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“A crédula ingenuidade de nosso povo sinceramente católico”: Everardo Backheuser, cultura política educacional católica e unidade do território nacional (1933-1944)
“The gullible naivety of our sincerely Catholic people”: Everardo Backheuser, Catholic educational political culture and unity of the national territory (1933-1944)
“La crédula ingenuidad de nuestro pueblo sinceramente católico”: Everardo Backheuser, cultura política educacional católica y la unidad del territorio nacional (1933-1944)
Revista História : Debates e Tendências (Online), vol. 23, núm. 1, pp. 34-50, 2023
Universidade de Passo Fundo, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História

Dossiê


DOI: https://doi.org/10.5335/hdtv.23n.1.13867

Resumo: Este artigo tem como escopo a atuação intelectual de Everardo Backheuser no processo de construção de uma cultura política educacional católica no Brasil mobilizada no intuito de instituir a unidade do território nacional no período entre 1933 e 1944. Para isso, aciona como fontes as publicações do referido autor, como artigos e livros nos quais ele mobilizou a reflexão acerca da defesa dos interesses da educação articulada com os princípios do catolicismo, bem como a defesa da manutenção da unidade. Essa produção de Backheuser foi lavrada entre as décadas de 30 e 40 do século XX, em um contexto marcado pela confluência de intensas disputas em torno da esfera educacional, a partir do envolvimento de diferentes instituições e sujeitos que intentavam forjar a reinvenção da pátria brasileira.

Palavras-chave: Everardo Backheuser, Escola nova católica, Cultura política educacional católica.

Abstract: This article has as its scope the intellectual performance of Everardo Backheuser in the process of building a Catholic educational political culture in Brazil, mobilized in order to establish the unity of the national territory in the period between 1933 and 1944. author, such as articles and books in which he mobilized reflection on the defense of the interests of education articulated with the principles of Catholicism, as well as the defense of the maintenance of unity. This production by Backheuser was produced between the 30s and 40s of the 20th century, in a context marked by the confluence of intense disputes around the educational sphere, from the involvement of different institutions and subjects that tried to forge the reinvention of the Brazilian homeland.

Key words: Everardo Backheuser, New Catholic School, Catholic educational political culture.

Resumen: Este artículo tiene como el escopo la actuación intelectual de Everardo Backheuser en el proceso de construcción de una cultura política educacional católica en el Brasil movilizada con el intuito de instituir la unidad del territorio nacional en el periodo entre 1933 y 1944. Para eso, acciona como fuentes las publicaciones del referido auctor, como los artículos y libros en los cuales él movilizo la reflexión acerca de los intereses de la educación articulada con los principios del catolicismo, bien como la defensa la defensa de la manutención de la unidad. Esa producción de Backheuser fue lavrada entre las décadas de 30 y 40 del siglo XX, en un contexto marcado por la confluencia de intensas disputas cerca de la educación, a partir da la actuación de diferentes instituciones y sujetos que intentaban movilizar la reinvención de la patria.

Palabras-claves: Everardo Backheuser, Escula nueva católica, Cultura política educacional católica.

Introdução

O sentimento de uma Força suprema e criadora, por isso que natural no homem - em todos os homens - independe da situação geográfica e do nível de cultura. Mas o caminho para alcançar a noção dessa Força, detalhes de seu culto, a disseminação da doutrina que se gerar, os cismas ulteriores dessa doutrina, variam sem dúvida com as condições mesológicas e adiantamento da civilização; sofrem, portanto, em uma palavra, influência geográfica (BACKHEUSER, 1944, p. 162).

Este artigo tem como epígrafe as palavras do engenheiro e geógrafo Everardo Backheuser, publicadas no Boletim Geográfico nos idos de 1944. As palavras iniciais do artigo expressam a premissa defendida pelo intelectual, na qual o sentimento religioso era tido como um fenômeno natural e universal, presente em todas as sociedades humanas. A força suprema e criadora estaria disseminada entre todos os povos, mas a forma do culto variava conforme o estágio civilizatório e por este motivo, a religião sofria a influência geográfica.

Neste sentido, o engenheiro-geógrafo contribuía para a consolidação de um novo campo de investigativo, no qual a religião deveria ser alvo das lentes científicas, do desvelo do pensamento geográfico. Tributário de uma concepção na qual as sociedades eram hierarquizadas em diferentes níveis ou estágios civilizacionais, Everardo Backheuser buscou articular o seu fazer científico como uma possibilidade de estudo das expressões religiosas. De alguma forma, essa pretensão era defendida como a sinalização da maturidade tanto da ciência, quanto da própria natureza religiosa. Com isso, tornava-se possível avalizar a reflexão conduzida em critérios de imparcialidade. Nas palavras do cientista:

Sem entrar na classificação das religiões, tema que, apesar de muito interessante, por completo escapa à esfera da antropogeografia, é preciso deixar claro que, ao contrário do que muitos supõem, investigações científicas recentes conduzidas com imparcialidade mostram que a crença em um Deus Criador é de generalidade surpreendente (BACKHEUSER, 1944, p. 162).

