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Pedagogia da escuta: reaprendizados de uma criança autista no cotidiano familiar e escolar em tempos de Pandemia da Covid-19
Pedagogy of listening: relearning of an autistic child in the family and school every day in times of the Covid-19 Pandemic
Pedagogía de la escucha: reaprendizajes de un niño autista en el cotidiano familiar y escolar en tiempos de Pandemia del Covid-19
Olhar de Professor, vol. 25, pp. 01-16, 2022
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Artigos



Recepción: 29 Enero 2022

Aprobación: 14 Agosto 2022

DOI: https://doi.org/10.5212/OlharProfr.v.25.19987.054

Resumo: Este estudo tem como objetivo compreender os reaprendizados vivenciados por uma criança autista frente aos desafios familiares e escolares durante a Pandemia da Covid-19. A pesquisa teve início no ano de 2020, especificamente, em agosto, após seis meses da Pandemia, como estratégias para apontar as experiências escolares e aprendizados da criança autista no ensino remoto. É uma pesquisa de abordagem qualitativa, ancorada na pesquisa (auto) biográfica como método de investigação, por meio de narrativas de uma criança autista e da avó materna. Esses relatos possibilitaram, sobretudo, o alerta para a formação, tendo como base a pedagogia da escuta com os sujeitos envolvidos. Como resultados, apontamos que a família e a escola são instituições que podem trazer experiências formativas e colocar no centro das preocupações os desafios vivenciados pela criança autista desde o início da Pandemia e a entrada do ensino remoto. A experiência com as aulas remotas, por ocasião da Covid-19, impôs um modelo de ensino que abriu oportunidades para dúvidas, desafios, interrogações e estranhamentos, com vistas à inclusão e efetivação de direitos da pessoa com deficiência.

Palavras-chave: Criança autista, Família, Pedagogia da escuta, Reaprendizados no ensino remoto.

Abstract: This study aims to understand the relearning experienced by an autistic child in the face of family and school challenges during the Covid-19 Pandemic. The research started in 2020, specifically, in August, after six months of the Pandemic, as strategies to point out the school experiences and learning of the autistic child in remote teaching. It is research with a qualitative approach, anchored in (auto)biographical research as a method of investigation, through narratives of an autistic child and the maternal grandmother. These reports enabled, above all, the alert for formation, based on the pedagogy of listening with the subjects involved. As a result, we point out that the family and the school are institutions that can bring formative experiences and put at the center of concerns the challenges experienced by the autistic child since the beginning of the Pandemic and the entry of remote teaching. The experience with remote classes, on the occasion of Covid-19, imposed a teaching model that opened up opportunities for doubts, challenges, questions and estrangement, with a view to the inclusion and realization of the rights of people with disabilities.

Keywords: Autistic child, Family, Pedagogy of listening, Re-learning in remote teaching.

Resumen: Este estudio tiene como objetivo comprender los reaprendizajes vivenciados por un niño autista frente a los desafíos familiares y escolares durante la Pandemia del Covid-19. La investigación se inició en el año 2020, específicamente en agosto, después de seis meses de la Pandemia, como estrategias para apuntar las experiencias escolares y aprendizajes del niño autista en la enseñanza remota. Es una investigación de abordaje cualitativo, anclada en la investigación (auto) biográfica como método de investigación, por medio de narrativas de un niño autista y de la abuela materna. Estos relatos posibilitaron, sobre todo, la alerta para la formación, teniendo como base la pedagogía de la escucha con los sujetos involucrados. Como resultados, señalamos que la familia y la escuela son instituciones que pueden traer experiencias formativas y colocar en el centro de las preocupaciones los desafíos vivenciados por el niño autista desde el inicio de la Pandemia y la entrada de la enseñanza remota. La experiencia con las clases remotas, con ocasión del Covid-19, impuso un modelo de enseñanza que abrió oportunidades para dudas, desafíos, interrogantes y extrañezas, con vistas a la inclusión y efectividad de derechos de la persona con discapacidad.

Palabras clave: Niño autista, Familia, Pedagogía de la escucha, Reaprendizajes en la enseñanza remota.

Introdução

Em 2020, na cidade de Wuhan, na China, surgiram os primeiros casos de pessoas contaminadas pela Covid-19, que se espalhou por todo o mundo. A Covid-19 é uma doença causada pelo coronavírus, vírus pertencente à família do Sars-CoV-2, que causa infecções respiratórias. A Organização Mundial de Saúde (OMS), junto com especialistas de vários países do mundo, procurou obter vacinas para combater essa doença. Atualmente, seguimos convivendo com a pandemia e seguindo as recomendações de segurança, mantendo o distanciamento social, uso de álcool em gel e o uso de máscaras. E o mais preocupante diante de tudo isso é termos que enfrentar a desinformação, o negacionismo e a resistência de uma parte da população contra a vacinação.

