Dossiê
Recepção: 30 Agosto 2017
Aprovação: 20 Janeiro 2018
Resumo: Dentro do marco dos 30 anos do livro De los medios a las mediaciones, pretendemos fazer uma espécie de mapa diurno da obra de Jesús Martín-Barbero. Propomo-nos a demonstrar que o pensamento comunicacional de Martín-Barbero não se conforma a uma teoria da recepção nem a uma teoria das mediações, mas constitui uma teoria da comunicação específica, caracterizada por uma epistemologia, metodologia e conceitos próprios, a que denominamos teoria barberiana da comunicação. Pretendemos demonstrá-la através de três eixos de análise: 1) a epistemologia da comunicação, com a metáfora do calafrio epistemológico que faz a ruptura no conhecimento comunicacional; 2) a cartografia como método para promover novos parâmetros de representação do conhecimento; 3) os mapas teórico-metodológicos que são o mapa noturno e quatro mapas das mediações.
Palavras-chave: Jesús Martín-Barbero, teoria barberiana da comunicação, método cartográfico, mapas das mediações, epistemologia da comunicação.
Abstract: Within the milestone of the 30 years of the book De los medios a las mediaciones, we intend to make a kind of diurne map of the work of Jesús Martín-Barbero. We propose to demonstrate that Martín-Barbero's communicational thought does not conform to a theory of reception nor to a theory of mediations, but it constitutes a specific theory of communication, characterized by its own epistemology, methodology and concepts, which we call Barberian theory of communication. We intend to demonstrate it through three axes of analysis: 1) the epistemology of communication, with the metaphor of the epistemological chill that makes the rupture in the communicational knowledge; 2) the cartography as a method to promote new parameters of knowledge representation; 3) the theoretical-methodological maps that are the "nocturne map" and four maps of the mediations.
Keywords: Jesus Martín-Barbero, Barberian theory of communication, cartographic method, maps of mediations, epistemology of communication.
INTRODUÇÃO: DE CARTOGRAFIAS E MAPAS NOTURNOS
A cartografia vive de uma ambiguidade que a situa na confluência da ciência e da arte. Geográfica e histórica, a cartografia elabora uma imagem que mostra as relações do ser humano com o território, uma apreensão de conjunto da densidade de seus conflitos, e ao mesmo tempo mostra a historicidade de nossos saberes.
Jean-Claude Groshens (Cartes et Figures de la Terre. Paris, Pompidou, 1980)
No livro Ofício de cartógrafo. Travessias latino-americanas da comunicação na cultura de Jesús Martín-Barbero1 (2004), é particularmente interessante a introdução, que tem por título As aventuras de um cartógrafo mestiço (Ibid.: 9-42), em que o autor faz uma reflexão sobre seus trabalhos chamando-os de cartografias e de mapas e expressando seu interesse pela condição de cartógrafo naquilo em que esse ofício possa lhe dizer respeito. Agrada-lhe a descoberta da cartografia cognitiva como estratégia teórico-metodológica que seria própria para tempos instáveis, ambíguos, fluidos, por proporcionar a exploração e a descoberta de novos itinerários em seus permanentes riscos. E pergunta: “mas quem disse que a cartografia só pode representar fronteiras e não construir imagens das relações e dos entrelaçamentos, dos caminhos em fuga e dos labirintos?” (Ibid.: 12). Essa lógica cartográfica se torna fractal – nos mapas, o mundo recupera a singularidade diversa dos objetos: cordilheiras, ilhas, selvas, oceanos – e se expressa textualmente em o que se prega e se desprega, em reveses, intertextos e intervalos (Serres, 1995).
Atravessando as figuras do universo e dos continentes, esses mapas cognitivos chegam hoje até a figura do arquipélago2, que desprovido de fronteira que o una, é um continente que se desagrega em ilhas múltiplas e diversas que se interconectam. Pensar o arquipélago é indagar o novo tipo de logos que interconecta o diverso, em cuja raiz se acham as profundas alterações perceptivas que nossa experiência espaço-temporal atravessa. Podemos aí aproximar os esquemas cognitivos reorganizadores de que fala Morin (2000), as migrações de conceitos de suas disciplinas originárias para fecundar o terreno dos objetos e projetos transdisciplinares. Os mesmos que estão também no conhecido trabalho de Wallerstein (1996) que apresenta uma cartografia do estado disciplinar das ciências sociais que as incita a se abrirem.
É a partir do lugar de filósofo3 que JMB desloca seu pensamento para renovar o mapeamento dos estudos da comunicação na América Latina e o faz propondo um mapa noturno. Seguindo a linha de análise que adotamos, o mapa noturno vai além da metáfora, e se traduz em um conceito que indica o horizonte no qual o autor procura ressituar os estudos da comunicação e dos meios a partir das matrizes culturais (o popular) nos espaços sociais (América Latina). Esta investigação engloba tanto os condicionantes estruturais quanto os processos de subjetivação em que se encontram inseridos empiricamente os diferentes atores.
É um mapa para indagar a dominação, a produção e o trabalho, mas a partir do outro lado: o das brechas, o do prazer. Um mapa não para a fuga mas para o reconhecimento da situação desde as mediações e os sujeitos, para mudar o lugar a partir do qual se formulam as perguntas, para assumir as margens não como tema senão como enzima. Porque os tempos não estão para a síntese, e são muitas as zonas da realidade cotidiana que estão ainda por explorar, zonas em cuja exploração não podemos avançar senão tateando ou apenas com um mapa noturno. (JMB, 2004: 18).
O poder, o cotidiano, a palavra, a narrativa e até o ritual da antropologia de Mauss interagem com os mitos de Barthes e com a sensorialidade de Merleau-Ponty ou Walter Benjamin (JMB, 2014). Esta é a série de recursos intelectuais heterodoxos que Martín-Barbero carrega em sua bagagem e que alimentaram a formalização da metáfora do mapa noturno, que descreve o seu modo de fazer pesquisa através de uma expressão emprestada do Piloto de guerra de Saint-Exupéry.
