Editorial
Apresentamos, com alegria, o primeiro número da revista Acta Scientiarum: Language and Culture, vol. 38, referente ao ano de 2016, dedicado à área de literatura. O primeiro artigo, ‘No espelho da memória: Macau, lugar mítico de (re)construção da identidade na obra de Maria Ondina Braga’, de Dora Maria Nunes Gago, ocupa-se da análise de Estátua de Sal (1965) e Passagem do Cabo (1994), de Maria Ondina Braga. Trata-se de investigar, por meio da imagologia, os mecanismos utilizados no processo de reconstrução da identidade das personagens, através da memória e da alteridade, em confronto com o outro exótico, tendo como cenário Macau. O segundo, ‘Velações e partidas: o trauma em Antes de nascer o mundo, de Mia Couto’, de Juliana Ciambra Rahe e Rosana Cristina Zanelatto Santos, toma por objetivo analisar a questão do trauma na obra Antes de nascer o mundo, do escritor moçambicano Mia Couto. Partindo de reflexões freudianas, as autoras examinam os efeitos negativos e positivos do trauma, confrontando os posicionamentos dos personagens Silvestre Vitalício e Marta diante da experiência traumática vivenciada por cada um deles. O terceiro artigo, intitulado ‘O diálogo intertextual com Fernando Pessoa em três contos de José Eduardo Agualusa’, de Altamir Botoso, centra-se no estudo de três contos do escritor angolano José Eduardo Agualusa (1960-) integrantes da coletânea Manual prático de levitação (2005): Se nada mais der certo leia Clarice, Catálogo de sombras e Livre-arbítrio. A análise evidencia aí a presença do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) e de seus heterônimos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. O suporte teórico é buscado nos escritos de Julia Kristeva (1974), Leyla Perrone-Moisés (1990), Tiphaine Samoyault (2008) e Laurent Jenny (1979). O quarto artigo, ‘A Estação: moda, literatura e difusão ideológica’, de Juracy Assmann Saraiva e Cátia Cilene Kupssinskü, analisa o posicionamento ideológico da revista A Estação, que circulou, no Brasil, entre 1879 e 1904. As autoras se fundamentam no estudo do contexto sociocultural do século XIX e na análise sígnica. Ao cabo de suas reflexões, concluem que A Estação, conjugada a circunstâncias de natureza política e social, influenciou a concepção da identidade nacional brasileira, que adaptava elementos da cultura europeia a seu cotidiano. O quinto artigo, ‘O discurso do protagonista em Juliano Pavollini, de Cristovão Tezza: uma estrutura em paralaxe?’, de Marisa Corrêa Silva e Estela Pereira dos Santos, parte das ambiguidades discursivas do narrador criado pelo escritor paranaense, enfatizando o efeito calculado que tal estratégia exerce sobre o leitor e sobre a estrutura narrativa. O conceito de ‘visão em paralaxe’, proposto por Žižek, alicerça a argumentação das autoras. O sexto artigo, ‘O estatuto da linguagem no romance Caetés’, de João Paulo Ayub, tem como objetivo investigar o estatuto da linguagem no romance Caetés, de Graciliano Ramos, por meio de uma análise do fracasso da escrita vivenciado pelo personagem João Valério. A partir do aporte teórico da hermenêutica filosófica, o autor destaca o significado dos índios Caetés, de sua natureza selvagem, para a compreensão da linguagem e de seu papel revelador da condição humana. No sétimo artigo, ‘O ensaio em perspectiva’, a autora Josyane Malta Nascimento propõe-se a pensar sobre o gênero ensaístico desde sua origem, com Montaigne, no século XVI, passando pelos seus desdobramentos no decorrer dos séculos seguintes, enfatizando sua perspectiva instável, subjetiva e fragmentária, que lhe confere força e pertinência crítica. O oitavo artigo, intitulado ‘A escrita como crime e falta em La disparition’, de Vinicius Carvalho Pereira, analisa como a noção semiológica de ausência pode, em negativo, potencializar reflexões sobre a própria escrita como crime e como falta. Em La disparition, romance policial de Georges Perec, muito há para ser desvendado – do sumiço do protagonista, Anton Voyl, ao sumiço da vogal E, que não aparece no livro. A violência contra a língua é interpretada como uma trapaça contra os algoritmos do sistema; o protagonista desaparecido vitima a narrativa no plano da expressão, criando uma ausência que se diz, paradoxalmente, não dizendo – crime performativo cometido pela literatura. O nono artigo, ‘Esteticismo e decadentismo nos dândis de Wilde e Huysmans: retratos de Des Esseintes e Dorian Gray’, de Enéias Farias Tavares, analisa a figuração do dândi no campo da produção literária, tomando como corpus os romances Às avessas, do escritor francês J. K. Huysmans, e O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. No último artigo, intitulado ‘Três poemas expressionistas’, Tercio Redondo trata de três poemas do Expressionismo alemão que, de maneiras distintas, expõem a perplexidade moderna diante do desaparecimento dos últimos resquícios do humanismo burguês nos primórdios do século XX. Aos nossos leitores, uma ótima e produtiva leitura!
Informação adicional
1: Editora da Revista
Acta Scientiarum. Language
and Culture