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Received: 10 January 2022
Accepted: 20 April 2022
DOI: https://doi.org/10.22456/1983-201X.111777
Resumo: Este trabalho tem como objetivo analisar a trajetória profissional de Pedro Adams Filho (1870-1935), industrial gaúcho de descendência alemã e um dos pioneiros do setor coureiro-calçadista no Rio Grande do Sul. Examinaremos o papel econômico, político e comunitário deste líder empresarial e, por intermédio de sua trajetória, traçaremos um breve perfil da sociedade local. Nossa intenção é compreender alguns aspectos das relações sociais, políticas e culturais decorrentes da atividade produtiva promovida por Adams. Como resultado dessa trajetória, é revelado de que forma esse descendente de imigrantes foi um dos impulsionadores do processo de transformação de uma economia local baseada, ainda no início do século XX, no trabalho artesanal individual para um processo produtivo em escala industrial. Junto disso, nos dispomos a analisar como esses movimentos podem ter promovido a construção de novas estruturas urbanas e industriais na cadeia produtiva do Estado do Rio Grande do Sul.
Palavras-chave: Pedro Adams Filho, biografia, setor coureiro-calçadista.
Abstract: This work aims to analyze the professional trajectory of Pedro Adams Filho (1870-1935), a Brazilian southerner industrialist of German descent and one of the pioneers of the leather-footwear sector in Rio Grande do Sul, Brazil. We will look into the economic, political and community role of this business leader and, through his trajectory, we will outline a brief profile of the local society. Our intention is to understand some aspects of the social, political, and cultural relations resulting from the productive activity promoted by Pedro Adams Filho. As a result of this trajectory, it is revealed how this descendant of immigrants was one of the drivers of the process of transformation of a local economy based, still in the beginning of the 20th century, on individual artisanal work to a productive process on an industrial scale. In addition, we are willing to analyze how these movements may have driven the construction of new urban and industrial structures in the productive chain of the state of Rio Grande do Sul.
Keywords: Pedro Adams Filho, biography, leather-footwear industry.
Introdução
Este trabalho utiliza como um dos referenciais teóricos os aportes do gênero biográfico, cujo retorno na história se dá, principalmente, em função da crise dos paradigmas clássicos da historiografia. Esses aportes trouxeram à tona uma crítica contra os conceitos totalizadores e o desinteresse pelas experiências humanas, apostando no retorno do indivíduo ao centro da história. Nesse sentido, uma biografia sempre é intermediada pelo pesquisador e pelo relato escrito, que é elaborado a partir de documentos, arquivos pessoais e depoimentos de pessoas próximas do sujeito pesquisado, gerando um texto que sofre recortes, montagens e transcrições de depoimentos orais para escritos.
A biografia histórica é, segundo o historiador Benito Schmidt (1996, p. 41), um gênero narrativo que se apresenta novamente aos historiadores de maneira ressignificada, pois “[...] as narrativas histórico-biográficas contemporâneas não se esgotam nas singularidades individuais, mas servem para esclarecer temas e problemas mais amplos”.
A escolha de Pedro Adams Filho como objeto de estudo se justifica pela inexistência de referências bibliográficas acerca de sua trajetória de vida pessoal e profissional. Adams dá nome a principal avenida da cidade de Novo Hamburgo, sendo uma figura onipresente nos estudos locais, e sua biografia se restringe à frase: “pioneiro da indústria calçadista no Vale”. Este artigo, portanto, busca desvendar algumas facetas
desse “pioneiro”.
Nesse contexto, Adams e sua trajetória na implantação de um modelo industrial e de sua participação comunitária e política em Novo Hamburgo nos remetem à pergunta que aprendemos a fazer desde que Carlo Ginzburg publicou O queijo e os vermes (1998): como podemos narrar a vida de um indivíduo e dar um sentido coletivo a esse estudo?
A mesma análise e interpretação dada por Ginzburg sobre o moleiro Menocchio poderia ser transportada a Adams. Embora representem estratos sociais diferentes, percebemos, com o auxílio da micro-história, que um determinado indivíduo pode realizar essa conexão com as várias dimensões sociais. Como Ginzburg, entendemos que a trajetória desse indivíduo nos auxilia no desvelamento da cultura local e regional e possibilita a relação entre os processos históricos imbricados na constituição das bases industriais do setor coureiro-calçadista.
Na esteira desse processo, nosso trabalho consiste em seguir a história de vida de Pedro Adams Filho, tanto na formação do setor coureiro-calçadista quanto na emancipação e no desenvolvimento da cidade de Novo Hamburgo. Para tanto, abordaremos sua atuação política e comunitária, buscando compreender aspectos do processo de construção da cidade e do polo industrial de desenvolvimento que se formou no Vale do Rio dos Sinos.
