Artigos
Programa de exercícios funcionais para idosas – impacto na aptidão física
Impact of functional exercise on physical fitness of elderly women
Programa de exercícios funcionais para idosas – impacto na aptidão física
ConScientiae Saúde, vol. 18, núm. 1, pp. 65-73, 2019
Universidade Nove de Julho

Recepção: 13 Julho 2018
Aprovação: 13 Março 2019
Resumo: Introdução: A aptidão física é constantemente exigida pelos idosos para a realização das atividades da vida diária. Objetivo: Investigar o impacto de um programa de exercícios funcionais na aptidão física de idosas. Método: Realizou-se um estudo quase-experimental, com 22 idosas, destas, 11 constituíram o grupo controle (GC), e 11 o grupo intervenção (GI). Um programa de exercícios funcionais foi desenvolvido e aplicado durante 12 semanas, duas sessões por semana no GI. Como instrumento foi utilizado a bateria de testes Senior Fitness Test. Para análise de dados utilizou-se os testes “U” de Mann-Whitney e Wilcoxon. Resultado: Todos os componentes da aptidão física foram melhorados após a intervenção de um programa de exercícios funcionais no GI (p<0,05). O GI, comparado ao GC, apenas no teste alcançar atrás das costas não obteve diferença significativa (p=0,898) pós-intervenção. Conclusão: Verificou-se que um programa de exercícios funcionais pode melhorar os componentes da aptidão física de idosas. Descritores: Aptidão física. Envelhecimento. Gerontologia.
Palavras-chave: Aptidão física, Envelhecimento, Gerontologia.
Abstract: Introduction: The elderly require maintaining physical fitness in order to perform daily life activities. Objective: To investigate the impact of a functional exercise program on the physical fitness of elderly women. Method: We conducted a quasi-experimental study with 22 elderly women, 11 of which constituted the control group (CG) and the remaining 11 the intervention group (IG). A functional exercise program was developed and applied for 12 weeks, two sessions per week with the IG. The Senior Fitness Test was used as test instrument. Data analysis was performed using the Mann-Whitney U-test and the Wilcoxon T-test. Results: All components of physical fitness were improved after the intervention of a functional exercise program in the GI (p <0.05). Only the reach-behind-the-back test showed no significant difference (p = 0.888) after the intervention in the GI, compared to the CG. Conclusion: A functional exercise program can improve the physical fitness components of elderly women.
Keywords: Physical fitness, Aging, Gerontology.
Introdução
Na última década, a população idosa aumentou em todos os países, fator este resultante da diminuição na taxa de fecundidade, redução da taxa de natalidade, avanços na área da saúde, principalmente na medicina com desenvolvimento de novas vacinas e ainda a busca por uma maior qualidade de vida1,2. Deste modo, estudos3,4 têm apontado ser necessário entender o processo de envelhecimento como fator essencial para que se possam desenvolver programas e ações que resultem em melhor bem-estar físico e mental durante o envelhecimento5. No entanto, há uma lacuna na literatura relacionada ao efeito de um programa de exercícios funcionais sobre a aptidão física geral de idosos.
O envelhecimento pode ser entendido como um processo natural irreversível em que ocorrem alterações biológicas, psicológicas e sociais no indivíduo, acarretando, com o passar dos anos, na perda progressiva da capacidade de adaptação desse sujeito ao meio ambiente6. Na senescência, ocorre um declínio nos níveis de atividade física habitual da pessoa contribuindo dessa forma para uma redução na aptidão física além da aparição de doenças relacionadas, tendo como consequência a perda da capacidade funcional7.
Deste modo, a aptidão física é constantemente exigida pelos idosos para atividades básicas da vida diária (ABVD), como levantar-se da cadeira, desviar de obstáculos, subir degraus, atravessar a rua; e atividades instrumentais da vida diária (AIVD), como fazer seu próprio alimento, realizar atividades domésticas, ou ir às compras8. Desta maneira, se houver alguma diminuição na aptidão física, representada por força, coordenação, flexibilidade e resistência aeróbia, é possível que o idoso tenha dificuldade na realização de diversos movimentos, exigindo dele um maior esforço para realização das ABVD e AIVD8.
