Resumo: Passado um ano da “chegada” do novo coronavírus no Brasil, apesar dos números de infecção não apresentarem declínio, iniciou-se um processo de retomada das atividades e adaptação ao “novo normal”. É o objetivo deste artigo mostrar como uma epidemia é construída enquanto uma emergência sanitária, quais os marcadores de sua temporalidade e, principalmente, como ela se produz em um processo de obliteração e externalização de fatores que muitas vezes são inerentes aos seus efeitos. Para tanto, recuperamos a trajetória de duas experiências “epidêmicas” anteriores, vivenciadas em território brasileiro, a fome e o Zika vírus. Mostraremos, a partir dessa comparação, que a epidemia de Covid-19 deve ser entendida levando em consideração que sua trajetória é produzida conjuntamente com outras experiências de saúde e doença. Se os significados do “novo normal” estão sendo disputados, é importante trazer à luz os processos que reproduzem cotidianamente o “normal de novo”.
Palavras-chave: epidemia, fome, Zika vírus, Covid-19.
Abstract: One year after the ‘arrival’ of the new coronavirus in Brazil, although the infection numbers did not show any decline, a process of resumption of activities and adaptation to the ‘new-normal’ has started. Thus, the main goal of this article is to show how an epidemic is built as a health emergency, what are the markers of its temporality and mainly, how it is produced in a process of obliteration and externalization of factors that are often inherent to its effects. In order to do so, we recalled the trajectory of two previous ‘epidemic’ experiences, lived in Brazilian territory, hunger and the Zika virus. We aim to show, through this comparison, that the COVID-19 epidemic needs to be understood taking into consideration that its trajectory is produced in conjunction with other health and disease experiences. If the meanings of the ‘new normal’ are being questioned, it is important to bring to light the processes reproduce daily the ‘normal anew’.
Keywords: epidemic, hunger, zika virus, COVID-19.
Artigos
Pós-pandemia ou a “endemização do (extra)ordinário”? Uma análise comparativa entre as experiências com a fome, Zika vírus e Covid-19 no Brasil
The post-pandemic era or the “endemization of the (extra)ordinary”? A comparative analysis between the experiences of hunger, Zika Virus and COVID-19 in Brazil
Recepção: 31 Agosto 2020
Aprovação: 20 Janeiro 2021
No início de maio de 2020, quando já se somavam mais de 4 milhões de casos confirmados do novo coronavírus por todo o mundo, Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), afirmou em entrevista coletiva (Chade, 2020) que a Covid-19 “pode se transformar em uma doença endêmica e nunca desaparecer, se ações firmes não forem tomadas”. A agência também comunicou que “o mundo talvez precisasse de quatro ou cinco anos para lidar com a crise”, e traçou comparações com o HIV, dizendo que a endemização do novo coronavírus é uma das possibilidades dentre alguns cenários previstos pela organização. Segundo a OMS, “esse vírus [e essa doença] pode se tornar mais um vírus endêmico em nossa comunidade”.
Passados meses das declarações acima, o “milagre” da vacina ainda não havia se disseminado e o mundo somava mais de 130 milhões de casos confirmados da doença. Apesar disso, a volta à normalidade ou o que foi sendo convencionalmente chamado de “novo normal” passou a ditar e justificar as diversas formas de flexibilização das medidas de contenção do vírus.
Não somente originário do senso comum, mas também presente na análise científica, o “novo normal” se tornou a premissa estruturante para a compreensão do mundo nesse processo de reabertura e de adaptação a um contexto pandêmico, sob a alegação, amplamente aceita, de que o isolamento rigoroso, ainda que apontado como necessário para conter o contágio, traria impactos tão negativos para a economia que não compensaria o benefício à saúde coletiva, tampouco poderia ser exercido por uma grande parcela da população, que não teria condições de trabalhar remotamente. No entanto, essa lente analítica, que visa entender a transformação da realidade em decorrência de uma crise econômica e de saúde vista como sem precedentes, nos parece estar dissociada de processos sócio-históricos mais amplos.
