Secciones
Referencias
Resumen
Servicios
Buscar
Fuente


João do Rio e a cidade do Rio de Janeiro em movimento: os andares, as lacunas, as contradições e os embates numa metrópole que se quer moderna
João do Rio and the City of do Rio de Janeiro in Movement: The Walks, the Gaps, the Contradictions and the Conflicts in a Metropolis That Aspires to Be Modern
Interseções: Revista de Estudos Interdisciplinares, vol. 26, no. 1, pp. 1-31, 2024
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais

Dossiê


Received: 15 May 2024

Accepted: 15 June 2024

DOI: https://doi.org/10.12957/irei.2024.88130

Resumo: Este artigo discute os modos de recepção da obra de João do Rio na relação que ela estabelece com a cidade e na maneira de entender suas ações como pedestre na cidade, revelando o que está por trás da modernização iniciada nos primeiros anos do século XX e, com isso, produzindo um conjunto de estudos/ensaios na forma de crônicas, contos, teatro e crítica, e a recepção crítica feita a ele e a sua obra, por intermédio dos que reconheciam nele alguém perigoso que precisava ser eliminado da história da cidade do Rio de Janeiro, provocando a sua morte em 1921.

Palavras-chave: João do Rio, cidade do Rio de Janeiro, Neves-Manta, Antonio Torres, cidade moderna.

Abstract: This article discusses the ways of receiving João do Rio’s work in the relatoins it establishes with the city and in the way of understanding his actions as a pedestrian in the city, revealing what is behind the modernization initiated in the early years of tentieth century and thus produzing a set of studies/essas in the form of chronicles, short stories, theather and criticismo and the critical reception given to him and his work, through those who reconignized im him someone dangerous who needed to be eliminated from the history of the city of Rio de Janeiro, causing his death in 1921.

Keywords: João do Rio, City of Rio de Janeiro, Neves-Manta, Antonio Torres, Modern City.

Apresentação

De saída, quero afirmar que o que será lido aqui é fruto de um deslumbramento com os dois personagens do título. Eles habitam a minha vida faz tempo. Peço, no entanto, que não se preocupem e não fechem as páginas que estão a seguir. O deslumbramento não é perigoso e nem contagioso. Ele decorreu não só da leitura da obra de João do Rio, mas do método crítico que ele anunciou, que me fez aproveitar melhor meus andares de pedestre pela cidade do Rio de Janeiro.

Esse modo de andar proposto pelo poeta-historiador acarretou meu gosto radical para compreender o movimento da cidade que, por ter sido por tanto tempo capital, demorou a receber a atenção que devia. Por ter sido capital, os estudos sobre a sua história como cidade só se desenvolveram mais sistematicamente, para além dos memorialistas, no fim da década de 1970, a razão apreendida, inclusive, no interior das universidades vinculava-se à ideia de que, se a cidade foi por tanto tempo capital, a história do Brasil já narrava a história da cidade.

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro foi e continua sendo a única cujo currículo tem uma disciplina obrigatória sobre a cidade e o Estado do Rio de Janeiro, mas em outras universidades da região são disciplinas optativas e eletivas que dão contam das questões mais ligadas às especificidades da cidade e do Estado do Rio de Janeiro.

Isso me fez ver através de João do Rio que a cidade possui uma história que é paralela e autônoma à da capital Rio de Janeiro, e o poeta-historiador se tornou guia de minhas descobertas das diferenças entre cidade e capital, daí o deslumbramento pelos dois. Entretanto, devo chamar atenção para uma questão que pode desagradar a alguns leitores e alegrar a outros. No fundo, não é apenas uma questão, mas um conjunto de questões. João do Rio e a cidade do Rio de Janeiro têm praticamente a mesma sina. Ambos os personagens são ou foram extremamente cosmopolitas e, com isso, compreendidos como convencidos, superiores ou “narizes empinados”. A soberba, diziam todos, era a marca de ambos. Daí tantas desatenções com a cidade e tantas críticas a João do Rio.

Penso que essa má compreensão venha exatamente da confusão entre cidade e capital ou do jeito de ser dos cariocas ou mesmo do receio da arrogância crítica expressa pela história de João do Rio e da cidade do Rio de Janeiro. A recepção da história da cidade e da vida e obra de João do Rio foi marcada pelo deslumbramento para o bem e para o mal. Explico. Qualquer que seja o modo de interpretar os dois personagens, ele resulta de amor ou de ódio, que podem ser resumidos em deslumbramento para manter a conversa.

Essa condição, de um lado, é filha da frivolidade, que anuncia o despudor e a soberba, que remetem para a simplificação, para o instinto, para aspectos genéricos e pobres que invejam os dois personagens que cresceram se desenvolveram e alcançaram um lugar especial. De outro lado, os estudos sérios realizados permitiram narrar a história de uma cidade do Rio de Janeiro que foi a única cidade portuguesa na América Atlântica que resultou de uma guerra, que juntou os daqui e os de lá (europeus). Saída da luta, o sangue marcou o seu chão e deu-lhe a chance de crescer fora da ação da capital da Colônia – Salvador.

Em busca de uma cidade leal e heroica

Trilhou um caminho penoso até se definir como “cidade de colonos” e transformar-se num exemplo que colocava em xeque o poderio português, mostrando-se como crítica da forma de desenvolvimento mercantil, ao assumir a função de cidade no sentido clássico com duas portas: uma aberta para o Atlântico e outra para o interior/sertão. Produção e circulação deram a ela a condição de maior autonomia e assim capaz de ser a cidade aberta para o mundo, chegando à região do Rio da Prata antes do fim do século XVI, e adquirir a condição de ser a cidade possuidora de colônias, uma em Laguna e outra em Sacramento, no tempo da União Ibérica. Mas não ficou por aí, alcançou o outro lado do Atlântico chegando a Angola e entrando em direção à Índia. Nesse circuito, fez-se rainha do tráfico negreiro, manchando sua história, mas transformaram-se com o tempo os africanos em gente carioca, levando às últimas consequências as lutas pela liberdade.

Outro deslumbramento veio pela sua natureza que funcionou para a cidade como catalisador de sua beleza e produziu dois modos distintos de vê-la. Só como natureza, principalmente nos anos 1920, retirando-lhe toda a cultura e a história, transformando-a em simples lugar de areias brancas e montanhas azuladas. Por outro lado, a natureza transformou-se em cultura e deu-lhe qualidades plásticas que emolduraram as crônicas de muitos de nossos escritores.

Retomar esse movimento da cidade requer cuidado. Ele pode descambar para uma história heroica que esconderia aquilo que são as experiências reais, porque a cidade não nasceu em berço esplêndido e não viveu apenas da graça real. Para compreender essa longa história, é necessário ter certo deslumbramento, mas não aquele da soberba, do superficial, do efêmero, mas aquele que resulta das experiências concretas da vida, do andar pela cidade.

Para isso, é preciso recorrer aos intérpretes, e é aí que a coisa pega novamente. Tomar as interpretações requer cuidado e deixar de lado aqueles que são acumuladores de certezas que nos levam a ver a cidade como bafejada pelos ventos míticos da irracionalidade e pela facilidade de cantá-la em prosa e verso na linearidade de seus tempos.

Mas há no meio do caminho não uma pedra, mas João do Rio. Reunir os dois, a cidade e o seu poeta, pode nos salvar. Como a cidade, João do Rio tem um jeito classe média ou, se quiserem, de pequeno burguês, uma mistura de hábitos burgueses com tendências aristocráticas, pois era negro, homossexual e transformou-se no grande cronista da cidade. Diriam muitos que isso foi e é um mistério: como um negro homossexual tornou-se um dos grandes nomes da literatura e do jornalismo dos primeiros vinte anos do século XX.

João do Rio, inspirador de uma cidade moderna

Fez-se querido da elite carioca, que não entendeu a sua ironia crítica, sem que eles se sentissem incomodados com a sua presença, talvez pela criação que João do Rio fez de si mesmo, um deslumbrado novo rico morador de Ipanema, que a elite achava engraçado e entendia suas crônicas do Grand Mond como exaltações do modo de ser moderno, como louvações ao novo tempo e, de certo modo, sem entendê-lo, lhe deram a condição de maior anunciador do moderno. Não perceberam que, ao mesmo tempo, havia outra história que envolvia a “nação subterrânea”, o mundo da pobreza e da miséria criminalizado e que é por ele aflorado, mostrando a diferença entre a capital moderna e a cidade do Rio de Janeiro. Para as elites, tratar dos pobres era uma típica condição do jornalista que inventou as reportagens de rua.

Essa ilusão das elites foi acompanhada de muita tristeza, especialmente quando perceberam que não era apenas o jornalista que falava, que por trás dele havia o poeta, o historiador, o arqueólogo, o antropólogo, que varria a cidade de ponta a ponta indicando as contradições próprias de uma capital moderna que se perdia em sonhos efêmeros e que se deslumbrava com sua natureza e paisagem.

De repente, a cidade capital em movimento vai perdendo a sua graça, tecendo uma história que não queria ser dela, limitada pelo conservadorismo que elegeu a “casa” como o melhor lugar para ficar e criou a dualidade entre casa e rua, criando as condições de entender as diferenças entre os cariocas da capital e os cariocas da cidade. Aqueles que amavam a casa e tudo que se amontoava em sua volta decretaram guerras às ruas, entendendo-as como lugares de perdição, de ausência de moral, de corrupção e de malandragem, e tornaram as ruas suas inimigas, não sem antes tomarem conta das praças e dos jardins com grades.

João do Rio abriu briga com eles, reivindicando as ruas como a marca da cidade do Rio de Janeiro, defendendo-as da exclusão, dando-lhes a condição de serem o cenário principal da experiência dos cariocas. O gosto pelas ruas fez com que ele inventasse que elas tinham alma, imaginou as encruzilhadas onde se acumulavam histórias de todos os tipos como querem Luís Simas e Luís Rufino2.

As ruas foram para o poeta o lugar das descobertas, das invenções e das emoções. A cada passo na sua flanêrie inventava coisas novas e inovadoras que fizeram com que ele se dedicasse a elas de corpo e alma, e como elas não existissem sem os corpos daqueles que as habitavam, criou tipos que marcam a história carioca, que podem ser observados nas ruas e em suas obras3.

Assim, enganam-se aqueles que acham que a história da cidade do Rio de Janeiro é deslumbrante. Para estes, além da leitura da obra de João do Rio, é bom que tenham atenção para as dualidades que marcam a sua história a ponto de descobrirem as duas cidades4. Aquela que foi capital do Brasil, objeto de atenção das elites, e aquela que permaneceu cidade que movimentava as tradições, que mostrava as ruas, que se criava pelas utopias dos botequins e dos bares, que se anunciava nos jogos das esquinas, nas oferendas das encruzilhadas, que vendia santinhos e charutos falsificados, e até ratos que se tornavam nos restaurantes iguarias. As ruas são das religiões de várias matrizes, nelas se ouviam os batuques dos terreiros e os sons dos tambores como arautos da vida.

Essas duas cidades conviveram e convivem até hoje e sempre expressaram tensões, mas também aproximações, criando “culturas de fronteira”, e exortaram trocas que movimentaram as cozinhas da casa grande e das ruas, trocando receitas e formas de fazer e comer.

É bom lembrar que esse movimento começou a partir da fundação da cidade em 1565, mas, para facilitar o entendimento geral, diria que, a partir de 1763, ele se tornou acentuado. A mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro no projeto do Marquês de Pombal abriu espaços para a aceleração das duas cidades. Isso foi se reproduzindo nas expressões populares que diferenciavam Corte de cidade, capital de cidade, e por fim Bella Cap de Nova Cap.