Para que pudéssemos dar vazão a esse estudo, foi necessário trabalhar com o arcabouço de fontes mais amplo possível, pois um dos entraves foi a quase inexistência de pesquisas anteriores sobre o mesmo objeto de estudo. Para tanto, as fontes utilizadas foram os jornais A Federação, O 5 de Abril e Jornal NH. Estes periódicos não foram considerados reflexos da realidade, mas locais da representação do real e, segundo Capelato (1988, p. 24-25),
Sua existência é fruto de determinadas práticas sociais de uma época. A produção desse documento pressupõe um ato de poder no qual estão implícitas relações a serem desvendadas. A imprensa age no presente e também no futuro, pois seus produtores engendram imagens da sociedade que serão reproduzidas em outras épocas.
Além dos jornais, utilizamos, também, uma série de documentos de cunho pessoal, principalmente fotografias e cartas, localizadas junto aos familiares de Pedro Adams Filho que foram contatados e deram acesso a este material. A dificuldade na reconstrução dessa história de vida, que se deu pela já mencionada falta de fontes, levou-nos a utilizar o que Carlo Ginzburg chama de indícios,1 ou seja, todo o material encontrado nos ajudou a revelar um aspecto da vida de Adams. Estes documentos, entretanto, foram analisados à luz e por intermédio dos cruzamentos com as fontes bibliográficas. Cabe ainda salientar que, segundo o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC),
Os arquivos pessoais constituem valiosas fontes de pesquisa, seja pela especificidade dos tipos documentais que os caracterizam, seja pela possibilidade que oferecem de complementar informações constantes em arquivos de natureza pública. O crescimento das pesquisas nas áreas de história da vida privada e história do cotidiano, bem como o interesse crescente pelas análises de tipo biográfico e pelas edições de correspondência escolhida, têm aumentado a procura por este tipo de fonte, chamando atenção para a importância de sua preservação, organização e abertura à consulta pública. (CPDOC, n.p.).
Este trabalho, longe de almejar o registro de história linear e coerente sobre Pedro Adams Filho, busca, nas ações e ideias desse sujeito, suas múltiplas facetas, o que vem ao encontro da ideia de Bourdieu (1998) de que é impossível realizar uma pesquisa biográfica tendo em mente que os indivíduos possuem uma vida coerente e orientada para um determinado fim, único e objetivo, pois os sujeitos são multifacetados e contraditórios. Dessa forma, nossa pesquisa tem, como marco temporal principal, o período que vai de 1901, com a instalação da Fábrica de Calçados Sul Rio-Grandense, até 1935, ano da morte de Pedro Adams Filho.
A Fábrica de Calçados Sul-Riograndense
O final do século XIX esteve marcado pelo desenvolvimento dos curtumes e por um impulso na produção de calçados, o que levou Adams a instalar a sua Fábrica de Calçados Sul-Riograndense na cidade de Novo Hamburgo em 1898.
Não havia, nesse final de século XIX, uma estrutura organizada de vendas como ocorreria mais tarde. As vendas dos produtos eram feitas pessoalmente por Pedro Adams Filho, que se embrenhava nas picadas pelo interior apenas em uma carreta e com o desafio de colocar, no mercado, o maior número possível de mercadorias. A maioria dessa produção artesanal era comprada pelas casas comerciais locais, chamadas de vendas, e pelo comércio da capital, Porto Alegre (Jornal NH, 05/04/1977).
Com a implantação da ferrovia Porto Alegre-Novo Hamburgo, a família decidiu, em 1898, abrir uma fábrica em Novo Hamburgo, pois a facilidade do transporte ferroviário significava um aprimoramento da rede de distribuição de seus produtos para fora da área colonial, especialmente para Porto Alegre.
A análise das condições da selaria de Adams, sua preocupação com anúncios nos jornais e até mesmo sua transferência para Novo Hamburgo denotam uma preocupação em fazer seu negócio prosperar e ganhar um mercado maior do que aquele proporcionado pelo artesanato.
-Na Figura 1, consta a primeira foto a ser tirada da fábrica, logo após sua instalação no centro da cidade, na Rua Júlio de Castilhos, que nos mostra o numeroso grupo de trabalhadores que a empresa empregava (mais de 100). Dentre eles, percebemos um número considerável de mulheres (20%). Adams, como um típico capitão da indústria, colocou-se no centro e à frente de todos.

Para Lagemann (1986), a expressão “indústria de calçados” pode ser empregada somente a partir do início do século XX, pois, antes disso, a produção era artesanal. Baseados nesse autor, podemos conferir, à empresa de Adams o título de primeira indústria de calçados nos moldes modernos em Novo Hamburgo.
Os negócios de Adams prosperavam e se diversificavam. Em 1912 ele já era agente do Banco da Província em Novo Hamburgo, o que, certamente, lhe facilitou a obtenção de mais créditos para suas empresas.
Segundo Rupenthal (2001), na primeira década do século XX, houve uma proliferação de fábricas de calçados no Estado, pois esse tipo de indústria não exigia grandes investimentos e havia mão-de-obra abundante (ex-comerciários e ex- agricultores), mas a produção ainda era artesanal. Além disso, o autor relata que, em 1912, havia 699 fábricas de calçados, a maioria com dois a sete empregados, produzindo 1,15 milhões de pares. Quatro anos depois já havia 736 fábricas, mas apenas quatro delas tinham mais de 100 empregados, sendo elas responsáveis por quase 50% da produção nacional.
