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Significado da maternidade e maternagem para mulheres que usam cadeira de rodas.
Meaning of motherhood and mothering for women who use wheelchairs
Significado de maternidad y maternidad para mujeres usuarias de silla de ruedas
Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, vol. 16, e-13144, 2024
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Artigo Original

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Recepción: 19 Marzo 2024

Aprobación: 30 Marzo 2024

DOI: https://doi.org/10.9789/2175-5361.rpcfo.v16.13114

Resumo: Objetivo: compreender o significado da maternidade e da maternagem em mulheres que usam cadeiras de rodas. Método: investigação qualitativa envolvendo seis mulheres cadeirantes. Coletaram-se os dados por meio de entrevistas semiestruturadas, submetidas a análise temática de conteúdo. Resultados: o significado da maternidade envolve sentimentos positivos e alguns negativos como "medo", “ansiedade” e ainda atributos como "sonho" e “maravilhoso”. No tocante à maternagem as participantes entendem que elas são responsáveis pelos cuidados nos primeiros tempos de vida do bebê, e que ao longo desse processo surgem dificuldades, todavia percebem que os resultados e benefícios encontrados são muito mais relevantes. Conclusão: compreende-se que o significado da maternidade e da maternagem em mulheres cadeirantes é permeado por sentimentos ambivalentes e concomitantes, os quais foram reformados com aspectos de superação e autoestima, sobretudo aos estereótipos negativos traçados socialmente e culturalmente.

Palavras-chave: Pessoas com deficiência, Mulheres, Gravidez, Enfermagem.

Abstract: Objective: to understand the meaning of motherhood and motherhood in women who use wheelchairs. Method: qualitative research involving six women in wheelchairs. Data were collected through semi-structured interviews, submitted to thematic content analysis. Results: the meaning of motherhood involves positive and negative feelings such as "fear" and "anxiety" and attributes such as "dream" and "wonderful". Regarding mothering, the participants understand that they are responsible for the care in the first days of the baby's life, and that throughout this process difficulties arise, but they realize that the results and benefits found are much more relevant. Conclusion: it is understood that the meaning of motherhood and motherhood in women in wheelchairs is permeated by ambivalent and concomitant feelings, which have been reformed with aspects of overcoming and self-esteem, especially the negative stereotypes outlined socially and culturally.

Keywords: Disabled persons, Women, Pregnancy, Nursing.

Resumen: Objetivo: comprender el significado de la maternidad y la maternidad en mujeres usuarias de silla de ruedas. Método: investigación cualitativa con seis mujeres en silla de ruedas. Los datos fueron recolectados a través de entrevistas semiestructuradas, sometidas a análisis de contenido temático. Resultados: el significado de la maternidad involucra sentimientos positivos y algunos negativos como "miedo", "ansiedad" y también atributos como "sueño" y "maravilloso". En cuanto a la maternidad, las participantes entienden que son responsables de los cuidados en los primeros días de vida del bebé, y que a lo largo de este proceso surgen dificultades, pero se dan cuenta de que los resultados y beneficios encontrados son mucho más relevantes. Conclusión: se entiende que el significado de la maternidad y la maternidad en las mujeres en silla de ruedas está permeado por sentimientos ambivalentes y concomitantes, los cuales fueron reformados con aspectos de superación y autoestima, especialmente los estereotipos negativos delineados social y culturalmente.

Palabras clave: Personas con discapacidad, Mujeres, Embarazo, Enfermería.