Como veremos adiante, mesmo sem nomeá-la, JMB lança mão da estratégia de pesquisa cartográfica desde suas primeiras reflexões sobre a pesquisa de comunicação na América Latina4. São considerações que se acham disseminadas e esparsas ao longo de sua obra, em permanente processo de complexificação, o que torna cada vez mais difícil desentranhar dado os diferentes níveis de análise que entrelaça (filosófico, comunicacional, cultural, histórico etc.) e os inúmeros objetos que vai incluindo (telenovela, jovens, educação, cidade, políticas culturais, mídias, entre muitos outros). Essas considerações são feitas por movimentos de avanços e retomadas, de sistematizações parciais, sempre incompletas, ao modo de arquipélagos móveis, que reunidos, mostram o continente de uma teoria viva em estreito diálogo com as transformações do seu contexto que é a América Latina inserida no mundo.
Portanto, vale a pena garimpar elementos cartográficos ao longo de sua obra, de um modo específico (e não usual), que é nas reflexões epistemológicas que desenvolve, de maneira sistemática, em terrenos mais complexos, como nas conversações5, no exercício de sua biografia intelectual e, particularmente, nos sucessivos prefácios ou introduções ao livro Dos meios às mediações6.
EPISTEMOLOGIA BARBERIANA: UM CALAFRIO EPISTEMOLÓGICO COMO RUPTURA NO CONHECIMENTO COMUNICACIONAL
Pensar epistemologicamente a comunicação a partir da cartografia da comunicação na América Latina
A epistemologia da comunicação barberiana pode ser entendida como uma nova tentativa de cartografar o conhecimento das práticas comunicacionais e culturais latino-americanas e ganha força nas abordagens que reivindicam a importância do papel das periferias num novo mapa global, onde os novos cartógrafos se utilizam do discurso da diversidade e da resistência.
A cartografia, como instrumento para prover mapas cognitivos que orientam a percepção de um espaço de pesquisa, é uma ferramenta epistemológica usada por JMB ao longo de forma permanente, mas difusa e intersticial7.
A figura do cartógrafo aproxima-se à do flâneur, trabalhada por Benjamin (1986), sendo o flâneur um personagem urbano que sai de casa por sair, e assim, no trânsito sem destino traçado, atenta para a cidade e vê além da uniformidade aparente. Como o flâneur, o cartógrafo desenvolve uma capacidade de estranhamento que o desenraiza tanto da percepção do habitualmente reconhecível, como do utilitarismo herdado da sociedade capitalista moderna no que se refere à produção científica.
Na introdução de Ofício de cartógrafo, JMB sugere que nos voltemos à cartografia para pensar os novos caminhos a serem percorridos na teoria da comunicação. Nessa cartografia, a ideia é construir mapas traçados não apenas sobre, mas também a partir das margens (JMB, 2004: 14). A questão levantada pelo teórico é a de que é preciso pensar o lugar de enunciação, no caso, deslocar o eixo de análise dos pesquisadores latino-americanos, convocando-os a ver junto com as populações subalternas. Critica a dependência teórica dos estudos de comunicação latino-americanos a modelos hegemônicos, reprodução de teorias e enfoques que o autor considera “fora de lugar”, destituídos de sentido no universo ao qual se propõem inserir. Para o autor, os mapas e os sentidos produzidos por eles mudam na medida em que se desloca o ponto de observação. Busca por um novo mapa da periferia global, estabelecendo novos sentidos de fronteiras para alcançar uma outra lógica cartográfica, não mais estabelecida pelas nações centrais, mas pelo reconhecimento da potência das práticas periféricas.
Com o deslocamento do eixo de análise para pensar a América Latina, o espaço a ser cartografado é o das mediações comunicativas da cultura, sendo que a necessidade de se construir um novo mapa passa pelos novos modos de simbolização e ritualização dos laços sociais, os quais se encontram cada vez mais entrelaçados às redes de comunicação, desterritorializando discursos e solapando fronteiras espaciais e temporais.
Neste sentido, JMB (2004: 12) contrapõe a cartografia representacional de fronteiras àquela expressa por imagens de relações e entrelaçamentos, dos caminhos de fuga e de labirintos, para logo depois lançar mão, a partir da perspectiva de Serres (1995) da metáfora do arquipélago8 como um novo tipo de logos que interconecta o diverso.
A cartografia se movimenta redesenhando o mapa da América Latina, tanto o de suas fronteiras e suas identidades – espacialmente pelo movimento crescente das migrações e porque o sentido das fronteiras se apaga ou se agudiza contraditoriamente com o que produzem as redes do mercado e as tecnologias satelitais, e as identidades se solapam perdendo sua antiga nitidez (Ibid.: 14)9.
A contestação da colonialidade do poder e a contraposição ao pensamento universalizante ocidental, é assumida por diferentes autores da chamada perspectiva pós-colonial, como Arjum Appadurai (1997) e Homi Bhabha (1998)10. Tal posição reivindica legitimidade e autonomia num embate ideológico que se traduz na desconstrução de modelos epistemológicos ocidentais frente a uma perspectiva de formulação de uma outra episteme, de um outro pensamento marcado pela ideia de alteridade. Essa proposta já antecipa o papel que JMB assume para si como uma espécie de cartógrafo mestiço.
A cartografia se movimenta redesenhando o mapa da América Latina, tanto o de suas fronteiras e suas identidades – espacialmente pelo movimento crescente das migrações e porque o sentido das fronteiras se apaga ou se agudiza contraditoriamente com o que produzem as redes do mercado e as tecnologias satelitais, e as identidades se solapam perdendo sua antiga nitidez. (Ibid.: 14)
Ao destacar que as tecnologias de comunicação passam a funcionar como mediação estrutural e não apenas instrumental, ou seja, desempenhando um papel fundamental na organização do campo da cultura, JMB valoriza o fluxo comunicacional e a descentralização com o objetivo de cartografar um outro espaço, capaz de prover diferentes formas de cultura.
A longa fidelidade que mantém ao cruzamento de experiência de vida com a teoria se encontraram num cenário pessoal que resultou no que chamou de calafrio epistemológico, que lhe permitiu descobrir uma estética no popular, isto é, uma experiência estética não redutível ao mero reflexo, ou à resistência e a percepção de estéticas do popular muito diversas do massivo ou do culto.
