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Tédio e modernidade no Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa1
Boredom and modernity in Fernando Pessoa's Book of Disquiet1
Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares, vol. 24, núm. 2, pp. 253-278, 2022
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais

Artigos


Recepção: 01 Agosto 2021

Aprovação: 01 Outubro 2022

DOI: https://doi.org/10.12957/irei.2022.70836

Financiamento

Fonte: CAPES

Número do contrato: 001

Descrição completa: O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 e está vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Maria.

Resumo: Apoiada na afirmação do filósofo norueguês Lars Svendsen (2006 [1999]) de que o tédio é um “fenômeno vago e multiforme”, “típico da modernidade”, proponho, neste artigo, explorar a relação entre tédio e modernidade no Livro do Desassossego (2012 [1982]), de Fernando Pessoa. A narrativa se desdobra num conjunto de textos em prosa nos quais a subjetividade se torna a chave mestra da expressão do semi-heterônimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa. Podendo ser lida como uma criação moderna por excelência, cujo autor se tornou um dos percussores do Primeiro Modernismo em Portugal, o “conjunto de obras-fragmentos”3 nos permite entender o tédio como um sintoma da modernidade, resultante de uma perda de sentido do homem moderno.

Palavras-chave: Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Modernidade, Tédio.

Abstract: Based on the Norwegian philosopher Lars Svendsen’s statement (2006 [1999]) that says that boredom is a “diverse and vague phenomenon”, “typical of modernity”, this article explores the relation between boredom and modernity on The Book of Disquiet (2012 [1982]), by Fernando Pessoa. The narrative unfolds in a set of fragmentary texts, in which the subjectivity becomes the master key of the expression of the semi-heteronym Bernardo Soares, an assistant bookkeeper in Lisbon. Considered a modern creation by excellence, whose author became one of the precursors of the First Modernism in Portugal, the narrative allows us to understand boredom, first and foremost, as a symptom of modernity, a result of the modern man's loss of sense.

Keywords: Fernando Pessoa, The Book of Disquiet, Modernity, Boredom.

E na mesa do meu quarto abrumado, reles, empregado, e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de pináculos altos vastos e longínquos, da minha estola recebida por prazeres, e do anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém extático (PESSOA, 2012, p. 52-53)4.

Introdução

Não há como negar a importância que a abordagem formalista do texto literário teve para o desenvolvimento de uma teoria sobre a literatura e sobre a materialidade da construção textual. Porém, também não se pode ignorar o quão fundamental é lançar um olhar para a obra literária através de sua profunda relação com a realidade social e com o tempo de sua criação, aproximando-se dela por mecanismos históricos e sociológicos. Não se trata de considerar, conforme Luiz Costa Lima, que a “análise sociológica da literatura (e da arte) subordina seu objeto ao propósito de entendimento dos mecanismos em operação na sociedade” (LIMA, 2002, p. 661). Ou mesmo de julgar que a análise sociológica de um texto literário se volta para a área dos discursos apenas “com o propósito de ilustrar, exemplificar ou comprovar uma interpretação de caráter bem mais abrangente: a interpretação de certa sociedade” (LIMA, 2002, p. 661) e sim de compreender que literatura e sociedade são duas faces da mesma moeda.

Partindo do pressuposto de que uma perspectiva sociológica “se pueden decir acerca de la literatura muchas cosas, pero no se puede decirlo todo, y que los conocimientos obtenidos darán siempre lugar a un saber particular y finito” (ALTAMIRANO; SARLO, 2001, p. 8) e que nenhuma teoria ou aporte teórico tem a pretensão de explicar uma obra literária em sua totalidade, ou melhor, nenhuma obra literária se permite ser decifrada através de apenas uma teoria, proponho, neste artigo, um recorte teórico que procura explorar a relação entre tédio e modernidade no Livro do Desassossego (2012 [1982]), de Fernando Pessoa.

Não é mera casualidade o título da obra ser Livro do Desassossego. A introspecção de Bernardo Soares, a sua “fragmentariedade” desperta um misto de admiração e inquietação no leitor. É como se, ao lermos o Livro, abrisse para nós um universo sem fecho nem desfecho, de modo que adentramos em uma espécie de labirinto interior do ajudante de guarda-livros, verticalizando em sua subjetividade até atingir o seu âmago. Por um lado, é como se Bernardo Soares se perdesse em si mesmo. Por outro, é como se nós, leitores, nos perdêssemos nele mesmo. Foi dessa desorientação, dessa ausência de referências, do desassossego do Livro que nasceu a proposta de alinhavar “conjunto de obras-fragmentos”5 à filosofia de Lars Svendsen e à crítica de Georg Simmel, no tratamento da relação entre a modernidade e o tédio. Não está aqui um exame crítico, minuciado da inquietante obra de Fernando Pessoa, mas sim uma proposta de leitura, de interpretação, utilizando a filosofia e a sociologia como chave.

O artigo foi dividido de modo a refletir uma certa relação de causalidade entre o tédio experienciado por Bernardo Soares e a modernidade. Para isso, no tópico “Sentimento de um metropolitano: Fernando Pessoa e o seu Livro do Desassossego”, faço um preâmbulo sobre revelação do Livro do Desassossego e das suas múltiplas interpretações. Caminho para abordagem da obra a partir da “ausência do Eu a si mesmo e ao mundo”, focalizando a condição conflituosa entre o sujeito e a modernidade. Em “Bernardo Soares e a tragédia do homem metropolitano: contexto antes do tédio” abordo a relação desassossegante que o ajudante de guarda-livros mantém com a cidade de Lisboa, a partir do conceito de falácia patética. Desenvolvo ainda a correlação de fragmentariedade indivíduo-texto-mundo amparada na análise que Simmel fez da modernidade e dos seus efeitos sociais. A teoria da sociedade moderna criada por Georg Simmel é uma forte chave de leitura quando utilizada para entender as subjetivações de Bernardo Soares, principalmente ao ser direcionada ao sentimento que o narrador-personagem nutre pelo trabalho, pelo ócio, pelo cansaço e pelo mal-estar.

Já no último tópico “O sujeito moderno, o desassossego e o tédio existencial”, examino o cansaço e o mal-estar como dois dos significados mais recorrentes e opressores que são relacionados ao tédio, intimamente interligados à modernidade. Identifico que Bernardo Soares emprega esses dois estados como uma tentativa de compreender o seu estado de perturbação mental e físico. Seguindo essa linha de raciocínio, me amparo teoricamente no filósofo norueguês Lars Svendsen e no sociólogo alemão Georg Simmel para estabelecer uma conexão entre tédio e modernidade.

Sentimento de um metropolitano: Fernando Pessoa e o seu Livro do Desassossego

A revelação do Livro do Desassossego data de 1982, quarenta e sete anos após a morte de Fernando Pessoa. Editada em Portugal, a sua primeira tiragem foi dividida em dois volumes, que somavam seiscentas páginas. Do vasto espólio de Fernando Pessoa, contendo mais de 27 mil papéis, conservados em uma arca em seu apartamento na Baixa de Lisboa, saiu umas das mais perturbadoras narrativas da Literatura Portuguesa conhecidas até o momento. Segundo Fernando Cabral Martins, a organização da primeira edição do Livro, sob a responsabilidade de Jacinto do Prado Coelho, “a partir do trabalho de pesquisa e fixação de texto de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha”, é “um momento histórico para a leitura de Pessoa, e uma grande surpresa, pois descobre-se um livro com uma dimensão que nem a obra poética já razoavelmente conhecida fazia prever” (MARTINS, 2000, p. 220).

