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O valor da obra literária na formação integral: a questão da (in) disciplina
Cintia Chung Marques Corrêa; Sirlene Marques Pereira
Cintia Chung Marques Corrêa; Sirlene Marques Pereira
O valor da obra literária na formação integral: a questão da (in) disciplina
The value of literary work in full formation:the inssue of (in)discipline
El valor de la obra literaria en la educación integral:la cuestión de la (in)disciplina
Olhar de Professor, vol. 25, pp. 01-20, 2022
Universidade Estadual de Ponta Grossa
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Resumo: Este artigo reflete sobre a importância da literatura como instrumento na formação integral dos sujeitos, além de favorecer a aquisição de conteúdos diversos, com ênfase na questão da (in)disciplina, partindo do encantamento dos professores e dos alunos pela leitura. A pesquisa é qualitativa, de cunho bibliográfico. Utiliza-se a obra O Ateneu (Crônica de saudades) de Raul Pompéia (1863–1895), publicado em 1888, considerado um dos mais renomados romances da literatura brasileira, que nos traz elementos que demonstram o sistema educacional da época. Os desafios vividos ao longo da história da educação são analisados através da contribuição de ideias de autores como Freinet, Durkheim, Hunt e Werneck que corroboram para alcançar o objetivo do artigo. Concluímos que a escola precisa ser estudada a partir da ótica de seu tempo e que o desafio de tornar a educação um valor para o sujeito pode ser o resultado da educação integral.

Palavras-chave: Educação, Literatura, Formação integral, (In)disciplina.

Abstract: This article reflects on the importance of literature as an instrument in the integral formation of subjects, in addition to favoring the acquisition of diverse contents, with emphasis on the issue of (in)discipline, starting from the teachers' and students' enchantment with reading. The research is qualitative, of a bibliographic nature. The work O Ateneu (Crônica de saudades) by Raul Pompéia (1863–1895) has been used, published in 1888, it is considered one of the most renowned novels in Brazilian literature, which brings us elements that demonstrate the educational system of the time. The challenges experienced throughout the history of education are analyzed through the contribution of ideas from authors such as Freinet, Durkheim, Hunt and Werneck that corroborate to achieve the objective of the article. Our conclusion is that the school needs to be studied from the perspective of its time and that the challenge of making education a value for the subject can be the result of integral education.

Keywords: Education, Literature, Integral formation, (In)discipline.

Resumen: Este artículo reflexiona sobre la importancia de la literatura como instrumento en la formación integral de los sujetos, además de favorecer la adquisición de contenidos diversos, con énfasis en la cuestión de la (in)disciplina, a partir del encanto de profesores y alumnos por la lectura. La investigación es cualitativa, de carácter bibliográfico. Se utiliza la obra “O Ateneu (Crônica de saudades)” de Raul Pompéia (1863–1895), publicada en 1888, considerada una de las novelas más renombradas de la literatura brasileña, que nos trae elementos que evidencian el sistema educativo de la época. Se analizan los desafíos vividos a lo largo de la historia de la educación a través del aporte de ideas de autores como Freinet, Durkheim, Hunt y Werneck que corroboran para lograr el objetivo del artículo. Concluimos que la escuela necesita ser estudiada desde la perspectiva de su tiempo y que el desafío de hacer de la educación un valor para el sujeto puede ser fruto de la educación integral.

Palabras clave: Educación, Literatura, Formación integral, (In)disciplina.

Carátula del artículo

Artigos

O valor da obra literária na formação integral: a questão da (in) disciplina

The value of literary work in full formation:the inssue of (in)discipline

El valor de la obra literaria en la educación integral:la cuestión de la (in)disciplina

Cintia Chung Marques Corrêa
Universidade Católica de Petrópolis, Brasil
Sirlene Marques Pereira
Rede Municipal de Ensino de Petrópolis, Brasil
Olhar de Professor, vol. 25, pp. 01-20, 2022
Universidade Estadual de Ponta Grossa

Recepción: 16 Septiembre 2022

Aprobación: 27 Octubre 2022

Introdução

A leitura pode nos levar para espaços mágicos e proporcionar experiências significativas a partir da relação estabelecida entre o leitor e o texto. Assim, quando Garcia (2020, p. 13) descreve o seu trabalho em rodas de leitura com adultos alfabetizados, registra que “Na inter-relação de leitura e formação do leitor está implícita a construção da identidade. Isso porque, o processo de formação do leitor incide na subjetividade de cada leitor – ouvinte”. Portanto, ler não é uma atividade escolar mecânica e descontextualizada, mas é a oportunidade de dar sentido à vida e transformá-la para ser melhor, à medida que o sujeito se conhece.

Por sua vez, Manguel descreve a relação da leitura com o mundo e afirma que “Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial” (1997, p. 20). Em outras palavras, o ato de ler pode contribuir para a formação de sujeitos reflexivos e críticos capazes de construir sua identidade e colaborar para a construção de uma sociedade mais humanizada.

A partir da pesquisa qualitativa de cunho bibliográfico, buscamos refletir sobre a importância do texto literário, no cotidiano escolar, para a formação integral dos alunos, com o foco na questão da (in) disciplina. Identificamos alguns aspectos históricos da Educação Brasileira do final do século XIX, impressos na obra O Ateneu, de Raul Pompéia, escrita em 1888.

Já o pensador francês Certeau (2006, p. 10) considera as práticas cotidianas como o ponto principal das relações sociais e afirma que é importante “tomar em conta a experiência do outro”. O contexto social nos traz diferentes modos de ver o mundo, valores e contravalores, hábitos, novos saberes e experiências. São sujeitos influenciando os outros e sendo influenciados; as mudanças na sociedade acontecem independentemente da vontade do indivíduo e influenciam o imaginário coletivo.

Émily Durkheim (1858-1917), considerado um dos pais da sociologia, afirma que esta ciência precisa acompanhar as mudanças da sociedade e acrescenta que a sua obra demonstra que a educação é um fato eminentemente social e, como tal, sofre mudanças ao longo do tempo.

