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A ética do cuidado como uma gramática da ação: uma análise do consumo crítico em um mercado alternativo

The ethics of care as a grammar of action: An analysis of the critical consumption in an alternative market

Felipe da Luz Colomé 1
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Ricardo Mayer 2
Universidade Federal de Santa Maria, Brasil

A ética do cuidado como uma gramática da ação: uma análise do consumo crítico em um mercado alternativo

Ciências Sociais Unisinos, vol. 52, núm. 3, pp. 425-436, 2016

Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Recepção: 11/03/2016

Aprovação: 08/07/2016

Resumo: O presente artigo é parte de um estudo que abordou a emergência do consumo crítico no sul do Brasil. Contemporaneamente, o consumo crítico é compreendido como um fenômeno multifacetado que se traduz na materialização de concepções morais e visões de mundo a partir de posições críticas em relação ao consumo. Esse estudo investigou este fenômeno, tendo por base as práticas de consumo desenvolvidas no âmbito da economia solidária. Através dos aportes da sociologia pragmática de Luc Boltanski e Laurent Thévenot (1991), analisamos a racionalidade axiológica que subjaz às escolhas dos agentes em mercados alternativos. Com base nestes pressupostos, a partir de pesquisa de campo desenvolvida na feira de economia solidária de Santa Maria, RS, Brasil, evidenciamos as motivações e justificações que remetem à constituição de uma eticidade do cuidado, ancorada nos vínculos de pertencimento comunitários com ênfase nas sociabilidades primárias tendo em vista a escolha de uma dieta saudável. Assim, em relação aos resultados dessa investigação, deparamo-nos com a prevalência de argumentos alicerçados em uma moral que privilegia o cuidado em relação aos membros da comunidade doméstica. Já em relação aos procedimentos metodológicos, valemo-nos de uma abordagem qualitativa, sendo utilizadas as técnicas de observação participante e entrevistas semiestruturadas realizadas com os frequentadores deste mercado alternativo.

Palavras-chave: consumo crítico, gramática da ação, ética do cuidado, economia solidária, saúde.

Abstract: This article is part of a study that addresses the emergence of critical consumption in southern Brazil. Contemporarily, critical consumption is understood as a multifaceted phenomenon which means the materialization of moral concepts and worldviews on the basis of critical positions in relation to consumption. This study investigated that phenomenon, based on the consumption practices developed within the solidarity economy. Through the contributions of the pragmatic sociology of Luc Boltanski and Laurent Thevenot (1991), we analyzed the axiological rationality that underlies the actors’ preferences in alternative markets. Based on these assumptions, from a field research conducted at the fair of solidarity economy of Santa Maria, RS, Brazil, we highlight the motivations and justifications that lead to the constitution of an ethics of care, anchored in the bonds of community membership with an emphasis on primary sociabilities considering the choice of a healthy diet. Thus, in relation to the results of this research, we came across the prevalence of arguments grounded in a moral which privileges the care for the members of the household community. In relation the methodological procedures, we made use of a qualitative approach, and used the techniques of participant observation and semi-structured interviews with people who go to this alternative market.

Keywords: critical consumption, grammar of action, ethics of care, solidarity economy, health.

Introdução

Na contemporaneidade, diferentes discursos e iniciativas em torno do consumo, com destaque para a alimentação, podem ser localizados ao redor do globo. Iniciativas como as de Comércio Justo, de SlowFood, de alimentação orgânica, de ecorrotulagem, de campanhas para o consumo crítico, consciente ou responsável e suas variantes, compreendem as práticas de consumo3 como espaços para a expressão de distintos valores, moralidades e manifestação de posições políticas. As iniciativas de Comércio Justo, por exemplo, postulam que o consumo pode abrigar posições morais e políticas, em apoio à produção, principalmente, de produtos agroalimentares cultivados nos países periféricos ensejando, assim, relações de comércio mais justas (Gendron et al, 2006; Goodman, 2004; Le Velly, 2004). Já o movimento Slow Food busca politizar as práticas alimentares resgatando as tradições gastronômicas locais em oposição à padronização das práticas de consumo de fast food.

Nestes termos, autores como Littler (2009), Thomas (2011), Halkier (1999), Johnston et al. (2011), Micheletti (2002, 2003), entre outros, têm evidenciado, em suas análises sobre o fenômeno, o grande leque de motivações pelas quais os indivíduos podem se engajar nas práticas consideradas de consumo crítico4. A perspectiva aqui utilizada compreende sociologicamente tais práticas como um fenômeno social que materializa concepções morais e visões de mundo a partir de uma posição crítica em relação ao consumo (Hilton, 2003). Ademais, para os fins deste estudo, o fenômeno será compreendido através do conceito de consumo crítico definido por Sassateli (2006), ou seja, um conjunto de discursos heterogêneos suscetível de justificar as práticas de consumo de potenciais agentes políticos e morais.

Portanto, o fenômeno em questão pode ir muito além de uma perspectiva de um engajamento restrito à esfera política, pois a mudança de práticas e hábitos de consumo implica também a mudança de regimes alimentares e estilos de vida. Em virtude disso, este fenômeno está atrelado a uma miríade de motivações, as quais incluem questões ligadas a ideologias, cosmovisões e crenças religiosas, questões éticas e morais, alimentação saudável, bem como dietas alimentares. É nesse sentido que a emergência do fenômeno em tela expressa na atualidade, em suas diferentes iniciativas, motivações diversas daquelas relacionadas aos protestos e boicotes utilizados principalmente por trabalhadores na Europa e América do Norte no século XIX5.

Assim, longe de tratar-se de um fenômeno homogêneo e facilmente observável, ele tem sido enfatizado como um fenômeno heterogêneo e heteróclito. Neste sentido, autores como Sassatelli (2006, 2007) consideram que especialmente após a realização de protestos contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle no ano de 1999, que funcionou como uma espécie de catalisador de movimentos preocupados com o “consumo crítico”, é possível notar a emergência de “discursos consumeristas” que buscam politizar as práticas diárias de consumo, destacando-as enquanto espaços para disputa e expressão de posições políticas sobre o que é percebido como justo ou injusto. Com isso, o crescimento de modelos de consumo crítico, materializados nas companhas de boicote a marcas e empresas multinacionais, nas campanhas articuladas pelos movimentos ambientalistas para a redução dos níveis de consumo nos países centrais, ou ainda, no aumento da demanda por produtos do comércio justo e da produção de comida orgânica, destacaria as possibilidades do consumo para a participação política. Neste âmbito, conforme a autora, é razoável considerar que estes discursos têm se consolidado como uma sedutora narrativa que salienta a possibilidade de interferência no cenário político e econômico através das escolhas cotidianas de consumo. Assim, as práticas consumeristas, que buscam politizar as relações de consumo, poderiam ser percebidas como ações orientadas a partir de hierarquias axiológicas que informam escolhas sobre o consumo articulando-as com a produção e distribuição de produtos, considerando questões como as que dizem respeito à sustentabilidade das cadeias produtivas.