A pandemia provocou um cenário inédito de isolamento social. Na educação houve uma rápida transição do ensino presencial para o ensino remoto4 que, segundo Branco e Neves (2020, p. 22), “[...] surge como uma possibilidade de oferta de educação formal, diante na pandemia da COVID-19” e como um impacto enorme no aspecto emocional de milhões de alunos, educadores e famílias. Posto isto, este artigo5 aborda narrativas de uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA)6 e de sua avó materna, trazendo como discussão central seus reaprendizados escolares durante a Pandemia. As narrativas da criança e da avó salientam um contexto escolar vivenciado de uma cultura escolar com o desejo de mudanças, das lições significativas e do transformar. Com vistas à superação das dificuldades nesse contexto, buscamos erigir lições expressas nas narrativas de Voo dos Pássaros7, uma criança autista de 11 anos de idade e de sua avó materna de 61 anos de idade, que vamos chama-la de Girassol.

Para tanto, a discussão metodológica é de abordagem qualitativa e ancorada nos dispositivos da pesquisa (auto)biográfica como método de investigação por meio das narrativas de uma criança autista e de sua avó. De acordo com Josso (2010), a (auto)biografia expressa o escrito da própria vida. Souza (2006, p. 25) complementa afirmando que essa metodologia se caracteriza “[...]como oposta à biografia, porque o sujeito desloca-se numa análise entre o papel vivido de ator e autor de suas próprias experiências, sem que haja uma mediação externa de outros”.

Quanto ao percurso da escrita, está alicerçado pelo que propõem alguns estudiosos, a saber: no que se refere à exclusão escolar, nos respaldamos em Mantoan (2003), e na psicologia social de Vigotsky (2007; 2009), sobre a pedagogia da escuta e a visão de ensino e aprendizagem, nos reportamos a Mallaguzzi (2016) como âncora para o caminho dos ressignificados e por entendermos a força do contexto de exclusões, sócio cultural, bem como da urgente necessidade de se saber escutar o outro.

Temos como objetivo compreender os reaprendizados vivenciados por uma criança autista frente aos desafios familiares e escolares durante a Pandemia da Covid-19. A pesquisa teve início no ano de 2020, especificamente, em agosto, após seis meses de Pandemia da Covid-19, inicialmente com a criança e com a família, com base na experiência narrativa de uma criança autista. Em 2020, a referida criança estudou remotamente em uma escola da rede privada de ensino da cidade de Campina Grande, no Estado da Paraíba. Já em 2021, sua família se deslocou para a cidade de Caruaru, no Estado de Pernambuco, onde a criança começou a frequentar as aulas presenciais.

No bojo dos sujeitos da pesquisa estão: a criança autista e a avó materna. A escolha dos participantes deu-se pelo critério de afinidade e pela implicação de cada um deles com as dificuldades vivenciadas. Fizemos uso das entrevistas narrativas, com base nos escritos em textos e desenhos. Isso nos abriu espaço para os registros das histórias de vida8 de aprendizagens intergeracionais, com base nas lições dos momentos de escolaridade da avó durante as décadas de 1950 e 1960, para as lições de hoje.

Nesse encadeamento de ideias, é preciso pensar sobre o tempo da paciência e seu exercício no cotidiano para vencer as barreiras que impedem atitudes pacientes e inclusivas. Isso pode ajudar a identificar o traçado das afetividades comprometidas e que estancaram o processo de vivência em meio a tempos do ensino remoto. A memória dos tempos vividos, pelos familiares, amalgama-se com a memória de hoje para exercer robustez ao exercício do papel de cada um, em diálogo permanente no processo formativo.

Este artigo encontra-se organizado em duas seções: Na primeira, abordaremos a pedagogia da escuta sensível para a inclusão escolar: reaprendizados de uma criança autista na vivência do ensino remoto. Em seguida, apresentaremos o que conta a criança autista e sua avó materna no mergulho em si e as lições para o outro.

A pedagogia da escuta sensível para a inclusão escolar: reaprendizados de uma criança autista na vivência do ensino remoto

As discussões acerca da inclusão e efetivação de direitos da pessoa com deficiência se respalda na Constituição Federal de 1988 e na Lei Brasileira de Inclusão (LBI), nº 13.146/2015, também denominada de Estatuto da Pessoa com Deficiência, que foi criada em 06 de julho de 2015, entrou em vigor dia 02 de janeiro de 2016 e significa um avanço na construção de uma consciência de inclusão. A LBI, estabelece um conjunto de normas destinadas a assegurar e a promover, em igualdade de condições, o exercício dos direitos e liberdades fundamentais por pessoas com deficiência, visando sua inclusão social e a cidadania.

A Lei nº 13.146/2015 partiu de um momento que muito se discutia as desigualdades na sociedade, em relação a inclusão das pessoas com deficiência. Dentre as pessoas com deficiência, compreendidas pela legislação, estão aqueles que possuem o Transtorno do Espectro Autista (TEA), que estão amparadas pela Lei Berenice Piana9, de nº 12.764/2012. Por esta lei, ficou criada a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA) reconhecendo, a partir de 2012, a pessoa com TEA como pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais. Em complemento ao dispositivo constitucional, os direitos dos autistas foram expressamente regulamentados pela Lei nº 12.764/2012, especificamente no parágrafo 2º do artigo 1° da norma, onde fica determinado que os diagnosticados com esse transtorno tem seus direitos assegurados pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência que abrange modalidades diversas de deficiência (BRASIL, 2012).