Numa região em que o processo de produção era quase artesanal, uma fábrica que dispunha de maquinário importado era vista com grande admiração, conforme palavras de Monte Domecq:
[...] a nossa visita à fábrica de calçados do Sr. Pedro Adams Filho deixou-nos um tanto aturdidos, pela surpreendente variedade e pela precisão no trabalho das máquinas, que concorrem para a fabricação deste artigo de primeira necessidade: um par de botas. Sentíamo-nos muito longe dos nossos velhos sapateiros d’outrora trabalhando a grandes golpes de martelo, com a forma entre as pernas, a sovela entre os dentes, as mãos pegajosas; o industrialismo acabara com essa figura, que nos foi familiar, e dessa execução encarregaram-se alguns Pedro Adams Filho espalhados pelo mundo. (MONTE DOMECQ, 1918, p. 243, 244).
É possível perceber, nesse excerto, a estranheza com que era encarada essa “nova” indústria e até certa nostalgia em relação ao passado e à produção artesanal. Mesmo assim, os autores do texto, que visitaram a empresa de Adams, foram obrigados a prestar tributo a essa nova maneira de fabricar o calçado, que, segundo eles, era mais rentável e tinha tanta qualidade quanto a de um calçado feito de forma artesanal.
O uso intensivo da máquina é um dos fatores que diferenciava Adams dos demais empresários da época no Vale do Sinos. Ele via, na tecnologia, uma maneira de destacar seu produto. Poderia ter mantido sua fábrica com um maquinário mais rudimentar e um trabalho mais artesanal, mas optou pela inovação.
No anúncio da Figura 2, observamos as várias atitudes empresariais que foram adotadas por Pedro Adams, tais como o domínio da tecnologia, a publicidade e a divulgação no mercado. Salienta-se a garantia dos serviços a preços módicos e tratamento individual e diferenciado. Na cidade de Novo Hamburgo, os empresários pouco utilizavam da publicidade para divulgar seus produtos, o que diferenciava Adams dos demais. Além disso, sua empresa utilizava tecnologia avançada, com maquinário importado da Alemanha e dos Estados Unidos, e técnicos italianos (MOTTA, 2005; SCHEMES, 2006; MONTE DOMECQ, 1918).

Essa “inovação” das técnicas produtivas, a preocupação com o ensino do ofício, pode ser inserida dentro de um processo mais amplo de modernização do setor calçadista brasileiro, que ocorreu entre 1880 e 1920 em função da substituição de importações (REICHERT, 2004).
Já no final do século XIX, o uso de máquinas a vapor (marco no desenvolvimento tecnológico mundial) se intensificou nos curtumes e nas indústrias calçadistas no Brasil. Além disso, os novos avanços tecnológicos europeus, como os diversos tipos de máquinas, passaram a ser incorporados pelas indústrias do Vale do Sinos nas primeiras décadas do século XX.
Inicialmente, o calçado produzido era vendido apenas no Estado do Rio Grande do Sul. Mais tarde passou a ser vendido, também, para outros Estados, como São Paulo e Rio de Janeiro. Além das vendas no Brasil, a empresa também exportou perneiras para o exército da Bolívia e da Venezuela.
Adams, além de fabricar, era também o responsável pelas vendas. De início, ele utilizava uma carroça puxada por quatro cavalos para ir até São Leopoldo, Montenegro e Taquara, onde vendia acessórios de couro e calçados e comprava a matéria-prima de que necessitava. Nessas viagens de negócios, tinha um companheiro chamado Felter, mais conhecido por “Father”.
No ano de 1977, por ocasião dos festejos de emancipação da cidade de Novo Hamburgo, o Jornal NH publicou uma entrevista que havia sido feita com Father na qual ele lembra que, uma vez, ao tentarem ultrapassar o rio Santa Maria em Taquara, quase perderam a vida, pois a carroça foi arrastada pelas águas. Eles conseguiram se salvar, mas o mesmo não aconteceu com a carroça, os cavalos e a mercadoria, que foi totalmente perdida (Jornal NH, 05/04/1977). É bom lembrar que o estado das estradas, nessa época, era péssimo e se constituía num dos itens de maior número de reclamações para o governo do estado, visto que representava um entrave para a comercialização das mercadorias produzidas nas colônias.
Com o tempo, a carroça já não correspondia mais às necessidades do industrial. Ele, então, adquiriu um automóvel da marca Fiat, importado e com 24 HP de potência, o que representava um avanço no sistema de compra e venda de mercadorias, além, provavelmente, de representar um status social mais elevado.
Entretanto, para dirigir esse carro, Adams achou melhor contratar um motorista - Christiano Huber -, que o levava a todos os locais onde tinha negócios, tanto no Vale dos Sinos quanto na serra e no litoral (São Leopoldo, Linha Hortênsia, Porto Alegre, Nova Petrópolis, Caxias do Sul, Tramandaí, entre outros).