A assertiva estabelecida pelo intelectual evidencia um esforço em aproximar o estudo da religião como objeto da antropogeografia. Em um contexto amplamente marcado pela reaproximação entre Estado e Igreja Católica, no processo de reinvenção da nação a partir do fomento ao sentimento patriótico, Everardo Backheuser sistematizou um projeto educacional no qual prevalecia a articulação entre os ideais inovadores da escola nova e a pedagogia católica. É o fito deste artigo analisar a atuação intelectual de Everardo Backheuser no processo de construção de uma cultura política educacional católica no Brasil mobilizada no intuito de instituir a unidade do território nacional ao longo do período entre 1933 e 1944.

Neste sentido, enveredo pelo irmanamento entre o pensamento católico e as propostas educacionais defendidas por Everardo Backheuser. Busco investigar como o intelectual mobilizou a aproximação entre o pensamento católico, os projetos educacionais pautados na escola nova e a defesa da unidade do território nacional. Para isso, aciono como fontes os escritos do autor no período em tela, notadamente os escritos pedagógicos e os artigos publicados no Boletim de Geografia, em cotejo com registros publicados na imprensa entre as décadas de 1930 e 1940. Esses escritos foram pensados como elementos constitutivos de uma cultura política educacional católica, que apesar das divergências, galgou um considerável espaço no âmbito do Estado Novo brasileiro.2

No intuito de mobilizar esse enfrentamento, busquei operacionalizar o conceito de cultura política que pode ser entendida como uma leitura comum de passado e um projeto compartilhado de futuro. Partindo dessa premissa, é possível identificar a construção de culturas políticas no âmbito educacional, tanto por meio dos meandros da escrita de livros didáticos, tanto na dimensão das narrativas escolares, quanto na construção de políticas públicas, de currículos ou projetos educacionais. Pautado nesta premissa, compartilho a definição de cultura política pensada por Serge Berstein, na qual,

O objetivo era mostrar que a cultura política constituía um conjunto coerente em que todos os elementos estão em estreita relação uns com os outros, permitindo definir uma forma de identidade do indivíduo que dela se reclama. Se o conjunto é homogêneo, as componentes são diversas e levam a uma visão dividida do mundo, em que entram em simbiose uma base filosófica ou doutrinal, a maior parte das vezes sob a forma de uma vulgata acessível ao maior número, um leitura comum e normativa do passado histórico com conotação positiva ou negativa com os grandes períodos do passado, uma visão institucional que traduz no plano da organização política do Estado os dados filosóficos ou históricos precedentes, uma concepção da sociedade ideal tal como veem os detentores dessa cultura e, para exprimir o todo, um discurso codificado em que o vocabulário utilizado, as palavras-chave, as fórmulas repetitivas são portadoras de significação, enquanto ritos e símbolos desempenham, ao nível do gesto e da representação visual, mesmo papel significante (BERSTEIN, 1998, p. 350-151).

Leituras de passado e projetos de futuro compartilhados, bem como as apropriações das experiências históricas qualificadas por desígnios positivos ou negativos, implicam em acionar um amplo repertório de símbolos no processo de difusão das culturas políticas. Deste modo, ela emerge como uma profusão que pode gerar fascínio e velar as armadilhas. Certamente, a principal delas é a compreensão da cultura política como um fenômeno uno, cristalizado e imóvel. Sobre essa questão Eliana Dutra chama a atenção dos historiadores para a necessidade de reconhecer como em “um mesmo momento histórico podem existir culturas políticas plurais” (DUTRA, 2002, p. 25). Além disso, “a cultura política, seria assim, transversal às famílias políticas” (DUTRA, 2002, p. 25).

Assim, ao considerar essas ponderações, entendo a cultura política educacional católica como um processo de construção de um projeto de nação a ser mobilizado por parte da elite católica brasileira da primeira metade do século XX e que tinha por escopo a difusão dos valores religiosos no espaço escolar. Nos argumentos dessa elite intelectual católica, a nação brasileira seria consolidada nos bancos escolares. A unidade da pátria seria devedora da força do catolicismo no país e garantida no projeto de futuro pela reverberação da cultura católica nos programas de ensino.

Esse artigo irrompe uma seara ainda pouco aludida no âmbito da produção intelectual de Everardo Backheuser. O pensador, amplamente envolto no debate educacional brasileiro desde o início da década de 1920, converteu-se ao catolicismo em 1928 e reorientou o seu posicionamento no âmbito do projeto educacional. Isso resultou na elaboração de estratégias em defesa do catolicismo, bem como de conexões entre o seu pensamento católico com as propostas metodológicas da escola nova e com a defesa da unidade nacional. Trata-se de uma interface que ainda permanece negligenciada na fortuna crítica do erudito.

