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A soja e os colonos poloneses no sul do Brasil: o caso de Ceslau Biezanko e outros personagens (1930-1934)
Rhuan Targino Zaleski Trindade
Rhuan Targino Zaleski Trindade
A soja e os colonos poloneses no sul do Brasil: o caso de Ceslau Biezanko e outros personagens (1930-1934)
Soybean and Polish settlers in southern Brazil: the case of Ceslau Biezanko and other characters (1930-1934)
História Unisinos, vol. 22, núm. 2, pp. 254-263, 2018
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
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Resumo: A proposta deste trabalho é analisar o caso do imigrante e agrônomo polonês Ceslau Biezanko, reconhecido oficialmente como o introdutor das sementes de soja no planalto do Rio Grande do Sul, Brasil, junto aos colonos poloneses da atual cidade de Guarani das Missões, no início dos anos 1930, muito antes do boom da soja naquela região. Apesar do reconhecimento oficial, pretendemos inserir Biezanko no contexto da relação da soja com os colonos poloneses através de outros intelectuais introdutores da planta, na década de 1930, tanto na comunidade polonesa do estado do Paraná como na própria região do planalto gaúcho, onde inclusive surgiram polêmicas envolvendo o pioneirismo da leguminosa.

Palavras-chave:sojasoja,polonesespoloneses,Ceslau BiezankoCeslau Biezanko.

Abstract: The purpose of this paper is to analyze the case of a Polish immigrant and agronomist, Ceslau Biezanko, officially recognized as the introducer of soybean in the plateau of Rio Grande do Sul, Brazil, among Polish settlers in the present city of Guarani das Missões, in the early 1930s, long before the soybean boom in the region. Despite the official recognition, we intend to insert Biezanko in the context of the relationship of soybean with Polish settlers through other intellectual introducers of the plant, in the 1930s, both in the Polish community of Paraná state and in the region of the plateau of Rio Grande do Sul, where controversies involving the pioneering introduction of that legume emerged.

Keywords: soybean, Polish people, Ceslau Biezanko.

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A soja e os colonos poloneses no sul do Brasil: o caso de Ceslau Biezanko e outros personagens (1930-1934)

Soybean and Polish settlers in southern Brazil: the case of Ceslau Biezanko and other characters (1930-1934)

Rhuan Targino Zaleski Trindade[1]
Universidade Estadual do Centro-Oeste., Brasil
História Unisinos, vol. 22, núm. 2, pp. 254-263, 2018
Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Recepção: 27 Junho 2016

Aprovação: 04 Julho 2017

Introdução

O Prof. Czesław Marian Bieżanko, pela sua projeção internacional, pela sua notabilidade e pelos seus relevados serviços prestados ao progresso do Brasil, de há muito tempo é merecedor do reconhecimento do governo da República, e a tal respeito bem andariam nossas autoridades diplomáticas se diligenciassem, sem mais tardança, a outorga da Ordem do Cruzeiro do Sul, a tão singular e ilustre amigo do Brasil (Chácaras e Quintais, 1963, p. 40).

O Eng. Biezanko, que apesar de que foi meu professor de Biologia e Botânica, o considero também um grande “demagogo”, e explico-me: Enquanto nós trabalhamos para trazer um desenvolvimento ao nosso colono o Snr. Biezanko escrevia artigos sobre o que ele não tinha feito [sic] (Kurylo, 1966a).

Quando nos propomos refletir sobre a temática da imigração no Brasil (notadamente a colonização europeia no sul do país), percebemos as grandes potencialidades que este tema é ainda capaz de gerar, principalmente quando articulado às questões sociais, econômicas, políticas, culturais, entre outros aspectos que fazem parte da configuração histórica da imigração.

Alguns grupos étnicos específicos, como os poloneses, carecem de estudos acadêmicos especializados na área de história. Nesse contexto, são um aporte interessante para se refletir sobre a imigração, posto que, por ser um grupo basicamente agrário (cerca de 95% dos imigrantes eram camponeses), permitem articular a temática imigratória com a perspectiva rural e ambiental, as quais fazem parte do processo de colonização dos estados do sul do Brasil e podem enriquecer os estudos migratórios e étnicos.

A proposta deste artigo é descrever e analisar a relação do cultivo de um produto novo nos primeiros anos da década de 1930, a soja, na sua correlação com os colonos poloneses no sul do Brasil. Durante este período, houve um momento inicial de entrelaçamento do início do cultivo da soja por agricultores de origem europeia com a atuação de agrônomos também europeus nos estados sulinos do Brasil. No nosso trabalho, exemplificaremos esta conjuntura a partir do trabalho do agrônomo Ceslau Biezanko, um imigrante polonês nascido em 22 de setembro de 1895, em Kielce[2], que, depois de se formar engenheiro agrônomo e trabalhar na Europa (onde constituiu extenso currículo), foi enviado pelo governo polonês no início da década de 1930 para a América do Sul[3].

O cientista viria a se fixar no Brasil, onde foi reconhecido oficialmente em 1963 pelo governo brasileiro como o introdutor de sementes de soja no Rio Grande do Sul, devido ao seu trabalho junto aos colonos poloneses da atual cidade de Guarani das Missões (no planalto gaúcho), no início dos anos 1930, décadas antes do boom da leguminosa naquela região, que é evidente somente a partir dos anos 1950 e especialmente ao longo dos anos 1970, quando fez parte do projeto de modernização da agricultura conduzido pelo governo federal.

Apesar do reconhecimento oficial, pretendemos inserir Biezanko no contexto de uma equação soja/colonos poloneses na qual aparecem outros intelectuais candidatos a introdutores dessa planta na década de 1930, num trabalho de confluência de predicados étnicos e econômicos/agrários. Estes intelectuais abrolham nas comunidades polonesas do estado do Paraná e na própria região do planalto gaúcho, onde inclusive surgiram polêmicas envolvendo o pioneirismo da cultura da leguminosa.

