Resumo: A escritora, editora e ativista portuguesa Ana de Castro Osório teve um papel essencial na criação de coleções literárias dedicadas aos romances de aventuras e de viagens, onde autores italianos como Emilio Salgari e o seu epígono Luigi Motta ocuparam um lugar de primeiro plano. A ela, em colaboração com o filho Miguel Osório de Castro, se deve a tradução do primeiro romance de Luigi Motta publicado em Portugal, que saiu em dois volumes intitulados O túnel submarino e Mistérios do oceano (1927), a que se juntariam em pouco tempo várias outras obras do escritor italiano, vindo a constituir uma série no seio da mais ampla coleção de romances de aventuras da editora Romano Torres. A tradução de Il tunnel sottomarino, caracterizada pela manutenção dos elementos típicos dos romances de aventuras que o autor italiano bem explora, abstém-se de domesticar o texto, o que deixa entrever um potencial de inovação linguística fomentada pelas traduções de obras da paraliteratura nas décadas de 20 e 30 em Portugal.
Palavras-chave: Ana de Castro Osório, Luigi Motta, tradução literária, literatura traduzida;, romances de aventuras.
Abstract: Portuguese writer, editor and activist Ana de Castro Osório played an essential role in the creation of literary collections dedicated to adventure and travel novels, where Italian authors such as Emilio Salgari and his epigone Luigi Motta were at the forefront. She, in collaboration with her son Miguel Osório de Castro, was responsible for translating Luigi Motta’s first novel published in Portugal, which came out in two volumes entitled O túnel submarino and Mistérios do oceano (1927), to which several other works by the Italian writer were soon to be added, forming a series within the broader collection of adventure novels published by Romano Torres. The translation of Il tunnel sottomarino, characterized by maintaining the typical elements of adventure novels that the Italian author explores so well, refrains from domesticating the text, which hints at the potential for linguistic innovation fostered by translations of paraliterature in the 1920s and 1930s in Portugal.
Keywords: Ana de Castro Osório, Luigi Motta, literary translation, translated literature, adventure novels.
Artigo
Ana de Castro Osório e Luigi Motta: da mediação à tradução
Ana de Castro Osório and Luigi Motta: from mediation to translation
Received: 03 July 2024
Revised document received: 02 September 2024
Accepted: 15 August 2024
Published: 01 September 2024
Figura de extraordinário destaque ao longo de uma intensa vida de ativismo e empenho intelectual, Ana de Castro Osório (1872-1935) atravessou décadas conturbadas da história portuguesa, durante as quais foi capaz de entretecer fecundas relações de intercâmbio internacional em várias frentes, contribuindo para o enriquecimento do panorama literário e cultural do seu país. Jovem culta, mesmo numa época em que as mulheres não tinham acesso a uma educação formal, Ana de Castro Osório teve a sua estreia literária em 1895, com “Tristeza de fim de dia”, publicado no periódico Mala da Europa, e dois anos mais tarde deu início à sua incansável atividade de editora, publicando o primeiro fascículo da coleção Para as crianças através da casa editora por ela mesma fundada e gerida na cidade de Setúbal.
Considerada a fundadora de uma literatura nacional para a infância, conhecida pelo seu incansável ativismo republicano e, sobretudo, feminista, organizadora do património narrativo popular que reuniu nos dois volumes de Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa e nos quatro volumes de Últimas histórias maravilhosas e contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular, autora de uma obra diversificada ao longo do tempo, com dezenas de títulos incluindo romances, contos e ensaios, Ana de Castro Osório distinguiu-se também como tradutora e como dinamizadora das trocas literárias entre Portugal e o Brasil e não só.
