do momento que a criança souber cuspir e 4,84% deixaram em branco. Da mesma forma que autores encontraram em sua pesquisa que a escovação para crianças menores de 3 anos de idade é recomendada por 43% dos odontopediatras. A partir dos 3 anos de idade, 57% dos odontopediatras recomendam iniciar a escovação. Destes 27% com 3 anos de idade; 5% com 4 anos, 10% com 5 anos e 12% para crianças com 06 anos de idade11. Dentro deste conceito autores afirmam que o emprego de dentifrício fluoretado deve ser indicado para todos os indivíduos, de todas as idades14,18,19. No entanto, o desenvolvimento de fluorose depende da quantidade ingerida durante a formação do esmalte dentário. Desta forma, o uso de dentifrício com concentração de 1100 ppm, mas em mínima quantidade na escova parece ser o método mais adequado para usufruir os benefícios e minimizar os riscos dos dentifrícios fluoretados5,19,20. Deste modo o conhecimento dos profissionais de saúde bucal e o repasse da informação aos pais sobre a correta administração dos cremes dentais a fim de realizarem a melhor escolha para combater o risco de manifestação ou atividade da doença cárie, bem como em relação à fluorose, para assim, poderem tomar decisões mais apropriadas4.
Os profissionais pesquisados deveriam estar mais bem informados e preparados para prescrever e orientar corretamente a respeito do uso dos dentifrícios fluoretados recomendados na prática clínica, a quantidade, a idade, as concentrações apropriadas e seguras e o potencial de toxicidade crônica; para que, dessa forma, sua utilização resultasse na máxima eficácia anticárie, com o mínimo de risco à fluorose.
Conclusão
Os cirurgiões dentistas da rede pública prescrevem dentifrício fluoretado para crianças menores de 6 anos de idade, porém grande parte diferiu sobre a concentração ideal de flúor que deve ser utilizada na escovação dentária.
A maioria dos profissionais orienta a quantidade de creme dental que deve ser colocada na escova, mas não de forma adequada.
Os entrevistados demostraram saber sobre as causas da fluorose e toxicidade do flúor, sugerindo este como um elemento tóxico.
Foi recomendado por parte dos odontólogos o início da escovação dentária com dentifrício fluoretado aos 6 anos de idade ou ainda quando a criança souber cuspir.
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