As ideias dos autores Freinet, Durkheim, Hunt e Werneck corroboram para alcançar o objetivo do artigo que vem dividido em quatro tópicos: “Introdução”, “A literatura e a formação integral na escola, o laboratório da vida real”, A literatura e a “(in) disciplina na escola” e “Conclusões finais”

A literatura e a formação integral na escola, o laboratório da vida real

Ouvimos professores de várias disciplinas dizerem que os alunos não conseguem ler os textos sozinhos, que não entendem os enunciados das questões e que não conseguem extrair as ideias principais do texto para fazerem uma análise crítica. Faltam argumentos aos alunos para o debate. Além disso, temos o registro do fracasso escolar nas avaliações institucionais, situação amplamente divulgada pela mídia. Ao lecionar para o ensino médio, encontramos alunos que podemos classificar como “analfabetos funcionais”, incapazes de interpretar e redigir textos. (Necessário definir se Nós ou Eu, verificar em todo o artigo)

Atualmente, temos um cenário onde a escola é vista com descrédito pela sociedade e onde há o desrespeito pelo outro e a violência como marcas. Infelizmente, presenciamos agressões físicas de alunos para com outros alunos e para com professores e demais funcionários. São situações amplamente divulgadas pela mídia.

O que a sociedade espera da educação contemporânea?

Podemos pensar que compreender e interpretar são habilidades necessárias para a aquisição de conhecimentos e para conduzir a própria vida a partir de valores éticos hierarquizados pelo sujeito. O conceito de valor desafia o método científico. O valor não pode ser quantificado, nem medido. A razão conhece as ideias, mas não o valor. Para Werneck (1996, p. 23), “na apreensão, o conhecimento intelectual conhece o ente, e a sensibilidade o valor”. A autora nos mostra que a sensibilidade precisa ser desenvolvida assim como a razão. É um processo que acontece ao longo da vida.

Os textos literários são instrumentos que, se trabalhados adequadamente, podem auxiliar na vivência e na reflexão comportamental, emocional e social. Segundo Werneck (1996), à medida em que a história é lida ou contada, estimula-se a sensibilidade e a possibilidade da apreensão do valor ético. Uma aula expositiva sobre a exclusão social, na teoria, poderá conceituar, definir, contextualizar, processo que, neste caso, se dá pela razão, mas a sensibilidade possibilita a apreensão do valor e pode contribuir para a sua incorporação na vida do sujeito.

Legrand (2010, p. 19), em seu livro, intitulado “Célestin Freinet” corrobora na defesa da importância do ato de ler, quando afirma que Freinet “dá pleno sentido à leitura e que a considerava um instrumento que poderia contribuir para aprofundar os temas estudados, melhorar a expressão oral, para o divertimento e para o educando ser um sujeito ativo em seu meio”, além de mostrar que “Ler é procurar o texto de que se tem necessidade, mergulhando-nos na fantasia” (p. 19). Se foi estabelecida a necessidade, estamos nos referindo ao valor e melhor se acontecer a partir da fantasia, do prazer e do encantamento.

A palavra literatura vem do latim “litteratura”, littera que significa “letra”. No início, referia-se ao ensino e ao aprendizado das primeiras letras e, com o passar do tempo, passou a designar uma forma de manifestação artística: as palavras sendo usadas com a finalidade estética. Literatura é arte e busca tocar a sensibilidade do indivíduo, podendo auxiliar a tornar-se bom leitor do mundo, com a competência de ser o protagonista da escrita de sua vida e a possibilidade de ser agente transformador do seu espaço social. Buscamos em Paulo Freire (2011, p. 19) a reflexão de que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Entendemos que a compreensão, por meio de uma leitura crítica pode contribuir para se estabelecer a relação entre o texto e o contexto – palavra escrita e mundo – elementos primordiais para a formação de cidadão crítico, capaz de transformar a realidade. Desse modo, Freire nos leva a refletir sobre a ligação entre o cotidiano vivido pelo educando e o dia a dia da escola. Através da leitura, o discente poderá ler e interpretar o mundo de maneira singular e ser o protagonista de sua história e de mudanças sociais.

A leitura pode trazer a discussão de assuntos e de fatos, mediante diferentes olhares, proporcionando o exercício da análise crítica de “verdades sustentadas” por outro sujeito ou por um grupo social. Zilberman nos aponta que o uso da literatura na escola pode contribuir para com a formação integral dos alunos e que,

Preservar as relações entre a literatura e a escola, ou o uso do livro em sala de aula, decorre de ambas compartilharem um aspecto em comum: a natureza formativa. De fato, tanto a obra de ficção como a instituição de ensino estão voltadas à formação do indivíduo ao qual se dirigem. Embora se trate de produções oriundas de necessidades sociais que explicam e legitimam seu funcionamento, sua atuação sobre o recebedor é sempre ativa e dinâmica, de modo que este não permanece indiferente a seus efeitos (ZILBERMAN, 2003, p. 25).

O convívio social exige que os indivíduos se envolvam em ações comuns a partir dos objetivos traçados pelo grupo e a execução das mesmas seja ordenada com a participação de seus membros. Não basta estarem apenas lado a lado, é necessário que a prática atenda às normas combinadas.

O indivíduo adulto pode sofrer sanções se deixar de cumprir obrigações sociais. Poderá ser multado ao não respeitar os sinais de trânsito ao conduzir o seu automóvel, poderá ter a água e a luz cortadas se não estiver com os pagamentos em dia, deverá andar vestido nos locais públicos sob pena de ser preso.

Na escola, vestir o uniforme, chegar no horário à escola, fazer os trabalhos escolares, esperar a sua vez de falar em sala de aula, usar o celular quando o professor autorizar, ter um comportamento adequado à sua permanência na escola são condições para que haja um ambiente de respeito mútuo entre seus integrantes e servirá como experiência para a sua vida futura como cidadão.

Durkheim (2011, p. 46) acredita que não existe “uma educação ideal, perfeita, válida sem distinção para todos os homens” e acrescenta que “a educação varia muito de acordo com os tempos e os países”. De acordo com a visão de mundo do grupo social, mudam os usos e os costumes, mas não podem mudar os valores éticos, o que será analisado mais à frente.

