Dossiê Comemorativo 25 anos
Olhar de Professor: instrumento para a reflexão sobre o professor-pesquisador
Olhar de Professor: an instrument for reflecting on the teacher-researcher
Olhar de professor: un instrumento para reflexionar sobre el profesor-investigador

Recepción: 30 Noviembre 2023
Aprobación: 02 Diciembre 2023
Se eu fosse professor eu não seria muito durão. Deixaria as crianças perguntarem e não ficarem com dúvida. Seria um professor que deixaria conversar baixo,isso na hora que não estiver explicando alguma coisa. Faria uma explicação com a participação dos alunos. Exigiria respeito. Ajudaria os alunos com dificuldade.Daria lição de casa para exercitar a lição dada na sala de aula.Não teria prova, mas sim uma avaliação, para concluir se o aluno está com dificuldade.Trabalharia numa escola pública, o meu dever seria ensinar. A criança deve ser respeitada, aprender a ter opinião. Eu acho que com esse método seria um bom professor.Thiago, 8 anos. (capa da Revista Olhar de Professor, 1998).
Vinte e cinco anos se passaram...
A revista Olhar de Professor ao completar vinte e cinco anos de circulação alcança seu jubileu de prata! Que grande feito num país que luta para formar hábitos de leitura e, consequentemente, leitores.
A Revista encontra como respaldo de sua criação, na década de 1990, o Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino (DEMET) da Universidade Estadual de Ponta Grossa - UEPG, com um corpo docente estruturado por mestres com ampla experiência na expertise do ensinar. Estes mestres3 formaram a primeira geração do referido departamento e foram responsáveis pela força política e vanguarda didático-pedagógica que o mesmo representou, durante a sua trajetória institucional, intra e extramuros.
Criado pela Resolução R.SG/015 de 31 de dezembro de 1975, o DEMET desmembrou-se do Departamento de Educação em 22/12/76. Apesar da vocação para o ensino da UEPG, naquela época, o DEMET sempre desenvolveu atividades que contemplaram ações nas áreas de ensino, pesquisa e extensão.
Já no mês de outubro do ano de 1976, na iminência de sua criação, o DEMET iniciou o primeiro projeto de pesquisa. Tendo recebido convite da Secretaria de Estado da Educação para apresentar proposta de projeto referente à experimentação e avaliação de metodologias apropriadas às características da clientela e peculiaridades do Ensino Supletivo, foi elaborado o projeto: “Coleta de Informações e Análise de Metodologias do Ensino Supletivo - Função Suplência”.
Na sequência, vários foram os projetos desenvolvidos, visando sempre, o campo da Didática e das Metodologias do Ensino como se pode observar no seguinte registro da política departamental visando à estruturação operacional do Departamento:
Na intenção de realizar um trabalho mais apurado, no que diz respeito às normas técnicas e fundamentos científicos, foram elaboradas Diretrizes Básicas do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino, que permitam uma linha de ação produtiva rumo à consecução de seus objetivos e execução de suas múltiplas tarefas de ensino, pesquisa, extensão e administração. (Plano de Ação aprovado em reunião departamental de 07/10/77).
Muitos e inovadores projetos foram efetivados, seguindo esta diretriz, com destaque para: Projeto “Roda Pião” - desenvolvido pela UEPG, por meio do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino, em colaboração com a Coordenação Local da Fundação Projeto Rondon, no período de 20 de outubro a 20 de novembro de 1981; Projeto “Be-a-bá”- atividade de extensão universitária realizada junto a professores atuantes em primeiras e segundas séries (anos iniciais do atual Ensino Fundamental), objetivando a aplicação de uma atualizada metodologia da aprendizagem da leitura e escrita, especialmente no que diz respeito à alfabetização. Constava de preparação, acompanhamento e avaliação do professor em sua atuação docente e de avaliação do rendimento do aluno, da 1ª à 3ª série. Envolvendo 160 professores, 55 supervisores pedagógicos e cerca de 4800 alunos das 128 escolas da rede Estadual, Municipal e Particular do ensino de 1º grau, o que correspondia a um terço dos professores que atuavam em 1ª e 2ª séries e à totalidade dos supervisores das referidas séries; foi desenvolvido no período compreendido entre agosto/1982 a dezembro/1986; Projeto “Centros de Excelência” visava à realização de estudos e pesquisas, para diagnósticos, recomendações, orientação técnica e cursos, tendo em vista o planejamento e execução de ações a serem efetivadas pelo Departamento de Ensino de 2º grau (atual ensino médio), conforme convênio celebrado em 13/03/81 entre a UEPG/DEMET e a Secretaria de Estado da Educação do Paraná.