Isso não implica na ausência de pesquisas que mobilizam a produção e atuação intelectual de Everardo Backheuser. Ao contrário, trata-se de um nome recorrentemente investigado no âmbito das discussões acerca dos impactos da escola nova no Brasil (ROSA, 2017; PRACHUM, 2019; PRACHUM, SKALINSKI JÚNIOR, 2020) e como um dos pioneiros no debate sobre a geopolítica (ANSELMO, BRAY, 2002; VLACH, 2003). Em grande medida, a ênfase dos estudos tem recaído acerca das contribuições do intelectual da educação no âmbito da metodologia do ensino, em modo geral, e do ensino da matemática, em particular. No primeiro caso, reporta-se como fonte privilegiada o manual pedagógico publicado em 1936. Como nos remete Bianca Prachum,

Dentre suas atividades intelectuais, Backheuser se notabilizou pela produção de manuais pedagógicos, nos quais procurava dialogar com as proposições metodológicas da Escola Nova. Em 1927, já́ havia participado da Campanha em prol da Escola Nova, pouco antes de sua conversão ao catolicismo. Também visitou centros estrangeiros a fim de conhecer a aplicação do método da Escola Nova, com o qual teve grande identificação a tal ponto de alinhar suas proposições pedagógicas ao mesmo, encetando as bases do que seria uma espécie de “escolanovismo católico” (PRACHUM, 2019, p. 11).

No segundo caso, as pesquisas enveredam pelos escritos acerca do ensino da matemática pautada princípios da escola nova, publicados em diferentes periódicos educacionais ao longo dos primeiros anos da década de 1940. Assim, no tocante às discussões atinentes à educação, o engenheiro tem sido invocado como um relevante sujeito que contribuiu para disseminar as premissas da escola nova em relação ao ensino da matemática. Para Neuza Bertoni Pinto, Everardo Adolpho Backheuser, “engenheiro e geógrafo, autor de várias obras voltadas ao ensino primário, como A Aritmética na Escola Nova, que obteve grande repercussão em cursos de formação de professores para os anos iniciais de escolarização” (PINTO, 2021, p. 240).

Apesar das pesquisas considerarem as reverberações do catolicismo no pensamento educacional de Everardo Backheuser, ainda é premente a necessidade de encadear o pensamento católico do intelectual no âmbito da edificação de um projeto de nação. Para instrumentalizar essa proposta, estruturei o artigo em três seções. Na primeira, busco arrazoar alguns aspectos da trajetória de Everardo Backheuser no âmbito do debate educacional, com ênfase para o seu envolvimento com movimentos, notadamente, o da escola nova e da pedagogia católica. No segundo momento, examino as propostas defendidas pelo intelectual no tocante às convergências entre a escola nova e o catolicismo. Por fim, no último momento, enfrento os usos do catolicismo pelo intelectual no processo de defesa da unidade do território nacional.

Everardo Adolpho Backheuser, um intelectual convertido ao catolicismo

Um engenheiro, com ampla inserção no debate público atinente aos problemas da geopolítica e da educação nacional, Everardo Backheuser tornou-se um dos mais prolíferos intelectuais brasileiros da primeira metade do século XX. Seus escritos sinalizavam para uma postura intelectual em deslocamento, ao adentrar diferentes searas dos fazeres científicos e da militância no enfrentamento dos problemas educacionais. Além disso, o engenheiro também atuou em algumas das mais significativas instituições educacionais e científicas do país, como a Escola Politécnica, a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e o Centro Dom Vital. Além disso, ele também foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Educação (ABE) e da Confederação Católica Brasileira de Educação (CBEC), em 1933, tonando-se o primeiro presidente (PRACHUM, SKALISNKI JÚNIOR, 2021, p. 3).

Everardo Backheuser nasceu em Niterói, na província do Rio de Janeiro, em 1879. No âmbito familiar, o pai era de ascendência alemã e a mãe, brasileira. Vivendo nos arredores da capital federal, Backheuser estudou em importantes instituições educacionais do país. O curso secundário foi realizado no externato do Ginásio Nacional (antigo Colégio Pedro II), entre 1890 e 1896 (ROSA, 2017, p. 66). Ao concluir o curso secundário, ele matriculou-se na prestigiada Escola Politécnica, instituição onde, “diplomou-se Engenheiro Geógrafo, em 1901 formou-se Engenheiro Civil e Bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas e, finalmente, em 1913, diplomou-se doutor em Ciências Físicas e Naturais” (ROSA, 2017, p. 68; PRACHUM, 2019, p. 32).

Diplomado, o engenheiro-geógrafo passou a exercer a docência em diferentes instituições escolares em Niterói e no Rio de Janeiro, atuando tanto no ensino secundário e cursos preparatórios para os cursos superiores, quanto em faculdades. Além disso, também encetou sua vida política, exercendo o cargo de deputado estadual a partir de 1910. Ainda como deputado estadual, Everardo Backheuser representou o ministro da Justiça e Negócios Interiores no II Congresso de Instrução Primária e Secundária em 1912. Nesta ocasião, o intelectual revelou como se deu a sua inserção no debate educacional: “E assim é, porque desde as mais longínquas épocas de minha vida eu me venho dedicando à instrução: a princípio por necessidade e depois por amor ao ensino” (BACKHEUSER, 1912, p. 6).

Ao discursar, o intelectual da educação expressou algumas de suas preocupações no tocante ao papel da educação no processo de invenção da pátria. Inicialmente ele aludiu à Revolução Francesa:

S. Exc. - o orador que acabamos de ouvir - fez em rápida e bela síntese a história da evolução da instrução primária desde os tempos de civilização a mais rudimentar e salientou bem claramente que a educação do povo, que ele chamou, numa comparação, a base da pirâmide, só começa verdadeiramente a se irradiar depois da Revolução Francesa.