O motorista Christiano deixou registrado alguns dos imprevistos que aconteceram nas viagens realizadas por eles: “De Novo Hamburgo a Porto Alegre gastava-se normalmente de três a quatro horas, mas houve casos que para vencer o trecho Sapucaia-Canoas (o pior de todos) consumiram-se sete horas” (Jornal NH, 05/04/1977).
Um dos empregados de Adams, que provavelmente estava aprendendo a falar alemão, presenteou-lhe com uma história em quadrinhos (Figura 3) que fazia menção ao automóvel e à carroça como meios de transporte do couro, fazendo referência a uma venda realizada por Pedro Adams Filho. Foi difícil traduzir a história e compreendê-la, mas, mesmo assim, achamos válido incluí-la neste artigo, uma vez que corrobora com as informações acerca da comercialização das mercadorias, além de ser uma fonte inédita e alternativa.

1 - Com o automóvel Adams pode se mover;
2 - Agora caminha sem ofegar;
3 - Voou sobre a ponte sem respirar;
4 - Aqui está uma carta do sr. Becker e do sr. Dienstman, diz Schmidt;
5 - Rápido para dentro do carro;
6 - Agora vamos embora rápido, logo estaremos lá;
7 - Adams bate nas costas de Willy, aí eles riem;
8 - Aqui tem um conto a mais, Schmidt. Aqui tem dois contos a mais, diz Schmidt, e não leva o couro;
9 - Eles riram muito.
Nos primeiros anos do século XX, as empresas não se preocupavam em produzir apenas uma linha de calçados, e, no início, Adams produzia calçados masculinos, femininos e infantis. Entretanto, o calçado masculino, em toda a história da empresa, sempre foi o carro-chefe.
Além de calçado, a empresa produzia, também, outros produtos de couro, como assentos e encostos de cadeiras, que eram feitos com máquinas nacionais e importadas, principalmente da Inglaterra, da Alemanha e dos Estados Unidos. A máquina que era responsável pela gravação do couro havia sido criada no Brasil e fora patenteada por Pedro Adams Filho.
A empresa de Pedro Adams Filho, nos anos 1920, produzia mais de 700 modelos de calçados diferentes para crianças, homens e mulheres e tinha produção diária de 2 mil pares de calçados (Jornal A Federação, 18/08/1930, p. 3).
Um elemento importante e que marcaria toda a indústria de calçados do Rio Grande do Sul foi o papel de Adams para a cidade ser uma das principais produtoras de calçado feminino: quando um de seus empregados saía da empresa para abrir um negócio próprio, este procurava não competir com o antigo patrão, já que, muitas vezes, era ele quem ajudava financeiramente essa nova fábrica. Portanto, enquanto Adams se dedicava mais ao calçado masculino, essas novas fábricas focavam em calçados femininos, o que acabou sendo uma tendência importante para a cidade até os dias atuais. Todavia, a empresa, nos anos 1930, já possuía uma divisão de sandálias femininas, que eram produzidas num local separado.
Pedro Adams Filho, ao contrário da maioria dos industriais do setor coureiro- calçadista, iniciou seu negócio com uma fábrica ao invés de um curtume. Como desejava maior independência na compra de matérias-primas necessárias para a fabricação do calçado, decidiu, em 1917, abrir um curtume, o Hamburguez. A nova empresa representou um incremento em seus negócios, pois, naquele início de século, o curtume tinha uma importância econômica muito maior que a do calçado no Rio Grande do Sul. Foi apenas nos anos 1950 que a indústria calçadista se igualou a do couro.
O Curtume Hamburguez já foi criado com características de produção bastante modernas para a época, introduzindo inovadores processos produtivos. Os processos de curtição eram diversos, dependendo de cada exigência, e eram feitas experiências utilizando cascas misturadas com folhas de manga, cromo ou quebracho, que davam ótimos resultados.
Adams, já naquela época, percebeu a importância do que hoje denominamos verticalização da produção, ou seja, a empresa ser responsável por todas as etapas necessárias para a produção do calçado, o que representa um ganho de capital e uma autonomia, aspectos de fundamental importância no mundo dos negócios. É importante citar que o empresário também se envolveu, em 1927, na criação de uma empresa geradora de energia elétrica para a cidade, pois a energia utilizada pelos curtumes era a térmica e não se mostrou suficiente para atender a toda a demanda das empresas que foram se criando na cidade de Novo Hamburgo (GERTZ, 2002).
Segundo informações dos familiares de Adams entrevistados, seus netos, Pedro Adams Neto e Carmen Mosmann e suas filhas, Theresa Allgayer e Carla Bins, os seus negócios sempre foram bem, e não consta, em nenhum documento disponível, algo sobre problemas em suas empresas. Entretanto, em uma correspondência pessoal de Adams, há indícios de que nem tudo sempre correu bem.
