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Gênero de força pelo patrimônio-territorial. Mulher e migração pomerana em Santa Maria de Jetibá-ES, Brasil
Karla Fernanda da Silva Kiister; Melissa Ramos da Silva Oliveira
Karla Fernanda da Silva Kiister; Melissa Ramos da Silva Oliveira
Gênero de força pelo patrimônio-territorial. Mulher e migração pomerana em Santa Maria de Jetibá-ES, Brasil
Género de fuerza a través del patrimonio-territorial.Mujeres pomeranias e inmigración en Santa Maria de Jetibá-ES, Brasil
Gender of force through territorial heritage.Pomeranian women and immigration in Santa Maria de Jetibá-ES, Brazil
PatryTer, vol. 9, núm. 17, e54580, 2026
Universidade de Brasília
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Resumo: Santa Maria de Jetibá localiza-se no interior do Espírito Santo/Brasil e é considerado o município mais pomerano do Brasil. Os pomeranos, como “povos tradicionais”, produzem cultura como forma de resistência à colonialidade do poder. O principal objetivo desta pesquisa é caracterizar o patrimônio-territorial pomerano da comunidade de Santa Maria de Jetibá a partir das narrativas do grupo de senhoras da Oase-Jequitibá. Como objetivo específico busca avaliar as formas de perpetuação e resistência desse patrimônio frente às transformações em seus territórios, assim como a compreensão das suas raízes, tradições, saberes e modos de vida. A pesquisa teórico-exploratória, de abordagem qualitativa, utiliza a história oral e a evocação de memórias de mulheres pomeranas como mecanismos dialógicos de prática investigativa. A pesquisa ressalta a importância das lembranças e das narrativas para a salvaguarda do patrimônio-territorial pomerano, assim como a importância da mulher pomerana na perpetuação e valorização de sua cultura.

Palavras-chave: mulher pomerana, patrimônio-territorial pomerano, história oral, povos tradicionais, Santa Maria de Jetibá.

Resumen: Santa Maria de Jetibá está ubicada en el interior de Espírito Santo/Brasil y es considerada el municipio más pomerano de Brasil. Los pomeranos son reconocidos como “pueblo tradicional” y producen cultura como una forma de resistencia a la colonialidad del poder. El principal objetivo de esta investigación es caracterizar el patrimonio-territorial pomerano de la comunidad de Santa Maria de Jetibá a partir de las narrativas del grupo de mujeres de la Oase-Jequitibá. Como objetivo específico, pretende evaluar las formas de perpetuación y resistencia de este patrimonio ante las transformaciones en sus territorios, así como la comprensión de sus raíces, tradiciones, conocimientos y formas de vida. La investigación teórico-exploratoria, con enfoque cualitativo, utiliza la historia oral y la evocación de recuerdos de mujeres pomeranas como mecanismos dialógicos de la práctica investigativa. La investigación destaca la importancia de los recuerdos y las narrativas para salvaguardar el patrimonio-territorial pomerano, así como la importancia de las mujeres pomeranas para perpetuar y valorar su cultura.

Palabras clave: mujer pomerana, patrimonio-territorial pomerano, historia oral, poblaciones tradicionales, Santa María de Jetibá.

Abstract: Santa Maria de Jetibá is located in the interior of Espírito Santo/Brazil and has been considered as the most pomeranian municipality in Brazil. The pomeranians have been recognized as “traditional people” and produce culture as a form of resistance to the coloniality of power. The main goal of this paper is to characterize the Pomeranian territorial heritage of the community of Santa Maria de Jetibá from the narratives of the Oase-Jequitibá women group. As a specific objective, the purpose is to understand forms of perpetuation and resistance of this heritage in the face of transformations in their territories, as well to understand its origins, traditions, knowledge and ways of life. The theoretical-exploratory research, with a qualitative approach, uses oral history and the evocation of memories of Pomeranian women as dialogical mechanisms of investigative practice. The research reveal the importance of memories and narratives for preservation of Pomeranian territorial heritage, as well as the importance of Pomeranian women in perpetuating and valuing their culture.

Keywords: pomeranian woman, pomeranian territorial heritage, oral history, traditional people, Santa Maria de Jetibá.

Carátula del artículo

Artigos

Gênero de força pelo patrimônio-territorial. Mulher e migração pomerana em Santa Maria de Jetibá-ES, Brasil

Género de fuerza a través del patrimonio-territorial.Mujeres pomeranias e inmigración en Santa Maria de Jetibá-ES, Brasil

Gender of force through territorial heritage.Pomeranian women and immigration in Santa Maria de Jetibá-ES, Brazil

Karla Fernanda da Silva Kiister
Faculdade UCL, Brasil
Melissa Ramos da Silva Oliveira
Universidade Vila Velha, UVV, Brasil
PatryTer, vol. 9, núm. 17, e54580, 2026
Universidade de Brasília

Recepción: 30 Octubre 2024

Aprobación: 12 Febrero 2025

Publicación: 15 Octubre 2025

1. Introdução

Em suma, a pesquisa deixou claro que Santa Maria de Jetibá configura-se como um território de exceção que é depositário de um rico patrimônio-territorial pomerano que foi re-significado ao longo do tempo. É notório o valor atribuído – pelas senhoras – à esses bens, assim como o que elas reconhecem e preservam como expressões verdadeiras da sua herança cultural: do artesanato às celebrações, da língua e da culinária ao patrimônio edificado. A comunidade pomerana, apesar de toda resistência às forças hegemônicas dominantes para sua subsistência e perpetuação, ainda permanece com o desafio de continuar resistindo a todos os riscos para conseguir preservar seu patrimônio-territorial em um território de exceção. Parafraseando Costa (2017, p. 68), a comunidade é “a representante protagonista da formação territorial latino-americana nesse novo processo de valoração espacial da cultura nas periferias”, ou seja, a comunidade pomerana e, sobretudo a mulher pomerana, possui um valor essencial na chancela de um utopismo comunitário na ativação do patrimônio-territorial.

No Brasil, a ocupação e consolidação de territórios por grupos de imigrantes pomeranos e seus descendentes ocorreram basicamente no interior de três estados: Espírito Santo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. As contribuições históricas da cultura pomerana são únicas e sobrevivem ao tempo, sendo constantemente re-significadas. Pelo processo de resistência sociocultural e memorial no contexto de formações territoriais, caracteriza-se como um “utopismo territorial” (Costa, 2016) e expressa a importância da abordagem científica desta investigação.

Desde 2007, os pomeranos, juntamente com os povos indígenas, os quilombolas e os ribeirinhos são reconhecidos pelo governo brasileiro como “povos tradicionais” (Brasil, 2007). Para Foerste (2016), o povo pomerano produz interculturalidade ao fortalecer lutas coletivas juntamente com outros povos tradicionais. Enfim, os pomeranos dotados de seus saberes e de sua herança cultural conduziram um processo de tomada territorial onde atuaram como condutores de sua política e protagonistas de sua história.