Partindo destas noções, este artigo tem como objetivo discutir uma face das gramáticas do consumo mobilizadas para justificar discursivamente o engajamento dos frequentadores de um mercado alternativo constituído pela feira de economia solidária6 da cidade de Santa Maria (RS). Desta maneira, a discussão será realizada com vistas a refletir sobre o repertório de justificação mobilizado por estes atores em seus discursos sobre suas práticas de consumo. Nestes termos, neste trabalho são analisados dados empíricos produzidos principalmente por meio de entrevistas com consumidores desta feira e observação de suas compras, que fazem parte de um estudo (Colomé, 2013) que buscou investigar como as práticas de consumo desenvolvidas pelos frequentadores da feira focalizada são justificadas por estes atores.

No que se refere aos procedimentos metodológicos, o estudo se valeu de uma abordagem qualitativa, sendo utilizadas as técnicas da observação participante e entrevistas semiestruturadas realizadas com os consumidores da feira, bem como análises dos materiais de divulgação das propostas em torno do consumo solidário. A partir da técnica de observação participante objetivamos identificar os diferentes perfis de consumidores da feira para a realização das entrevistas. Durante a realização do trabalho de campo, efetuado no período que iniciou em março de 2011 e terminou em novembro de 2012, foram ouvidos 60 consumidores, sendo 13 consumidores entrevistados, sendo definido este número através da técnica de saturação de dados. As entrevistas semiestruturadas captadas por meio de gravador digital de voz foram transcritas de forma integral e, posteriormente, tratadas com a técnica de análise de conteúdo de tipo categorial (não apriorística), seguindo a abordagem de Bardin (2011). O tratamento informacional dos dados foi realizado com o software RQDA (Huang, 2012)7.

Ainda no que toca à análise e modelização do repertório de justificação dos atores focalizados, foi utilizado o conceito de gramática8 teorizado por Boltanski e Thévenot (1991) e Lemieux (2009). Aqui, a noção de gramática foi utilizada para dar conta da racionalidade axiológica que informa e sustenta as justificações dos atores sobre as suas práticas de consumo na feira observada. Neste sentido, as gramáticas de consumo mobilizadas pelos consumidores da feira apontaram para a materialização de uma ética do cuidado.

Desta forma, partindo dos pressupostos teóricos e procedimentos mencionados, no que segue realizaremos a discussão sobre as motivações e justificações que remetem à constituição do que pode ser compreendido como uma ética do cuidado, ancorada preferencialmente nos vínculos de pertencimento comunitários com ênfase nas solidariedades estabelecidas no grupo primário, teorizada a partir da crítica em torno de ética do cuidado desenvolvida por Tronto (2009). Enfim, apresentamos a conexão entre risco e cuidado apreendida a partir das entrevistas realizadas na pesquisa de campo da investigação que subsidia a elaboração deste trabalho.

A ética do cuidado

Partindo da noção de ordens de legitimação (Boltanski e Thénevot, 1991), as práticas de consumo no mercado em questão são desempenhadas pelos seus atores com base em justificações que podem ser pensadas em termos de diferentes eticidades que orientam as práticas de consumo. Com efeito, a utilização de argumentos ético-valorativos nos discursos desses atores evidencia a constituição de uma gramática comum, compartilhada pelos participantes da feira, apontando para a valorização de aspectos relativos ao cuidado dos membros do grupo primário. Assim, a preocupação com os alimentos destinados à comunidade doméstica indicaria principalmente a mobilização e prevalência de uma ética do cuidado, materializada na busca por alimentos hígidos com base em diferentes juízos e qualificações sobre a natureza dos alimentos, suas origens, qualidades, benefícios e possíveis riscos para a saúde. Neste sentido, o conceito de ética do cuidado é aqui pensado como princípio valorativo que é materializado pelas práticas de consumo observadas e referidas como meios de expressão de obrigações éticas e morais (Sassatelli, 2006, 2004; Hall, 2011).

Em uma primeira aproximação, a discussão contemporânea sobre a ética do cuidado pode ser considerada a partir da crítica de Gilligan (1997) em relação à teoria da psicogênese da moralidade elaborada por Kohlberg (1992). Com efeito, Gilligan (1997), ao questionar os resultados enviesados pelo gênero das investigações de Kohlberg (1992) acerca do desenvolvimento da moralidade, propõe, para melhor contemplar as especificidades da construção do juízo moral das mulheres, aquilo que ela designa como “uma voz diferente”. Ou seja, a perspectiva moral caracterizada pela prevalência de noções abstratas, tais como universalismo, justiça, razão e autonomia, identificadas por Kohlberg como aspectos característicos de uma moralidade pós-convencional9, passaria ao largo de aspectos mais contextuais e relacionais, tais como o cuidado, a solicitude e a preservação dos vínculos afetivos que, por seu turno, seriam melhor ponderados pelas mulheres do ponto de vista da definição de seu julgamento moral.

No entanto, ao mesmo tempo que destacava a preponderância das dimensões empáticas e emocionais no tocante à construção do juízo moral das mulheres, a abordagem de Gilligan também foi objeto de duras críticas, deflagradas especialmente por autores situados no campo da teoria política feminista (Tronto, 2009, 2011; Dorlin, 2011; Friedman, 2011; Haber, 2011; Garrau, 2012). De um modo geral, as críticas endereçadas ao trabalho de Gilligan destacam que suas conclusões concorrem para a naturalização de uma psicologia feminina. Ademais, sua concepção acerca de uma ética feminina endossaria o entendimento segundo o qual a diferença sexual estabeleceria as condições de possibilidade da experiência moral das mulheres. Com efeito, a vinculação de uma ética do cuidado a uma disposição de gênero feminina desconsideraria as relações de poder entre os sexos, bem como a dominação masculina, consagrando dessa forma uma moralidade decorrente de um estatuto subalterno. Nestes termos, para efeito da discussão aqui realizada, podemos compreender melhor a ética do cuidado a partir de sua problematização por Joan Tronto (2009, 2011). Partindo de uma reflexão ancorada na teoria política, Tronto rejeita a oposição simplista entre uma eticidade abstrata caracterizada pela persecução de ideais de justiça (imparcial, impessoal e universalista) e uma eticidade concreta caracterizada pelo primado do cuidado, do zelo e da solicitude (contextual, pessoal e particularista). Para Tronto (2009), é necessário reconfigurar o conceito de justiça de maneira que as questões inicialmente propostas pelo trabalho de Gilligan (1997) possam ser incorporadas sob uma perspectiva sociológica.