Os textos em prosa poética que constituem o Livro do Desassossego percorreram um longo período de produção, que foi de 1910 até o ano da morte do autor, em 1935. Na opinião de Teresa Rita Lopes, “podemos dizer que foi o livro da vida de Pessoa: foi sendo redigido desde que retomou a nunca abandonada expressão escrita em português, no início dos anos 10, até que morreu, em 1935” (2016, p. 79). A não unidade caracteriza-se como um dos mais perturbadores aspectos do Livro, a contar da sua confecção, visto que “O livro é três livros — assinados por três autores, perfeitamente diferenciados [...] Fernando Pessoa que, a certa altura, nomeou Vicente Guedes seu representante, o Segundo pelo Barão de Teive e o Terceiro por Bernardo Soares” (LOPES, 2016, p.79). Até a pluralidade de publicações, de que “já teve mais de seis editores (Galhoz, Cunha, Quadros, Zenith, Pizarro, Lopes et al.)” (PIZARRO, 2016b, p. 290).

Consoante Jerónimo Pizarro, em artigo que discute “a problemática existente em torno das várias versões que constituem o Livro do Desassossego” (PIZARRO, 2016a, p. 11), a obra de Fernando Pessoa deve ser entendida, em sua existência, como “plural que é muitos Livro do Desassossego, visto que do Desassossego temos menos um livro do que uma realidade arquivística e que todas as tentativas de transformar essa realidade num livro único são póstumas” (PIZARRO, 2016a, p. 11). Leyla Perrone-Moisés, em prefácio para a edição brasileira de 1986, ponderou que a obra pessoana está em permanente expansão, uma vez que não foi Pessoa quem a editou6. Tal como ficou o Livro, considerou Perrone-Moisés, ele jamais terá uma forma definitiva. Em outro artigo sobre a obra pessoana, um dos seus muitos estudos sobre o poeta português, Perrone-Moisés declarou que “O verdadeiro e definitivo Livro do Desassossego nunca existiu, e não existirá jamais” (2001, p. 293), afirmação tão acertada a ponto de também ser utilizada por Jerónimo Pizarro em artigo de 2016a, anteriormente citado. Segundo esses estudiosos pessoanos, o Livro é, então, um organismo vivo, vivente em seus incontáveis formatos e sempre em evolução. O que, nas palavras de Pizarro:

temos que nos adaptar à pluralidade literária de Fernando Pessoa da mesma forma que temos que reconhecer a pluralidade editorial dos seus livros –nomeadamente do Desassossego –, visto que não é negativo, e sim extremadamente positivo, pois é um signo de vitalidade, que Pessoa seja cada dia mais múltiplo em termos de edição e de interpretação. Todo autor está destinado a multiplicar-se (a ser multiplicado) e muito mais um que se multiplicou e deixou as suas arcas para a posteridade. (PIZARRO, 2016a, p. 12).

Próximo ao ponto de vista de Pizarro, Eduardo Lourenço também acrescentou, no tocante das constantes transformações da obra ao longo das décadas e diante da dificuldade de classificação do conjunto do textos que compõem o Livro do Desassossego, que se torna quase impossível considerar a obra do poeta no sentido habitual, posto não haver uma obra, mas um “conjunto de obras-fragmentos”, cuja conexão está justamente na “manifestação de uma única e inesgotável experiência: a ausência do Eu a si mesmo e ao mundo” (LOURENÇO, 2008, p. 77). E é a partir dessa afirmação penetrante de Lourenço (2008) que me surgiu a abertura de interpretar a “ausência do Eu a si mesmo e ao mundo”, característica do Livro, como uma condição conflituosa entre o sujeito e a modernidade, em que o tédio é o sintoma mais sobressalente. Considero que o afastamento do sujeito do seu significado imediato de ser no mundo, traço tão acentuado em Bernardo Soares, encaminha-o à inevitável condição da “ausência de sentido”. O ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa não está só ausente do mundo ao seu redor, ele está ausente de si mesmo, e o tédio é traço mais pronunciado dessa sua condição.

Em se tratando de Fernando Pessoa, seria crível afirmar que o poeta deu lugar, principalmente nas páginas do Livro do Desassossego, ao sujeito moderno por excelência, que persegue o labor poético até as últimas consequências, até se despersonalizar em “outros”, até a fatalidade de “multiplicar-se (a ser multiplicado) e muito mais um que se multiplicou e deixou as suas arcas para a posteridade” (PIZARRO, 2016a, p. 12). Para além dessa imagem despersonalizada, Pessoa também incorporou o retrato do poeta crítico e questionador que, declara Jacinto do Prado Coelho, se põe diante da sua situação paradoxal provocada pela dor da “universal ignorância”. “A inteligência lembra uma varinha de condão: graças a ela, tudo o que dormia o sono do nada, incluindo o próprio Homem, acorda para a existência. Ser é ser objeto de conhecimento” (COELHO, 1969, p. 105 – grifo do autor).

Dessa “inteligência esquadrinhadora que, na clausura do eu, é vizinha impotente do caos obscuro da vida” (COELHO, 1969, p. 105 – grifo do autor), o poeta vive o paradoxo do “saber é sofrer”, um alto preço a ser pago pela lucidez. Ele – o poeta, Fernando Pessoa, Bernardo Soares – é sabedor da sua condição, do seu vazio inexpugnável e exprime a sua dor de viver através da acuidade filosófica. Georg Simmel, no seu renomado ensaio A metrópole e a vida mental (1979 [1903]), refletia que o homem metropolitano – cabe aqui entender Pessoa como esse homem metropolitano e, por conseguinte, moderno – “reage com a cabeça, ao invés de com o coração” (SIMMEL, 1979, p. 13). E ao reagir no mundo com a cabeça, “uma conscientização crescente vai assumindo a prerrogativa do psíquico. A vida metropolitana, assim, implica uma consciência elevada e uma predominância da inteligência no homem metropolitano” (SIMMEL, 1979, p. 13).

Mas é enganador pensar que essa conscientização, essa predominância da inteligência do homem metropolitano, do homem moderno e, por extensão, de Pessoa, significa insensibilidade em experimentar sentimentos. Pelo contrário, a sensibilidade manifesta-se no seu pensar filosófico e no seu fazer poético. Decerto, Fernando Pessoa foi um poeta inclinado à filosofia e atento às implicações das temáticas filosóficas na vida do sujeito, como ele mesmo chegou a afirmar: “Eu era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas. Adorava admirar a beleza das coisas, descortinar no imperceptível, através do que é diminuto, a alma poética do universo” (PESSOA, 1966, p. 14).

No processo de “descortinar no imperceptível”, a partir da atração do poeta pelas questões filosóficas relacionadas ao sujeito moderno, me deparei, no Livro do Desassossego, com a imagem de “um poeta impulsionado pela filosofia”, que se movimenta por certos conceitos filosóficos de uma intensa temática existencial – como o tédio, a modernidade, a consciência, a ausência de sentido. Essa desenvoltura de temáticas existenciais numa obra intitulada, pelo próprio poeta, como Livro de Desassossego, ultrapassa a coincidência e agarra-se na afinidade, senão intencionalidade, de Fernando Pessoa com tais questões. Daqui emana o meu objetivo de explorar o tédio como um sintoma da modernidade, resultante de uma perda de sentido do homem moderno, podendo ser observado em inúmeras passagens do Livro.