A comunidade polonesa tem Biezanko como um referencial, um personagem cimentado na identidade étnica polono-brasileira como um notável, reconhecido na área científica, alguém que positiva a imagem do grupo polonês no país, reconhecido como o imigrante que “contribuiu” economicamente. Em resumo, uma figura de reforço identitário, maiormente em razão das atividades relacionadas com a soja. Nesse ínterim, outros personagens, ainda que vinculados à comunidade polonesa, foram esquecidos. Dessa forma, dentro das tramas memorialísticas na sua confluência dialética com a identidade (Candau, 2012), que envolve o lembrar e o esquecer, configura-se uma interlocução de passado e presente, bem como dos usos da memória e da história, os quais constituem disputas pelo poder de enunciar e de estabelecer aquilo que deve ser (re)memorado.

Partimos, para nossa análise, dos escritos de Biezanko, dos periódicos polono-brasileiros dos anos 1930 e de depoimentos de habitantes de Guarani das Missões, os quais nos permitiram chegar a algumas considerações sobre a introdução da soja e sua correlação com os poloneses no noroeste gaúcho nestes primeiros anos da década de 1930. Ao apresentar a experiência de Biezanko em conjunto com outras tentativas menos divulgadas de expansão da soja entre os poloneses, pretendemos demonstrar também a construção identitária que ocorre em razão do posterior sucesso comercial da soja, bem como alicerçar aspectos que permitam pensar a história agrária do Rio Grande do Sul com base no trabalho de intelectuais e agricultores estrangeiros nas primeiras décadas do século XX.

A imigração polonesa no Brasil

Em primeiro lugar, para entender a equação soja/poloneses, precisamos compreender como se constituiu a imigração deste grupo europeu e a conformação de uma comunidade étnica polonesa nas colônias rurais brasileiras, em especial no Paraná e no Rio Grande do Sul. Além disso, devemos ter em conta o perfil do imigrante polonês, sua localização espacial e estabelecimento cronológico no Brasil meridional para entender os motivos que levaram ao cultivo da soja lastreada no trabalho de intelectuais também poloneses.

De acordo com a bibliografia clássica (Wachowicz, 1974), a imigração polonesa está inserida no contexto das ondas imigratórias provindas da Europa rumo à América, principalmente no último quarto do século XIX até 1930. A Polônia do século XIX vivia uma situação assaz particular, uma vez que, oficialmente, o país não existia, estando seu antigo território dividido entre os Impérios Alemão, Áustro-Húngaro e Russo, cada qual com diferentes maneiras de administrar a situação dos poloneses. Diferentes políticas de despolonização e supressão de revoltas independentistas polonesas legaram um período de dominação extrema, a qual culminava com expulsões e realocações populacionais, impedimento da profissão da fé católica e do uso do idioma polonês na vida pública.

Ademais da problemática da dominação estrangeira, também as questões econômicas eram fatores importantes de pressão social na Polônia do último quarto do século XIX. A concentração das terras na mão dos grandes latifundiários, a minifundização das propriedades camponesas e a proletarização devido ao fim da servidão eram outros fatores que, somados à expansão demográfica, geravam um aumento da pobreza no campo (Wachowicz, 1974).

Uma alternativa para escapar à pressão social e econômica devido à injunção dos fatores citados (Wachowicz, 1974, p. 135) foi a emigração. O Brasil oferecia lotes coloniais de aproximadamente 25 hectares nos estados sulinos para famílias de camponeses ansiosos por melhorar sua condição de vida, ainda que permanecendo no campo. Também, o subsídio da passagem e a propaganda de agentes de imigração brasileiros, os quais, somados à tradição de imigração sazonal nas regiões da Polônia, conduziram ao desenvolvimento de uma imigração polonesa no Brasil.

A imigração se iniciou oficialmente em 1869 em Santa Catarina. Neste contexto, o Paraná e o Rio Grande do Sul foram alguns dos estados que receberam a maior parte destes imigrantes, os quais ocuparam os últimos lotes de colonização disponíveis na região, respectivamente a partir de 1871 e 1875. Contudo, são os anos de 1890 a 1894 os definitivos para a imigração polonesa, etapa conhecida como a “goraczka brazijliska”, ou “febre brasileira”, quando milhares de poloneses, na sua grande maioria camponeses, espalharam-se pelo Brasil meridional, alguns poucos em núcleos urbanos e outra parte no interior.

No Paraná, os imigrantes poloneses ocuparam o entorno de Curitiba e colônias na região centro-sul e sudeste do estado. Já no Rio Grande do Sul, houve uma ocupação mais dispersa, com um assentamento inicial, predominantemente, em áreas de colonização nas quais outros grupos constituíam a maioria, como os italianos na serra Gaúcha. Posteriormente, em períodos diferentes, foram estabelecidos assentamentos mais concentrados com poloneses em outros locais espalhados por diversas regiões. Assim, dois foram localizados ao sul de Porto Alegre (as colônias de Dom Feliciano e Mariana Pimentel), outros em Ijuí, em Erechim e em São Marcos e especialmente em Guarani das Missões, na região noroeste do estado, então maior assentamento polonês, constituído por mais de 2 mil lotes e que atingiu, em meados da década de 1930, contabilizando as colônias do entorno, 12 mil poloneses (Gardolinski, 1956).

Segundo o periódico polono-brasileiro Kalendarz Ludu de 1948, a imigração polonesa se constituía em 95% de camponeses, 3,5% de operários e artesãos, 1% de comerciantes e 0,5% compunham a intelligentsia, sendo os últimos imigrantes urbanos ou políticos vindos especialmente depois da Revolução na Rússia de 1905. Apesar de não ser a maioria dos imigrantes, os dados contrariam Gardolinski (1956), que assevera que “os melhores filhos da Polônia” não emigraram, e Wachowicz (1974, p. 112-113) que afirma: “Emigrava somente o povo miúdo” e que “A chamada “intellegéntia” não emigrava”, ou seja, a noção de que a elite letrada do país não teria se deslocado para o Brasil, preferindo outras nações (o que definiria o caráter predominantemente agrário da colonização polonesa). A despeito dos números de imigrantes para essa parcela da sociedade serem menores, não se admite desconsiderá-la. Vários intelectuais poloneses imigraram temporária ou definitivamente ao longo do tempo, sendo Ceslau Biezanko um exemplo, já que era um cientista de longa formação, trabalhando com ensino, pesquisa e prática laboratorial em diferentes áreas das Ciências Naturais (Trindade, 2015).