Esse episódio é contado na introdução do livro Procesos de comunicación y matrices de cultura (1987b: 11-13) onde trata do deslocamento do popular folclorizado para o adensamento do massivo no urbano. É um acontecimento curioso e divertido, uma anedota, mais tarde denominado por ele de calafrio epistemológico. Foi a estranha experiência provocada durante a assistência de um dramalhão mexicano (La ley del monte) em um cinema de um bairro popular de Cali. Ele e um grupo de estudantes não conseguiam conter as risadas constantes diante das cenas de um gritante “mau-gosto”, ao passo que o público, majoritariamente masculino, se emocionava e chegava às lágrimas. Entretanto, as pessoas, indignadas com as risadas, quase os colocaram para fora do cinema. Esse caso foi relatado em diversas ocasiões, como por exemplo, em uma entrevista – Huergo, Morawicki (2016 [2008]: 155) –, em que descreve a emoção sentida:
O verdadeiro calafrio epistemológico veio ao perceber que havia visto outro filme, e o que precisava era aprender a analisar o que eles, os outros, viam. Insultar as pessoas comuns por sua ignorância não ajudava em nada a transformar a sociedade. E isso foi o que me levou a ver com as pessoas o que elas gostam. Que é a única maneira de sair de nosso mundinho e nos aproximarmos de seus mundos de vida […]. Saí do cinema traumatizado, completamente traumatizado. Foi aí que nasceu Dos meios às mediações11.
Fez também do caso assunto de uma conferência intitulada Los inesperados efectos de un escalofrío epistemológico (2011a: 5):
Foi a essa experiência a que tempos depois chamei pomposamente de calafrio epistemológico: um calafrio intelectual que se transformou em ruptura epistemológica pela necessidade de mudar o lugar a partir do qual se formulam as perguntas. E o deslocamento metodológico indispensável, feito de aproximação etnográfica e distanciamento cultural, que permitiria ao pesquisador ver-com as pessoas, e as pessoas contarem o que tinham visto. Aquele exercício mudou minha vida, a partir daí minhas perguntas e investigações deixaram de partir dos meios para indagar as mediações que tecem a complexa relação das pessoas não apenas com os meios audiovisuais, mas: como as pessoas se comunicam na praça do mercado, na esquina do bairro, no estádio?12
Essa experiência, a que chamou de “iniciación a la cultura cotidiana del mundo popular”, impulsionou JMB a uma postura inicial de estudar a “mediação de massa” e em seguida para uma abordagem mais ampla, aberta às dimensões cultural e política.
Mas, que mapa poderia ser traçado para explorar o mapa noturno dessas mediações que conectam sujeitos de uma cultura aos mais diversos fenômenos de comunicação? Teria que ser um mapa que propusesse uma reflexividade epistêmica para a pesquisa e uma ruptura no conhecimento da comunicação e sua consequente (re)construção13: “Era necessário olhar o processo inteiro da comunicação massiva a partir desse outro lugar que é o popular”14 (1987a: 13).
Com esse posicionamento, o teórico evidenciará que existe uma outra epistemologia, latino-americana, ancorada na categoria do popular-massivo, de onde é possível revisar os processos de comunicação.
O objetivo passa então a ser revisar todo o processo de comunicação a partir de outro lugar, o da recepção, o das resistências que aí acontecem, o da apropriação através dos usos. Tratava-se de mudar o lugar das perguntas para tornar pesquisáveis os processos de constituição do massivo a partir das mediações e dos sujeitos, isto é, a partir da articulação entre práticas de comunicação e movimentos sociais.
Essa perspectiva epistemológica barberiana introduziu deslocamentos conceituais inovadores dentro dos estudos de comunicação que possibilitaram novos objetos de estudo e a definição de métodos e de diálogos interdisciplinares para abordar os fenômenos comunicacionais que mesclam o culto, o popular e o massivo.
A CARTOGRAFIA COMO MÉTODO BARBERIANO PARA PROMOVER NOVOS PARÂMETROS DE REPRESENTAÇÃO DO CONHECIMENTO
Antes de entrarmos na análise da cartografia das mediações é necessário situá-la dentro da linhagem do pensamento cartográfico. Faremos alguns apontamentos de caráter epistemológico e metodológico que trazem à luz diálogos entre JMB e algumas correntes de pensamento que têm sido pouco explicitados nas leituras feitas de seus trabalhos. Referimo-nos principalmente às teorias da cartografia e aos mapas cognitivos, além de autores que lhe estão na base.
A cartografia é antes que mais nada um método ou, como diria Morin (2000: 107) “uma ajuda à estratégia do pensamento”, e convém ressaltar as inspirações filosóficas que perpassam os procedimentos que a mesma propõe, até porque estes só fazem sentido enquanto operacionalizações de uma epistemologia proposta para a pesquisa de comunicação.
No método, podemos identificar as ferramentas através das quais promove-se o olhar para o novo. Essas ferramentas são a migração conceitual e a construção de metáforas. Migração conceitual de um domínio para outro, o que garante a ressignificação e ampliação de conceitos e noções, originariamente disciplinares; e a construção de metáforas para o pensamento não linear, a sua abertura a diversas interpretações ou reinterpretações para encontrar ressonância com as ideias de um interlocutor.
O caráter aberto da cartografia gera para JMB um contexto propício ao cruzamento de autores e conceitos provindos de diferentes áreas do conhecimento, configurando um interessante campo de experimentações da transdisciplinaridade em seu sentido mais amplo, ou seja, em termos de um entrecruzamento entre referências e formas de pensar de diferentes domínios disciplinares, e não apenas da justaposição de resultados ou práticas metodológicas de diversos cientistas.
A atitude transdisciplinar visa produzir interferências desestabilizadoras entre quaisquer domínios compartimentados – sejam filosóficos, teóricos, políticos, artísticos etc. Esse investimento desestabilizador mina as fronteiras dos campos e permite o engendramento de novos saberes e novas práticas por hibridizações (Santos, 1997).
Identificamos esses princípios da cartografia disseminados na obra de JMB, que é conhecida por realizar deslocamentos de conceitos e autores de seus lugares tradicionais e rupturas com aportes reducionistas ou maniqueístas. O uso da cartografia é estratégico e histórico, adequado a uma contemporaneidade marcada pela incerteza e ambivalência (Bauman, 1999; 2000).