Para tanto, escolhi para este trabalho a versão on-line do Arquivo LdoD, que é um arquivo digital colaborativo do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Essa plataforma, que desfruta de confiabilidade investigativa, foi desenvolvida no âmbito do projeto de investigação “Nenhum Problema Tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego”, do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra (CLP) e financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), em cofinanciamento do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), informações descritas no próprio site7. Os motivos que me levaram a escolher a plataforma foram, ademais do seu prestígio, a possibilidade de acesso à leitura e a comparação das transcrições das quatro edições virtuais do Livro: a de Jacinto do Prado Coelho, a de Teresa Sobral Cunha, a de Richard Zenith e a de Jerónimo Pizarro.

Optei, então, pela edição digital de Richard Zenith. A escolha é justificável porque mantenho uma relação estreita com a edição impressa (2012) de Zenith, por ser indicação do mui caro professor José Carlos Seabra, na altura responsável pela cadeira de Estudos Pessoanos, na Universidade de Coimbra, a qual eu tive o privilégio de me matricular. Foi com essa edição que me aprofundei no universo extraordinariamente caótico do Livro. Sei bem, contudo, das críticas a respeito dos critérios organizacionais efetivados por Zenith nessa edição, que, segundo Pizarro, de 1998 (1.ª ed.) a 2012 (10.ª ed.), mesmo na tentativa de corrigir as suas leituras referentes às edições anteriores do Livro, Zenith decidiu “incluir e excluir fragmentos; o que é surpreendente é que o fez, quase dissimuladamente, sem nunca alterar a numeração dos trechos. Quando perdia um trecho procurava um outro para preencher o lugar” (PIZARRO, 2016, p. 22). Porém, convocando novamente Pizarro ao texto, as ações de Zenith no Livro são legítimas, visto que “a edição de Zenith não é monolítica nem estática – embora tente ser apresentada com frequência como tal – e porque, em termos teóricos, convém reiterar que os textos não são entidades abstractas” (PIZARRO, 2016, p. 23), mas sim “entidades históricas que mudam e se transformam com o tempo, e que o sentido dos textos é inseparável da sua materialidade (PIZARRO, 2016, p. 23).

Bernardo Soares e a tragédia do homem metropolitano: contexto antes do tédio

Em face do que foi exposto, encontrei, nesta edição digital do Livro, organizada por Richard Zenith, setenta ocorrências da palavra tédio8. O vocábulo está distribuído por toda a extensão da obra, e os fragmentos abordam diversas temáticas do cotidiano metropolitano do narrador-personagem Bernardo Soares. Das ruas de Lisboa, do escritório comercial em que trabalha, do seu quarto na Rua dos Douradores, Soares retira matéria para um mergulho à sua subjetividade nauseada pela vida vulgar que o cerca. Para Perrone-Moisés, a Lisboa que Soares descreve em suas perambulações é

uma cidade oprimida, de névoa, de céu carregado, povoada de pessoas vulgares e barulhentas, que se movem como fantoches, entrando em elétricos (bondes) ou saindo de tabacarias, carregando mercadorias, trabalhando em escritórios sombrios ou vivendo em casas de cômodos. (PERRONE-MOISÉS, 1986, p. 16).

A narrativa permite, através da descrição da Lisboa de Soares, ler a cidade e o próprio clima como uma alegoria da alma do ajudante de guarda livros. Como um espelho, a cidade de Lisboa e as suas intempéries climáticas refletem as angústias nauseantes do narrador-personagem, que brotam do seu mais abissal interior9. O resultado dessa falácia patética, advinda da subjetividade de Bernardo Soares, é, segundo Perrone-Moisés (1986), uma Lisboa decadente, enevoada e opressora; um espaço geográfico que também é, igualmente, um estado de alma da própria personagem. A metrópole lisboeta apresentada por Soares estabelece correlações com a constatação de Robert Ezra Park de que a “cidade é algo mais do que um amontoado de homens individuais e de conveniências sociais, ruas, edifícios, luz elétrica, linhas de bonde, telefones etc” (PARK, 1979, p. 26), a cidade é um estado de espírito, um corpo de costumes e tradições e dos sentimentos e atitudes organizados”. Assim, a metrópole está “envolvida nos processos vitais das pessoas que a compõem, é um produto da natureza e particularmente da natureza humana” (PARK, 1979, p. 26).

Em um tempo desencantado e em um espaço decadente – desconcertado, diria Camões – Bernardo Soares fragmenta-se e do seu texto irrompe essa sua inevitável condição de descentramento. De acordo com Martins (2000), vale ressaltar que, apesar de ser o fragmento, em princípio, “o produto de uma fragmentação”, ele não deve ser associado, no caso do Livro, “aquilo que é incompleto ou, de algum modo, inacabado [...] não é pouco contraditório e desarmante notar que muitos dos “fragmentos” que Pessoa deixou para o Livro do Desassossego são, de facto, poemas em prosa completos” (MARTINS, 2000, p. 220).

Na obra, juntam-se os fragmentos de Soares em meio aos “fragmentos de texto”, lembrando sempre que os “fragmentos de texto” não transmitem uma sensação de “dissonância” e de “dilaceração formal”, como bem considerou Martins (2000). Pelo contrário, pode-se muito bem relacionar essa fragmentariedade sujeito/escrita representada no Livro à análise que Simmel fez da modernidade e dos seus efeitos sociais. Conforme Frisby (2013 [1985]), tal exame simmeliano da modernidade não é o da totalidade social, mas sim o dos “fragmentos fortuitos da realidade” (the fortuitous fragments of reality). A “chave para a análise contemporânea da modernidade não está na direção de uma investigação do sistema social ou mesmo de suas instituições, mas nos ‘fios invisíveis’ (the invisible threads) da realidade social”10 (FRISBY, 2013 [1985], p. 6), nas “diversas ‘imagens momentâneas’ ou ‘instantâneos’ (Momentbilder) da vida social moderna que devem ser vistos sub specie aeternitatis (sob a forma de eternidade)”11 (FRISBY, 2013 [1985], p. 6).

E são, justamente, esses “fragmentos fortuitos”, esses “fios invisíveis” da realidade social transformados em “imagens momentâneas” que colhemos do narrar de Bernardo Soares. Ao apresentar ao leitor esses fragmentos, o ajudante de guarda-livros transmuta a angustiante narrativa em sub specie aeternitatis (sob a forma de eternidade). Os fragmentos e os fios invisíveis da realidade social de Bernardo Soares são feitos eternos quando colocados em narrativa. A condição histórica do narrador-personagem, atravessada de angústia e de cansaço, de sensações aludidas e/ou comparadas por ele como designadoras do seu estado de tédio, lançam luz aos “fios invisíveis” da realidade social vivida pelo ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa:

Levo comigo, só de ouvir estas sombras de discurso humano que é afinal o tudo em que se ocupam a maioria das vidas conscientes, um tédio de nojo, uma angústia de exílio entre aranhas e a consciência súbita do meu amarfanhamento entre gente real; a condenação de ser vizinho igual, perante o senhorio e o sítio, dos outros inquilinos do aglomerado, espreitando com nojo, por entre as grades traseiras do armazém da loja, o lixo alheio que se entulha à chuva no saguão que é a minha vida. (PESSOA, 2012, p. 312 – grifos meus)12.