Nesse sentido, as atividades contempladas pela noção “care” presumem tudo que possa se relacionar ao cuidado, ou seja, cuidar de algo pressupõe o reconhecimento daquilo que necessita ser cuidado, bem como a obrigação moral da responsabilização em relação ao que deve ser cuidado. Ao buscar dar suporte sociológico para a análise das práticas sociais relacionadas ao cuidado (care), Tronto (2009) também recorre ao argumento empírico de que existe, historicamente, uma relação circular entre a desvalorização e/ou invisibilidade social das práticas relacionadas ao cuidado e a opressão daqueles grupos sociais tradicionalmente dedicados às funções que asseguram a subsistência e a reprodução social na esfera doméstica. Mas, para além do argumento empírico, Tronto propõe um argumento teórico capaz de situar a questão do cuidado noutro patamar. Aqui, a discussão em torno de uma ética do cuidado focaliza a vulnerabilidade como aspecto constitutivo da própria condição humana. O acento ontológico sobre nosso modo de existência vulnerável evidencia o fato de que a vida humana enfrenta, nas diversas fases que transcorrem do nascimento à pequena infância e idade adulta, do envelhecimento à senilidade e decrepitude, uma experiência de graus variáveis de dependência e independência, de autonomia e fragilidade. Do ponto de vista de uma reflexão sobre o cuidado que, por fim, desagua na teoria política, Tronto sinaliza ainda os limites da teoria política liberal: não somos apenas sujeitos de direito conceitualmente constituídos sob a égide da equação liberal da igualdade formal perante a lei, somos antes indivíduos plasmados pela interdependência, seres relacionais submetidos a vínculos sociais, via de regra, assimétricos. Assim, ser vulnerável implica, sobretudo, dependência em relação a outrem, especialmente do cuidado que urge ser prestado quando se faz necessário. A ética do cuidado, segundo a elaboração de Tronto (2009), enseja uma moralidade enraizada contextualmente que se distancia de concepções tradicionais ancoradas na razão prática de um sujeito universal. Antes disso, a ética do cuidado se amalgama em uma prática ordinária prenhe de afetos e sentimentos morais, modelando trajetórias de vida e histórias singulares que nos remetem à trama de relações complexas que podem ser bem caracterizadas pela lógica de dar, receber e retribuir.

Não obstante, para Tronto (2009), trata-se de reconceitualizar a relação entre moral e política no sentido de se desnaturalizar o confinamento das práticas relacionadas ao cuidado na esfera privada, bem como sua atribuição predominantemente ao gênero feminino. Ou seja, ao se evidenciar as relações de dominação que concorrem para a desvalorização das práticas de cuidado como atividade característica da esfera doméstica, das relações de afetividade e proximidade, pode-se situar a ética do cuidado como questão concernente ao espaço público capaz de balizar a crítica à divisão social do trabalho que desvaloriza as atividades relacionadas ao cuidado como problema social. Noutras palavras, desnaturalizar os papéis historicamente relacionados ao cuidado implica revisar a moralidade que lhe subjaz no sentido de questionar a divisão sexual e também profissional10 do trabalho que reitera um reconhecimento denegado às funções e atividades relacionadas tanto aos cuidados demandados pela subsistência e reprodução do grupo primário quanto à atenção em relação àqueles que por várias razões necessitam de cuidados11.

Ao mesmo tempo que postula a politização das práticas de cuidado, Tronto (2009, p. 147-150) também qualifica conceitualmente o que se deve compreender como uma ética do cuidado. Nesse sentido, enquanto processo ativo, o cuidado encerra quatro fases ou momentos analiticamente distintos. De forma sumária, essas quatro fases são: (a) se ocupar, se preocupar (care about); (b) a responsabilidade (taking care of); (c) a prestação de cuidados ou a competência para cuidar (care giving); e (d) a capacidade de resposta daquele que é cuidado (care receiving). O primeiro momento do cuidado se traduz na ação de se ocupar, de se preocupar, de reconhecer a existência de uma necessidade; o segundo momento do cuidado implica a assunção de responsabilidade em relação à necessidade de outrem, bem como ser capaz de definir o tipo de resposta que deve ser dada; o terceiro momento do cuidado consiste em envolver-se concretamente com as ações inerentes ao cuidado; o quarto momento do cuidado implica o reconhecimento da atenção por quem é cuidado, ou seja, algum tipo de retribuição, o que completaria a lógica da dádiva e da contradádiva. Essas quatro fases ou momentos que envolvem a ação de cuidar constituiriam a gramática do cuidado.

Práticas de consumo, risco e cuidado

Mas, para além deste aporte teórico de Tronto que subsidia a reflexão crítica no âmbito da teoria política feminista, caberia ainda considerar, tendo em vista as condições de possibilidade de uma gramática moral em relação ao consumo perfilada pela noção de cuidado, a preponderância de uma eticidade concreta no âmbito das sociabilidades primárias, um contexto social de natureza comunitária, no qual a hierarquia valorativa será primada, tendencialmente, por um acento familístico, pessoalizado e particularista ou, dito de outro modo, por uma moralidade cujas ações serão hierarquizadas valorativamente a partir das noções que caracterizam uma ética do cuidado. Por extensão, não é difícil conceber que as atividades de abastecimento e consumo rotineiras estejam impregnadas por uma eticidade do cuidado contextual desvinculada do gênero, especialmente se seu propósito for a manutenção do grupo familiar.

É o que sinaliza a literatura sobre o tema, pois as práticas de consumo, entendidas em sentido plural, como atividades rotinizadas articuladas através de nexos12 (Warde, 2005), também são descritas por Hilton (2003), Sassatelli (2007) e Clarke et al. (2008) como práticas vinculadas historicamente às noções de ética e moralidade. Com efeito, os novos desdobramentos evidenciados pelos estudos já mencionados sobre o consumo crítico, em suas variações, têm aprofundado as discussões acerca dos componentes valorativos que estão embebidos nas mais prosaicas atividades de consumo. A esse respeito, Micheletti (2003) argumenta que, ao mesmo tempo que o compromisso moral de abastecimento e manutenção das necessidades do grupo primário se constituiu historicamente em decorrência de uma divisão sexual do trabalho iníqua, também concorreu para compelir as mulheres a transcender os espaços privados em direção à esfera pública ao politizarem suas práticas de consumo.

Contemporaneamente, com a ascensão de diversos discursos e iniciativas como o consumo ético, propostas de comércio justo, slow food e movimentos de economia solidária, que buscam politizar as relações de consumo, pautando-as a partir de diferentes valores e compreensões sobre suas relações com aspectos sociais, ambientais e políticos, tem-se enfatizado o caráter ético-moral destas relações na medida em que expressam em suas diretrizes conceitos sobre justiça, equidade e poder. Neste sentido, a proeminência de tais propostas revela que o consumo, nas palavras de Wilk (2001), é em essência uma questão moral13. Em consequência, o consumo crítico enquanto um movimento multifacetado parece evidenciar mais ainda esta noção, visto que, entre seus principais objetivos, busca redefinir modos e padrões de consumo através de posições moralmente sustentadas e potencialmente vinculadas a uma ética do cuidado.