Ao partilhar com Briggs (2020) a ideia de que temos sidos bombardeados com informações que atestam um momento sem precedentes na história, isto é, que não possuímos um enquadramento analítico para compreensão dessa pandemia, nos parece central reforçar que, apesar do caráter único de cada evento pandêmico podemos traçar paralelos e mesmo continuidades com outros momentos históricos semelhantes, questionando, primeiramente, as condições de produção dessa epidemia específica (Briggs, 2020), a partir de experiências locais (Segata, 2020c).
Assim, é objetivo central deste texto pensar como uma epidemia2 é construída enquanto uma emergência sanitária, quais os marcadores de sua temporalidade e, principalmente, como ela vai sendo produzida em um processo de obliteração e externalização de fatores que muitas vezes são inerentes aos seus efeitos. Ao levar a sério a premissa de Caduff (2020), de que a excepcionalidade dessa pandemia não reside no vírus em si, mas na resposta a ele e nos efeitos que essa resposta tem produzido, se mostra essencial compreendermos que a própria epidemia, enquanto fenômeno social e sanitário, está inscrita em processos anteriores a ela e produz processos outros que não se encerram em si (Briggs, 2020).
Nesse sentido, lançaremos nosso olhar para duas “epidemias passadas”, buscando traçar paralelos entre seus processos de endemização com o que vivenciamos hoje, mas, principalmente, buscaremos qualificar o que tem sido discutido como o “normal” de antes da “crise”, concebendo-o como parte central na produção da própria pandemia. A experiência com a fome e o Zika vírus em território brasileiro são importantes lócus de partida para o questionamento acerca da maneira como experiências sanitárias, coletivas e individuais são materializadas e conformadas a partir das relações sociais que as compõem.
Ao compreender que as epidemias são sempre momentos de crises biológicas e sociais e que essas crises ao mesmo tempo dissolvem e refazem o mundo (Kelly; Heck; Lynteris, 2019), partimos do pressuposto de que esses eventos oferecem um lócus privilegiado para analisar aspectos obliterados da vida cotidiana, permitindo trazer à luz algumas preocupações antropológicas fundamentais (Segata, 2020a, 2020b, 2020c).
Levando em consideração que a atual pandemia ainda está longe do seu fim “oficial”, acreditamos que olhar para duas outras epidemias pode nos ajudar a compreender os processos de transformação semântica do extraordinário em algo ordinário e, principalmente, as dinâmicas de obliteração e desvelamento envolvidas nesse movimento. Para isso, é fundamental a ideia de que a compreensão das epidemias requer o estudo não apenas da doença em si e dos modos como ela afeta relações sociais, mas dos seus modos de “antecipação, visualização, ficcionalização e materialização” (Kelly; Heck; Lynteris, 2019, p. 16, tradução nossa), ou seja, de suas externalidades,3 que ajudam a construir esse processo enquanto uma crise marcada temporalmente e localmente.
Em outra ocasião, mostramos (Blanco; Sacramento, 2020) a pertinência de compreender as doenças como elementos que dão forma às dinâmicas sociais e como os processos de saúde e doença estão intimamente ligados às práticas cotidianas do gestar e do gerir o Estado. Nesse sentido, vale lembrar as formulações de Foucault (2008) acerca da compreensão das epidemias como eventos essenciais para conformar processos de gestão da vida ao possibilitarem a modelagem de saberes, instituições, ofícios e práticas com vistas a disciplinar (em seu sentido mais amplo) a ideia de população e de ambiente.
Uma antropologia das epidemias aqui proposta procura elucidar os processos de coprodução entre saúde, doença, ciência, política, economia e “cultura”, ou seja, como “vírus” e “sociedade” produzem o fenômeno da doença em suas escalas de surto, epidemia e pandemia. Assim, a ideia de determinantes sociais em saúde, ou seja, de que os elementos de diferenciação influenciam e/ou condicionam os processos de saúde e doença, nos parece indispensável. Essa concepção tende a considerar não apenas os aspectos materiais dos processos de produção e distribuição de oportunidades de acesso, mas também suas marcas de diferenciação (Barata, 2009). Dessa forma, posições de classe, gênero, raça/etnia, geração e posição geográfica, quando em relação, criam as condições de acesso à saúde, bem como são condicionantes de modos e experiências de vida específicos.