As narrativas da criança e da avó materna foram utilizadas em um encadeamento como chave para a interlocução daqueles que estão no processo de aprendizado junto à criança autista em processo formativo em rede. Os instrumentos afetivos utilizados, qual sejam, a paciência, a dedicação, o tempo da escuta, foram importantes e transversais na centralidade entre os dias vivenciados pela escola e pela família, hoje, e o tempo de ontem.

Pensemos acerca das interligações em rede de saberes familiares que se unem aos saberes escolares, no sentido de alimentar as capacidades de aprender e reaprender, desaprender para aprender de outro modo, de acordar o lugar de vínculos familiares às responsabilidades nos processos de crescimento do filho. Argumentemos que esse processo colabora com a reorganização da vida, dos prazeres cotidianos esquecidos e deixados para trás como um endereço que precisa ser recuperado e cuja sensibilidade de vivências está alicerçado no reconhecimento dos valores familiares e querer ser com o outro, o ofertar possibilidades de edificar novas formas de convívio e gestar tempo no gerenciar conflitos.

Posto isto, este estudo, com base nas narrativas de uma criança autista e sua avó materna no caminhar com as dificuldades enfrentadas em tempos de Pandemia da Covid-19 permite oferecer na prática compartilhar experiências por meio de um diálogo da escuta sensível de suas narrativas. Levará sem dúvida para outros traçados da vida, uma vez que arrastou para os cantos, as cortinas que embaçavam a criatividade. Nutriu a todos com expectativas sobre fazeres plurais ao estranhamento do cotidiano da família, da escola e, em especial, do seu filho. As tristezas, o dizer não, os comportamentos opositores, antes experimentados, que traziam amargor aos dias e às horas diárias, transformam-se em um querer permanente.

A escuta sensível permite revisitar os acontecimentos e os lugares de encontros, e tem a força da resistência e o poder de desvelar os silêncios para a transformação do ser. No entanto, faz-se necessário a aproximação ao outro, deixar o outro falar o que sente, o que dói, o que amargura para fazer florir os botões de rosa cuja possibilidade será um tesouro a se descobrir no ecoar das vozes de quem fala, pede, deseja e quer. Projetará os sentimentos dos ouvintes e dos que escutam no movimento especial pela valorização da vida, para além de quantidades, de classificatório e de mecânico. O contar e o ouvir as narrativas de histórias de vida e aprendizados, nos leva a pensar nos significados e sentidos que se apresentam em seus múltiplos desenhos de expressão da criança.

Defendemos que entender a criança é um exercício que implica em uma compreensão na perspectiva sócio histórica10 se quisermos refletir sobre seu mundo. Com base nessa premissa, a criança autista deste estudo é pensada no contexto do meio social como uma experiência por ela vivida, dinamizada, questionada, sofrida, onde através de suas vivências com foco em diversas dimensões do experenciado entre a família, a escola, e a equipe multiprofissional. Esse argumento nos leva aos estudos de Vygotsky (2009) que é um marco da psicologia sócio histórica como o autor dessa escola da psicologia. Trazer o social para esta reflexão é erguer o meio como uma prática histórica, cujas vivências são pertinentes para os processos de aprendizagem.

Como afirma Vygotsky (2007, p. 58): “A internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto característico da psicologia humana”. O autor considera que o pensamento e a linguagem são essenciais para o funcionamento psicológico do ser humano. Consequentemente, quando essas duas perspectivas se entrelaçam, o pensamento se torna verbalizado e a linguagem passa a ser racional. Desse modo, o desenvolvimento biológico transforma-se em sócio histórico, fazendo com que o indivíduo tenha processos psicológicos mais sofisticados. Para o autor, a aprendizagem é [...] “um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas” (VIGOTSKI, 2007, p. 103).

Nesse cenário, a escola, bem como os sujeitos escolares, do ponto de vista de sua formalidade, para o que trazemos neste estudo, precisa entender e reconhecer a criança em seu movimento de aprender, como um processo inconcluso, ativo, dinâmico, em interação e diálogo com os colegas da sala no pátio, nos intervalos, com os professores e com os gestores. As aprendizagens ocorrem na relação com as pessoas do cotidiano escolar no entendimento sobre o contexto cultural e social uma vez que são construídos a partir das vivências humanas. Aprender, reaprender, desaprender, implica no desdobramento de novos conhecimentos que se refazem, herdam dos anteriores e reconstroem- se na prática, com novas leituras, novos conhecimentos e aprendizados. Para esse movimento, Vygotsky (2007) diz se tratar de uma síntese que tem como dimensão central o pensamento e a linguagem. Apontamos a linguagem em suas variadas formas, modos de comunicação e no processo de movimento e troca social que, por sua vez, vai abrindo aprendizados com seus conceitos e categorias. O pensamento sócio-histórico nos ensina que a criança é sujeito em um meio, um contexto diverso, cultural e histórico. Segundo Vygotsky (2007), a criança desenvolve seu potencial e tem a capacidade de desempenhar tarefas com ajuda de pessoas mais experientes como a professora e os próprios colegas, nesse processo a uma intermediação entre a professora e a criança com objeto de aprendizagem. Nesse processo, o indivíduo ergue sentidos e significados, subjetividades e se constrói socialmente, modifica-se em um processo inconcluso. A escola, a família em seus lugares de fazeres e saberes precisam trazer para o interior das relações a dinâmica da socialização.