Trata-se de duas correspondências produzidas em maio de 1921 e enviadas da Suíça por um emissor que se intitulava compadre de Adams, o sr. J. Akeret. A partir dessas correspondências, entendemos que alguns negócios mantidos por ambos não iam bem, pois Akeret pedia a Adams que ele fosse até o Banco Pelotense para obter informações a respeito de seus títulos, que haviam sumido do mercado de ações, e dizia que ele poderia resgatá-los somente por meio de suas contas-correntes de Paris e de Porto Alegre. Akeret mencionou uma possível fraude em algum negócio não especificado (possivelmente venda de couro), o que estaria lhe dando um grande prejuízo, mas, como essa fraude teria acontecido na Europa e ele não tinha nenhum conhecido influente, nada poderia ser feito. Contava, então, apenas com a ajuda de Adams.
O compadre de Adams, conforme a carta, disse que enviaria, pelo correio, 2 mil barbeadores e 2 mil lâminas Gilette para que ele pudesse vender no Brasil e resgatar uma parte do prejuízo que teve com os negócios. Akeret aconselhou Adams a esperar quando o mercado estivesse melhor para fazer negócios de exportação com a Europa, pois, naquele momento, eles ainda representavam um grande risco.
Entende-se que Pedro Adams Filho realizou alguma transação comercial não especificada com esse compadre e não obteve o resultado esperado, razão pela qual a correspondência falava em prejuízo e forma de minimizar as perdas.
Essas correspondências pessoais, que, segundo Gomes (2004), apresentam informações sem ordenação, finalização ou hierarquização e estabelecem uma narrativa plena de imagens e movimentos dinâmica e inconclusa, são pequenas pistas que nos ajudam a mapear o grau de complexidade da vida desse empresário, cujos negócios nem sempre traziam bons resultados. O exemplo dessa transação comercial, mesmo deixando lacunas e muitas perguntas sem respostas, é claro nesse sentido.
Outro exemplo importante de ser citado é que a primeira greve de trabalhadores, que aconteceu na cidade de Novo Hamburgo, foi justamente na fábrica de calçados Sul- Riograndense. A despeito de todo um discurso de harmonia entre trabalhadores e empresários, a resposta de Adams não foi diferente da de seus pares: chamar a polícia para reprimir o movimento (MARONEZE et al., 2013).
Entretanto, mesmo com esses contratempos observados, as empresas de Adams foram bem-sucedidas, tanto que sobreviveram por muitos anos depois de sua morte e continuam sendo referência na industrialização do Município.
As atividades políticas e a vida comunitária
A atuação política de Pedro Adams Filho iniciou em 1917 e, ao lado de sua empresa, teve importância central na sua vida. Durante 10 anos, ele foi o representante do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), do então distrito de Hamburger Berg, na Câmara de São Leopoldo. A partir de 1927, passou a participar da comissão executiva do partido, mas sua principal atuação política foi na liderança da emancipação do Município. Adams participava da vida pública, provavelmente, porque sabia que o desenvolvimento econômico da cidade somente se daria se viesse acompanhado de decisões políticas favoráveis aos negócios da comunidade, e, na sua atuação, sempre
buscou defender os interesses locais.
O movimento emancipacionista já vinha sendo pensado desde o início da República, pois, em 1897, foi encaminhado um memorial ao Conselho Municipal de São Leopoldo pedindo a desanexação do distrito e a formação de um novo Município. O Conselho do Município vizinho indeferiu a solicitação, mas esse fato já mostrava o desejo da emancipação política (GERTZ, 2002).
Segundo Leopoldo Petry, em um artigo no Jornal O 5 de Abril, intitulado “A emancipação de Novo Hamburgo”,
[...] O plano de criação de um município com sede em Novo Hamburgo [...] já era muito velho. Nasceu logo depois de terminada a revolução de 1893. Foi, porém, abandonado, [...] mas não chegou a morrer. Sempre vivia no íntimo de muita gente boa.
Foi em maio de 1924. Numa roda de chimarrão, no escritório do Sr. Pedro Alles, conversei com aquele cidadão, sobre a idéia que tinha, de dar alguns passos para ver si seria possível separar Novo Hamburgo de S. Leopoldo, pois, como simples distrito, não havia possibilidade para um desenvolvimento dos recursos de sua potencia industrial, aliada a sua posição privilegiada, como centro para onde naturalmente converge o comércio de uma grande e próspera zona agrícola, que forma o seu hinterland.
O sr. Alles abraçou com entusiasmo o meu pensamento e já dois dias depois fomos procurar o dr. Jacob Kroeff Netto, então deputado estadual, a quem expomos o nosso projeto. Após alguma hesitação, este concordou conosco. Fomos em seguida expor o nosso plano ao conselheiro municipal sr. Pedro Adams Filho, o qual imediatamente se prontificou a acompanhar-nos nos passos que íamos dar. [...] (Jornal O 5 de Abril, 08/04/1932).
Outro fato importante que veio a agravar as desavenças entre São Leopoldo e Novo Hamburgo foi a negação de um pedido de verba para a construção do monumento comemorativo à imigração em Novo Hamburgo. Esse fato foi determinante para que Pedro Adams Filho renunciasse a seu mandato em outubro de 1925, pois ele, provavelmente, acreditou que seria mais útil, agindo diretamente pelo futuro Município do que utilizando as vias legais (ATAS DO CONSELHO MUNICIPAL, 12, 20 e 27/10/1925).