Os pomeranos também são considerados uma “sociedade oral” (Kiister & Oliveira, 2022), pois perpetuam seus costumes, suas tradições e sua cultura por meio da fala, durante as conversas familiares, encontros sociais ou na igreja. A linguagem oral constitui um importante instrumento socializador da memória, sendo bastante adequado para o estudo de representações do passado (Meihy & Holanda, 2007). As lembranças evocadas por essas sociedades “[...] reduzem, unificam e aproximam no mesmo espaço histórico e cultural a imagem lembrada” (Bosi, 1987 p. 18) em prol da perpetuação das memórias sociais. Por meio da valorização das histórias orais, de sua escuta e transcrição, diferentes comunidades compostas por minorias sociais, “[...] principalmente mulheres, índios, homossexuais, negros, desempregados, migrantes, imigrantes e exilados” (Meihy & Holanda, 2007, p. 31) encontram espaço para validarem suas experiências e transmitirem suas tradições e ensinamentos às futuras gerações. Nesse contexto, se justifica a preservação da cultura pomerana, que resiste ao tempo e às transformações, apesar do projeto hegemônico desenvolvimentista dos territórios do Estado-mercado.

Com o intuito de promover a reflexão acerca da temática do patrimônio-territorial em comunidades tradicionais, com foco no utopismo territorial latino-americano, esta pesquisa traz a luz Santa Maria de Jetibá, considerada o município mais pomerano do Brasil (Prefeitura de Santa Maria de Jetibá). O município está localizado no interior do Espírito Santo/Brasil, na região serrana, a 80 quilômetros da capital Vitória (figura 1).


Figura 1
Mapa de localização do Município de Santa Maria de Jetibá - Espírito Santo, Brasil
Fonte: elaboração própria, 2024.

Este artigo tem como recorte geográfico a Paróquia de Confissão Luterana de Jequitibá, localizada no distrito de Caramuru (figura 2). A escolha da paróquia decorre da sua importância histórica e da sua representatividade para os pomeranos luteranos de Santa Maria de Jetibá. É a igreja luterana mais antiga do município, sendo conhecida como a “igreja mãe”. Como objeto de estudo, adotou-se o grupo de senhoras da Organização Auxiliadora de Senhoras Evangélicas – “Oase-Jequitibá”, vinculado à comunidade da paróquia supracitada. O motivo da escolha desse grupo decorre do respeito, do renome e da importância do trabalho dessas mulheres dentro da comunidade pomerana luterana de Jequitibá.

O principal objetivo deste artigo é caracterizar o patrimônio-territorial pomerano da comunidade de Santa Maria de Jetibá a partir das narrativas do grupo de senhoras da Oase-Jequitibá. Como objetivos específicos busca avaliar as formas de perpetuação e resistência frente às transformações em seus territórios, assim como a compreensão das suas raízes, tradições, saberes e modos de vida. A pesquisa teórico-exploratória, de abordagem qualitativa, utiliza a história oral e a evocação de memórias das mulheres pomeranas da Oase-Jequitibá como mecanismos dialógicos de prática investigativa. Rodas de conversa e entrevistas foram utilizadas como método de pesquisa, pois possibilitam – a partir da interação com os interlocutores/ recordadores – a evocação de memórias e a coleta de informações através da fala, com a consequente reconstrução dos conhecimentos de uma sociedade oral.

A partir de uma leitura histórica que retrata a trajetória de resistência e adaptação dos pomeranos no contexto brasileiro, a segunda parte do texto discorre sobre o utopismo patrimonial pomerano em Santa Maria de Jetibá (ES). A terceira parte do artigo aborda a atuação da mulher pomerana e seu papel fundamental como guardiã da cultura. A metodologia, fundamentada na história oral e na evocação de memórias é descrita na quarta parte. Na quinta parte apresenta-se o patrimônio-territorial pomerano.


Figura 2
Mapa de localização do município de Santa Maria de Jetibá-ES e da Paróquia de Confissão Luterana de Jequitibá, distrito de Caramuru
Fonte: elaboração própria, 2024.

2. O “utopismo patrimonial” pomerano em Santa Maria de Jetibá (ES)

O conceito de “utopismo patrimonial” – cunhado por Costa (2016, 2021) – preconiza um fundamento metodológico que possibilita a análise de um território a partir da dimensão do cotidiano, ao dar voz e visibilidade àqueles que construíram a cidade e nela permaneceram e resistiram. Nesse sentido, Araújo (2022, p. 219) descreve que o utopismo patrimonial está pautado na tríade “existência, singularidade e história do território”, ou seja, o utopismo patrimonial permite retratar a história de um território a partir dos seus verdadeiros protagonistas – o que Costa (2021) denomina de sujeitos que efetivamente constroem o lugar, conduzem a política local, resistem aos riscos socialmente construídos e se situam frente aos processos hegemônicos de dominação –. Nesse contexto, este item retrata a trajetória dos pomeranos no Brasil, a consolidação do seu território e a perpetuação de sua história frente aos processos hegemônicos de domínio territorial.

A antiga Pomerânia, região situada na costa sul do Mar Báltico, entre a Alemanha e a Polônia, foi alvo constante de guerras e disputas territoriais. Em meados do século XIX, a antiga Pomerânia pertencia ao Sacro Império Romano-Germânico. Com a extinção desse império, foi integrada à Prússia e, posteriormente, à Alemanha. Rolke (1996) descreve que os pomeranos foram descendentes de eslavos e wendes e sempre demonstraram vocação agrícola e a atividades ligadas à pesca. Entre os séculos XVIII e XIX tiveram uma situação econômica muito difícil, o que incentivou o processo migratório. A imigração pomerana intensificou-se com os problemas socioeconômicos da Europa (dentre eles as Guerras Mundiais) e os interesses capitalistas. Por volta de 1945, com o avanço do poderio soviético, a Pomerânia (figura 3) foi extinta e suas terras divididas e redistribuídas (Kiister, 2024).


Figura 3
Mapa de localização da antiga Pomerânia na Europa até o ano de 1945
Fonte: elaboração própria, 2024.

No contexto brasileiro, o incentivo à imigração europeia ocorreu pela fartura de terras e, sobretudo pela possibilidade de minimizar o baixo índice populacional e a distribuição desigual da população no território nacional. Os pomeranos, em um processo de imigração tardia, chegaram ao Brasil no final do século XIX, sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e do Espírito Santo (Kerckhoff, Schultz, Medeiros & Medeiros, 2012).

O primeiro grupo de pomeranos desembarcou no porto de Vitória no ano de 1859. Era um grupo de 117 pessoas que saíram do porto de Hamburgo, na Alemanha, a bordo do navio Eleonore. Os pomeranos habitavam a Pomerânia, país localizado no Mar Báltico, tendo a Alemanha e a Polônia como divisas territoriais. Eram pequenos agricultores e diaristas. Entre os anos de 1872 e 1873, chegaram ao Espírito Santo aproximadamente 2.142 imigrantes pomeranos, transformando este no estado brasileiro com maior número de descendentes pomeranos no Brasil (Rolke, 1996).

De Vitória, foram encaminhados para a cidade de Santa Leopoldina, subindo o rio Santa Maria em canoas. Segundo Jacob (1992), os pomeranos fixaram-se inicialmente na chamada Kulland, região de montanhas que compreende os municípios de Santa Leopoldina, Santa Teresa, Domingos Martins, Marechal Floriano, Santa Maria de Jetibá e Afonso Cláudio. Atualmente, as antigas colônias de Santa Isabel e Santa Leopoldina, com predominância de imigrantes germânicos, são formadas pelos municípios de Domingos Martins, Santa Leopoldina e Santa Maria de Jetibá.