A sua ligação com o Brasil instaurou-se em 1911, ano em que viajou para São Paulo com o marido, Paulino de Oliveira, então nomeado cônsul e que na mesma cidade viria a falecer em 1914 determinando o regresso da autora a Portugal; naqueles anos, a autora transferiu toda a sua atividade editorial para a sua residência brasileira e, em 1912 teve a oportunidade de participar no II Congresso de Instrução Pública que se realizou em Belo Horizonte. Já em 1922, no centenário da independência brasileira, Ana de Castro Osório regressou ao Brasil, onde proferiu uma série de conferências numa digressão que lhe permitiu viajar entre o Rio de Janeiro, São Paulo, o Paraná e o Rio Grande do Sul; os textos das conferências ficaram reunidos no volume intitulado A grande aliança: a minha propaganda no Brasil, publicado em 1924. A profunda familiaridade que sentia com o Brasil é patente na correspondência que trocou com Monteiro Lobato, em 1925, e transparece em passagens do livro infantil Viagens aventurosas de Felícia e Felizardo no Brasil (1923). A convicção de poder constituir uma “grande aliança”, nos termos de uma relação privilegiada entre Portugal e o Brasil do ponto de vista económico e, antes disso, cultural acompanha todo o percurso da escritora portuguesa, mesmo nas décadas que intercorrem entre a implantação da Primeira República e a subsequente aprovação de uma ortografia nacional portuguesa (1911) e a primeira tentativa de reaproximação ortográfica entre os dois países, em 1931.
Numa perspectiva mais ampla, a autora inseria-se numa rede de relações internacionais, quer no plano do ativismo feminista quer na divulgação da sua produção literária: no que toca ao primeiro, cabe mencionar a sua intensa correspondência com as dirigentes dos movimentos feministas internacionais da sua época e a filiação na Liga Internacional de Mujeres Ibéricas e Hispanoamericanas, fundada em 1922, em Madrid, pela mexicana Elena Arizmendi, e a correspondência com a feminista brasileira Bertha Luz (1894-1935) ao longo da década de 1920; quanto ao segundo, destaca-se a correspondência, assimétrica no entusiasmo e nas perspectivas de colaboração, entre a autora e o então editor brasileiro Monteiro Lobato, em 1925.
Da mesma forma, em Portugal Ana de Castro Osório desempenhou sempre um papel fundamental como mediadora das novidades no âmbito da literatura infantojuvenil, como demonstram tanto as traduções publicadas na coleção Para as crianças, como as traduções por ela mesma realizadas, inclusive por conta de outras chancelas editoriais. Sobre esta última faceta pretendemos focar a nossa análise, propondo uma apreciação da sua tradução de um romance do escritor italiano Luigi Motta (1881-1955), intitulado Il tunnel sottomarino e publicado primeiramente na Itália em 1912 pela editora Treves de Milão.
Um dos âmbitos ainda por estudar em torno da prolífica atividade editorial de Ana de Castro Osório é precisamente a sua atuação como tradutora de obras infantojuvenis, quer para a coleção Para as crianças, quer noutros contextos. Em particular, na coleção que ela mesma dirigiu inserem-se Alguns contos de Grimm. Traduzidos diretamente do alemão1 (1904, 11ª série), ou seja, vinte e três contos cuja tradução Ana de Castro Osório dedica a Carolina Michaëlis de Vasconcelos como “reconhecimento pelo muito que se interessa pela educação da infância portuguesa” (Grimm, 1904, s.p., ortografia atualizada). Traduz O fantasma de Paul Bourget (Porto, Livraria Civilização, 1926) e, com Lisa Filsberg, Alguns contos de outro clássico da literatura infantil, Hans Christian Andersen (1931), “traduzido diretamente do original”. Traduz ainda, em parceria com o filho Miguel Osório de Castro, o romance Il tunnel sottomarino do italiano Luigi Motta, cuja primeira edição data de 1912 (Milão, Treves), republicado em 1927 (Milão, Sonzogno), sendo ainda publicado nos anos 20, 30 e 40 em duas partes por outras editoras (Il tunnel sottomarino e L’isola di ferro).
Neste circunscrito conjunto de traduções, ressalta a heterogeneidade de línguas a partir das quais, declaradamente de forma direta, Ana de Castro Osório foi traduzindo – francês, alemão, dinamarquês, italiano – e realça-se, em especial, o caso do romance do italiano Luigi Motta, por ser o único que Ana de Castro Osório traduziu, pois todos os outros que em seguida foram publicados pela editora Romano Torres devem a sua tradução a Henrique Marques, Carlos José de Menezes, João Amaral Júnior e Henrique Marques Júnior.
Luigi Motta (1881-1955), escritor, comediógrafo, tradutor de teatro e jornalista, ficou conhecido sobretudo enquanto autor de um avultado número de romances de aventuras e protoficção científica, na esteira do sucesso extraordinário do seu inspirador Emilio Salgari2. Este assinara o longo prefácio do seu primeiro romance, I flagellatori dell’oceano (1901), vencedor do concurso promovido em 1900 pela editora Donath de Génova. Grande imitador do que considerava o seu mestre, a quem dedicara o seu primeiro romance, chegou a publicar uma série de apócrifos salgarianos, que apresentava como escritos em coautoria.