Nesse sentido, é necessário atentarmos para como as marcas da diferença permitem ou não, em maior ou menor grau, o acesso à saúde e/ou agravam a situação de determinados corpos em contextos de crises sanitárias. Na epidemia de Covid-19 esses marcadores se materializam em um maior cenário de desigualdade social em populações específicas. Para entendermos como tais diferenças se transformam em desigualdades, precisamos compreender como esses marcadores são historicamente construídos e mobilizados no contexto da sociedade brasileira e no interior dos processos de saúde e doença, e como eles conformam as ideias de comorbidades, precariedades e as próprias dinâmicas do cuidado em saúde para diferentes grupos sociais (Brandi, 2020; Paula, 2020; Redondo, 2020). Nessa direção, nossa proposta é pensar justamente nessas desigualdades, a materialização dessas diferenças, seja a fome ou a desigualdade de acesso aos cuidados e tecnologias em saúde, a partir de duas outras epidemias: a fome e a epidemia de Zika vírus.
Uma antropologia preocupada em entender os processos por trás da definição de certas doenças e epidemias, compreendendo seus efeitos e expressões sociais, pode nos ajudar a desvelar as relações entre as condições de existência de uma população e a própria ideia de construção social de uma doença. Assim como a fome ou o Zika vírus, a epidemia de coronavírus também está baseada em processos estruturais anteriores a ela.
Retomando o início da epidemia de Sars-CoV-2 no Brasil, podemos ver que o aumento exponencial da fome era visto como uma de suas mais impactantes consequências (United Nations, 2020). Apesar disso, ou precisamente em decorrência dessa constatação, a narrativa em torno dos desdobramentos socioeconômicos da pandemia foi construída a partir da oposição entre a manutenção da sobrevivência através do acesso à comida, assegurando as principais atividades econômicas familiares, e a proteção contra o vírus através de medidas de isolamento restritivas. Desde meados de março de 2020, o questionamento “morrer de vírus ou morrer de fome” era constante em algumas narrativas estatais,4 bem como na produção de um discurso público sobre o tema.
Em meio a essa oposição fortemente marcada por uma tentativa do governo federal de impedir que a “economia parasse”, e consequentemente “quebrasse”, intelectuais, pesquisadores,5 médicos e sanitaristas tentavam mostrar como essa dualidade constituía uma falsa oposição. Até mesmo o ministro da saúde da época, Luiz Henrique Mandetta, fez um pronunciamento (Lindner; Sabino, 2020) conciliador, explicitando que “a saúde não é uma ilha”, e que, portanto, as medidas e diagnósticos sobre esse campo deveriam ser compreendidos a partir de sua conexão com as diversas esferas da vida socioeconômica e cultural.
Para além dos efeitos de tal disputa narrativa, seu aparecimento enquanto questão central na produção de respostas do governo brasileiro à crise iminente associada à pandemia de Covid-19 despertou grande interesse analítico. Em meio ao desenvolvimento de sua pesquisa de doutorado sobre a definição de fome na trajetória social do programa Fome Zero, Blanco foi percebendo que a relação entre ambas, a Covid-19 e a fome, era mais estreita do que se pensava, e ia além das implicações econômicas tão mencionadas pela mídia (Blanco, 2019, 2020b). Essa relação ganhava forma a partir de materialidades e práticas situadas, que produzem a epidemia de Covid-19 nos corpos e nas sensibilidades coletivas (Segata, 2020c). Sendo a fome um problema real no Brasil e, mais ainda, sendo “o governo da fome” e “pela fome” (Blanco, 2019) um processo definidor da governamentalidade brasileira, se tornou evidente que não era possível começar a entender a produção da epidemia do novo coronavírus no país sem levar em consideração as estruturas preexistentes - comumente obliteradas na construção de uma ideia de epidemia enquanto evento isolado e “sem precedentes” (Briggs, 2020).
A fome, mais do que um objeto de comparação ou uma lente analítica para compreensão e questionamento acerca da ideia de “novo normal”, é entendida aqui como parte constitutiva da experiência da pandemia de Covid-19 no Brasil. Assim, olhar para a história da fome no país pode nos ajudar a compreender como se dá um processo tão presente em nossa sociedade: a endemização do (extra)ordinário. Para além de evidenciar as camadas de vulnerabilidade vivenciadas por tantos brasileiros, uma mirada atenta à relação entre Covid-19 e fome nos lembra que a realidade produzida pela presente pandemia não é totalmente nova, e não está, de maneira alguma, dissociada de outros processos epidêmicos marcantes em nossa história.