A maioria dos primeiros imigrantes se estabeleceu, inicialmente, na região denominada Luxemburgo e, posteriormente, em Jequitibá. Nesse processo, “[...] foi fundada a aldeia de Jequitibá, e dali formou-se Santa Maria de Jetibá” (Rölke, 1996, p. 173), em torno de 1882. A partir de 1880, iniciou-se, também, o processo de migração interna dos imigrantes e seus descendentes em direção ao norte do estado. Tal dispersão se deu em busca de novas terras e melhores condições de vida e foi facilitada pela construção da ponte sobre o Rio Doce em Colatina, ligando a região norte à região sul capixaba (Spamer, 2016).

Ao longo dos séculos, os pomeranos e seus descendentes mantiveram vivos os traços formadores de sua identidade. Com um forte espírito de comunidade, dedicação ao trabalho, língua própria, costumes socioculturais, música, dança e culinária, “[...] marcam um jeito de ser ímpar entre nós. São manifestações que ajudam a compor o quadro capixaba de uma identidade fundada na diversidade, mas mobilizada pelo projeto comum de bem-estar coletivo” (Granzow, 2009, p. 11).

Dentro do ambiente doméstico, principalmente no campo, a família tradicional pomerana organiza seu dia a dia baseado no trabalho na lavoura, onde cada membro possui sua própria atividade, começando os trabalhos desde novos, tal como seus antepassados (Fehlberg & Menandro, 2011). Para Merler, Foerste, Paixão e Caliari (2013), os pomeranos produzem sua existência material e simbólica por meio da sua relação com o trabalho, sobretudo a partir da agricultura familiar agroecológica. A permanência das tradições, dos valores originais, da religiosidade, das práticas de comunitarismo e da Língua Pomerana ajudam a manter o espírito da família tradicional.

No Espírito Santo, segundo dados da Igreja Luterana, estima-se que existam aproximadamente entre 120 mil e 150 mil descendentes do povo pomerano, destacando-se, de forma mais representativa, os municípios de Santa Maria do Jetibá, Santa Leopoldina, Domingos Martins, Santa Teresa, Itarana, Laranja da Terra, Afonso Cláudio, Baixo Guandu, Colatina, Pancas, São Gabriel, Barra do São Francisco, Vila Valério e Vila Pavão (Manske, 2015).

Em Santa Maria de Jetibá, onde vive o maior núcleo de descendentes pomeranos do estado do Espírito Santo, a prefeitura, a igreja luterana e a comunidade realizam juntas diversas ações a fim de manterem vivas as tradições e manifestações culturais pomeranas no município, preservando-as para as futuras gerações. Essas tradições e manifestações culturais – em um sentido de herança cultural – também podem ser consideradas um fator de resistência social pois permitiram aos pomeranos a sobrevivência e a apropriação no território, frente a todos os riscos e violências enfrentadas.

3. Mulher pomerana: gênero de força e resistência

O conceito de gênero pode ser observado como uma construção social que busca compreender as relações estabelecidas entre homens e mulheres, tal como os papéis que cada um assume em contexto social (Bessa, 1998), ou seja, um “conjunto de atitudes, tarefas e papéis sociais que se associam aos homens e às mulheres em cada sociedade, assim como tudo aquilo que pode ser definido ou classificado como masculino e feminino por seus atributos e qualidades” (Segato, 2003, p. 6). Sendo assim, gênero pode ser compreendido como um conceito relacional, ou seja, que vê em associação ao outro as relações de poder e de hierarquia dos homens sobre as mulheres (Saffioti, 1992).

Durante a história da humanidade, dentro de uma visão tradicional e patriarcal, a figura da mulher esteve predominantemente relacionada ao trabalho de cuidado do lar, da família e do homem. Segundo Cisne (2012 p. 144), esse processo de direcionamento de atividades inicia-se no seio familiar, ainda na infância, quando homens e mulheres são ainda crianças. Neste primeiro momento da vida, as crianças são educadas para desempenharem seus papéis na fase adulta: enquanto às meninas são atribuídas brincadeiras, como cuidar de bonecas, cozinhar, jogos e brincadeira relacionadas ao cuidado do lar, aos meninos são ensinadas brincadeiras relacionadas a experimentos científicos, brincar de carrinho, jogar bola, entre outros.

Presume-se que o homem tenha dominado a mulher pela força física, porém, há exceções à essa regra, pois há mulheres detentoras de maior força física que certos homens (Cisne, 2012, p. 114). Conforme Saffioti (1992, p. 12), “a força da ideologia da inferioridade da mulher é tão grande que até as mulheres que trabalham na enxada, apresentando maior produtividade que os homens, admitem sua fraqueza. Estão de tal maneira imbuídos da ideia de sua inferioridade que se assumem como seres inferiores aos homens”.

A luta por igualdade de direitos continua sendo uma das lutas feministas e também das mulheres pomeranas. Nas sociedades campesinas, cada membro da família assume um papel desde cedo em seu grupo. O trabalho na pequena propriedade faz parte da tradição pomerana. “O chefe da família é a autoridade da casa camponesa. Para os pomeranos a figura paterna é quem governa o trabalho, logo é quem comanda o saber fazer (Bahia, 2011, p. 193). As mulheres pomeranas são responsáveis pela esfera da casa, da família e da educação dos filhos e aos homens cabe o espaço de circulação entre a casa, o mercado e o comércio” (Tressmann, 2005, p. 96). Na casa pomerana, cuidam dos serviços: preparam o café da manhã para a família, fazem o almoço, o lanche e o jantar, tomam conta das crianças e cuidam dos animais. São responsáveis pelo preparo de doces, geleias, bolos e brot (figura 4), bordam, costuram para fora (figura 5), vendem o artesanato produzido nas lojinhas e festas locais. Esse trabalho produz a renda complementar para a família (Bahia, 2011).

Além da venda de produtos caseiros, as mulheres trabalham nos casamentos tradicionais da região, que acontecem todo final de semana no município, confeccionando a decoração da igreja, cozinhando e arrumando o espaço destinado à cozinha (figura 6). Desta forma, pode-se compreender que, o domínio reservado às mulheres na sociedade pomerana não se inscreve unicamente sob o teto da casa, sendo fundamentais na condução de eventos sociais e religiosos em sua comunidade.


Figura 4
Produção de bolos e do pão típico, Brot, pelas senhoras pomeranas
Fonte: fotografias de Karla Kiister, maio de 2024


Figura 5
Bordado tradicional pomerano
Fonte: fotografias de Karla Kiister, maio de 2024.


Figura 6
Preparação de comida em um casamento típico pomerano por mulheres pomeranas
Fonte: fotografías de Karla Kiister, julho de 2024.

Como sociedade tradicional voltada ao campesinato, as mulheres também trabalham na lavoura, executando praticamente o mesmo trabalho desenvolvido pelos homens: semeiam, capinam, colhem, fazem aplicação de agrotóxicos na plantação, fazem secagem do café para venda, carregam peso (as caixas de verduras equivalem a 22 quilos) até o caminhão, tarefa considerada como atividade para os homens (Bahia, 2011). Aos homens cabe a venda dos produtos em feiras locais e na capital Vitória.

Sendo um povo com fortes ligações com a religião protestante luterana, à mulher cabe ainda a transmissão da religião evangélica de tradição luterana e da língua pomerana. Na igreja, elas desempenham papéis fundamentais para a realização de cultos e festejos, assumindo cargos significativos em sua comunidade.