INTRODUÇÃO

A maternidade é definida como o exercício do papel de mãe pela mulher. Ser mãe é um direito social que pode ir além de um processo biológico, e por ser um evento que tem origem no corpo, a maternidade e reprodução adquirem significados diferentes em função da época e do contexto sociocultural nos quais acontece.1-2

O exercício da maternidade no século XXI vem acompanhado não só de expectativas de realização, mas também de medo e ansiedade, visto que o desejo de ser mãe muitas vezes é adiado ou questionado, em função da insegurança de não dar conta dos papéis já desempenhados pela mulher, somados às responsabilidades maternas, além do medo de não se sentir realizada neste papel, pois para cumprir seus compromissos, terá que contar com o apoio de terceiros para cuidar do(s) filho(s).1

Por outro lado, divergindo deste conceito temos a definição de maternagem, que por sua vez, é alcançada através do estabelecimento do vínculo afetivo de mãe e filho. Nela, existe uma definição peculiar, que é influenciada por questões culturais, conferindo expressividade na relação e no cuidado da díade mãe-filho, o que não acontece com a maternidade, pois está estabelecida unicamente por relações de sangue.3

A vivência da maternidade tem ocorrido cada vez mais por mulheres com variados tipos de deficiência e diferentes realidades culturais.4 Esse desejo de maternidade que muitas vezes pode ser biológico, é também, contudo, diretamente moldável por questões individuais e influências sociais. Não seria diferente para as mulheres que têm deficiência, todavia, a família e a sociedade, muitas vezes são tendenciosos por acreditarem que mulheres com deficiência e que usam cadeira de rodas não têm vida sexual ativa e põem em dúvida se elas teriam capacidade de engravidar, gestar e parir.5

A capacidade de gestar é considerada por uma porcentagem das mulheres como um fato extremamente significativo, tanto dos pontos de vista físico e fisiológico quanto do emocional e social. A gestação inspira cuidados preventivos para garantir a boa saúde materno-infantil, sendo assim, na mulher que usa cadeira de rodas, esses cuidados devem levar em consideração, a necessidade de atenção quanto a acessibilidade comunicacional, atitudinal e arquitetônica, considerando a transversalidade das ações e singularidade das ações nos serviços de saúde.

A gravidez e o parto são eventos que demandam da mulher conhecimento, preparo e orientações, em função das mudanças sociais, físicas e emocionais. Para as mulheres com deficiência, essa realidade é a mesma, acrescida das diferentes circunstâncias que necessitam superar, como a acessibilidade, o preconceito sociocultural e os problemas de comunicação com os profissionais de saúde.5

As preocupações com a qualidade do atendimento são problemas comuns relatados por mulheres com ou sem deficiência, em grande parte relacionados à atitude e aos comportamentos do profissional de saúde que muitas vezes desestimulam as mulheres a procurar serviços de saúde materna.7 As mulheres com deficiência física afirmam que mulheres cadeirantes são desencorajadas por alguns profissionais de saúde à maternidade.8

Diante deste cenário culminou na seguinte pergunta: qual o significado percebido pelas mulheres que usam cadeira de rodas sobre maternidade e maternagem? Em face ao exposto, esta pesquisa definiu como objetivo: compreender o significado da maternidade e da maternagem para mulheres que usam cadeiras de rodas.

MÉTODO

Estudo descritivo com abordagem qualitativa, realizado com mulheres que usam cadeiras de rodas. Como critério de inclusão consideraram-se: mulheres com deficiência física e que usam cadeira de rodas, que engravidaram após a deficiência física e em estado de orientação auto e alopsiquicamente e como critério de exclusão mulheres menores de 18 anos.

Para seleção da amostra foi adotada a técnica Bola de Neve (Snowball). A coleta de dados teve seu término pelo critério da saturação, quando foi possível perceber a repetição das falas e alcance dos objetivos propostos, o que se percebeu na sexta entrevista.9

Devido ao contexto pandêmico da COVID-19, inicialmente utilizaram-se os recursos de acesso livre na Internet como redes sociais Instagram, Facebook e Blogs, e entrou-se em contato com a provável primeira participante utilizando endereço eletrônico disponibilizado na página da internet, ou possibilidade de mensagem pelo próprio recurso da rede social, que foram obtidos por já estarem divulgadas na internet.

Em seguida, entrou-se em contato por meio de uma carta convite, na qual foi possível explicar de que se tratava a pesquisa, sobre a pesquisadora, a instituição a qual a pesquisa está vinculada e a proposta da pesquisa. Ao final da Carta Convite foi soliacesso da provável participante que confirmasse se desejava ou não participar. Caso existisse concordância em participar, foi soliacesso que ela indicasse data para encontro online utilizando-se do Google Meet. Nesta oportunidade, foram esclarecidas dúvidas que a Carta Convite não tivesse informado e explicada detalhadamente a pesquisa.

