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Na Zona...: representações da prostituição na belle époque carioca a partir de conto pornográfico (1914)
Erika Natasha Cardoso
Erika Natasha Cardoso
Na Zona...: representações da prostituição na belle époque carioca a partir de conto pornográfico (1914)
Na Zona...: representations of prostitution in belle époque carioca from a pornographic tale (1914)
Anos 90, vol. 29, e2022208, 2022
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em
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RESUMO: O jornal carioca O Rio Nu (1898-1916), mais ilustre e longevo representante de um gênero periódico que no Brasil ficaria conhecido como “jornais alegres”, dedicou-se à edição de leituras para homens, como eram conhecidos os romances pornográficos no país. Este artigo tem como objetivo analisar o conto Na Zona..., publicado em formato de livro pelo jornal em 1914, como parte da “Coleção Contos Rápidos”. Ambientado no Rio de Janeiro, o enredo acompanha as aventuras de um homem que percorre as ruas do centro da cidade em busca de sexo. Um dos poucos renascentes da literatura pornográfica produzida no Brasil durante esse período, Na Zona... nos permite refletir em torno das representações da prostituição exercida no Rio de Janeiro durante o limiar do século XX.

Palavras-chave: Pornografia, prostituição, moralidades.

ABSTRACT: The O Rio Nu newspaper (1898-1916), the most illustrious and long-lived representative of a periodical genre that in Brazil would become known as jornais alegres (happy journals), was dedicated to the edition of readings for men, as pornographic novels were known in the country. This article aims to analyse the tale Na Zona..., published in a book format by the newspaper in 1914, as part of the collection “Coleção Contos Rápidos”. Set in Rio de Janeiro, the plot follows the adventures of a man who wanders the streets of the downtown area in search of sex. One of the few renaissances of pornographic literature produced in Brazil during this period, Na Zona... allows us to reflect around the representations of prostitution practiced in Rio de Janeiro during the threshold of the 20th century.

Keywords: Pornography, prostitution, moralities.

Carátula del artículo

História da(s) sexualidade(s) na América Latina: séculos XIX e XX

Na Zona...: representações da prostituição na belle époque carioca a partir de conto pornográfico (1914)

Na Zona...: representations of prostitution in belle époque carioca from a pornographic tale (1914)

Erika Natasha Cardoso
Universidade Federal Fluminense, Brasil
Anos 90, vol. 29, e2022208, 2022
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em

Received: 10 January 2022

Accepted: 20 September 2022

Preliminares

Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, prosperou no Brasil um gênero periódico que ficaria conhecido como “jornais alegres”. Essas publicações se caracterizavam pelo tom satírico e de evidentes conotações sexuais com que abordavam os mais diversos assuntos, em especial as novas formas e circuitos de diversão que emergiam, principalmente no Rio de Janeiro, no alvorecer do século XX (PEREIRA, 1997, p. 10). Entre os jornais alegres surgidos nesse período, O Rio Nu (1898-1916) se destacou como o mais ilustre e longevo.1 Além de gravuras e fotografias de mulheres nuas, esse jornal noticiava, de forma jocosa, os bastidores do teatro e das zonas de prostituição, promovia concursos, publicava folhetins e, desde 1904, pelo menos, anunciava livros e álbuns de fotografia em sua Biblioteca d’O Rio Nu.

Boa parte dessas publicações eram editadas pelo próprio jornal. De acordo com Cristiana Schettini Pereira, além de incrementar os lucros da folha, essa estratégia permitia aos editores elaborar narrativas com uma linguagem mais explícita. Nesse sentido, é importante ressaltar que, embora os jornais alegres - e O Rio Nu, em particular -, tenham sido percebidos como pornográficos2 por amplos setores da sociedade e impressa da época, as alusões aos órgãos e práticas sexuais eram feitas de maneira ambígua em suas páginas, com metáforas e palavras de duplo sentido, o que garantia seu trânsito dentro dos limites do moralmente tolerável.3 Como os livros circulavam de maneira mais restrita, neles os autores poderiam se permitir maiores liberdades de linguagem (PEREIRA, 1997, p. 185).

Um exemplo dessa estratégia é a “Coleção Contos Rápidos”, série de livretos pornográficos editados e publicados pelo O Rio Nu, que começou a ser anunciada em janeiro de 1914 e permaneceu em catálogo até a extinção do jornal, em dezembro de 1916.4 O reclame informava aos leitores que todos os títulos eram escritos “em linguagem ultra livre” e narravam “as mais pitorescas cenas de amor para todos os paladares”, cada um acompanhado de uma “gravura tirada ao natural” (O RIO NU, 30/12/1916, p. 10). Os livretos têm 15 ou 16 páginas impressas no formato meio ofício, caracterizam-se pela linguagem explícita com que descrevem os órgãos, as práticas e os prazeres sexuais, e, como prometido no anúncio, trazem uma gravura ou reprodução fotográfica representando corpos nus ou em pleno ato sexual. Além disso, as narrativas têm em comum o fato de serem ambientadas no Rio de Janeiro no limiar do século XX, cenário em que foram produzidas.

Nas páginas seguintes, meu objetivo será o de analisar o décimo primeiro volume da coleção, que começou a ser anunciado em junho de 1914 sob o título Na Zona.... Narrado em primeira pessoa, o enredo acompanha a epopeia de um sujeito em busca de sexo pelas ruas do Rio de Janeiro nos anos 1910. Embora os personagens e práticas ali representados sejam ficcionais, eles nos permitem refletir sobre determinado imaginário5, em especial o que se construiu em torno da prostituição feminina exercida durante a chamada belle époque6 carioca, mas também em relação a determinadas práticas e desejos sexuais dissidentes ou que tendiam a ser atribuídos às camadas populares. A ideia é refletir em torno destas representações a partir de uma perspectiva interseccional7, na tentativa de compreender como determinados marcadores sociais da diferença - tais como classe, raça, gênero e nacionalidade - se interrelacionam na narrativa, e de que forma eles dialogam com alguns dos discursos morais mais amplamente difundidos no período.