Assim, a prática regular de exercício físico é um dos principais meios de se manter uma boa aptidão física ao longo da vida, em especial para o idoso5. Desta forma, existem variados tipos de exercícios físicos implantados para a população idosa em locais públicos e privados, podendo-se citar a hidroginástica, a dança, a musculação, a ginástica generalizada e a caminhada9.
Os exercícios funcionais10 podem ser apontados como um meio para a melhoria da capacidade funcional dos idosos, mediante exercícios proprioceptivos, melhorando o desenvolvimento do controle corporal e o equilíbrio muscular estático e dinâmico, diminuindo a incidência de lesão e aumentando a eficiência dos movimentos. Um programa de treinamento funcional pode ser dividido em atividades de baixa intensidade, podendo esta ser aumentada gradativamente; alternância de posições estáticas para dinâmicas; exercícios de menor intensidade para maior intensidade; movimentos simples para os mais complexos; exercícios que exigem pouca coordenação aumentando o grau de dificuldade e exercícios que simulem as ABVD e AIVD3.
De forma geral, o exercício funcional para idosos tem como objetivo diminuir a incapacidade funcional e colaborar para a redução de problemas emocionais e sociais ligados a essas incapacidades11. Ainda, tende a ser benéfico para melhoria da força de membros superiores e inferiores5, equilíbrio12 e autonomia funcional10. No entanto, referente à aptidão física geral que o exercício funcional proporciona para o idoso, ainda há uma lacuna no que se trata a um programa intervencional funcional para esta população.
Diante disso, em uma tentativa de expandir o conhecimento a respeito do exercício funcional para idosos, objetivou-se neste estudo investigar a influência de um programa de exercícios funcionais na aptidão física de idosas.
Material e métodos
Trata-se de um estudo quantitativo de cunho quase-experimental, aprovado pelo Comitê de ética em Pesquisa com seres humanos do Centro Universitário de Maringá (UNICESUMAR) por meio do parecer número 1.744.659/2016.
Participantes
Inicialmente, foram convidadas, por conveniência e de maneira intencional, a participar do estudo idosas de uma cidade da região norte do estado do Paraná. Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: (1) ser os indivíduos do sexo feminino; (2) ter entre 60 e 80 anos de idade; (3) participar de algum grupo específico para idosos da cidade em que vive; (4) possuir capacidade de comunicação e audição preservadas (para evitar possíveis erros durante os questionamentos), assim como, não ser restrita a cadeira de rodas e/ou qualquer acessório para marcha. Estes últimos critérios foram avaliados por meio da percepção dos avaliadores e pelo autorrelato do idoso. E determinou-se como critério de exclusão o seguinte: (1) não participar de todas as sessões do programa de treinamento.
Deste modo, a amostra foi composta por 22 idosas divididas em dois grupos, a saber: Grupo Controle (GC) (n=11) e o Grupo Intervenção (GI) (n=11) (Figura 1). Estas idosas eram participantes de um grupo social do município, no qual realizavam atividade de artesanato, pintura, viagens, coral, dentre outras. Durante o período de intervenção a participação das idosas não foi alterada e/ou aumentada.

Instrumentos
Um questionário sociodemográfico foi elaborado para obtenção de dados pessoais e demais informações com questões referentes a idade, cor, escolaridade, autopercepção de saúde, quantidade de medicamentos utilizados, presença de doenças e histórico de quedas nos últimos seis meses. Todas as informações dos questionários foram autorrelatadas pelas integrantes da amostra.