Uma breve história da soja no Brasil e os agrônomos estrangeiros

Neste segundo momento, parece-nos premente trazer aportes sobre o contexto da soja no Brasil, a fim de, posteriormente, vinculá-la aos imigrantes poloneses. Segundo Biezanko (1958), a planta seria conhecida no Extremo Oriente desde tempos remotos, isto é, há mais de 5.000 anos, quando encontrou aplicação e consumo. Desde fins do século XVII, a soja é alimento básico na China, Coreia, Manchúria e Japão.

No Brasil, Dean (1989) escreve que um viajante encontrou soja no Rio de Janeiro no início do século XIX. Segundo Freire e Vernetti (1997), a referência mais antiga do produto é de 1882, num artigo intitulado “Soja” no Jornal da Agricultura do Rio de Janeiro, assinado pelo agrônomo D’Utra, que pesquisava nos últimos anos daquele século. Depois, no início do século XX, o cultivo da soja está relacionado à imigração dos japoneses em São Paulo, imigrantes estes que teriam contato com o produto no seu país natal e, no Brasil, seriam os primeiros a plantar fora dos estabelecimentos agronômicos. Nos anos 1920, destacam-se plantações experimentais no sudeste brasileiro (São Paulo).

Para o caso do Estado do Rio Grande do Sul, as referências mais antigas citadas por Freire (1997) são de 1901, mas a introdução só teria ocorrido em 1914 com o americano E.C. Craig, professor de Agricultura da Escola Superior de Agronomia e Veterinária da Universidade Técnica do Rio Grande do Sul. Posteriormente, em 1924, em Santa Rosa, no noroeste gaúcho, a cultura teria se estabelecido e, de lá, se difundido para outras regiões e municípios vizinhos do Alto Uruguai e Missões. Campal (1977) afirma que o Noroeste do Rio Grande do Sul nos anos 1930 viu a ação de dois “líderes da soja”: Pastor Lembauer e Biezanko. O pastor luterano norte-americano Lembauer, depois do cultivo rudimentar em Santa Rosa em 1914, teria proposto uma cultura mais sistemática quando esteve na cidade como missionário em 1923.

Os anos de 1930 marcariam o fim da adoção do produto pelos agricultores, e, na década seguinte, e já apareceram safras mais significativas em algumas estatísticas oficiais (Freire e Vernetti, 1997). A partir de então, após o plantio inicial teriam ocorrido a disseminação por repasse de sementes de um colono para outro e uma expansão da produção.

O importante a destacar é que, a partir da Segunda Guerra Mundial, o cultivo aumentou, e já em 1942 foram exportadas do Brasil 480 toneladas do produto e em 1952, 77 mil toneladas, num crescimento exponencial. Além disso, ainda no contexto dos anos 1930, iniciaram-se as primeiras fábricas com o objetivo de beneficiar o grão. Com o tempo, o plantio da soja passou a ser associado com o do trigo, proporcionando as bases para a modernização da agricultura no Rio Grande do Sul, processo que permitiria o grande desenvolvimento da leguminosa nas décadas seguintes, a decadência da agricultura tradicional da zona colonial e a ampliação do agronegócio.

Com base nos dados supramencionados, merece relevo a influência de agrônomos e outros profissionais estrangeiros na introdução da soja e sua participação na disseminação da leguminosa entre os colonos, em geral também estrangeiros ou descendentes, fundamentais para a adaptação do produto asiático em solo americano. Entretanto, foi quando aumentaram as exportações bem como as indústrias da soja e existia então a possibilidade da venda que os colonos iriam passar a produzi-la em grande escala, o que interferiu efetivamente na condição camponesa deles e mudou suas relações com a mecanização, insumos, etc.

A associação da soja com os poloneses é importante, pois, no início dos anos 1930, este grupo imigrante já conhecia algumas variedades de soja nas colônias, fato comprovado pelos estudos e artigos publicados em periódicos polono-brasileiros, bem como havia a atuação de vários intelectuais perante os colonos poloneses, desde o Rio Grande do Sul até o Paraná.

As atividades de intelectuais poloneses junto aos colonos patrícios nos remetem à concepção de identidade étnica em sua correlação com o conceito de liderança, os quais permitem entender os nós que vinculam estes diferentes personagens. A etnicidade, bem como a conformação da identidade étnica, vem sendo trabalhada muito em articulação com a perspectiva dos imigrantes europeus no Brasil. Consideramos que a definição de um grupo étnico se dá na interação social, geradora de processos de inclusão e exclusão, tendo como resultado a delimitação de fronteiras. Para a constituição destas, são escolhidos ou modificados traços que servem como marcadores de distinção e de diferenciação social (Streiff-Fenart e Poutignat, 1998). No caso dos imigrantes, a identidade étnica é elaborada a partir da origem nacional comum e da experiência colonial, sendo o sentimento de pertencimento construído como uma autorrepresentação. A identidade polono-brasileira, por exemplo, enquanto identidade étnica, caracteriza-se pela seleção, por parte de um grupo, de uma série de elementos culturais os quais dão base, ao mesmo tempo, à identificação daqueles que o integram (os poloneses) e à diferenciação daqueles que estão de fora, os “outros”.