A condução das crianças aos cultos e seu desenvolvimento nas atividades que permitem a sua participação na vida da comunidade, a motivação ao jovem a participação na confirmação do batismo, como um rito de passagem importante e essencial a sua introdução a vida social e religiosa local, e o envolvimento encontro das senhoras luteranas, permite a mulher participar de forma decisiva na condução da religiosidade em todas as etapas da vida na igreja. (Manske, 2016, p. 153)

Segundo Bahia (2011, p. 59), “A mulher exerce um papel preponderante: é a dona da casa camponesa. A figura materna é que governa a parcela do trabalho que garante a manutenção da household, especialmente as técnicas mágicas”. Logo, em igualdade com o homem, é ela quem governa um determinado tipo de “saber-fazer”. A transmissão realizada pelas mulheres do saber mágico é mais do que uma simples transmissão de técnicas: envolve valores, a construção de papéis e a manutenção das identidades étnica e social – seja pomerana ou camponesa –. Neste sentido, os ritos de passagem marcam a transformação da criança em adultos (momento marcado pela confirmação na igreja luterana), justamente quando aquela apreende o domínio pleno do saber trabalhar passando, então, a ser capaz de constituir uma nova família (Bahia, 2011). As mulheres, portanto, despontam como as guardiãs da cultura.

4. Metodologia

A presente investigação possui caráter teórico-exploratório, pois promove uma aproximação com a cultura pomerana e suas tradições. Caracteriza-se como uma pesquisa exploratória, pois almeja caracterizar o patrimônio-territorial pomerano a partir de narrativas femininas, constituídas por meio da evocação de memórias. É uma pesquisa teórica e documental, pois utilizou fontes primárias, tais como fotografias e álbuns, documentos antigos coletados em arquivos públicos e nos livros de registro das igrejas luteranas.

A escolha das histórias orais como metodologia ocorreu a partir da compreensão da importância das narrativas e da fala como ferramentas de preservação e transmissão das heranças identitárias e das tradições de uma comunidade tradicional oral. A partir da tradução em palavras das memórias coletivas no tempo, a fala se transforma em um importante canal de transmissão das experiências entre as gerações, contando desde as experiências da vida cotidiana até grandes acontecimentos. Tal metodologia se apoia nos depoimentos e testemunhos coletados, por meio de entrevistas individuais ou coletivas. Portanto, funciona assim como transmissoras de conhecimento e suportes das identidades coletivas, possibilitando o reconhecimento do indivíduo em seu grupo. Tal metodologia possibilita incluir no processo de produção de conhecimento, a voz de comunidades antes excluídas, coletando relatos de fontes normalmente esquecidas, ignoradas ou negligenciadas pela história oficial e por levantamentos tradicionais que se orientam a partir de registros escritos.

Para sua realização, foi proposto inicialmente um projeto de história oral, a partir do método proposto por Meihy e Holanda (2007). No projeto foram delimitados alguns pontos essenciais para o desenvolvimento da pesquisa. O primeiro deles foi a definição do grupo a ser estudado: colônia – Comunidade de Jequitibá/ES – Mulheres da comunidade luterana da Paróquia de Jequitibá; rede – Grupo da Oase Jequitibá – com senhoras entre 30 e 90 anos. A escolha desse grupo de mulheres dentro da comunidade ocorreu a partir da compreensão da força dos grupos da “Oase” dentro das comunidades pomeranas luteranas do interior de Santa Maria de Jetibá, sendo um grupo tradicional, contínuo e composto por diversas senhoras que desempenham papel de liderança e destaque em sua comunidade.

Para o projeto de história oral foram definidas duas formas de coleta de dados: a roda de conversa e as entrevistas individuais, de modo que no final fosse possível caracterizar o patrimônio-territorial pomerano. A roda de conversa consiste em um dos métodos da história oral que proporciona “[...] a reconstrução dos conhecimentos a partir da interação com os interlocutores” (Lisboa, 2020, p. 168). Dessa forma, pode ser percebida como “mais que um instrumento de coleta de dados, mostrando-se um eficiente espaço de reflexão, capaz de promover avanços nas relações que se estabelecem no cotidiano” (Melo & Cruz, 2014, p. 38), visto que, “[...] ao mesmo tempo em que as pessoas falam suas histórias, buscam compreendê-las por meio do exercício de pensar compartilhado, possibilitando a significação dos acontecimentos” (Figueiredo & Queiroz, 2012, p. 1). Segundo Soares (2019, p. 3), a roda de conversa é um momento “[...] no qual os participantes se reúnem, formando um círculo e todos têm oportunidade de expressar-se, dentro de uma determinada ordem”. As discussões ocorrem em torno de uma temática, selecionada de acordo com os objetivos da pesquisa. Nesse processo, segundo Figueiredo e Queiroz (2012), cada um tem seu direito à fala, podendo dar opiniões convergentes ou divergentes entre si. Dessa maneira, “[...] cada pessoa instiga a outra a falar, sendo possível se posicionar e ouvir o posicionamento do outro” (Figueiredo & Queiroz, 2012, p. 2), mantendo respeito entre os participantes, a fim de que todos sintam-se seguros e confortáveis para falar (Soares, 2019).

Da mesma forma, as entrevistas individuais podem ser compreendidas como uma técnica de coleta de informações que, ao serem transcritas, constituem importantes fontes para a compreensão de temáticas e objetos de estudo, especialmente se combinadas com outras fontes, a exemplo de documentos escritos, materiais e sonoros.

Para a realização da roda de conversa com as senhoras da “Oase-Jequitibá”, foi definido que elas aconteceriam no salão paroquial da paróquia luterana de Jequitibá, durante os encontros mensais do grupo. Foi solicitado às senhoras, que trouxessem objetos e fotos antigas que elas considerassem como representativos da cultura tradicional pomerana e importantes para sua família, comunidade e história. Cabe ressaltar que as entrevistadas foram orientadas a escolher o idioma que mais se sentissem confortáveis para contar a respeito de suas lembranças. Dessa forma, o português e o pomerano foram utilizados. Nos casos nos quais o idioma pomerano foi escolhido pela participante, houve a necessidade de intérpretes para que a conversa fosse melhor conduzida. O pastor da comunidade de Jequitibá, Marcos Volbrecht e o médico Nivaldo Kiister se voluntariaram para atuar como tradutores.

Referente às entrevistas individuais, foi acordado que elas aconteceriam na residência das senhoras que desejassem participar da pesquisa, visto que algumas dessas senhoras possuem limitações de locomoção. Para essa fase, estabeleceu-se o critério de idade, convidando senhoras que tivessem mais de 60 anos. Além disso, buscou-se senhoras de famílias tradicionais na comunidade. De igual maneira, as entrevistadas ficaram livres para se expressarem no português ou no pomerano. Foi solicitado a cada entrevistada que contasse um aspecto importante da cultura pomerana, o que para elas fosse importante preservar para as gerações futuras, como histórias de família, da comunidade, receitas entre outros. Também foi pedido que separassem objetos familiares significativos.