A Revolução Francesa é, de fato, nas democracias, no estado atual da sociedade moderna, a fonte onde nós todos, republicanos e democráticos vamos ouvir aquilo que na vida prática de todos os dias nos deve guiar.

A Revolução Francesa é, senhores, um monumento extraordinário e, se é verdade que produziu um sanguinário Marat e um hediondo Robespierre, produziu também o vulto gigantesco de m Danton.

Buscando na Revolução Francesa os incitamentos para o nosso trabalho de homens de moderna idade, nós vemos que é preciso cuidar da educação do povo, é preciso educá-lo não com a simples tintura de uma educação geral, mas dando-lhe uma base sólida por meio do ensino profissional e prático (BACKHEUSER, 1912, p. 6).

As palavras proferidas por Everardo Backheuser no II Congresso de Instrução Primária e Secundária evidenciam como a democracia e a república foram atribuídas como um legado resultante da democratização do acesso à educação. o argumento teve como substrato os usos do passado, a partir da reflexão sobre a Revolução Francesa como o movimento que possibilitou a universalização do ensino primário e a ampliação do mundo tido como civilizado. A revolução foi relatada como um monumento, um testemunho da vitória dos ideais republicanos, um exemplo que deveria inspirar as sociedades no tempo presente. Infere-se como a história foi aludida como a mestra da vida, o espelho que deveria guiar a sociedade em busca do horizonte.

É pressuroso identificar a evocação da experiência da Revolução Francesa apenas como uma alusão ao mundo civilizado. A revolução monumentalizada era pensada como uma alusão ao projeto de nação a ser empreendido no Brasil. Tratava-se de um paralelo entre a França de outrora e o Brasil do emergir do século XX. O debate educacional deveria ser um parâmetro para instituir a nacionalidade. Neste sentido:

É isso que esperamos que o Congresso aqui reunido indique aos governos porque, cooperando para isso, nós vamos cooperar para a formação efetiva e real da nacionalidade brasileira.

Povo, todos nós sabemos, não é um amontoado de homens, não é uma aglomeração de pessoas limitadas por tal e tal serra e por tal e tal rio.

Povo é uma comunhão de seres com os mesmos interesses, batalhando pelos mesmos ideais, relembrando, no presente, os mesmos fatos históricos e, principalmente, falando a mesma língua. Nós, que temos esta imensa Pátria que se estende do incandescente território do Amazonas até as frígidas, podemos quase dizer regiões do Rio Grande do Sul, que se entende pelo litoral imenso, desvendando o Oceano e que sobe aos píncaros mais altos do oriente sul-americano; nós, que temos um povo assim disseminado, com os interesses naturalmente discordantes, porque o interesse do Norte não pode ser o interesse do Sul, como o interesse do Leste não é o interesse do Oeste; nós que temos um povo assim por circunstâncias espaciais de colonização e de geografia tão diverso, tendo uma história ainda tão pouco definida, precisamos dar a esse povo o forte elo da língua, precisamos fazer com que ele, educando-se, aprendendo a ler , aprenda a conhecer a história nacional, aprenda a história dos nossos vultos principais, quer sejam eles vultos de guerreiros, que sejam vultos de homens de ciências ou de lutadores que se tem vindo batendo, desde tempos imemoriais de nossa Pátria em beneficio de nobres ideias (BACKHEUSER, 1912, p. 6).

A premissa defendida pelo engenheiro-geógrafo elucidava a preocupação no tocante à manutenção da integridade do território nacional. Um dos elementos apresentados como agravantes era a extensão territorial e a força dos elos identitários regionais, que implicavam na fragilidade do sentimento patriótico. Neste sentido, o intelectual da educação preocupou-se em evocar os elementos que deveriam nortear a invenção de uma nacionalidade brasileira, como a língua, a história e as biografias dos heróis de guerra e de ciência. Assim, a língua vernacular, o passado e os vultos deveriam se racionados no espaço escolar como recursos para fomentar a formação da unidade nacional.

Essa proposta de fomento ao nacionalismo expressava os princípios de um homem letrado, cientificista e cético. A moldura da nação era cívica e patriótica. Integrante de uma família de origem católica, na juventude, Everardo Backheuser afastou-se da religião. Esse distanciamento do catolicismo permaneceu até 1928, quando ocorreu uma tragédia familiar, com o falecimento de sua esposa, Ricarda Backheuser. De acordo com Bianca Neves Prachum:

Sua conversão ocorreu em junho de 1928, por ocasião do falecimento de Ricarda Backheuser, sua primeira esposa. Enquanto a esposa estava sendo embalsamada no hospital, após o acidente na Alemanha, Backheuser estava com o filho e, em seu livro de memórias, afirma ter visto a imagem de Cristo sair de um crucifixo para consolá-lo. Depois desse episódio, já no hotel, teve outra visão, qual seja, a de Ricarda sorrindo e sendo conduzida por Jesus. Segundo o próprio Backheuser, as imagens que afirmou ter visto foram o principal motivo para sua conversão ao catolicismo, consideradas por ele como milagres que transformariam sua vida dali em diante (PRACHUM, 2019, p. 55).