Parte destas iniciativas também podem ser pensadas em relação ao que Kjaernes et al. (2006) consideram a ascensão de novos vocabulários sobre a comida, que emergiram principalmente a partir da década de 1990, baseados na dicotomia entre boa e má alimentação, exemplificada na comida industrializada, principalmente o fast food, percebida como prejudicial à saúde, assim como nos alimentos geneticamente modificados e nos produzidos com agrotóxicos. Do outro lado, a comida considerada natural, ou “supernatural”, como a proveniente da produção orgânica e o slow food, é percebida como saudável. Assim, partindo do contexto europeu, estes autores destacam a emergência de novas sensibilidades e moralidades sobre a alimentação.

Em perspectiva semelhante, autores como Johnston et al. (2011), Clarke et al. (2008), Muchnik (2006), Sassatelli (2004, 2006) e Hall (2011) indicam que estas práticas têm sido consideradas como locus privilegiado para expressar e afirmar valores cotidianamente. Portanto, através das práticas corriqueiras de consumo são mobilizadas questões sobre responsabilidade, obrigação, compromisso e cuidado em relação às pessoas e ao meio ambiente, bem como atentando para as relações socioeconômicas vigentes. Tais estudos apontam para a constituição de eticidades e moralidades que dão sustentação discursiva para os engajamentos dos consumidores nestas práticas, bem como oferecem argumentos para sua manutenção.

Em consonância com esta compreensão, as duas noções mais destacadas da ética do cuidado, conforme será demonstrado (a Figura 1 mostra as diferentes categorias relacionadas a esta ética), que versam sobre a família e o consumo de alimentos considerados hígidos e naturais, podem ser percebidas em conexão com o desenvolvimento moderno que toca à produção de alimentos, que tem se estabelecido globalmente. Neste sentido, apesar das diferenças que podem ser observadas em contextos distintos, como o brasileiro e o europeu, diversos autores têm identificado que as preocupações e cuidados em torno da alimentação familiar apresentam certos traços em comum, como é o caso da percepção do risco proveniente das práticas da agricultura moderna, principalmente depois da chamada revolução verde14. Desta forma, como indicam os trabalhos de Menasche (2004), Portilho (2009), Guivant (2002), Barbosa (2009), as questões relativas à preocupação com a saúde ligadas à percepção sobre o consumo alimentar no Brasil podem ser compreendidas como parte de um processo contemporâneo pelo qual a segurança dos alimentos tem sido uma preocupação cada vez mais forte na vida dos indivíduos e suas famílias.

Categorias associadas à ética do cuidado.
Figura 1
Categorias associadas à ética do cuidado.

Figure 1. Categories associated with the ethics of care.

Sob esta ótica, as práticas de consumo focalizadas no presente estudo parecem se aproximar em alguma instância dos achados destes autores. Em virtude disso, as demandas dos consumidores da feira de economia solidária por produtos “naturais” e “saudáveis” compõem um lugar importante em suas justificações, fazendo parte fundamental de sua racionalidade axiológica:

E o que me motivou é a procura dos produtos sem agrotóxicos, produto mais natural; assim, essa foi a principal motivação, além do preço, mas o principal é o lado, é livre de agrotóxicos (Consumidor C9).

Ah, eu conheci quando já cheguei aqui no bairro, não é, a gente costuma comprar hortaliças, verduras, então aqui tem uma variedade melhor, então logo que a gente chegou aqui, já soube da feira e todos os sábados a gente vai à feira, compra basicamente essas coisas mais saudáveis que tem em relação ao mercado que são verduras, hortaliças, tomates, essas coisas (Consumidor C11).

A motivação principal é que toda a minha família, as minhas irmãs, elas sempre tiveram um contato maior com a natureza porque elas se criaram para fora, elas sempre, sempre, é uma coisa já de família de procurar os produtos mais naturais. Isso é uma questão familiar da procura por esse tipo de alimentos, esse tipo de produtos (Consumidor C5).

Tal fato pode apontar para um fenômeno descrito por autores como Murdoch e Miele (1999) como a emergência de preocupações com a variedade e segurança dos alimentos; neste sentido, os alimentos percebidos como “naturais” tendem a ser vistos pelos consumidores como tendo um padrão mais elevado do que os alimentos industrializados. Assim, os alimentos considerados “naturais” passariam a ser pensados como contendo salvaguardas da natureza contra uma saúde debilitada e o consequente adoecimento do organismo. Ao contrário, a comida industrializada e padronizada passaria a ser percebida como “não natural” e artificial e mesmo patogênica, dado o uso intensivo de aditivos para realçar o sabor e conservantes para prolongar sua comestibilidade.

No contexto brasileiro, para Menasche (2010) – que investigou as práticas de consumo desenvolvidas na região sul do país, na cidade de Porto Alegre – a dicotomia expressada nas falas de seus entrevistados relacionada à valorização do natural construída em contraposição à artificial, termo que é atribuído aos alimentos industrializados, parece indicar que este fenômeno de valorização dos alimentos locais, artesanais, constitui-se como um processo mais amplo, que teria suas bases assentadas na conservação de hábitos alimentares considerados tradicionais em face ao avanço de formas de alimentação consideradas como não autênticas. Assim, de acordo com a autora, os alimentos percebidos como naturais não seriam apenas aqueles de melhor gosto. Em uma oposição ao alimento industrializado, os alimentos “naturais” seriam percebidos como puros e, dessa maneira, saudáveis. Neste sentido, os adjetivos relacionados ao natural seriam atribuídos aos alimentos considerados como frescos, ou aqueles provenientes de feiras (nunca dos supermercados), ou aos orgânicos e ainda aos trazidos de fora15. Além disso, Menasche (2004, 2010) considera que a contraposição dos alimentos considerados “naturais” aos industrializados pode também ser percebida como um fenômeno de valorização dos alimentos locais e artesanais, pois eles encarnariam imaginários sociais sobre o mundo rural, conectando este contexto à noção de alimentos “puros” e “autênticos”.