O mesmo Durkheim (2011, p.47) traz a indagação: “De que adiantaria imaginar uma educação que seria fatal para a sociedade que a colocasse em prática?” e diz que há “as necessidades inelutáveis que é impossível abstrair”, ou seja, a educação precisa acompanhar a ideologia do seu espaço e de sua época, preparando o melhor possível o sujeito para vencer os desafios do mundo atual e real. Portanto, a avaliação da educação, no passado, depende de olharmos pela lente dos que viveram naquela época. E, hoje, buscar respostas na história para não repetir os mesmos enganos. Podemos pensar que o “telhado” de nossa escola é de “vidro”. Como seremos avaliados no futuro, apesar de nossas boas intenções de realizarmos uma educação de qualidade assim como feito no passado?

A leitura pode contribuir para que o sujeito dê um novo significado à sua vida a partir de um novo olhar para o mundo como lemos no texto de Resende.

As leituras podem, então, suscitar modos de reinvenção da vida pelo dimensionamento da consciência. Mesmo que profundamente inquietado com preocupações metafísicas e do plano imediatamente histórico e social, o olhar estético não se negará às possibilidades de sonhar, de reencantar-se. Isto porque a arte literária ensina ao ser humano visões relativas sobre si e sobre a realidade, que se revela ampla e imprevisível (RESENDE apud SERRA, 2001, p. 81).

O que caracteriza um texto literário é o uso que o autor faz da palavra e quando a sua intenção não é a de informar, não é a de usar as palavras em seu sentido denotativo, ou seja, em seu sentido próprio, em seu sentido usual. No texto literário, o autor pode inventar, pode criar fatos, personagens, espaços e tempo, não precisa prender-se à realidade. Utiliza a palavra no sentido conotativo, com um sentido especial entendido no contexto, trabalha com a imaginação e a palavra permite diferentes interpretações.

Os contos de fadas, os mitos, as lendas, as narrativas que surgem da tradição oral, assim como as fábulas, trazem histórias que mexem com a imaginação e trazem ideias que podem ser pensadas à luz dos valores éticos. Reflexões sobre pontos de vista diferentes e teorias de autores diversos irão desenhar o caminho a ser percorrido neste trabalho de investigação sobre a importância das obras literárias para a formação integral a ser desenvolvida na educação formal.

O ser humano possui senso ético. Constantemente, avalia e julga suas ações se são boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas. O conceito de valor segundo Werneck (1996, p. 16), é o que serve “[...] para designar o que de qualquer modo vale para o homem”. O valor é o que atende a uma necessidade do sujeito: saúde, sagrado e outros. Particularmente, consideramos que levar os alunos a considerarem a educação como um valor é um desafio. Hessen nos apresenta a Teoria dos Valores e afirma que:

Só conhecemos os homens quando conhecemos os critérios de valoração a que eles obedecem; é destes que dependem, em última análise, o seu caráter e o seu comportamento em face das situações da vida. Mas, precisamente, para podermos apreciar as valorações dos outros, é preciso possuirmos, antes de mais nada, um conhecimento profundo e largo dos nossos próprios valores e da sua escala (1974, p. 24).

No processo de formação dos educandos, a escola pode contribuir para a busca, a apreensão e o escalonamento de valores, de modo a satisfazer as necessidades do indivíduo tendo como referência a garantia da dignidade da pessoa humana.

Deste modo, podemos pensar que a escola não tem o papel do adestramento, mas a tarefa de, em seu dia a dia, buscar a formação de bons hábitos que poderão levar à formação integral das novas gerações. E, por meio da reflexão crítica, contribuir para a formação dos cidadãos.

As histórias, por meio do encantamento, podem favorecer as relações interpessoais, contribuir para a resolução de conflitos pessoais e do grupo, auxiliar na administração das emoções e proporcionarem momentos de diversão e prazer. O psicólogo infantil Bruno Bettelheim nos diz que,

Enquanto diverte a criança, o conto de fadas a esclarece sobre si mesma, e favorece o desenvolvimento de sua personalidade. Oferece significado em tantos níveis diferentes, e enriquece a existência da criança de tantos modos que nenhum livro pode fazer justiça à multidão e diversidade de contribuições que esses contos dão à vida da criança (1980, p. 20).

O convívio social nos traz questionamentos e apresenta situações que, ao pensar em educação, nos levam à questão dos valores éticos e em como desenvolver o tema de forma eficiente e contínua. A literatura pode oferecer recursos para este trabalho, uma questão que pode ser discutida, também, na formação inicial e continuada do professor.

A sociedade espera que a escola prepare os alunos para a vida. É uma ideia ampla e com sentido polissêmico, pois a maneira de ver essa preparação pode ser diferente, ou até mesmo, divergente. O que de fato se percebe, é a necessidade de uma sociedade mais humana e mais solidária.

O artigo “Bem-estar no ambiente de trabalho: a espiritualidade como diferencial” (MENEGAT, SARMENTO, DIAZ) apresenta uma descrição da gestão da espiritualidade nas organizações e percebemos a necessidade de ética no mundo adulto do trabalho, podendo afirmar que devemos começar este movimento desde cedo, nas mentes e corações infantis e juvenis.

A espiritualidade no trabalho consiste também em usar os próprios sentidos, fazendo da pessoa um observador mais ponderado, respeitando limites pessoais e institucionais. A vivência da espiritualidade contribui para estimular as pessoas, equipes e organizações a identificar e praticar ações que as tornem mais humanas. O trabalho com espiritualidade traz vitalidade e energia, em termos individuais e organizacionais. O trabalho com espiritualidade traz equilíbrio para a vida e fornece uma âncora tanto em épocas de tranquilidade quanto de adversidade. Espiritualidade no trabalho é saber conviver com a diversidade generalizada, desde o ponto de vista das ideias até o das emoções (2014, p. 135).

Os autores registram a diferença entre a espiritualidade e a prática confessional. A primeira é mais abrangente e independe do credo professado ou não. O texto nos remete ao tema da humanização, num tempo em que prevalece o materialismo.

A concepção de mundo varia de acordo com a época vivida e, assim também, varia o modo como essa realidade é expressa. Em cada período, encontramos obras com ideias similares, que espelham a vida social, o que em literatura é chamado de “estilo de época”, ou seja, o encontro de determinadas características que refletem o comportamento das pessoas nos costumes e na arte. A literatura é uma manifestação artística que trabalha com a palavra e, nela, encontra-se a posição do artista diante da realidade e do pensamento humano coletivo, percebendo-se a ideologia do autor e de um período histórico e espacial.