Imerso em uma tragédia pessoal e alegando ter vivenciado uma experiência mística, Everardo Backheuser converteu-se ao catolicismo e tornou-se um intelectual engajado na defesa dos princípios religiosos. Prova disso, é o fato de a conversão ter sido acompanhada do envolvimento com o Centro Dom Vital, importante instituição fundada em 1922 e que reunia a intelectualidade leiga católica. No entender de Bianca Prachum:

Após a conversão ao catolicismo consideramos que a inserção de Backheuser enquanto intelectual militante ligado à Igreja tem como marco sua subsequente entrada para o Centro D. Vital, que era um instituto católico de grande importância para a Igreja no país e de significativa influência social (PRACHUM, 2019, p. 57)

A conversão do intelectual teve uma ampla repercussão na imprensa católica brasileira da época. De alguma forma, o nome de Everardo Backheuser instituía um forte impacto no cenário intelectual, pois a Igreja Católica passava a contar com a militância de um sujeito que possuía considerável inserção nos órgãos públicos federais. Um exemplo disso foi a apresentação da transcrição do artigo “A disciplina da Igreja” no jornal “A Ordem” do Rio de Janeiro: “transcrevemos o admirável artigo que se segue, da lavra do prof. Everardo Backheuser cuja conversão recente foi uma das maiores conquistas da verdade católica em nosso país” (A ORDEM, 1930, p. 72).

O entusiasmo do impresso católico do Rio de Janeiro era resultante do reconhecimento da relevância exercida pelo engenheiro-geógrafo no cenário intelectual brasileiro. Contar com o nome de Everardo Backheuser no quadro de leigo católico, criava a possibilidade de amplificar a defesa dos interesses religiosos no debate público, incluindo a questão educacional e a luta contra o comunismo e o protestantismo. A expectativa não demoraria a emergir nas próprias páginas do impresso católico. Em 1931, o intelectual publicou um ensaio anticomunista, no qual alertava para o papel da educação católica:

Eis o grande mal, eis o enorme mal da ciência ateísta.

O homem culto sem fé guarda sempre, por atavismo ou por educação, uns tantos preceitos da moral cristã que ele pomposamente enroupa com ademanes de leis e teoremas científicos. O Homem do povo que perde a fé em Deus, volta integralmente à animalidade, volta ao só instinto de toda a sorte que descontrolados passam a crimes hediondos de feroz requinte. Cada livro de ciência barata pregando contra Deus e posto nas mãos de gente inculta é um punhal que se está oferecendo ao criminoso futuro (BACKHEUSER, 1931, p. 221-222).

Em uma reflexão com tom autobiográfico, o homem de ciência que outrora havia perdido a fé passava a defender as benesses da educação católica, como uma necessidade para garantir a permanência da humanidade e dos valores morais. O catolicismo passava a ser defendido pelo intelectual como um projeto de nação, a ser instaurado por meio da educação.

A “escola nova em face da doutrina dos mestres acatados pela pedagogia católica”

Se no primeiro momento de sua atuação intelectual Everardo Backheuser ocupou-se em instituir a língua, a história e os vultos como tributários da nacionalidade, após a conversão ao catolicismo, o letrado imputou novos elementos agregadores do sentimento patriótico: era a religião. A formação religiosa foi enfrentada pelo intelectual como uma questão nacional, que envolveria a responsabilidade dos pais e do Estado no processo de catequese das novas gerações. Ao discutir a propagação das religiões ele imputou os pais em decorrência da displicência na educação religiosa dos filhos:

Dois modos hão de uma religião aumentar o número de adeptos: o crescimento vegetativo da população e a catequese que resulte em conversão.

As religiões são recebidas, tal como a língua e a nacionalidade por herança. Os filhos, se algo não determina o contrário, adotam no berço a religião dos pais. Nas populações prolíficas a multiplicação de adeptos se processa automaticamente, e sem que haja para isso um trabalho especial: em pouco se tornam numerosas. Há, neste processo vegetativo, uma exceção, quando os pais por displicência ou divergência de credo dos conjugues, deixam em abandono a educação religiosa dos filhos. Mas ainda neste caso, para efeitos de estatística, vale a religião de que se fez a declaração inicial (BACKHEUSER, 1944, p. 169).