O tédio... Pensar sem que se pense, com o cansaço de pensar; sentir sem que se sinta, com a angústia de sentir; não querer sem que se não queira, com a náusea de não querer — tudo isto está no tédio sem ser o tédio, nem é dele mais que uma paráfrase ou uma translação. É, na sensação directa, como se de sobre o fosso do castelo da alma se erguesse a ponte levadiça, nem restasse, entre o castelo e as terras, mais que o poder olhá-las sem as poder percorrer. Há um isolamento de nós em nós mesmos, mas um isolamento onde o que separa está estagnado como nós, água suja cercando o nosso desentendimento. (PESSOA, 2012, p. 264-265 – grifos meus).13

A teoria simmeliana da sociedade moderna é uma forte aliada quando aplicada às subjetivações que Bernardo Soares faz do trabalho, do ócio, do cansaço, do mal-estar e do estar inerte. Para Georg Simmel, em seu ensaio O conceito e a tragédia da cultura (1998), o fenômeno mais característico da modernidade ocidental é a separação entre as culturas subjetiva e objetiva. Seria a cisão entre uma e outra que dá conteúdo ao conceito de tragédia da cultura moderna. O conceito simmeliano de tragédia humana e de destino trágico alinha com o fato de que “as forças destruidoras mobilizadas contra um ser foram produzidas pelas tendências mais profundas deste mesmo ser” (SOUZA, 2005, p. 10). Tal como a metrópole e a modernidade, por exemplo, ambas criadas pelo Homem, mas que ao fim tornou-se loba do próprio Homem, devorando-o. Assim é

a própria lógica interna do ser humano uma consequência da dinâmica da sua própria estrutura, que constitui um ‘destino’ – posto que percebido pelos contemporâneos como uma fatalidade sem autor-destrutivo, repressor, estranho, produtor de infelicidade e mal-estar. (SOUZA, 2005, p. 10).

Simmel constrói uma análise que abarca os fatores estruturais constituintes da tragédia humana. Tais fatores são relacionados “aos fatos mais cotidianos dos indivíduos que vivem sobre a sua égide” (SOUZA, 2005, p. 10), e a economia monetária é um fator estruturante mais importante da modernidade. Digamos que o dinheiro é uma faca de dois gumes na vida do homem moderno, uma vez que ele proporciona liberdade, mas também demanda um contexto de obrigações. Quando nos libertamos das nossas obrigações, “temos a impressão de liberdade até que outras obrigações assumam o lugar das antigas” (SOUZA, 2005, p. 10).

Quer isso dizer que o homem moderno vive constantemente esse ciclo de liberdade e de obrigações. Daí que a prerrogativa da modernidade que visava à emancipação do homem se transforma; estático frente a essa “tragédia da cultura” em que o dinheiro é sua salvação e seu carrasco, o Homem passa a ser absorvido pela modernidade. Nessa linha de pensamento, a vida de Soares é uma espécie de testamento tragédia humana e de seu destino trágico, expressão do descentramento do sujeito moderno, da fragmentação da identidade do homem da metrópole. A narrativa do ajudante de guarda-livros pode ser lida, então, como uma não linearidade moderna, um abandono à unidade, configurando a despersonalização estética do sujeito narrador-personagem. A Lisboa onde move Bernardo Soares é um espaço narrativo em pedaços, totalizada pela sua incapacidade, ou sua preferência, de não seguir uma linha lógico-semântica de linearidade narrativa. Assim, como “um clássico Bernardo Soares rejeita o descontínuo e o mal acabado de seu Livro” (PERRONE-MOISÉS, 2001, p. 282). Porém, como “um romântico, vive a fragmentação na nostalgia da Obra. Como um moderno, deixa a sua obra como tal, em processo, em perda, em infinidade (PERRONE-MOISÉS, 2001, p. 282).

O eu moderno-metropolitano descentrado que enuncia nessa narrativa-puzzle encontra a sua expressão na fragmentação do texto como procedimento estético. Isso porque a modernidade é “um modo particular de experiência vivida dentro da sociedade moderna, que se reduz não apenas às nossas respostas internas a ela, mas também à sua incorporação em nossa vida interior”14 (FRISBY, 2013 [1985], p. 46). A narrativa de Bernardo Soares é esse modo particular de experiência vivida da modernidade, cuja “imperfeição é então assumida como projeto [...] e Bernardo Soares torna-se subitamente moderno: ‘Porque escrevo este livro? Porque reconheço-me imperfeito. Calado, seria a perfeição; escrito, imperfeiçoa-se; por isso escrevo’” (PERRONE-MOISÉS, 2001, p. 282).

Em razão disso a estética da fragmentação narrativa do ajudante de guarda-livros transparece um sujeito desassossegado, desencantado e decadente face a esse mundo em incessantes transformações. Ali, o “mundo externo torna-se parte do nosso mundo interno. Por sua vez, o elemento substantivo do mundo exterior é reduzido a um fluxo incessante e seus momentos fugazes, fragmentários e contraditórios são todos incorporados à nossa vida interior”15 (FRISBY, 2013 [1985], p. 46). Além disso, a exteriorização dessa crise existencial do sujeito moderno narrada por Bernardo Soares se condensa em fragmentos, como em um jogo de espelhos – fragmentos de narrativa, fragmentos de um sujeito, unidos em uma completude descontínua.

O sujeito moderno, o desassossego e o tédio existencial

As setenta repetições do termo tédio no Livro do Desassossego16 estão associadas aos mais variados significados. Ao passo que a leitura avançou, a convicção de que o tédio se fixou como a mais recorrente sensação da personagem e, sem dúvidas, o sentimento mais inquietante e mais elevado das aflições de Bernardo Soares aumentou. Selecionei para a discussão dois dos significados mais pujantes que estão manifestadamente relacionadas ao tédio, em íntima relação com a modernidade. As duas sensações selecionadas foram o cansaço e o mal-estar, que ora estão aludidas ora comparadas ao tédio.

Bernardo Soares emprega esses dois estados como uma tentativa de compreender as sensações conflitantes por si sentidas. A proximidade dessas duas perturbações se estabelece porque ambas podem ser lidas como sintomas que acometem o sujeito moderno, em que o tédio se converte na sensação mor do – e no – desassossego. Para compreender como o tédio significa mais do que um estado de espírito de Bernardo Soares, diretamente proporcional à sua condição de ser e estar no mundo, falarei de cada uma dessas sensações e das suas comutabilidades com o tédio e com a modernidade. A fim de decifrar o tédio em seu cerne, bem como Bernardo Soares o assimila ao cansaço e ao mal-estar, amparo-me, nesta parte, no filósofo norueguês Lars Svendsen.

Para Lars Svendsen, em Filosofia do tédio (2006 [1999]), não há uma concepção definida de tédio; são poucos os que dele têm um conceito bem fundamentado. Ainda assim, é consensual que o tédio passou a ser um fenômeno cultural, visto que afeta o Homem numa situação histórica particular. Se o tédio afeta o Homem, enquanto sujeito universal, em uma situação histórica particular, por isso mesmo considerado um fator cultural, é porque ele “se destaca como fenômeno típico da modernidade” (SVENDSEN, 2006, p. 12). No Livro do Desassossego, o tédio se corporifica como uma das principais e mais marcantes naturezas psicológicas de Bernardo Soares, como já foi mencionado. Apesar de o narrador-personagem possuir plena consciência dessa sensação de angústia, de agonia, de ansiedade, de anseio, de desolação, de desconforto e de perturbação que lhe causam sofrimento mental e físico, ele não consegue conceber a sua causa-fonte.