Segundo Halkier e Holm (2008, p. 667), na área referente às políticas alimentares (food policies), o consumidor tem sido cada vez mais convocado a assumir a responsabilidade por vários tipos de problemas envolvendo os alimentos, como os relativos à sua segurança, melhorias nas condições ambientais, bem como por questões relacionadas à ética e nutrição. Um exemplo disso foi o caso da “encefalopatia bovina espongiforme” (BSE), popularmente conhecida como a “doença da vaca louca”, que causou uma crise política na União Europeia sobre a segurança dos alimentos, evidenciando especificamente a necessidade de um envolvimento ativo dos consumidores. Esta crise ganhou repercussão mundial, fazendo emergir uma forte consciência acerca do risco, abalando a confiança pública nas instituições políticas e científicas. Em conjunto com a eclosão de outros escândalos alimentares, como a febre aftosa, a gripe suína, e ainda o advento dos organismos geneticamente modificados no início da década de 90, a alimentação deixou de ser uma questão restrita16 aos círculos de debate entre especialistas e instituições que definiam as políticas de segurança alimentar e nutricional. Outro ponto que tem sido destacado fora dos círculos de especialistas é o caso da utilização de agrotóxicos e seus resíduos nos alimentos, principalmente os pesticidas. Neste sentido, o crescimento da demanda por produtos considerados orgânicos tem sido impulsionado pela preocupação crescente com a saúde, como evidenciam pesquisas realizadas no contexto brasileiro (Barbosa, 2009; Guivant, 2002; Castañeda, 2010; Portilho, 2009).

Desta forma, a percepção sobre os riscos ligados ao consumo de alimentos no Brasil, não obstante as controvérsias científicas que muitas vezes desnorteiam os chamados “leigos” - categoria em que se enquadram os consumidores em sua maioria - é um traço em comum aos consumidores entrevistados.

Assim, no caso deste público específico, parece se constituir um consenso em relação aos potenciais riscos à saúde de suas famílias causados pela utilização de agrotóxicos. Os depoimentos destacados anteriormente evidenciam este fato. Em virtude disso, a busca por alimentos considerados naturais foi um dos argumentos mais destacados nas falas dos entrevistados. Esta noção de alimentação natural é colocada em oposição aos alimentos cultivados com uso de pesticidas, conservantes no caso de alimentos processados de origem animal e industrializados de forma geral:

Porque a gente sabe que mesmo que um produtor industrial, uma indústria, tenha uma boa intenção, um supermercado não compraria um produto para colocar na prateleira se durasse uma semana. Porque senão, se ele não vende em uma semana, ele vai perder o produto. Então o mercado, ele quer comprar um produto que tenha uma longevidade maior. Então a indústria, ele se obriga a colocar um produto na prateleira e que dure tempo, para o produto durar tempo, um salame lá que nós penduramos num supermercado, que tenha validade de um ano ou mais ou seis meses, ou produtos que duram um ano ou mais, eles têm que ter embutido nele ali um conservante. E nós sabemos que nem todos os conservantes, a grande maioria faz mal para a saúde, alguns são cancerígenos, como o conservante dos embutidos. Então é isso que nos leva a consumir [...] zelar por aquilo que é mais natural (Consumidor C5).

Seria por essa questão de produtos naturais. É melhor consumir os produtos naturais do que outros sei eu lá, industrializados, a gente nota a diferença, no gosto, no sabor, assim... nas hortaliças, verduras, essas aí a gente percebe, sente o gosto, sente o cheiro até do produto, por exemplo, um pé de alface e que é plantado em um adubo orgânico, ele tem o cheiro, o sabor diferente, agora por exemplo alface, e outras, a radite e outras coisas que eles usam o adubo químico, ele chega até estar amargo e não tem aquele sabor assim de dizer isso é natural, o tomate é a mesma coisa, eu gosto de quando eu vou na feira e pegar um pé de alface e cheirar, o tomate é a mesma coisa, não sei se tu já experimentou o tomate que é cultivado em adubo químico e adubo orgânico, ele tem o cheiro bem diferente e o gosto bem diferente (Consumidora C4).

A racionalidade axiológica do consumo familiar

Com efeito, os relatos destacados anteriormente podem ser pensados a partir de um primeiro aspecto que toca à saúde e ao cuidado com a alimentação. Partindo deste ponto, nesta seção será demonstrado como a preocupação com o aporte de alimentos considerados sadios configura o cuidado com o grupo familiar. Portanto, no que segue buscamos evidenciar e discutir os pilares que alicerçam a racionalidade axiológica do consumo familiar na feira de economia solidária em tela.

Conforme Guivant (2002), a reflexividade mais ampla sobre a saúde e a qualidade de vida tem emergido mesmo com a falta de acordo no meio científico sobre os riscos alimentares. Este dado carrega em si mesmo um paradoxo, visto que, de acordo com a autora, esta falta de consenso acaba por impulsionar mais ainda esta reflexividade ampliada17. Assim, as informações acessadas pelo público leigo, sujeitas a variações contínuas na produção do conhecimento científico sobre a relação entre a alimentação e a saúde, acabam por gerar incertezas não somente quanto aos alimentos, mas também sobre a confiabilidade das próprias informações científicas e das instituições que as emitem. Desta forma, a preocupação evidenciada nos relatos com a relação da saúde e dos alimentos parece apontar nesta direção. Em virtude disso, a consideração por parte dos entrevistados sobre os riscos potenciais do consumo de agrotóxicos nos alimentos para suas famílias perpassa a maioria dos discursos:

A primeira motivação é a questão médica, o médico da minha esposa recomendou comprar tomate de um produtor daqui porque ele não usa agrotóxico... então eu vim na feira para comprar esse tomate... e tomei por hábito vir aqui na feira... (Consumidor C1).

Eu sempre tive interesse em produtos naturais, procuro comprar bastante coisas assim, como eu trabalho, o meu pai e minha mãe são pessoas de idade, então a alimentação deles tem que ser controlada, e a gente tem o hábito de comer bastante legumes, frutas, verduras, e foi um dos motivos também que eu frequento a feira. E cuido bastante da alimentação, né, que eu acho que é básico! E as refeições é o café da manhã e às 10:30 eles comem um lanche, uma fruta alguma coisa, ao meio-dia o almoço. Eu procuro fazer, assim, um almoço bem saudável com coisas boas para eles comerem, à meia tarde também eles fazem um lanche e à noite eles fazem lanche também! A gente não tem o hábito de janta, para o pai é que às vezes eu reservo um pouquinho de arroz, um pedacinho de carne, feijão, uma couve assim, né, que ele gosta mais, né, eu até prefiro [...] conversei com o médico dele que eu acho mais saudável do que dar pão e o pai não come duas fatias, ele quer mais, embora ele coma pão de centeio, ou integral, pão light, eu acho que o pão é mais pesado, e eu dou cedo também, né, pra ele a gente procura dar cedo, né?... (Consumidor C10).

Estes depoimentos expressam uma preocupação com a alimentação dos membros do grupo primário, principalmente no que toca à busca de uma alimentação baseada no consumo de produtos considerados naturais e livres de agrotóxicos. É possível observar, conforme a Figura 2, que esta preocupação ocupa lugar importante nos discursos dos atores. Portanto, nota-se que, de forma semelhante a outras categorias que configuram a ética do cuidado, a percepção sobre o risco dos agrotóxicos é presente na maioria das entrevistas realizadas.