Quando pensamos em fome, associamos esse fenômeno às imagens do que é denominado na bibliografia sobre o tema (Castro, 1948, 1959, 1965; Devereux, 1993; Edkins, 2000; Freitas, 2003; Hastrup, 1993; Klein, 2013; Vernon, 2007) como crises de fome, isto é, eventos de fome aguda, de epidemias causadas por fatores ecológicos como a seca; ou políticos e econômicos, como a guerra, e que levam uma população à total inanição. Esses processos são uma realidade cada vez mais distante no Brasil.
Desde 2014, o país não faz mais parte do Mapa da Fome (Cunha, 2014) da Agência para Agricultura e Alimentação da ONU (Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2014), e muitos especialistas afirmam que vivemos um período de consolidação da transição nutricional/alimentar, onde ocorre um declínio da prevalência de desnutrição em crianças e a elevação da prevalência do sobrepeso/obesidade em adultos (Batista Filho; Rissin, 2003).
Não obstante, recuperando os estudos de Josué de Castro (1948, 1959, 1965) e traçando paralelos com a atual conjuntura nacional, podemos afirmar que apesar das crises de fome não serem mais uma constante no país, isso não equivale a dizer que finalmente erradicamos essa mazela. É precisamente a fome endêmica e sua compreensão como uma questão estrutural que pode iluminar a presente discussão. A fome endêmica é, portanto, entendida aqui como diretamente relacionada à produção da epidemia de coronavírus, como mostram as análises sobre o estado atual de insegurança alimentar no país (Jaime, 2020; Oxfam Brasil, 2020) e sua relação com outros determinantes sociais da saúde e, principalmente, com a desigualdade social (Freitas; Silva; Cidade, 2020).
O conceito de fome enquanto categoria de gestão e principalmente enquanto um problema social tem uma história recente. Sua compreensão como uma
categoria sociocultural, bem como uma condição material, nos permite questionar a premissa de que ela é apenas uma consequência ilustrativa de outras histórias, como o desenvolvimento do capitalismo e de Estados de bem-estar social. (Vernon, 2007, p. 8, tradução nossa).
Essa proposição nos parece importante porque possibilita compreender que a fome, enquanto produto e produtora do social, também sofreu processos de transformação de uma epidemia para uma endemia, que, ao ser “normalizada”, muitas vezes se torna invisibilizada. Isso porque a maneira como essa mazela é compreendida, através da produção de métricas, instrumentos e estatísticas, produz o próprio objeto e seus efeitos na realidade (Klein, 2013; Simmons, 2015; Vernon, 2007).
No Brasil, foi somente a partir de meados dos anos 1930 que ocorreu uma “descoberta da fome” enquanto problema estrutural. Foi principalmente a partir da obra de Josué de Castro (1959), As condições de vida da classe operária no Nordeste, de 1935, que a fome oculta foi conhecida, e foi possível disputar a ideia de que o problema do subdesenvolvimento brasileiro não era a raça, mas sim a fome (Lima, 2000). Voltando a atenção a uma população que convivia cotidianamente com a fome, Castro procurou compreender “como não se morria de fome nessas condições”. O autor concluiu então que se vivia nessas condições (sobre)vivendo diariamente com ela, com todas as consequências disso: ocasionando uma maior facilidade de contrair doenças infecciosas, bem como suscitando problemas de desenvolvimento físico e mental, resultando em pouca produtividade, entre outras mazelas (Castro, 1959).
A descoberta da fome oculta por Josué de Castro (1959) foi central para a produção desse objeto como um problema biológico de origem social e política, permitindo o desenvolvimento de diversas políticas não apenas centradas na esfera da saúde (Pinto, C., 2005; Pinto, H., 2014a, 2014b), mas também da economia, que passaram a garantir condições mínimas de sobrevivência para a classe trabalhadora, como é o caso do salário mínimo, do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) e também da seguridade social (Amorim, 2016).