Reduzido a tal impasse, Bernardo Soares busca outras sensações conhecidas na tentativa de estabelecer um paralelo entre o seu estado sentimental momentâneo e a sua complexa condição existencial de homem metropolitano. O mal-estar é um desses estados sentimentais transitórios trazidos à luz por Soares para dar aspecto ao seu tédio. Porém, o narrador-personagem falha em conseguir identificar a fonte de seu “mal-estar”, se do corpo ou da alma, se é a futilidade da vida ou se é “qualquer abismo orgânico” que atinge os seus órgãos internos:

Há mágoas íntimas que não sabemos distinguir, por o que contêm de subtil e de infiltrado, se são da alma ou do corpo, se são o mal-estar de se estar sentindo a futilidade da vida, se são a má disposição que vem de qualquer abismo orgânico — estômago, fígado ou cérebro. Quantas vezes se me tolda a consciência vulgar de mim mesmo, num sedimento torvo de estagnação inquieta! Quantas vezes me dói existir, numa náusea a tal ponto incerta que não sei distinguir se é um tédio, se um prenúncio de vómito! Quantas vezes...

Minha alma está hoje triste até ao corpo. Todo eu me doo, memória, olhos e braços. Há como que um reumatismo em tudo quanto sou. Não me influi no ser a clareza límpida do dia, céu de grande azul puro, maré alta parada de luz difusa. Não me abranda nada o leve sopro fresco, outonal como se o estio não esquecesse, com que o ar tem personalidade. Nada me é nada. Estou triste, mas não com uma tristeza definida, nem sequer com uma tristeza indefinida. Estou triste ali fora, na rua juncada de caixotes. (PESSOA, 2012, p. 400-401 – grifos meus).17

Esse “mal-estar”, essa “náusea” sentida por ele, “a tal ponto incerta”, não revela a sua causa, o motivo de se ter instalado tão profundamente em seu Ser. A dor de existir se infiltra no mais abissal de sua alma, a ponto de suscitar sensações físicas: “Há como que um reumatismo em tudo quanto sou”. A mortificação atinge tamanha proporção, que Bernardo Soares não sabe distinguir se é “um tédio” ou um “prenúncio de vômito” originado do seu mal-estar existencial. Leio esse “prenúncio de vômito”, decorrente da “náusea” e do “mal-estar”, como um reflexo do corpo, a contrair músculos e estômago, para expulsar aquilo que intoxica sua alma; uma vacuidade em que “Nada me é nada. Estou triste, mas não com uma tristeza definida, nem sequer com uma tristeza indefinida” (PESSOA, 2012, p. 400-401).

Descrito pelo narrador-personagem como “moléstia da alma”, o tédio é definido por ele como

uma doença de inertes, ou que ataca só os que nada têm que fazer. Essa moléstia da alma é porém mais subtil: ataca os que têm disposição para ela, e poupa menos os que trabalham, ou fingem que trabalham (o que para o caso é o mesmo) que os inertes deveras. (PESSOA, 2012, p. 397-398).

Em termos histórico-filosóficos, por muito tempo o tédio foi “um símbolo de status, como prerrogativa dos escalões superiores da sociedade, uma vez que estes eram os únicos que possuíam a base material necessária para ele” (SVENDSEN, 2006, p. 22). Porém, o fenômeno deixa de ser exclusividade dos abastados e se imiscui em todas as camadas sociais, da nobreza ao proletariado, o que fica expresso na alegação de Soares de que o tédio “poupa menos os que trabalham, ou fingem que trabalham” (PESSOA, 2012, p. 397-398). De acordo com Svendsen (2006), com as transformações decorrentes da modernidade e todos os fatores culturais e sociais emergentes dessa nova ordem, o tédio cresce em volume e assume formas assombrosas. Esse fator inegável, que relaciona o tédio como uma sintomática do Homem moderno, me redireciona a outra sensação que vem, por vezes, alinhavada ao sentimento de tédio, que é o cansaço.

O efeito de cansar-se, este estado de fadiga provocado menos pelo esforço físico de Bernardo Soares do que pelo esgotamento mental, é provocado por uma doença da alma, a moléstia que consome todo o Existir desse ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa. Isso me faz recorrer novamente a Lars Svendsen, que afirma que o tédio é um “privilégio” do homem moderno e que, sem dúvidas, ele se materializa em Bernardo Soares através de todo um conjunto de eixos axiológicos subjacentes à sua condição:

Quantas vezes ergo do livro onde estou escrevendo o que trabalho a cabeça vazia de todo o mundo! Mais me valera estar inerte, sem fazer nada, sem ter que fazer nada, porque esse tédio, ainda que real, ao menos o gozaria. No meu tédio presente não há repouso, nem nobreza, nem bem-estar em que haja mal-estar: há um apagamento enorme de todos os gestos feitos, não um cansaço virtual dos gestos por não fazer. (PESSOA, 2012, p. 397-398 – grifos meus)18.

Em consonância com a afirmação de Svendsen (2006) de que o tédio é um fenômeno moderno, que deixou de ser exclusividade das classes sociais mais abastadas, o fragmento anterior do Livro do Desassossego oportuniza também essa leitura. Principalmente ao se considerar que o cansaço sentido por Bernardo Soares, no esforço de caracterizar o seu tédio, pode fluir também da sua posição proletária, em que inúmeras “vezes ergo do livro onde estou escrevendo o que trabalho a cabeça vazia de todo o mundo!” (PESSOA, 2012, p. 397-398). Aqui o tédio sobressai como uma sintomática do moderno, arraigado à relação que o homem metropolitano, neste caso, Bernardo Soares, mantém com o trabalho. Mais uma vez me amparo em Simmel (1998 [1896]), em seu ensaio O dinheiro na cultura moderna, com o objetivo de entender o narrado por Soares. Explica o sociólogo que o pagamento em dinheiro promove a divisão de trabalho, uma vez que, normalmente, só se paga em dinheiro para um desempenho especializado. Mas paga-se apenas o equivalente monetário abstrato sem qualidade corresponde exclusivamente ao produto objetivo singular, que é desligado da personalidade do produtor. O desligamento da personalidade do produtor, estabelecendo um vínculo impessoal (“estou escrevendo o que trabalho a cabeça vazia de todo o mundo”), faz com que, por um lado, o dinheiro liberte, porém, por outro, o trabalho imponha uma obrigação. É dessa tensão entre trabalho e obrigação, segundo Simmel (1998 [1896]), que o desempenho pelo dinheiro provoca uma opressão.

Ao assegurar que no seu tédio não há “nobreza”, julgo que Bernardo Soares se refere a um tédio “real”, próprio do sujeito moderno metropolitano, que o mergulha em um enorme “apagamento”, uma obrigação imposta pelo trabalho objetivo singular e pela opressão do dinheiro. No excerto citado, o narrador-personagem fala de dois tédios que o consomem; diz, ainda, qual dos dois ele preferia sentir. O primeiro tipo de tédio parece-me mais banal, mais fácil de entender; poderia até mesmo causar algum prazer àquele que o sentisse. Distingue-se isso na frase: “Mais me valera estar inerte, sem fazer nada, sem ter que fazer nada” (2012, p. 397-398), desobrigado do trabalho e da submissão que o dinheiro traz. Para Soares, antes sentir esse tédio, que é muito próximo ao ócio, do que o “outro”, que é mais ameaçador, mais profundo: “porque esse tédio [o do ócio], ainda que real, ao menos o gozaria” (2012, p. 397-398 – acréscimo meu).