Luigi Motta, ao contrário de Emilio Salgari, conseguiu explorar proveitosamente o sucesso editorial, tanto próprio como alheio, representando outros autores na venda de direitos de tradução, incluindo os das obras salgarianas; aliás, em 1922 acabou por adquirir da família de Salgari também esboços inéditos que utilizaria para novas publicações (Canneto, 2012). A história editorial de Luigi Motta em Portugal, com efeito, está profundamente ligada à criação da coleção Salgari pela editora Romano Torres (Medeiros 2014; 2018). É em 1927, com a tradução assinada por Ana de Castro Osório e filho, que as obras do escritor italiano começaram a ser publicadas pela Romano Torres, vindo a constituir uma série no seio da mais ampla coleção de romances de aventuras onde também se incluem as obras de Emilio Salgari.
Entre 1927 e 1928 foram editados em português doze livros da autoria de Luigi Motta, com direitos reservados para Portugal e o Brasil; contudo é de salientar que os volumes publicados em Portugal muitas vezes resultam da cisão de volumes inicialmente publicados como únicos na Itália. Também o romance Il tunnel sottomarino, traduzido por Ana de Castro Osório e Miguel Osório de Castro, dá lugar a dois volumes, intitulados O túnel submarino e Mistérios do oceano.
A presença editorial individualizada de Luigi Motta – ou seja, excluindo romances atribuídos conjuntamente ao mesmo e a Emilio Salgari3, pelo que se pode reconstruir 4 resumir-se-á assim à sua inclusão na coleção de Romances de viagens e aventuras extraordinárias da editora Romano Torres, com as seguintes publicações, na maioria com lindas capas de Carlos Ribeiro:

A indicação dos títulos originais baseia-se numa reconstrução delicada e incerta, uma vez que as edições portuguesas tendem a não os referir e, na verdade, comummente o mesmo romance de Luigi Motta chegou a ser publicado na Itália, em momentos sucessivos, com revisões e/ou ampliações, com alteração de título e/ou de forma parcelada. De resto, na época a parcelação dos romances era uma prática relativamente corrente, que Luigi Motta parecia encorajar, mas que no começo da década de 1930 a editora Romano Torres tenta evitar, considerando que os leitores já não estavam tão disponíveis para esse tipo de fórmula5.
Ana de Castro Osório atuou de forma eficaz na mediação entre Luigi Motta, detentor dos direitos de tradução das obras de Emilio Salgari, e a editora Romano Torres, que adquiriu os direitos da coleção completa dos romances salgarianos juntamente com os de Luigi Motta, como parte do mesmo acordo. A tradução dos romances deste último começou ainda em 1926, continuando nos anos que se seguiram, compondo o quadro visto acima (Tabela 1), apesar das insistentes tentativas por parte de Luigi Motta de vender os direitos de tradução de outras obras suas ao longo de várias décadas e que o editor parece não recusar explicitamente apenas para não comprometer as relações em função da publicação da obra de Emilio Salgari, que tinha evidente proeminência no catálogo e na programação editorial da Romano Torres (Medeiros, 2018).
Como bem reconstruiu Nuno Medeiros (2014; 2018), Ana de Castro Osório atuou como generosa intermediária entre Luigi Motta – que, em carta de 11 de julho de 1926, se propunha a vender os direitos de tradução de Emilio Salgari – e a Romano Torres; esta última, ainda que Luigi Motta o desconhecesse, desde 1910 contava com obras salgarianas no seu catálogo. Ana de Castro Osório, perfeitamente a par das publicações e das atividades editoriais na área infantojuvenil, não deixou de traduzir e encaminhar a correspondência de Luigi Motta ao editor português, declarando, em carta dirigida à Romano Torres em 10 de dezembro do mesmo ano, ter “fé que os romances de aventuras serão uma salutar chicotada na inércia intelectual da nossa pequenada... dos 12 aos 80 anos” (apudMedeiros, 2014, p. 239, sublinhado no original).