É sintomático como o engajamento de Everardo Backheuser no processo de construção de uma cultura política católica se dava no âmbito educacional. A nação brasileira deveria ser forjada a partir de suas tradições católicas e a difusão deveria ter como palco central os bancos escolares. Neste sentido, a atuação do intelectual atendia a premissa católica lacunar, por ser um sujeito que ocupava importantes postos nos órgãos reguladores da instrução pública. Um indício dessa articulação política do intelectual é lista de ocupações educativas. De acordo com a biografia publicada pelo IBGE na seção “Apontamentos biobibliográficos de geógrafos brasileiros contemporâneos”, na edição inaugural do Boletim do Conselho Nacional de Geografia, Everardo Backheuser esteve envolvido em inúmeras atividades educacionais, entre as quais:

professor e examinador de geografia, em 1927, e examinador de história natural, em 1920, no Colégio Pedro II. Na Prefeitura do Distrito Federal: examinador do concurso de geografia da Escola Normal, em 1929; organizador dos primeiros ensaios da "Escola Nova", em cinco escolas primárias, 1928/1929; diretor do Museu Pedagógico Central, 1929/1930; e diretor do Instituto de Pesquisas Educacionais, 1936/1937. No Estado do Rio de Janeiro: - examinador de aritmética na Escola Normal de Niterói 1906/1907; e professor catedrático da Escola Técnica Fluminense, na cadeira de mineralogia, em 1934. Foi também professor de geologia e botânica, 1930/1931, no Instituto Geográfico Militar, do Ministério da Guerra na cidade do Rio de Janeiro (IBGE, 1943, p. 9).

Essas inúmeras atividades educativas desenvolvidas no período posterior a conversão sinalizavam uma amplificação das demandas católicas nas esferas do poder público. Everardo Backheuser na construção de seus pressupostos metodológicos do ensino pautou a convergência entre os princípios da escola nova com as diretrizes da educação católica. Essa interface entre as crenças individuais e a prática profissional foi mensurada em 1933, pelo prefaciador do “Manual de Pedagogia Moderna”:

As orientações em matéria de educação prendem-se necessariamente à escolha de um sistema de ideias no campo especulativo. Não há educação neutra. Toda a pedagogia é tributária de uma filosofia da vida. Assim o exige a natureza essencial e indestrutível das coisas. Educar é antes de tudo preparar o homem para o exercício de sua formação humana, é ajudá-lo a realizar o ideal em que se resume a sua perfeição (FRANCA, 2010, p.1).

O prefácio escrito pelo padre Leonel Franca ressaltava que a contribuição do manual de Backheuser encontrava-se na sua exitosa estratégia em aproximar as contribuições da escola nova com os princípios católicos. Neste sentido, as ferramentas da nova pedagogia, tida como inovadoras, passavam a ser mobilizadas a partir de uma práxis educativa pautada nos valores morais. No preâmbulo da primeira edição, o autor descreveu o seu afastamento da cátedra da Escola Politécnica em 1927 e a sua viagem para a Alemanha, na qual teve as experiências de leitura e de observação a escola nova:

Procuramos nos familiarizar com a respectiva literatura. A bibliografia alemã nos teria de ser de particular auxílio, pois nela, e um pouco na norte-americana e na suíça, se hão de abeberar quantos queiram saber o que, na história e na ess6encia, é “escola nova”. Ao lado dessa leitura, tão instrutiva, tivemos a possibilidade de visitar alguns centros estrangeiros vivamente empenhados na nova didática. (BACKHEUSER, 2010, p. 19).

Percebe-se que Everardo Backheuser teve contato com a literatura escolanovista na viagem que realizou para a Alemanha, ou seja, no mesmo momento no qual passara pela conversão ao catolicismo. Entusiasmado com as novas ideias, ao retornar o Brasil, passou a publicar em jornais e revistas educativas a propaganda sobre o novo método educativo. Os efeitos dessa propaganda foram repercutidos. Inicialmente, com Fernando de Azevedo, então diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, ao convidá-lo para organizar o Museu Central Pedagógico. Posteriormente, com as reuniões da chamada Cruzada Pedagógica, uma associação de professores fundada pela docente Alcina Moreira de Souza, segunda esposa de Backheuser.

Contudo, o “Manual de Pedagogia Moderna” foi resultante de uma demanda do Instituto Católico de Estudos Superiores. De acordo com o autor:

Circunstâncias diversas impediram-nos de o fazer até agora. O convite que nesse sentido nos dirigiu, em 1933, o Dr. Alceu de Amoroso Lima (...). E, assim, o curso realizado no Instituto Católico de Estudos Superiores, o qual forma o texto deste livro, foi uma satisfação pessoal, e para nós uma honra, já por termos ocupado uma cátedra nessa erudita congregação, já por termos falado a um auditório mão só crescentemente numeroso como de alta competência pedagógica. Essa última circunstância levou-nos a procurar enfrentar todos os principais problemas teóricos e práticos da escola nova. Se algum foi esquecido, fizemo-lo involuntariamente. Quisemos abordar todos; não ladear nenhum. E abordá-los, embora fazendo-o sucintamente, em um duplo ponto de vista: o da escola nova, em si, como é apresentada pelos tratadistas irreligiosos, e o da escola nova em face da doutrina dos mestres acatados da pedagogia católica (BACKHEUSER, 2010, p. 21).

O livro que se tornou um manual para implementação da escola nova nas instituições educacionais católicas do Brasil era resultante de um curso agenciado por Alceu de Amoroso Lima, uma das principais lideranças leigas católicas da primeira metade do século XX (MAINWARING, 1989). Neste sentido, o propagandista da escola nova foi instado a refletir de forma sistêmica acerca das controvertidas confluências entre a escola nova e a pedagogia católica. O catolicismo passaria também a ser operado como o elo identitário para emoldurar o sentimento de unidade nacional. Assim, a configuração do espaço brasileiro emergia como a última instância da implementação de uma cultura política educacional católica.