As ações anteriormente indicadas valem como registros da capacidade do DEMET de executar propostas, com qualidade e amplitude, nos campos do ensino, da pesquisa e da extensão antes mesmo que a UEPG investisse maciçamente na formação de pesquisadores.
Em 07 de abril de 1987 foi criada a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UEPG (Resolução C.A. nº. 029/87) para o desenvolvimento de “uma política articulada de pesquisa e capacitação de docentes”. Esta iniciativa foi importante para o DEMET porque foi ao encontro de sua política departamental, uma vez que dentre os cursos de Especialização ofertados pela UEPG, desde 1981, 57,1% foram de iniciativa do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, sendo que 42,9% foram realizados pelos outros quatro Setores da IES, existentes à época. Do total dos cursos ofertados pelo Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, 50% foram de iniciativa dos Departamentos de Educação e Métodos e Técnicas de Ensino.
Portanto, liderada pelos mestres já indicados, fundadores do DEMET, em sua maioria Especialistas em suas áreas de atuação, a política departamental na segunda metade dos anos 19804 direcionou a segunda geração de professores5 lotados naquela unidade departamental para a formação stricto-sensu em nível de mestrado e, de doutorado, o que foi realizado no decorrer das décadas 1980 e 1990. Foi, justamente, esta decisão que contribuiu não só para a criação da revista Olhar de Professor como para a criação do primeiro Mestrado em Educação da UEPG como decorrência da formação de um corpo docente que atendesse às normativas dos órgãos autorizadores de cursos stricto-sensu. Obviamente muito contribuiu para essas conquistas a atuação de membros do DEMET em órgãos administrativos da UEPG6 o que corrobora sua força política-administrativa intramuros, anteriormente indicada.
Outro fator que deve ser considerado é o fato de que o DEMET, desde 1990, promovia o evento Prática Pedagógica: comunicações e debates com o objetivo de criar um canal de comunicação para a apresentação de resultados de projetos de pesquisa, ensino e extensão desenvolvidos por docentes dos três níveis de ensino fortalecendo a articulação do ensino superior com a Educação Básica, lócus de aplicação das práticas dos estágios supervisionados das licenciaturas da UEPG. A criação da Revista poderia ser, portanto, uma oportunidade para a divulgação dos relatos e/ou artigos decorrentes das experiências desenvolvidas.
A apresentação do primeiro número da Revista historiciza a trajetória de sua concepção:
A criação da revista Olhar de Professor atende a uma proposta e a uma perspectiva de trabalho do grupo de professores do DEMET que atua na área de Metodologia de Ensino nas diferentes licenciaturas da UEPG. Já em 1993, tal iniciativa ficou definida como prioritária devido à constatação em eventos regionais, estaduais e nacionais, de que a UEPG desenvolvia nas diferentes licenciaturas, projetos inovadores que despertavam o interesse de colegas de outras instituições de ensino superior.
Pensada, inicialmente, como veículo de divulgação daqueles projetos desenvolvidos por professores e alunos do ensino superior e, também, como veículo de divulgação daqueles projetos desenvolvidos por professores e alunos do ensino fundamental e médio, partícipes dos referidos trabalhos, a proposta de publicação foi originalmente intitulada Cadernos de Estágio.
Porém, a sua aprovação em reunião departamental registrou uma ampliação do direcionamento original visando atender à produção científica em Didática, Métodos, Técnicas de Pesquisa e Metodologia e Prática de Ensino, além de criar um veículo para divulgar os resultados de pesquisas, de projetos de ensino e de extensão, de dissertações e de teses dos docentes das licenciaturas.