Portanto, Ana de Castro Osório coloca-se em primeiro lugar como mediadora entre Luigi Motta – e os seus desígnios comerciais e editoriais – e a editora Romano Torres, com a qual entreteve sobretudo relações de aconselhamento e intermediação literária e só de maneira pontual colaborou como tradutora. Um destes casos pontuais de colaboração é constituído exatamente pelos dois volumes que traduzem Il tunnel sottomarino e que Ana de Castro Osório, em colaboração com o filho Miguel Osório de Castro, traduziu diretamente do italiano, como se explicita na página de rosto de ambos os volumes. Aliás, a correspondência e a intermediação com Luigi Motta em 1926 confirmam as competências linguísticas da escritora portuguesa, que comunicava em italiano com o seu interlocutor (Medeiros, 2014).
A tradução para português de Il tunnel sottomarino de Luigi Motta pode configurar-se como um interessante caso de estudo, na medida em que se trata da única tradução conhecida a partir do italiano realizada por Ana de Castro Osório, uma escritora, como se frisou, fortemente empenhada no âmbito da literatura infantojuvenil em Portugal e conhecedora do sistema de normas que mais em geral regia a tradução desse subgénero romanesco no contexto português.
Além disso, a época em apreço parece marcar uma viragem para a diluição dos romances de aventuras para outros géneros ficcionais paraliterários:
Encarada na sua dimensão cronotópica, a literatura de aventuras desenvolve-se em três momentos bem demarcados, inscrevendo um arco cronológico que poderemos situar em princípios do século XVIII, com Daniel Defoe (1660-1731) – autor de Robinson Crusoe, de Memórias de um Cavaleiro e Moll Flanders – e Jonathan Swift (1647-1745), o criador de Viagens de Gullliver, ganhando magna expressão com o magistério de Alexandre Dumas – com o cortejo de aclamados escritores que fizeram do último quartel do século XIX a era por excelência da literatura de aventuras: Stevenson, Twain, Verne, Salgari, Haggard – definhando depois ou transmigrando para outros domínios da produção ficcional a partir das décadas de 20 e 30 do século XX
(Rêgo & Castelo-Branco, 2003, p. 79).Nessa fase de viragem e de transição, também, para uma produção nacional mais rica em Portugal (Rêgo & Castelo-Branco, 2003), o caso de estudo em análise reveste-se de interesse adicional, dado o papel que a literatura traduzida teve na preparação dessa fase.
A estreia portuguesa de Luigi Motta dá-se em 1927, ano em que vem a lume a primeira parte da tradução de Il tunnel sottomarino, romance publicado pela primeira vez em Itália em 1912, mas, como já se aludiu, com edições italianas sucessivas e parceladas, à moda do seu prógono Emilio Salgari, que muitas vezes republicava o mesmo romance em versões ligeiramente modificadas e com novos títulos. A tradução editada pela Romano Torres sai em dois volumes, que abrem a série de Obras de Luigi Motta, com tratamento gráfico em sintonia com o estilo da coleção de Romances de viagens e aventuras extraordinárias: O túnel submarino e Mistérios do oceano. O primeiro termina precisamente com a informação de que a conclusão do romance se encontra em volume separado que tem por título Mistérios do oceano: romance de aventuras. Este último explicita a ligação com o primeiro apenas numa nota de rodapé não numerada no início do primeiro capítulo: “Ver o volume antecedente”, seguido do respetivo título (Motta, 1927b, p. 5).

O título do(s) original(is) não é mencionado na ficha técnica dos volumes, não se esclarecendo qual é a edição italiana utilizada para a versão portuguesa. Ambos os volumes portugueses são constituídos por vinte e sete capítulos cada, que correspondem aos trinta e três da edição italiana, seguidos de uma secção final (“Dopo il gran sogno”) que na edição portuguesa é considerada e numerada como os demais capítulos.
A tradução portuguesa do romance de Luigi Motta não apresenta elementos paratextuais de introdução ao autor e à sua obra, nem em forma de introdução, prefácio ou posfácio, nem sinopse ou ficha sobre o autor. Só em A baiadeira de Nagpur, terceiro volume da série, aparece um paratexto não assinado6 que visa introduzir tanto o romance de aventuras como o autor italiano, sob o título “O romance de aventuras. O seu carácter e a sua influência. / Luigi Mota [sic] e a sua obra”, que é permeado de palavras de grande entusiasmo e elogio:
Luigi Mota [sic] é hoje reconhecido como o mestre do romance de viagens e de aventuras, e as suas obras, que se encontram traduzidas em todas as línguas, passam já de cinquenta. [...]