Após tais explicações, foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo enviado para o e-mail da provável participante. Após concordância da participante, evidenciada pela marcação no TCLE em campo específico para esse registro (assinalado) ou por meio de assinatura digital, se deu o envio do questionário com questões utilizando recursos do Google Forms.

Após a obtenção das respostas do questionário e confirmação do recebimento via on-line, ocorreu o início da entrevista on-line utilizando o roteiro semiestruturado sendo a primeira parte com perguntas fechadas para caracterização das participantes com as seguintes variáveis: idade, estado civil, nível de escolaridade, tipo de paraplegia, história obstétrica, número de consultas no pré-natal e serviço em que as consultas foram realizadas e a segunda com questões abertas como: qual o significado da maternagem e maternidade. A entrevista ocorreu utilizando o recurso de gravação da transmissão oferecido pelo Google Meet, com duração média de aproximadamente 60 minutos. A coleta aconteceu no período de abril a junho.

Posteriormente, as entrevistas foram transcritas na íntegra. As falas foram submetidas à análise de conteúdo temática, sendo assim descritas: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados obtidos e interpretação. A primeira fase consistiu na leitura flutuante do material, construção do corpus com base na exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência, na formulação de hipóteses e objetivos. Na segunda fase, as unidades de contexto foram identificadas com categorização e de acordo com o nível semântico, sendo identificadas duas categorias. Na terceira fase a descrição dos resultados foi realizada por meio de inferência, e para que tivesse validade significativa, buscou-se com base no referencial teórico.10

O estudo teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ensino Superior e Desenvolvimento – CESED/FCM, e após a apreciação e aprovação com parecer nº 44426921.1.0000.5175. O anonimato das participantes foi assegurado pela letra “C”, referente a cadeirante, seguida de um algarismo que corresponde a ordem de realização da entrevista.

RESULTADOS

CARACTERIZAÇÃO DAS PARTICIPANTES

A idade das participantes variou entre 26 e 40 anos, sendo casada o estado civil de maior prevalência. A maioria tinha graduação. Todas as mulheres participantes da pesquisa tornaram-se cadeirantes após o nascimento: sendo todas devido sequelas de acidente automobilístico com lesões traumáticas, levando-as para a condição de paraplegia. Quanto aos aspectos relacionados à deficiência e ao uso da cadeira de rodas, todas as participantes relataram o tipo de paraplegia por lesão medular, a metade localizada nas vértebras T12-L1-L2 e T12-L1.

Quanto ao tempo de deficiência física com lesão medular, todas as mulheres usam a cadeira de rodas há mais de 12 anos. Em relação às características obstétricas, mais da metade eram primigestas. Quanto ao tipo de parto que vivenciaram, todas foram cirurgia cesárea. A respeito de casos de aborto, todas relataram que não vivenciaram esta experiência. Todas as participantes relataram que a gravidez ocorreu de forma espontânea, sem necessitar fazer uso de mecanismos ou recursos como inseminação artificial ou outros métodos.

Sobre o pré-natal, todas as participantes referiram realizá-lo, sendo que a metade na rede privada de saúde, com número de consultas igual ou maior que nove, tendo o início no primeiro trimestre. Metade das participantes receberam simultaneamente, no atendimento pré-natal, consultas médicas, de enfermagem e de fisioterapia.

SIGNIFICADO E EXPERIÊNCIA DA MATERNIDADE: SENTIMENTOS CONCOMITANTES

O significado da maternidade envolveu sentimentos ambivalentes ou concomitantes que é característico deste período na vida de uma mulher, uma vez que é vivenciado processo de alterações tanto físicas quanto emocionais nessa experiência de gestar. Ao descreverem o significado da maternidade fizeram referência a expressões como “sonho”; “maravilhoso” que remete a sentimentos de alegria, superação, autoestima; contudo, junto às estas falas existiram também palavras que tratavam de medo, ansiedade e dúvida.