Não pretendemos aqui “sistematizar o método cartográfico”15, mas reunir indicações ou pistas dos diálogos entre o autor e esse método que servem de suporte para sua teoria crítica, ao mesmo tempo que são usados como instrumentos de intervenção na realidade da América Latina. A sua cartografia cognitiva liga-se aos diversos campos de conhecimento das ciências sociais e humanas e se expressa em diagramas de relações, enfrentamentos e cruzamentos entre forças, agenciamentos, enunciações, jogos de objetivação e subjetivação, sempre em algum espaço empírico latino-americano16.
Tal como proposta por Foucault e Deleuze (Deleuze, 1988), a análise cartográfica configura-se como instrumento para uma história do presente, possibilitando a crítica do nosso tempo e daquilo que somos. Não é método como proposição de regras, procedimentos ou protocolos de pesquisa rígidos, mas sim, como estratégia de análise crítica e ação política, olhar crítico que acompanha e descreve relações, trajetórias. Tal estratégia metodológica desenha não exatamente mapas no sentido tradicional do termo e sim diagramas, que se referem a lugares e movimentos marcados não por determinismos, mas por densidades, intensidades e expõem as linhas de força de um determinado espaço, que neste caso, é o campo da comunicação. O diagrama é o mapa, a cartografia, coextensiva a todos os campos de conhecimento. Temos aí delineados, em linhas gerais, os princípios que regem a cartografia barberiana expressos através de mapas teórico-metodológicos das mediações.
Seguindo nessa argumentação, outra aproximação que fazemos é entre o mapa das mediações e a figura do rizoma como método.
As principais referências à cartografia como método rizomático estão na “Introdução” de Mil platôs – Deleuze e Guattari, (1995[1980]) – em que os autores desenvolvem uma concepção de rizoma fazendo ligações com a cartografia. A cartografia é da ordem do rizoma e é exatamente por isso que ela é o antídoto para a ação dos dispositivos.
O rizoma se estende e desdobra num plano horizontal, de forma acêntrica, indefinida e não hierarquizada, abrindo-se para a multiplicidade, tanto de interpretações quanto de ações, remetendo à formação radicular da batata, da grama e da erva daninha. Ele não opera pelo jogo de oposição entre o uno e o múltiplo, não tem começo, fim ou centro, nem é formado oportunidades, mas por dimensões ou direções variáveis, além de constituir multiplicidades lineares ao mesmo tempo em que é constituído por múltiplas linhas que se cruzam nele, formando uma rede móvel, conectando pontos e posições. Deve-se ainda ter em conta o aspecto subterrâneo de uma formação rizomática, que leva a um problema de visibilidade imediata dessa complexa e intrincada teia de relações.
O olhar rizomático traça uma cartografia, desenhando um mapa como diagrama variável. O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente.
Uma das características mais importantes do rizoma talvez seja a de ter sempre múltiplas entradas. Um mapa tem múltiplas entradas (Ibid.: 22).
Portanto, de forma curiosa, mas não como mera coincidência histórica, as mesmas características da teoria da comunicação de JMB e do pensamento da complexidade e multiplicidade de Morin (2000) encontram-se presentes nesses conceitos operatórios que são o dispositivo, o rizoma e a cartografia, possibilitando que essa última funcione como método de análise e ferramenta para a desmontagem de dispositivos, uma vez que se orienta pelos mesmos princípios.
Segundo Deleuze (1990), Foucault aponta diversos elementos e características de um dispositivo, sem preocupação de reuni-los num conceito unitário. Ele destaca a natureza estratégica do dispositivo, posto como artefato histórico que se forma em torno de problemas agudos e estratégicos para uma sociedade, tais como: loucura, criminalidade, sexualidade, saúde e educação, entre outros.
No entanto, no sentido de uma descrição ampla de dispositivo surgem referências a aspectos de diversidade, complexidade, mobilidade, encobrimento, articulação, caráter estratégico, jogos saber x poder x subjetivação e modos de operação finos, sutis, capilares e subjetivantes, atribuídos à ação dos dispositivos.
Por outro lado, o modelo do rizoma serve como orientação metodológica para um olhar cartográfico a ser aplicado sobre um campo, uma rede, uma teia de relações, sugerindo que a cartografia opere de modo rizomático, percorrendo os pontos, as linhas e a rede do rizoma, aplicando estratégias rizomáticas de análise e ação, percorrendo e desenhando trajetórias que também são de pesquisa-intervenção. A cartografia diz respeito a um método estratégico-rizomático.
As semelhanças do modelo do rizoma com cartografia barberiana são espantosas, na qual identificamos campos de forças e relações, movimentos e processos e não posições fixas. Nos mapas, o modelo do rizoma é aplicado ao campo comunicacional onde as mediações são dispositivos se entrecruzam em constante movimento de mutação, renovação e atualização. Em outros termos, as mediações são dispositivos historicizados.
Portanto, é crucial notar que, em vez de regras metodológicas a serem aplicadas, JMB usa a ideia de pistas metodológicas17. São pistas para guiar no trabalho da pesquisa, sabendo que para acompanhar processos não podemos ter predeterminada de antemão a totalidade dos procedimentos metodológicos. As pistas que guiam o cartógrafo são como referências que concorrem para a manutenção de uma atitude de abertura ao que vai se produzindo e de calibragem do caminhar no próprio percurso da pesquisa.
Como esclarecem Passos e Barros (2009:17):
A Cartografia como método de pesquisa pressupõe uma orientação do trabalho do pesquisador que não se faz de modo prescritivo, por regras já prontas nem com objetivos previamente estabelecidos. No entanto, não se trata de uma ação sem direção, já que a cartografia reverte o sentido tradicional de método sem abrir mão da orientação do percurso da pesquisa. O desafio é o de realizar uma reversão do sentido tradicional de método – não mais um caminhar para alcançar metas pré-fixadas (metá-hódos), mas o primado do caminhar que traça, no percurso, suas metas. A reversão, então, afirma um hódos-metá. A diretriz cartográfica se faz por pistas que orientam o percurso da pesquisa sempre considerando os efeitos do processo do pesquisar sobre o objeto da pesquisa, o pesquisador e seus resultados.