O estilo das suas obras é elegante, cheio de poesia, forte e pitoresco. A cor é, a seguir, uma das magníficas qualidades do escritor italiano. [...]
Desaparecidos, pois, Júlio Verne, Luís Boussenard, Emílio Salgari, – Luigi Mota fica sendo hoje o campeão do romance de aventuras e de viagens, de quem anos atrás o mesmo Luís Boussernard escrevia algures: ‘é um dos mestres incontestados pelo talento de escritor e pelos conhecimentos particulares tão laboriosamente adquiridos que lhe asseguram na França como na Itália, um êxito verdadeiro’
(Motta, 1927c, s.p., ortografia atualizada).Nos dois volumes que inauguram a série, a colocação editorial das obras e o subtítulo “romance de aventuras” nas páginas de rosto são tidos como suficientes para orientar e aliciar o leitor. Surgem, no entanto, algumas notas de rodapé que testemunham a tentativa esporádica de mediar a leitura. Em particular, em O túnel submarino é mantida uma nota do autor e é acrescentada uma única Nota do Tradutor, em correspondência da primeira ocorrência da palavra “derelito” (Motta, 1927a, p. 34), presente no capítulo quarto, em correspondência do anglicismo “derelict” utilizado pelo autor para designar um navio abandonado. Os tradutores portugueses optam por um latinismo, de que fornecem a seguinte explicação: “Derelicto ou derelito – abandonado; desprezado, do latim derelictus. Deve tomar-se aqui no sentido marítimo dum barco abandonado e desprezado navegando sozinho como um fantasma ao sabor das ondas. – N. do T.” (Motta, 1927a, p. 34, ortografia atualizada). No fim do mesmo capítulo, em relação aos “famosos náufragos da Medusa”, surge a tradução sem censuras da nota do autor, que se serve deste recurso para mencionar um tema tabu, como o do canibalismo:
É sabido que a tripulação da Medusa passou para uma jangada depois do naufrágio do navio. Durante a interminável e angustiosa peregrinação através do Oceano a fome despertoulhes os instintos mais selvagens e chegaram a alimentar-se dos próprios semelhantes, cujo número se foi reduzindo dia a dia até ao fim da terrível odisseia. – L. M.
(Motta, 1927a, p. 45, ortografia atualizada).Em Mistérios do oceano são colocadas algumas notas supostamente da responsabilidade dos tradutores, ainda que sem indicação explícita acerca da sua autoria. Na primeira, a propósito da expressão “rebanho de Proteu”, que também aparece no título do capítulo (nono do livro português, vigésimo sexto da edição italiana), indica-se “Proteu – Deus marinho, filho de Neptuno e de Fênice” (Motta, 1927b, p. 90), enquanto na seguinte, no capítulo XIII, “O aparecimento inesperado”, é dada a correspondência em moeda portuguesa do valor de cinquenta liras, ou seja, “Em dinheiro português aproximadamente: 90$00” (Motta, 1927b, p. 125). Trata-se, portanto, de intervenções muito limitadas com vista a auxiliar o leitor numa compreensão mais imediata de uma referência mitológica que terá sido de conhecimento mais generalizado junto do público leitor italiano e da referência monetária mencionada.
A tradução proposta por Ana de Castro Osório e Miguel Osório de Castro, em termos estilísticos, mantém as características típicas dos romances de aventuras que se manifestam com mestria técnica no romance de Luigi Motta, sobretudo na presença estruturante de diálogos eficazes e, em geral, no ritmo da narrativa, com muitas frases breves e predileção pela parataxe (Ricci, 2013), ao lado de tecnicismos ligados sobretudo à navegação, pelo menos na tradição italiana inaugurada por Emilio Salgari.