Número de entrevistas associadas a cada categoria.
Figura 2
Número de entrevistas associadas a cada categoria.

Figure 2. Number of interviews associated with each category.

A motivação destacada por estes consumidores evidencia a relevância que a busca por produtos considerados saudáveis para a subsistência do grupo primário tem nas suas práticas de consumo. Neste sentido, esta preocupação e cuidado com a saúde têm sido diagnosticados por estudos18 como uma questão motivadora para a frequência em feiras no cenário brasileiro, principalmente de orgânicos. Apesar da feira em questão não ser uma feira de orgânicos e não existir neste mercado alternativo uma identificação dos produtos considerados “orgânicos”, ela parece atrair seus frequentadores por razões semelhantes. Desta forma, estas tendências parecem estar presentes nos discursos analisados, as quais fazem parte da estrutura normativa da ética do cuidado, que é composta por diferentes noções, como as já citadas, alimentos naturais, natureza, busca pela saúde e bem-estar, e que ao seu turno, se relacionam com outras noções e imaginários, como tipo de produção, contexto rural e autenticidade.

Com efeito, a constituição de cuidado com a saúde da família, expresso na busca por alimentos saudáveis, nas palavras de Sayer (2003) vai bem além de uma lógica individualista, denotando a ida às compras de forma relacional, sendo guiada com base em sentimentos morais, voltados para os outros, em particular os membros do grupo primário:

How far shopping is directed towards others, particularly family members, and how far it is guided by moral sentiments towards them and about how to live. Far from being individualistic, self-indulgent, and narcissistic, much shopping is based on relationships, indeed on love. It often involves considerable thoughtfulness about the particular desires and needs of others, though it may also reflect the aspirations which the shopper has for them, thereby functioning as a way of influencing them (Sayer, 2003, p. 353)19.

Portanto, as compras na feira, a partir do relato e observação dos consumidores, indicam que estas podem ser pensadas a partir do escopo oferecido por Miller (2002) como ações estruturadas a partir da prevalência da eticidade concreta das solidariedades primárias. Conforme a teoria proposta pelo autor, o consumo e suas práticas poderiam ser percebidos enquanto atos de devoção e amor. Partindo de sua investigação realizada no norte de Londres, onde acompanhou a rotina de compras cotidianas de moradores do local, o autor sugere que estas atividades corriqueiras são orientadas pelo amor, compreendido como uma ideologia normativa que “se manifesta em larga medida como prática em relacionamentos de longo prazo e não apenas uma visão romântica de um momento idealizado do namoro” (2002, p. 33). Desta forma, as práticas de consumo rotineiras são um meio pelo qual seus agentes podem expressar um ritual de abnegação e sacrifício.

Em virtude disso, o consumo cotidiano deve ser percebido enquanto uma atividade executada através de balizas morais e éticas. Miller (2002) considera que esses atos prosaicos, em sua maioria, são constituídos de escolhas guiadas moralmente que versam sobre o que as pessoas pensam sobre si mesmas e suas relações com outras pessoas. Assim, de acordo com o autor, as compras rotineiras estão imbricadas diretamente com atos de devoção e preocupação, principalmente com aqueles que pertencem ao núcleo familiar. Neste sentido, a compra não pode ser entendida como um ato individualista ou individualizante relacionado à subjetividade do comprador, mas de forma relacional. Para o autor, a compra de mercadorias direciona-se principalmente a partir de duas formas de alteridade. A primeira expressa uma relação entre o comprador e outro indivíduo em particular, como um parceiro ou uma criança, podendo estar presente no domicílio, ser desejado ou imaginado. Já a segunda diz respeito a uma relação com um objetivo mais geral “que transcende qualquer utilidade imediata e é mais bem compreendida como cosmológica na medida em que assume forma não de sujeito ou de objeto, mas dos valores aos quais as pessoas desejariam se dedicar” (Miller, 2002, p. 27).

Desta forma, conforme os relatos destacados, a motivação de cuidado e devoção para com a família se faz presente como um ponto central de suas falas. As preocupações com a saúde e perigos dos agrotóxicos e outras substâncias consideradas potencialmente nocivas quase sempre aparecem nessas narrativas. Assim, quando questionadas sobre suas motivações para as compras, realizadas em busca da saúde, as respostas em sua maioria mencionavam filhos ou companheiros, indicando a preocupação com o seu bem-estar:

E a gente procura fazer essa alimentação natural até para passar para os nossos filhos e netos, não é [...] O exemplo, porque se tu me perguntar se eles aceitam (consumo de alimentos crus), eles dizem que não, porque a gente tá ficando velho, caduco ou louco, né. Come assim, mas quando tu vê que eles, uma neta por exemplo vai e pede para comer também assim. Aí tu sente que tá passando, né, é muito devagar, é muito lento, mais eles ficam [...] O exemplo, o exemplo é fundamental, eu pego um brócolis, digo: o vô vai comer, claro um brócolis cozido, né, o vô vai comer uma árvore, olha aqui oh! o vô é gigante, e elas também querem comer a árvore que o vô come, né. Então a gente nota, por pequena que seja assim o que vai acontecer depois, mas já vale a pena. E a gente nota na saúde direto, né (Consumidor C7).

E eu me importo, me preocupo muito com isso aí, sabe, com a saúde, botar na mesa uma coisa mais de qualidade, alimentos mais de qualidade, sem veneno, sabe, com saúde, botar na mesa uma coisa de qualidade, alimentos de qualidade para a família [...] eles (filhos e esposo) gostam tudo o que eu trago da feira, repolho, inclusive hoje ao meio-dia eu fiz um repolho que eu trouxe no sábado passado! Repolho ou brócolis eles gostam do jeito assim que eu faço, refogado, sabe? Tempero verde não pode faltar! A salada de alface eu sempre faço, sabe, uma salada de, é um misto de folhas verdes. Que eu digo, né, daí eu coloco rúcula, a radite, alface, sabe? A salada de beterraba também a gente consome bastante! (Consumidor C8).

Por conseguinte, o conjunto de valores que subjaz a estas práticas está quase sempre relacionado a uma estrutura normativa que tem uma de suas bases constituídas a partir da ideia de uma ética do cuidado. Nestes termos, o entendimento de que a efetivação das compras realizadas pelos atores em questão aproxima-se muito do que Miller (2002) sustenta, em um contexto tão diferenciado do brasileiro, indicando que estas práticas têm sido utilizadas para expressão de atenção e preocupação em diferentes sociedades. Assim, o consumo tem sido um meio pelo qual as pessoas expressam suas obrigações morais, prevalecentes principalmente no âmbito das solidariedades primárias.