Nesse conjunto de sentimentos destacamos inicialmente os que são positivos, conforme as falas a seguir:

Pra mim a experiência de ser mãe foi muito maravilhosa, porque foi uma escolha consciente. Eu engravidei aos trinta e cinco anos e o meu filho nasceu eu tinha feito recentemente trinta e seis, foi em 2016. Então foi uma gravidez planejada e... bem feliz assim, meu ano grávida foi um ano bem maravilhoso, né. Eu tenho o privilégio de trabalhar em uma empresa de inclusão de pessoas com deficiência, (...) então me deu todo o apoio, tive bastante flexibilidade principalmente no último mês. (C-4)

Acho que a partir do momento que você quer ser mãe, independentemente de ter deficiência ou não, já é um processo que mexe muito com seu sentimento. Eu sou paraplégica porque tive um acidente de moto. E aí eu fraturei a coluna, na altura de T12/L1, bem na parte da lombar. Fiquei um ano tentando engravidar, não consegui. Aí eu fui fazer os exames mais detalhados e descobri que eu tinha um pólipo no útero e aí eu tive que fazer uma cirurgia pra remover esse pólipo. Depois que eu removi o pólipo, eu engravidei no período normal, engravidei de forma natural. E assim o meu filho veio! Depois de três meses de tentativa. É... pra mim como eu já tava há um ano e três meses tentando é...a gravidez, foi muito...foi um sentimento muito bom, num sei nem explicar! Só chorava, quando eu vi o teste positivo. (C-1)

Olha, como sempre foi um sonho para mim é... gestar, grávida, ser mamãe, né. Então pra mim tá grávida do segundo, pra mim é maravilhoso assim, né. Por mais que tenha a parte de desconforto, né. De me deixar um pouco mais limitada, mas só agora no final que tá...que eu tou passando por isso também. Eu acho que todo sacrifício é válido pra mim ter o meu filho depois, né. Então não tenho nenhum...nenhuma, nada que questionar assim, ruim ou alguma coisa que eu esteja achando ruim. Eu acho que eu só tenho pontos positivos, tanto na primeira, quanto na segunda, eu tive um pouco de dificuldade, uma diferente da outra. Mas...pra mim é maravilhoso, é a realização de... de mais um sonho, né. (C-2)

Por outro lado, as limitações trazidas pela deficiência têm gerado estigmas para essas mulheres ao longo do tempo. Os pontos negativos também foram reforçada nas falas das participantes ao mencionarem sentimentos como medo e atribuindo maior ansiedade a esse processo, considerando possíveis situações relacionadas de forma direta as condições clínicas características da deficiência:

Primeiro eu tive um pouco mais de ansiedade assim, de não saber, de ser desconhecido. Eu não estudei como seria uma gestação na minha situação, né. Foi tudo muito novo. Então eu tipo, fiquei muito ansiosa no início até...até conversar com meus médicos e tal. E eles me tranquilizarem, porque também tinha o fator de que na lesão medular, com o uso do aparelho, com a questão da dor neuropática. Não tem como saber se vai ter dor ou não vai ter. A bexiga neurogênica como é que vai se comportar, não tem como saber tudo isso, né. (C-2)

Quando eu descobri a gravidez, eu já tava perto dos três meses, entrando nos três meses e aí... no início eu tive muito medo, mas... ainda passei sem acreditar, sem saber o que ia fazer, né. Continuar por causa da hastes que tava quebrada, mas depois encontrei...um médico maravilhoso, que cuidou de mim muito bem, deu tudo certo, graças a Deus!. (C-3)

MATERNAGEM: SIGNIFICADO, DIFICULDADES E BENEFÍCIOS

As participantes entendem que por mais que recebam apoio e ajuda, elas são responsáveis pelos cuidados nos primeiros tempos de vida do bebê, e que ao longo desse processo é comum o surgimento das dificuldades, seja no cuidado ao filho, relacionado a deficiência ou os dois:

Os cuidados com o bebezinho, já que é muito mais da mãe nesse início, né...Por conta do peito, por conta de tudo, né. Você que troca fralda né, é tão pequeninho, né. E eu que acabava conduzindo ele um pouco mais. Mas acho que assim na hora do banho é um pouco mais difícil porque é... ser cadeirante você tem uma certa limitação de equilíbrio do tronco, então ir pra frente com seu...sem peso nenhum já é difícil, ainda mais com peso, então, por mais que o bebezinho seja leve, era um pouquinho mais desafiador. (...) Agora o que eu senti de maior dificuldade por ser cadeirante é porque a Cesária ela doía muito pra qualquer mulher e pra mim doía muito também. (C-5)

Todavia, uma das participantes alega não ter encontrado dificuldades no cuidado ao recém-nascido, apesar da deficiência:

Não, não acho. Mesmo sabendo que tudo foi uma superação, ou mesmo assim tendo essa superação, eu acho que não teve dificuldade só porque eu sou uma pessoa que usa cadeira de rodas. Eu entendo as dificuldades que eu encontrei nesse parto, gravidez ... toda mulher passa por essas coisas. Pra mim é. Acho que... porque tanto assim minha família mesmo eles me... falam que se admira que eu não senti nada na minha gravidez. E eles sentiram... tinha algum problema e eu não tive nada, nada, nada, nada. Nem uma dorzinha eu sentia e o parto também. (C-3).

Apesar das dificuldades encontradas pela maioria das participantes, no decorrer da gestação e no pós-parto, elas enxergam que os resultados e benefícios encontrados ao longo desse processo são muito mais relevantes:

Ah...eu não sei explicar...é...eu não sei mais imaginar minha vida sem ele! É… é muito intenso. É....um grande aprendizado, principalmente do que é o amor, assim, verdadeiro, grandioso, enfim...é...eu aprendo muito com ele assim. E a gente...são coisas que só vivendo como mãe que você percebe que...que não, você tem que dar atenção pro seu filho, dar amor, dar carinho e que colo demais não significa que ele vai ser mimado. São coisas que eu realmente aprendi depois (risos). (C-1)

O que eu vivenciei e tive nessa experiência toda da gravidez e com meu filho depois de parto eu digo que foi realmente... valeu a pena essa experiência toda da gestação… (...) E acho que o resultado final foi bom pra mim, e por mais que eu tenha... porque assim, a gente sempre... pensa... eu sempre procuro pensar positivo, né. (E-2)

DISCUSSÃO

A maternidade está atrelada à mulher e suas atribuições enquanto mãe; nisto é enfatizado que as práticas que envolvem a maternidade, possuem alicerce em conceitos fundamentais de que a mesma é um instinto inerente às mulheres, imbuídas do mito do amor materno, visto como natural. Logo, pode ser definida como o exercício do papel de mãe executado pela mulher.11

Outro ponto que influenciou a compreensão acerca da maternidade foi o advento do movimento feminista, a partir da metade do século XX, quando a maternidade passa a assumir uma dimensão reflexiva a ser analisada pensando nas condições econômicas, sociais e culturais das mulheres e do casal.12

Na ocasião da gestação, a mulher cadeirante apresenta muitas dificuldades, que permeiam desde dificuldades de locomoção em busca de atendimento de saúde, até a atitude dos profissionais de saúde que irão prestar cuidados a essa gestante, o que poderá afetar tanto a qualidade da assistência à saúde materna, como a saúde fetal.5

Ao considerar os sentimentos característicos de realização, estudos revelam que a maternidade das mulheres cadeirantes é a concretização de um sonho e uma afirmação da sua feminilidade e autoestima. Entretanto, elas precisam empreender grandes esforços para responder às expectativas sociais para se tornarem mães suficientemente boas.13-15

Essa necessidade de responder às expectativas sociais, têm gerado estigmas para pessoas com deficiência ao longo do tempo, e foi reforçada também nas falas das participantes ao mencionarem sentimentos como medo, dúvida e atribuindo maior ansiedade, considerando possíveis situações relacionadas de forma direta às condições clínicas características da deficiência.15