Para avaliação da aptidão física, foi aplicada a bateria de testes Senior Fitness Test (SFT), proposta por Rickli e Jones13, que consiste em seis testes: Levantar e Sentar na Cadeira (LSC), cujo objetivo é avaliar a força e resistência dos membros inferiores; Flexão de Antebraço (FA), em que objetivo é avaliar a força de resistência do membro superior; Sentado e Alcançar (SA), para avaliar a flexibilidade dos membros inferiores; Sentado, Caminhar 2,44 metros e voltar a Sentar (SCS), para avaliar a mobilidade física, velocidade, agilidade e equilíbrio dinâmico; Alcançar Atrás das Costas (AAC), para avaliar a flexibilidade dos membros superiores e o Teste de Caminhada de 6 minutos (T6M), cujo objetivo é avaliar a resistência aeróbica. Estas avaliações foram realizadas pelo mesmo pesquisador, que foi previamente treinado para tal.
Procedimento de coleta de dados e intervenção
A coleta de dados ocorreu em dois momentos, sendo pré- e pós-intervenção. No primeiro momento, após os sujeitos assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, foi aplicado o questionário sociodemográfico e a SFT, em ambos os grupos GC e GI. No momento pós-intervenção, foi reaplicado a STF, tanto para o GC como para o GI.
O GI participou do programa proposto com duração de 12 semanas, distribuído em duas sessões semanais com duração de 50 minutos cada. A elaboração das aulas teve como base exercícios funcionais, distribuídos em estações com foco nas capacidades de força, resistência aeróbia, equilíbrio, agilidade e flexibilidade. A duração dos exercícios foi a de um minuto, com 30 segundos de descanso entre a troca para o próximo exercício. O circuito completo foi repetido duas vezes. A estrutura completa da aula era distribuída em aquecimento (10 minutos), parte principal (30 minutos) e esfriamento (10 minutos). O controle da intensidade do treinamento foi realizado por meio da sensação subjetiva de esforço (em uma escala de 6 a 20). As idosas deveriam relatar sensação de esforço entre 10 e 15. A intervenção foi realizada por um único pesquisador que não participou das avaliações nem antes e nem depois do programa de treinamento.
No momento pós-intervenção, foi reaplicada a STF, tanto para o GC como para o GI. Desse modo, foram avaliadas as diferenças intergrupos e intragrupos, comparando-se, assim, as diferenças no nível de aptidão física entre o GC e o GI, e ainda as diferenças pré- e pós-teste dentro de cada grupo.
Análise dos dados
Os dados foram analisados por meio do software SPSS 22.0. A análise foi realizada mediante uma abordagem de estatística descritiva e inferencial. Para as variáveis categóricas, foram utilizados frequência e percentual como medidas descritivas. Para as variáveis numéricas, inicialmente foi verificada a normalidade dos dados por meio do teste Shapiro-Wilk. Como os dados não apresentaram distribuição normal, foram utilizados Mediana (Md) e Intervalo Interquartílico (Q1; Q3) para a descrição dos resultados. Na comparação entre os grupos (GC e GI), foi usado o teste U de Mann-Whitney, enquanto para a comparação entre os momentos (pré- e pós-teste), foi utilizado o teste de Wilcoxon. Considerou-se um nível de significância de p<0,05.
Resultados
Ao analisar o perfil sociodemográfico das idosas do GC e GI, verificou-se que a maioria das participantes de ambos os grupos era da cor branca, possuía ensino fundamental incompleto e era aposentada. Em relação ao perfil de saúde (Tabela 1), constatou-se que nenhuma das integrantes da amostra possuía algum histórico de queda. Observou-se também que a maioria se percebia com saúde Boa/Regular e utilizava no mínimo um medicamento de forma regular. Em relação à quantidade de doenças, nota-se que 63,6% das idosas do grupo controle possuem no mínimo uma doença, enquanto que a maioria das do grupo intervenção (63,6%) não possuía nenhuma doença.
Ao comparar as variáveis entre os grupos GC e GI antes da intervenção (pré-teste) (Tabela 2), verificou-se que apresentavam homogeneidade apenas nos testes LSC (p=0,797) e AAC (p=0,562). Nos demais testes (Tabela 2), os grupos apresentaram diferença significativa (p<0,05), sendo as idosas do GI mais aptas fisicamente. Já no momento pós-intervenção, o GI apresentou melhores resultados em todos os testes (p<0,05), com exceção do teste AAC (p=0,898).