Em consonância com esta perspectiva, Clarke et al. (2008)20 destacam que as oportunidades práticas e materiais que estes espaços oferecem aos consumidores vão bem além dos seus princípios abstratos e suas possíveis consequências. Em vez disso, as decisões de participar destas práticas de consumo estão conectadas a motivações éticas que versam sobre a importância das relações cotidianas de cuidado. Assim, quando estes atores falam sobre as “éticas do consumo”, eles predominantemente estão a se referir às éticas que envolvem o cuidado com a família, ao valor e ao gosto, conectando os cuidados com a saúde às suas escolhas diárias (p. 224). Desta maneira, conforme os autores, estas éticas parecem influenciar as práticas de consumo em um sentido diferente de uma grande estrutura ideológica e normativa, e mais na direção de uma estrutura normativa que se refere diretamente à maneira como as pessoas realizam suas atividades corriqueiras, mobilizadas por questões como “Que tipo de pessoa eu me esforço para ser.” (p. 225). Portanto, de acordo com os autores, as práticas de consumo alternativo, como é o caso das práticas de consumo de alimentos orgânicos por eles estudadas, configuram-se como espaços utilizados para pensar “éticas do cotidiano” expressas na preocupação e cuidado com a alimentação familiar.

Neste mesmo sentido, Barnett et al. (2005, p. 10) salientam a importância das práticas de consumo enquanto atividades corriqueiras de elaboração e construção do self, principalmente em relação às pessoas à sua volta. Desta forma, ressalta-se o aspecto mediador do consumo como práticas que permitem não só a construção identitária, mas que são inerentemente relacionadas a um grupo de competências éticas aprendidas que compõem o que se poderia chamar de dimensões habituais e práticas dos atos de consumo.

Seguindo este entendimento, acerca da constituição das práticas de consumo enquanto atividades rotinizadas que possibilitam o exercício de competências éticas, os discursos dos atores observados sobre suas práticas e justificações marcados pela ética do cuidado evidenciam que esta estrutura normativa também é intrincada pela articulação de pressupostos morais relativos à autorreflexão sobre os pressupostos da conduta individual. Assim, as decisões diárias que cercam o consumo, principalmente no que toca aos cuidados, por exemplo, dos pais com a alimentação dos filhos, ou ainda, entre os cônjuges, estão sempre orientadas por balizas éticas configuradas socialmente, que expressam determinadas cosmologias21. Deste modo, como é igualmente destacado por Miller (2002), os discursos sobre as compras carregam os valores e éticas aos quais as pessoas desejariam se dedicar.

Considerações finais

Conforme foi discutido ao longo deste trabalho, em nossa análise das práticas de consumo dos frequentadores de uma feira de economia solidária, evidenciamos que suas escolhas são plasmadas por uma racionalidade axiológica que é orientada a partir de uma gramática da ação articulada em uma de suas faces pela ética do cuidado. Desta maneira, partindo da teorização ensejada pela sociologia pragmática de Boltanski e Thévenot (1991), problematizamos a composição das gramáticas de consumo mobilizadas pelos consumidores da feira em questão. Conforme foi destacado, a discussão sobre ética do cuidado, realizada a partir da problematização da noção de ética do cuidado de J. Tronto, evidenciou que, nas práticas de consumo desenvolvidas no ambiente da feira, a noção de cuidado perpassa as justificações dos seus frequentadores. Com efeito, a mobilização em torno da ideia de cuidado e preocupação, que prevalece principalmente no âmbito das solidariedades primárias, constitui-se como uma das justificações que moldam a ética do cuidado. Assim, as demandas por alimentos considerados “naturais” e a preocupação com a saúde são marcadamente direcionadas aos cuidados familiares.

Portanto, a mobilização de uma ética do cuidado faz referência principalmente à valorização da noção de cuidado em relação ao grupo primário. Em virtude disso, a conformação da ética do cuidado revelou-se uma gramática relevante para a justificação e engajamento nas práticas de consumo na feira em questão, marcada pela preponderância de uma eticidade concreta na esfera das sociabilidades primárias. Assim, as justificações relativas às preocupações com a saúde e bem-estar dos membros familiares estiveram presentes na maioria das falas dos entrevistados, denotando a expressão e materialização das compras de alimentos de forma relacional (Sayer, 2003). Neste sentido, os cuidados e preocupações com o tipo de alimentos adquiridos para o consumo familiar parecem indicar uma aproximação da perspectiva de Miller (2002), que considera que os atos corriqueiros de consumo são, em sua maioria, guiados moralmente.

Nestes termos, o cuidado e a preocupação com a busca de alimentos considerados “naturais” podem relacionar-se também com o desenvolvimento moderno no que toca à produção de alimentos, principalmente com a percepção dos riscos provenientes da utilização de agrotóxicos. Esta percepção faz parte das justificações que dizem respeito à ética do cuidado, contudo, parece que no caso brasileiro, diferentemente do cenário europeu, investigado por Halkier e Holm (2008), as preocupações com os riscos potenciais do consumo de produtos agroalimentares contendo agrotóxicos não são diretamente relacionadas às questões políticas no contexto do sul do Brasil. Desta maneira, em poucos depoimentos é possível verificar esta conexão, o que deixa mais evidente a especificidade das práticas de consumo alternativo focalizadas, que sob este enfoque são em maior escala relacionadas aos cuidados familiares e em escala menor com a questão ambiental.

Por fim, cabe frisar que as justificações dos atores em questão sobre o cuidado com a saúde em sua maior parte estão amalgamadas com a noção de cuidado na esfera das relações domésticas; dito de outro modo, parecem exceções as justificações sobre o cuidado com a saúde em termos individuais. Desta forma, reafirma-se aqui o lugar central ocupado pela noção de cuidado de acento familístico nas gramáticas de consumo no cenário do sul do Brasil, que por sua vez são orientadas por valores configurados socialmente que informam aos atores determinadas balizas éticas a seguir em suas compras. Em virtude disso, cabe também ressaltar que, muito longe de uma racionalidade movida pela lógica do custo-benefício, a ética do cuidado orienta as práticas e discursos na feira em questão a partir de uma lógica presidida pela atenção e cuidado com o grupo primário.