Todos os encontros foram gravados, contando com o uso de aparelhos eletrônicos, sendo estes: gravador, telefones celulares e máquina fotográfica. Para a transcrição do material coletado, fez-se uso da plataforma Pinpoint (Google). Foram transcritas as falas de cada participante de forma literal, mantendo a maneira com que cada uma se expressou, com o uso coloquial da língua e modos de falar, mantendo na escrita a maneira com que as palavras foram pronunciadas e as frases formadas. Quando houve necessidade, o material foi traduzido do pomerano para o português com o auxílio do senhor Nivaldo Kiister.

5. “Patrimônio-territorial” pomerano

Configurando o que Costa (2017) cunhou de “patrimônio-territorial”, ou seja, “elementos singulares da história registrada em símbolos territoriais resistentes à colonialidade do poder: arte, religião, saberes, fazeres, modos de vida, assentamentos de grupos subalternos urbanos e rurais”, esse item apresenta os artefatos e os aspectos singulares da cultura pomerana que resistiram ao tempo e passaram por um processo de adaptação e ressignificação no contexto brasileiro, sobretudo na região de Santa Maria de Jetibá, de modo a permitir que vínculos sociais identitários com o território fossem consolidados.

As rodas de conversa, realizadas com as senhoras da Oase-Jequitibá, girou em torno dos objetos da cultura pomerana trazidos pelas participantes para o encontro, ou seja, artefatos singulares que remetem a história do seu território. Ao iniciar a fala, cada senhora contou um pouco sobre o objeto que trouxe ou algum que estava na mesa e que chamasse sua atenção, relembrando histórias de sua vida, de seus antepassados e da comunidade. Na figura 7 observa-se os objetos apresentados durante o encontro, sendo eles: ralador de feijão (01); peneira (02); ralador de mandioca/aipim/milho (03); avental (04); ferro de passar roupa a brasa (05); blosson (06); monóculos de fotos (07); tábua de madeira com o número dos cânticos do culto (08); estrela de advento em artesanato (09); disco de vinil (10); pratos (11); xícaras (12) e bule de café (13) pintados com temática floral; baú em madeira para guardar roupas e objetos (14); bíblia em alemão (15); instrumentos (16) e forma (17) utilizados para a produção de sapato; vestido branco de noiva com grinalda (18).

Os objetos trazidos pelas senhoras pomeranas da Oase-Jequitibá durante as rodas de conversa e expostos na mesa central serviram como gatilhos mentais para evocação das memórias, demonstrando as temáticas que, para elas, eram mais fortes e presentes na vida da comunidade pomerana e, consequentemente, estabelecem seus vínculos sociais identitários com o território. Ao final da roda, foram apresentadas também algumas fotografias familiares levadas pelas senhoras. São imagens de casamentos, batismos, eventos da igreja, de suas infâncias e de suas famílias.

A partir da análise das transcrições literais, foi possível identificar quais, dentre os dezoito objetos apresentados, foram mais citados durante a roda de conversa. Desses dados, gerou-se uma nuvem de palavras (figura 8) que sintetiza, em ordem decrescente e mais destacados, os artefatos mais rememorados e representativos da experiência espacial dessas senhoras com seu território que constituem efetivamente o seu patrimônio-territorial, pois remetem ao que Costa (2017, p. 56) denomina como “história registrada em símbolos territoriais resistentes à colonialidade do poder”.


Figura 7
Objetos rememorativos apresentados durante as rodas de conversa pelas senhoras da Oase-Jequitibá.
Fonte: elaboração própria, 2024.


Figura 8
Nuvem de palavras com os objetos rememorativos mais citados durante a roda de conversa
Fonte: elaboração própria, 2023.

Para a realização das entrevistas, solicitou-se às cinco senhoras participantes que contassem uma história ou fato sobre a cultura pomerana, podendo este ser especificamente de sua família ou de sua comunidade, todavia, deveria ser algo que cada uma entendesse como importante para preservação. Após a transcrição literal das entrevistas, as falas foram analisadas e adotou-se a mesma metodologia de análise aplicada para a roda de conversa – a nuvem de palavras –. Uma segunda nuvem então foi gerada, a partir das temáticas presentes nas falas das entrevistas (figura 9). Nela, é possível observar os aspectos mais abordados, estando os mais rememorados em tamanho destacado na imagem e em ordem decrescente.

Após a análise das narrativas, consolidadas a partir das memórias evocadas durante as rodas de conversa e das entrevistas individuais, dos objetos e fotografias resgatadas pelas participantes, foi possível destacar os elementos singulares da cultura pomerana que efetivamente estabelecem os vínculos sociais identitários com o território, assim como os aspectos que assumiram ao longo do tempo a condução do enredo – personagens, tempo, espaço e conflitos – que re-significaram uma realidade definida a partir da solidariedade e caracterizam um “territórios de exceção” (Costa, 2017). Nesse contexto, foi possível observar a forte ligação feminina com os aspectos culturais de sua comunidade e a salvaguarda do patrimônio e suas tradições.

Foram identificadas três dimensões representativas do patrimônio-territorial pomerano, ou seja, que contém elementos singulares da história local resgatados pelas narrativas: 1) a língua pomerana; 2) as celebrações, tais como os casamentos tradicionais, batizados, confirmação, festividades da páscoa e pentecostes; 3) saber fazer, representado pelas comidas tradicionais (brot, biscoito de natal, carne na lata) e pelo artesanato, como a estrela de natal.

5.1. Língua pomerana

A língua pode ser compreendida como uma expressão da unidade de um povo, sendo uma forma de unificá-los e caracterizá-los, ou seja, pode ser vista como representante de diferentes grupos, influenciando diretamente em seu traço identitário.

O Iphan estima que existam atualmente aproximadamente 250 línguas faladas no Brasil (entre indígenas, de imigração, de sinais, crioulas e afro-brasileiras, além do português e de suas variedades). No ano de 2010, no Brasil, foi instituído pelo decreto nº. 7.387, o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL). Acompanhando o contexto nacional, no Espírito Santo, o Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL) finalizou no ano de 2022 o inventário da língua pomerana, investigando a situação atual da língua pomerana no Espírito Santo e no Brasil. O inventário possibilitou “o reconhecimento da variedade pomerana como Língua Brasileira de Imigração e, consequentemente, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, alinhando-a à Política do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), desenvolvida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Prefeitura de Vila Pavão, 2024).

A língua pomerana chegou ao Espírito Santo através dos primeiros pomeranos que emigraram para o Brasil. Esses falavam o Pommersch-Platt, língua derivada do baixo alemão e “[...] formada a partir da influência de outros modos de falar, praticados por povos com os quais os pomeranos tiveram contatos diretos e indiretos ao longo de várias épocas e fases de sua história” (Foerste, 2014, p. 30). A respeito de seu uso, Spammer (2016) aponta que a língua pomerana é utilizada “[...] entre os pomeranos, tanto na cidade quanto no campo, na intimidade da família e dos amigos”. Manske (2015) aponta que a forte presença da tradição pomerana é fundamentada na conservação da língua pomerana, no simbolismo presente nos rituais do nascimento, casamento e morte, na sua alimentação, nos cuidados com a saúde, nas crenças em magia, bençãos e na igreja luterana, considerada como a “sua igreja”.


Figura 9
Nuvem de palavras gerada com as falas e temáticas das entrevistas
Fonte: elaboração própria, 2023.