Ao comparar a aptidão física do pré- para o pós-teste dentro de cada grupo (Tabela 2), verificou-se diferença significativa (p<0,05) em todas as variáveis do grupo intervenção, enquanto que no grupo controle foi encontrada diferença significativa apenas no LSC (p=0,039) e no T6M (p=0,013). Em específico, quanto às comparações de cada teste, percebe-se que houve diferença significativa entre os grupos no teste LSC, após a intervenção (p=0,001), indicando que as idosas do grupo intervenção realizaram mais repetições do que as do grupo controle. Além disso, nota-se que tanto o grupo controle (p=0,039) quanto o grupo intervenção (p=0,003) aumentaram significativamente a quantidade de repetições do pré-teste para o pós-teste.
No FC, houve diferença significativa entre os grupos tanto no pré-teste (p=0,001) quanto no pós-teste (p=0,004), evidenciando que em ambos os momentos as idosas do grupo intervenção realizaram mais repetições. No entanto, destaca-se que apenas o grupo intervenção apresentou aumento significativo (p=0,003) no número de repetições do pré- para o pós-teste. No SA, houve diferença significativa entre os grupos tanto no pré-teste (p=0,004) quanto no pós-teste (p=0,001), evidenciando que em ambos os momentos as idosas do grupo intervenção realizaram mais repetições. No entanto, destaca-se que apenas o GI apresentou aumento significativo (p=0,009) no número de repetições do pré- para o pós-teste.
No SCS, houve diferença significativa entre os grupos apenas após a intervenção (p=0,016), indicando que as participantes do grupo intervenção realizaram o teste em menos tempo do que as do grupo controle. Além disso, destaca-se que apenas o grupo intervenção apresentou redução significativa (p=0,003) no tempo de realização do pré- para o pós-teste.
No AAC, não houve diferença significativa (p>0,05) entre os grupos em nenhum dos momentos, evidenciando que nos dois momentos as idosas de ambos os grupos apresentaram resultados semelhantes. No entanto, destaca-se que apenas o grupo intervenção apresentou aumento significativo (p=0,008) no resultado do teste do pré- para o pós-teste.
No T6M, houve diferença significativa entre os grupos tanto no pré-teste (p=0,016) quanto no pós-teste (p=0,001), evidenciando que nesses momentos as integrantes do grupo intervenção caminharam maior distância em comparação às idosas do grupo controle. Além disso, nota-se que o grupo controle (p=0,003) e o grupo intervenção (p=0,013) aumentaram significativamente a distância na caminhada em 6 minutos do pré- para o pós-teste.
| Variáveis | Grupos | |
| Controle (n=11) | Intervenção (n=11) | |
| ƒ (%) | ƒ (%) | |
| Percepção de saúde | ||
| Muito boa | 1 (9,1) | 1 (9,1) |
| Boa/Regular | 10 (90,9) | 10 (90,9) |
| Uso de medicamentos | ||
| Nenhum | 4 (36,4) | 6 (54,5) |
| Um | 3 (27,3) | 1 (9,1) |
| Dois ou mais | 4 (36,4) | 4 (36,4) |
| Doenças | ||
| Nenhuma | 4 (36,4) | 7 (63,6) |
| Uma | 2 (18,2) | 2 (18,2) |
| Duas ou mais | 5 (45,4) | 2 (18,2) |
| Histórico de quedas | ||
| Sim | 0 (0,0) | 0 (0,0) |
| Não | 11,0 (100,0) | 11,0 (100,0) |
| Variáveis | Momentos | Controle | Intervenção | P |
| Md (Q1; Q3) | Md (Q1; Q3) | |||
| Sentar e Levantar (rep.) | Pré | 12,5 (11,0; 13,2) | 15,0 (11,0; 16,0) | 0,088 |
| Pós | 14,0 (11,7; 15,0) | 20,0 (18,0; 22,0) | 0,001* | |
| P = 0,039† | P = 0,003† | |||
| Flexão de Cotovelo (rep.) | Pré | 15,5 (13,7; 17,5) | 18,0 (15,5; 19,0) | 0,001* |
| Pós | 16,0 (14,0; 19,0) | 23,0 (18,0; 24,0) | 0,004* | |
