Carta ao Editor

Treinamento com oclusão vascular: sobre revisão de literatura
Inicialmente, gostaríamos de situar os leitores que os termos Kaatsu training, oclusão vascular e restrição do fluxo sanguíneo são empregados para designar a mesma metodologia de treinamento. Nesta carta adotaremos o termo “restrição do fluxo sanguíneo” para nos referir ao treinamento com restrição parcial, não completa, do fluxo sanguíneo para o membro exercitado de modo a nos adequarmos à maioria das publicações internacionais dos últimos anos.
No ano de 2014, tivemos contato com artigo publicado na revista ConScientiae Saúde, v 12, n2, que versa sobre treinamento associado à restrição do fluxo sanguíneo (RFS)1. O tema é interessante e tem sido bastante estudado nos últimos anos, o que ratifica a necessidade de revisão de literatura sobre o mesmo. No entanto, sugere-se aos autores a adoção de algum mecanismo de orientação para elaboração de revisões sistemáticas, como o PRISMA2, o que aprimoraria a qualidade deste tipo de publicação.
Em um primeiro momento, pontua-se equívoco na tradução do termo ‘’hemóstase’’, relacionado aos mecanismos envolvidos para cessar uma hemorragia3, ao empregarem ‘’homeostase’’. Neste estudo citado, avaliaram-se sujeitos saudáveis nas situações de oclusão sem exercício e exercício com e sem oclusão vascular e analisaram diferentes respostas hemodinâmicas e, ao final, sugeriu-se inclusive, possível efeito cardioprotetor induzido pelo treinamento com oclusão vascular3. Portanto, esclarece-se que em nenhum momento o estudo relacionou a utilização do treinamento com RFS à formação de trombose.
Baseando-se na perspectiva de que há diferenças entre o comportamento de animais e seres humanos, e entre seres humanos com diferentes níveis de atividade física4, os autores não detalharam a abordagem feita por estudo de Hueb et al.5, o qual teve como foco principal investigar as alterações fisiológicas ocorridas no tecido isquêmico a partir da interrupção do fluxo sanguíneo de artérias saudáveis de coelhos, assim como correlacionar com os dois tempos de isquemia adotados. Portanto, Wolinski et al.1 se equivocaram ao longo de sua discussão ao compararem o treinamento físico com RFS (objetivo principal da revisão), com a oclusão total das artérias ilíaca comum, ilíaca interna, ilíaca externa e suas ramificações feita através de ligaduras por períodos de 6 e 72 horas em coelhos, na qual houve a intenção de impedir a circulação sanguínea, justamente para avaliar o comportamento do tecido isquêmico5. Como salientado no primeiro parágrafo, o treinamento com RFS é compreendido pela oclusão parcial do fluxo sanguíneo6,7, e comumente tende a não ultrapassar 15 minutos em uma sessão de treino. Deste modo, adotando-se os períodos de interrupção do fluxo sanguíneo adotados nos protocolos de Hueb et al.5, revela-se discrepância no período de oclusão de, pelo menos, 2400% com os valores recomendados, além do tamanho da redução do fluxo sanguíneo ocasionada entre os procedimentos relatados. Quanto à consideração do estudo de Neto et al.8, ratos foram utilizados para avaliar o efeito da isquemia sobre alterações oxidativas. Para isso, foi realizada ligadura da aorta abdominal justa e infra-renal por tempos de 1 e 6 horas. Dentre os efeitos contemplados para terem certeza de que a ligadura havia sido eficaz, registraram-se visualização de palidez ou cianose, esfriamento de membros e ausência de pulsação8. Novamente, de forma alguma tal protocolo se assemelha ao treinamento com RFS.
Não obstante, na seção de conclusão Wolinski et al.1 advertem sobre riscos cardiovasculares e doenças hematológicas decorrentes do método de treinamento com RFS, apesar de não empregarem nenhuma referência ao longo da revisão relacionando tais efeitos quando indivíduos foram submetidos a este modelo de treinamento.