Na Zona...

Na Zona..., décimo primeiro volume da coleção, foi anunciado em 13 de junho de 1914 (Figura 1). Assim como seus congêneres, o livreto tem 16 páginas impressas no formado meio ofício e é acompanhado de uma reprodução fotográfica (Figura 2). O título é assinado por Don Felício, um pseudônimo, e as informações de edição são igualmente fictícias: constava que as obras haviam sido editadas pela Casa Editora Cupido & Comp., localizada na Ilha de Vênus.


Figura 1:
Capa de Na Zona...(Fundação Biblioteca Nacional).

O enredo narra a peregrinação de Don Felício em busca de prazer pelas ruas do Rio de Janeiro. O relato começa com a demissão do protagonista, que fora flagrado pelo dono do armazém em que trabalhava “comendo o bacalhau numa gostosa punheta”, executada por um rapazinho durante o expediente. Como o patrão havia impedido o rapaz de ir “até o fim”, Felício saiu “furioso”, com “a porra a meio pau”, tendo em mente “a ideia fixa de foder” (FELÍCIO, 1914, p. 3). Nesse estado de espírito, dirigiu-se à “zona das marrequinhas”, onde foi abordado por uma prostituta francesa cuja “esplêndida bunda” o inspirou a propor que fizessem sexo anal. A recusa da francesa foi enfática: “Non, mossiú. Eu non tome ne bunda”, mas como o cliente ameaçava ir embora, ela ofereceu como alternativa a sua “especialidade”, o “bouchet”. A ideia agradou a Felício e o enorme talento da francesa foi pormenorizado na narrativa, que enfatizou a “boca amestrada” da “tipa sabida para chupar mangalhos” (FELÍCIO, 1914, p. 4-6).

Embora a experiência tenha sido “esplêndida”, ela não foi suficiente para aplacar os ânimos sexuais de Felício, cujo “diabo da pica não amolecia”. Saindo do “chateau” da francesa, dirigiu-se ao Passeio Público, onde ficou sentado “bestando sobre a ciência da boucheteria”. Foi quando viu passar um “rapazote de calcinhas justas” e “paletó mostra bunda”, “todo rescendendo a um perfume esquisito”, o que o fez concluir que somente “um rabo” poderia lhe “abrandar a tesão”. O que Felício desejava, entretanto, não era o “rabo” de um “puto velho e matriculado”, mas sim “um cu de mulher”, que o “fizesse esquecer a bunda gelatinosa da francesa chupadeira” (FELÍCIO, 1914, p. 7).

Motivado por tal propósito, o narrador dirigiu-se à rua Gomes Freire, convencido de que “para negócio de enrabação” não haveria “puta que chegue à brasileira”: seriam “todas especialíssimas”. Lá chegando, encontrou Mathilde, um “mulatão correto e apetitoso, todo dengosa, de olhar lânguido e voz harmoniosa” (FELÍCIO, 1914, p. 7-8). Descreveu-a como:

um tipo bonito de mestiça nacional; os seios pequenos e bastante rijos, não pareciam ser de puta; tinha as coxas grossas e com as pernas bem torneadas; a boca de lábios carnudos e sensuais, era naturalmente vermelha e pequena; o ventre arredondado encimava a pentelheira basta e negra donde emergia o cono papudo e certamente quente. Quanto à bunda, só posso dizer que era um cuzão de três assobios. (FELÍCIO, 1914, p. 8).

Uma vez instalados no quarto, Mathilde deu início às carícias ajoelhando-se entre as pernas de Felício beijando-lhe o pênis, o que o levou à conclusão de que ela era “chupadeira como francesa”. Não estando o protagonista “disposto a comer um segundo bouchet”, protestou, dizendo que não gostava de sexo oral. A parceira prontamente respondeu que também ela não era “da estranja” para se dignar a “chupá pica de home!”, acrescentando: “era o que fartava!” (FELÍCIO, 1914, p. 8-9). Convidado finalmente a “cascá”, Felício confessou ao leitor que “não era precisamente foder, na expressão clássica de empurrar o Zé na boceta da suplicante”, o que ele desejava: “eu queria era cu”. Após uma breve negociação e a promessa de que só introduziria a “cabeça” com o auxílio de saliva, Felício conseguiu o consentimento de Mathilde e finalmente realizou seu desejo (FELÍCIO, 1914, p. 9).

Em dado momento da narrativa, somos informados ainda que Mathilde, encantada com o talento sexual de Felício, propõe contratá-lo para que seja “seu homem” por uma diária de 10$000, além de extras, o que contabilizaria mais que o dobro do salário no seu antigo emprego. O narrador aceita, iniciando, assim, sua carreira de “caften nacional”, e justifica-se: “Eu nem disse nem era preciso dizer, que eu aceitara de bom grado o novo emprego. Afinal de contas, que diabo tem de mal a gente levar o seu na transação? A cuja quer a nossa porra, logo... marche com o bronze para manutenção da dita” (FELÍCIO, 1914, p. 12).


Figura 2:
Reprodução fotográfica de Na Zona... (Fundação Biblioteca Nacional).