A palavra integral, aqui, será entendida como “completa, total, a que não falta nada essencial” (HOUAISS, 2001, p. 1630). Conforme as autoras Coelho e Hora (2013, p. 205), a “educação integral pressupõe a constituição de uma educação para a formação completa do ser humano, o que leva em conta seus aspectos físicos, cognitivo-intelectuais, éticos e estéticos”. A pessoa precisa desenvolver-se como indivíduo para interagir com o coletivo sem perder a sua identidade. “Tempo integral” é quando a escola prevê as alternativas e os cuidados ao longo do dia, ocupando os dois turnos dos alunos, diferente do conceito de formação integral do sujeito.

O teórico Morgado (2005, p. 13) nos chama a atenção para os desafios educativos no contexto atual ao afirmar que “Vivemos um momento de transição muito complexo, num quadro social bem diferente das sociedades ordenadas e previsíveis que conhecemos até há relativamente pouco tempo”. As novas demandas educacionais trazem a exigência de traçar novos objetivos, conceitos e metodologias. Mudanças significativas acontecem fora dos muros da escola e isso talvez seja um indicador de que a formação docente precisa acompanhar este movimento, trazendo a universidade, a discussão das questões que se apresentam.

A teórica Nilma Gonçalves Lacerda, doutora em literatura brasileira, autora de livros para crianças e jovens e colaboradora da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), entidade brasileira sem fins lucrativos que premia, anualmente, em dezoito categorias, os melhores livros deste gênero, escreveu sobre a importância do livro e afirma que “Num país como o nosso, [...], construído na desigualdade social e nas mentiras políticas, o bom livro para a criança e para o jovem é, não tenho dúvida, um projeto de nação” (LACERDA, 2001, apud SERRA 2001, p. 40).

Estas palavras nos remetem à responsabilidade do trabalho docente quanto à apresentação de textos literários de qualidade, cujo conteúdo seja significativo para que os alunos possam interpretar discursos e analisar posturas e ações como cidadãos críticos. O hábito da leitura pode facilitar a aquisição de conhecimentos e a sua transmissão. A “bagagem” de cada docente é peculiar e importante e encontrar ou não afinidades para com o texto, pode ser um debate interessante. Mostrar não impõe, ensina que temos diferentes possibilidades de escolha e que precisamos conhecer nossas preferências.

O aluno pode compreender as influências familiares, temporais e espaciais onde está inserido e posicionar-se. Manguel destaca a importância da leitura na formação acadêmica e social dos indivíduos ao afirmar que

Os métodos pelos quais aprendemos a ler não só encarnam as convenções de nossa sociedade em relação à alfabetização - a canalização da informação, as hierarquias de conhecimento e poder-, como também determinam e limitam as formas pelas quais nossa capacidade de ler é posta em uso (1997, p. 85).

Ao discutir a obra infantil e a relação entre a pesquisa científica e o valor da leitura a partir da visão dos acadêmicos, Hunt diz que,

Do mesmo modo, para muitos acadêmicos, a literatura infantil (que, como veremos, se define exclusivamente em termos de um público que não pode ser definido com precisão) não é um assunto. Seu próprio tema parece desqualificá-la diante da consideração adulta. Afinal, ela é simples, efêmera, acessível e destinada a um público definido como inexperiente e imaturo. Não é, como certa vez um professor universitário me disse: “um assunto adequado ao estudo acadêmico”. Para o leigo, vincular a cálida e amigável atividade de educar e divertir crianças a qualquer espécie de teoria é como destruir esse prazer (2010, p. 27-28).

Cabe, então, o estudo aprofundado da questão, ou seja, a pesquisa sobre o uso da literatura na escola para a formação integral do aluno, adquirindo um sentido mais profundo e mais profissional. A pesquisa acadêmica pode trazer este “start” para que este assunto seja visto por outro prisma e passe a ser objeto de estudo com mais frequência. No caso deste artigo, será focalizada na disciplina ou na falta dela.

A obra literária é o resultado da imaginação e da criatividade do seu criador e, por isso, pode apresentar personagens e situações que não existem na vida real, mas que podem levar à reflexão sobre aspectos diversos da vida. E, quando séculos nos separam de textos escritos no passado e, ainda assim, nós nos reconhecemos, podemos dizer que é um clássico da literatura, lido ao longo das gerações porque os sentimentos e as emoções fazem parte do ser humano desde a sua criação.

A literatura e a (in) disciplina na escola

Podemos afirmar que, atualmente na escola, a falta de disciplina em algumas instituições escolares é um grande desafio. Alguns docentes perderam a sua autoridade e a escola tornou-se um lugar onde vive-se a ficção de que o indivíduo tudo pode e a violência ocupa o seu espaço, amedrontando a todos.

O espaço escolar pode ser considerado um laboratório da vivência social adulta em que as crianças e os jovens terão, por meio de experiências, reflexões sobre a vida. Assim, ao cumprirem as tarefas, no cotidiano escolar, de maneira natural, os educandos têm a oportunidade de vivenciar situações que envolvem o coletivo num ambiente em que os fatos são acompanhados e pensados, preparando-os para o exercício da cidadania. À medida em que se eliminam as exigências discentes, talvez se perca a oportunidade de preparar uma geração com mais empatia, solidariedade e responsabilidade.

Ao lermos alguns textos de Célestin Freinet (1896 - 1966), verificamos que ele expressa seus pensamentos através da linguagem figurada, estabelecendo relações que favorecem o entendimento de suas ideias de maneira simples e clara. Legrand seleciona o texto de Freinet “Fazer brilhar o sol” para conversar com os leitores sobre a necessidade da modernização da escola, acompanhando as mudanças. As palavras adquirem sentido para os leitores que conseguem perceber, nas cenas descritas em suas histórias, que não se pode ficar preso a um passado por mais glorioso que seja e nem que ações bem-sucedidas o sejam novamente com outros sujeitos, em novos tempos e espaços.