Com propósito de investigar o possível risco de trombose proveniente do treinamento com RFS em indivíduos saudáveis, 10 sujeitos jovens foram submetidos a treino caracterizado por três séries do exercício leg-press a 30% 1RM e com pressão de 150-160mmHg9. Coletas de sangue foram obtidas nos momentos pré, 10min, 1, 4 e 24 horas após encerramento do exercício e nenhuma alteração em marcadores de formação de trombina ou coágulo intravascular foi evidenciada9. Adicionalmente, aumento da expressão gênica de fator angiogênico como crescimento endotelial vascular (VEGF) tem sido encontrado após exercício extensão de joelho a 40% 1RM apenas quando associado à utilização de RFS10, constituindo-se como resposta frente à hipóxia causada10. Da mesma forma, incremento significativo na capacidade de filtração microvascular tem sido encontrado após quatro semanas de treinamento apenas para o membro ocluído durante exercício, refletindo melhora do índice de capilarização muscular decorrente do treinamento com RFS11.
Alguns trabalhos têm se atentado a identificar a influência do treinamento com RFS sobre a complacência arterial, comumente associada à sensibilidade barorreflexa e doenças coronárias12,13. Em um deles por exemplo, analisou-se o efeito do treinamento resistido tradicional (75% 1RM) e do treinamento com RFS (35% 1RM) sobre a complacência da artéria carótida no exercício supino pelo período de seis semanas e três treinos semanais. Finalizada a intervenção, os sujeitos que realizaram o treinamento com maiores cargas apresentaram redução da complacência arterial, enquanto o grupo com RFS não manifestou mudanças12. Por outro lado, idosos exibiram aumento da complacência da artéria carótida após dez semanas de treinamento com caminhadas em conjunto com RFS13.
Com relação à segurança do treinamento com RFS, estudos tem demonstrado que o emprego associado da RFS com exercício de baixa intensidade apresenta produção de espécies de oxigênio reativas inferior ao treinamento resistido de alta intensidade sem RFS14, e não proporciona impacto sobre marcadores sanguíneos para geração de trombina e nem formação de coágulo intravascular imediatamente após sessão de treinamento15 e após 4 semanas de intervenção com RFS16 em sujeitos saudáveis e em doentes cardíacos17. Ainda, em corroboração com estes achados e em oposição ao que foi exposto por Wolinski et al.1, revisão abrangendo os temas RFS e função vascular indicou a ausência de alteração de marcadores oxidativos e fatores de coagulação após o treinamento18.
Vale a pena acrescentar que após a publicação de Wolinski et al.1, as recomendações para os ajustes de pressão dos manguitos para o treinamento com RFS foram aperfeiçoadas, com grande destaque à individualidade da pressão de oclusão arterial total, proporcionando maior segurança aos indivíduos. Seguindo esta lógica, a adoção de pressão fixa em oclusores pneumáticos acaba não sendo recomendado pela possibilidade de gerar oclusão arterial total em alguns indivíduos, gerando maior desconforto e potencialmente induzir alguma resposta cardiovascular adversa7. Counts et al19 verificaram respostas agudas de atividade eletromiográfica semelhantes em protocolo de flexão de cotovelo com pressões de oclusores variando entre os valores de 40% e 90% da oclusão arterial19. Além disso, os ganhos de massa muscular e dos níveis de força não foram diferentes após 8 semanas de treinamento com RFS entre indivíduos que treinaram com RFS a 40% e a 90% da pressão de oclusão arterial19. Estes achados reforçam a ideia de que o aumento da pressão aplicada nos manguitos durante o treinamento não resultará em respostas mais eficazes19. Portanto, o emprego de menores valores de pressão, além de passar mais confiança, é suficientemente eficaz para gerar os ganhos esperados para este tipo de treinamento19.
Por fim, deve-se levar em conta que grande parte das amostras pesquisadas envolve sujeitos jovens e saudáveis, e que maior atenção deve ser dada ao se generalizarem os efeitos da RFS.
Referências
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