O que é importante salientar aqui diz respeito precisamente à maneira como esse objeto se torna foco de atenção e como ele é produzido enquanto problema estrutural que gera consequências amplas para o país e seu desenvolvimento. Isso porque, apesar das políticas de combate à fome, estabelecidas ao longo do século XX no Brasil, sua compreensão no senso comum ainda estava associada às crises de fome dos séculos XVIII e XIX. Foi somente no início dos anos 2000, a partir do lançamento do programa Fome Zero, que houve uma grande mobilização para combater a fome estrutural e emergencial, e para uma mudança nos paradigmas de sua compreensão.
Apesar das críticas que podem ser feitas ao programa Fome Zero, criado no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (2002-2010), pode-se afirmar que este foi um marco no desenvolvimento das políticas sociais no Brasil (Aranha, 2010). Com o Fome Zero foram criadas políticas públicas que visavam combater a fome epidêmica, mas também garantir que a “fome oculta” (Castro, 1948; 1959; 1965) fosse erradicada. Para isso, foi necessária a criação de parâmetros (Segall-Corrêa; Marin-Leon, 2009) de medida que abarcassem os fatores envolvidos na produção da fome endêmica.
É consenso na bibliografia (Arretche, 2015; Belik, 2012; Takagi, 2006; Yasbek, 2004) que estuda os efeitos dessa política na situação de insegurança alimentar no país, que o programa Fome Zero foi essencial para a retirada de milhões de famílias e indivíduos da zona de insegurança alimentar grave, entendida como fome (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2014). No entanto, nos últimos anos, foi se tornando mais evidente que a linha entre a fome crônica e a fome aguda é tênue, assim como é tênue a separação entre aqueles que passam fome e aqueles que saíram dessa zona, mas vivenciam cotidianamente o risco dessa mazela (Radimer et al., 1992). Um exemplo marcante desse processo se configura na fala do atual presidente Jair Bolsonaro, que afirmou em coletiva de imprensa que “não existia fome no Brasil”, porque afinal de contas “não via nenhum esquelético por ali” (Cople, 2019).
Foi então a incidência da fome aguda, das crises de fome, que voltou a aparecer como problema central na produção da epidemia de Covid-19 no país, tornando evidente que o processo de endemização de algumas doenças, a depender da população que atinge e produz, pode ser transformado em um processo de obliteração de seus efeitos e de sua própria existência. A fome oculta, apesar de “descoberta” por Josué de Castro nos anos 1930, é constantemente invisibilizada a partir de certos aparatos tecnopolíticos, o que produz, ao longo dos anos, uma dissociação entre a compreensão de tal mazela como um produto de relações sociais específicas e como parte constituinte de certas experiências de saúde e doença vivenciadas por uma população fortemente marcada pela fome endêmica.
Esse movimento nos faz pensar que é necessário questionar métodos de análise lineares e universalizantes que produzem uma doença, principalmente quando ela está diretamente associada a determinantes sociais mais amplos, como desigualdades de acesso a recursos e desigualdades regionais. É precisamente por isso que uma “antropologia das epidemias precisa estar atenta não somente aos processos biológicos que permitem a emergência e a transmissão de uma doença, mas também às condições que possibilitam a identificação e materialização de certos eventos biológicos” (Nguyen, 2019, p. 166, tradução nossa). A própria ideia de uma trajetória da doença, com uma incidência temporal em determinadas populações, é central nesse processo.
Nesse sentido, buscamos enfatizar que a definição de uma doença, enquanto fenômeno endêmico em uma sociedade, deve levar em consideração as externalidades que a promulgam e o impacto direto em outras condições de saúde, além do contexto social do qual ela faz parte e o que ela mesma produz. Olhar para a epidemia de Zika vírus se mostra útil para compreendermos como essas externalidades e contextos conformam a experiência epidêmica e o processo de endemização, se não da doença em si, ao menos de suas consequências diretas.
Durante quase dois anos, entre 2015 e 2016, o país se viu diante de uma epidemia de um novo arbovírus, o Zika, que, a despeito de seus efeitos primários mais leves, quando comparados com os outros vírus transmitidos também pelo mosquito Aedes aegypti, como febre, erupções cutâneas, dores no corpo, etc., trouxe consigo efeitos secundários não presentes nas outras duas doenças: a microcefalia e todo o espectro da Síndrome Congênita do Zika vírus.