Considerando que muitos docentes do DEMET ainda se encontravam finalizando seus cursos de pós-graduação a criação da Revista, que já se discutia a partir de 1993, só ocorreu em 1998. O primeiro número, inclusive, apresenta artigos que retratam resultados de projetos de ensino, de extensão e de pesquisas de mestrado e de doutorado, recém-concluídos, dos docentes do DEMET como se pode observar: Os egressos da UEPG e o ensino de História: a formação de professores, dissertação de mestrado de Silvana Maura Batista de Carvalho; A formação pedagógica e a construção da competência pedagógica - trajetos e projetos-, tese de doutorado de Mariná Holzmann Ribas; Educação Física Escolar: uma leitura na concepção emergente do desenvolvimento humano, dissertação de Mestrado de Sílvia Christina Madrid Finck; O que se valoriza na matemática escolar: refletindo sobre as mudanças necessárias, tese de doutorado de Célia Finck Brandt; Escola cidadã no Paraná: análise de seus avanços e retrocessos, tese de doutorado de Rosilda Baron Martins; “Lugares da memória” no Estado do Paraná: demandas e políticas pela preservação do patrimônio cultural, tese de doutorado de Teresa Jussara Luporini; A prática pedagógica como fonte de conhecimento, resultado de pesquisa produzida por Leide Mara Schmidt, Mariná Holzmann Ribas e Marlene Araújo de Carvalho; O professor se perde a face, trabalho apresentado em evento de pesquisa por Núbio Delanne Ferraz Mafra; Educação básica: dois segmentos dissociados, resultado de pesquisa produzida por Mariná Holzmann Ribas, Rosilda Baron Martins e Teresa Jussara Luporini; 1932: águas redivididas, trabalho apresentado por Luis Fernando Cerri em evento de pesquisa. Como se pode constatar o primeiro número apresenta caráter endógeno, com ampla participação dos docentes do DEMET, embora naquela oportunidade os docentes que cursaram pós- graduação stricto-sensu, em sua maioria no Estado de São Paulo (PUC-SP ou UNICAMP), tivessem estabelecido uma respeitável rede de contatos que resultaria na participação, na sequência, de pesquisadores de diferentes Estados da Federação.
De qualquer forma a criação da Revista, com periodicidade anual, foi um passo ousado e necessário para a elaboração do projeto do Mestrado em Educação da UEPG7 que, naquela época, já se revelava como uma possibilidade concreta contando com outros docentes doutores dos departamentos de Letras e de História da UEPG, com Assessoria de uma equipe de profissionais da UNICAMP.
A equipe que primeiramente assumiu a elaboração da Revista, enquanto Conselho Editorial, em 1998, foi composta pelas professoras Mariná Holzmann Ribas, Rosilda Baron Martins (presidente) e Teresa Jussara Luporini. Este Conselho se manteve até o ano de 2002 quando os membros se aposentaram da UEPG, embora continuassem atuando no mestrado em Educação devido à sua significativa produção científica. Na mesma época, no ano 5 da Revista, foi criado o Conselho Editorial com integrantes de outras universidades em âmbito nacional8.
É importante registrar as dificuldades iniciais para a construção dos primeiros exemplares diante da nascente política de incentivo à pós-graduação na UEPG, seja pela incompreensão dos colegas sobre a necessidade de publicar os resultados de seu trabalho, seja pelo espaço restrito para publicações, uma vez que apenas em 1992 foi criado o Centro de Publicações da UEPG, depois, Editora UEPG, ligada à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação dirigida, na época, pela Doutora Leide Mara Schmidt.
A análise das temáticas que integram os sumários dos exemplares da Revista, nos últimos 25 anos atestam que, a proposta inicial de ampliação do campo de conhecimento a ser tratado, se converteu em uma conjuntura do ponto de vista histórico-educacional analisando diferentes perspectivas da formação, das experiências e construção dos saberes docentes, da Educação Básica com seus sucessos e mazelas curriculares, disciplinares e contradições que o cotidiano escolar impõe. A contribuição de diferenciados membros do Conselho Editorial colaborou para ampliar horizontes distanciando a revista do caráter endógeno, o que concorreu para que a mesma alcançasse indexação junto a bases bibliográficas nacionais e internacionais. Em 2004, ocorreu a primeira indexação junto à Base Bibliografia Brasileira de Educação (BBE) do INEP/CIBEC9, sendo que a revista passou a apresentar periodicidade semestral ganhando robustez acadêmica. Nessa época, respondiam pela direção da Revista as professoras Beatriz Gomes Nadal e Clícia Bürher Martins. No mesmo ano, de 2004, a Revista foi indexada junto à EDUBASE (Base Nacional de Artigos de Periódicos, Eventos e Relatórios da Área da Educação), da UNICAMP e, também, junto ao CLASE (Base de Datos Bibliográfica de Revista de Ciencias Sociales y Humanidades), da Universidade Nacional Autônoma de México. Em 2006 a Revista foi indexada junto à REDALYC (Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe in Portugal), da Universid Autónoma do Estado de México e na Plataforma Qualis-CAPES com a avaliação B2 e, posteriormente com B1, na qual se mantém atualmente.