No que se refere às crianças, grande parte delas aprende a língua oficial (português) na escola (Foerste, 2014, p. 32) enquanto o aprendizado do pomerano ocorre no âmbito familiar, sendo assim a primeira língua aprendida pela criança durante a infância. Seu ensinamento fica a par das mulheres, sendo responsáveis também pela transmissão da cultura. Nas falas proferidas pelas senhoras da Oase-Jequitibá, tanto nas rodas de conversa como nas entrevistas individuais, fica evidente a presença da língua pomerana na vida do pomerano desde a sua primeira infância (figura 10), sendo na maioria das vezes a primeira língua aprendida pela criança, ainda no ambiente familiar. O português passa a ser aprendido no momento em que a criança começa a frequentar o ensino regular.

E eu sou essa mãe que não ensinou português para os meus filhos, porque meu marido é pomerano. Ele não gosta de falar o português até hoje, ele fala quando precisa, mas ele não gosta. Aí, eu ensinei o pomerano primeiro e aprenderam o português na escola. (Fala da senhora M.B. na roda de conversa, em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em maio de 2023)

Aprendi o português quando eu comecei a ir pra escola. Antes, eu também não sabia nada, porque ninguém falava o português, era só o pomerano. A gente é tão acostumado em falar o português e o pomerano junto. Quando a gente vai num lugar pra falar só o português, a gente tem dificuldade. Parece que você quer misturar as coisas. Em casa você mistura, fala metade português, metade pomerano, você mistura a língua. (Entrevista concedida pela senhora A.L., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

Foerste (2016, p. 8) relata que é comum crianças com ascendência pomerana possuírem déficit de aprendizagem na escola pela dificuldade de se comunicar. Popularmente, descreve-se esse fato como “estranhos fora do ninho ou estrangeiros na própria comunidade tradicional”.

Tenho 2 duas meninas, ela já de novo quando ela ia para escola quando ela começou a ir para escolinha, ela tinha dificuldade lá, ela não sabia falar português só falava pomerano. A primeira língua dela foi o pomerano. (Entrevista concedida pela senhora A.L., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

É importante destacar que, apesar do ensino do português, o pomerano continua sendo a língua na qual os descendentes de pomeranos de Santa Maria de Jetibá preferem se comunicar no seu dia a dia, seja em suas residências, no comércio, na igreja, nas festividades civis e religiosas.


Figura 10
Língua pomerana
Fonte: elaboração própria, 2023.

Meu pai sabia falar um pouquinho em português, mas minha mãe não sabia falar nada. Eu aprendi a falar, não tô falando bem, mas dá pra passar, com meus filhos, com meus netos e com a televisão, que aí eu aprendi muita coisa a falar. De 25 anos pra cima. Nossa professora era assim também falava pomerano. Quando era uma coisa que nós não sabíamos, nós não estávamos entendendo, aí ela também falava em pomerano. Todo mundo falava pomerano na escola. (Entrevista concedida pela senhora S.L., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

Apesar do pomerano ser a língua mãe e ser falada constantemente pela população no seu cotidiano, as idosas demonstraram que há uma grande preocupação quanto a perpetuação da língua e o ensino, sobretudo para os mais jovens.

A minha netinha ainda fala, uma fala só pomerano. A mais novinha tem dois anos e meio, essa fala só pomerano. A mais velha tem cinco. A de cinco entende, entende tudo, mas ela não quer falar pomerano. (Entrevista concedida pela senhora H.G., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

No início de 2005, a Prefeitura de Santa Maria de Jetibá criou o Proepo (Programa de Educação Escolar Pomerana) a partir do desejo das famílias em ver uma escola inclusiva, a partir de uma educação intercultural bilíngue, onde o aprendizado dos saberes possa ocorrer tanto no português quanto no pomerano. Para Foerste (2016), um dos objetivos primordiais do Proepo é incentivar o ensino da escrita do pomerano. Para que isso pudesse ocorrer, foi necessário a produção de material de apoio escrito na língua pomerana. A publicação do Dicionário Enciclopédico pomerano/português foi uma das primeiras produções para dar suporte ao projeto. Livros clássicos foram traduzidos para o pomerano, como o Pequeno Príncipe, assim como a escrita do hino pomerano.

5.2. Celebrações

As celebrações – compreendidas como os rituais e festas que marcam a vivência coletiva, em sua esfera social e religiosidade – são considerados como importantes fortalecedores da cultura, da memória e da identidade de um povo. Na vida do pomerano, algumas celebrações (figura 11), civis e religiosas marcam a identidade de seu grupo e constituem importantes símbolos territoriais resistentes à colonialidade do poder em um território de excessão.


Figura 11
Celebrações da cultura pomerana
Fonte: elaboração própria, 2024.

Dentre os festejos típicos pomeranos, as festas religiosas estão muito presentes em seu calendário anual. Suas principais manifestações religiosas relacionam-se com datas importantes para o cristianismo, sendo elas: Semana Santa, Pentecostes e Natal. O Pastor Marcos Volbrecht descreve algumas dessas celebrações vinculadas à religiosidade.

Você falando de religiosidade e uma coisa aqui que nós não falamos e também não citamos, uma coisa que é forte, que todas as famílias tem, eu arrisco a dizer que todas as famílias têm ainda a coroa do advento, a coroa de Pentecostes, a árvore de natal, o mais recente agora a árvore de páscoa, o Ramos, no domingo de ramos, pendurar o ramo na porta ou no lugar da casa. (Entrevista concedida pelo Pastor Marcos Volbrecht, em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em abril de 2023)

Durante as festividades da Páscoa, a chamada “árvore da Páscoa” é montada com um galho seco, que simboliza a morte de Jesus Cristo. Nos galhos, são colocadas cascas de ovos coloridas, pintadas pelas crianças, simbolizando a ressurreição de Cristo. Sobre o casamento tradicional pomerano talvez seja uma de suas manifestações civis-religiosas mais emblemáticas, “[...] onde superstição, simbolismo e igreja se misturam” (Almeida, 2016, p. 56). Com diferentes momentos e rituais significativos, o rito do casamento dura três dias, mas sua preparação começa meses antes.

O conjunto de símbolos e significados disponibilizados pela cultura popular e pela igreja norteiam a disposição de cada elemento de forma a produzir uma dinâmica que determina práticas limítrofes entre religioso e o que é próprio do casamento pomerano. A manutenção das práticas ocorre pelo fato de a igreja compreender e respeitar a tradição popular arraigada na cultura pomerana desde a imigração. (Manske, 2015, p. 172)

Bahia (2011) aponta que o casamento é um dos momentos da vida social em que não somente as famílias dos noivos participam, mas toda a comunidade a que eles pertencem, transmitindo o senso de comunhão e mutirão. Ao longo dos anos, os rituais presentes no casamento pomerano sofreram algumas modificações. Manske (2015) aponta como causa as influências de outras culturas locais. Contudo, apesar disso, o forte sentimento de tradição que norteia o grupo não permitiu que o casamento tradicional se extinguisse. Atualmente, nos municípios pomeranos do Espírito Santo, é possível observar a realização de casamentos tradicionais típicos, principalmente nas comunidades rurais do interior.

Nas falas das senhoras da Oase, pode-se observar duas principais celebrações rememoradas: o casamento típico pomerano e a celebração religiosa do pentecostes. Sobre o casamento, as senhoras recordam-se dos seus respectivos matrimônios, expressando como aconteceram e quais os ritos estavam presentes.