Afinal, Bernardo Soares descreve essa sensação perturbadora que se fixa entre esses dois tipos de tédio depois de um dia extenuante às voltas com os números, a levantar e a abaixar a cabeça dos livros. Inclusive, ele se refere a isso mais de uma vez na obra, no qual ele é consumido por um cansaço que ultrapassa os limites das suas ações físicas. O tédio pode muito bem fluir dessa imposição da obrigatoriedade do trabalho, da sujeição de Bernardo Soares provocada no seu desempenho pelo dinheiro (SIMMEL, 1998 [1896]). Neste fragmento, por exemplo, o narrador diz que, ao cumprir àquilo que “os moralistas” chamam de seu “dever social”, ele é aniquilado pelo tédio:

O tédio... Trabalho bastante. Cumpro o que os moralistas da acção chamariam o meu dever social. Cumpro esse dever, ou essa sorte, sem grande esforço nem notável desinteligência. Mas, umas vezes em pleno trabalho, outras vezes, no pleno descanso que, segundo os mesmos moralistas, mereço e me deve ser grato, transborda-se-me a alma de um fel de inércia, e estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim. (PESSOA, 2012, p. 264-265)19.

Há de-se levar em conta, pensando nesse sujeito moderno, que o trabalho, o relógio, a produção mecânica dos processos de trabalho passam a fazer parte da sua lógica de vida. E essa lógica moderna trabalho-dinheiro provoca um “forte individualismo”, que isola o sujeito em si, que aliena e distancia os homens, reduzindo-os a si próprios (SIMMEL, 1998 [1896]), quando não os reduzindo a nada (“estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim” / “isso mesmo “transborda-se-me a alma de um fel de inércia, e estou cansado, não da obra ou do repouso, mas de mim”) (PESSOA, 2012, p. 264-265). O tédio também está ali, na “técnica da vida metropolitana e inimaginável sem a mais pontual integração de todas as atividades e relações mútuas em um calendário estável e impessoal” (SIMMEL, 1973, p. 15). Georg Simmel considera ainda:

Pontualidade, calculabilidade, exatidão, são introduzidas à força na vida pela complexidade e extensão da existência metropolitana e não estão apenas muito intimamente ligadas a sua economia do dinheiro e caráter intelectua1istico. Tais traços também devem colorir o conteúdo da vida e favorecer a exclusão daqueles traços e impulsos irracionais, instintivos, soberanos que visam determinar o modo de vida de dentro, ao invés de receber a forma de vida geral e precisamente esquematizada de fora. (SIMMEL, 1973, p. 15).

Pela descrição de Soares, o tédio de “estar inerte” em seu ofício remunerado também se assemelha àquilo que Lars Svendsen denominou “tédio situacional”, “que sentimos ao esperar alguém, ao ouvir uma conferência ou ao tomar o trem; o tédio da saciedade, quando obtemos demais da mesma coisa e tudo se torna banal” (2006, p. 44). Já o segundo tédio mencionado no fragmento pode ser entendido como o “tédio existencial” ou “tédio moderno”, que é o tédio mais experienciado pela personagem. Contrário ao “tédio situacional”, o “tédio existencial”, que acomete insistentemente o ajudante de guarda-livros, provêm de uma sensação que o desassossega e o afunda tamanha a sua violência: “No meu tédio presente não há repouso, nem nobreza, nem bem-estar em que haja mal-estar: há um apagamento enorme de todos os gestos feitos, não um cansaço virtual dos gestos por não fazer” (PESSOA, 2012, p. 397-398)20. Svendsen (2006) argumentou que, apesar de o tédio ser amorfo no seu sentido mais íntimo, algumas descrições, quando minuciosas, nos permitem vislumbrar a intensidade e a duração do sentimento entediante:

Podemos observar que o tédio situacional e o existencial têm diferentes modos simbólicos de expressão, ou melhor: enquanto expressamos o tédio situacional através de um bocejo, remexendo-nos na cadeira, esticando os braços e as pernas, o tédio existencial profundo é mais ou menos desprovido de expressão. Enquanto a linguagem corporal do tédio situacional parece indicar que podemos abandonar a submissão, nos desvencilhar e seguir adiante, no tédio existencial é como se a falta de expressão contivesse a intuição implícita de que ele não pode ser superado por nenhum ato de vontade. (SVENDSEN, 2006, p. 45).

Aqui se estabelece as diferenças principais entre o tédio situacional e o tédio existencial: enquanto um pode durar uma situação, é possível que o outro perdure por toda uma existência. Por isso a incapacidade do sujeito de superá-lo. Descentrado em sua profunda subjetivação, o tédio de Soares é, propriamente, o “tédio moderno”, “no sentido de que afeta a existência [...] como um todo” (SVENDSEN, 2006, p. 44-45). A condição existencial de Soares toma corpo à medida que ele verbaliza a sua completa falta de sentido, um esvaziar de si, um “viver-sem”, uma sensação indefinível que o abate:

Vem isto tudo, que vai dito como vai sentido, a propósito do grande cansaço, aparentemente sem causa, que desceu hoje súbito sobre mim. Estou não só cansado, mas amargurado, e a amargura é incógnita também. Estou, de angustiado, à beira de lágrimas - não de lágrimas que se choram, mas que se reprimem, lágrimas de uma doença da alma, que não de uma dor sensível. (PESSOA, 2012, p. 343-344 – destaque meu).21

O que desafia Bernardo Soares em seu grande cansaço – mais amplamente, o sujeito moderno – é o dar-se conta desse vazio de sentidos. Como Svendsen, entendo que o tédio pode ser compreendido como um desconforto comunicacional, no qual a necessidade de significado não está sendo preenchida de todo. O filósofo norueguês ainda considera que o vazio do “eu” desassossegado é um vazio do tempo, um vazio de sentido que não pode achar sua completude em um mundo caótico, uma vez que o homem moderno não encontra totalidade naquilo que a modernidade tem a oferecer: uma vida desprovida de significados, estabelecida através de relações sociais conflituosas e/ou provisórias e não totalizantes. Melhor dizendo: “Uma sociedade que funcione bem promove a capacidade do homem de encontrar significado no mundo; uma que funcione mal não o faz” (SVENDSEN, 2006, p. 32). Há, pois, no tédio existencial de Bernardo Soares uma vulnerabilidade por não saber o que lhe causou tal condição e um desmedido ceticismo quanto à solução:

Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me devagar da cama sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum.

Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu coração batia como se soluçasse. (PESSOA, 2012, p. 130-131—grifos meus).22

Ao despertar, “sob o estrangulamento de um tédio incompreensível”, Soares se vê dominado por “uma náusea física da vida inteira”, “um horror a ter que viver” e uma “impressão fria de que não há solução para problema algum” levanta-se com ele. A sensação de sufocamento se intensifica pela agressividade do testemunho: “No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito” (2012, p. 130-131). O tédio de Bernardo Soares é amorfo, visto que ele não consegue identificar a fonte do seu desassossego, ou melhor, as fontes de seus desassossegos, porque é preciso levar em consideração que no Livro o narrador-personagem é perturbado por inúmeras sensações desassossegantes. Sendo assim, ele conclui: “Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito”. Era, unicamente, “um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa” (2012, p. 130-131).