Modos de ver: a história e seu tempo

As aventuras de Don Felício pelas ruas do Rio de Janeiro pertencem ao universo ficcional, o que não nos impede de divisar nas suas entrelinhas o “efeito do real”, como sugeriu Sandra Pesavento (2006, p. 22), ao analisar os usos da literatura pela historiografia. Essa autora defende que a ficção literária nos permite acessar sensibilidades e modos de ver a realidade, favorecendo, assim, o resgate de “possibilidades verossímeis que expressam como as pessoas agiam, pensavam, o que temiam ou desejavam”. De acordo com essa perspectiva, a verdade de uma obra ficcional não consistiria na realidade concreta de seus personagens ou dos acontecimentos narrados, mas na sua capacidade de revelar questões que se faziam latentes num determinado tempo e lugar. Para Pesavento (2006, p. 22), portanto, o que conta na literatura enquanto fonte historiográfica não é exatamente o seu “valor de testemunho de verdade”, mas seu “valor de problema”.

Nesse sentido, são pertinentes as reflexões em torno do conceito de “imaginário” e sua relação com o que comumente se entende como “realidade”, entre as quais se destacam as contribuições do filósofo Cornelius Castoriadis. Para esse autor, o imaginário não é uma instância especular, na medida em que não se reduz ao reflexo de algo real, mas, ao contrário, a realidade é que deriva do imaginário:

O imaginário de que falo não é imagem de. É criação incessante e essencialmente indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras/formas/imagens, a partir das quais somente é possível falar-se de “alguma coisa”. Aquilo que denominamos “realidade” e “racionalidade” são seus produtos. (CASTORIADIS, 1982, p. 13).

De acordo com essa mesma perspectiva, Dominique Kalifa (2013, p. 20) define a noção de “imaginário social” como um sistema coerente e dinâmico de representações, imagens e identidades coletivas presentes em cada sociedade, que traduzem a forma como são percebidos os diferentes grupos que as compõem. Esse autor aponta que, justamente por serem os imaginários que produzem e instituem a realidade social - e não o contrário -, eles se encarnam e manifestam, entre outras coisas, em intrigas, enredos e ficções.

Trata-se de uma reflexão especialmente importante quando nos debruçamos sobre questões relacionadas ao sexo, à sexualidade e suas representações. Como observou Peter Gay (1988, p. 61), justamente por se referirem a experiências das mais íntimas, esses temas costumam ser parcamente documentados, o que se agrava quando estamos diante de contextos nos quais a moral predominante mostra-se rígida quanto ao comportamento sexual de homens e mulheres. É por isso que, como sugeriu Robert Darnton, as narrativas vistas como pornográficas podem nos “dar o que pensar”:

Ao se cristalizar em padrões culturais, o conhecimento carnal fornece material inesgotável para o pensamento, especialmente quando aparece em narrativas: piadas sujas, bravatas masculinas, fofocas femininas, canções licenciosas e romances eróticos. Sob todas essas formas, o sexo é não apenas um tema, mas também um instrumento para rasgar o véu que cobre as coisas e explorar seu funcionamento interno. (DARNTON, 1996, p. 21).

Esse autor atenta para o fato de que as narrativas pornográficas, para além da relação óbvia com questões de gênero se sexualidade, podem revelar aspectos muito interessantes quanto às relações sociais de uma maneira geral (DARNTON, 1996, p. 30). Ainda que não intencionalmente, os pornógrafos traduzem e expressam padrões de sua sociedade, sejam eles preconceitos de classe e cor, padrões de beleza e feiura, de decência e imoralidade e, é claro, expectativas comportamentais distintas para homens e mulheres, assim como a crítica à transgressão desses papéis.

O enredo de Na Zona..., os personagens ali representados, seu linguajar, os espaços que ocupam e pelos quais circulam são alguns dos elementos que nos permitem refletir em torno de determinados imaginários latentes durante a belle époque carioca. Nesse sentido, é importante destacar que o período se caracterizou, no caso brasileiro, pelo engajamento de elites políticas e intelectuais em projetos de modernização inspirados em moldes europeus - e, especialmente, franceses -, mas também pelas tensões, conflitos e ambiguidades que esse afã modernizador fez emergir na sociedade.8

No Rio de Janeiro, o principal símbolo desse processo foram as reformas urbanas empreendidas pelo prefeito Pereira Passos a partir de 1904,9 mas ele se manifestou também no âmbito cultural, nas formas de sociabilidade, divertimento e prazer10. Nesse sentido, é importante ressaltar que a proliferação de textos e imagens obscenos no Brasil integrou um processo mais amplo, de popularização do entretenimento de cunho sexual.11 Não apenas as leituras para homens se tornaram mais visíveis no espaço público das grandes cidades, mas também cabarés, peças teatrais e cinematógrafos licenciosos, além da própria prostituição (RAGO, 1991, p. 90). Esse teria sido, de acordo com determinada historiografia, um dos sintomas da belle époque brasileira e um dos ângulos que podemos refletir sobre as ambiguidades que marcaram o período

Cabe ainda destacar que, da imensa maioria de leituras para homens anunciadas nos jornais brasileiros desde 1880, nos resta pouco mais que o título, com sorte acompanhado de uma breve descrição do anunciante, visando atrair o leitor12. Nesse sentido, “Os Contos Rápidos” remanescentes já se revelariam uma fonte preciosa pelo simples fato de existirem e estarem acessíveis13. Além disso, essas são histórias ambientadas no Rio de Janeiro e publicadas por um periódico que se notabilizou justamente por noticiar - ainda que de maneira satírica e frequentemente fantasiosa - o submundo do prazer carioca, seus escândalos, protagonistas e circuitos. Sendo assim, os “Contos Rápidos” nos apresentam a oportunidade de refletir sobre determinados estereótipos e fantasias que povoavam o imaginário sexual da belle époque brasileira.