Essa dualidade movimentou outros aspectos da história da cidade, como a presença de modernos e de modernistas, das perspectivas civilizacionais se opondo às culturais no debate sobre a modernização, e revelou o domínio dos prefeitos empresários na cidade a partir da gestão de Pereira Passos. Se olharmos para os projetos de intervenção urbana na cidade, observaremos que praticamente todos agiram na capital, mesmo depois da transferência da capital para Brasília5.

Mas por que estou falando disso? Primeiramente para abrir caminho para outro deslumbramento, desfazendo os equívocos daquele que mencionei no início. A cidade do Rio de Janeiro nunca foi só natureza e João do Rio, não era o grande cronista que elogiava a modernização. Então, que outro deslumbramento é esse? A descoberta de que João do Rio nos deixou um método crítico para ver a cidade.

João do Rio inventou um método de ver a cidade que abriu as cortinas que escondiam as contradições à vida numa cidade metrópole. Suas denúncias tinham um caráter tão radical que foi preciso excluí-lo do cenário da cidade. Um projeto muito bem ordenado que teve por objetivo acabar com a “memória abjeta” de João do Rio.

Os donos da capital – os inimigos de João do Rio e da cidade

Tomarei apenas um dos articuladores de tal projeto para servir de exemplo. O projeto denunciava vários aspectos da obra e da vida de João do Rio que até a década de 1920 não incomodavam, porque, como disse, as elites achavam que era gênero o que João do Rio fazia, e não era perigoso. Quando perceberam o quanto ele incomodava, chamaram atenção para os seus vícios e taras, como o livro escrito por Neves-Manta (1970), médico e psiquiatra e possuidor da ideia de que há um maldito mal proveniente da condição de autores homossexuais.

Mas quem era Inaldo Neves-Manta? Ele tinha 18 anos quando João do Rio faleceu e 23 quando escreveu A arte e neurose em João do Rio. Neves-Manta, quando ainda em processo de especialização, sentia-se deslumbrado com a possibilidade de chegar a ser “o mago de Viena”, como apelidava Sigmund Freud. De qualquer modo, mesmo que fosse um gênio, em qualquer acepção que se desejar, é meio complicado supor que ele tenha desenvolvido sozinho os argumentos, cheios de erudição médica e psicanalítica, postados no seu escrito sobre João do Rio.

Desconfiado com isso, penso que pode haver uma relação entre a produção do livro em 1926 e os perseguidores-inimigos de João do Rio. Estou exatamente falando de Antonio Torres e Humberto de Campos, imaginando que o movimento deliberado de apagar a memória do cronista tenha envolvido Neves-Manta num momento em que a psiquiatria adquiria importância com a criação da Liga Brasileira de Higiene Mental e a aprovação de seu projeto de criação de um serviço de prevenção que antecipasse “desvios comportamentais” na sociedade brasileira, fruto da miscigenação de sua população, segundo Neves-Manta. Os psiquiatras da época assumiam a direção do saneamento da sociedade anunciando ser capazes de avaliar precocemente a chegada desses desvios.

Minha suposição pode avançar na sua comprovação se examinarmos mais de perto o que é afirmado por Neves-Manta sobre João do Rio e a estratégia que ele utiliza para chegar ao que os detratores do cronista projetavam. Neves-Manta, de certa forma, sente-se motivado pelo “caso” de João do Rio, pois, através da fama do escritor, ele buscava alcançar seus próprios objetivos e ganhar renome como psiquiatra. Isso é evidenciado pela atenção cuidadosa e zelo que Neves-Manta dedica ao cronista, como podemos observar por meio de suas declarações, e essa condição é percebida por comentadores de seus escritos. Engel (2001) revela o interesse que leva Neves-Manta a focalizar sua atenção no cronista no seu livro ao discutir as formas de análises das figuras públicas.

Inaldo de Lyra Neves-Manta, psiquiatra, envolvido com o “clube” dos médicos-escritores, como Peregrino Junior, que se dedicou à doença em Machado de Assis, possuía uma forma de escrita peculiar e, ao mesmo tempo, risível, empolada e rebuscada na linha da escrita parnasiana. Repudiava os modernistas, embora olhasse com atenção para as benesses da modernidade, talvez oportunisticamente, aproveitando a onda da novidade da psiquiatria, não negando a perspectiva estética vinculada a ela.

Além de sua inserção na medicina, que se inicia pela neurologia, também se dedicou à política “médica” no sentido de participar ativamente da Liga Brasileira de Higiene Mental, criada em 1923, e profundamente marcada pelas ideias de eugenia, justificando a oportunidade da criação da Liga pelo projeto de um serviço de Higiene Mental para os brasileiros, pois um país de natureza miscigenada precisava resolver “os desajustes comportamentais”.

No fundo, o “caso” João do Rio lhe deu a fama que almejava, alcançando cargos importantes na área médica, chegando, inclusive, por duas vezes, a ser presidente da Academia Nacional de Medicina. Em seus estudos, mostrou sua inclinação para determinados procedimentos em seus “casos”, que concorrem para compreendermos o modo de tratar o cronista. Neves-Manta foi o tradutor brasileiro de Paul Pollitz. Dele verteu para o português Psicologia do Criminoso, em 1934, ao que tudo indica a partir da edição original alemã de 1916 ou da edição espanhola de 1933, em que Pollitz desenha a classificação do “delinquente habitual” como “um indivíduo em cujo comportamento se identificam atitudes e condutas do tipo ‘prelúdio de uma existência de vagabundagem’, ‘brutalidade como os condiscípulos’, ‘hipocrisia’, ‘falta de respeito’, típicas dos acometidos pela degenerescência” (Silva, 2015, p. 112).

A análise feita por Neves-Manta sobre João do Rio é complexa em diversos aspectos. Um deles é a sua forte necessidade de estabelecer um diagnóstico definitivo do cronista, como se estivesse competindo com a fama e influência de João do Rio. Ao mesmo tempo, Neves-Manta insiste em destacar o talento narrativo do cronista, embora o rotule como sendo inconfundivelmente ruim, chato e confuso. Sua estratégia consiste em elogiá-lo como brilhante e inteligente, apenas para, em seguida, condená-lo por seus excessos e, ao mesmo tempo, por sua contenção, evidenciando a racionalidade de alguém que supostamente não possui falhas de caráter. Os paradoxos apontados por Neves-Manta na pessoa e na obra de João do Rio levam-no à conclusão de que ele é um homossexual degenerado e dissimulado, pervertido e fleumático, falador e controlado, ardiloso e sensível, falsamente alegre e autenticamente triste.

Essas polaridades denotam a visão de mundo maniqueísta de Neves-Manta, calcada em oposições como bem/mal, beleza/feiura, saúde/doença, sanidade/ insanidade, limpeza/sujeira, evolução/degenerescência, tradição/modernidade, que qualificam o seu discurso eugenista (Silva, 2015). Ou seja, para ele, João do Rio é moralmente depravado, perverso e recheado de vícios, anomalias que caracterizavam as raças “intercruzadas” que produziram indivíduos mórbidos. Para chegar a essas conclusões, mergulha na análise do autor e da obra a partir da consideração de que ele possuía as qualidades de um neurótico, sem conhecê-lo, sem ter privado de sua companhia e nem mesmo ter compartilhado de suas produções antes de entrar no “caso”.

Para fornecer aos leitores argumentos que favoreçam as suas conclusões, mobiliza comparações com outros escritores, como Coelho Neto e Gabrielle D’Annunzio, que considera produtores de uma literatura “máscula” e “sã”, na contramão da literatura produzida por João do Rio “morbígena” e “coloridíssima”. Morbígena dá para entender no sentido de ser uma literatura perigosa, que contamina aqueles que a leem, levando-os às deformidades comportamentais, mas coloridíssima? Posso supor que essa adjetivação pode ser um elogio, de certa maneira, ou, ao contrário, associar o cronista ao homossexualismo ou, ainda, a uma literatura com a profusão de “alegrias”, exacerbação dos sentidos, identificada com autores que João do Rio cita, traduz, gosta, como Oscar Wilde, e que o cronista sempre que podia chamava atenção exatamente porque eram identificados pelos críticos conservadores de “malditos” como Byron, Flaubert e até Cervantes, citados por Neves-Manta. Para João do Rio, essa denominação mostrava como esses críticos medíocres tentavam imitar esses malditos sem conseguirem, e os excluíam por medo com essa denominação.

Para Neves-Manta, a produção artística precisava dessas anomalias para prosperar, marcando sua visão preconceituosa dos escritores que fugiam à regra, ao cânone: “a arte não seria a mesma coisa sem as psicopatologias de alguns dos ilustres representantes, pois todos, sem exceção, seriam casos de anomalias em decorrência justamente de suas genialidades” (Silva, 2015, p. 134). Essa constatação feita por Neves-Manta é a forma encontrada por ele de se colocar numa posição mediana diante dos artistas, articulando a ideia de que a psiquiatria seria exatamente a parte da medicina que podia ligar a arte e a ciência.

Entretanto, o paradoxo de João do Rio se vincularia à situação de que “áreas de seu cérebro funcionavam mal, ao mesmo tempo que mantinha sua capacidade de raciocínio em perfeitas condições, à maneira do gênio degenerado de Lombroso” (Silva, 2015, p. 137), e com o intuito de demonstrar o limite da literatura de João do Rio e a sua condição de gênio, produz uma joia que vai mostrando as contradições do exame que faz do “caso”, ao mencionar que sua produção é menor porque o cronista escreve mal e porque o conto não é um gênero que qualifique um escritor maior, aliás, como era comum na época. Mas aqui a questão é mais grave, porque levanta a suspeita de que, na verdade, a atenção que o psiquiatra diz que teve com a obra não é verdadeira, pois se esgota nos contos de Dentro da Noite, suspeita confirmada na análise somente de três personagens do livro, terminando por concluir que os personagens exóticos e doentes que estão presentes em Dentro da Noite poderiam constar de um manual de clínica psiquiátrica. Novamente, dúvidas. Aqui não sei se é um elogio a afirmação do psiquiatra porque os personagens seriam tão bem definidos que poderiam estar nos livros de medicina ou se, por outro, indicavam a doença de João do Rio, que reproduzia neles a consciência que tinha do seu mal.

As nevroses próprias da Belle Époque eram para a psiquiatria patologias psiquiátricas mais amenas, distúrbios de personalidade que se davam a ver pela exacerbação de comportamentos ou dos sentidos; “o neurótico é exagerado e obsessivo compulsivo” (Silva, 2015, p. 140), e João do Rio estaria vitimado por neuroses que motivavam a sua arte e que sem essas neuroses essa arte não existiria. João do Rio seria um portador de distúrbios hormonais, como o hipertireoidismo, anunciado pela sua tendência à obesidade.

Mas tudo se inicia em Neves-Manta com a pergunta formulada por ele: “Há uma literatura mórbida?”.

A resposta é interessante porque altera o padrão de entendimento da arte associada às neuroses: “a literatura nunca é mórbida, pois ‘toda a obra de arte é sã’”. O que há, diz Neves-Manta, é uma literatura ‘morbígena’, capaz de tornar os indivíduos sãos em doentes” (Silva, 2015, p. 142; Neves-Manta, 1970, p. 53). E continua: “(...) e a obra de João do Rio que, a muitos, se avantaja como uma literatura mórbida, não passa de projeção de um intimismo semidesfeito pela velocidade do século” (Neves-Manta, 1970, p. 53). As contradições do psiquiatra vão se avolumando, vão se perdendo e ele não consegue decifrar João do Rio, ora dizendo que sua literatura é mórbida, ora demarcando-a como proveniente de distúrbios de personalidade.