Os líderes são importantes na configuração identitária, posto constituírem elementos capazes de garantir a coesão grupal. A leitura de Bourdieu, baseada na noção de “representação”, nos ajuda no entendimento da função e relação líder-grupo:

O porta-voz dotado do pleno poder de falar e de agir em nome do grupo e, em primeiro lugar, sobre o grupo pela magia da palavra de ordem, é o substituto do grupo que somente por esta procuração existe; personificação de uma pessoa fictícia, de uma ficção social, ele faz sair do estado de indivíduos separados os que ele pretende representar, permitindo-lhes agir e falar através dele, como um só homem (Bourdieu, 1979, p. 158).

Os intelectuais (incluindo, de acordo com Sirinelli (2003), “tanto o jornalista como o escritor, o professor secundário como o erudito”) são personagens especialmente importantes ao tratar de lideranças, pois justamente possuem os recursos capazes de permitir sua alçada como porta-vozes e mediadores do grupo. Nas comunidades imigrantes os intelectuais eram normalmente elevados à categoria de líder (Seixas, 2006), devido ao seu capital cultural (Bourdieu, 1979) e à capacidade de serem mediadores da comunidade migrante com relação à sociedade envolvente.

Nessa lógica, os líderes, notadamente os intelectuais, são importantes para os grupos sociais étnicos, pois “fundam associações e jornais, redigem textos, fazem discursos, buscam convencer os membros do grupo a aderirem a determinadas ideias e a participar de entidades e eventos, e [...] se contrapõem a condições de vida e trabalho consideradas injustas ou discriminatórias” (Weber, 2014, p. 704), ou seja, tentam melhorar as condições do grupo – sejam elas de posicionamento social ou econômico –, o qual representam analogamente ao que pretendemos demonstrar abaixo.

O incentivo à produção das novas variedades de soja

O intelectual polonês Ceslau Biezanko, como cientista, imbuído dos ideais iluministas e novecentistas, partia de um paradigma científico moderno, que visava à reforma da sociedade. Sendo assim, tinha ideias de modernização e de industrialização; ademais, demonstrava ter preocupação com a condição dos agricultores poloneses e procurava compreender e analisar sua situação para então atuar com seus conhecimentos, de maneira a interferir nas práticas cotidianas daquela população.

Baseado nestes pressupostos, quando chegou ao Brasil, Biezanko teria trazido consigo 2,5 kg de soja (Cotrifatos, 1978) para distribuir entre os camponeses poloneses na região de Guarani das Missões, primeiro local a recebê-lo no país e onde ficaria por três anos. A inserção do intelectual junto aos camponeses foi mediada por párocos poloneses, como o sacerdote da Congregação dos Vicentinos[4] Jan Wróbel, o qual permitiu a agregação de Biezanko à nova sociedade e a distribuição de diversos novos produtos para a agricultura. Além do padre, vários letrados laicos da colônia, como professores, jornalistas, militares, entre outros, também apoiaram o cientista na interlocução com os colonos.

A introdução das sementes da soja, especificamente, foi, portanto, um processo de convencimento e de trabalho conjunto de Biezanko, padres, intelectuais e alguns colonos, os quais promoveram iniciativas as quais lograram êxito por um breve período de tempo. Esta rememoração específica está relacionada ao contexto atinente ao desenvolvimento da agricultura na região, que é posterior às atividades do cientista.

O Brasil, com o fim da Segunda Guerra, passou por um período de modificação da agricultura colonial tradicional, quando se iniciou um processo de modernização. Nos anos 1960, com o regime militar, este processo ganhou impulso e, entre outras consequências, houve a expansão da agricultura mecanizada voltada ao mercado externo, em que o Rio Grande do Sul teve proeminência inicial.

Nesse contexto, a soja teve seu boom, em virtude do aumento do seu preço no mercado internacional; por ser colhida na entressafra dos EUA, então principal produtor; pelo fato de poder ser utilizada na já estabelecida estrutura tecnológica e de armazenamento do trigo; ser capaz de ocupar o período de verão não utilizado na triticultura; pela política agroexportadora governamental; e em função do baixo custo da força de trabalho e da terra. Este processo ocorreu, sobretudo, na região noroeste do estado, a partir de uma difusão tecnológica, propalada através das lideranças locais, da extensão rural e do treinamento para convencer os agricultores (Zarth, 2009).

Não podemos deixar de frisar que a mesma razão a qual conduziu à consideração de Biezanko e seu trabalho, o crescimento da sojicultura, foi o motivo pelo qual a leguminosa é justamente mais destacada em relação a outros produtos incentivados pelo cientista, como os bichos-da-seda, sorgo, criação de nutrias, entre outros, que tiveram um investimento igual ao da soja por parte do cientista, mas não foram economicamente importantes no período posterior. Ocorreu, portanto, um trabalho de seleção da memória daquilo que deveria ou não ser lembrado e esquecido entre os poloneses na cidade de Guarani e também na vinculação de Biezanko como um notável da comunidade polono-brasileira.

Como tinha objetivos de melhorar as condições de seus patrícios imigrantes, Biezanko (1958) pensava a soja como “importante fonte de novas receitas e prosperidade futura”. O cientista iria trabalhar também na constituição de associações polonesas, organizações agrícolas, escolas, imprensa, distribuição de produtos, difusão de técnicas e conhecimentos (através de artigos e periódicos) com o objetivo de melhorar a vida cultural e material dos colonos.

Segundo um artigo seu de 1934, Biezanko recebeu sementes de soja da variedade Laredo de seu amigo professor Jan Muszynski da Universidade Stefan Bathóry de Vilnius[5]. Muszynski pesquisava sobre a leguminosa no Jardim de Plantas Medicinais da universidade, e das suas sementes ocorreu a redistribuição entre os colonos poloneses de Guarani através da conformação de associações rurais apoiada por lideranças locais, o clero e os colonos.