As intersecções de conto pornográfico

Particularmente interessantes nesse sentido são as intersecções entre raça, classe, gênero e nacionalidade na caracterização dos personagens de Na Zona..., que ademais representam figuras prescritas, indesejáveis ao projeto modernizante das elites que caracterizou as primeiras décadas do século XX no Brasil. A começar por Felício, o protagonista da trama, um homem das camadas populares que até o incidente que resultou na sua demissão atuava como caixeiro em um armazém. Sua caracterização é marcada pela expressão de uma sexualidade exuberante e quase bestial, o que nos permite refletir em torno de determinados discursos amplamente difundidos no Brasil durante as primeiras décadas do século XX, que atribuíam à população pobre dos centros urbanos a tendência à promiscuidade sexual (CHALHOUB, 2012, p. 172).

Além disso, o fato de Felício atuar como caixeiro é um detalhe importante se pensarmos que, desde o século XIX, pelo menos, essa atividade despertava a desconfiança dos sujeitos engajados na higienização moral do Rio de Janeiro. Os trabalhadores do “baixo comércio” eram vistos como um dos principais contingentes de “sodomitas ativos” da cidade (SOARES, 1992, p. 70), além de serem identificados como fregueses habituais das “rameiras” que ocupavam os “baixos degraus” da prostituição carioca (COARACY, 1988, p. 102), apontamentos para os quais a trajetória de Felício na trama é exemplar.14

Outro personagem revelador é o “rapazote” que cruza o caminho de Felício no Passeio Público, com suas calças justas e “paletó mostra bunda”, a quem o protagonista se refere como um “puto velho e matriculado”. Como observa James Green (2000, p. 63), entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX era comum o estereótipo que associava homossexualidade masculina e prostituição, especialmente se a primeira fosse identificada por um comportamento socialmente percebido como feminino. A breve descrição da indumentária do rapaz, assim como o fato dele estar passeando em um parque público, encontra eco em outras narrativas pornográficas do período. Esse é o caso de O Menino do Gouveia, sexto volume da “Coleção Contos Rápidos”, no qual a homossexualidade masculina é o mote central da narrativa. O protagonista é um jovem homossexual chamado Bembem que, assim como o “rapazote” descrito por Felício, circula pelos parques públicos do Rio de Janeiro sinalizando sua disponibilidade e orientação sexual com vestuário e trejeitos percebidos socialmente como afeminados (MALUCO, 1914).

Esboços dos trejeitos e modos de se vestir atribuídos aos jovens homossexuais que circulavam pelo Rio de Janeiro entre os séculos XIX e XX podem ser encontrados também em determinados discursos médicos, jurídicos e na memorialística que referenciou o comportamento público de homens homossexuais no Rio de Janeiro nesse período. O poeta Luiz Edmundo (2003, p. 89) foi um dos que descreveu os “moços de ares feminis, que falam em falsete, mordem lencinhos de cambraia” que, “depois de oito horas da noite”, frequentavam a Praça Tiradentes no limiar do século XX. A visibilidade de jovens aos quais eram atribuídos comportamentos havidos como femininos nas ruas e parques cariocas já era mencionada pelo Dr. Ferraz de Macedo em 1873, quando esse médico registrou que eles costumavam ser vistos especialmente nos arredores dos teatros, muito perfumados, trajando-se finamente, com botas de verniz, camisas de seda, paletós e calças justas (apud. SOARES, 1992, p. 73). Descrição semelhante foi feita pelo jurista Francisco José Viveiros de Castro:

Tinham eles uma toilette especial por onde podiam ser facilmente reconhecidos. Usavam paletó muito curto, lenço de seda pendente no bolso, calças muito justas, desenhando bem as formas das coxas e das nádegas. Dirigiam-se aos transeuntes pedindo fogo para acender o cigarro, em voz adocicada, com meneios provocantes e lascivos. (VIVEIROS DE CASTRO, 1934. p. 222).

Os detalhes da narrativa, no entanto, se concentram na experiência de Felício com as duas prostitutas que contrata ao longo do dia: uma estrangeira branca e anônima, e Mathilde, uma brasileira negra. Se analisada a partir da perspectiva dos estudos interseccionais, a caracterização dessas personagens nos permite refletir em torno de questões relacionadas à articulação - ou imbricação - entre marcadores sociais distintos - tais como raça, classe, nacionalidade, gênero e sexualidade - no Rio de Janeiro, durante as primeiras décadas do século XX.

A interseccionalidade, como aporte teórico-metodológico, emergiu no campo dos estudos de gênero - e mais especificamente no âmbito dos femininos negros - nos anos 1990 (VIVEROS VIGOYA, 2017, p. 572). Trata-se, em linhas gerais, de uma perspectiva que propõe privilegiar o debate em torno de temas, fatos e experiências que articulam categorias - ou marcadores sociais - que, historicamente, foram considerados de maneira isolada, tais como classe, raça, gênero, sexualidade e nacionalidade, entre outros. O que orienta as discussões do campo da interseccionalidade, portanto, é a articulação entre as diversas categorias e relações de diferença ou poder, em contextos específicos, com a finalidade de refletir em torno das desigualdades e privilégios que elas engendram (DÍAZ-BENÍTEZ e MATTOS, 2019, p. 67).