Para Neves-Manta, a serenidade de João do Rio, eu não sei onde ele a encontra, esconderia seus conflitos interiores que seriam caracterizados pela compulsão e pela entrega. Isso para o psiquiatra tornava o cronista “extremamente” perigoso, porque disfarçava sua “verdadeira personalidade”. Nunca viu João do Rio, nunca observou seu andar, seus gestos, os viu por fotografias, por críticas, por comentários. As contradições vão pesando na análise de Neves-Manta. Depois de ter afirmado a profundidade da caracterização dos seus personagens, comenta que João do Rio é um “kodacalista”, referindo-se à propagação da invenção da máquina Kodak, ou seja, o cronista apenas reproduziria os tipos urbanos do Rio de Janeiro, simplesmente os descrevendo.

Ao mesmo tempo, Neves-Manta é capaz de afirmar que ele vivia “um processo de alucinação, do qual ele mesmo era vítima, escrevia sobre o que estava nele e não fora ‘como se fora sequência natural de uma função reflexa’, a projeção externa de uma imagem interna” (Silva, 2015, p. 146; Neves-Manta, 1970, p. 62). Essa afirmação deriva da ideia de que toda a genialidade artística é marcada por uma parcela de alucinação, “enervações”, que fogem do senso normalizador, inerentes ao processo criativo. Sofisticando as comparações entre escritores, afirma mais estereótipos, pois para ele D’Annunzio, Coelho Neto e Gustavo Barroso fariam uma literatura “máscula” e “vigorosa”, enquanto João do Rio caminharia para uma literatura com estilo “desinquieto” e “coloridíssimo”, uma literatura de extremos, porque sua cabeça “laboriosa” não descreve o que ele vê porque tudo que ele registra não existe em lugar algum, está na sua imaginação. Com isso, Neves-Manta conclui que a morbidez de João do Rio não está nas cenas urbanas, na experiência concreta da ação de pedestre do cronista, mas na sua cabeça.

Aqui, mais uma vez me sinto com vontade de assinalar a relação entre a narrativa do psiquiatra e as produzidas por aqueles que realizam o movimento deliberado de apagamento de João do Rio. Acentuar a imaginação não corresponde à inventiva artística no modo de dar conta do experimentado, mas da mentira, da invenção em cima do nada que acompanhou constantemente as críticas a João do Rio. Maria de Lourdes Silva (2015), ao comentar o livro de Neves-Manta, assinala a importância do capítulo “Anamnese psicológica do homem”, em que o psiquiatra se dedica ao “ser humano” João do Rio. Os traços fisionômicos do cronista somados aos modos do temperamento o levariam a considerar João do Rio um neurótico tipo, sem que Neves-Manta tenha conhecido o cronista. Ele deriva suas considerações diagnósticas a partir de informações e fotografias porque ele não escreve antes da morte de João do Rio. O aspecto físico do cronista, biotipo e aparência acrescidos do seu tronco “que não era perfeitamente são” indicava uma pessoa adiposa, de estatura mediana, semiobeso e “quase disforme”.

Por essas características, as roupas de João do Rio não lhe caíam bem. Assim, apesar de elegante, para Neves-Manta, o conjunto não era harmonioso. Insisto, ele não viu João do Rio e não olhou para o gestual do cronista, especialmente para o modo de segurar os charutos, só por fotos reforça as contradições entre interior e exterior em João do Rio e acentua uma serenidade aparente que ele, Neves-Manta, diz que nunca existiu, eram formas premeditadas que anulavam as desconfianças sobre o poeta-pedestre homossexual por seus “arrancos por vezes másculos”.

Além disso, Neves-Manta acusa João do Rio de uma “labilidade diabólica” que o levava a andar sempre com pessoas medíocres, permitindo que ele sobressaísse, ou seja, o poeta-literato ou o literato-psicólogo sabia controlar seu corpo e sua mente aparentando ser um sujeito normal: “Os excessos do que lhe iam no íntimo jamais foram percebidos pela indiscrição vulgar da fraqueza humana. Trancava-se. Continha-se em si” (Neves-Manta, 1970, p. 147). João do Rio, com esse controle que lhe é atribuído pelo psiquiatra, seria senhor de seus segredos, como o fascínio por certas preferências que são consideradas por Neves-Manta como “horrores da patologia humana”. João do Rio “era uma massa de digêneses e degenerescências sublimadas” (Neves-Manta, 1970, p. 137) e mimado, bizarro, luminoso, indolente e excêntrico.

Mas a origem desse estado mental e físico adviria do sistema endócrino de João do Rio, totalmente ineficaz quanto a expelir o que envenenava o seu sangue, a sua alma: “Seu mal era atávico, revelado pelo mau funcionamento de suas glândulas endócrinas, em decorrência da miscigenação, deflagrada pelas condições do meio onde nasceu e cresceu” (Silva, 2015, p. 123). Segundo Maria de Lourdes Silva, a abordagem adotada por Neves-Manta para o “caso” João do Rio demonstra o seu total comprometimento com as teorias higienistas da medicina sanitária. Essa perspectiva leva o psiquiatra a concluir que João do Rio não possuía chances de recuperação, pois ele estava além de envenenado, também intoxicado de forma irrecuperável.

Ao finalizar o diagnóstico e consolidar as conclusões, a consideração final revela de forma inequívoca os objetivos de Neves-Manta, os quais envolviam o desejo de conquistar fama e apagar a memória pública de João do Rio. Além disso, essas ações visavam demonstrar suas qualificações médicas através da “capacidade de identificar, cientificamente criminosos, degenerados e seus atos extraordinários, capazes de colocar em risco a sociedade” (Silva, 2015, p. 142). João do Rio era um “temperamento equívoco, incompreensível, era um glandular (...), sua vida ditava-lhe o aparelho endócrino, seus atos, seus excessos, suas fraquezas, seus arroubos” (Neves-Manta, 1970, p. 153).

Maria de Lourdes da Silva conclui suas observações sobre Neves-Manta com três colocações centrais. A primeira chamando a atenção para o que está por trás da crítica a João do Rio, que era a afirmação da Liga Brasileira de Higiene Mental e de seu projeto de criação do serviço de prevenção:

A descrição hostil que ele faz de João do Rio, embora remonte às inserções daquele cronista (...) compartilha dos princípios que fundamentam as patologias mentais, fomenta reclamação de autoridade para o seu campo de conhecimento dos processos patológicos que acometiam as mentes

(Silva, 2015, p. 146).

A segunda é feita para reforçar o sentido que a autora quer dar às conclusões mais radicais do perigo de João do Rio para a sociedade:

Seu ataque à literatura de João do Rio revela a intenção de demarcar a distância que julga haver entre os seus próprios escritos e os do contista (...). Chama atenção para o perigo potencial e contagioso da literatura degenerada e ameaçadora do contista carioca

(Silva, 2015, p. 147).

Por fim, a terceira remete para a qualificação das referências teóricas utilizadas por Neves-Manta e reforça o perigo de João do Rio:

A estrutura argumentativa de A arte e neurose de João do Rio é semelhante à de O homem de gênio, de Cesare Lombroso (...) O psiquiatra articula um discurso em prol da saúde social, denunciando o perigo representado por produções literárias como as de João do Rio, as quais poderiam contaminar o meio onde eram defendidas, contribuindo para despertar caracteres atávicos, ainda não manifestos, em degenerados incubados

(Silva, 2015, p. 147).

É difícil aguentar tanta idiotice. Mas vamos ao que nos interessa, que são a voz e a ação de um dos promovedores do projeto de excluir João do Rio da história da cidade do Rio de Janeiro.

O ex-padre de Diamantina Antonio Torres era um nacionalista fervoroso e membro do grupo ligado a Afonso Celso da Ação Social Nacionalista e Amilcar Bomilar da Propaganda Nativista. Torres foi beneficiado pelo apoio do Itamaraty para sua sobrevivência e se autodenominou como o maior inimigo de João do Rio. Suas acusações contra João do Rio eram quase diárias e encontram-se presentes em todas as suas publicações, nas quais são feitas inúmeras referências ao escritor, acompanhadas de acusações diversas e infundadas.

Em Verdades Indiscretas de 1921, Antonio Torres faz referência a João do Rio em uma crônica intitulada “Uma semana alegre”, que trata da proposta de mudança de nome da cidade para Guanabara, discutida no Senado por Filinto de Almeida com o apoio de Magalhães de Azeredo, embaixador do Brasil junto à Santa Sé. Em meio a esse contexto, Torres cita João do Rio de forma irônica, dizendo: “Já não quero aludir ao incômodo que seria para o talentoso nacionalista da colônia portuguesa, sr. dr. João do Rio, ver-se obrigado a chamar-se de João Guanabara” (Torres, 1921, p. 233).

Em outra crônica do mesmo livro, intitulada “Vinte um de abril”, que aborda a visita de João de Barros ao Brasil e sua colaboração com João do Rio no projeto da revista Atlântida (Camilotti, 2008), Torres faz uma crítica aos portugueses e, indiretamente, a João do Rio. Ao discutir os equívocos da colonização portuguesa, Torres ironiza: “Que sistema inteligente de colonização! Realmente, João de Barros tem razão em vir aqui nos convencer da energia civilizadora de sua raça” (Torres, 1921, p. 267).

Ainda em Verdades Indiscretas, na crônica Incidente Literário relativa à briga entre Roberto Gomes e Goulart de Andrade na ABL por conta da acusação de plágio do primeiro de Goulart de Andrade, repentinamente cita João do Rio:

Vocês precisam de deixar de tomar a literatura a sério. Façam como Bilac, que aderiu às flanges patrióticas e assim vai vivendo otimamente, louvado Deus, apesar de ter, segundo opinião corrente, plagiado Stecchetti. Façam como o comendador Paulo Barreto, que tem sido acusado de plagiar a vida inteira Jean Lorrain, e nunca se defendeu – o que não o impede de ganhar a sua vida maravilhosamente bem, e até de ser amigo íntimo do sultão da Turquia.

(Torres, 1921, p. 271).

E não acaba por aí. Na crônica O descobrimento do Brasil, ainda em Verdades Indiscretas, por conta de uma citação feita por João de Barros, novamente João do Rio é chamado a comparecer como exemplo:

Não contente com isso, disse ainda o consagrado literato [João de Barros], que no Rio de Janeiro “o mar tem o riso fresco das bocas novas das mulheres e a eterna alegria do riso álacre dos deuses pagãos”. Isto agora é asneira grossa. Pode ser que em Lisboa esse palavreado sonoro ainda seja muito boa literatura, mas aqui no Rio, não. Mar que parece boca de mulher e riso dos deuses ao mesmo tempo, isto é mar andrógino, macho e fêmea simultaneamente, mar Ganimedes, cujos recônditos mistérios só o dr. João do Rio nos poderá explicar

(Torres, 1921, p. 277).

Quantos preconceitos e acusações gratuitas que envolvem da vida pessoal à literatura. Mas não para por aí. Em outra crônica chamada Cristo ou Crista? que discute a proposta de Itália Fausta ocupar o papel de Cristo na representação do “Mártir do Calvário”, depois de muitos atos preconceituosos, termina com a seguinte afirmação: “E se Vossa Excelência persistir nessas intenções, que eu reputo contrárias à natureza e ao bom senso, irei ao teatro, na Sexta-feira Santa, de gravata vermelha e barrete frígio, e farei berreiro para exigir que Madalena seja o sr. Paulo Barreto” (Torres, 1921, p. 311).

Na última crônica publicada em Verdades Indiscretas, intitulada “O ano humorístico literário social”, que resume o ano de 1919, marcado pela superação da Gripe Espanhola e pela efusão alegre dos cariocas, Torres lista uma série de eventos significativos ocorridos durante do período: “O dr. João do Rio, capacho em que todas as manhãs limpa os seus tamancos a colônia portuguesa, teve três banquetes” (Torres, 1921, p. 317).