A partir destes eventos, Pedro Adams Filho e outros empresários e lideranças políticas criaram uma comissão pró-emancipação que ficou responsável pela campanha até 5 de abril de 1927, data da emancipação da cidade.
Depois da emancipação, Pedro Adams Filho continuou à frente da comissão executiva do Partido Republicano, conforme podemos observar no seguinte convite (Figura 4):

O movimento emancipacionista de Novo Hamburgo pode ser considerado a primeira iniciativa da formação de uma identidade para a cidade, pois foi a série de acontecimentos relacionados à emancipação que fez com que a comunidade sentisse a necessidade de afirmar-se em contraposição ao Município sede, São Leopoldo.
Os novo-hamburguenses se consideravam os representantes do trabalho e do progresso no Vale do Sinos, enquanto os leopoldenses representavam a tradição e, por sua vez, consideravam os vizinhos impatriotas e mais alemães que brasileiros. Essa identidade inicial, forjada a partir da busca de marcos diferenciais em relação a São Leopoldo, perdurou e ajudou a construir o mito do sentimento municipal de pujança e empreendedorismo em Novo Hamburgo (SCHEMES, 2006).
Pedro Adams Filho não teve apenas uma atuação fundamental na economia e política do Município: seu envolvimento comunitário também deve ser ressaltado em função das várias atividades que exerceu durante sua vida em Novo Hamburgo.
Ele incentivou ou participou ativamente de associações de cunho recreativo ou esportivo que surgiram em profusão no interior do Estado e que, na maioria das vezes, eram formadas pelos descendentes de alemães, que as utilizavam para se auxiliarem mutuamente.
Adams foi presidente da Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo durante os anos de 1910 e 1911 e fundador do Jockey Club de São Leopoldo, que iniciou suas atividades entre 1912 e 1913 e existiu, provavelmente, até os anos 1940. Também participou da Sociedade Frohsinn, depois conhecida por Sociedade de Cantores de Hamburgo Velho, principalmente jogando bolão nos finais de semana e auxiliando na sua administração (PETRY, 1944).
Também era figura constante nas listas de apoio a instituições de caridade, como o Instituto para Cegos Dr. Getulio Vargas, que organizou uma comissão para angariar fundos no Estado (Jornal O 5 de Abril de 30/09/1932).
Os eventos ligados à sua empresa também eram motivo de divulgação, como os churrascos com seus empregados, que iniciavam pela manhã e iam tarde adentro.
Sábado, 31 de dezembro último, a firma P. Adams Fo. & Cia. reuniu, em sua sede, seus auxiliares e grande número de amigos e, em regozijo pelo bom encerramento do balanço, ofereceu-lhes, magnífico churrasco, regado a chopp. Estava ali reunido o que Novo Hamburgo tem de mais representativo; autoridades municipais, federais e Estaduais; representantes das classes comercial, industrial e bancária, além de muitas outras pessoas gradas.
Num dos intervalos do churrasco, o sr. Ewaldo Koch, em nome dos convidados, agradecem à firma P. Adams Fo. & Cia., pela gentileza em proporcionar-lhes tão bela festa; continuando, teceu hinos ao sócio sênior sr. Pedro Adams Filho que, durante 3 decênios, disse, foi o incansável batalhador pelo progresso de Novo Hamburgo.
Seguiu-lhe com a palavra o sr. Arnaldo Coelho, que, em nome da firma, agradeceu aos termos carinhosos do orador que o precedeu e afirmou que, como já há 30 anos, a firma P. Adams Fo. & Cia. continuaria a quebrar lanças por Novo Hamburgo.
Ambos os oradores foram, ao terminar, muito aplaudidos.
Os sócios da firma, com o cavalheirismo que lhes é peculiar, cobriram de gentilezas os convidados que, ao retirar-se as 4 horas da tarde, levaram, da encantadora festa, a melhor das impressões. (Jornal O 5 de Abril, 06/01/1928).
O interesse de Adams pela comunidade se manifestou, também, em questões de perdas e de tristezas, como na ocasião da criação da Sociedade do Carro Fúnebre, administrada por sua empresa. Essa sociedade foi criada em 1913 com o objetivo de adquirir um carro fúnebre para a ainda vila de São Leopoldo, pois o carro existente era de tração animal (Jornal O 5 de Abril, 06/01/1928). Durante 15 anos, Pedro Adams exerceu sua administração e, somente em 1928, foi convocada uma sessão dos sócios para tratar de assuntos da sociedade, dentre eles a solicitação dos administradores daquela época para transferir sua presidência à intendência municipal.
[...] Estava na ordem do dia a discussão duma proposta, apresentada dias antes pelo sócio sr. Pedro Adams F., de ser transferido à intendência municipal o ativo e o passivo da sociedade, seus bens móveis e imóveis, obrigando-se a intendência municipal de substituir o carro fúnebre, até agora usado, de tração animal, por um caminhão automóvel, mais adequado às necessidades da época. Por unanimidade, foi aceita a proposta do sr. Pedro Adams F., assumindo a intendência municipal o ativo e o passivo da sociedade [...]