Analisando o enredo de Na Zona... a partir dessa perspectiva, é interessante notar, por exemplo, que a cor da pele e a nacionalidade de ambas as personagens femininas foi ressaltada por Felício. A francesa foi descrita como uma mulher “alta, loura, bem pintadinha, cheiazinha de corpo sem, entretanto, ser gorda, peitos regularmente duros ainda”, possuidora de “uma linda pele claro-rósea” (FELÍCIO, 1914, p. 4), enquanto Mathilde foi apresentada como um “mulatão todo dengoso”, “um tipo bonito de mestiça nacional”, de “lábios carnudos e sensuais” (FELÍCIO, 1914, p. 8). De igual maneira, a cada uma delas foram atribuídos dotes sexuais especiais: a francesa declarou-se especialista em sexo oral15 - qualidade que Felício teve a oportunidade de atestar -, e Mathilde, apesar da resistência inicial, revelou-se pródiga no sexo anal, como preconizava o protagonista ao decidir procurar uma profissional brasileira.

A narrativa reitera, portanto, estereótipos que associavam aspectos raciais e de origem nacional às habilidades e inclinações sexuais, o que nos permite refletir sobre “sexualização da raça e racialização da sexualidade”16 dessas personagens. Ao discutir as intersecções entre raça e sexualidade no contexto latino-americano, Mara Viveiros Vigoya (2017, p. 574), aponta que, além de legitimar desigualdades sociais, a noção de raça permite ainda explicar os diversos mecanismos de dominação e controle pelos quais são submetidas mulheres com identidades étnico-raciais distintas. Além disso, esse aporte permite evidenciar valores sexuais e expectativas comportamentais direcionados a essas mulheres. Nesse mesmo sentido, Peter Wade (2008, p. 1) aponta que um dos mecanismos de dominação que sustentam hierarquizações sociais racializadas é a fetichização do subalterno em termos sexuais, seja como objeto de desejo ou repugnância.

Trata-se de uma questão importante, quando pensamos nas categorias pelas quais eram estabelecidas diferenças - e desigualdades - entre as mulheres que atuavam ou eram identificadas como prostitutas no Rio de Janeiro, entre meados do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Como se sabe, a presença de prostitutas, cafetinas e caftens estrangeiros no Brasil entre os séculos XIX e XX é fartamente documentada em fontes do período e foi tema de inúmeros trabalhos historiográficos.17 Naquele contexto, a origem real ou presumida das prostitutas contribuiria para uma hierarquização do meretrício, e os discursos em torno da chamada “prostituição pública” nesse período tendiam a dividir seu exercício entre três grupos de mulheres: as “francesas”, “polacas” e “brasileiras”.

Não era necessariamente a nacionalidade das mulheres o que determinava sua posição nessa hierarquia, mas sobretudo seu status social e características físicas. Sendo assim, o grupo das francesas era composto por mulheres brancas, especialmente as oriundas da Europa ocidental ou mesmo brasileiras esteticamente próximas desse modelo, enquanto o grupo das polacas eram majoritariamente mulheres brancas e pobres, vindas principalmente do leste europeu ou judias. Já o grupo das brasileiras era composto por nacionais, sobretudo negras e mestiças de origem pobre (CAULFIELD, 2000, p. 43-63).

Como apontam Cristiana Pereira e Fabiane Popinigis, a polarização entre polacas e francesas

levou a uma complexa construção de estereótipos em que elementos de gênero e étnicos eram combinados a percepções sexualizadas da nação. Nesse contexto se entende a articulação de estereótipos da prostituta francesa - personificação da mulher elegante, cosmopolita e civilizada - e da polaca - associada à mulher miserável, rural, e vulnerável a enganos e violências. (PEREIRA; POPINIGIS, 2009, p. 63).

Recorrendo à memorialística do final do século XIX, Cristiana Pereira (2002, p. 153) discute a atração que a cor das prostitutas europeias exercia entre aqueles que comentavam a prostituição no Rio de Janeiro durante o período. Segundo a autora, essas mulheres começaram a circular na cidade ao mesmo tempo em que bens de consumo europeus e sua presença sinalizava a adequação do Brasil em determinado ideal de modernidade (PEREIRA, 2002, p. 152).18 Jeffrey Needell, no entanto, argumenta que o fascínio exercido pelas francesas não pode ser atribuído unicamente à cor de sua pele ou ao exotismo de seu sotaque, já que trabalhadoras sexuais identificadas como polacas também eram brancas e europeias, em sua maioria. Esse autor, que analisa a prostituição na belle époque carioca a partir de uma perspectiva de “fetichismo de consumo”, concluí que o atrativo dessa prostituição de luxo seria a “mulher francesa per se”, entendida naquele contexto como uma “mercadoria” destinada às elites (NEEDELL, 1993, p. 202).

Vê-se, portanto, que o fato de Felício ter contratado uma profissional europeia não é excepcional, mas essa personagem não corresponde ao ideal de prostituta francesa mais amplamente difundido no imaginário da época - e, como aponta Cristiana Pereira (1997, p. 190), bastante reforçado pela historiografia -, que associava a categoria ao luxo e refinamento. Pereira chama a atenção, por exemplo, para o fato de que, embora a “marrequinha” tenha impressionado Felício com sua habilidade, ela é quase mecânica. Trata-se de uma performance técnica, por mais bem-sucedida que seja, e é interrompida bruscamente para que fosse negociado o valor. Predomina, portanto, “uma relação sem nenhum encanto” e “distante de qualquer refinamento” (PEREIRA, 1997, p. 190). Além disso, ela aborda ostensivamente o cliente no meio da rua, em plena “zona das marrequinhas”, região ocupada principalmente por polacas, enquanto o meretrício de luxo concentrava-se nas ruas da Glória19. Também os valores informados - 5$ para cuspir e 10$ para engolir - são ilustrativos do lugar ocupado pela personagem na hierarquia do meretrício, uma vez que, ainda de acordo com Pereira (1997, p. 190), nesse período as prostitutas mais acessíveis cobravam entre 2$ e 3$, enquanto as “francesas” de alto bordo não atuavam por menos de 20$.