Após listar outros eventos ocorridos no ano de 1919, volta a João do Rio e continua com a provocação, admirado com os três banquetes em homenagem a João do Rio e o proclama “o maior psicólogo da Grande Guerra” (Torres, 1921, p. 322). E faz uma caracterização que resume vários dos ataques que foram feitos ao “poeta-flâneur”:

(...) o dr. João do Rio é o Lavisse brasileiro, quero dizer, é um Lavisse doublé de um W. Stead, com influência de Jules Huiret e grandes predileções por Stephane Lauzanne. Nota-se no seu estilo a tortura de um Michel George Michel em amalgama com Jean Lorrain e tendendo um pouco para a forma superior de Manuel de Souza Pinto, depois de ler uma página de Gomez Carrillho

(Torres, 1921, p. 322).

E continua: “O dr. João do Rio, pois, chegado da Europa recebeu um banquete da laboriosa colônia portuguesa, por ser amigo de Portugal, e isto mostra que ele sabe viver...” (Torres, 1921, p. 323). Na mesma direção vai assinalar que João do Rio também é amigo de D’Annunzio e que por isso também recebeu a homenagem da colônia italiana com outro banquete. O terceiro banquete foi oferecido pelos brasileiros no Hotel dos Estrangeiros “que é o Rio, o delicioso Rio de Janeiro, este suavíssimo Rio de João” (Torres, 1921, p. 323).

Do mesmo modo, a perseguição a João do Rio continua em Pasquinadas Cariocas, livro de Torres, publicado em 1922. Na crônica Arca de Noé a respeito da chegada da Itália de Fausto Ferraz e da relação possível entre ele e João do Rio, identificado como “dr. João do Rio Volga” e Maurício de Lacerda, “defensor dos operários” (Torres, 1922, p. 113). Depois de colocar João do Rio na berlinda, realiza um perfil do “poeta-flâneur”: “Que relação, com efeito, poderá haver entre o dr. João do Rio – rapaz inteligente, literato, jornalista prático, escritor festejado, cronista laureado, aplaudido autor teatral (...)” (Torres, 1922, p. 113). A ironia permeia a crônica através do uso persistente da referência ao “doutor” e surge outro identificador, “João do Rio Mondego”. Ainda em Pasquinadas Cariocas, Antonio Torres continua sua abordagem ao mencionar João do Rio na crônica “Uma tertúlia de acadêmicos”, na qual o chama novamente de “doutor” e afirma “que ele fala e escreve na algaravia internacional que serve de idioma aos fregueses de transatlânticos” (Torres, 1922, p. 136). É mais um exemplo da forma como Torres se referia a João do Rio, utilizando um tom irônico e crítico.

Na segunda edição de Prós e Contras de 1925, não localizei referências a João do Rio que sigam a linha das críticas negativas e preconceituosas anteriores. Pelo contrário, há uma menção a ele na crônica “O Teatro Nacional”, que discute a proposta de Maurício de Lacerda de um Teatro Nacional. Nessa crônica, Antonio Torres se posiciona contrariamente aos gastos que esse projeto acarretaria e faz considerações sobre o teatro brasileiro. Em determinado momento, ele se refere ao teatro de costumes e menciona: “Agora pergunto eu: valerá a pena gastar uma centena de contos para termos um teatro de costumes (...)? Claro que não. Teatro de costumes (...) nós temos ali à mão, fácil e aplaudido, com as peças de Viriato Correa, Cláudio de Souza, J. Brito, Bastos Tigre, (...), João do Rio...” (Torres, 1922, p. 68). Nessa citação, João do Rio é mencionado sem o uso do termo “doutor” ou qualquer outro adjetivo negativo.

No mesmo ano de 1925, em As razões da Independência, Antonio Torres faz um ataque ferino e fatal contra João do Rio, que já estava morto, com o objetivo de excluí-lo do cenário cultural e literário. Esse ataque começa com críticas aos portugueses, que, segundo Torres, dominavam a imprensa no Rio de Janeiro e ostentavam seu dinheiro, embora, contraditoriamente, segundo suas palavras, não gostassem de leituras. Essa crítica é apresentada no preâmbulo do livro, ocupando as páginas XXIV a XXVIII em um item intitulado “Um carnaval macabro”. Torres inicia mencionando o enterro de João do Rio, referindo-se a ele como uma “abjeta memória”, e entrelaça a história com a viagem de Sacadura Cabral e Gago Coutinho atravessando o Oceano Atlântico. Ele relata que um jornalista amigo seu comenta que o avião era como um “tamanco voando com asas de bacalhau” (Torres, 1925a, p. XXV).

O teor da crítica se radicaliza contra João do Rio:

Paulo Barreto foi uma das criaturas mais vis, um dos caracteres mais baixo, uma das larvas mais nojentas que eu tenho conhecido. Não tinha senso moral. Não tinha sentimentos cavalheirescos. Não tinha a menor noção de brio. Nunca pode aprender a significação da palavra dignidade. Além de ser talentozinho seco e fosforescente, o que ele possuía era uma instrução muito falha e uma grande avidez de dinheiro. Por dinheiro era capaz de cometer as máximas ignomínias. Melhor ainda. Dele se pode dizer o que de Mirabeau dizia Rivarol: por dinheiro seria capaz de praticar até uma boa ação...

(Torres, 1925a, p. XXV).

Covardia, menosprezo, João estava morto, mas parece que não houve nenhuma reação contundente contra essas acusações que atingiam o caráter, educação e moral de João do Rio. Para justificar as acusações, Torres mobiliza as contradições anunciadas por seus inimigos como falar mal dos portugueses pelas costas quando era redator-chefe da Gazeta de Notícias, embora na folha não aparecesse nada que machucasse a colônia portuguesa, e reproduz a seguinte frase que teria sido dita por João do Rio: “Ah! Portugal! Portugal! É a província mais exigente do Brasil! Portugal está se tornando mais exigente do que o Amazonas” (Torres, 1925a, p. XXV).

Essa citação em si não parece conter nenhuma ofensa direta aos portugueses. No entanto, pode indicar outra questão que também se liga ao cancelamento de João do Rio e envolve Torres e os capitalistas portugueses. As fofocas de Torres entre os portugueses levaram a um desconforto em relação à aproximação deles com João do Rio, agora associado à pederastia e ao esnobismo, o que prejudicava os negócios dos portugueses da Rua do Acre. Torres era o articulador da campanha de apagamento da memória de João do Rio.

Conclusão

Para começar a concluir, quero ouvir João do Rio. Minha intenção é acompanhar os últimos dias de vida do poeta-etnógrafo ou do literato-psicólogo, ou, ainda, do historiador-pedestre. A variação de denominações advém das múltiplas faces que João do Rio se deu a ver. Você, leitor, pode optar pelo que você achar mais próximo das impressões que teve ao longo da leitura ou ficar com todas elas.

Para poder ouvi-lo, escolhi na primeira página do seu jornal A Pátria a coluna “Bilhete”. Ela foi uma forma de estabelecer um vínculo com aqueles que mereciam a atenção do poeta-cronista, seja porque se aproximavam de suas ideias ou porque se afastavam radicalmente delas – seus detratores. Seguindo a sua tentativa de unir jornalismo e literatura, a coluna “Bilhete” é a exemplificação da experiência do literato nesse tipo de estratégia com a criação de personagens ou a fala direta, cara a cara, com os seus perseguidores.6

Ouviremos, eu e vocês leitores, lamentos, reclamações, chateações, críticas e constatações de ordens variadas todas do final do ano de 1920 e até o dia de sua morte, incluindo aquela que aparece exatamente em 23 de junho de 1921. É como escrever a derradeira lápide de João do Rio homenageando tudo o que ele nos deixou.

Vamos lá, penetremos nesses últimos momentos. O que encontrei? Para facilitar, tratarei esse final como se fosse um diário, seguindo dia a dia, mas escolhendo determinados dias em que posso esclarecer a sua visão dos inimigos.

No dia 19 de outubro de 1920, terça-feira, as preocupações de João do Rio giravam em torno do espanto que para ele foi ver o conde Afonso Celso, criador e presidente da Ação Social Nacionalista em 1920 e do seu órgão oficial, o jornal Gil Blas, publicar ou deixar publicar o que João do Rio chamou de “cornetas do diabo”, críticas a ele em vários jornais da cidade. Não acreditando que Afonso Celso estivesse envolvido, além de publicar o seu espanto, ainda envia para a direção da Equitativa, companhia de seguros também presidida por Afonso Celso, o medonho insulto que emporcalhava a sua imagem, mantendo a constância do movimento deliberado de apagamento de sua memória.

A percepção que tenho é de que João do Rio, em 1920, se dá conta da real existência desse movimento, porque suas palavras apresentam um sentimento de raiva que está dirigido para a mediocridade dos textos “tão absurdamente e tão sem estilo e sem vergonha” que ele se as tivesse escrito se sentiria envergonhado. E reclama que esse procedimento já era feito há mais de vinte anos, e, nesse tempo, propiciou a ele o desenvolvimento de estratégias que só as aumentariam, como criar um jornal como A Pátria, que irritava os jacobinos nacionalistas da Propaganda Nativista, criada em 1919, como se eles tivessem inveja de não terem pensado no nome escolhido para o jornal pelo cronista.

Além disso, João do Rio estava satisfeito pelo reconhecimento que tinha que derivava de muito trabalho e empenho que deu como resultado conferências, livros, peças teatrais e outras formas de narrativa que lhe davam a clareza de que tinha vencido: “E venço”. E nesse mesmo “Bilhete” faz referência a um “ex-jovem” que durante muitos anos lhe pedia autorização para verter para o francês suas peças teatrais com o único objetivo de receber elogios pelas traduções, através de uma carta de João do Rio que confirmasse a sua qualidade de tradutor. Agora, os insultos que escreve são um palavreado que daria “vergonha à Rua Moraes e Valle ou a do Núncio”. Desconfio que o “ex-jovem” seja Humberto de Campos, que durante muito tempo bajulou o cronista e se revelou um tremendo oportunista.

Mas o que mais surpreendeu João do Rio no Gil Blas foi o fato de o primeiro artigo contra ele ter sido escrito por Afonso Celso, seu colega na Academia Brasileira de Letras, na Academia de Ciências de Lisboa e no IHGB. A refinada ironia de João do Rio transborda no “Bilhete”:

V. Exa. é um pouco mais velho do que eu. V. Exa. tem grandes responsabilidades. É possível que, tendo sido republicano na monarquia, para ser monarquista na república, o seu temperamento fizesse V. Exa, de passado amigo dos portugueses e italianos, terrível xenófobo (...) que o mundo não admite essa fantasia, que para o Brasil é, aliás, um crime. Mas daí a prestigiar com as suas letras o convulso anonimato do insulto que, sob a capa de nacionalismo, atira lama a toda a gente e chama até o respeitável Pedro Alvares de “cavalgadura” e “pirata” (...) – eu peço licença para considerar tal passo a irreflexão de um salto que não é mortal por ser V. Exa. imortal das letras. Não é possível que o conde Affonso Celso apenas por nacionalismo renegue a História (...). Não é possível que o gentleman entre na “baderna” dos pescadores putativos do mar brasileiro, onde nem banho tomavam. Não é possível que o glorificador de Portugal, o homem que escreveu romances enaltecendo o trabalho português e a concórdia ítalo-brasileira, por patriotismo, como escreveu também o Porque me ufano e a Lupe (romance sentimental patriótico), (...). E V. Exa. faz tudo isso, como porta-estandarte do “cordão”?

(RIO, A Pátria, 19/10/1920).

A resposta é contundente. João do Rio, apunhalado pelas costas, sentiu o golpe e evidencia a sua preocupação com o rumo que a situação poderia tomar, principalmente, depois da surra que levou do capitão Villar no restaurante Brahma na hora do almoço. O “Bilhete” tinha endereço certo, pois falava diretamente com aquele que sobressaía como o representante desse radicalismo nacionalista.