Importante é salientar também que Biezanko (1958, p. 6) teria pesquisado sobre o produto antes de trazê-lo, tendo consciência do seu potencial, tanto que escreveu no seus artigos: “A soja é uma planta que, sob diversos pontos de vista, merece ser cultivada em maior escala possível”, pois “possui utilidade fabulosa: este é um dos maiores fatores. O outro é ser uma planta de fácil cultivo. Acrescentaremos que é [...] resistente aos insetos e também às doenças”, ou seja, seria extremamente útil aos agricultores.

A primeira associação criada por iniciativa de Biezanko foi o Centralne Towarzystwo Rolnicze (CTR) ou Sociedade Central dos Agricultores, uma instituição que reunia círculos agrícolas (kółko rolnicze)[6] das linhas da colônia e promovia palestras, debates, divulgação e circulação de métodos de cultivo e sementes. Outra instituição foi a Escola Agrícola, a qual pensava o apoio teórico aos colonos da região e permitia a distribuição da soja e de seus procedimentos para cultivo e beneficiamento. Estas instituições conformadas funcionavam como uma rede de difusão de produtos, e assim a capacidade de organização criada por Biezanko e pelos professores e lideranças locais permitiu a propagação dos cultivos.

Quanto à planta leguminosa, segundo um habitante de Guarani, “o professor Biezanko se encarregou de explicar aos que plantaram a soja pela primeira vez que esse era um produto desconhecido, que dificilmente poderiam colocá-lo no comércio de início”, contudo “eles [os plantadores] não perderiam, pois “a soja que substitui o milho”, dizia ele, “é como forragem” (Cotrifatos, 1978); assim, demonstrou as potencialidades da leguminosa através dos seus textos e das possibilidades de beneficiamento ao fabricar óleo, manteiga, leite, pão, entre outros.

A soja teve remessas posteriores da Polônia (Cotrifatos, 1978), muito provavelmente através das redes científicas de Biezanko, e, segundo sua afirmação, “várias pessoas, mais ou menos 12, receberam sementes daqueles dois quilos que eu havia trazido da Polônia” (Cotrifatos, 1978), e várias famílias da colônia de Guarani das Missões perceberam uma pequena quantidade do produto através dos vínculos diretos ou indiretos à rede conformada por Biezanko.

Após o longo convencimento e a fundação das instituições, Biezanko conseguiu efetivamente uma cultura mais ou menos intensiva da soja, que foi destinada a alimentação dos suínos, já que não se percebia ainda a utilidade comercial do produto e faltavam mercados para a venda na região. Segundo Biezanko, “vender a soja era muito difícil e só mais tarde, graças às primeiras extrações de óleo, os colonos conseguiram vender suas colheitas” (Cotrifatos, 1978).

O resultado final da introdução das sementes e da plantação incipiente da soja não é exatamente claro, mas não foi de evidente sucesso. É possível que problemas na alimentação dos animais em virtude do elevado teor de óleo do grão de soja tenha levado à descalcificação dos ossos dos suínos, um dos principais produtos dos colonos poloneses. Existem referências à disseminação de uma peste suína na região (Krawczyk, 2003, p. 266) e a que por fim, uma revolta dos colonos teria expulsado Biezanko da colônia.

O fato é que cultivo da soja teve uma interrupção, representando uma descontinuidade com o movimento posterior dos anos 1950/1960, que apresentou novas variedades, em especial o cultivar Santa Rosa, de maior sucesso no período. Este breve relato de como ocorreu o estímulo aos cultivos não pode ser pensado sem a inserção de Biezanko no ramo educacional/organizacional da colônia e em redes, conformadas a partir de seus vínculos com uma série de personagens que pertenciam às lideranças coloniais (sacerdotes e letrados), estabelecendo as bases para o incremento da atividade colonial a partir da experiência científica.

A “paternidade da soja” e a relação entre Polônia, imigrantes poloneses e soja: outros personagens

Não é nosso objetivo confirmar o título de “introdutor da soja no Rio Grande do Sul” recebido por Biezanko, mas debater o quanto a soja, depois da notoriedade alcançada nas décadas seguintes, permite ser vinculada com diferentes “candidatos a introdutores”, principalmente entre os poloneses, conformando polêmicas e debates quanto à constituição da memória (Pollak, 1989) coletiva (Halbwachs, 2006) sobre este produto e da relativa identidade vinculada a ele.

No Paraná, de forte colonização polonesa, são notáveis a presença de colônias agrícolas e a participação de lideranças na divulgação de produtos. O então padre diocesano polonês J. Anusz escrevia sobre as potencialidades da soja. Em artigo intitulado O Uprawie Soi (Sobre o cultivo da soja), no periódico polono-brasileiro de Porto Alegre Odrodzenie (Renascimento) de 1931, o padre afirma que tentou por muitos anos introduzir a soja entre os colonos poloneses (portanto, antes mesmo da chegada de Biezanko) distribuindo sementes, não obstante, sem sucesso. Os resultados apenas melhoraram com a intervenção de T. Makomaski, agrônomo vinculado ao consulado da Polônia em Curitiba, que escrevia artigos para periódicos polono-brasileiros sobre questões agrícolas e teria convencido os colonos a plantarem de maneira mais intensiva o novo produto (Anusz, 1931).

Anusz em seu artigo identifica certo abandono da cultura e escreve sobre as potencialidades da soja para a economia dos colonos poloneses, destacando principalmente o sucesso na alimentação de animais e mesmo humana, compartilhando muitas “receitas” aprendidas com japoneses, resultado de uma viagem realizada no interior de São Paulo. Ademais, indica leituras e a possibilidade de divulgar por meio de jornais os conhecimentos sobre o produto. Ainda em 1932, Anusz publica no Polski Kalendarz (Calendário Polonês), de Porto Alegre, artigo intitulado Z Rolnictwa: Soja (Sobre a Agricultura: Soja), na qual explica as origens do produto, seus múltiplos usos culinários, bem como o emprego em pequenas indústrias.

Em outro momento, o padre lembra que o comerciante polonês Roman Paul[7], na cidade de Marechal Mallet, no Paraná, também tentou introduzir sem sucesso a soja entre os colonos poloneses, reclamando que tal fato se devia à “imobilidade permanente no caminho do nosso pensamento”, uma referência ao conservadorismo do camponês polonês.