Embora contrarie determinado imaginário associado às prostitutas francesas, contudo, essa personagem parece encontrar eco na realidade. Lená Medeiros de Menezes (1992, p. 44) aponta, em sua pesquisa, que inúmeras mulheres de origem francesa atuavam nos bordéis e zonas de baixo meretrício nas regiões centrais da cidade, comumente associadas às polacas. Cristiana Pereira (2002, p. 154) também chama a atenção para o fato de que a inserção de prostitutas europeias na organização do meretrício nem sempre acompanhou a imagem idealizada da “francesa”, uma vez que sua convivência com mulheres pobres, brasileiras negras, mestiças e “polacas” alarmava as autoridades.

Como aponta Pereira (1997), a francesa contratada por Felício revela-se, a despeito de sua origem nacional, uma “polaca”, graças ao seu status social e à posição que ocupa na hierarquia da prostituição carioca naquele período, ou seja, por questões de classe. Tal posição é definida, entre outros elementos, pela freguesia que atrai, encarnada, na trama, em Felício, um homem pobre e bronco, com instintos sexuais desenfreados.

Já a caracterização de Mathilde, a prostituta brasileira e negra, foi carregada de outros estereótipos. Quanto ao seu lugar social, ele é demarcado por dois elementos bastante nítidos na narrativa, a começar pelo endereço em que ela atua, Rua Gomes Freire, conhecida pelas pensões baratas, nas quais atendiam “brasileiras” e “polacas”. Além disso, enquanto as falas da francesa destacavam seu sotaque estrangeiro, as de Mathilde, cheias de erros gramaticais e vícios de linguagem, sinalizavam sua baixa instrução. Considerando a conjuntura da época, em uma sociedade extremamente marcada pelo preconceito racial, recém-saída da escravidão e na qual, além disso, discursos médicos e higienistas justificavam cientificamente o racismo e inspiravam políticas e práticas de branqueamento da população, não soa estranho que uma prostituta negra pertencesse às camadas populares e tivesse pouca ou nenhuma escolaridade20.

A personagem de Mathilde, no entanto, revela outros contornos. Pereira (1997, p. 191) chama a atenção, por exemplo, para o fato de que, na trama, ela se destaca positivamente em relação à estrangeira branca.21 A própria Mathilde faz questão de se distinguir em relação às “estranjas”, quando declara não ser mulher de se dignar a “chupá pica de home” (FELÍCIO, 1914, p. 8). Além disso, no final da narrativa é Mathilde quem se compromete a sustentar financeiramente Don Felício, inclusive cobrindo o salário de seu antigo emprego (FELÍCIO, 1914, p. 11), o que evidencia que, a despeito de ser uma mulher negra, prostituta e sem instrução, ela se encontrava em condições econômicas mais confortáveis que o protagonista.

O protagonismo dessa personagem - e a superioridade de seus encantos, em relação à estrangeira branca - chama a atenção, uma vez que a polarização entre polacas e francesas - reiterada pela memorialística e pela historiografia dedicada ao período - silenciava, de maneira estratégica, “sobre a maioria de prostitutas brasileiras, mestiças e negras e a atração que elas exerciam sobre uma variedade de homens” (PEREIRA; POPINIGIS, 2009, p. 63). Isso pode ser observado nas páginas do próprio jornal O Rio Nu, no qual as mulheres negras, quando não eram simplesmente invisibilizadas, costumavam ser representadas de maneira bastante negativa.22 Nesse contexto, marcado pelo afã de modernidade inspirada nos moldes europeus e pelos discursos médicos higienistas que condenavam a miscigenação como seu pior mal, a hierarquia dos desejos tendia não apenas a celebrar a mulher branca, jovem e magra como, de forma ainda mais obstinada, condenava o seu avesso: a mulher negra “feia” e “maltratada” (PEÇANHA, 2012, p. 63).

Por outro lado, como aponta Sueann Caulfield (2000, p. 44), a prostituição exercida por mulheres negras no Brasil durante as primeiras décadas do século XX também era regida por uma hierarquia. Segundo a autora, nesse período o termo “mulata” - com o qual Felício descreve Mathilde - era geralmente empregado para designar prostitutas com um tom de pele mais claro, mas também as que haviam alcançado uma posição mais privilegiada graças ao talento, reputação ou beleza. Já as mulheres com o tom de pele retinto ou consideradas degradadas eram chamadas pejorativamente de negras.

Como aponta Pereira, portanto, embora os “Contos Rápidos” reafirmem a perspectiva masculina em relação às mulheres e ao sexo, eles indicam que tal ponto de vista varia de acordo com o sujeito que o formula: “o fascínio pela francesa - que na verdade é uma polaca - é aqui substituído pela valorização da autenticidade da mulata nacional”. Desse modo, “a construção de uma linguagem que pressupõe uma identificação masculina não apaga a diversidade de desejos e fantasias” (PEREIRA, p. 192).23

Trata-se de uma questão importante, pois, como nos recordam Díaz-Benítez e Mattos, é preciso evitar analogias entre diferença e desigualdade, uma vez que tais categorias não são necessariamente equiparáveis. Recorrendo aos trabalhos de Avtar Brah (2006) e Anne McClintock (2010), as autoras apontam que a articulação entre as diferentes categorias que operam como marcadores sociais da diferença existe enquanto relações contingentes e contextuais, presentes e variáveis em cada tempo e lugar. Desse modo, as identidades seriam processos, constantemente marcados pela diversidade de contingências, razão pela qual os processos de racialização não necessariamente se dão, de maneira exclusiva, num plano negativo. É preciso considerar, portanto, que encontros e relações racializadas podem evocar desejo, tanto quanto abjeção (DÍAZ-BENÍTEZ; MATTOS, 2019, p. 79).