As “denúncias” que João do Rio começou a publicar eram uma forma de defesa, uma maneira de evitar que as ameaças de empastelamento do jornal A Pátria se concretizassem, permanecendo apenas como meras palavras vazias. Por esse motivo, ele dirigiu-se diretamente ao presidente da Ação Social Nacionalista, referindo-se ao Conde de Afonso Celso de maneira respeitosa, reconhecendo sua inteligência. João do Rio não conseguia compreender como alguém com a educação e formação que o Conde possuía poderia adotar uma postura tão agressiva em relação aos estrangeiros, especialmente de forma tão ofensiva aos portugueses. Ao tentar destacar as contradições e equívocos na posição dos nacionalistas, João do Rio buscava tocar fundo em Afonso Celso:

Mas V. Exa., com a sua aprimorada inteligência, não apela em vão para o meu espírito de justiça, tanto mais quanto eu me permito apenas indagar do seu coração e da sua mentalidade, se não têm razão aqueles que aqui e no estrangeiro laboram em erro quanto às opiniões de V. Exa. Por mais modesto que seja o Sr. Conde – o único nome citável da “Ação” a que se refere V. Exa., é exatamente o seu. Pelo talento de V. Exa., foi de certo já verificado que é uma palhaçada impertinente isso de bradar “O Brasil é dos brasileiros”, quando ninguém pensa de outro modo – a não ser umas determinadas raças (...) que os nossos governos e os nossos jacobinos não combatem

(RIO, A Pátria, 19/10/1920).

João do Rio vai mais longe e utiliza as próprias palavras de Afonso Celso para ampliar a crítica: “Se V. Exa. pensa assim, pergunto se o meu pasmo, vendo um artigo de V. Exa. num jornal de delirante insulto a todos os que não desarrazoam como os “entusiastas” da “baderna”, não é justo, sabendo todos que V. Exa., o presidente da Ação Nacionalista, já declarou o seguinte: “É preciso que haja, em nossa companhia, a maior prudência, moderação e equidade, de modo que nenhum estrangeiro digno possa, com fundamento, queixar-se de qualquer expressão dos nacionalistas.”

O cronista pega pesado quando menciona as responsabilidades de alguém que é o presidente da Ação Social Nacionalista:

O presidente principalmente da Ação deve mandar, deve ser responsável por tudo, como o é em primeiro lugar o Sr. Epitácio Pessoa, também nacionalista e também compatriota dos portugueses. Ora, quando pelo edifício deste jornal passou um agrupamento de pescadores da Avenida com uns duzentos indivíduos armados a bradar: “Morra os galego”, “Morra os vendidos dos galego!” (...) – eu vi da janela donde assistia a essa relice a bandeira da “Ação Social Nacionalista”, que um sujeitinho de óculos do tamanho de rodas de bicicleta segurava pelas pontas – para que o povo indiferente lhe lesse os dizeres

(RIO, A Pátria, 19/10/1920).

E conclui:

Mas a toda a gente que vê só o nome de V. Exa. em tudo isso é impossível compreender que um cidadão ilustre, dando provas do verdadeiro patriotismo durante tantos anos, escreva as palavras sensatas transcritas acima, e presidente da Ação em nome da qual falou, absolutamente responsável por ela, consinta que a bandeira da mesma Ação, isto é, o nome de V. Exa., o prestígio de V. Exa., sejam trazidos à rua para vaiar, assobiar e fazer de cenário a descomponendas desvairadas contra todos os portugueses, segundo o Dr. Epitácio, nosso primeiro compatrício d’além mar. E por isso em todo o Brasil que respeita V. Exa. e no estrangeiro, que o considerava amigo, corre o clamor do pasmo

(RIO, A Pátria, 19/10/1920).

João do Rio começa a associar os abusos dos nacionalistas ao presidente Epitácio Pessoa, que passa a ocupar um papel significativo em suas crônicas. O cronista estabelece uma conexão entre o presidente e diversos episódios autoritários contra estudantes na Faculdade de Direito, bem como ameaças de censura a jornais opositores. Além disso, destaca o envolvimento direto de Pessoa com a Ação Social Nacionalista e a Propaganda Nativista. Tais acontecimentos chamam a atenção de João do Rio, que passa a dedicar sua pena a esse assunto.

Na sexta-feira, 29 de outubro de 1920, João do Rio, em sua coluna “Bilhete”, abordou novamente os insultos que continuava a receber, mencionando em uma correspondência a um caro amigo que ele não se sentia livre, nas suas palavras:

Em todos os dias, pela manhã e à tarde, regalo-me de sapos mortos, lendo a convulsão do esterquilínio. E regalo-me porque, como todos os homens de destaque no Brasil, a minha sina é ter esse clamor – de tal forma que, no dia em que os “confrades” não me insultarem, evidentemente acredito estar perdendo o prestígio.

O João do Rio provocador e aparentemente sem medo retorna à cena e recorda que na vida viveu sempre com os insultos:

Ainda era menino de preparatórios e certa vez levei um artigo acerca do Eça de Queiroz ao País. Eduardo Salamonde publicou-o. Eu exultei. Fui à redação agradecer, satisfeito. Mal entrava, o contínuo entregou-me duas cartas, o que fez delirar a minha vaidade de criança. Que êxito! De certo seriam aplausos. Abri a primeira. Foi como se recebesse um murro no estômago. Era anônima, dizendo-me os maiores horrores – de certo porque eu louvava o Eça. Abri, trêmulo, a segunda. Também anônima e cheia de desaforos. Meditei na amargura tremenda que é a evidência, mas resignei-me

(RIO, A Pátria, 29/10/1920).

Depois os insultos vieram pelos jornais:

Ao primeiro que fez isso eu espanquei, num teatro. Ele fugiu, e repetiu. E eu, meu querido amigo, resolvi nunca mais me aperceber da raiva dos desclassificados e dos invejosos. Em vinte anos de jornalismo, num exaustivo e tremendo labor, toda a lama disponível nas sarjetas eles me atiram.

A confissão de João do Rio identifica o inferno dos vintes anos de atividade e tudo isso para ele decorria “exclusivamente” do “ódio contra o êxito”. E constata que o aumento dos insultos tinha na criação do A Pátria seu móvel principal: “Aí tem você – não um caso literário (porque mesmo a propósito de livros a dízima periódica do insulto esbraveja) – mas pura e simplesmente o caso da Pátria”.

João do Rio reconhece que o sucesso de seu jornal e o envolvimento na defesa dos pescadores portugueses ampliaram as críticas. Entretanto, ele não percebe que o movimento deliberado de apagamento está envolvendo os próprios portugueses. Não passava por sua cabeça que a defesa podia acabar sendo um infortúnio para os comendadores portugueses, colocando-os na berlinda, nas páginas de todos os jornais. Sem essa consciência, João do Rio julgava que o jogo era limpo:

Se fosse um desastre, querido amigo, diriam horrores. Foi o êxito. Acreditando que eu virei nababo, insultam-me. Leio todos os dias que a colônia portuguesa (você já viu a pulhice desses escrevinhadores?) fez um jornal para me presentear. Mas acabo de ver no Piccolo de São Paulo, que é a Banca di Sconto (essa é impagável!) e não a colônia portuguesa a dar dinheiro a este cínico cavador que sou eu. Em que ficamos?

(RIO, A Pátria, 29/10/1920).

A perseguição está por todos os lados. Além dos portugueses, agora são os italianos que garantem o jornal. A inclusão dos italianos pode ser um mecanismo do movimento na medida em que passava a liberar os portugueses do negócio. A atenção de João do Rio é para a defesa de sua integridade: “Nenhum desses sujeitos imagina que se possa fazer um jornal com convicções; nenhum imagina que há um banqueiro certo – o público – quando compreendem a honestidade dos que trabalham”. E se pergunta: “E que fez A Pátria de extraordinário, para tanta cólera?”.

João do Rio faz, então, um resumo do seu inferno:

Desde 1903 eu me bato pela íntima solidariedade luso-brasileira; desde 1903 eu me bato conservadoramente pelos operários; desde 1910 eu falo da Itália como hoje. Mas é preciso denegrir, insultar, infamar, mentir. Alguns dos escribas são pagos pelos prejudicados capitalistas ou pelos maus brasileiros.

O cronista passa raspando do problema, sua intuição quase desconfia dos empresários portugueses, mas logo muda o seu foco para continuar reclamando dos insultos, mas já com isso batendo em sua cabeça:

Ainda agora, no caso dos “poveiros”, estava com uma causa justa. O governo, com o ato de prorrogar o prazo para a execução da lei, deu-me razão. E quantos levavam a insultar portugueses passaram a dizer que nunca fizeram isso, que não há inimigos dos portugueses e que eu sou um reles cavador, também careca, pançudo, canalha, burro e invertido.

João do Rio ressente-se do golpe. Careca, pançudo, canalha, burro e invertido são qualificadores do trabalho de vinte anos do literato-etnógrafo. A solidão faz com que a coluna que escreve todo dia se transforme em sua companhia e vai conversar com tipos como o Despeito e o Bom Senso, mais isso será mais adiante. A desesperança se torna presente na vida e no pensamento de João do Rio. Os insultos sem sentido e “apopléticos” inundam a sua consciência e quer recorrer aos amigos, afinal, nunca pediu nada a ninguém e reconhece que está cansado com tudo o que está acontecendo

(...) é o desespero da matilha a ver se me atordoa. Eu continuo tranquilo. Um pouco enojado, só. Mas sempre a dizer justamente o que penso, sem responder aos desesperados. Discutir com certa gente é apenas descer. De resto, para que discutir?

A defesa do jornal é mais importante que a de sua vida: “A Pátria fez a campanha contra a violência da aplicação da lei de naturalização da pesca. O ministério acabou dilatando o prazo para a naturalização e, se houvesse poveiros no Rio, eles poderiam pescar hoje!”, e a defesa ultrapassa o caso dos portugueses:

A Pátria verberou o chefe de Polícia no procedimento de fomentar a exacerbação operária com bombas atiradas pela polícia e prisões ilegais. O chefe parou com as bombas e teve de restituir ao mundo não só o Antonio Silva, mas os outros operários presos ilegalmente.

É alguma coisa em quarenta e três dias...

A Pátria continuará assim enquanto Deus quiser. E para defender o que é justo e atacar o que é mau não são precisos palavrões. Basta tenacidade e retidão. O povo percebe isso bem.

Quanto ao resto – que os insultos continuem estrábicos, delirantes, atrozes, cheios de inveja, de peçonha e de dinheiro dos excelentíssimos negocistas. Isso é-me indiferente.

(RIO, A Pátria, 29/10/1920).

Palavras da boca para fora, os insultos não são indiferentes, vão corroendo João do Rio por dentro. Entramos no ano de 1921, no dia 16 de março, já depois das festividades de Momo. O cronista conversa pela coluna “Bilhete” com um amigo: o Despeito. A conversa é dolorida, para não dizer desesperada. A caracterização do amigo assustou-me:

Meu caro Amigo! Com que triste prazer te revejo agora na face de gente que sempre pensei incapaz de te sentir! Meu velho Amigo – moldura escura de todo o meu esforço; cara masculina da Inveja, Despeito, pobre! Nestes agudos momentos de afirmação em que o prestígio vem de dizer lealmente o que se pensa, torno a encontrar-te polifacial, em todas as caras dos que me odiaram sempre e dos numerosos que já me bajularam ou me aproveitaram ou se contiveram.

(RIO, A Pátria, 16/03/1921).