O tempo passa; a vida dá a você os seus ensinamentos e você fica imóvel e paralisado, como se a sua sorte estivesse fora dos destinos que você pretende preparar. Você parece, hoje, o camponês que teima em reconstruir o muro dos seus olivais abandonados, sob pretexto de que antigamente o alinhamento das pedras era sinal de opulência; ou o outro que continua a carregar o burro, todas as manhãs, para ir à fazenda distante que há muito tempo está improdutiva. É como as almas penadas desamparadas, que vagueiam em redor dos domínios familiares cheias de nostalgia por um passado que não voltará mais (2010, p. 16).

Outro texto de Freinet intitulado “O cavalo não está com sede: então troquem a água do tanque!”, encontrado no livro de Legrand (2010) pode nos levar a pensar em ações docentes para lidar com a situação da disciplina de maneira refletida, destacando as suas vantagens. Talvez possamos discutir a questão de (re) significar a educação nos fatos diários do dia a dia como limites e normas para uma boa convivência.

A socialização envolve a aquisição de conhecimentos, de hábitos, de habilidades e de valores éticos. É necessário adquirir comportamentos compatíveis com os costumes, os padrões e a valoração adotados pela sociedade. Esta ideia pode nos levar à conclusão de que a escola precisa conhecer os seus educandos e de que necessita atribuir significados aos ensinamentos passados.

Legrand nos convida a conhecer o texto de Freinet “O cavalo não está com sede: então troquem a água do tanque!” que nos conta a história de um tratador de cavalos que tinha a ordem de dar água aos animais naquele momento e que, apesar dos seus esforços, o cavalo não bebeu.

Nós nos esquecemos de um capítulo na história do cavalo que não está com sede. No momento preciso em que o rapaz mergulhava na água do tanque o focinho do cavalo-que-não está-com-sede, e que, puf!, o sopro obstinado do animal espirrava a água em cascata em volta da fonte, surgiu um homem que declarou sentenciosamente: — Mas... então, troquem a água do tanque! Isso é feito imediatamente, pois — ordem das autoridades — era preciso obrigar aquele cavalo- que não- está-com-sede a beber. Trabalho perdido. O cavalo não estava com sede nem de água turva, nem de água limpa. Ele... não estava... com... sede! E deixou isso bem claro quando arrancou a rédea das mãos do jovem tratador e partiu trotando para o campo de luzerna (2010, p. 18).

A sociedade do conhecimento de hoje, diferente da “sociedade industrial” da época de Durkheim, espera uma nova abordagem da educação. Além da transmissão de informações, espera que sejam desenvolvidas habilidades e competências para usá-las. O processo educativo permanente deve ser um objetivo presente no trabalho do professor de hoje; estar aberto às mudanças, numa atitude interdisciplinar, com o olhar crítico voltado para a realidade que envolve a atualidade e aceitar e trabalhar para vencer o desafio de tornar a escola uma necessidade para os estudantes.

Se o aluno não tem sede de conhecimentos, nem qualquer apetite pelo trabalho que você lhe apresenta, também será trabalho perdido "enfiar-lhe" nos ouvidos as demonstrações mais eloquentes. Seria como falar com um surdo. Você pode elogiar, acariciar, prometer ou bater... o cavalo não está com sede! E cuidado: com essa insistência ou essa autoridade bruta, você corre o risco de suscitar nos alunos uma espécie de aversão fisiológica pelo alimento intelectual, e de bloquear, talvez para sempre, os caminhos reais que levam às profundidades fecundas do ser (FREINET apud LEGRAND, 2010, p. 19).

A disciplina é necessária, mas os discentes precisam entender a razão do que deve ser feito. Assim, por exemplo, ao exigir o uso do uniforme, pode-se apresentar os motivos. Economia de roupa que pode usar para outras situações fora da escola e de tempo, não tendo de escolher o que usaria, portanto, praticidade; sentimento de pertença a uma instituição; igualdade, afinal, não deveria ser um desfile de modas onde usariam roupas de grife, mais ou menos caras; pode remeter aos estudantes, o sentimento do local de trabalho, como um trabalhador faz ao colocar o seu crachá. E os responsáveis podem ajudar a escola, à medida em que entendem esta regra. Assim, inicia-se o processo de conhecimento e de aceitação dos deveres. Como adultos, provavelmente, terão mais facilidade de aceitar as normas sociais a partir da reflexão crítica, de forma consciente.

Se o professor for um leitor capaz de contagiar outros leitores, conhecer a literatura, autores, se souber distinguir os textos quanto à qualidade literária, souber avaliar adaptações dos clássicos e conduzir as ações de maneira ética na sala de aula a partir do seu exemplo, podemos dizer que é o líder de um grupo que poderá fazer a diferença na sociedade. Seria como se jogássemos uma pedra na água e fossem sendo formados sucessivos círculos, como ondas magnéticas de ética. Cada um pode reproduzir essas experiências vividas na escola nos ambientes que frequenta e podem acontecer mudanças nas pessoas para melhor. É um processo lento e gradativo.

A obra literária pode ser usada como uma fonte de pesquisa com relação a fatos históricos, afinal seus autores interpretam a realidade de acordo com a ideologia do momento presente. Santos e Marchi citam “O Ateneu” como um “documento histórico” e trazem o pensamento de Bourdieu (1996) sinalizando que

[...] o romance de Pompéia, ao retratar (tal como o realismo funcionalista o faria) a vida em um colégio – que muitos supõem ter sido por ele mesmo frequentado –, permite compreender o que Bourdieu (1996) enuncia [...] a literatura pode, por vezes, dizer mais sobre o mundo social do que muitos estudos com pretensão científica (2013, p. 341).

O momento histórico está gravado na produção artística de cada tempo e lugar. Apesar das diferenças de classes sociais e de interesses, todos participam do cotidiano social. O artista pode transcrever ou criar a realidade e transmitir seus sentimentos e ideias acerca do mundo real. Dessa forma, podemos identificar, na literatura de determinada época, aspectos históricos que podem influenciar o modo de pensar dos artistas. Hoje, através de pinturas, esculturas e livros, podemos conhecer outras épocas a partir da interpretação da realidade de seus autores. Ao ler esta obra com os alunos, pode-se discutir o conceito de disciplina ao longo dos anos e como a sociedade influencia as ações da escola e como esta pode transformar os sujeitos para estes transformarem a sociedade, além de despertar o respeito para com os protagonistas do passado, aprender com eles e ter a vontade de fazer melhor, preparando-se para isso.