Aliado à perspectiva de que os sujeitos interagem com e no meio social e histórico, trazemos a dimensão da escuta sensível de Malaguzzi (2016) que nos proporcionou a ideia de que era preciso uma abordagem diferenciada nos processos escolares, no momento em que pensou a família, a criança e os professores como lugares fundamentais no processo de aprendizagem na infância. Malaguzzi (2016, p. 476) estimula a busca por significados como condição central para os aprendizados e expressa que “[...] não podemos viver sem significado, porque isso deixaria nossas vidas sem identidade, esperança ou noção de futuro”. Com esse ensinamento, temos um lugar, qual seja, da criança e da avó como autores e atores nesse processo narrativo que se movimenta impregnado de entusiasmo, estímulo e permanente vivência na dimensão da curiosidade.

A criança, em seu movimento sobre os contextos por onde circula, vê, escuta, percebe, faz, cria, imagina, conduz esse movimento impregnado de querer saber. Utiliza as mais variadas formas de dizer e de se comunicar. Diante do exposto, refletimos: Como a escola e os professores pensam a criança diante de tantos significados que ela expressa no cotidiano? De que maneira a família e parentes mais próximos podem entender o seu saber fazer? Como os colegas na escola e no convívio social interagem a partir da dinâmica dos seus convívios? Quais os reaprendizados e os desaprendizados?

Por esse entendimento é possível perceber diferentes modos de comunicação e de que forma esses modos de fazer, de dizer, de perguntar, de entender o mundo se constituem em dimensões formativas. Sem dúvida, o crescimento e a quebra de barreiras precisam ser estimulados para que, quando a criança em interação com o mundo, possa envolvê-la, cativá-la e estimulá-la, bem como convidar a ressignificados.

Os modos de ser de cada um e a forma que interage com o mundo exterior, o envolve e é envolvido pelas crianças. Pelos olhos da pedagogia da escuta podemos acessar as reconstruções, os reaprendizados, os desaprendizados rumo às múltiplas construções. Importante respeitar as linguagens dos sujeitos e abrir espaço para que, a partir das vozes suas habilidades sejam alavancadas. Por esse entendimento chegamos à escuta sensível, às narrativas, à oralidade, o que abre caminhos para a quebra de barreiras atitudinais, ao levar a participação de todos e de todas nos processos de aprendizagem, uma vez que serão estimulados como livres pensadores. Como desdobramento, a criança se sentirá mais liberta para ouvir, narrar, perguntar e o pensar, como essa compreensão, será exercitado, com leveza.

Malaguzzi (2016) abre caminhos, pistas, rumos, para que a escola, a família e a sociedade desenvolvam espaços repletos de dizeres, que um dos seus objetivos é criar nos espaços de amorosidade, afetividades, acolhimento suaves, tranquilos, saudáveis, pois nesses lugares e com essas dimensões, crianças, famílias e professores se encontrem descansados, repousando uns nos outros suas subjetividades, descobrindo em coletivo, e internalizando modos de colaboração e cooperação.

Esse foco robustece as relações entre todos e todas que estão no âmbito das corresponsabilidades no desenvolvimento das crianças. É necessário erguer espaços para que todos na família, na escola e na vizinhança se vejam como partícipes das conversas, na reflexão das situações de conflitos e que se coloquem como construtores da realidade cotidiana. A dimensão dos questionamentos, das indagações, do estímulo à criatividade, em todas as suas maneiras de criar, robustece e renova vínculos, e caminha para as comunidades de afeto. Por sua vez, essa dinâmica podendo revigorar os aprendizados, as conquistas das crianças, nos mais variados aspectos e faces do seu desenvolvimento.

Nessa perspectiva, a pedagogia da escuta defende que a criança deve ter voz, narrar, contar de si, contar do seu cotidiano, permitir se questionar, perguntar, duvidar e trazer pontos para os aprendizados coletivo com seu modo de dizer e fazer. Sobretudo o que passa, no dia a dia da escola, sentimentos de silenciamento, do desejo de ser ouvida, a escuta sensível que está ausente. Neste sentido, Mantoan (2003) aborda que a exclusão escolar se revela de várias maneiras perversas e uma delas é quando a democratização do ensino se confunde com a massificação. Ao desconsiderar as singularidades dos sujeitos, essa atitude inviabiliza o diálogo entre os diversos conhecimentos existentes entre os educandos, pois ignora o subjetivo, ao privilegiar o conhecimento científico e objetivo.

Reconstruir as práticas escolares e familiares em seus percursos de vivências nos permite alimentar esses fazeres, muitas vezes cristalizado, e oferecer possibilidade de investigar as práticas dentro do enfoque plural com o espaço de reflexão que emane da própria diversidade. Esse movimento leva ao olhar através das lentes que se modificam e elevam à perspectiva do planejamento e da avaliação da prática. Permite proceder à autoavaliação das práticas educativas, tendo como base saber ensinar e saber apender. Cabe-nos pensar que a dificuldade de fazer a inclusão é o como fazer? Como ensinar? Queremos formar para que finalidade?