Antigamente as festas eram menos e sempre aconteciam na casa da noiva. Foram três dias de festa, casei em Jequitibá e o pessoal foi a cavalo. Meu vestido era branco, mas me recordo de ter ido a casamentos em que a noiva vestia preto (Entrevista concedida pela senhora E.H., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

Antigamente, os casamentos eram simples. Só que o costume, nos casamentos, antes dava linguiça, pão com linguiça na festa. Janta também, à noite. Os casamentos começavam sexta de manhã e ia até sábado de manhã. (Entrevista concedida pela senhora S.L., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

Foi um casamento típico, bem pomerano, começou de manhã, e aí deu almoço, aí de manhã a gente foi para Igreja para fazer o casamento. De lá, nós vínhamos para casa, aí almoçávamos. A festa foi aqui na casa do pai dele, logo ali em frente, e no dia antes, era todo mundo trazia uma galinha, era naquele tempo ainda. O quebra louças foi na quinta noite. (Entrevista concedida pela senhora T.G., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

Para a celebração de pentecostes, a tradição contempla a confecção da coroa de pentecostes por cada família pomerana luterana.

A Coroa de Pentecostes? Isso é uma tradição que a gente tem que deixar para nós. Agora, nós temos a tradição. Nós 'deixa' de um ano para outro pelo menos uma dentro de casa, né? Aí, e com essa árvore, o pau pereira. Tem também a coroa de advento que ainda a gente faz, a gente tem a tradição. Às vezes quando ninguém quer buscar nada para ela, ela se vira onde ela acha alguma coisa e faz a coroa dela, ela pega um pote, bota lama aí dentro ainda. Aí ela enche de verde. Aí ela bota as quatro velas dela, ó tudo. (Entrevista concedida pela senhora E.H., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

Desta forma, é possível compreender que estes eventos e ritos, repletos de conhecimento, valores e crenças incorporadas nos costumes, relacionam-se diretamente à continuidade e a manutenção da dinâmica social pomerana, sendo assim parte fundamental no processo de formação identitário do território pomerano.

5.3. Saber-fazer

Os modos de fazer contemplam um conjunto de bens enraizados no cotidiano das comunidades e podem estar vinculados a atividades desenvolvidas por atores sociais reconhecidos como grandes conhecedores de técnicas, ofícios e matérias-primas que identificam um grupo social ou uma localidade, ou seja, auxiliam na caracterização do patrimônio-territorial pois se relacionam a experiência espacial do sujeito e evidenciam a realização da vida em diferentes escalas.

Nas falas das senhoras da Oase a presença de artefatos singulares do seu cotidiano, herdados de suas mães e avós, rememoram histórias de uma vida toda e demonstram a importância da mulher na transmissão do patrimônio pomerano. Estes artefatos – verdadeiros símbolos territoriais de resistência – serviram como mediadores da memória, constituem elementos singulares da história registrada por essas mulheres e são importantes para sua identidade (figura 12).

Dentre os artefatos apresentados, destacam-se o ralador de feijão, o ferro de passar roupa, a peneira e o ralador de milho/mandioca, utilizados diariamente na casa pomerana para a produção da comida típica. São instrumentos importantes na casa pomerana, associados ao que é considerado em sua comunidade como papel da mulher. E estão diretamente vinculados às práticas e saberes cotidianos.

Do ferro de passar roupa, do ralador de aipim que meu pai usava muito. Em vez de deixar a minha mãe usar, para fazer pão de milho, era ele que fazia e a peneirinha de peneirar, o fubá e o ralador também. Que era muito usado pela minha mãe antigamente. (Fala da senhora A.H. na roda de conversa, em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em maio de 2023)

O ralador né? Era minha mãe, que fazia um brot de milho aqui. Ó, hoje é meu marido, quando ele vinha de namorado, ele falou assim que ele vinha mais por causa do pão. (Fala da senhora A.H. na roda de conversa, em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em maio de 2023)

Essa peneirinha aqui é para peneirar o fubá, para fazer o Brot. E esse ralador serve para ralar feijão, mas eu também tenho isso aqui em casa. Só que usa quando não tem energia, que aí a gente rala o feijão. (Fala da senhora E.B. na roda de conversa, em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em maio de 2023)


Figura 12
Saber-fazer pomerano
Fonte: elaboração própria, 2024.

Os artefatos apresentados relacionam-se, também, à produção do pão típico pomerano, o Brot. De origem alemã e pomerana, a receita deste alimento do cotidiano do pomerano, foi trazida pelos imigrantes e adaptada aos ingredientes presentes na região durante o período da imigração. O trigo foi substituído pelo milho, pela banana e pelo inhame. Cabe destacar aqui a importância do contato do pomerano durante a imigração do século XIX com os povos indígenas e africanos que habitavam a região montanhosa capixabas, o que permitiu uma vasta troca de conhecimento, como a substituição do trigo na receita do pão típico, o que possibilitou uma melhor sobrevivência dos pomeranos na região. Tradicionalmente, o Brot deve ser assado no forno de barro a lenha, enrolado em uma folha de bananeira. Ele compõe a mesa do pomerano junto com a banha de porco, a manteiga, as geleias de fruta e os biscoitos caseiros, sendo um símbolo de sua culinária. Seu preparo semanal é uma das funções importantes desempenhadas pela mulher pomerana.

Em primeiro lugar, está se perdendo tudo, porque ninguém faz mais Brot, e todo mundo compra. Isso é uma coisa muito importante, é bem mais saudável o que a gente faz. Eu não aprendi com minha mãe. Minha mãe era bem velhinha, ela tinha nós com 47 anos ou 48 já quase, eu nasci, aí ela depois não fez mais o Brot. Aí eu aprendi com a amiga minha e até hoje eu tô praticando. Eu faço brot até para os outros. Mas eu vejo que tanta mulher que tem mais condições de fazer do que eu mais elas não fazem, mas eu gostaria que isso continuasse. (Entrevista concedida pela senhora T. G., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

Ninguém não está fazendo mais nada. Antigamente, eu fazia o Brot. Também fazia Gibron Schwinn Fleisch (carne frita na banha). Fritava a carne, botava na panela e enchia de gordura. Aí isso poderia ficar até um ano ou mais até isso não estragava. (Entrevista concedida pela senhora S. L., em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em junho de 2023)

O artesanato pomerano relaciona-se principalmente aos festejos religiosos, com a produção da estrela de natal, apreendido ainda na infância pela criança, sendo seu ensinamento responsabilidade da mãe e das avós. Novamente, evidencia-se a importância da mulher pomerana para a manutenção do saber fazer de sua comunidade.

A estrela dá muito trabalho, não sei se eu ia conseguir fazer hoje, mas sim é bem trabalhoso. Mas você corta primeiro papelão, né? Depois você veste o papelão de tecido, né? Aí depois Entre esses pedacinhos. Vai juntando faz a Estrela, né? Fazia assim em casa né, a estrela e depois vai juntando (Fala da senhora A. H. na roda de conversa, em Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brasil, em maio de 2023)

Esses artefatos expressam artefatos que caracterizam sua identidade, mas também simbolizam a resistência das “formas sígnicas-significantes de existir e perdurar” (Costa, 2021) dos pomeranos, agregando valores e conectando-os a sua própria história.