Naquele período, o aumento dos casos de microcefalia, principalmente na região Nordeste (mas não apenas), e a confirmação, via diagnóstico laboratorial, da ligação com o Zika vírus, representou um problema sanitário que ganhou importância internacional. No âmbito das ações de saúde global (Brown; Cueto; Fee, 2006; Gaudillière, 2014), a incerteza em torno do binômio Zika vírus e microcefalia fizeram com que a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) decretasse emergência sanitária internacional (public health emergency of international concern - PHEIC). A versão brasileira da emergência sanitária (emergência de saúde pública de importância nacional - Espin) levou o governo federal a mobilizar uma ação interministerial e intersetorial que resultou em financiamento para pesquisas, ações de combate ao mosquito vetor e de cuidado à microcefalia, como os serviços de estimulação precoce e as pensões para as crianças nascidas com o distúrbio.
O tom exitoso com o que se narra os eventos do parágrafo anterior não é uma ingenuidade. Ao contrário, assim como na atual epidemia de Covid-19, a epidemia de Zika vírus mobilizou esforços nacionais que se traduziram não apenas em agendas e financiamentos de pesquisa, como também em recursos financeiros públicos que destoavam da retórica de contingenciamento e crise política e financeira que o país vivia nos anos de 2015, 2016 e 2017. As dificuldades e desigualdades na materialização desses recursos em impactos efetivos na vida cotidiana daqueles afetados diretamente pelo Zika vírus, como mostram as pesquisas de Fleischer (2017), Diniz (2016), Scott et al. (2017) e Porto (2020), por exemplo, conformam, junto com esse “êxito institucional”, a experiência da epidemia de Zika vírus no Brasil. Na epidemia de Covid-19 vemos um cenário parecido: uma retórica de crise política e financeira, recursos nacionais e internacionais e impactos distintos e desiguais na vida cotidiana.
O advento de uma nova arbovirose transmitida por um mosquito vetor já conhecido no país somente tornou-se preocupação nacional e internacional a partir da hipótese de ligação (posteriormente confirmada via diagnóstico laboratorial) entre o novo vírus e a microcefalia. À incerteza momentânea causada pela relação de causalidade entre os dois fenômenos juntaram-se todas as incertezas a respeito de outras formas de transmissão da doença (como a sexual e o fato de o vírus ter sido encontrado na saliva e em outros fluídos corporais), da melhor maneira de diagnosticá-la e diferenciá-la das outras arboviroses e de que cuidados empregar na tentativa de preveni-la.
Assim, as respostas institucionais (Matta; Nogueira; Silva, 2020) à epidemia de Zika vírus recaíram em torno do combate ao mosquito vetor e da microcefalia causada pela doença, o que levou a um investimento significativo de dinheiro na pesquisa científica, principalmente aquelas de desenvolvimento de tecnologias diagnósticas e vacinas, mas que também resultou nas estratégias de combate ao mosquito, nem sempre exitosas, e na criação de protocolos de cuidado em saúde para as crianças nascidas com microcefalia6 - o que não se traduziu, necessariamente, na criação de novas instituições, aparelhos e serviços de saúde, mas na utilização dos já existentes.
No entanto, o foco das respostas direcionadas a esses dois pontos específicos não conseguiu dar conta da complexidade que a epidemia de Zika vírus. O foco no combate ao mosquito vetor ignorava, por exemplo, as históricas e malfadadas tentativas de erradicação do mosquito ao longo de todo século XX (Lopes, 2020; Löwy, 2006), além de ignorar os determinantes estruturais que conformam a experiência do Aedes aegypti e das doenças por ele transmitidas (Diniz, 2016, 2017; Matta et al., 2019; Segata, 2016). À desigualdade social que se reflete na falta de acesso ao saneamento básico, em água potável encanada, em moradia e em coleta de lixo, por exemplo, e que conforma o cenário propício para a atuação do mosquito, juntam-se os marcadores sociais da diferença, gênero, raça/etnia, classe, geração, posição geográfica, que materializam diferentes posições simbólicas na conformação da vida social e diferenças no acesso à saúde e aos serviços e que acabam por se traduzir em desigualdades sociais.