Então no Paraná, onde a colônia polonesa era muito grande, temos três candidatos a introdutores da soja em meio aos colonos poloneses: Anusz, Paul e Makomaski, mais ou menos pelo mesmo período em que o agrônomo Biezanko estava em Guarani das Missões. Não há indícios de que posteriormente algum dos personagens citados tenha buscado reconhecimento pelo trabalho com a soja. O próprio Anusz reconhece a ajuda dos japoneses. Tampouco na literatura sobre a soja ou sobre poloneses há referências a algum dos três personagens. Foi apenas através de nossas pesquisas nos periódicos escritos em polonês do período que identificamos a presença destes introdutores com relação ao cultivo da leguminosa.

No Rio Grande do Sul, os embates são na própria colônia polonesa de Guarani das Missões e nas cidades do seu entorno. Primeiramente, percebemos que na memória do guaraniense[8], Santa Rosa (cidade vizinha de colonização germânica) usurpou o título de capital nacional da soja, ao ser considerada “berço” do produto. Como mostramos, a planta tem uma história que traz à tona eventos do século XIX e sua “origem” não é fácil de ser rastreada. O relevante é que, em grande parte dos relatos que recolhemos através de entrevistas, a disputa com Santa Rosa se evidencia de maneira bastante patente e tem um significado importante no modo como o guaraniense se relaciona com sua cidade.

A questão do pioneirismo da soja tem início a partir da disputa pelo título de “Capital Nacional da Soja”, desde muito cedo reivindicado pelo maior município da região, Santa Rosa (ainda que a oficialização fosse posterior). A cidade ostenta a denominação honorífica alegando o início da cultura por volta de 1914, com ações do pastor luterano Lembauer, o que a tornaria o “Berço Nacional da Soja” oficializado pelo Projeto de Lei nº. 388/2007. Tal fato foi importante para a criação da Feira Nacional da Soja, a FENASOJA, iniciada em 1966 e que ocorre periodicamente desde 1974.

Para além das disputas com Santa Rosa, dentro da própria colônia polonesa há questões quanto a quem foi o introdutor da soja. Em todos os grupos sociais (como os étnicos) existem divisões, referentes a variadas formulações, ainda mais com relação à constituição identitária grupal, que envolve posicionamentos e capacidade de enunciação e ativação de determinadas situações em relação a outras. O reconhecimento do personagem relacionado à introdução da soja na atual memória dos guaranienses é um debate menos intenso, com Biezanko já estabelecido, mas nas fontes encontramos diversas referências, especialmente com relação à atuação de outros intelectuais polono-brasileiros.

Primeiramente, Edmundo Gardolinski[9], um dos líderes da comunidade polonesa no Brasil, ao publicar no periódico polono-brasileiro Lud (O Povo), de Curitiba, em 1966, um artigo sobre a história educacional polonesa em Guarani das Missões, acabou entrando em um debate epistolar com Józef Kuryło, professor por muitos anos da escola Santo Isidoro, na Linha do Rio, próximo a Guarani das Missões, mas na margem direita do Rio Comandaí (parte que pertencia naquele período a Santa Rosa). Este personagem foi um dos que tiveram relações com Biezanko em suas atividades na colônia na década de 1930, inclusive apoiando suas ideias de associativismo e educação rural.

Segundo Kuryło, ao comentar o artigo de Gardolinski sobre a educação em Guarani, “V. S. Eng. Edmundo demorou-se demais nos méritos de algumas pessoas e deixou outras”, adicionando que o próprio Biezanko teria se aproveitado de uma situação preexistente de cultivo da soja para se colocar como introdutor da planta.

Nas cartas, faz-se referência ao artigo Kilka Uwag o Soi (Alguns Comentários sobre a Soja) do periódico Odrodzenie de 24 de janeiro de 1934, assinado por Francisco (Franciszek) Wasilewski. Józef Kurylo afirma que já em 1931 iniciou não apenas o cultivo, mas a distribuição de sementes de soja na região próxima ao rio Comandaí, na margem pertencente ao então município de Santa Rosa.

No artigo, destaca-se a experiência de Wasilewski, um antigo oficial do exército russo e ex-combatente da Guerra Russo-Japonesa de 1905, que teria observado a importância da soja já na sua estada no Extremo Oriente. Segundo o artigo, o ex-oficial teria recebido exatamente 33 sementes do professor Kuryło e não de Biezanko, que foi acusado de divulgar através de artigos um trabalho que não era seu. Assim, o cientista teria, sim, participado na difusão de sementes, mas ao mesmo tempo se aproveitado do trabalho de outros. O artigo destaca a leitura pelos autores de um texto sobre a soja do professor Jan Muszynski, no periódico polonês de Buenos Aires Przyjacielu Ludu (Amigo do Povo). O professor vem a ser o mesmo que daria acesso às sementes para Biezanko na Polônia (Biezanko, 1958, p. 6), e seu artigo teria influenciado os agricultores a plantar a leguminosa. No final do texto propõe: “Eu encorajo todos os agricultores a plantar soja, cujo cultivo é fácil, porque a soja é uma planta muito útil”.

Francisco Wasilewski chegou a ser segundo vice-presidente da Centralne Towarzystwo Rolnicze (CTR), instituição fundada por Biezanko, e também era presidente de um Círculo Agrícola (Kółko Rolnicze) da Linha do Rio, o Mazur, o qual foi vinculado à instituição central (CTR); portanto, existia uma ligação formal com o cientista polonês. O mesmo vale para Kuryło, que exerceu várias atividades no mesmo círculo agrícola, coordenadas por Biezanko, inclusive como primeiro vice-presidente do CTR. Possivelmente os trabalhos destes personagens tenham propiciado uma ação conjunta, quiçá coordenada ou orientada por Biezanko em 1933, aliando as sementes existentes na colônia com variedades novas trazidas da Polônia.