6. Considerações finais

Seibel, Foerste, Ullrich, Jacob e Heinemann (2016, p. 37) afirmam que “[...] um país chamado ‘Pomerânia do Brasil’ realmente existiu, não como país com definição geográfica ou política, porém como um conceito cultural e como uma Pomerânia de um povo que vive no Brasil”. A consolidação desse território retrata tanto a resistência dos pomeranos ao domínio hegemônico, quanto a sua história de adaptação e luta pela sobrevivência em um contexto muito diferente da antiga Pomerânia. Nesse sentido, consolidou-se o que Costa (2016) denominou de “utopismos patrimoniais” na medida em que o sentido da herança cultural, de saberes e da memória possibilitaram aos pomeranos resistir e durar no território.

A pesquisa destacou que nas sociedades tradicionais brasileiras, é importante ressaltar o forte valor atribuído às tradições orais. Para esses grupos, tudo aquilo considerado “[...] importante para o perfeito funcionamento de suas instituições, para uma correta compreensão dos vários status sociais e seus respectivos papeis, para os direitos e obrigações de cada um” (Vansina, 2010, p. 163) é perpetuado pela fala. Os costumes e as práticas também são aprendidos e repassados através da fala. Nesse contexto, destaca-se que as vivências experimentadas pelos pomeranos possibilitaram a troca de informações, diálogos e ensinamentos entre diferentes gerações, de modo a possibilitar que fossem perpetuadas ao longo do tempo, consolidando a ideologia que legitima a cultura pomerana.

A pesquisa mostrou a relação intrínseca das lembranças com a figura feminina da mãe e da avó, principalmente na infância do povo pomerano, onde a mulher pomerana se destaca como a principal transmissora dos ensinamentos e tradições de sua cultura. Essa constatação ressalta a importância que as mulheres adquirem na construção e preservação das tradições e costumes de sua cultura em sua comunidade. A pesquisa mostrou como a mulher, na sociedade pomerana, é um gênero forte e atua em diversas funções: educa os filhos, ensina a língua pomerana, cozinha e perpetua o saber fazer da comida tradicional, cuida da casa, ajuda na lavoura, produz artesanato e mantém viva as tradições do bordado, do saber fazer da coroa de pentecostes, da estrela de natal, da árvore de páscoa, trabalha no casamento pomerano, media as relações entre igreja e família e, na própria igreja, desempenham papéis fundamentais para a realização de cultos e festejos, assumindo cargos significativos em sua comunidade. Fica evidente que a mulher pomerana – por meio da sua atuação, seus saberes e memórias – legitima a cultura pomerana, e por meio da ativação popular do patrimônio-territorial se torna fundamental para “escrever ‘outra’ história de um continente” (Costa, 2017, p. 61).

Outro aspecto tangenciado pela pesquisa foi a importância da memória evocada pelas senhoras da Oase-Jequitibá na ativação popular do patrimônio-territorial pomerano. Os relatos possibilitaram protagonizar os sujeitos que efetivamente construíram a história do território de Santa Maria de Jetibá, sujeitos que são a ‘base da vida” (Costa, 2021) e confrontaram os discursos e as práticas hegemônicas de dominação territorial. A partir dos objetos apresentados pelas senhoras foi possível compreender a visão da comunidade pomerana em relação ao seu próprio patrimônio, ou seja, como um povo tradicional enxerga o que é representativo da sua herança cultural. As análises das narrativas e dos objetos evidenciaram que, para elas, o valor de seu patrimônio não está em sua materialidade, mas na função desempenhada por cada objeto, no modo de fazer, nas práticas, nas tradições e nas crenças a que eles se relacionam, ou seja, na perpetuação de lembranças e saberes. A pesquisa ressaltou que as memórias evocadas enaltecem e valorizam o seu verdadeiro patrimônio-territorial – aquilo que resiste em termos culturais e populares e se manifesta nos locus da vida –.

A pesquisa também enalteceu os desafios enfrentados pela sociedade pomerana atualmente para a manutenção de seus traços identitários e os desejos dos sujeitos situados em territórios de exceção. Observou-se a preocupação dos mais velhos com a preservação da língua pomerana e dos costumes. A perda de tradições ao longo dos anos, a miscigenação cultural e principalmente a perda de interesse do jovem com a cultura pomerana são fatos preocupantes para essas senhoras, que veem com temor o futuro da comunidade pomerana com a perda de seus principais marcos identitários.

Em suma, a pesquisa deixou claro que Santa Maria de Jetibá configura-se como um território de exceção que é depositário de um rico patrimônio-territorial pomerano que foi re-significado ao longo do tempo. É notório o valor atribuído – pelas senhoras – à esses bens, assim como o que elas reconhecem e preservam como expressões verdadeiras da sua herança cultural: do artesanato às celebrações, da língua e da culinária ao patrimônio edificado. A comunidade pomerana, apesar de toda resistência às forças hegemônicas dominantes para sua subsistência e perpetuação, ainda permanece com o desafio de continuar resistindo a todos os riscos para conseguir preservar seu patrimônio-territorial em um território de exceção. Parafraseando Costa (2017, p. 68), a comunidade é “a representante protagonista da formação territorial latino-americana nesse novo processo de valoração espacial da cultura nas periferias”, ou seja, a comunidade pomerana e, sobretudo a mulher pomerana, possui um valor essencial na chancela de um utopismo comunitário na ativação do patrimônio-territorial.

7. Contribuições das autoras:

Karla Fernanda da Silva Kiister: conceitualização; metodologia; análise formal; escrita original, preparação do texto original; revisão e edição; recursos financeiros; curadoria de dados.

Melissa Ramos da Silva Oliveira: conceitualização; metodologia; análise formal; revisão da escrita, preparação do texto original; revisão e edição; recursos financeiros; curadoria de dados; administração do projeto; aquisição de fundos.

Material suplementario
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Notas

Figura 1
Mapa de localização do Município de Santa Maria de Jetibá - Espírito Santo, Brasil
Fonte: elaboração própria, 2024.

Figura 2
Mapa de localização do município de Santa Maria de Jetibá-ES e da Paróquia de Confissão Luterana de Jequitibá, distrito de Caramuru
Fonte: elaboração própria, 2024.

Figura 3
Mapa de localização da antiga Pomerânia na Europa até o ano de 1945
Fonte: elaboração própria, 2024.

Figura 4
Produção de bolos e do pão típico, Brot, pelas senhoras pomeranas
Fonte: fotografias de Karla Kiister, maio de 2024

Figura 5
Bordado tradicional pomerano
Fonte: fotografias de Karla Kiister, maio de 2024.

Figura 6
Preparação de comida em um casamento típico pomerano por mulheres pomeranas
Fonte: fotografías de Karla Kiister, julho de 2024.

Figura 7
Objetos rememorativos apresentados durante as rodas de conversa pelas senhoras da Oase-Jequitibá.
Fonte: elaboração própria, 2024.

Figura 8
Nuvem de palavras com os objetos rememorativos mais citados durante a roda de conversa
Fonte: elaboração própria, 2023.

Figura 9
Nuvem de palavras gerada com as falas e temáticas das entrevistas
Fonte: elaboração própria, 2023.

Figura 10
Língua pomerana
Fonte: elaboração própria, 2023.

Figura 11
Celebrações da cultura pomerana
Fonte: elaboração própria, 2024.

Figura 12
Saber-fazer pomerano
Fonte: elaboração própria, 2024.
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