O cotidiano assume significados de acordo com os indivíduos e o seu meio. Werneck nos diz que,

A ideologia é, numa perspectiva, considerada como estrutura, isto é, no sentido em que como um conjunto de regras determinaria a organização e o funcionamento de imagens e conceitos. Os elementos do inconsciente vão pela sua relação de interdependentes formar um todo significante que será a ideologia. Nesta performance estariam revelando a própria organização psíquica humana, o modo pelo qual funciona e se desenvolve seu sistema de pensar (1989, p. 31-32).

O tema disciplina na escola pode nos remeter à ideia de controle e de falta de liberdade, esta entendida, neste estudo, como sendo o resultado de uma conquista diária, um amadurecimento na medida em que se somam experiências de vida. Nas palavras do escritor Luís Fernando Verissimo, este estado nos é descrito em seu texto “Liberdade”.

Poder-se-ia dizer que livre, livre mesmo, é quem decide de uma hora para outra que naquela noite quer jantar em Paris e pega um avião. Mas mesmo este depende de estar com o passaporte em dia e encontrar lugar na primeira classe. E nunca escapará da dura realidade de que só chegará a Paris para o almoço do dia seguinte. O planeta tem seus protocolos (2011, p. 28).

Muitas vezes, nos deparamos com situações onde as pessoas se acham donas da verdade e livres para agirem como bem entenderem, sem a preocupação para com a visão do outro. Desde cedo, a criança deveria lidar com os limites e as consequências da falta deles. “O planeta tem seus protocolos” nos remete a essa realidade que muitos adultos não conseguem administrar. As atitudes de intolerância no trânsito, passar à frente nas filas de banco, o beber antes de dirigir, o uso do celular em locais proibidos, a falta de aceitação de opiniões diferentes e tantos outros exemplos de desrespeito à convivência social nos fazem refletir sobre a necessidade da educação voltada para os valores éticos, onde a escola pode servir como espaço para que as crianças aprendam a lidar com as suas vontades e necessidades em convívio com as dos outros, com a percepção de que é uma liberdade condicionada a fatores que, geralmente, não dependem da vontade dos sujeitos.

Atualmente, professores e alunos sinalizam a dificuldade que se encontra para que possa acontecer o desenvolvimento do processo pedagógico dentro do que se possa nomear como respeito para que as relações interpessoais sejam perpassadas pela cordialidade e que possam coexistir no mesmo espaço diferentes opiniões e maneiras de pensar a prática escolar. Não se trata da exigência de uma obediência cega, onde impera o autoritarismo do poder com a submissão de alguns, mas onde haja diálogo e as regras e normas surjam do entendimento das partes que é para uma melhor organização do trabalho a ser desenvolvido.

A disciplina, na escola, é uma questão que suscita polêmica, debate, discussão e atenção não somente dos profissionais da educação, mas da sociedade em geral. Destacamos a ideia do respeito às diferenças e da organização do espaço escolar. Contribuir para que nossos alunos tenham bons hábitos, adequação de conduta aos espaços, tempo e propostas de ação talvez seja a grande missão.

Desde cedo, deveriam ser conscientes de seus direitos e deveres para serem adultos livres, com responsabilidade, autônomos e auto disciplinados, para que a lei não venha a impor regras de bom convívio que não estejam internalizadas.

A obra O Ateneu (Crônica de saudades), publicada em folhetins do jornal Gazeta de Notícias, a partir de abril de 1988 é um romance de memórias narrado em primeira pessoa. Sérgio, o narrador, reconstrói uma parte de seu passado, os dois anos vividos em um internato para meninos provenientes de respeitáveis famílias cariocas e até de outros estados, o Colégio Ateneu. Era considerado um excelente colégio dirigido por um austero e reconhecido pedagogo Aristarco Argolo de Ramos. Sérgio chega a esse ambiente com onze anos e a aparência de nobre pedagogia do Ateneu vai demonstrar a ele, um mundo hostil e desconhecido.

No início da narrativa, seu pai lhe diz proféticas palavras: “Vais encontrar o mundo [...]. Coragem para a luta.” (POMPÉIA, 1997, p. 11). O internato reflete a sociedade. Sérgio irá verificar o verdadeiro significado da advertência paterna durante os dois anos de estudo no internato e estará em contato com o egoísmo, a injustiça, a ambição e a hipocrisia. Assim, o espaço do colégio torna-se uma espécie de microcosmo da sociedade, como nos diz o professor Cláudio, no capítulo XI, quando fala sobre educação e discute a questão do internato com o comentário de que

É uma organização imperfeita, aprendizagem de corrupção, ocasião de contato com indivíduos de toda origem? O mestre é a tirania, a injustiça, o terror? O merecimento não tem cotação, cobrejam as linhas sinuosas da indignidade, aprova-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, a maledicência, a calúnia, oprimem os prediletos do favoritismo, oprimem os maiores, os mais fortes, abundam as seduções perversas, triunfam as audácias dos nulos? A reclusão exacerba as tendências ingênitas? Tanto melhor: é a escola da sociedade (POMPÉIA, 1997, p. 130).

A partir da segunda metade do século XIX, as sociedades passam por transformações significativas. O progresso industrial e científico traz as discussões acerca da relação entre o capital e o trabalho. O subjetivismo e o idealismo românticos são substituídos pelo objetivismo e pelo materialismo. As ideias dominantes passam a ser o positivismo de Augusto Comte, preocupado com o fato e com a defesa do cientificismo no pensamento filosófico e a conciliação entre “ordem e progresso” (a expressão utilizada na bandeira republicana do Brasil); o socialismo científico de Karl Marx e Friedrich Engels, a partir do “Manifesto Comunista”, em 1848, que define o materialismo histórico e a luta de classes; o evolucionismo de Charles Darwin.

O Brasil passa por mudanças no plano econômico, político e social entre 1850 e 1900. A campanha abolicionista cresceu, a Guerra do Paraguai, a fundação do Partido Republicano, a decadência da Monarquia, a Lei Áurea. Surgem novas necessidades materiais. O trabalho escravo é substituído pelos imigrantes europeus que chegam para trabalhar na lavoura cafeeira, surgindo uma nova economia, voltada para o mercado externo e livre da estrutura colonialista.