Alguns entrevistados lembraram as figuras de Wasilewski e Kuryło, sendo que ambos trabalharam em regiões que hoje não pertencem nem a Santa Rosa, nem a Guarani das Missões, mas a Ubiretama[10], pequeno município emancipado da primeira em 1995. Os depoentes cobravam o episódio da introdução da soja para a sua cidade, referindo-se à distribuição feita através do círculo Mazur e da escola Santo Isidoro.

Em outra carta Kurylo (1966b) explica:

Bastante próximo da festa da soja, fui novamente procurado para escrever sobre a introdução da mesma aqui em Santa Rosa. O Eng. Biezanko quer ser o introdutor, porém ele veio muito mais tarde e a soja já era conhecida e bastante plantada. A culpa nossa foi trabalhar na surdina, sem escrever artigos. Biezanko trouxe uma variedade branca, pouquíssimas sementes, porém dois anos mais tarde.

Nesta situação, provavelmente, estamos tratando da primeira edição da Fenasoja, momento em que a planta ganhava destaque. Kuryło queria inclusive apresentar as informações que tinha sobre a presença da soja, segundo ele plantada e distribuída desde 1931, deixando claro novamente que Biezanko teria uma participação na introdução dela, mas posterior, sendo nesse contexto importante a construção da memória, uma vez que a introdução do produto poderia trazer (como de fato aconteceu com Biezanko) algum “prestígio” ao personagem rememorado enquanto tal.

Em sua resposta, Gardolinski afirma que,

para desfazer as mágoas e interpretações errôneas a respeito da soja ou da paternidade da Introdução da Soja – na região missioneira – pelo Prof. C. M. Biezanko – [...] – o ilustre entomólogo – não reivindica o mérito – foi lhe atribuído por agrônomos do governo – ou seja, João Antonio de Assis Brasil e Becklere O. da Silva, técnicos do Deptº de Estatística Estadual “que lhe atribuiu a introdução no Estado, Este novo setor de riqueza” (V/ pag 33. 5º vol. Da Enciclopédia Rio Grandense. Foram, pois aqueles funcionários, antes de tudo, que publicaram o seguinte tópico, (trab. “A soja”) publ. 17/fev/1957) [sic] (Gardolinski, 1966, p. 2).

Gardolinski (1966, p. 3) acrescenta:

Na época, o prof. Biezanko, já era formado, e, possuía uma vasta bagagem científica escrita. Creio que, o snr. não avalia bem as qualidades e os conhecimentos daquele mestre – possuidor de tantos títulos – que lhe foram conferidos por diversas escolas e instituições científicas. Não se pode – pois – na minha opinião – conferir-lhe o título de demagogo – pois, assevero que jamais fez questão de se aproveitar de trabalhos dos outros, e, muito menos vestir-se em penas de pavão!

As discussões terminam assim, e a partir deste debate fica patente a questão da problemática que era a “paternidade” da soja. É possível que em 1931 já houvesse a utilização de espécimes de soja entre os colonos poloneses na cidade. O próprio Biezanko, em artigo de 1934 no Lud, destaca que Wasilewski na Linha do Rio, juntamente com outro agricultor chamado Franciszek Grzesiuk, plantavam o produto com sucesso na região missioneira. No artigo O Uprawie Soi (Sobre o cultivo da soja), de 07 de março de 1934, o cientista alega que apenas alguns colonos poloneses em Guarani, no Rio Grande do Sul, em 1933 e em Misiones (Biezanko, 1934), na Argentina, “também começaram o cultivo de soja”. Além disso, lembra a importância dos ex-combatentes da Guerra Russo-Japonesa (como Wasilewski) que tiveram contato com a planta e a teriam levado para a Polônia nos primeiros anos do século XX (Biezanko, 1958).

A disputa memorialística aparente nas entrevistas e nas missivas remete ao início da produção em larga escala da soja, justamente quando o artigo de Gardolinski é lançado, atrelado à inauguração da Fenasoja em Santa Rosa, ao aumento dos preços do produto, à mecanização da lavoura, enfim, àquilo que identificamos como boom da soja.

A despeito das polêmicas vistas anteriormente, uma conclusão a que podemos chegar com base nos aspectos relacionados à história da soja no Brasil e da imigração polonesa e seus vínculos com essa leguminosa é que Biezanko foi um dos introdutores da soja e de sua aclimatação no Brasil entre agricultores de origem europeia, no caso, poloneses.

O protagonismo de Biezanko aparece em obras sobre a história da planta (Freire e Vernetti, 1997; Hasse, 1996; Campal, 1977), nas suas biografias (Wójcik, 1966; Gardolinski, 1965; Rios, 1954, etc.), em ata do Ministério da Agricultura de 1948 e da 24ª sessão da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul de 26/05/1948, assinada por Celeste Gobbato, e em diversos periódicos, que trazem entrevistas e reportagens com o agrônomo polonês: Diário Popular de Pelotas, Correio do Povo, Zero Hora, Agricultura e Cooperativismo de Porto Alegre, A Visas e Chácaras e Quintais de São Paulo, o Estado do Paraná e o Lud de Curitiba, o Cotrifatos e a Folha da Produção de Cerro Largo, além de muitos outros, inclusive o Prze Krój e o Przemiany, da Polônia comunista. Estes periódicos, em diferentes momentos, mas em geral posteriores a meados da década de 1950 e, em especial, nos anos 1970 em diante, tratam de Biezanko como o introdutor da soja no Rio Grande do Sul e alguns até do Brasil, justamente no momento de proeminência da soja na agricultura gaúcha. Em 1963, Biezanko foi agraciado com o título de “introdutor da soja no Estado do Rio Grande do Sul”, recebendo a Ordem do Cruzeiro do Sul[11].