Considerações finais

Neste artigo, me limito a refletir sobre algumas das questões que suscitam a representação da prostituição feminina em Na Zona..., mas a narrativa permite ainda inúmeras outras abordagens. Longe de pretender esgotar o debate, minha intenção aqui se limita a lançar luz sobre a riqueza de possibilidades analíticas que apresentam os textos e imagens percebidos como pornográficos, o que apenas recentemente começou a ser notado pela historiografia brasileira.

Para além dos indícios de temas e personagens que alimentavam o imaginário sexual da sociedade brasileira na época em que foram produzidos, acredito que Na Zona..., tem ainda o mérito de lançar luz sobre as culturas pornográficas nacionais, que apresentam cenários e personagens que faziam parte do imaginário social de uma época, o que ainda é pouco estudado no âmbito da História. A reflexão em torno da pornografia enquanto categoria classificativa e dos materiais, discursos e comportamentos percebidos como pornográficos24 tende a privilegiar a experiência francesa e, em menor escala, inglesa. Isso resulta em certo silenciamento em relação ao que foi produzido e difundido a partir de outros lugares, como o Brasil, e, consequentemente, em uma compreensão limitada a respeito do fenômeno de emergência da pornografia enquanto fato social.

Nesse sentido, acredito que análises aprofundadas, que reflitam sobre as experiências locais a partir de uma perspectiva mais ampla e transnacional, privilegiando os diálogos e influências, mas também as particularidades de cada sociedade diante das coisas havidas como pornográficas contribui não apenas para uma melhor compreensão da pornografia enquanto categoria e discurso, mas da própria sociedade, de uma maneira geral.