O significado da maternidade para as participantes favoreceu maior relação com superação, realização e positividade, sendo estes aspectos fortalecidos pela quebra de paradigmas ou conceitos pré-formulados, uma vez que de acordo com Santos16, mulheres com deficiência são atingidas duplamente pelos estereótipos e práticas discriminatórias em função do gênero e da deficiência. Essa combinação gera uma série de barreiras atitudinais, onde são sustentadas proibições em relação ao trabalho, ao cuidado de uma casa, à vivência de um relacionamento amoroso e sexual e à experiência da maternidade, pois não têm condições de gerar um filho, bem como cuidar, educar, dentre outras.15

Acerca disso, Santos e demais autores8 consideram que o senso comum da sociedade em relação às mulheres cadeirantes é um veículo castrador de papéis e conseguiu, por vezes, levar à crença de incapacidade. Contudo, para as participantes sempre foi mencionada de forma significativa a afirmação do exercício da maternidade enquanto mulher com deficiência.

Mondo e Sousa1 descrevem que as normas sociais impostas são capazes de operar uma série de mecanismos psicológicos para que os ideais maternos sejam incorporados pelas mulheres, sendo que estes mecanismos, muitas vezes, serão os causadores de sentimentos que vão da culpa ao medo.

Por meio das falas percebemos, conforme afirma Santos16, que dar à luz a um filho é algo causador de preocupação e medo em qualquer mulher e na cadeirante não seria diferente pois ela é mulher e isso deve ser bem compreendido. Não devemos deixar o adjetivo cadeirante ter uma maior relevância e carregar consigo especificações não existentes.5

Porém, o que precisa ser explicado é que pela singularidade que permeia a subjetividade, emoções e ações humanas, talvez nem toda mulher seja feliz e satisfeita com a maternidade, ou seja, todas terão sua particularidade, respeitando sua história. Haverá fatores que serão contingentes para forma com que ela irá significar suas experiências e despertar seus desejos, medos e realizações.1

Entende-se que o processo da maternagem é construído ao longo do período gestacional e essa se comporta como o agrupamento de cuidados dedicados ao bebê buscando atender suas necessidades.17 Nessa perspectiva, as participantes demonstraram consciência do seu protagonismo no tocante à maternagem e das dificuldades ao longo desse processo, a despeito da rede social de apoio.

Ademais, apesar dos percalços enfrentados no âmbito da maternagem seja no cuidado ao filho e/ou relacionado à deficiência, as falas denotam a percepção de que os resultados e benefícios encontrados são muito mais relevantes. Isso porque a maternagem desperta a sensibilidade da mãe ou de quem exerce essa função a compreender e decodificar as necessidades da criança, por meio de uma rotina que ofereça proteção contra perigos externos e favoreça o crescimento, estabilidade emocional e o desenvolvimento desse indivíduo, consolidando o vínculo mãe e bebê.17

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percebe-se que compreender o significado da maternidade e da maternagem para mulheres que usam cadeiras de rodas é indispensável, tendo em vista que, essa relação é permeada por sentimentos ambivalentes e concomitantes, os quais foram acessos com aspectos de superação, autoestima, alegria, medo e dúvida, além de atributos como sonho, maravilhoso.

Além disso, identificou-se que a maternidade e a maternagem reforçam benefícios e resultados importantes para a vida, como o amor, cuidado e carinho. Ainda se identificou dificuldades em algumas atividades , como dar o banho no bebê devido a limitação de equilíbrio no troco, e a dor da cirurgia de cesariana.

Contudo, por meio da compreensão adquirida através da definição das duas classes relacionadas com as falas das participantes, pode-se perceber a necessidade de espaços que proporcionem escuta qualificada de mulheres nos estágios de pré-concepção, gestação e pós-parto, em qualquer âmbito de assistência à saúde, pois através do resgate da subjetividade dessas mulheres, torna-se possível favorecer o cuidado holístico e singular para esse segmento social acerca da maternidade.

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Notas de autor

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