Pompéia matricula-se na Faculdade de Direito, participa ativamente da campanha abolicionista e engaja-se na causa republicana. Aos vinte e cinco anos, publica a sua obra “O Ateneu” imbuído da ideologia social da época. Possui uma vida agitada, envolve-se em várias polêmicas, cria inimizades e passa por crises depressivas. Abandonado pelos amigos, caluniado nos meios jornalísticos e intelectuais, suicida-se em 1895.

Apesar de sua personalidade ser conturbada, “O Ateneu”, a partir de sua visão, mostra as deficiências da educação de sua época, que acompanha o cenário do período histórico brasileiro. Buscamos passagens que revelassem as práticas educativas quanto à disciplina no contexto histórico da obra escolhida.

Quando se pensa em disciplina na escola, o objetivo não deve ser o de não incomodar o professor, mas o de criar bons hábitos nos discentes. A concentração, a responsabilidade em cumprir as tarefas, a preocupação de não atrapalhar o outro, a vontade de fazer bem-feito, o hábito de estudar são características que podem impulsionar os alunos na vida acadêmica e depois, quando adultos, em suas vidas nos aspectos pessoal e profissional.

Na escola, o tom paternalista e assistencial muitas vezes dado às situações pode criar uma falsa ideia da realidade. Assim, o aluno falta a uma avaliação sem uma justificativa e uma segunda ou terceira chamada são oferecidas. No entanto, se chegar um minuto atrasado para realizar uma prova de concurso, é impedido de entrar.

Com a preocupação de avaliar o desenvolvimento humano de um país e percebendo a insuficiência do referencial PIB per capita, o Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento criou o IDH – Indicador de Desenvolvimento Humano (em inglês HDI – Human Development Index). [...] Este procedimento mostra a preocupação geral com a avaliação e a contradição frequente entre o desenvolvimento promovido pela educação e usos e costumes, tidos, muitas vezes, como práticas culturais que precisam ser superadas para que se obtenha o aprimoramento desejado (WERNECK, 2003, p. 67).

De acordo com esta ideia, a cultura de um povo passa a ser avaliada de acordo com o respeito e a justiça que dedicam à pessoa humana. Percebemos que, quando não há cuidado para com a saúde, por exemplo, uma população que vive com o esgoto aberto, ao invés de ser canalizado e tratado, não se pode dizer que o valor da vida está em primeiro lugar. Para que uma cultura tenha a pessoa humana como centro de interesse, o indivíduo precisa ser educado desde cedo nesta linha de pensamento, neste sentir, neste agir. Isso tudo nos leva a concluir que os direitos humanos devem ser respeitados acima de quaisquer outros interesses, conduta que precisa ser incentivada na escola através de bons hábitos.

Podemos dizer que a disciplina ocupa um lugar importante na vida dos sujeitos, podendo ser o disparador, ainda na infância, para uma vida compromissada para com o exercício da cidadania.

Maar (2003, p. 209) busca a reflexão sobre a questão da autonomia da pessoa humana quando diz que “não só se parte do presente a ser decifrado como uma mediação, como efeito, mas nesta construção se revela uma inversão, uma sujeição que é o sujeito, que também é socialmente determinado”.

Aqui, o autor se refere a uma inversão, uma sujeição de difícil percepção, podendo o indivíduo tomar como seus, os projetos, as ideias, as vontades, as ideologias que não são de sua pertença, reproduzi-los e não se dar conta deste processo. A autonomia de pensamentos e a tomada de decisões podem ficar comprometidas quando faltar a análise crítica de tudo o que é apresentado à pessoa.

Talvez a disciplina e os bons hábitos possam auxiliar na escolha e na sustentação dos caminhos mais difíceis, mas que levem à realização da pessoa humana. É importante que haja consciência crítica nos momentos das escolhas. Maar ainda nos aponta que,

Neste sentido, é preciso aplicar toda energia para que “a educação seja uma educação para a contradição e para a resistência” no existente, para se contradizer e resistir como modo de ir além do plano da reconstrução cultural e da vigência da semiformação, referindo-se ao plano da vida real efetiva. Por exemplo [...] “mostrando-se aos alunos as falsidades” presentes na vida da sociedade culturalmente construída e “despertando a consciência quanto a que os homens são enganados de modo permanente” (2003, p. 473).

Caberia à escola disponibilizar ferramentas e recursos aos educandos para que possam realmente ser sujeitos da construção de sua história, para que possam escolher os caminhos que os farão mais felizes, dando a sua parcela de contribuição ao crescimento da sociedade à qual pertencem. Na escola, quando um aluno tem um trabalho a apresentar e não o faz, pode ser que o professor contribua para a sua formação quando mostra como a falta do cumprimento da tarefa prejudicou a sua aprendizagem e que não adiantaria copiar de um colega, que não seria honesto para com o professor, para com os colegas e muito menos para consigo mesmo. Ao se projetar no futuro esta situação, poderá ser uma importante contribuição para que seja um trabalhador honesto, consciente de seus direitos e deveres e feliz com a sua missão, com a sua forma de exercer a sua cidadania na sociedade.

Parece mais fácil a um adulto cumprir com os seus compromissos quando já é vivenciado desde muito jovem. A incorporação de valores acontece no dia a dia. São os ritos de passagem da vida de criança que se incorporam ao processo de aprendizagem de adultos equilibrados e conscientes de que possuem direitos e deveres. “Moldar o seu jeito de jogar” na vida, com a busca de realização de seus ideais sem ferir os dos outros, com a construção da sua hierarquia de valores de acordo com o bem pessoal e coletivo, contribuindo com a sua parcela de esforço e trabalho, no entendimento de que a disciplina não é um engessamento, mas uma libertação. Tomada de decisões com base na reflexão.

Tardif sinaliza a conexão que deve haver entre a escola e o mundo e que a produção de saberes sociais precisa estar alinhada à sociedade. Acrescento que a literatura pode trazer a produção de um autor que espelha o mundo onde a escola está inserida. As ideias postas no texto podem ser os disparadores para reflexões sobre o momento presente. O autor alerta para a possibilidade do diálogo do sujeito com o seu grupo social e escreve:

Os sistemas sociais de formação e de educação, a começar pela escola, estão enraizados numa necessidade de cunho estrutural inerente ao modelo de cultura da modernidade. Os processos de produção dos saberes sociais e os processos sociais de formação podem, então, ser considerados como dois fenômenos complementares no âmbito da cultura moderna e contemporânea (2014, p. 34).