Por proposta do sr. Intendente municipal, unanimemente aceita, ficou assentado lavrar-se em ata um voto de louvor ao sr. Pedro Adams F. pela solicitude, dedicação e desinteresse com que, durante quinze anos, zelou pela marcha e bens da sociedade. [...] (Jornal O 5 de Abril ,17/02/1928).
A substituição do carro aconteceu dois anos depois, em 1930, com o aproveitamento de um chassi Chevrolet, a construção de uma cabine por uma empresa da cidade e a utilização de algumas peças do antigo carro.
Um ano depois da criação da sociedade do carro fúnebre, em 1914, Adams se envolveu na fundação e administração do Colégio São Jacob, segunda escola católica particular da cidade.
Outro momento importante na sua atuação comunitária ocorreu em 1918 com a epidemia da gripe espanhola, que assolou o país e, também, a cidade. Na ocasião, foram instalados, na cidade, três hospitais de emergência: dois na Sociedade Atiradores de Novo Hamburgo e Hamburgo Velho e um no Colégio São Jacó. O serviço de enfermagem foi prestado pelas irmãs do Colégio Santa Catarina e pelos irmãos maristas. A cidade teve, aproximadamente, 300 casos da gripe e 20 mortes decorrentes dela e se envolveu durante e depois de debelada a epidemia, com contribuições ao governo municipal para o auxílio das despesas.
Adams, assim como seu irmão Alberto, utilizou seu próprio carro para transportar os doentes aos hospitais. Enviou donativos em dinheiro, roupas e alimentos aos acometidos pela doença e organizou uma campanha para arrecadar fundos ao Município, que teve suas despesas aumentadas com a epidemia.
No obituário de Pedro Adams, Leopoldo Petry se refere a esse episódio:
[...] Onde mais se patenteou seu coração magnânimo e seu nobre caráter foi por ocasião da gripe, denominada “espanhola”, que, em fins de 1918 assolou o país inteiro e se fez sentir intensamente em nosso meio. Sem pensar em si, desde o primeiro momento auxiliou as pessoas encarregadas para zelar dos atacados da moléstia, pondo a disposição seu auto particular, exemplo que também foi seguido por seu irmão Alberto, com chauffeur e gasolina, para atender os doentes e conduzi-los aos hospitais de emergência, localizados em diversos pontos desta vila, então 2º. distrito de São Leopoldo, ainda enviava dinheiro, viveres e roupas ás famílias mais pobres e quando o mal já estava debelado, vemo-lo com uma lista angariar donativos para serem entregues à Intendência do Município, afim de poder fazer face às vultosas despesas ocasionadas pela epidemia. [...] (Jornal O 5 de Abril, 13/09/1935).
As fortes convicções religiosas de Adams, segundo relato de seus familiares, fizeram com que ele, no ano de 1924, passasse, também, a fazer parte da comissão de obras da igreja católica do centro de Novo Hamburgo.
Cinco anos depois, em 1929, criou a Caixa Rural União Popular de Novo Hamburgo, entidade com o objetivo de prestar serviços à economia local e que tinha, como sede, a sua empresa (Jornal O 5 de Abril, 28/02/1930).
Essas instituições financeiras surgiram no início do século em vários núcleos de colonização teuto-brasileira e eram, praticamente, as únicas formas de amparo ao trabalhador rural.
Adams foi o fundador e primeiro diretor da Caixa, tendo, como auxiliares, Oscar Adams, seu filho, e Alonso Bernd. Além do crédito rural, essa instituição financeira também fornecia financiamentos pessoais para construção de moradias.
Se, de um lado, a participação de Adams nessa instituição mostra seu comprometimento com a comunidade em que vivia, de outro, era uma maneira de obter recursos financeiros com mais facilidade. Não podemos esquecer que Adams era um empresário engajado, que assumia os problemas da comunidade e procurava resolvê-los pessoalmente, como nesse caso, assumindo a direção da Caixa.
Pedro Adams Filho foi, ainda, um dos responsáveis pela criação de um dos clubes de futebol que mais paixão desperta na cidade até os dias de hoje: o Sport Club Novo Hamburgo, fundado em uma festa que o empresário ofereceu a seus funcionários em comemoração ao Dia do Trabalho, em 1911. A data foi comemorada com um churrasco e uma partida de futebol que incentivou os funcionários da empresa de Adams a criarem esse clube, o qual, num primeiro momento, se chamou Adams Futebol Clube (Jornal NH, 05/04/2002).
Considerações finais
As estratégias utilizadas por Pedro Adams Filho na construção de sua liderança no setor coureiro-calçadista tiveram início quando ele investiu a herança que recebera de seu pai na ampliação de seu ateliê de calçados e na sua transferência para Novo Hamburgo, buscando o crescimento do capital investido e na diversificação de seus negócios, tanto horizontal quanto verticalmente.