A ambiência imposta à coluna está envolta do trágico, a ironia se perdeu, e o tom de tristeza parece dizer que João do Rio está perdendo as forças, quase desistindo. O seu amigo Despeito ganha a dimensão “polifacial” e se divide em dois:

Por quê? Por que, excelente Despeito? Por que tamanha sandice contra a indiscutível força da Inteligência? Há vinte anos, Despeito, que, branco ou mulato, alto ou baixo, em bando porcino ou em solitária investida de javali, tu invectivas, tu insultas, tu focinhas tristes intrigas contra mim. Tu és contra, Despeito incontido! Tu és sempre contra, graças a Deus! Tu foste contra o meu primeiro artigo como contra qualquer ideia minha. Serás contra o Despeito se eu defender o Despeito. E raivando, escumando, a falta de popularidade como a falta de arte faz-te sufocar.

(RIO, A Pátria, 16/03/1921)

A solidão é companheira e provoca saudade, que se mistura ao desespero na forma de um agradecimento, que no fundo é um disfarce, um despistamento que se junta a certa raiva que não é mais contida:

Tenho de te agradecer, Despeito. Tu és o orgulho do homem que vence só e que nunca deixou de ter, contra o despeito da classe desunida, a segurança do aplauso público. Em mim, velho hipócrita, podes verificar a ineficiência do teu ataque – porque, pago por um ou por outro, ou pago pelo prazer somente de vingança, tu podes atacar, caluniar, uivar, ladrar, certo de que nada adiantarás. Despeito, prestativo inimigo, imbecil (...).

(RIO, A Pátria, 16/03/1921).

O desespero atua no sentido inverso; consciente de seus limites, o cronista mantém a sua aparente força, criando uma barreira fraca. Cada adjetivo de força como “tu podes atacar (...) certo de que nada adiantarás”, adiantará, promove a sensação de perda. O “eu venço” vai perdendo sentido. João do Rio olha para trás e coloca em evidência sua vontade através da história do A Pátria, e nessa narrativa envolve o presidente Epitácio pessoa e o delegado de Política:

Ainda agora, para engrossar o Epitácio ou o Geminiano, para lavar a alma enlameada de baixo ódio diante do êxito que não te faz mal porque te despreza como sempre te desprezou, ó multivulto sentir de tacanho engenho, tu ensandeces. Era fácil calar. Mas a cólera força-te a falar, e eu releio em seis meses da existência deste jornal tudo o que disseste contra o jornal e contra mim, sem impedir que desde o primeiro número e cada vez mais este jornal fosse o órgão da opinião pública com uma tiragem que o faz com o direito de falar pela população livre de uma cidade

(RIO, A Pátria, 16/03/1921).

O desespero é quase ódio:

A quantos me deste por vendido, velho pateta? A quantos banqueiros, ó frequentador de negócios, atribuíste as campanhas em que somos a voz da opinião? Passaste em revista todos os bancos e acabaste por falar em caça-níqueis. Que vergonheira de indigência mental!

João do Rio, pela primeira vez, reconhece que uma campanha de descredibilização foi montada contra ele, sua obra e seu jornal. Ele percebe que estão questionando seu trabalho e sua inteligência. Sentindo-se atacado, ele decide contra-atacar, mas já sem esperanças de reverter completamente a situação. A despeito disso, ele continua a lutar por sua causa, mesmo sabendo das dificuldades que enfrenta. O reconhecimento do que fez está em xeque por razões que não são intelectuais, são de “despeito”:

Que diabo! O êxito tu o reputas sempre originário de coisas tão simples? Mas por que não tens tu o público a ler-te os livros como eu tenho, sem o teu elogio, ó pulhíssimo alvar? Mas por que não consegues a Opinião a teu lado, lendo os teus jornais? Despeito, útil inimigo, continua. No dia em que cessar a tua fúria, eu terei a lamentável certeza de que sou teu igual... Avante! Sê contra sempre, fuçando o insulto bem reles. E crê-me, Despeito, o grato ex corde.

(RIO, A Pátria, 16/03/1921).

Na quarta-feira, 06 de abril de 1921, as invenções de João do Rio na direção das estratégias narrativas ainda dão o tom. O “Bilhete” desse dia é endereçado a X, amigo de Z. São as duas últimas letras do alfabeto que ele utiliza como caminho anunciando talvez o fim. Nesse “Bilhete”, o cronista retoma o seu olhar sobre ele mesmo na tentativa de compreender o teor dos insultos, as razões das campanhas:

Não há nada mais aborrecido do que falar de si mesmo. Mas em cem casos de autorreferência, 99 são levados a ela pela má vontade, pela inveja, ou simplesmente pela estupidez alheias. A má vontade, a rivalidade, a inveja, o ódio não irritam... Pelo menos a mim. Mas a estupidez é desequilibrante.

O cronista está perdendo seu equilíbrio emocional, atribuindo a estupidez como a culpada por essa situação. Ele reconhece que, embora esses insultos sejam escritos por pessoas medíocres, eles o atingem de forma particular, traduzindo seus medos e desconfianças, tirando-lhe o norte:

Toda gente sabe que eu tenho inimigos. Os meus “inimigos” são meia dúzia de sujeitinhos medíocres que há vinte anos repetem que eu sou careca, barrigudo, invertido e vendido. É uma fúria sistemática e monocórdia que irrompe a propósito de tudo e de coisa nenhuma. Eu publico um livro, que é um dos raros belos livros destes dez últimos anos, por exemplo. O livro não prejudica a ninguém. Abro um jornal. Aí se diz que eu sou barrigudo, calvo, invertido e vendido a propósito do livro que se qualifica de sem-vergonha. Eu vou a São Paulo comprar umas máquinas. Tome a repetição dos mesmos desaforos. Eu penso que aquele transeunte é alto. Lá vem a saraivada. Imperturbavelmente, quando é impossível negar a verdade, os malandros regougam.

(RIO, A Pátria, 06/04/1921).

Cercado por todos os lados, o cronista tenta desesperadamente justificar suas ações, avaliando minuciosamente suas opções de vida:

Alguns camaradas admiram-se que eu resista à avalanche diária. Eu devo dizer que não teria enchido vinte anos de um labor cheio de fulgor, não teria escrito trinta volumes, se não fosse o desejo de reação contra a canalha. Porque é pelo trabalho e pela sinceridade que eu tenho a opinião favorável de um grande crítico que eles não têm: o público.

O apelo ao público já não satisfaz o cronista, pois ele percebe que a cidade mudou drasticamente. O artificialismo se tornou a marca predominante do momento. A atenção, inteligência e profundidade perderam sentido. As coisas ganharam uma leveza que as desmancharam no ar. Reconhece que tinha antecipado esse destino, mas não se deu conta de que o observaria ao vivo e em cores. Quando escreveu “Um dia do homem em 1920”, via esse ano tão longe, agora o tinha ultrapassado e a pobreza de espírito dá o tom. Os medíocres ganharam e ocupam os lugares de decisão, passaram a dirigir os destinos da cidade e acabam com tudo o que lhes incomodou e incomoda:

Ainda agora, com a vida deste jornal, os palermas maus demonstraram a sua insuficiência imaginativa. A Pátria foi dos portugueses, com o dinheiro da colônia, quando há vinte anos a minha opinião a respeito de portugueses tem sido sempre a mesma. A Pátria foi dos italianos – da Banca de Sconto. E segundo algumas cartas anônimas é dos africanistas!

(RIO, A Pátria, 06/04/1921).

Para ele, era tão fácil ver a verdade. O jornal era resultado de seu trabalho, de parte de seus recursos: “Era tão mais simples ver a verdade: A Pátria, jornal de um brasileiro que nela tem o seu dinheiro e que nela combate o bom combate pela sua grandeza! Mas qual! Eu ainda hei de ler que A Pátria é dos chineses contra os japoneses”.

E ainda achava um momento para o riso, riso calado, sem espectadores, fechado nele mesmo, mas “assaz divertido”. O reconhecimento das campanhas o assusta. São tantas pessoas que nunca o viram, nunca o observaram, tampouco com ele tiveram algum diálogo e nem mesmo leram seus livros, são estúpidos “inconcebíveis”:

Apenas nestas misérias humanas o que me causa um pasmo desconcertante é a estupidez de certas criaturas que não me conhecem, nunca me leram, jamais tiveram o menor interesse contrariado por opiniões minhas, e que de repente saltam ao desaforo, repetindo as coisas que os concorrentes, à míngua de recursos, vociferavam. Ainda outro dia mostraram-me uma entrevista ou coisa que o valha de um médico naval. O homem repete que eu sou a “manta de toucinho com dois olhos

(RIO, A Pátria, 06/04/1921).

A lembrança dos ataques de Antonio Torres vem à tona. Ele foi o primeiro a escrever essa estupidez equivocada, porque para João do Rio nem mesmo é concebível na gramática da vida, pois “manta de toucinho com dois olhos” é impossível de imaginar:

O sujeito que disse tal coisa a primeira vez devia estar bêbedo, pelo menos. Mesmo que não o estivesse, não me ofenderia – porque não ofende quem quer mas quem pode. Depois ainda não banquei o Narciso e pouco se me dá que me comparem a Apolo ou a uma capivara. Mas em nome da inteligência, soubesse eu quem pôs a frase em circulação e pediria para emendá-la. Não conheço cozinheira desconhecedora de que não há mantas de toucinho. Manta só de carne-seca. Ou o meu elevado adversário chama-me de manta de carne com dois olhos ou de jacá de toucinho. Manta de toucinho é que é tolice

(RIO, A Pátria, 06/04/1921).

A revolta de João do Rio faz com que se dirija diretamente a Antonio Torres:

O médico, achando a piada gostosa, não viu o disparate. Daí estas linhas a você para insinuar-lhe que, quando publicar as baboseiras em segunda edição corrija a coisa. Você é amigo do homem. Ele acreditará. E talvez acredite também numa verdade: na minha grande pena quando vejo cavalheiros maus inutilmente, parvamente. De você.

Raro ver ataques pessoais diretos de João do Rio, o limite da paciência se esgotara. Na sexta-feira, 22 de abril de 1921, com seu ânimo, em parte, recuperado, permanece no ataque a Antonio Torres e o faz atingindo o seu pretenso saber sobre Minas Gerais e sua história. O destino fez com que só mais tarde Antonio Torres mostrasse a sua raiva e o ódio aumentado diante dos dizeres de João do Rio. No “Bilhete” desse dia sua conversa é com Tiradentes. Estávamos próximos do feriado nacional que comemora o Alfares.

Brincando com a data e com o Alferes, lamenta a comemoração de seu aniversário e engata uma avaliação inteligente da vida do Alfares e de tabela da Inconfidência Mineira. Queria lembrar que, em 1925, Antonio Torres publica As razões da Independência, que é a peça mais radical contra João do Rio e uma das pedras finais na memória do cronista. E se observamos com atenção o que João do Rio comenta acerca da experiência mineira, entende-se o teor da conferência de Antonio Torres, que deu origem ao livro. O livro tinha endereço certo: o ataque derradeiro a João do Rio como os leitores puderam ler mais atrás, exatamente porque o mote da crítica é a questão do patriotismo que naquele momento é o ponto central dos insultos. Mas vejamos o que diz João do Rio: “Devo apresentar-lhe pêsames pelo modo por que o aniversário do seu sacrifício se passou. Não sei se o Sr. alferes na conspiração que surgiu para a história com o nome de Inconfidência Mineira tinha ideias aventadas sobre patriotismo”.