| P = 0,305 | P = 0,003† | |||
| Sentado e Alcançar | Pré | -1,5 (-6,7; 0,2) | 2,0 (0,0; 10,0) | 0,004* |
| Pós | -1,5 (-7,0; 0,0) | 6,0 (2,0; 10,0) | 0,001* | |
| P = 0,763 | P = 0,009† | |||
| Sentado e Caminhar (seg.) | Pré | 6,3 (6,1; 7,0) | 6,3 (5,3; 9,4) | 0,797 |
| Pós | 6,4 (6,0; 6,8) | 4,6 (4,3; 6,2) | 0,016* | |
| P = 0,100 | P = 0,003† | |||
| Alcançar atrás das costas | Pré | -1,3 (-8,2; 2,0) | -1,0; (-12,0; 0,0) | 0,562 |
| Pós | -1,0 (-6,2; 1,9) | 0,0 (-8,0; 3,0) | 0,898 | |
| P = 0,758 | P = 0,008† | |||
| Caminhar 6 minutos (metros) | Pré | 430,8 (354,2; 461,6) | 548,4 (403,7; 593,7) | 0,016* |
| Pós | 475,0 (391,7; 507,1) | 665,0 (570,0; 676,0) | 0,001* | |
| P = 0,013† | P = 0,003† |
Discussão
Ao analisar o efeito de um programa de intervenção de exercícios funcionais de 12 semanas em idosas, verificou-se que todos os componentes da aptidão física das participantes melhoraram após a intervenção, quando comparados com os do grupo de idosas não praticantes (Tabela 2). Isto demonstra que um programa bem desenvolvido, aplicado e orientado, pode favorecer a melhora da aptidão física durante o envelhecimento. Estas mudanças na vida diária favorecem a continuidade do idoso na prática do exercício físico, uma vez que este pode ser um fator determinante e econômico para a melhoria da saúde de pessoas desta faixa etária14,15.
Destacam-se programas intervencionais específicos com idosos, como a melhoria da força dos MI e da capacidade respiratória com a caminhada, a força muscular dos MS e flexibilidade com a hidroginástica, e a força máxima geral com a prática de um programa de musculação16,17,18. No entanto, novos programas com exercícios funcionais vêm ganhando espaço para a prática entre os idosos, uma vez que seus benefícios também estão atrelados à saúde, à força5, ao equilíbrio e à agilidade12 e por serem exercícios que simulem as AVD e AIVD do idoso3. Deste modo, este estudo avança ao identificar que um programa de intervenção de exercícios funcionais promove a melhoria em todos os componentes da aptidão física em idosos (Tabela 2).
Além disso, é importante salientar a influência específica da força muscular na funcionalidade dos idosos, devido a sua utilização na realização das AVD com autonomia e independência17. Para isso, a atividade física durante o envelhecimento é uma maneira de manter e promover níveis adequados de força, tanto dos MS como dos MI, evitando alterações musculoesqueléticas, como sarcopenia, alterações na mobilidade e no equilíbrio, que podem ocasionar quedas nessa população19,20,21.
Outro fator em que a força muscular para idosos é de extrema importância é a marcha, pois esta fornece a base para a realização de praticamente todas as AVD. A marcha é uma tarefa motora complexa, que envolve o controle cognitivo, sensorial e motor. Com o aumento da idade, os parâmetros espaço-temporais da marcha, como redução da velocidade e do comprimento da passada, estão relacionados à maior ocorrência de quedas22.
Deste modo, a força muscular dos MI está fortemente relacionada com o controle postural e com os eventos de quedas durante a marcha dos idosos. A queda é uma causa importante a ser estudada em indivíduos na terceira idade, pois de 28% a 35% dos idosos caem pelo menos uma vez por ano, sendo a segunda causa de mortalidade por acidentes nessa população23. Entretanto, neste estudo, nenhuma das componentes da amostra apresentou histórico de quedas (Tabela 1).