Munidos desse conjunto de pistas sobre o método cartográfico, passamos à análise dos fundamentos metodológicos da teoria barberiana da comunicação que são mapas das mediações.
MAPAS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA TEORIA BARBERIANA DA COMUNICAÇÃO: MAPA NOTURNO E MAPAS DAS MEDIAÇÕES
Como todos sabem, a primeira grande síntese dessa proposta foi formulada pelo autor no livro Dos meios às mediações, lançado em 1987. Entretanto, a despeito da notável repercussão desse livro, algumas vozes têm incitado o Autor a escrever outro livro que respondesse à inversão desse título, isto é, Das mediações aos meios, a fim de reequilibrar, no binômio, o peso da comunicação que teria sido subsumida pela cultura. Apesar de não concordarmos com o reducionismo que subjaz a essa proposta, talvez o autor tenha, de fato, aceito a incitação, pois o que temos visto, nos seus escritos dos últimos anos, é um notável esforço em oferecer pistas para elucidar (“entre-ver”, como ele diz) cada vez mais, as relações entre meios e mediações. É a leitura que ele mesmo propõe dos sucessivos mapas das mediações apresentados nas introduções de novas reedições de De los medios a las mediaciones18.
Entretanto, já em 1970, o uso do termo mediação por JMB aparecia do desejo de articular a pedagogia libertária de Paulo Freire com a hermenêutica de Paul Ricœur. Em uma entrevista ele afirma: “A comunicação direta, imediata, não existe, toda comunicação exige separação do desfrute imediato das coisas, todo o comunicar exige alteridade e um mínimo de distancia. A comunicação é separação e ponte: mediação”19 (2008: 25).
E, mais tarde, ele escreveu na introdução à última edição de De los medios a la mediaciones as razões pelas quais ele nunca pretendeu definir o conceito mediações (2010a: 29):
Mediações remete, então, mais ao traço que conecta em rede os pontos e linhas dispersos, distintos e distantes que tecem um mapa que a uma realidade que se constata ou a um conceito que se têm e se manipula. Daí, minha tenaz resistência a definir mediações, e minha aposta por ir desdobrando-as e delimitando-as à medida que os processos de comunicação, as práticas culturais e os movimentos sociais iam se tornando aproximando, por meio da densa relação do mundo da produção midiática nas indústrias culturais com os mundos do consumo massivo, sim, mas diferenciado, ativo e cidadão20.
Mas, pode-se perguntar: como toma forma a tradução operacional da metáfora do mapa noturno para guiar as explorações do pesquisador.
Data de inícios dos anos 1980, o momento em que o teórico começa a montar questões de um primeiro mapa, apresentado na forma de agenda de investigação de três campos estratégicos de pesquisa para a América Latina (JMB, 1982). É importante notar que nesse mapa não aparece ainda o conceito mediação e, portanto, não o chamamos de mapa das mediações.
Esse mapa é fruto de embates então presentes na comunidade de pesquisadores latino-americanos sobre as “ideias fora de lugar” que era a transposição acrítica de modelos de análise dos países anglo-saxões e europeus, conforme afimou JMB (2009a). Os três campos estratégicos de pesquisa eram: 1) a Comunicação transnacional. A tensão entre os processos econômicos transnacionais e as estruturas nacionais de poder impulsionou-o a pensar as “estruturas de produção” como “dispositivos de conexão entre tecnologia, mercado e rotinas produtivas”; 2) Novas tecnologias da comunicação. A chegada de “novas tecnologias” na América Latina levou-o a estudar a “não-contemporaneidade entre tecnologias e seus usos sociais”: “colocando a tecnologia no singular e as culturas no plural, ativamos os sinais de identidade que passam pelos usos – inclusive anacrônicos e aberrantes – porque estes tornam visíveis a diversidade dos modos de apropriação e, portanto, de nossas culturas”; 3) Comunicação alternativa e popular. Os debates sobre a comunicação alternativa e popular o encorajaram a olhar para “outras formas de comunicação pelas quais a palavra de grupos dominados é liberada, de modo que o que realmente importa não é a mídia, mas a criatividade popular. Entendendo por popular, a memória de outra economia tão política quanto simbólica, a memória de outra matriz cultural muitas vezes negada” (JMB, 1982).
Mapas metodológicos das mediações
O método estratégico-rizomático de JMB indica a direção nos seus mapas das mediações:
São múltiplas as entradas em uma cartografia como a barberiana. A realidade cartografada se apresenta como mapa móvel, de tal maneira que tudo aquilo que tem aparência de o mesmo não passa de um concentrado de significação, de saber e de poder, que pode por vezes ter a pretensão ilegítima de ser centro de organização do rizoma. Entretanto, o rizoma não tem centro. Em um sistema acêntrico, como conceber a direção metodológica?
É bom lembrar ainda que existem tantas cartografias possíveis quanto campos a serem cartografados, o que coloca a necessidade de uma proposição metodológica estratégica em relação a cada situação ou contexto a ser analisado, indicando que dessa perspectiva método e objeto são figuras singulares e correlativas, produzidas no mesmo movimento, e que não se trata aqui de metodologia como conjunto de regras e procedimentos preestabelecidos, mas como estratégia flexível de análise crítica (Fonseca; Kirst, 2003).
E, conforme apontamos, a cartografia barberiana diz respeito a um método estratégico-rizomático e as mediações devem ser vistas como dispositivos que se entrecruzam em constante movimento de mutação, renovação e atualização.
Mediações como “conceito operatório” e um conceito em construção
Encontramos um conjunto de princípios atribuídos por JMB ao conceito de mediações:
Acompanhando temporalmente o conceito, notamos que:
- As mediações são inicialmente vistas como uma perspectiva de investigação sobre e a partir da recepção;
- afirma-se progressivamente a importância das mediações para uma teoria da comunicação;
- não há uma definição única de mediação;
- mediação é uma noção plural: mediações.
Como ele próprio afirma (1992: 20):
As mediações são esse “lugar” de onde é possível compreender a interação entre o espaço da produção e o da recepção: o que [a mídia] produz não responde unicamente a requerimentos do sistema industrial e a estratagemas comerciais, mas também a exigências que vêm da trama cultural e dos modos de ver.