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Notas

3 Ao tratar a questão em termos de práticas de consumo, privilegiamos uma abordagem relacional em torno do fenômeno do consumo de modo a evitar perspectivas que, inadvertidamente, substancializam o fenômeno ao constituir sujeitos consubstanciados nas figuras de consumidores e produtores, o que de resto acaba concorrendo para a elisão de dimensões sócio-históricas fundamentais das relações sociais relacionadas à sua natureza conflitiva.
4 É perceptível na literatura sobre o tema o uso de diferentes termos para descrever o fenômeno, tais como: consumerismo, consumerismo político, consumo radical, consumo crítico e alternativo, entre outros. Com o objetivo de evitar possíveis ambiguidades, visto que, por exemplo, no cenário brasileiro o termo consumerismo também é utilizado para referir os movimentos em favor dos direitos do consumidor, optamos pelo uso do conceito de consumo crítico, nos termos de Sassateli (2006).
5 Como nos protestos ocorridos no cenário norte-americano e inglês do século XIX, bem como na utilização dos bens como estratégias políticas materializados no processo de independência dos Estados Unidos e da Índia, como destacam Micheletti (2002, 2003) e Bayly (1991).
6 Esta feira, que acontece todos os sábados no Centro de Economia Solidária Dom Ivo Lorscheiter, é considerada uma feira de referência nacional em projetos de Economia Solidária. A feira, que ocorre desde 1989, foi gestada através do projeto Esperança/Cooesperança, que conta com 230 empreendimentos solidários organizados em grupos que envolvem e beneficiam mais de 4.500 famílias, em 30 municípios da região central do Estado do Rio Grande do Sul, beneficiando direta e indiretamente, segundo os organizadores, mais de 20.000 pessoas entre produtores e consumidores.
7 O RQDA (R package for Qualitative Data Analysis) é um software livre (free as freedom) desenvolvido para análise de dados qualitativos. Este software possui um grande potencial para o tratamento de dados em pesquisas nas Ciências Sociais, visto que ele foi desenvolvido para funcionar através do ambiente e linguagem para análise estatística R, o que pode facilitar o tratamento de dados em pesquisas que utilizem análise qualitativa e quantitativa. Para maiores detalhes sobre o pacote RQDA da linguagem R (http://rqda.r-forge.r-project.org).
8 Outros autores já se valeram da noção de gramática para suas teorizações: por exemplo, Braudel a utilizou em sua “Gramática das civilizações” (2004), bem como Honneth (2003) também recorreu a este conceito para analisar, contemporaneamente, as lutas por reconhecimento como uma nova gramática moral do conflito social. Não obstante, a noção de gramática também pode ser utilizada de modo a contemplar a noção de regras que orientam a ação. Para maior detalhamento, ver Taylor (2000). Aqui a noção de gramática em seu sentido estrito ou forte torna possível a articulação de uma sintaxe através da análise da estrutura actancial da ação; ou seja, trata-se da análise de uma relação social buscando-se revelar as relações que existem entre os participantes da relação, isto é, entre os chamados actantes. Essa última noção (“actante”) busca dar conta das capacidades de agir dos agentes sem hipostasiar suas identidades ou substancializar seus atributos e qualidades. A premissa é que as qualidades de um indivíduo não podem ser vistas como algo que lhe é imanente, mas estão baseadas antes em qualificações sempre referidas a situações determinadas. Essa dimensão sintática da ação pode ser articulada ainda com uma semântica (o sentido e significado da ação social) e uma pragmática (a justificação da ação social segundo o contexto de sua realização). Para maiores detalhes, ver o capítulo 3 de “El amor y la justicia como competencias”, no qual Boltanski (2000) explora a análise actancial para elaborar uma sociologia da denúncia pública. Ver ainda, Boltanski e Thévenot (1991, p. 11), bem como Nachi (2006, p. 52-55).
9 Para Kohlberg (1992), a moralidade pós-convencional presumiria o desenvolvimento de uma competência moral para orientar a ação a partir de princípios e regras universalizáveis e suscetíveis de autonomizar-se tanto em relação à eticidade tradicional como em relação à moral coletiva.
10 Ver os trabalhos de Hugues (1996) sobre a divisão social do trabalho e suas valorações. O trabalho de enfermeiros caracterizado pelo cuidado dos pacientes é desvalorizado no âmbito da instituição hospitalar quando comparado ao trabalho exercido pelos médicos.
11 Pequena infância, indivíduos idosos, doentes e descapacitados.
12 Conforme Warde (2005), as práticas consistem tanto em “fazeres” e “dizeres”, que sugerem que a análise deve ser relacionada tanto com a atividade prática quanto com suas representações. Assim, sua teorização considera a representação útil dos componentes que formam um “nexo”, que seria o meio através do qual ações e palavras se juntam e podem ser ditas e coordenadas.
13 De acordo com o autor, as questões morais suscitadas pelo consumo “têm uma natureza dupla (pelo menos), pois são ambas baseadas na experiência humana comum, a ‘razão prática’, e, ao mesmo tempo, são parte do discurso público sobre a moralidade, um discurso que tem um contexto cultural, simbólico e político, mais amplo” (Wilk, 2001, p. 255).
14 A revolução verde refere-se à transformação das técnicas agrícolas, a partir da mecanização e ampla utilização de fertilizantes e pesticidas, que ocorreu a partir da década de 1950, primeiramente na América do Norte e Europa.
15 Conforme a autora, de fora seriam os alimentos provenientes do meio rural, cuja origem é associada diretamente ao produtor (Menasche, 2010, p. 205).
16 Conforme Portilho et al. (2011), a ampliação deste debate também é sentida na grande mídia, que tem focalizado este assunto em suas pautas (Portilho et al., 2011, p. 100).
17 Conforme a autora, esta reflexividade mais ampla se relaciona ao processo pelo qual os consumidores elaboram as informações provenientes do meio científico, assim: “As frequentes marchas e contramarchas da pesquisa científica sobre a relação entre alimentos e saúde acabam não só estimulando as incertezas entre o público consumidor como também provocando dúvidas em relação à confiabilidade das próprias informações científicas” (Guivant, 2002, p. 91).
18 Como é o caso do estudo realizado por Portilho (2009).
19 Tradução nossa: “Até que ponto o ato de comprar está voltado para os outros, em particular os membros da família, e até que ponto ele é guiado por sentimentos morais em relação a eles e sobre como viver. Longe de ser individualista, autoindulgente e narcisista, muito do ato de comprar é baseado em relacionamentos, na verdade bo amor. Muitas vezes, envolve reflexão considerável sobre os desejos particulares e necessidades dos outros, embora também possa refletir as aspirações que o ‘cliente’ tem para eles, funcionando, assim, como uma forma de influenciá-los” (Sayer, 2003, p. 353).
20 Os autores investigaram os espaços e as éticas que perpassam a alimentação orgânica.
21 Por meio das práticas cotidianas de consumo são mobilizadas diferentes cosmologias sociais que dizem respeito a valores tais como responsabilidade, devoção, obrigação, compromisso e cuidado, conforme já foi destacado anteriormente.

Autor notes

1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Av. Bento Gonçalves, 9500, Campus do Vale, Prédio 43311, 91509-900, Porto Alegre, RS, Brasil.
2 Universidade Federal de Santa Maria. Av. Roraima, 1000, Campus Universitário, Faixa de Camobi, Km 9, Prédio 74, 97105-900, Santa Maria, RS, Brasil.
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