Por sua vez, o foco na microcefalia como expressão maior de perigo da doença, escondia uma gama de outras alterações daquilo que vem sendo entendido como a Síndrome Congênita do Zika vírus (SCZ). Consequência dessa escolha é que mais de 80% das crianças nascidas durante a epidemia e cujas mães foram diagnosticadas com Zika vírus tiveram seus diagnósticos classificados como descartados, prováveis ou inconclusivos, ainda que se encontrem no espectro da SCZ (Matta; Nogueira; Silva, 2020). Isso se traduziu, por exemplo, no alijamento dessas crianças e famílias dos benefícios sociais em decorrência da doença e das políticas de cuidado em saúde tais como o protocolo de estimulação precoce (Matos; Quadros; Silva, 2019).
Ainda que a epidemia tenha acabado em 2016, a despeito da não diminuição dos mosquitos Aedes aegypti ou da não melhoria na infraestrutura e na qualidade de vida da população (Matta; Nogueira; Silva, 2020), os desdobramentos da epidemia, notadamente a microcefalia e a SCZ, mas também o próprio vírus, que continua a circular pelo país, se manterão a longo prazo. Se a doença em si não se endemizou, suas consequências, a microcefalia e a Síndrome Congênita do Zika vírus, se farão presentes na vida daqueles afetados7 pelo vírus - principalmente as crianças e suas famílias.
A epidemia de Zika vírus e, principalmente, a microcefalia e a SCZ, se manifestaram majoritariamente nos estados da região Nordeste (Diniz, 2016, 2017). É nessa região também que se encontram os grandes bolsões de pobreza e de desigualdade social, além da falta de aparelhos de Estado para o cuidado em saúde e assistência social. Essa epidemia conjugou a um só tempo risco sanitário com risco social e nos mostra a pertinência de se olhar para os fenômenos de saúde e doença sob a ótica dos determinantes sociais em saúde e das desigualdades produzidas nesse processo.
O acesso precário aos cuidados em saúde ainda é uma realidade das famílias das crianças com microcefalia e SCZ (Carneiro; Fleischer, 2018; Porto, 2020; Scott et al., 2018; Williamson, 2018), assim como o acesso aos direitos sexuais e reprodutivos não se ampliou no contexto epidêmico, a despeito das tentativas de fazê-lo (Prado, 2018; Sacramento; Costa, 2020). Ao mesmo tempo, as promessas técnico-científicas que visavam proteger e/ou diminuir os riscos oriundos da epidemia de Zika vírus também não se concretizaram - a exemplo de uma vacina (Castro; Fleischer, 2020). Tais ausências mostram algumas das limitações das respostas à epidemia, como também são a materialização das relações entre vírus e as “externalidades” que compõem aquilo que temos entendido como sendo a epidemia de Zika vírus no Brasil.
Como bem nos lembrou Segata (2020a, p. 277), “surtos, epidemias e pandemias não formam apenas tendências epidemiológicas. Como eventos críticos, eles expõem estruturas de sofrimento, injustiça e desigualdade.” O que parece importante aqui, no entanto, é que além de trazer à luz e “evidenciar as muitas camadas de vulnerabilidade” (Segata, 2020a, p. 277) que conformam a vida em território brasileiro, buscamos compreender as características epidemiológicas da Covid-19 como efetivamente formadas por processos e produtos que são anteriores à própria doença.
Ao observarmos a “evolução da epidemia” da Covid-19 no Brasil é evidente que a pandemia incide de maneira desigual por todo o território brasileiro e no interior das diversas classes e experiências sociais. Apesar dos primeiros casos de coronavírus terem surgido nas classes sociais mais altas (Croda et al., 2020), são as populações mais vulneráveis que acabam mais afetadas (Rede de Políticas Públicas & Sociedade, 2020a, 2020b; Santos et al., 2020), e embora existam muitas razões para isso, elas podem ser resumidas aos condicionantes sociais de saúde e às iniquidades estruturais do país.8
A principal justificativa para esse fenômeno pode ser encontrada, precisamente, nos meandros da afirmação de Mandetta. A saúde não é mesmo uma ilha. Para analisarmos uma epidemia é necessário entender então o que estava lá antes dela chegar (Briggs, 2020), e, junto a isso, questionar a construção da normalidade de certos processos anteriores à “nova crise”.