Adams pertencia à terceira geração de imigrantes alemães e a herança que recebeu foi fruto do trabalho realizado no Brasil por sua família. Portanto, os capitais gerados a partir das suas atividades comerciais é que foram investidos em seus negócios e na primeira empresa moderna do Vale do Sinos. A diversificação de produção e a exportação também foram características marcantes em sua vida empresarial, determinando a ampliação de outros negócios e empreendimentos na região.
Em relação ao surgimento da indústria, Lagemann (1980) afirma que a ideia de que ela tenha surgido do desenvolvimento do artesanato não pode ser considerada regra geral, pois a maioria teve sua origem mais ligada ao comércio, que era a atividade econômica que apresentava melhores condições de acumulação de capitais e, consequentemente, de aplicação desse capital em outros setores econômicos, como a indústria. Entretanto, o autor informa que não se pode negar a importância do artesanato para a industrialização e que, mesmo que não tenha sido origem de muitas indústrias, ofereceu importante mão-de-obra na indústria do couro e do calçado no Vale do Sinos.
Segundo Reichel (1980, p. 13), durante a Primeira República, o desenvolvimento da indústria gaúcha teve um bom desempenho no conjunto da indústria nacional. O Rio Grande do Sul, segundo a mesma estatística industrial de 1907, ocupava o terceiro lugar no desenvolvimento industrial brasileiro. Para a autora, a existência de um mercado consumidor, formado principalmente pelos imigrantes e pela expansão das exportações gaúchas, consistia nos principais fatores de dinamização da economia do Estado.
O pioneirismo de Adams nesse cenário pode ser confirmado com a criação de um curtume que representou a verticalização da produção, ou seja, a sua empresa passou a se responsabilizar pelas principais etapas necessárias para a produção do calçado, desde a produção da matéria-prima até o produto acabado, o que significou um ganho de capital e uma autonomia que são fundamentais no mundo dos negócios até hoje. Seu curtume, desde o início, utilizou-se de máquinas modernas, que diminuíram o tempo de produção do couro e representaram a modernização do setor. Os empresários contemporâneos de Adams ou eram proprietários de curtumes e, portanto, fornecedores de matéria-prima, ou possuíam apenas uma fábrica de calçados. A este respeito, Reichel (1979) informa que, no final da República Velha, subsistiram, no Rio Grande do Sul, apenas as indústrias que se utilizavam de matéria-prima produzida no Estado, como a calçadista, pois as demais encontravam muitas dificuldades para se expandirem e acabaram sendo substituídas por produtos vindos de São Paulo.
A ativa participação de Adams nas exposições industriais e o seu envolvimento na vida política e comunitária nos mostraram que tais ações não tinham apenas fins econômicos, mas também políticos, pois representavam uma oportunidade para ele se tornar mais conhecido e próximo da comunidade. Para empresários como ele, a aliança entre a indústria e a comunidade era feita por meio de ações políticas.
Pedro Adams Filho, como tantos outros empresários de origem alemã, possuía uma relação muito forte com outros industriais do Vale do Caí e de Porto Alegre, como Alberto Bins (1869-1930), Guilherme Ludwig (1878-1954), Arthur Haas (1868-1945), Augusto Jung (1861-1925), Pedro Alles (1888-1975), A.J. Renner (1884-1966), Adolfo Oderich (1890-1908) e Ernesto Neugebauer (1887-1896). Esses contatos foram importantes para a circulação de ideias e troca de experiências entre eles, não chegando a criar um círculo fechado, mas fazendo com que algumas de suas práticas fossem comuns, dentre elas o paternalismo empresarial.
Aspectos da história de Novo Hamburgo apareceram nessa pesquisa baseada no gênero biográfico, o que nos permitiu observar como os indivíduos podem adotar atitudes que caracterizam uma capacidade transformadora, neste caso a passagem de uma estrutura econômica eminentemente artesanal para outra industrial.
Essa “nova” maneira de se fazer história também nos permitiu trabalhar com a trajetória individual de um sujeito que, mesmo tendo seu papel reconhecido pela comunidade, encontrava-se submerso na “macro história”, no anonimato. A trajetória empresarial, política e comunitária de Pedro Adams Filho, que pode lhe dar a dimensão de uma liderança, conforme procuramos pontuar neste artigo, deve-se a escolha de seu nome para a principal avenida da cidade (SCHEMES, 2006).
Assumimos o desafio de escrever um artigo de trajetória biográfica onde a “história narrativa”, tão marginalizada pela historiografia atual, foi fundamental na construção do texto, mas, ao mesmo tempo, procuramos não deixar de lado a “história problema”, ou seja, como foram os primórdios da industrialização local. Além disso, pensar em uma liderança individual em um contexto local e utilizando fontes documentais não convencionais nos pareceu desafiador e instigante.
Por fim, muitos empresários e políticos como Adams existiram e foram fundamentais para a construção da história do Vale do Rio dos Sinos. Eles, junto da grande massa de trabalhadores anônimos, deixaram poucos vestígios de suas sagas particulares e poucos tem o nome registrado em placas de ruas. Portanto, ainda há muito para se pesquisar na cidade e região a fim de revelar novas visões da sociedade e diferentes maneiras de encontrar essas pistas e sinais.
Referências
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