Religião e unidade da pátria

O projeto educacional de Everardo Backheuser tinha como escopo a manutenção da integridade do território nacional. O intelectual preocupava-se com questões como a manutenção e a defesa das fronteiras, assim como em combater a influência estrangeira na cultura brasileira e as forças centrífugas que dilaceram o patriotismo, como a pulverização dos credos religiosos. Tais inquietações do engenheiro-geógrafo se fizeram presentes em grande parte de seus escritos. De forma mais efusiva e explícita, apareceram nos textos sobre geopolítica. Contudo, a prerrogativa de defesa do território emergia em outros escritos. Um exemplo disso foi a publicação da biografia do Barão do Rio Branco, na qual o biografado foi considerado “um dos maiores, senão o maior, dos geopolíticos brasileiros, pois que mais do que qualquer outro cidadão dilatou conscientemente o espaço de sua Pátria” (BACKHEUSER, 1945, p. 28).

Essa preocupação com a delimitação das fronteiras nacionais foi retomada nos escritos acerca da religião em antropogeografia. Trata-se de uma mobilização na qual o intelectual operou as ambivalências entre uma religião pretensamente universal e os seus usos para moldar a nação. No âmbito da primeira dimensão, o catolicismo tinha emergido de uma experiência sensorial e espacial com o divino, pois,

Era o próprio Deus descido à Terra, que pregou durante três curtos anos e modificou após esse rápido estágio a face da Terra. Não poderiam, portanto, os cristãos, seus adeptos, admiti-Lo como um simples Deus nacional, oferecendo o seu povo. Seu povo seria a humanidade (BACKHEUSER, 1944, p. 320).

A noção de universalidade atrelada ao cristianismo por Everardo Backheuser era reificada pela ênfase na dimensão de compartilhamento da convivência humana com a divindade, ou seja, de forma sistêmica, o autor buscava reafirmar o diferencial do mundo cristão por possuir um deus histórico, que havia provocado transformações espaciais em todo o planeta. Entretanto, se a história foi evocada como um argumento para elucidar a universalização de uma divindade conterrânea e coetânea de um povo, a geografia respondia a questão das cisões no mundo cristão. No entender do intelectual:

Estabelecida, porém, a cisão, a geografia acentuou as divergências. Em essência as crenças de ambas as igrejas são quase perfeitamente iguais: divindade de Jesus, mistério da Santíssima Trindade, culto à Virgem Maria e aos santos (aos íconos, como dizem os ortodoxos), obediência à Autoridade Eclesiástica, Sacramentos iguais, inclusive Confissão, Comunhão e Extrema Unção. Mas o "espírito" oriental, diferente do "espírito" ocidental, ambos fruto das respectivas paisagens geográficas, iria marcar de modo nítido cada uma delas. Enquanto Roma "se barbariza" cada vez mais, Constantinopla, a seu turno também cada vez mais se orientaliza. O cisma é consolidado pela diferença de línguas: o grego no Oriente, o latim no Ocidente. Há uma diferença crescente de mentalidades (BACKHEUSER, 1944, p. 320).

No tocante ao cisma entre as igrejas ocidental e oriental, Everardo Backheuser preocupou-se em aludir as similitudes de crenças e cultos. A separação seria resultante das especificidades espaciais e culturais. A geografia e a língua teriam sido as responsáveis pela separação, mas com a manutenção dos princípios elementares do cristianismo. Neste sentido, as diferenças mais significativas estariam não entre os cristãos, mas sim, em relação aos islâmicos. Ao explicitar o processo de conversão pacífica que caracterizou os primeiros cristãos, o intelectual ponderou com as ações de violência dos árabes e silenciou acerca de violência similar acometidas pelos cristãos em outros contextos:

a nova religião teria, pois de ser pregada ao gentio. E o foi. E o foi de maneira anteriormente inacreditável, pela mansidão e brandura. Os cristãos não usariam armas, como mais tarde o fizeram os árabes, para conquistar fiéis. Valer-se-iam de maios ultra pacíficos: a persuasão, a humildade, os modos suaves, o exemplo (BACKHEUSER, 1944, p. 320).

Essa leitura pejorativa acerca de outras denominações religiosas não ficou restrita ao islamismo. Everardo Backheuser também dedicou parte de sua análise para apontar os danos causados pela propagação do protestantismo no espaço latino-americano. Nas palavras do engenheiro-geógrafo, “Há, porém, um caso que por seu caráter nimiamente geográfico merece ser abordado aqui: o da distribuição das seitas protestantes na América Latina” (BACKHEUSER, 1944, p. 326). As igrejas protestantes foram apreendidas como um elemento exógeno ao espaço latino-americano, como uma ameaça à autonomia das nações. Além disso, ele não apresenta essas igrejas como religiões, mas opta por designá-las pejorativamente como “seitas”. Para o intelectual católico:

Como dito, a proliferação das seitas protestantes por cissiparidade, em virtude de nugas e antagonismos, foi desde o início da Reforma sempre muito grande. E particularmente nos Estados Unidos. Convencida da superioridade da própria interpretação, cada igreja, cada "sociedade", cada "denominação" protestante considera-se a única portadora da Verdade. Mas, porque lhes falte a universalidade e unidade de comando da Igreja Romana, procuram amparar-se em organizações nacionais (BACKHEUSER, 1944, p. 326).