Pensar com base nas narrativas de Voo dos Pássaros e sua avó, colaboradores da pesquisa, estimula pensar sobre os efeitos do que narra e seus reflexos, sobre o que se espera de uma criança crítica e reflexiva. O que pode ser gerado a partir das suas narrativas, no que tange a um caminho para o acolhimento e autoconhecimento, nos ajuda a refletir as práticas dentro da realidade de uma Pandemia que escancarou as desigualdades. Pensar a existência de quem ensina e de quem aprende, descobrir as incertezas, os acertos, os equívocos, o ensinado e rever-se em suas posições.

Conforme Freire (1980), o princípio do aprender implica estudar, conscientizar-se sobre o ato de ler, de estudar, de escrever. O renomado pedagogo reconhece esse princípio como caminho de uma nova maneira de desenvolver as práticas escolares com outros processos e iniciativas, desenhos didáticos e outras metodologias. Foi o que impôs a pandemia, ao mexer com as reflexões e ideias de uma sociedade em que os alunos foram afetados em suas emoções e as famílias tiveram que acompanhar as atividades escolares dos seus filhos de uma maneira mais cuidadosa. Para tanto, na seção seguinte, discutiremos de maneira amiúde as inter-relações entre a criança autista, seus familiares e o aprendizado escolar.

O que conta a criança autista e sua avó materna no mergulho em si e as lições para o outro

A rede de colaboração que envolve a família, professores e escola, abre caminhos para o exercício da escuta, da paciência e do aproximar, esses elementos são fundamentais para o tempo da criança. Os familiares, ao pensarem no como compreender o tempo da criança considerando o momento de liminaridade da Covid-19, abriram espaço para a criatividade do lápis, papel, do desenho, do gravador, vídeos, das fotos, dos borrões, modos de fazer em escrita de sentido. A criação de um ambiente acolhedor, amável, suave, aromático e paciente desencadeia o viver com prazer, felicidade e bem estar e conduz a uma prática das sensibilidades ressignificadas e movimenta a vida, colore os dias, anima os afetos, provoca o coletivo em ação e lições de amor o que repercute para o coletivo.

No que se refere aos dizeres evocados pelos participantes da pesquisa, Halbwachs (1990) ensina que o indivíduo que lembra é aquele que acolhe grupos de referência e que a memória é erguida em grupo e que é um trabalho do sujeito. Nesse contexto, Bosi (2003, p. 16) contribui com esse debate ao nos ensinar que “[...] a memória se enraíza no concreto, no espaço, gesto, imagem, objeto”. As oportunidades que se abrem para entender a criança autista, significa sentir o vivenciado, uma vez que os lugares, tempos e acontecimentos vivenciados, apontam seu cotidiano na escola e na família como espaço para a aproximação com as práticas escolares. Nessa linha de pensamento Bosi (2003, p. 16) assevera que “[...] feliz é o pesquisador que pode se amparar em testemunhos vivos e reconstruir comportamentos e sensibilidades de uma época”. Os dizeres e vivências da criança autista, no âmbito familiar e escolar, erguerão estratégias e apontarão silêncios, em especial nas vivências escolares em tempos de Pandemia e aprendizados no ensino remoto.

As narrativas de Voo dos Pássaros trazem os lugares/memórias da escola e da família que são instituições de referência de convívio de professores, pais e filhos no percurso, para bem próximo dos pensamentos e dos sentimentos. A dimensão dinâmica, potencializadora, nas narrativas de Voo dos Pássaros, desenha caminho para refazer os vínculos afetivos de colaboração e potencializa os aprendizados. Esses rumos dão lugar ao repensar os acontecimentos, às imagens e aos sujeitos que traduzem a memória. Nessa perspectiva, ao conversarmos sobre o TEA, o nosso entrevistado foi enfático em explicar com clareza e argumentos como é ser uma criança com autismo:

[...], eu tenho 11 anos, hoje eu vou explicar para vocês o que é o autismo, é como se tivesse um computador na cabeça para processar as informações ao mesmo tempo, meu cérebro é diferente, é verdade. Mas o meu coração sente como o seu, tenho movimentos involuntários – estereotipias, que precisamos fazer terapias com a equipe multidisciplinar11 [...] (Narrativa de Voo dos Pássaros, Mossoró, 2020).

A família, na representação da avó materna da criança autista, também narradora neste estudo, aqui chamada de Girassol, alude às lembranças coletivas de um tempo de afetividades coletivas. Tempo no qual está toda a intersubjetividade avó/neto, de um tempo anterior que vem se potencializando no percurso das existências singular/plurais. Em Halbwachs (1990, p. 9-10), temos não ser possível pensar a memória e os lugares da memória “se não tomamos para ponto de aplicação os quadros sociais reais que servem de pontos de referência nesta reconstrução que chamamos memória”. É nos lugares das memórias do ontem e do hoje que entendemos a relação que se faz no convívio diário.