A atenção à “temporalidade” e a própria definição de uma doença enquanto crise ou epidemia pode nos mostrar, assim, um caminho para uma análise mais abrangente e crítica da atual conjuntura. Sabemos que muitas doenças tropicais e/ou negligenciadas como a dengue, a febre amarela e a zika são experiências endêmicas em países do sul global, e só se tornam emergências de saúde pública de interesse internacional (PHEIC) quando afetam os países do norte (Segata, 2020a) ou quando representam uma ameaça até então desconhecida, que ainda não pode ser “domesticada”. Por isso, é central entender que tratar certos processos como crises, como extraordinários, é “normalizar a exceção” (Segata, 2020a, p. 303), é não se atentar para a endemização de fenômenos estruturais e sua posterior ocultação.
A experiência brasileira com o Zika vírus ajuda a nos lembrar que não existe pós-pandemia. Já a história da fome no Brasil e a tentativa de questionar a própria definição de tal mazela - sua vivência corporificada e territorializada - permite entender que tal fenômeno, como outros, por ser, ao mesmo tempo, evento e estrutura, processo e produto, conforma a experiência de Covid-19 no país. Entendendo a epidemia do novo coronavírus como uma sindemia9 (Bambra et al., 2020), um movimento em que fatores de risco e comorbidades se inter-relacionam, interagem e se acumulam, exacerbando doenças prévias e desigualdades existentes, se torna evidente que não existe nada de novo no “novo normal”.
Esse processo pode nos atentar então para o fato de que outras “externalidades”, lidas como de cunho “apenas” econômico ou social, fazem a atual pandemia de Covid-19 fenômeno muito maior que apenas o vírus. Assim, colocamos como principal objetivo de tal esforço reflexivo uma análise dos marcadores temporais da atual pandemia, e dos processos que a constroem, questionando, principalmente, as possibilidade e os limites de vislumbrar um novo normal quando não há nenhuma ruptura com o passado.
A relação proposta aqui entre a fome, a epidemia de Zika vírus e a epidemia de coronavírus não é, portanto, um recurso retórico. Como tentamos mostrar, um dos principais problemas da atual pandemia - fenômeno global performado a partir de contextos locais - não corresponde apenas ao número de infectados, mas também ao agravamento das desigualdades e à crise econômica e social que leva um grande número de pessoas à pobreza e à miséria. Esse processo está diretamente associado ao aumento do fenômeno da fome aguda, que mata tanto pela falta de comida como pela exposição ao vírus da Covid-19, que se torna mais letal na população de baixa renda (Pires; Carvalho; Xavier, 2020), principalmente por causa de uma “sindemia” (Bambra et al., 2020) entre fatores de risco e comorbidades vivenciadas por essa população.
As epidemias não são acontecimentos naturais inevitáveis ou desconectados das relações econômicas, políticas e culturais de um país. Ao contrário, é justamente a imbricação dessas várias esferas que conformam a experiência epidêmica tal como ela é vivenciada e, por isso, faz com que a mesma não tenha o mesmo significado e/ou impacto em todos aqueles que a experienciam. Mais do que isso, segundo Carlo Caduff (2020), os processos de saúde e doença não podem ser pensados fora da experiência corporal das pessoas, pois elas também não existem fora das relações de diferenciação (e desigualdade) que seus corpos, racializados, generificados, marcados por classe, idade e posição geográfica, produzem e são produzidos.
Nesse sentido, a epidemia de Covid-19 deve ser entendida levando em consideração que sua trajetória é produzida conjuntamente com outras experiências de saúde e doença vivenciadas por uma população. Se os significados do “novo normal” estão sendo disputados, é importante trazer à luz os processos que reproduzem cotidianamente o “normal de novo”. A retomada da trajetória da fome e da epidemia de Zika vírus busca evidenciar que não é mais uma opção excluir as “externalidades” na compreensão da atual epidemia, precisamente porque “para muitas pessoas, essas chamadas ‘externalidades’ constituem suas próprias condições de sobrevivência” (Caduff, 2020, p. 11, tradução nossa).
Assim, menos que fazer previsões ou uma comparação em sentido estrito, tentamos recuperar aqui experiências passadas que são materializadas nas condições de existência de diversas populações no país, como também nas relações institucionais e políticas de um determinado contexto sócio-histórico, de forma a problematizar as possíveis análises do atual processo epidêmico que, muitas vezes, é lido como uniforme e inédito e que exige uma resposta de um fôlego imaginativo e político antes nunca visto.