A propagação do protestantismo na América Latina era interpretada por Everardo Backheuser como resultante de um movimento exógeno, empreendido pelo governo norte-americano. Esse argumento foi acionado para explicar a repulsa da América Latina em relação aos Estados Unidos:

A grande repulsão, porém, que até bem pouco o Brasil e os latino-americana manifestavam contra os ianques, era principalmente religiosa, porque viam neles (e com razão) o lastro financeiro que abastecia as “denominações” e “igrejas” disseminadas pelo interior do Brasil, introduzidas como pontas de lança contra a crédula ingenuidade de nosso povo sinceramente católico (BACKHEUSER, 1944, p. 331).

A religião encontrava-se ancorada aos projetos políticos de implementação do domínio imperialista. Uma das estratégias utilizadas pelos norte-americanos era a maquiar a fragmentação das igrejas por uso de termos genéricos, como evangélico. A união, neste sentido, era tida como ilusória, uma estratégia de dissimular as tensões e de adentrar os territórios latinos. Para Backheuser, “Aos olhos do grande público a harmonia parece ser completa; mas os que penetram no labirinto protestante desde cedo veem que a fraternidade é só́ de fachada” (BACKHEUSER, 1944, p. 328). No caso brasileiro, a possível presença protestante era vista pelo intelectual como uma ameaça à unidade:

Imaginemos o caso brasileiro. A grande maioria da população é católica e sinceramente deseja assim se manter. Toda intromissão religiosa estranha será́ perniciosa para a unidade da pátria, porque dificilmente a impetuosidade tropical e latina consentiria sem atritos sérios a coexistência de vários credozinhos, como nos Estados Unidos. Rixas estalariam desde que os recém-vindos protestantes conseguissem conversões numerosas e sinceras. Atritos estalariam, inevitáveis (BACKHEUSER, 1944, p. 330).

Essa investida religiosa no âmbito do Estado foi dimensionada pelo intelectual, pois em seu entender, “tal como outras forças políticas, a Religião pode ter, dentro do Estado, ação centrípeta, coesiva, ou ação centrífuga, dispersiva”. A penetração protestante norte-americana no Brasil mascarava um projeto imperialista.

Considerações finais

Backheuser foi um intelectual católico que se deslocou entre zonas aparentemente opostas. De um lado, mostrou-se um entusiasta e divulgador das ideias da escola nova no Brasil, apresentando-a como uma novidade que poderia contribuir para a consolidação do projeto de nação. Por outro, defendeu o fortalecimento do pensamento católico, por meio da colusão (PEIXOTO, 2016) entre a pedagogia católica e a escola nova.

A elaboração de uma proposta educacional que evocava os princípios metodológicos da escola nova ajustados à pedagogia católica amplificou a capilaridade da cultura política educacional católica na sociedade brasileira entre as décadas de 1930 e 1940. O discurso atendia a demanda por reformulação curricular e metodológica, adequando-se às diretrizes escolanovistas que estavam sendo empreendidas em países da Europa e da América do Norte. Além disso, o temor acerca do ímpeto de ruptura da tradição era amenizado, com o ajuste das premissas reformadoras com a doutrina católica. Ele defendia uma reforma moderada, que tinha como base a tradição católica brasileira.

Assim, a religião deveria ser alvo da atenção do pensamento geográfico e geopolítico, por ser um dos elementos que sedimentavam a constituição dos territórios nacionais. Neste sentido, o Brasil em sua perspectiva de nação, era entendido como devedor da tradição católica. A religião e a língua tornaram-se os elementos constitutivos da identidade nacional e por isso, deveriam ser tratados como questões fulcrais para a garantia da unidade.

Pautado nesta premissa, o engenheiro-geógrafo interpelava contra o processo de imersão das igrejas protestantes em território brasileiro. Em seu entender, essa presença poderia repercutir negativamente na manutenção do sentimento de unidade, em decorrência da fissura da linearidade das crenças religiosas. Backheuser interpretava as missões protestantes norte-americanas como uma estratégia de enfraquecimento das nações latino-americanas, que tenderiam a solapar diante da pulverização de crenças. A fragmentação religiosa resultaria no estilhaçar do território. Desse modo, olhando para o passado, o intelectual católico ancorava na unidade religiosa o projeto de nação. O futuro do Brasil dependeria da permanência do catolicismo como religião predominante.

Referências Bibliográficas

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Notas

2 A aproximação entre o poder político e a Igreja Católica não ficou restrita à experiência ditatorial de Getúlio Vargas no Brasil. Um sinal disso é que o Estado Novo português também teve como um elemento-chave a reaproximação entre Estado e Igreja. Sobre esse aspecto podem ser consultados diferentes pesquisas (SANTOS, 2017). No caso brasileiro, essa cultura política católica reverberou na criação da Confederação Católica Brasileira de Educação, em 1933, como reação ao Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova.


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