Visto como conceito operatório, traçaremos o percurso das mediações através de quatro mapas constitutivos do corpo teórico-metodológico da teoria barberiana da comunicação.
MAPAS METODOLÓGICOS DAS MEDIAÇÕES
A leitura das mediações que o próprio autor propõe é que ela seja feita através dos sucessivos mapas das mediações que são apresentados nas introduções das diferentes reedições de De los medios a las mediaciones (1987a, 1998, 2010a, 2017)22.
É fundamental acompanhar as modificações que os mapas das mediações apresentam ao longo da obra barberiana, uma vez que elas parecem ser uma noção movente, que acompanham permanentemente as transformações da sociedade e especificamente as da comunicação.
A noção de mediação permitiria, em síntese, inscrever os fenômenos em suas relações e interdependências e instaurar pontes entre múltiplas mediações, além de conectar os processos de comunicação aos sujeitos e de pensar o lugar de cada um desses sujeitos nos processos estruturantes e nas lógicas que os mobilizam. (Rueda, 2010: 90)
O primeiro mapa das mediações: Mediações Culturais da Comunicação, 1987
O primeiro mapa permite, em síntese, tornar visíveis as relações e a lógica do poder que sustentam o funcionamento dos meios de comunicação (JMB tinha por paradigma a televisão). E tal como fazem os objetos cartografados, as mediações indicarão sua importância através de traços de maior ou menor intensidade.
Todos esses princípios propulsionam a fatura do primeiro mapa metodológico das mediações, de 1987, em que JMB propõe o enfoque epistemológico da comunicação a partir da cultura ou o estudo das mediações culturais da comunicação.
É o que se vê representado na Figura 2.

Mediações Culturais da Comunicação
Fontes: Ed. Gustavo Gili, Barcelona, 1987a, p. 229-242; Ed. UFRJ, Rio de Janeiro,1997, p. 287-303; Introducciones. Introducción 1, p. 5-8Mediações Culturais da Comunicação
Espaços constitutivos das mediações: Comunicação-Cultura-Política
Dois eixos:
No centro do mapa estão as mediações constitutivas ou fundantes: comunicação, cultura política24 que remetem a dois eixos: o diacrônico ou histórico, entre matrizes culturais e formatos industriais; e o sincrônico entre lógicas da produção e competências da recepção .consumo)25.
Em relação às três mediações fundadoras, JMB afirma
Penso na necessidade premente de estudar as articulações comunicação-cultura-política, nas transformações da cultura política e no papel de protagonismo que o cenário massmediático possui aí: ao mesmo tempo, como palco do reconhecimento social e de perversão do laço social, da crise da representação e das novas formas de representar26. (2016: 145)
A mediação Matriz Cultural atua como marca semântica de uma coisa a partir da qual se dá forma generativamente a outras. E também convoca imagens heterogêneas. Mais que uma metáfora ela está no sentido matemático informacional de matriz como algoritmocapaz de ordenar séries numéricas e gerar séries novas a partir de uma particular distribuição em eixos de abscissas e ordenadas27.
O segundo mapa das mediações: Mediações Comunicativas da Cultura, 1998
O segundo mapa é do fim dos anos 1990, quando fica evidente uma complexa teoria das mediações que ultrapassa a configuração de uma teoria da recepção. O mapa agora tem por objetivo o estudo da cultura a partir da comunicação, deslocando o estudo das mediações culturais da comunicação para o das mediações comunicativas da cultura. O olhar não se inverte no sentido de ir das mediações aos meios, senão da cultura à comunicação. É a própria noção de comunicação que é repensada. Passa-se a dar mais densidade epistemológica de conhecer o que vem da comunicação.
É o que está representado na Figura 3.

Mediações Comunicativas da Cultura
Convenio Andrés Bello, Bogotá,1998; Ed. UFRJ, Rio de Janeiro, 2001, p. 11-22; Introducciones. Introducción 2, p. 13-21Da Cultura para a Comunicação:
densidade epistemológica do conhecimento comunicacional
Múltiplas Mediações:
institucionalidades, socialidades, tecnicidades, ritualidades
Por meio deste mapa, a que JMB chamou de pistas para entre-ver meios e mediações, é possível operacionalizar a análise de qualquer fenômeno social que relaciona comunicação, cultura e política, impondo-se como uma dimensão da articulação entre produtores, mídia, mensagens, receptores e cultura.
As mediações devem ser entendidas como processos estruturantes que configuram e reconfiguram tanto a lógica da produção quanto a lógica dos usos. Elas exigem pensar ao mesmo tempo o espaço da produção assim como o tempo do consumo, ambos articulados pela vida cotidiana (usos/consumo/práticas) e pela especificidade dos dispositivos tecnológicos e discursivos das mídias envolvidas.
A necessidade de decoupage do conceito a fim de torná-lo metodologicamente manejável, leva-nos a afirmar os princípios que se seguem:
A mediação central é de natureza triádica indissolúvel – cultura, comunicação, política – a que chamamos mediações constituintes ou fundantes, porque:
Mais do que objetos de políticas, a comunicação e a cultura constituem hoje um campo primordial de batalha política: o estratégico cenário que exige que a política recupere sua dimensão simbólica – sua capacidade de representar o vínculo entre os cidadãos, o sentimento de pertencimento a uma comunidade – para enfrentar a erosão da ordem coletiva. (JMB, 2001: 15)
No mapa, a mediação é um espaço que coloca em relação dialética as lógicas da produção e do consumo, os formatos industriais e as matrizes culturais. O esquema também se move em dois eixos: o diacrônico, ou histórico de longa duração – entre as matrizes culturais e os formatos industriais; e o sincrônico, entre as lógicas de produção e as competências de recepção. Estas constituem quatro mediações básicas (de mais intensidade) que estão articuladas através de uma espécie de submediações (de menos intensidade), todas articuladas como múltiplas mediações.