Quanto à perspectiva do próprio Biezanko, em uma série de entrevistas[12] a diferentes periódicos, o cientista destacou sua atuação. Em 1958, Biezanko publicou as traduções adaptadas de artigos em polonês divulgados pelo Lud, de Curitiba em 1934. Nesses textos, o cientista tratava da soja e das suas realizações com ela na colônia Guarani, assumindo que ajudou na introdução, e asseverava que

as sementes oriundas da Polônia, por nós distribuídas na zona missioneira do Rio Grande do Sul, já se alastram por Santa Catarina e Paraná, nas zonas coloniais destes Estados, principalmente entre os colonos polacos, alemães e italianos, entre os quais se pode encontrar maiores culturas dessa maravilhosa leguminosa (Biezanko, 1958, p. 6, grifos meus).

Nosso objetivo em enfocar Biezanko envolve o fato de ter posto em movimento a sociedade guaraniense articulado com outras comunidades polonesas, bem como diferentes personagens de destaque. Assim, através da soja, elemento importante, mas não único da sua estada na colônia polonesa, foi capaz de exercer o papel de liderança, e, ainda que comparado a outros intelectuais e líderes envolvidos com distribuição de sementes, suas características particulares presentes nas fontes permitem justificar a proeminência do trabalho exercido e reconhecido, ainda que a posteriori, abarcado pela memória daqueles habitantes com os quais estabeleceu contatos diretos ou indiretos, bem como pela comunidade polonesa. Nenhum dos outros personagens mencionados conseguiu se apoiar como Biezanko, nas lideranças locais, sejam elas laicas ou clericais, e tampouco teve seu trabalho (re)memorado na mesma medida.

Considerações finais

A soja, ao ganhar destaque nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, suscita a construção de uma memória relacionada às origens do produto. Ocorrem uma comemoração dos vínculos dos poloneses do noroeste gaúcho com a leguminosa e a (re)criação de possíveis introdutores dela junto aos colonos poloneses. Em razão do destaque nacional e internacional da soja, ela poderia catapultar a cidade que fosse considerada seu berço e o personagem que fosse considerado seu introdutor, diante de um contexto de busca das origens.

Em suma, percebemos que o produto era conhecido muito antes da apregoada introdução reconhecida oficialmente, inclusive com relações a produções laboratoriais e experimentais, bem como à colônia japonesa paulista. Além disso, provavelmente os camponeses poloneses tiveram contato com as sementes antes dos anos 1930. Portanto, cada região em seu contexto teve uma relação específica com o produto, fato que torna a questão da origem pouco ou nada viável de se rastrear e indica que, à sua maneira, tivemos muitos introdutores de uma planta nova, de origem asiática, em terras latino-americanas por agrônomos e camponeses europeus num contexto de limiar da exploração agrícola entre a subsistência e os potenciais industriais e de agronegócio nascentes.

O resgate da polêmica não tem o objetivo de resolver a questão, de resto sem sentido para o processo histórico, que depende sempre de múltiplos fatores, mas mostrar que a própria controvérsia reforça a relação dos poloneses com a soja além do papel de vários intelectuais/líderes étnicos poloneses no tema. Biezanko faz parte desta temática, mas com um raio de ação mais dinâmico, extenso, exposto e efetivo na distribuição e divulgação da soja no início da década de 1930, bem como na sua (re)memoração posterior.

Material suplementar
Referências
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Notas
Notas
[2] Cidade localizada no centro-sul da Polônia, na província (Voivodia) de Świętokrzyskie.
[3] O presente trabalho é fruto da dissertação de mestrado Um cientista entre colonos: Ceslau Biezanko, educação, associação rural e o cultivo da soja no Rio Grande do Sul no início da década de 1930 (Trindade, 2015).
[4] Congregação religiosa formada na França, mas que se preocupou com o atendimento espiritual e também secular dos imigrantes poloneses no sul do Brasil, especialmente com a instauração, em 1903, da Vice-Província Vicentina em Curitiba, que respondia a Cracóvia. Muitos padres vicentinos eram poloneses.
[5] Naquele momento, parte da Polônia. Atualmente é a capital da Lituânia, apesar de ter forte presença de poloneses.
[6] Instituições criadas em diversas colônias polonesas, eram espaços de debate e circulação de materiais entre seus membros. Desde os primórdios da colonização polonesa no Brasil, ou seja, desde o século XIX, intelectuais poloneses promoveram a criação de círculos agrícolas, prática que já existia na própria Polônia.
[7] Comerciante polonês que imigrou para o Brasil em 1891. Participou de projetos de assentamento de imigrantes e fundação de escolas polonesas, mantendo contato com a Polônia ao longo do século XX.
[8] Gentílico que expressa também uma “identidade”, de modo usual, utilizada em jornais da cidade e/ou na memória dos cidadãos.
[9] Engenheiro paranaense, nascido em São Mateus do Sul em 1914, descendente de poloneses e radicado em Porto Alegre, foi uma das grandes lideranças étnicas dos poloneses ao longo de sua vida. Autor de um dos primeiros trabalhos sobre a imigração polonesa no Rio Grande do Sul, escrito para a Enciclopédia Rio-Grandense de Klaus Becker em meados dos anos 1950, foi também coordenador de diferentes homenagens ao grupo polonês, bem como um dos organizadores do centenário da imigração polonesa no Rio Grande do Sul, trabalho que não chegou a concluir devido à sua morte em 1974.
[10] Cidade do estado do Rio Grande do Sul localizada próxima a Guarani das Missões e Santa Rosa, no noroeste do estado.
[11] Comenda brasileira dada a personalidades brasileiras.
[12] Por exemplo, no Agricultura e Cooperativismo, Porto Alegre, 1976; Cotrifatos, Cerro Largo, 1978, Zero Hora, Porto Alegre, 1984.
Autor notes
[1] Doutorando pela Universidade Federal do Paraná. Professor colaborador da Universidade Estadual do Centro-Oeste. PR 153 – Km 07, Bairro Riozinho, Caixa Postal, 21, 84500-000, Irati, PR, Brasil.
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