No entanto, o GI apresentou valores mais altos em todos os componentes relacionados à marcha e aos MI, quando comparado ao GC, demonstrando que suas integrantes são mais fortes, ágeis, flexíveis e com maior resistência aeróbia (Tabela 2). Deste modo, idosos que possuem melhores índices de aptidão física geral estão mais preparados para a realização de suas atividades, não havendo impedimentos em sua mobilidade e suas AVD, como fazer compras, ir ao parque, caminhar24,25. Ainda, os riscos de quedas diminuem, uma vez que idosos com bons níveis de força, equilíbrio e agilidade estão mais preparados para eventuais situações durante a marcha que poderiam levá-los ao chão20,21,22.
Outro fator que pode prejudicar o idoso durante a marcha é a flexibilidade. A baixa elasticidade nos músculos tende a acarretar movimentos limitados de pouca amplitude. Assim, exercícios que promovam a flexibilidade levam os idosos a realizar os movimentos de maneira mais segura, contribuindo para uma maior independência funcional e uma vida mais ativa26. Confirmando os achados nesta pesquisa (Tabela 2), os autores16 de um estudo observaram que houve melhora significativa da flexibilidade de idosas após um programa intervencional de exercício físico e influência positiva para a melhora da qualidade de vida do grupo investigado, revelando a importância psicológica que o exercício físico também pode promover aos idosos.
Diante disso, um trabalho funcional deverá estar pautado em diferentes fatores, uma vez que a sarcopenia, uma consequência natural no processo de envelhecimento humano, favorece ao declínio da força muscular, interferindo na mobilidade e no risco de quedas27. Esta consequência, por sua vez, leva a uma dificuldade da manutenção de força, equilíbrio, agilidade e flexibilidade, elementos essenciais para a marcha e a vida da população idosa.
O declínio destes parâmetros físicos impossibilita os idosos de realizar suas AVD de forma independente, mas a prática de atividade física promove a restauração e manutenção dessas capacidades20. Assim, o exercício físico tem função essencial para a vida destas pessoas, as quais estão em constante declínio físico. A prática regular do exercício físico possibilitará melhores níveis de mobilidade e capacidade funcional28, força5,17, flexibilidade16 e equilíbrio10,12.
Apesar das contribuições dos achados, neste trabalho, algumas limitações necessitam ser destacadas. Nesse sentido, salienta-se o pequeno número de participantes no estudo e o fato de a investigação ter sido feita em uma única região do estado do Paraná. O tamanho da amostra também limitou o poder da análise estatística e a obtenção dos resultados; no entanto, ela torna-se relevante por ser um estudo intervencional e com grupo controle. É importante citar também a feminilização da velhice que explica o motivo da baixa adesão masculina em grupos de convivência para idosos, bem como as atividades propostas nestes grupos não serem, muitas vezes, de interesse masculino. Outra limitação se refere ao desenho quase-experimental da pesquisa, uma vez que não foi possível controlar todas as variáveis determinadas. Assim, sugerem-se a realização de novos estudos com desenhos experimentais com base em ensaios clínicos randomizados e nos quais se possam investigar também os homens e os motivos destes não participarem de grupos como os aqui investigados, além de programas intervencionais de caráter funcional com maior número de sujeitos.
Conclusões
O programa de exercícios funcionais promoveu a melhora dos componentes de aptidão física das idosas. Como implicação prática, destaca-se a importância para os profissionais da saúde em orientar a realização de programas de exercícios funcionais, uma vez que a população idosa deve realizar exercícios específicos que sejam benéficos no seu processo de envelhecimento e, consequentemente, para sua saúde. Nesse contexto, ressalta-se que, especificamente, os profissionais de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional devem atentar aos objetivos dos alunos/pacientes, uma vez que demonstrada a eficiência de um programa de exercícios funcionais este se torna um bom meio para se atingir as metas propostas com o início do treinamento.
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