A indiferenciação das causas do tédio não muda o fato de que, quando se lida com uma condição existencial, o sujeito não possui as forças necessárias para sanar o seu mal, ou seja, ele não se conforma à lógica e ao ritmo moderno. “Os problemas mais graves da vida moderna derivam da reivindicação que faz o indivíduo de preservar a autonomia e individualidade de sua existência em face das esmagadoras forças sociais, da herança histórica, da cultura externa e da técnica de vida” (SIMMEL, 1973, p. 11). Diante disso, o Homem entediado é aquele que reclama significado nele próprio e no mundo, apontou Svendsen (2006). No momento em que não encontra esse sentido na sua relação com o mundo exterior, o tédio se converte no mais alto grau de sua aflição, revelando-se como o sintoma mais tumultuoso da relação problemática entre o “eu” e o mundo exterior, entre o sujeito e o mundo desencantado. Por conseguinte, o tédio existencial de Bernardo Soares é a expressão maior da ausência de significado do sujeito. Certamente, algumas situações cotidianas podem vir a intensificar o tédio, como é o caso do seu trabalho e o desgosto pela vida:

Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar. (PESSOA, 2012, p. 136).23

A condição necessária do trabalho na vida do Homem moderno impõe ao narrador-personagem uma “ausência de vida própria”. A náusea física descrita por ele adquire contornos ambíguos. Em uma leitura mais atenta, o sentido da frase “eu me curvar” para o “livro das contas alheias”, pode ser lida tanto literalmente quanto metaforicamente. Primeiro, o sujeito se curva, literalmente, para ler os números dos livros. Segundo, ele se curva para a imposição social de trabalho que lhe rouba a vida, o tempo, a energia, o sono e que lhe oferece apenas uma esmola para a sua subsistência. Servil a essa conjuntura do sistema monetário moderno, Bernardo Soares vislumbra a facilidade de sair da sua condição inautêntica: “eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio”. Não obstante, ele tem plena consciência de que não possui forças para se afastar: “se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar” (2012, p. 136).

O tédio exerce uma força de atração sobre o sujeito moderno; essa força de atração entre um e outro é tão intensa porque ambos possuem um ponto em comum que os atrai, que é o mundo moderno. Mas o tédio pode, assim como o comportamento blasé, ser entendido como um modo/estratégia de preservação à vertigem moderna, tal como avalia Georg Simmel:

Não há talvez fenômeno psíquico que tenha sido tão incondicionalmente reservado a metrópole quanta a atitude blasé. A atitude blasé resulta em primeiro lugar dos estímulos contrastantes que, em rápidas mudanças e compressão concentrada, são impostos aos nervos. Disto também parece originalmente jorrar a intensificação da intelectualidade metropolitana [...] Uma vida em perseguição desregrada ao prazer torna uma•pessoa blasé porque agita os nervos até seu ponto de mais forte reatividade por um tempo tão longo que eles finalmente cessam completamente de reagir. Da mesma forma, através da rapidez e contraditoriedade de suas mudanças, impressões menos ofensivas forram reações tão violentas, estirando os nervos tão brutalmente em uma e outra direção, que suas últimas reservas são gastas; e, se a pessoa permanece no mesmo meio, eles não dispõem de tempo para recuperar a força. Surge assim a incapacidade de reagir a novas sensações com a energia apropriada. (SIMMEL, 1983, p. 15-16).

A experiência moderna legou à humanidade significativas transformações no âmbito de toda a estrutura econômica, social e cultural. A nova forma de vida, em profunda transformação, foi responsável por uma nova ordem artística, que modificou radicalmente a sensibilidade do poeta. A situação social e cultural de Bernardo Soares permite afirmar que ele é um homem de seu tempo: “um português da virada do século, imbuído do sentimento da decadência e cético diante dos acontecimentos políticos contemporâneos” (PERRONE-MOISÉS, 1986, p. 19), portanto, atravessado pela “desunidade” do mundo moderno. A infinidade de novas experiências, todo o acesso que o sujeito pôde ter às forças industriais, os incontáveis avanços no campo da ciência, a descoberta do inconsciente por Freud, em suma, todo o “processo de modernização” que “se expande a ponto de abarcar o mundo todo” (BERMAN, 2007, p. 26), também foram responsáveis pelo extenso descentramento do sujeito, perturbando-o profundamente. “O problema é que, cada vez mais, a tecnologia moderna nos torna consumidores e observadores passivos, e cada vez menos participantes ativos. Isso dá um déficit de significado” (SVENDSEN, 2006, p. 30).

O ambiente moderno engendrou uma reação adversa de desassossego, a qual se manifestou através da perda de sentido, do devaneio, da subjetivação da realidade e do tédio: “Mas o que fica de sentir tudo isto é com certeza um desgosto da vida e de todos os seus gestos, um cansaço antecipado dos desejos e de todos os seus modos, um desgosto anónimo de todos os sentimentos” (PESSOA, 2012, p. 206-207)24. A modernidade tornou a vida e a alma do narrador-personagem do Livro do Desassossego “oca”, “um caos de coisas nenhumas”, convertendo-o à impossibilidade de ser qualquer coisa além de um sujeito entediado: “Nestas horas de mágoa subtil, torna-se-nos impossível, até em sonho, ser amante, ser herói, ser feliz. Tudo isso está vazio, até na ideia do que é” (PESSOA, 2012, p. 206-207)25. Já a hostilidade e o desencantamento do mundo subordinaram-no ao vazio: “Tudo isso está dito em outra linguagem, para nós incompreensível, meros sons de sílabas sem forma no entendimento. A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. Todos os deuses morrem de uma morte maior que a morte. Tudo está mais vazio que o vácuo. É tudo um caos de coisas nenhumas” (PESSOA, 2012, p. 206-207 – grifos meus)26.

Bernardo Soares é reduzido ao nada, dono apenas de uma não existência: “Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça” (PESSOA, 2012, p. 203-205).27

O ajudante de guarda-livros se vê despojado de sua segurança no mundo – se é que já a teve em sua existência – descrente da razão positivista, cético do mundo por ele habitado, avesso às pessoas vulgares, à rotina ordinária dos operários e, como prognosticou György Lukács sobre o herói do romance, abandonado por Deus em um mundo caótico, ele culpa a sua falta de mitologia por sua condição:

O tédio... Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dúvida é impossível, até o cepticismo não tem força para desconfiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade. (PESSOA, 2012, p. 264-265).28

Identifico que o tédio, no Livro do Desassossego, é paradoxal, ora está atrelado à falta: à falta de Deuses, à falta de uma mitologia, à falta de crenças, ora está relacionado ao sobejo: da angústia, da dor, do horror, do aborrecimento, do medo e do próprio tédio. Na exiguidade de significados, Bernardo Soares “busca valores que possam regenerar esse mundo que ele considera em decadência” (PERRONE-MOISÉS, 1986, p. 19). As saídas desse mundo profanado e profanador, acredita ele, só podem ocorrer pelas vias da arte e da subjetivação:

Mesmo que eu quisesse criar,

A única arte verdadeira é a da construção. Mas o meio moderno torna impossível o aparecimento de qualidades de construção no espírito.

Por isso se desenvolveu a ciência. A única coisa em que há construção, hoje, é uma máquina; o único argumento em que há encadeamento o de uma demonstração matemática.