Para João do Rio, a Inconfidência Mineira tinha “na sua ossatura o grito de revolta dos exploradores do ouro resolvidos a não serem mais explorados”. E estabelecendo uma relação com o presente, afirmava que esses exploradores que não queriam ser explorados colocavam os poetas, os intelectuais, os sonhadores na frente quando chegou a hora decisiva. E que só esses que eram a vanguarda possuíam as ideias de república, porque os exploradores de ouro, ao contrário, deram “o fora, sem piedade e sem vergonha”. E acrescenta: “Ainda hoje, Sr. alferes Xavier, vemos os patifes chamados homens conservadores fazerem o mesmo que os exploradores do oiro crivados de impostos fizeram, deixando que fossem presos alguns moços líricos que sonhavam a liberdade”.

Isso deve ter afetado no fundo da alma Antonio Torres e os mineiros, que, além de dominarem o estado e os negócios, ocupavam destacados cargos culturais e educacionais, formavam a base intelectual da capital federal. Estavam por todos os lugares, enchiam as academias, e conclui:

Para mim a Inconfidência não tinha nada que ver com o patriotismo. Foi apenas um caso em que portugueses e brasileiros donos de minas, furiosos com os impostos, serviram-se de pobres almas delicadas e de espíritos sonhadores a ver se o governo da Metrópole, com medo de zaragatas, os protegia a eles, mesmo que a primeira condição fosse prender ou degradar os jovens ilustres assaz ingênuos para acreditar em liberdade com malandros ricos ao lado.

O teor da crítica vai além, porque o objetivo é atacar Antonio Torres. O tom do “Bilhete” ultrapassa os limites do comportamento de João do Rio e a radicalidade das palavras é contundente e termina por envolver o presidente da República, mineiro:

Patriotismo, Sr. Xavier, está em ter fé num passado belo para criar um futuro realmente espantoso. Por isso tenho publicamente fé no republicanismo inexistente do Sr. alferes. E sinto que o dia da comemoração do seu martírio (há quem negue até o seu enforcamento) fosse tão friamente despercebido pela república de outro mártir: o Dr. Epitácio. Saúde e fraternidade no céu da sua glória.

No dia 25 de abril de 1921, segunda-feira, retoma conversa com o X, agora definindo-o como português, que é o amigo de Z. Ele é o “caro amigo” de quem João do Rio recebe uma carta afetuosa, tão afetuosa que mereceu a resposta publicada no jornal. O amigo X reconhece os disparates que são ditos contra João do Rio por “alguns malandros” inimigos e acusadores de que o A Pátria é um jornal bancado pela colônia portuguesa. O “Bilhete” se presta a fazer um elogio aos portugueses que não são ricos capitalistas e nem comendadores. Eles trabalham, e a maioria é pobre. Os insultos contra os portugueses e mais fortemente contra quem os defende é a razão de ser dos jacobinos disfarçados.

A questão que envolve o “Bilhete” é produto da pergunta: “Mas que interesse teria um sujeito cheio de negócios em manter um jornal que não é oficial, amigo dos governos?”

Para o cronista, tudo veio das suas ideias que custaram agressões físicas, inclusive de que os portugueses no Brasil não podem ser considerados como os outros estrangeiros, e a defesa que faz não envolve “nenhum interesse de português rico com esta ou com aquela repartição brasileira. Um milionário, seja de que nação for, tem sempre defensores. Eu seria desnecessário”.

Para provar a ausência de capitalistas portugueses e italianos, João do Rio abriu a ata de fundação do jornal A Pátria, demonstrando que suas palavras eram confirmadas e que “Por mais que pareça impossível nesta época de cavações, faço sem espalhafato um jornal independente e honesto”.

O pensamento de João do Rio se enche de brio e de moral, e a confissão de suas ações é o destaque do “Bilhete”:

O segundo aspecto é o moral. No dia em que eu estivesse mantido para defender os operários contra os geminianos ou os poveiros contra a urgência vexatória com que os forçaram a se nacionalizar – que valor teriam os meus artigos, quantas pessoas os leriam? Podem os miseráveis e incansavelmente reles invejosos pintarem-me com horrores. Cada vez mais os – que não têm despeito sentem que eu posso errar mas sempre sinceramente movido pela generosidade e pelo coração – que aliás começou a adoecer...Daí a inocuidade dessa campanha absurda que quer reduzir um nobre amor à baixeza de um aluguel. Eles, os canalhas, são tão indignos que acreditam haver dinheiro capaz de pagar um homem que deixa os seus interesses, traz as suas nobres economias, corta com as amizades do poder, sacrifica tranquilidade e saúde, para vir à rua gritar em nome do Brasil o protesto contra a fúria energúmena dos jacobinos. Não há dinheiros para pagar tais coisas, meu amigo, e cidadãos assim não podem ser mantidos nem explorar ninguém

(RIO, A Pátria, 25/04/1921).

São fortes e carregadas de pesar as palavras de João do Rio, especialmente pelo não reconhecimento de que o jornal que fundou era uma tentativa de criar uma dimensão crítica capaz de incentivar as novas gerações a pararem com a artificialidade e voltarem seus olhos para os problemas do Brasil, para as questões sociais que envolviam os operários da Ponta da Areia ou os dos acampamentos da miséria:

Com todas as misérias e insultos que nos atiraram – estamos, entretanto, assaz contentes com a força do nosso protesto, que realizou a reação operária contra o abuso do seu nome pelo jacobinismo, fez a intelectualidade do clero brasileiro obrigar a cessarem também a exploração do seu nome pelo nacionalismo, trouxe a espontânea simpatia de todas as classes aos portugueses.

E imagina um futuro porque “todos voltarão à razão”:

Como tenho repetido há meses, se as coisas forem assim, antes do Centenário não haverá mais o tal nacionalismo, cuja história de violência, insânia e insulto foi escrita semanalmente pelos infectos jornalecos da grey agonizante. Apenas ficará o incansável ódio contra mim. Quando cessar o jacobinismo só não cessará a fúria dos confrades. E aí então eu serei acusado de outra qualquer coisa absurda – para lavar o peito desses párias da inteligência e da dignidade.

Sem comentários, as palavras dizem tudo. O tom agressivo tomou conta de João do Rio e isso lhe ia fazendo mal por dentro. Nesse período, João do Rio havia ficado mais comedido com as refeições, tinha visitado sumidades médicas e aceito conselhos para alterar a sua vida. Agora em Ipanema, passeava pela orla, fazia-lhe bem olhar o mar, receber o cheiro e o ar marinho. Mas nem isso mudava o seu humor. Estava com um punhal no coração que podia acabar com ele num instante.

Na quarta-feira, 04 de maio de 1921, sua atenção estava voltada para Epitácio Pessoa com a exigência de que ele, como presidente da República, explicasse “os insultos no ar, as calúnias vagas, as agressões virulentas do seu meeting da Praia Formosa”.

Num comício de jacobinos nacionalistas, o presidente havia feito denúncias que viam todos da oposição como corruptos e ladrões, até “Floriano Peixoto”, João do Rio inicia por dizer da intolerância do presidente, que seria resultado da condição da

(...) roça quando está no poder: basta lembrar o régulo atrasado que mandou invadir a Escola Politécnica à pata de cavalo. Mas o Sr. Epitácio da Silva Pessoa, o carrança, pernóstico, o demagogo contra a oposição não nos interessaria e não nos interessa senão pela responsabilidade que deve ter o presidente da República das atitudes de mata-mouros verbal do dito Sr. Epitácio.

A contundência das palavras de João do Rio dirigidas ao presidente da República demonstra a raiva e o ódio que estão presentes na cabeça do cronista. Ele largou de lado a elegância, o não apetite para brigas e as suas estratégias, aquelas que me fizeram entender que havia um método crítico e, verdadeiramente há, mas cada vez mais se torna difícil perceber. O momento é de radicalizações, o cheiro da morte está no ar, numa batalha entre a mediocridade e a inteligência. Jamais, em outro tempo, João do Rio se dirigiria ao presidente da República dessa maneira. Por um lado, essas atitudes são interessantes para mostrar que João do Rio não era um bajulador de autoridades, desfazendo parte dos insultos e criando um espanto geral, muito maior do que seus contos escabrosos e mentirosos, porque os brasileiros jamais poderiam desenvolver vícios e taras como os que eram revelados em seus contos, só podiam advir dele mesmo de suas experiências nada humanas.

João do Rio acrescenta que o Brasil não podia ter um presidente que afirmava não conhecer nada de finanças num momento de tensão mundial pós-guerra e nem provocador de ódios pessoais como os que João do Rio denunciava nas ações do presidente contra Maurício de Lacerda, ameaçando-o de cassação. E muito menos governado por “um megalomaníaco em perpétua crise que leva o país à desgraça só porque não quer concordar nas emendas trazidas pela fiscalização dos jornais independentes”.

A seriedade da análise mostra a gravidade do momento na vida do cronista, que repete que “o Brasil pode aguentar firme o extravagante nacionalismo de um chefe de nação que dá a estrangeiros polpudos contratos, encampações gordas e se reserva em cólera contra os portugueses, satisfazendo e animando assim a sanha de patriotas cutubas, como o Delamare da Transoceânica”.

Mas o que mais irritou João do Rio nesse comício foi o presidente “vir para o barracão da Praia Formosa, discursar num meeting arranjado pelos jacobinos, dizer entre banalidades de retórico da roça inverdades e calúnias”. E isso adianta que:

Este jornal apresentava ontem ao presidente da República algumas perguntas. As respostas do supremo magistrado confirmarão ou desmentirão o Sr. Epitácio Pessoa, que não pode e não tem o direito de acusar sem provar.

O senhor disse que há estrangeiros montando jornais para atacar o Sr. Epitácio.

É preciso provar.

O senhor disse que há brasileiros assalariados por estrangeiros para fazer mal ao Brasil em jornais.

É preciso indicar qual o brasileiro assalariado e provar. Provar – porque todos os jornalistas brasileiros que não concordam com o seu governo estão sob o cutelo de papelão desse ataque (...)

(RIO, A Pátria, 04/05/1921).

João do Rio vai além ao denunciar o envolvimento de certos jornais com os interesses do presidente, recebendo recursos estatais, apesar das negações de Epitácio. Ele acrescenta um tom final contundente, como se observa seguir:

Eu sinto muito. Mas não posso admitir de um chefe de Estado arreganhos meetingueiros insultando os jornais que não o aplaudem. E por isso, enquanto o Sr. Epitácio não provar o que disse no meeting e corroborou na catilinária mensagem, este jornal será forçado a pedir-lhe diariamente as provas contra os jornais que pediram dinheiro ao Catão do Catete

(RIO, A Pátria, 04/05/1921).

A guerra estava declarada, e os “Bilhetes” daí em diante estarão voltados para as denúncias da má administração do presidente. Em 29 de maio de 1921, um domingo, um novo personagem entra em cena: o “Bom Senso”. Estamos a menos de um mês da morte de João do Rio. O “Bilhete” parece um acerto de contas, um grande resumo de suas atividades, a começar pelo abandono do nacionalismo tacanho que limita a inteligência e que se revela no reconhecimento da leviandade de Epitácio Pessoa e na perversidade de seus ajudantes, como o Sr. Geminiano, delegado de polícia.

João do Rio registra que o movimento contra ele ganhou força quando ele estava na Europa, na Conferência de Paz, com:

(...) todos os vencidos, todos os mariolas do bandinho atrevido insultavam-me, atribuindo-me unicamente várias mentiras, porque eu depois da minha terra amo e respeito um dos maiores povos da terra que é o português e me orgulho de descender dessa nobre, honesta e valorosa gente, mãe e irmã, formadora e amiga do meu país.

A questão do jornal A Pátria volta à cena pelo vanguardismo na cobertura dos impactos da guerra mundial:

As intrigas e as infâmias, quando fundei este jornal de independência e de verdade que tem de ser a expressão do Novo Brasil, redobraram. O povo concordava comigo, consagrava aceitando a forma da sua opinião que é A Pátria. Era preciso mais? Eu fui mais uma vez para essa cáfila desprezível tudo quanto pode haver de ruim, e A Pátria na boca dos Calamares e outros patetas era vendida, era sustentada por portugueses – para ter as opiniões que eu tenho desde que escrevo em jornais, isto é: há 20 anos!.