Supplementary material
Referências
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Notes
Notes
1 Embora fosse editado no Rio de Janeiro, o jornal podia ser adquirido pelos leitores de outros Estados via remessa postal. Nas ruas da capital, era encontrado em engraxates, barbearias e outros espaços de predominância masculina, além de ser anunciado por vendedores ambulantes em praças e pontos de bonde (PEREIRA, 1997, p. 56).
2 Muitas controvérsias marcam o debate em torno das definições de “pornografia”. Motivada pelas reflexões elaboradas por autores como Walter Kendrick (1995) e Bernard Arcand (1993), entre outros, entendo como pornográficos os materiais, discursos e comportamentos que, por terem ultrapassado a fronteira do moralmente tolerável em determinada época e lugar, foram percebidos como tal. Nesse sentido, o que entendemos como “pornografia” seria a relação entre um conteúdo e seu contexto.
3 É importante ressaltar que isso não se deu sem conflitos. O próprio O Rio Nu teve problemas com a lei em 1910, quando o então diretor-geral dos correios, Joaquim Tosta, impediu sua circulação e de outro “jornal alegre”, o Sans-Dessous, pelas dependências da empresa. O argumento de Tosta era de que esses jornais eram pornográficos. Essa contenda animou um intenso debate na imprensa da época sobre os limites do moralmente tolerável (ver CARDOSO, 2019 e PEREIRA, 1997).
4 Até a extinção da folha foram publicados 20 títulos, dentre os quais, pelo que pude apurar, apenas seis sobreviveram ao tempo e atualmente podem ser consultados na Fundação Biblioteca Nacional (FBN), no Rio de Janeiro. São eles: O Menino do Gouveia (n. 6), A Pulga (n. 7), Na Zona... (n. 11), O Brinquedo (n. 12), O Cachorro (n. 13) e O Marchante (n. 18).
5 O conceito de “imaginário social” é trabalhado por autores como Cornelius Castoriadis (1982) e Dominique Kalifa (2013), entre outros.
6 A historiografia aponta diferentes marcos cronológicos para o período designado belle époque no Brasil. De uma maneira geral, contudo, esses marcos são encontrados entre o fim do império, em 1870, e a Semana de Arte Moderna, de 1922. O período foi marcado por tensões entre os projetos de modernização europeizantes das elites e os limites impostos pelas especificidades socioculturais brasileiras.
7 Como apontam Díaz-Benítez e Amana Mattos (2019, p. 67), a teoria interseccional se orienta a partir da articulação entre diferentes categorias e relações de diferença de poder, tais como gênero, classe, raça, nacionalidade etc., no sentido de refletir sobre produção de desigualdades e lugares de privilégio.
8 Refletindo sobre a experiência francesa - que deu origem ao termo belle époque -, Dominique Kalifa (2016, p. 119) problematiza as imagens de progresso e prosperidade que o cronônimo evoca - e que por muito tempo foram reforçadas pela historiografia - ressaltando as ambiguidades, conflitos e desigualdades que marcaram o período a que ele se refere. No caso brasileiro, os limites e tensões dos projetos modernizantes e europeizantes foram também questionados em trabalhos que evidenciam as sociabilidades, resistências e rebeldias dos grupos sociais vistos como indesejáveis ao modelo de nação almejado pelas elites (ver CHALHOUB, 1996 e CARVALHO, 1987).
9 Para uma maior compreensão do impacto das reformas de Pereiras Passos, ver: NEEDELL, 1993; CHALHOUB, 1996 e CARVALHO, 1987.
10 Entre os trabalhos historiográficos dedicados a esses aspectos da belle époque brasileira, cabe destacar: NEEDELL, 1993; RAGO, 1991; ARAÚJO, 1993; CAULFIELD, 2000; CHALHOUB, 2012.
11 Assim como ocorreu em outras partes do mundo, os textos e imagens percebidos como pornográficos se tornaram mais populares e visíveis no espaço público brasileiro a partir de 1880, fenômeno que se inscreve no processo de popularização das culturas impressas, de uma maneira geral (CHARTIER, 1998, p. 16-17), e no Brasil foi especialmente sentido no Rio de Janeiro.
12 Alessandra El Far (2004, p. 193) aponta que, a princípio, a maioria dos “livros para homens” oferecidos no Brasil era de autoria portuguesa ou traduções lusas de clássicos franceses e ingleses, mas pouco a pouco se consolidou uma produção nacional, que incluía periódicos e livros produzidos no país. No bojo desse processo, o jornal O Rio Nu merece destaque, uma vez que seus editores se dedicaram também à publicação de livros.
13 Os “Contos Rápidos” remanescentes podem ser consultados no setor Obras Raras da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. O Menino do Gouveia, sexto volume da coleção, foi reeditado pela editora O Sexo da Palavra em 2017.
14 Pereira e Popinigis (2009), inclusive, dedicaram um artigo à análise das relações de sociabilidade estabelecidas entre caixeiros e prostitutas no Rio de Janeiro nesse período.
15 O estereótipo da francesa especialista nessa prática era bem arraigado no imaginário popular (PEREIRA, 2002, p. 288), embora nos depoimentos colhidos por Paulo Sérgio do Carmo (2011, p. 206 e 297) ela seja apontada mais como uma recusa das prostitutas brasileiras do que exatamente um distintivo francês em si.
16 A expressão é uma referência direta ao título de um artigo de Mara Viveros Vigoya (2009).
17 Estima-se que desde meados do século XIX, pelo menos, o Rio de Janeiro tenha sido palco de uma “importação maciça” de mulheres europeias, cujo contingente, num primeiro momento, constituiu-se majoritariamente de portuguesas, as chamadas ilhoas. A partir de 1860 este grupo seria incrementado com a chegada de mulheres de outras nacionalidades, como as espanholas, austro-húngaras, italianas, albanesas e francesas (SOARES, 1992, p. 50). A respeito da prostituição exercida por mulheres europeias, ver, por exemplo: RAGO, 1991; MENEZES, 1992; NEEDELL, 1993, SOARES, 1992, KUSHNIR, 1996.
18 É importante ressaltar, contudo, que essa inserção não foi interpretada de maneira positiva por todos os setores da sociedade. Para grupos conservadores, em especial os ligados ao catolicismo, por exemplo, os signos da modernidade - e, entre eles, a presença de prostitutas europeias - era um sinal de decadência moral (CARDOSO, 2019, p. 52).
19 A Rua das Marrecas, que ainda hoje conserva esse nome, encontra-se no centro da cidade, próxima ao Passeio Público, e entre os séculos XIX e XX era um conhecido ponto de prostituição. Em 1911, a coluna “Rio à Noite”, publicada em O Rio Nu, explicava a origem das “marrequinhas”, nome pelo qual eram designadas as prostitutas que lá atuavam. Dizia-se que, após a polícia expulsar da Senador Dantas, o “madamismo alegre”, impelindo a atividade para as ruas das Marrecas, Joaquim Silva e adjacências da Lapa, “esse pessoal, que tomou o nome genérico de marrequinhas”, passara a fazer a “ronda da luxúria” pelas bandas da Avenida Central (NOTÍVAGO. Rio à Noite. O Rio Nu, Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1911, p. 2).
20 A respeito das teorias raciais e higienistas em voga no Brasil nesse período, ver: SCHWARCZ, 1993.
21 De acordo com essa autora, a superioridade de Mathilde se evidenciaria pelo contraste entre a frieza técnica que o protagonista experimentou com a francesa, que não o teria satisfeito, e o clímax vivido com a brasileira.
22 Natália Peçanha, analisando o papel pedagógico desse jornal na confirmação de valores viris próprios do começo do século XX no Brasil, destacou a forma notadamente pejorativa com que homens e mulheres negros eram representados. Mesmo a figura da criada, um clichê pornográfico bastante explorado pelas narrativas nacionais, era representada de acordo com o padrão de branquitude europeu, ainda que, como aponta essa autora, no início do século a quantidade de empregados domésticos brancos não chegasse à metade do número de negros, mestiços e caboclos (PEÇANHA, 2012, p. 6-7).
23 Nesse sentido, não podemos deixar de considerar também que os redatores do jornal O Rio Nu - entre os quais, podemos presumir, estão os autores dos “Contos Rápidos” -, ocupam um lugar na hierarquia social do Rio de Janeiro de então, que em muito os distinguia dos personagens desse conto. Muito embora eles demonstrassem - dado conteúdo publicado pelo jornal - conhecer muito bem os itinerários e dinâmicas das diversões sexuais no Rio de Janeiro, faziam isso expressando visões de mundo atravessadas por preconceitos de classe, raça, gênero e nacionalidade, o que evidencia diferenças importantes não apenas entre eles e alguns de seus leitores, mas também em relação aos personagens que retratavam (PEREIRA, 2002, p. 284).
24 É o antropólogo Bernard Arcand (1993, p. 134) quem sugere que a história da pornografia é dividida em duas: a história do conceito e a história daquilo que ele viria a designar.
Author notes

E-mail: erikacardoso.uff@gmail.com


Figura 1:
Capa de Na Zona...(Fundação Biblioteca Nacional).

Figura 2:
Reprodução fotográfica de Na Zona... (Fundação Biblioteca Nacional).
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