Não podemos deixar de nos referir ao cenário atual, onde no combate ao “novo corona vírus”, no enfrentamento da pandemia nos vemos no isolamento social, com o desafio de nos mantermos motivados e de aprendermos novas formas de trabalho. Quantos profissionais se debruçaram em leituras de tutoriais, manuais e outros tipos de material para aprenderem a trabalhar com as novas tecnologias, para poderem continuar o seu trabalho agora realizado de maneira remota. E são necessárias competências que envolvam o entendimento, a criatividade, uma nova maneira de comunicação, além da superação de situações que geram carências, como a distância dos familiares, dos amigos e da rotina, que podem ser amenizadas pela companhia de um livro.

Tardif (2014) coloca os professores diante do saber, o saber do profissional para difundir os saberes que a sociedade espera que sejam disponibilizados para os estudantes. Na formação do professor, o texto literário pode contribuir para o entendimento da visão de mundo contemporânea, do contexto social e de suas relações interpessoais. A escola não é uma ilha.

Conclusões finais

O ambiente escolar pode despertar necessidades éticas em seus membros. Dar importância ao belo, ao gosto pelos estudos, à presença do sagrado em sua vida, à autoestima, ao afeto e à preocupação para com o bem comum. Portanto, tornando-se uma necessidade, surge um valor para que esta carência seja suprida. E, ao acompanhar esta transformação, a educação formal poderá influenciar de maneira consciente e sistematizada a hierarquização de valores dos sujeitos.

O ponto de partida deste artigo é a hipótese de que a literatura pode contribuir para a apreensão dos valores éticos em todos os níveis da educação, com a perspectiva de que o professor ético em sua dimensão como pessoa e como profissional poderá contribuir para com a formação integral das novas gerações, ou seja, educar pelo exemplo e que a disciplina é necessária no ambiente escolar, inclusive com a emergência de se acabar com a violência nesse espaço. Para tanto, precisamos focar na educação integral.

O valor é de natureza objetiva, quer dizer, independe da subjetividade do indivíduo. Quando o sujeito não escalona a saúde no topo de suas escolhas, não quer dizer que deixe de ser valor. Em dado momento, a pessoa precisará trabalhar mais tempo, dormirá menos e, possivelmente não poderá fazer refeições em horários regulares. Pode ser uma etapa da vida em que o valor econômico se sobrepõe: pagamento dos estudos dos filhos, compra da casa própria, doença de um familiar, enfim, outras necessidades precisam ser supridas. No escalonamento dos valores, a escola pode refletir junto com o discente ponderando sobre as decisões do dia a dia pautadas na ética.

Assim, a apreensão dos valores éticos pode ser vista como uma atribuição importante da escola na formação das novas gerações e a literatura pode ser usada como instrumento para se atingir tal fim, suscitando sentimentos e emoções; permitindo que se faça uma autoanálise através dos personagens.

O excesso de informações e de conhecimentos não refletidos e uma possível ausência de valores éticos na formação dos sujeitos podem interferir nas relações interpessoais. Acrescente-se a discussão sobre a formação do professor tanto acadêmica, como a realizada ao longo de sua jornada de trabalho e da vida. Destaca-se o pensar sobre o papel do docente, em sala de aula, para a sua contribuição na formação integral de seus educandos.

Se os alunos do curso de pedagogia e das licenciaturas manusearem, discutirem, debaterem, pensarem sobre o conteúdo das obras de literatura infantil, juvenil e para adultos e se encantarem, poderão capacitar-se para levarem os seus discentes a serem críticos a partir da reflexão acerca dos conteúdos propostos, bem como poderão fazer uma viagem para dentro de si mesmos e se (re) avaliarem em sua dimensão humana.

Hunt ratifica a importância da academia sobre o papel da literatura na educação ao declarar que,

Os pedagogos me dizem que os livros para criança não devem cair nas mãos dos Departamentos de Literatura; estes desconfiam de pedagogos e bibliotecários que lidam com questões literárias (ou, de fato, com materiais suscetíveis a tal utilização). Mas talvez a consequência mais irônica disso seja considerar que os livros para criança sejam mais bem estudados na pós-graduação (2010, p.49).

Uma questão relevante é pensar sobre o cuidado com relação à escolha dos textos literários a serem trabalhados em sala de aula de acordo com o que as crianças são capazes de ler e de apreender. Podemos selecionar os títulos por diferentes razões, como ter a intenção de defender as crianças do trabalho tedioso de leitura baseados em nossas possíveis experiências não tão bem-sucedidas como alunos, esquecendo que cada indivíduo tem a sua preferência quanto à leitura. Escolher o livro a partir do conteúdo didático que oferece, afinal de contas precisamos passar conhecimentos e valores éticos. Diversos motivos podem ser os inibidores do encantamento dos alunos pelos textos literários e talvez não haja consciência por parte do professor da importância de preparar os alunos para lerem com juízo de valor.

Esta pesquisa buscou fomentar o interesse de estudiosos pelo assunto a partir de premissas elaboradas a partir de Durkheim e Freinet que afirmam ser a escola uma instituição inserida na sociedade e que precisa estar de acordo com o seu tempo e lugar, bem como, precisa ser estudada a partir da ótica de seu tempo. O desafio de tornar a educação um valor para o sujeito pode ser o resultado da educação integral, com a interferência da reflexão na escola quanto ao escalonamento dos valores como nos sinaliza a teórica Werneck. E Hunt nos traz o valor da literatura para a apreensão dos valores.

Precisamos de professores aventureiros que guiem os educandos nas descobertas que os leitores podem fazer, podendo influenciar suas vidas de maneira positiva e transformadora. Somente os encantados podem encantar e podem percorrer o caminho que mostra o valor da obra literária na formação integral que poderá contribuir para a autodisciplina, aquela que dispensa o controle ou os castigos, porque o indivíduo terá atribuído sentido à educação e à sua vida, fazendo a sua parte na construção de um mundo melhor, mais igualitário e justo. Fortalecer o indivíduo é fortalecer o coletivo.

Material suplementario
Referências
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