O poder de criar precisa de ponto de apoio, da muleta da realidade. (PESSOA, 2012, p. 248 – grifos do autor).29

A impossibilidade de construção do espírito, diagnosticada anteriormente por Soares, é reflexo da carência de sentidos do sujeito no mundo moderno, no qual o “eu” perde a sua identidade unificada e cai em um vazio que considera infinito. A consequência da incapacidade de o espírito frutificar foi, como bem diagnostica o ajudante de guarda-livros, o desenvolvimento da ciência e o domínio da máquina. Em um mundo em que a humanidade perde o seu significado humanizante, o maquinário prospera. Em razão disso, mal-estar e o cansaço podem ser entendidos como um indicativo da insuficiência sincrônica entre o “eu” e o mundo exterior; outra tentativa recorrente de Bernardo Soares de buscar nas sensações conhecidas um paralelo com o seu tédio moderno:

O meu tédio assume aspectos de horror; o meu aborrecimento é um medo. O meu suor não é frio, mas é fria a minha consciência do meu suor. Não há mal estar físico, salvo que o mal-estar da alma é tão grande que passa pelos poros do corpo e o inunda a ele também. (PESSOA, 2012, p. 198-199).30

Considerações Finais

O que ficou analisado até aqui foi que Bernardo Soares recorreu a diversas sensações de modo a situar o seu tédio. Há um complexo jogo de atravessamentos, de estágios das sensações, que se fazem perceber pelo leitor. Uma tentativa de separar e catalogar sensações de Bernardo Soares em primárias e secundárias cairia em um tratamento reducionista do Livro do Desassossego, uma vez que não é possível estabelecer uma origem primordial do tédio sentido pelo narrador-personagem. Ao invés de classificar o tédio de Bernardo Soares, apontei, no decorrer do artigo, as suas causas: o trabalho, o dinheiro, a opressão, o vazio, o ócio, o cansaço e o estar inerte diante de um mundo desencantado. Todas as sensações foram lidas como sintomas ora assimilados, ora comparados ao tédio experienciado por Bernardo Soares. O tédio existencial do ajudante de guarda-livros está intimamente vinculado à sua condição de sujeito moderno metropolitano. Tal constatação permitiu uma aproximação da modernidade a partir da experiência do indivíduo cultivada na teoria simmeliana.

Então, se o tédio é um sintoma da modernidade, não seria essas sensações sintomas do tédio? O cansaço e o mal-estar são, no Livro do Desassossego, mais que sensações, são tentativas de compreensão levantadas pelo narrador-personagem para fundamentar a sua existência. O tédio de Bernardo Soares se vale de outras nuances para existir. Ele é um tédio sem forma e sem objeto, mas de origem existencial, podendo ser relacionado, mas não classificado, de “tédio moderno”, segundo a teoria de Lars Svendsen, em Filosofia do tédio. A origem do tédio, certamente, tem as suas raízes nas incessantes mudanças culturais e na condição desamparada do indivíduo moderno em um mundo desconcertado. O “eu” “se encontra num mundo desconhecido, ele mesmo, parte deste mundo, incompreensível e incapaz de se compreender” (WEIL, 2012, p. 289). Ou ainda, como apontou Georg Simmel:

Na medida em que o indivíduo submetido a esta forma de existência tem de chegar a termos com ela inteiramente por si mesmo, sua autopreservação em face da cidade grande exige dele um comportamento de natureza social não menos negativo. Essa atitude mental dos metropolitanos um para com o outro, podemos chamar, a partir de um ponto de vista formal, de reserva. (1983, p. 17).

A condição da existência do sujeito no “mundo desencantado” firma a sua base nos seus modos de sobrevivência: em seu trabalho, em suas obrigações sociais, em sua casa de um só cômodo, em sua solidão. O Homem moderno só vive enquanto engrenagem de todo o mecanismo social; ele é só mais uma peça que permite todo o funcionamento da estrutura monetária moderna. Mundo e sujeito se tornam proporcionalmente insuficientes, desligados, como julgou Eric Weil, o indivíduo na modernidade “só tem condições, e cada condição é de novo condicionada” (WEIL, 2012, p. 289) e, aqui, “a questão do sentido não tem sentido” (WEIL, 2012, p. 291). Por isso mesmo é que o tédio existencial envolve a perda de significado, uma aflição grave infligida àquele que foi condicionado a ela. Essa perda de sentidos e o tédio experienciado por Bernardo Soares estão conectados, em suas várias tonalidades, à tragédia da cultura moderna.

Referências

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SOUZA, Jessé. (1998). A crítica do mundo moderno em Georg Simmel. In: SOUZA; Jessé; ÖEIZE, Berthold (Orgs.). Simmel e a modernidade. Tradução de Jessé Sousa, Berthold Öeize [et. Al.]. Brasília: Editora UnB, p. 9-20.

SVENDSEN, Lars. (2006 [1999]). Filosofia do Tédio. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

WEIL, Eric. (2012) Lógica da filosofia. Tradução de Lara Christina de Malimpensa. São Paulo: Editora É Realizações.

Notas

1 O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 e está vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Maria.
3 LOURENÇO, Eduardo. Fernando Pessoa, rei da nossa Baviera. Lisboa: Gradiva, 2008, p. 77.
4 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr052/inter/Fr052_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 15 jul. 2020.
6 A respeito das complexas questões de edição do Livro do Desassossego, reporto-me ao estudo de Fernando Cabral Martins, “Editar Bernardo Soares” (2000). Ou ainda, Jerónimo Pizarro, “A ansiedade da unidade: uma teoria da edição” (2016). Disponível em: <https://oajournals.fupress.net/index.php/bsfm-lea/article/view/7716/7714>.
7 Portela, Manuel e António Rito Silva, orgs. (2017). Arquivo LdoD: Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Disponível em: <https://ldod.uc.pt/>. Acesso em: 17 de ago. 2021.
8 Há dê-se considerar que as repetições do termo “tédio”, no Livro, podem variar acerca dos editores e das edições – inclusive a mudança de suporte de leitura. Mesmo sofrendo variações, a recorrência da palavra não deixa de ter um volume considerável, independente da edição. Sobre as diferenças de edições do Livro consultar: PIZARRO, Jerónimo. Os muitos desassossegos. Revista do CESP, Belo Horizonte, v. 36, n. 55, 2016, p. 11-27.
9 A respeito da convulsão existencial de Bernardo Soares, consultar José Gil, Fernando Pessoa, ou a metafísica das sensações (1987).
10 Tradução minha do original em inglês.
11 Tradução minha do original em inglês.
12 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr033/inter/Fr033_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
13 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr234/inter/Fr234_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
14 Tradução minha do original em inglês.
15 Tradução minha do original em inglês.
16 A quantidade referencial ao termo “tédio” pode variar de edição para edição. As setenta ocorrências do termo a que me refito dizem respeito à edição on-line do Livro, impressa em 2012, cuja seleção e organização é de Richard Zenith. Para mais informações, está disponível em: <https://ldod.uc.pt/edition/acronym/RZ>. Acesso em: 17 ago. 2021.
17 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr269/inter/Fr269_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
18 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr270/inter/Fr270_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
19 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr234/inter/Fr234_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
20 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr270/inter/Fr270_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
21 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr224/inter/Fr224_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
22 Disponível em:<https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr049/inter/Fr049_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
23 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr079/inter/Fr079_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
24 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr116/inter/Fr116_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
25 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr116/inter/Fr116_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
26 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr116/inter/Fr116_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
27 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr115/inter/Fr115_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
28 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr234/inter/Fr234_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
29 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr384/inter/Fr384_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.
30 Disponível em: <https://ldod.uc.pt/fragments/fragment/Fr111/inter/Fr111_WIT_ED_CRIT_Z>. Acesso em: 18 jul. 2020.


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