Trazemos o pensar da avó de Voo dos Pássaros quando essa expressa o sentimento de amor ao se deslocar do Brasil para acompanhar a chegada do seu neto, na Rússia. Consideramos essa narrativa relevante, pois foi desde esse momento que Girassol percebeu a responsabilidade que teria no processo de estar perto do neto que vinha ao mundo. Quanto a isso narra:

Então, chega o dia mais esperado, o nascimento de meu neto que nasceu de parto normal, saudável. Foi examinado por uma equipe médica especializada, e permaneceu no hospital por quatro dias, veio para casa e continuou sendo atendido em domicílio por toda a equipe médica, pois na Rússia, mesmo sendo atendido por órgão públicos os pacientes tem todo apoio e depois, mesmo passando o período do repouso da mãe, a criança continua assistida regularmente por toda a equipe. E para nossa surpresa, em um dos exames, feito pelo ortopedista, ele detectou que os estímulos do meu neto não correspondiam para a normalidade de uma criança de sua idade (Narrativa de Girassol, Mossoró, 2020).

A partir da narrativa de Girassol evocamos Bondía (2002) que nos permite perceber uma experiência do que a toca, do saber da experiência, do que vivencia, sentimento que seria aquele que teria um chamado de responsabilidade ativa no processo de acompanhamento de Voo dos Pássaros. Ao conversarmos com Girassol sobre esse momento, seus olhos nos permitem observar um chamado de presença afetiva que seria para toda a vida. Halbwachs (1990) diz que a memória coletiva do passado é ativa, dinâmica, refeita, reconstruída e no processo de vivências vivificadas de ressignificação, de sentido. A memória de Girassol pode ser entendida como um modo de afirmar o que, de forma amorosa, serão os dias por virem. Inicia, a partir desse momento, sua trajetória de implicação com uma pessoa com a condição de autista anunciada, posteriormente, por uma equipe multiprofissional.

Girassol ainda narra que no seu primeiro contato com Voo dos Pássaros, teve o sentimento que logo teriam afinidade. Afirma “o meu coração não me enganou, passei a cuidar do meu neto e procurar a observá-lo melhor”. Voo dos Pássaros cresceu e iniciou sua trajetória na escola como processo de vivência cotidiana de uma criança que de forma natural entra em uma escola. As aulas remotas foram vivências desafiadora para a família, que se avolumaram com a pandemia, considerando todas os desafios para iniciar uma rotina diferente, agora, com um computador, uma sala virtual com muitas crianças e a falta de habilidade da avó materna para acompanhar esse processo de ensino.

Para Voo dos Pássaros, o modelo remoto não foi de tranquilidade, pois destaca que não gostou das aulas remotas: “a tia não me deixava falar, eu pedia licença e ela não me dava atenção, os colegas falavam e eu não”. Percebemos um momento de angústia de Voo dos Pássaros com relação a sentir a ausência da atenção da professora. Ainda sobre as aulas remotas, o entrevistado acrescenta: “Em 2020, eu estava fazendo o 4º ano, e as minhas aulas eram remotas, tive muita dificuldade com as plataformas que tinha muitas atividades, as aulas eram sem dinâmicas e eram cansativas, não tive rendimento e acabei repetindo o ano”. Por força da mudança de residência da Rússia para o Brasil, e ainda deslocamentos de cidades dentro do Brasil, teve que recomeçar sua adaptação. Esse aspecto pede tempo. Tempo de interação, tempo para conhecer o desconhecido e inusitado, tempo para se adaptar ao novo meio.

Observamos ser um ponto produtor de uma barreira atitudinal e como consequência um desestímulo, que pode gerar um bloqueio na aprendizagem. A fala de Voo dos Pássaros contribui para estabelecer uma (auto)reflexão, pois permite a escola perceber suas práticas, e sua responsabilidade formativas. Para Miranda e Filho (2012, p. 18), é “[...] fundamental pensar a escola como lócus de formação docente, pois é um espaço que possibilita a construção de mudanças nas práticas pedagógicas, no currículo, no ensino e na aprendizagem dos alunos, inclusive daqueles com deficiência [...]”. Ao passo que Voo dos Pássaros narra, sente a ausência de atenção e provoca preocupação da família.

Em outra passagem, ainda na vivência escolar durante a Pandemia da COVID-19 já em outra escola, Voo dos Pássaros afirma: “estou gostando da escola e das professoras”. E continua entusiasmado: “Elas me deixam falar, me escutam”. Esse aspecto da escuta e da atenção que ele não tinha na escola anterior renova sua vontade de estudar e desenvolve seu interesse pelo que ocorre no Brasil e os cuidados com as pessoas. Temos a curiosidade dele com relação a todos os acontecimentos, o tempo todo acompanhava as notícias, mesmo estando longe de sua cidade, pois havia se mudado para outra e a escola fazia questão de informar para a família, amigos e colegas, cada situação que ele vivenciava na Pandemia.

Voo dos Pássaros mostrava grande conhecimento sobre os cuidados frente ao coronavírus. Chegava a enviar nas redes sociais as estatísticas dos jornais, ensinava, por meio de links que ele mesmo criava, como lavar as mãos com sabão, usar álcool gel, e ainda fazia uma alerta para que as pessoas não saíssem de casa e, se saíssem, usassem a máscara. Girassol diz que esse tempo está sendo para ela e para o neto um grande desafio. Voo dos Pássaros organizou vários vídeos onde transmite situações de alerta para a importância da vacina, os cuidados com a utilização do álcool em gel, o uso da máscara e o distanciamento.