A constatação do ridículo das campanhas contra João do Rio é comentada com o “Bom Senso”:

Não morremos de caretas e continuamos a combater o bom combate. O jacobinismo existia, porque enquanto a vaidade pueril do Sr. Conde Affonso Celso e a impertinência cangaceira do Sr. Epitácio lhe davam auxílio às histerias o público ria da sem importância dos “autores do movimento”.

A defesa da independência do A Pátria ganha relevância:

A Pátria mostrou as ignóbeis injustiças, provou o mal que a estupidez jacobina contra portugueses fazia ao crédito moral do Brasil, pátria de liberdade, pátria de fé e esperança, pátria cuja história se ligava à radiante história de um povo heroico. Os que riam da sem importância dos Calamares viram a verdade.

Se com impudente cinismo o “novidades sem rival” do lusofonismo apelava com ares de crente para o catolicismo, fé brasileira, o ilustre cônego Rangel e S. Eminência o Cardeal Arcoverde publicamente são contra os frenéticos palermas.

Se, com insolência provada, os exploradores queriam envolver o nobre ardor patriótico da mocidade brasileira, os moços das escolas protestam contra a chantagem, gritam o seu forte nacionalismo batendo o vesgo ódio jacobino.

E por todos os lados o bom senso brasileiro diz o basta! a essa covardia de uma baderna com proteção de um Tropoff de cabidela, a essa sinistramente pândega Ação da Tolice, que ataca e insulta portugueses

(RIO, A Pátria, 29/05/1921).

João do Rio perdeu o pé da situação. Achava que tinha vencido pelo bom senso, acreditava que o jacobinismo agonizava, mas quem tinha iniciado a sua agonia era João do Rio. Na segunda-feira, 13 de junho de 1921, o “Bilhete” introduz mais um novo personagem: Dondon de Alvear, que é a representação dos medíocres, dos cavadores, dos que estão todo o tempo na busca de empregos públicos e que realiza qualquer papel, desde casamentos por golpes do baú até corrupções. Dondon é um analfabeto, mas posa de inteligente e esperto. Ele era “só um vagabundo elegante” e conseguiu tudo se aproximando de Epitácio Pessoa e prosperou:

Você de fato prosperou. Vi-o de terno novo, depois de andar ajudando a missão do Bonifácio de Figueiredo que pelos jornais parece ter salvo todas as ilhas da ancilostomíase com uma injeção, mas que é realmente pitoresco pela satisfeita e sorridente falta de inteligência com que diz bobagens.

O mais impressionante foi ver o Dondon ser chamado de doutor e de republicano histórico, presidente do Centro Nacionalista dos Cariris, chefe da Liga Nacionalista dos Carijós, membro do Conselho Consultivo Nacionalista dos Manés de tilbureiros pescadores – todos filiados ao “Gil Blas”: “Como você subia!”. Esse “Bilhete” foi a derradeira crítica ao estado de coisas na capital federal. E chegamos ao último dia da vida de João do Rio. No seu último “Bilhete” há uma referência direta a sua saúde. O “Bilhete” é endereçado “Ao vice-embaixador Clark. – Paris”:

– Pergunta você, meu caro Clark, como vamos de Rio de Janeiro? É a amável pergunta dos diplomatas que estão com o Oscar de Carvalho Azevedo em Paris preparando com o marechal Foch as festas de 15 de novembro na Ópera. E para ser amável, eu diria:

– Não tão bem como você, Clark. Porque a verdade é que não se pode ir pior.

João do Rio está completamente descrente de qualquer coisa. Seu comentário revela o estado de coisas da capital Rio de Janeiro, enquanto em Paris se gasta dinheiro para comemorar a República brasileira e aqui as comemorações dos cem anos da Independência estão atrasadas, e tudo por incompetência de Epitácio Pessoa:

(...) que quer provar de como se leva um país à ruína sem para isso ser preciso saber finanças. Assim os preços parecem titãs bêbedos. Um jantar derreia um homem e um fato custa 450$.Também antigamente havia higiene. Agora a repartição aumentou, não há mais açucareiros e sim pulverizadores de açúcar, os varejistas são multados militarmente. Em compensação as epidemias voltam a ser endemias e o diretor da Higiene vai passear a América. Outra coisa que havia no seu tempo era dinheiro. Agora, o Epitácio gastou-o ou escondeu-o (...)

(RIO, A Pátria, 23/06/1921).

E chama atenção para as mudanças na cidade e no humor dos cariocas:

Quando você ainda não tinha ido para Paris, roubando aos seus camaradas do Itamaraty a sua tão delicada convivência, os brasileiros andavam todos sem saber onde iam, mas satisfeitos, tranquilos. Agora continuamos a pouco querer saber onde vamos, mas, com uma diferença: é que vamos inquietos, amargos, convulsos, enfim – “epitaçados”.

Comentando a situação, propõe uma aposta com o embaixador Clack. Nesse exato momento é que João do Rio menciona a sua situação de saúde dizendo: “Eu apostaria a minha vida (dois anos ainda, se houver muito cuidado segundo o Rocha Vaz, o Austregésilo, o Gilberto Moura Costa e outras sumidades) contra dois tostões de como você, Clark, não encontraria ninguém que se mostrasse satisfeito”. João do Rio acreditava que ainda teria dois anos de vida no mínimo e que também viveria as comemorações do centenário da Independência, embora os projetos estivessem mais atrasados do que aqueles que em Paris comemorariam a República.

Nesse dia sentiu-se meio fatigado, talvez por conta de seu passeio matinal; demorou-se mais do que comumente olhando o horizonte, lembrou-se de Isadora Duncan, da alegria dos encontros e da beleza feminina. Trabalhou todo dia, de tarde pegou um táxi e pediu que o levasse para casa em Ipanema, mas não chegou, morreu no caminho, e deixou livre a estrada para o apagamento de sua memória. Durante cerca de 50 anos, desapareceu, e quando foi redescoberto mais intensamente na década de 1990, o apagamento havia mudado o rumo da conserva, passou a ser lembrado como o jornalista, o cronista. Esqueceram que a obra de João do Rio continha outros aspectos que envolveram a criação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT) e a produção de um método crítico para entender, descobrir o que era a cidade do Rio de Janeiro. Mas, acima de tudo, o que fiz neste artigo foi um enorme esforço de tentar revelar a força do historiador-pedestre, do literato-psicólogo, do poeta-etnógrafo e de tantas outras designações que dei a João do Rio e que nem me recordo agora.

A morte de João do Rio, que mais parece um suicídio, resultou dessas situações por ele vividas quando seus inimigos perceberam o quanto ele era perigoso e ameaçava tanto quanto Lima Barreto. Eram os anos 1920, da prefeitura de Carlos Sampaio, do desmonte do Morro do Castelo, da transferência da cidade para a área sul, como que refazendo o ideal de capital nessa região da cidade. Com suas denúncias, os dois Barretos mostravam o peso do conservadorismo na história da modernização, indicando que a casa havia vencido a rua. Mas a vitória conservadora dos modernos não foi fácil, ela produziu e produz muita luta, e João do Rio, assim como Lima Barreto, merecem nossa atenção pelo lado bom do deslumbramento, daquele que nos tornam amantes da cidade, que são terrestres na cidade do Rio de Janeiro. Vocês, leitores, que se encarreguem disso, deixo-os à vontade. Com isso, termino este conjunto de dizeres que, peço vênia, resultam de alguém que incorporou o espírito do poeta da rua e, já idoso, toma o que escreveu como memórias. Ponto final?

Referências

ABREU, Maurício. (1990). Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/Instituto Pereira Passos.

ATLÂNTIDA, Revista Atlântida. (1916). Mensário artístico, literário e social para Portugal e o Brasil.

BROCA, Brito. (1956). A vida literária no Brasil – 1900. Rio de Janeiro: José Olympio.

CAMILOTTI, Virgínia. (2008). João do Rio, ideias sem lugar. Uberlândia: Editora da UDUFU.

CAMILOTTI, Virgínia. (2013). La revue Atlantide et la latinité. IN: Hommes de lettres et la Res publica au Portugal et au Brésil. Paris: Michel Hondlard Éditeur.

CELSO, Afonso. (1920, 19 out.) Jornal Gil Bras.

COUTO, Ribeiro. (1924). A cidade do vício e da graça. Rio de Janeiro: Benjamin costallatr & Miccolis Editora.

NEVES-MANTA, Inaldo. (1970). A arte e neurose de João do Rio. Rio de Janeiro: Livraria São José.

O’DONNEL, Júlia. (2008). De olho na rua. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

RIO, João do. (1925). O bebê da tarlatana rosa. Rio de Janeiro: Lux

RIO, João do. (1995). A mulher e os espelhos. Rio de Janeiro: Biblioteca Carioca/Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

RIO, João do. (2015). Memórias de um rato de hotel. Rio de Janeiro: Dantes.

RIO, João do. (1920,1921). Coluna “Bilhete”. A Pátria.

RIO, João do. (1911a). Psychologia urbana. Rio de Janeiro.

RIO, João do. (1911b). Vida vertiginosa. Rio de Janeiro: Garnier.

RIO, João do. (1952). A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Organizações Simões.

RODRIGUES, Antonio E.M. (2002). Em algum lugar do passado. Cultura e história na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro – capital e capitalidade. Rio de Janeiro: UERJ.

RODRIGUES, Antonio E.M.; CARRIS, Luciene. (2023). De “Colina sagrada – berço da cidade” a “Dente cariado”. A modernidade carioca e o morro do Castelo (1822-1922). Rio de Janeiro: Editora Ayran.

RODRIGUES, João Carlos. (1996). João do Rio: uma biografia. Rio de Janeiro: Top Books.

RUFINO, Luiz. (2019). Pedagogia das Encruzilhadas. São Paulo: Mórula Editorial.

SILVA, Maria de Lourdes da. (2015). Drogas: da medicina à repressão policial. A cidade do Rio de Janeiro entre 1921 e 1945. Rio de Janeiro: Outras Letras/Faperj.

SIMAS, Luiz Antonio. (2019). O corpo encantado das ruas. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira.

TORRES, Antonio. (1925a). As razões da Inconfidência. Rio de Janeiro: A.J. Castilho.

TORRES, Antonio. (1925b). Prós & contras. Rio de Janeiro: Livraria Castilho.

TORRES, Antonio. (1922). Pasquinadas cariocas. Rio de Janeiro: Livraria Castilho.

TORRES, Antonio. (1921). Verdades indiscretas. Rio de Janeiro: Livraria Castilho.

Notes

2 Ver as indicações completas nas referências.
3 Para ter uma ideia dessa produção, é interessante ler “A alma encantadora das ruas”, “Psicologia Urbana e Vida Vertiginosa”, principalmente, todas obras de João do Rio.
4 Para compreender essas diferenças, leiam RODRIGUES, AEM. “Em algum lugar do passado: história e cultura na cidade do Rio de Janeiro” (ver a indicação completa nas referências)
5 Ver o livro de RODRIGUES, AEM; CARRIS, Luciene. Da Colina Sagrada ao Dente Cariado: a modernização carioca e o desmonte do Morro do Castelo (indicação completa nas referências)
6 As 52 colunas “Bilhete”, do periódico A Pátria, foram publicadas de 4 de outubro de 1920 a 23 de junho de 1921, e estão disponibilizadas no endereço https://www.bilhetesdejoaodorio.com.br/a, projeto da jornalista Cristiane d´Avila (FIOCRUZ) financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ).


Buscar:
Ir a la Página
IR
Scientific article viewer generated from XML JATS by