Nas interseções dos dois eixos, o mapa desenha quatro espaços para descentrar nosso olhar de pesquisadores, e onde se localizam outras mediações. A relação entre as matrizes culturais e a lógica da produção é mediada por diferentes regimes de institucionalidade (interesses e poderes existentes, públicos e privados), enquanto a relação entre as matrizes culturais e as competências da recepção é mediada por várias formas de socialidade (laço social, relações cotidianas das pessoas enquanto agentes). Entre a lógica da produção e os formatos industriais media a tecnicidade (o novo contexto dos meios; operadores técnicos, perceptivos e estéticos) e entre os formatos industriais e as competências da recepção media a ritualidade (modos autorizados de olhar, ouvir, ler, ligados à memória social do gosto, da classe, do hábito).
São pistas que constituem uma proposta teórica programática que desenha espaços epistemológicos abertos com a promessa de visualização de um território comum e pontos de questões comunicacionais fundamentais.
Não parece ser por acaso que, de um ponto de vista sistêmico, o objeto de estudo de Martín-Barbero sejam as mediações, em primeiro lugar, tecidas de processos e de materialidades da comunicação em um ambiente social e cultural determinado; e em segundo, um instrumento de des-coberta de falsas polaridades. E também não é por acaso que todo objeto de estudo comunicacional possa ser metodologicamente tratado por um pesquisador a partir da perspectiva das mediações.
A importância desse mapa está em reconhecer que a comunicação está mediando todas as formas da vida cultural e política da sociedade. Portanto, o olhar não se inverte no sentido de ir dos meios para as mediações e nem das mediações aos meios, senão para ver a complexa teia de múltiplas mediações. Foi necessário ao autor repensar a própria noção de comunicação, noção essa que sai do paradigma da engenharia e se liga com as interfaces, com os nós das interações, com a comunicação-interação, com a comunicação inter-mediada28. E porque a linguagem é cada vez mais intermediada, o estudo deve ser claramente interdisciplinar. Ou seja, trata-se de uma epistemologia que coloca em crise o próprio objeto de estudo. Segundo o autor, o que existia era que a identidade da comunicação era achada nos meios e, hoje, ela não se dá somente nos meios. A comunicação ocorre na interação que possibilita a interface de todos os sentidos, portanto, é uma inter-mediação, que é um conceito para pensar a hibridização das linguagens e dos meios.
O terceiro mapa das mediações: Mutações Comunicativas e Culturais I, 2010

Mutações Comunicativas e Culturais Contemporâneas
Anthropos, Barcelona, 2010a; Entrevista à Revista Pesquisa FAPESP, 163, São Paulo, set. 2009b; Introducción 3, p. 27-41.Este mapa acrescenta aos anteriores:
Novos eixos: temporalidade/espacialidade e mobilidade/ fluxos
Novas mediações: identidade, cognitividade
Focalizando os eixos vertical e horizontal, esse terceiro mapa vincula os anteriores com a investigação das mutações contemporâneas. As mediações básicas são outras e aparecem pela primeira vez: no eixo vertical, estão a temporalidade e a espacialidade e no horizontal, a mobilidade e os fluxos.
Seguindo o autor, a temporalidade contemporânea configura a crise da experiência moderna do tempo, que se manifesta na transformação profunda da estrutura temporal, no culto ao presente, no debilitamento da relação histórica com o passado e na confusão dos tempos que nos prende à simultaneidade do atual.
A espacialidade se decupa em múltiplos espaços: o espaço habitado, do território feito de proximidade e pertencimento; o espaço comunicacional que tecem as redes eletrônicas; o espaço imaginado da nação e de sua identidade; o espaço praticado da cidade moderna, com a subjetividade que emerge das novas relações com a cidade e dos modos de sua apropriação.
A mobilidade, do trânsito incessante das migrações e das navegações virtuais dos internautas, nos traz o aparecimento de novas figuras da sensibilidade. E os fluxos que, como os dos migrantes que provocam desordens sociais e políticas na cidade, também são os fluxos de imagens, informação, linguagens e escrituras virtuais, que desestabilizam a cultura letrada e escolar. No mundo não espacializado dos internautas as redes constituem novos espaços de socialidade.
Através da mediação da tecnicidade é possível entender a técnica como constitutiva, como dimensão imanente de uma noção antropológica de comunicação. Tomamos esta expressão não no sentido habitual de imputar essa visão à disciplina antropologia, mas no sentido gramsciano do elementarmente humano. JMB justifica o uso na mediação do termo tecnicidade e não o de técnica, pois no que ocorre hoje não se dá a devida conta à noção grega de techné que remete à destreza, à habilidade de fazer, mas também de argumentar, de expressar, de criar e de comunicar através de formas materiais, destreza essa que se atualiza com base nos novos modos de lidar com a linguagem. No entanto, caminhou-se para a noção de técnica como aparato, como objetivação da techné nas máquinas ou nos produtos. Nem um nem outro desses sentidos de técnica parecem ser suficientes, hoje.
Porque na técnica há novos modos de perceber, ver, ouvir, ler, aprender, novas linguagens, novos modos de expressão, de textualidades e escrituras. O sentido da tecnicidade não se relaciona à ideia de mero aparato tecnológico, mas à competência na linguagem, às materialidades no discurso que remetem à constituição de gramáticas que dão origem a formatos e produtos midiáticos. A tecnicidade não é da ordem do instrumento, mas da ordem dos saberes, da constituição de práticas produtoras de inovações discursivas, dos modos de percepção social. Afasta-se, portanto, da noção de técnica como mero aparato, recuperando o original sentido do termo grego techné. Haveria uma espécie de intermediação como experiência comunicativa, ou seja, de muitas interfaces entre os diferentes meios e destes nos diferentes espaços comunicativos do consumo e da criação (JMB, 2014). O que está aí implícito é a recusa do sentido instrumental de tecnologia tão sedimentada nos estudos de comunicação.
Reconhecer a envergadura que a tecnicidade tem hoje, não mais como instrumento, mas incrustada na estrutura mesma da cognição/logos e da vida cotidiana, acreditamos que aqui está a uma pista metodológica forte que nos dá JMB.
A tecnologia digital desloca os saberes modificando tanto o estatuto cognitivo como institucional das condições do saber, conduzindo a um forte borramento das fronteiras entre razão e imaginação, saber e informação, arte e ciência, saber especializado e conhecimento comum.