Os conteúdos das disciplinas de Ciências, História e Geografia são os que Voo dos Pássaros mais demonstra interesse. O entrevistado explica que, “sou bom em todas as disciplinas, meu foco é história e geografia, em história sou atualizado nas duas Guerras Mundiais que esse mundo já passou”. E acrescenta: “E em geografia, eu sei de todas as bandeiras dos países do mundo e extensão territorial também, e a localização dos países em cada continente”. Instala-se nessa dimensão os ensinamentos de Charlot (2000, p. 80) ao clarificar "[...] chamo relação com o saber o conjunto de imagens, de expectativas e de juízos que concernem ao mesmo tempo ao sentido e à função social do saber e da escola, à disciplina ensinada, à situação de aprendizado e a nós mesmos". Devido sua mãe12 trabalhar em outro município, Voo dos Pássaros é acompanhado por Girassol, sua avó materna, nas atividades escolares e esta afirma que tem bastante dificuldade de trabalhar com as tecnologias.

Girassol afirma que o neto sabe operar com a tecnologia, está estimulado, pois a nova escola desenvolve metodologias ativas e que essas práticas sensíveis e alternativas a ajudam, em conjunto com o neto, quando ela está acompanhando as suas aulas remotas. No entanto, salienta que há dias que Voo dos Pássaros não aceita fazer as atividades da escola, fica bastante irritado e inquieto, não quer obedecer e repisa não querer estudar dessa forma remota, e sim querer voltar para a escola e ficar com os professores e coleguinhas. Quanto o desejo das aulas presenciais, o narrador explica: “[...] eu gosto das aulas presenciais porque eu me identifico mais lá e também eu participo das aulas. E também a interação com os colegas que me faz bem”.

Segundo sua avó materna, um espaço alternativo criado por Voo dos Pássaros, foi baixar jogos no celular, nesses momentos de inquietação com o ensino remoto, embora a família proporcione várias alternativas para uma rotina em casa o que ele não aceita bem, pois tinha sua rotina diária e dentre elas, a ida à escola se constituía na dimensão central. Girassol e a mãe da criança, ficaram muito preocupadas em razão de Voo dos Pássaros não querer desapegar dos jogos. Um dos caminhos foi procurar a equipe multiprofissional13 que, intensificando dos atendimentos, procurou com a criança diminuir o uso do celular, embora tenham observado que ele ficava bastante concentrado, o que repercutia o desinteresse pelas aulas remotas. Trazemos também a importância da presença do pai na modalidade virtual, pois mora em outro país, no estabelecer de um diálogo para o crescimento do filho com a ajuda nas aulas de inglês, que corresponde a uma das disciplinas que Voo dos Pássaros se envolve com motivação.

Ressaltamos que esta experiência com um aluno autista, possibilitou na dimensão formativa, reciprocidade, alteridade e com o foco central no reaprender, por meio do cotidiano da escola, das lições de casa e, em casa, a implicação dos familiares, no caso a avó materna, com os dispositivos utilizados para intermediação entre o institucional e a relação com um aprendizado novo com a criança autista. Ergue um cotidiano com aspectos sensíveis e que precisam ser aprendidos e com base no TEA pede desprendimento, tempo, atenção, cuidado e vontade de superar preconceitos, estigmas e trabalhar para a quebra de preconceitos.

Entendemos que os modos de ouvir, sentir e narrar ligados a uma escuta sensível são lugares de resiliência. Ao abordarmos essas dimensões e decidirmos por esse caminho, percebemos que todo o processo foi oportunizado, o caminho desenhado, os aprendizados e alternativas geraram o tempo de bem estar e felicidade para todos os envolvidos no processo. Os desafios se apresentaram como caminhos, as possibilidades foram desenhadas, o exercício gerenciado e o equilibrar das emoções rumo a fazeres diferentes com novas iniciativas produziu um desejo de compartilhamento da experiência.

Algumas considerações

Este artigo abordou as narrativas de uma criança autista e de sua avó materna e trouxe como discussão central seus reaprendizados escolares durante a Pandemia da COVID-19. No percurso das narrativas, percebemos o que pode contribuir para uma escuta sensível, dispensada a uma criança autista, na vivência do ensino remoto. As narrativas de Voo dos Pássaros e de sua avó apontam lições sobre as singularidades, diversidade e responsabilidade quanto às adequações fundamentais para a quebra de barreira atitudinais. A angústia expressa pela criança autista, quando afirma não gostar de estudar, porque a professora não lhe dá atenção e não o deixa falar, nos convida a refletir sobre as nossas práticas e os cuidados que precisamos ter com cada uma das crianças, em sala, com atenção para as singularidades.

Tendo como base a interpretação das narrativas de Voo dos Pássaros e o que produziu para seus reaprendizados, ressaltamos a pertinência de buscarmos o que cada criança diz do cotidiano escolar, do dia a dia em tempos de produção de reinvenções e experiências vividas com vontade do fazer. O tempo das experiências do cotidiano escolar vivido no cotidiano da escola, no espaço da casa e entre seus colegas, narrados por Voo dos Pássaros, inspira uma dimensão dos modos de fazer no espaço escolar para erguer os fazeres no e com um momento nutrido pela escuta sensível.