Cabe registrar que a Revista sempre esteve sob a responsabilidade de profissionais lotados no DEMET; no entanto, a partir de 2011, a disciplina Metodologia e Prática de Ensino passou a ser requisitada pelos departamentos que abrigavam disciplinas específicas de cada licenciatura; paulatinamente os profissionais que lecionavam a referida disciplina tiveram a lotação alterada, por mudança na política de departamentalização da UEPG em relação ao DEMET sendo que, em 2014, seus profissionais pedagogos foram transferidos para o Departamento de Pedagogia, extinguindo-se o DEMET e empobrecendo a discussão de caráter interdisciplinar que sempre destacou as iniciativas daquele Departamento.
No entanto, esta mudança de caráter estrutural não causou solução de continuidade na existência da Revista uma vez que os princípios originais da criação continuaram a ser respeitados. Um fator que também contribuiu para a permanência da publicação foi que no decorrer de uma década ocorreu o fortalecimento e a expansão da Pós-Graduação Stricto-sensu na IES, com a implantação de um significativo número de cursos de mestrado e doutorado com a decorrente produção científica na área da Educação.
Atualmente a direção da Revista está sob a responsabilidade das professoras Marilucia Antônia, de Resende Peroza, Daiana Camargo e Fátima Aparecida Queiroz Dionísio, que integram o Comitê Editorial. É descrita como:
periódico acadêmico, de fluxo contínuo proposto pela Universidade Estadual de Ponta Grossa - UEPG (Paraná, Brasil). Desde 1998, vem divulgando pesquisas e estudos relacionados à educação e à formação de professores (OLHAR DE PROFESSOR, 2023).
Indica como Foco e Escopo a publicação de:
artigos científicos e, conforme o fluxo existente, reflexões sobre experiências pedagógicas significativas, resenhas, entrevistas e textos de palestras proferidas que tragam a produção de pesquisadores ligados à pesquisa e a docência na grande área da educação. É dirigida a professores e pesquisadores, assim como a estudantes de graduação e pós-graduação das áreas de Educação e das Ciências Humanas (OLHAR DE PROFESSOR, 2023).
difundir a produção intelectual e acadêmica na área de Educação a fim de possibilitar que diferentes profissionais conheçam o trabalho de pesquisadores nacionais e internacionais; incentivar debates acadêmicos no campo da Pedagogia, assim como as discussões acerca das políticas educativas, da formação de professores, as metodologias educacionais e os saberes e práticas educativas (Olhar de professor, 2023).
O que se pode indicar como legado da publicação é que permanece a análise e o estudo das situações que desafiam e confrontam a articulação teoria-prática, já defendida pelos docentes da primeira geração do DEMET e que remetem à compreensão do pequeno Thiago citado na epígrafe, hoje provavelmente um adulto na faixa dos 40 anos. Na sua inocência, mas, com profunda compreensão da questão que ainda hoje instiga os educadores, o menino determina o que seria um bom professor, para além das políticas de formação muitas vezes equivocadas e de pesquisas educacionais repetitivas e pouco criativas, distantes da realidade da escola pública: Se eu fosse professor (...) eu não seria muito durão. Deixaria as crianças perguntarem e não ficarem com dúvida. (...) Faria uma explicação com a participação dos alunos. Exigiria respeito. Ajudaria os alunos com dificuldade. Não teria prova, mas sim uma avaliação, para concluir se o aluno está com dificuldade. Trabalharia numa escola pública, o meu dever seria ensinar. A criança deve ser respeitada, aprender a ter opinião. Eu acho que com esse método seria um bom professor.
Um bom professor o grande e sempre presente desafio para as IES e seus pesquisadores; também, para as políticas verdadeiramente públicas com a efetiva contribuição de diferentes e atuantes setores da sociedade brasileira. Desafio que se coloca especialmente para o interior da sala de aula, para a relação professor e aluno, para o afinamento da percepção do fazer pedagógico que constrói o OLHAR DO PROFESSOR e a sua capacidade de reflexão ao construir e reconstruir suas práticas, tornando-as cada vez mais significativas e efetivas.
Parabéns aos mestres do DEMET, de ontem, que iniciaram a jornada por suas posturas profissionais éticas, inovadoras e solidárias que impulsionaram a formação de pesquisadores nas áreas disciplinares originais à criação da Revista. Parabéns aos profissionais que não interromperam a trajetória planejada enriquecendo-a com suas contribuições. Parabéns à UEPG por manter a política de manutenção de um excelente e respeitado veículo de divulgação de produção intelectual!
Agora que nos convertemos nos “mestres mais experientes” constatamos, com regozijo, que conseguimos cumprir com as nossas obrigações como docentes e pesquisadoras honrando a “Casa de Ensino” que nos acolheu e nos formou.