Dentre outros fatores, isso decorre muito especialmente da competitividade tecnológica e dos usos da tecnicidade, por onde passa hoje em grande medida a capacidade de inovar e de criar. Porque a tecnicidade é menos assunto de aparatos que de operadores perceptivos e destrezas discursivas. Segundo Scolari (2008) trata-se de uma tecnicidade cognitiva . criativa, porque confundir a comunicação com as técnicas e os meios resulta tão deformador como pensar que eles sejam exteriores e acessórios à comunicação.
Essa é a situação que marca a sociedade contemporânea que, com sua “mutação tecnológica passou a configurar um novo ecossistema comunicativo” (Martín-Barbero, 2010a: 222).
Isso é o que representa a figura 5.

Mutações Culturais e Comunicativas Contemporâneas - 2
Entrevista de JMB a Omar Rincón, 2017Este mapa acrescenta aos anteriores
Novos eixos: tecnicidades / sensorialidades
Novas mediações: narrativas, redes, cidadanias
Na historicidade dos problemas trazidos para o pesquisador, JMB pousa em outro e mais novo mapa para continuar a estudar as mutações comunicacionais e culturais do nosso tempo. O adensamento teórico dado às mediações da tecnicidade e da sensorialidade é representado no seu novo estatuto de mediações básicas a que são alçadas no quarto mapa.
Através de diálogos com Merleau Ponty, Stuart Hall, Walter Benjamin e Milton Santos, entre outros, JMB assinala que as tecnicidades implicam hoje uma reconfiguração da sensorialidade e da socialidade:
Considero crucial repensar as relações entre o universal e o particular a partir desse novo lugar que o mundo se converteu, o segundo29 desafio que enunciei é o de repensar a técnica, O que significa, em primeiro lugar, pensar conjuntamente o hipertexto e o palimpsesto, e, em segundo lugar, assumir sem receios, nem armadilhas complexas, o desafio que nos coloca a sensibilidade dos mais jovens e suas empatias cognitivas e expressivas com as que as tecnologias possibilitam. E, em terceiro lugar, pensar a técnica é começar o reconhecimento de uma nova figura de razão, a da imagem informática que deixa de ser mera aparência, engano, expressão da dimensão irracional, para começar a se tornar parte constitutiva dos novos modos de construir conhecimento30. (2011b: 118)
Trata-se de um novo mapa rizomático em que essas mediações se tornaram básicas e se des-pregam podendo ser relacionadas em formas de direções e densidades diferentes. Dependendo do problema de pesquisa, as mediações podem ser mobilizadas e articuladas com identidades, redes, cidadanias e narrativas. Estamos diante de uma série de pistas que seguramente atenderão aos objetos das pesquisas de comunicação contemporâneas.
Nesse último mapa, JMB projeta seu interesse atual pela teoria da sensibilidade que, a nosso ver, o leva a dialogar com Rancière e a partilha do sensível de duas maneiras. Primeira, na linhagem iniciada por Benjamin e o surgimento de um novo sensorium na modernidade e que chega a Rancière. Semelhante a este, JMB recusa em reduzir a estética a uma reflexão especulativa ou circunscrevê-la ao âmbito do artístico, mas, ao contrário, alargá-la a uma reflexão vinculada aos muito distintos regimes de sensibilidade que coexistem numa sociedade, e que o leva ao encontro de um regime que não havia sido considerado tradicionalmente estético, o do melodrama. Segunda, a cartografia barberiana dá a ver a disposição das posições e das competências dos indivíduos, pois a sua epistemologia (lembremos do calafrio epistemológico) têm como base o olhar descentralizado do estudioso que contempla as margens e a valorização do fluxo comunicacional e do intercâmbio cultural. Ainda, a mediação da socialidade revela traçados que vão demarcar as diferentes experiências com o sensível, ou com o “tomar parte na partilha” mencionado por Rancière. Portanto, a cartografia pode ser um instrumento para promover novos parâmetros de representação da partilha do sensível.
A construção da cartografia barberiana tem natureza dialética, pois, na medida em que um mapa dialoga com as fontes dos mapas anteriores, temos a proposta de um novo mapa. Portanto, um mapa não substitui o anterior, mas se apropria, o reinterpreta e o acrescenta, em um processo que exige um pensamento de maior complexidade. Para que a cartografia opere de modo rizomático, percorre-se os pontos, as linhas e a rede do rizoma, aplicando estratégias que vão se aplicando e se revendo em função dos fenômenos em estudo. A cartografia diz respeito a um método estratégico-rizomático.
A historicização das mediações dentro da teoria barberiana da comunicação leva a tomar distância das certezas metafísicas e do racionalismo positivista para propor categorias possivelmente transitórias para dar conta de uma realidade mutável e suscetível de intervenção31.
BREVES CONSIDERAÇÕES FINAIS: O QUE FAZER COM OS MAPAS BARBERIANOS NA PESQUISA EMPÍRICA DE COMUNICAÇÃO?
Esta pergunta é motivo para um novo artigo. Mas, eu não queria deixar de fazê-la, mesmo na forma de considerações finais deste texto.
A incorporação desses mapas das mediações nos estudos de comunicação dá origem a novos lugares metodológicos. A apropriação dos mapas pelo pesquisador depende da estratégia metodológica que adotar em uma dada pesquisa empírica, de modo que a escolha pode recair em determinadas mediações e não em outras dependendo do destaque que ganham na abordagem analítica. Desde a pesquisa sobre a recepção de telenovela (Lopes et al., 2002) que se tornou referência de trabalho empírico com base na metodologia das mediações, vem se demonstrando que os mapas barberianos devem ser usados estrategicamente nas pesquisas de comunicação. Sendo o objeto de estudo, por exemplo, um determinado produto comunicacional (telejornal, telenovela), a partir desse formato industrial, o pesquisador pode acionar elementos de sua linguagem televisiva em articulação com lógicas da produção explorando a tecnicidade. Também poderá articulá-lo às competências de recepção através das mediações da ritualidade ou da sensorialidade. Trata-se então de elaborar uma específica estratégia de uso dos mapas das mediações para uma específica pesquisa empírica.
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Notas
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