Como resultados, apontamos que a família e a escola são instituições que podem nos trazer experiências formativas e colocar no centro das preocupações os desafios vivenciados pela criança autista desde o início da Pandemia e a entrada do ensino remoto. A experiência com as aulas remotas, por ocasião da Covid-19, abre oportunidade para refletir sobre a diversidade com vistas à inclusão e efetivação de direitos da pessoa com deficiência. O tempo das experiências do cotidiano escolar vivido no dia a dia da escola, no espaço da casa e entre seus colegas é aludido neste artigo, na dimensão dos modos de fazer no espaço escolar, para erguer os fazeres no e com um momento nutrido por dores, aflições, distanciamentos, afastamento dos afetos cotidianos o que sugere novos contornos para o momento atual e seu alcance de aprendizados para o hoje.

As narrativas de Voo dos Pássaros e de Girassol possibilitaram, sobretudo, o alerta para a formação por meio de uma pedagogia da escuta em todos os sujeitos envolvidos. Narrar cria espaço de reinvenção, de arte, de rede de colaboração, de vínculos afetivos. É refletir sobre experiências vividas, compartilhar e partilhar, com endereço ao crescimento e convívio da paz, um lugar de motivação, entusiasmo, calma e tranquilidade para seus filhos. Vale ressaltar, que embora as crianças de um modo geral tenham sofrido com a inserção de forma abrupta no ensino remoto, as crianças autistas passaram por questões específicas e que necessitam de um olhar mais atento.

Entendemos que mesmo com a existência da LBI, nº 13.146/15, denominada de Estatuto da Pessoa com Deficiência, é necessária uma ampla discussão sobre a inclusão. A garantia existe, mas não podemos relaxar um só minuto nas questões que envolvem a inclusão de cada indivíduo com deficiência no nosso meio social. Temos que ser sentinelas de nossos direitos, que estão estabelecidos por lei e fazer com que aquelas pessoas que desconhecem o direito das pessoas com deficiência, em especial para a Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), amparados pela Lei nº 12.764/2012.

Referências

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Notas

4 Para Dias (2021, p. 567) “O ensino remoto nos fez ver a diferença profunda de acesso dos alunos a recursos tecnológicos e educacionais. Ora, sabemos que há desigualdades no sistema de ensino público e privado, o que os governos, as instituições e a sociedade precisam fazer é responder ao problema, de forma que se possa superá-lo”.
5 O estudo emergiu da ação de um Projeto do Grupo de Pesquisa em Educação, Memória, (Auto) Biografia e Inclusão (GEPEMABI) da Pós-Graduação em Educação (POSEDUC) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).
6 Paiva Júnior (2020, p. 1), define o Transtorno do Espectro Autista (TEA) como: “uma condição de saúde caracterizada por déficit na comunicação social (socialização e comunicação verbal e não verbal) e comportamento (interesse restrito e movimentos repetitivos). Não há só um, mas muitos subtipos do transtorno. Tão abrangente que se usa o termo “espectro”, pelos vários níveis de comprometimento — há desde pessoas com outras doenças e condições associadas (comorbidades), como deficiência intelectual e epilepsia, até pessoas independentes, com vida comum, algumas nem sabem que são autistas, pois jamais tiveram diagnóstico”.
7 Os nomes dos sujeitos da pesquisa, são nomes fictícios, em razão da reserva de sua privacidade. 8 “As histórias de vida narrativa é, assim, uma mediação de conhecimento de si em sua existencialidade, que oferece à reflexão de seu autor oportunidades de tomada de consciência sobre seus diferentes registros de expressão e de representações de si, assim como sobre as dinâmicas que orientam a formação” (JOSSO, 2007, p. 419).
9 Berenice Piana, mãe de um menino autista, foi a primeira pessoa a conseguir a aprovação de uma lei por meio de iniciativa popular no Brasil. Sua busca por inclusão para o seu filho deu origem à Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012, que definiu o Transtorno do Espectro Autista (TEA) como uma deficiência e ampliou para as pessoas com autismo todos os direitos estabelecidos para essas pessoas no país. Link de acesso:https://autismoerealidade.org.br/2020/03/30/berenice-piana-um-marco-nos-direitos-dos-autistas.
10 O pensamento sócio-histórico, ajuda o pesquisador a ter essa dimensão da relação do singular com a totalidade, do individual com o social (FREITAS, 2002).
11 No início da pandemia Voo dos Pássaros não teve acompanhamento da equipe multidisciplinar, segundo sua avó materna, ele ficou sem as terapias durante o ensino remoto, somente retornou as terapias em setembro de 2020 de forma presencial.
12 A mãe de Voo dos Pássaros tem 36 anos de idade, é médica pediátrica e não participou das entrevistas. A criança autista, mora com sua mãe e com sua avó materna, que é sujeita dessa pesquisa.
13 No início da pandemia Voo dos Pássaros não teve acompanhamento da equipe multidisciplinar, segundo sua avó materna, ele ficou sem as terapias durante o ensino remoto, somente retornou as terapias em setembro de 2020 de forma presencial, a frequência era duas vezes por semana.


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