Para exemplificar a manutenção dos diálogos, que, mesmo sendo “antirrealistas, pela falta de adequação à situação e ao plano dos falantes, têm um magnetismo cénico de ascendência melodramática”7 (Ricci, 2013, p. 131), limitar-nos-emos ao incipit do romance, que bem representa a atitude dos tradutores em relação a esta importante componente textual:

Outra peculiaridade estilística deste subgénero romanesco, que se manifesta precisamente nos diálogos, é o recurso abundante àquelas que Ricci (2013, p. 132) define como “artificiosas alocuções e exclamações”8. Trata-se de expressões capazes de surpreender o leitor pela sua criatividade e por serem inusuais na língua corrente; no romance de Motta em análise, porém, este tipo de expressão deixa lugar a interjeições e exclamações recorrentes que contribuem antes para sublinhar a nacionalidade das personagens e a caracterizá-las, compensando a falta de modulação a nível de registos linguísticos (Ricci, 2009). Nomeadamente, há algumas dezenas de ocorrências da exclamação “By God!”9, que marca a fala de um dos protagonistas, ou seja, o engenheiro maquinista Mac Roller, várias vezes apelidado de “o americano” ao longo do romance. De forma análoga, outras falas aparecem associadas a alguma interjeição em inglês, como “Goddam!” ou “Forward!”, com menor expressividade por serem proferidas por personagens secundárias. A construção dos diálogos dispensa, na maior parte das vezes, os verbos dicendi para não quebrar o ritmo premente; em compensação, há um frequente recurso a vocativos que incluem ou são constituídos por títulos em inglês ou francês, que permitem identificar o interlocutor em causa: “mister” (quase sempre sozinho, sem ser seguido do nome) surge umas cinquenta vezes para referir-se a Mac Roller, ao passo que algumas vezes o francês Adrien Géant é chamado “monsieur”. Essa marca estilística é mantida na tradução portuguesa, bem como expressões de cortesia que, analogamente, ajudam a acompanhar os longos diálogos, como “dear mister” ou “good night”, proferidos por Mr. Sampson etc. Do mesmo modo, são mantidas as ocorrências da interjeição “sapristi”, ou um episódico “Parbleu!” que pontuam a fala de Adrien Géant.
Outros anglicismos vão surgindo ao longo do romance, contribuindo para a caracterização de algumas personagens; assim, por exemplo, ao delinear o perfil de Jack Devemport e reconstruir o seu passado, utilizam-se palavras como businessman, ou lord, que aparecem inalteradas na tradução portuguesa. Mais raramente, os anglicismos surgem para evocar lugares estrangeiros, como a menção do “fog” de Londres e de alguma “street” ou “square” etc.; estes estrangeirismos também são mantidos na edição portuguesa. O cuidado com a função dos exotismos nos romances de aventuras confirma-se na conservação dos antropónimos, que não são domesticados na tradução portuguesa.
Uma observação à parte envolve um conjunto de latinismos, que são mantidos em português. Não só são reproduzidas na tradução portuguesa as referências cultas a espécies vegetais, como laminarie, trichodesmium, varechs, rhigosolenia stiliforme etc., ou mais raramente animais como os halosaurodi, como também os latinismos cuja presença no texto fonte não se prende com o subgénero romanesco em causa, mas antes com a efabulação do narrador, como é o caso de modus vivendi, deus ex machina, mare magnum..., sempre grafados em itálico como os demais estrangeirismos.
No que concerne ao vocabulário especializado, que distingue o romance de Luigi Motta e onde também surge a questão do tratamento de anglicismos em tradução, vale a pena mencionar alguns exemplos que, no caso concreto, se referem à linguagem náutica:

Tendo em conta que o romance de Luigi Motta combina aventuras, viagens sustentadas por vários meios de transporte e tecnologia futurista, prefigurando a construção visionária de um túnel por baixo do canal da Mancha, sobressai a importância do vocabulário especializado de cada uma dessas áreas que o autor evoca constantemente e do qual se serve para descrever com oportuna precisão os elementos narrados e, ao mesmo tempo, para estimular a imaginação dos seus leitores. Na tradução, Ana de Castro Osório e Miguel Osório de Castro demostram-se atentos no tratamento destes itens lexicais, garantindo a reprodução eficaz do estilo do texto fonte, neste plano também.
Em Portugal a figura extraordinária de Ana de Castro Osório, como se viu, teve um papel essencial na inauguração de coleções literárias dedicadas aos romances de aventuras e de viagens, onde autores italianos como Emilio Salgari e o seu epígono Luigi Motta – hábil negociador e promotor de si mesmo – ocuparam um lugar especialmente relevante. A tradução de Il tunnel sottomarino, realizada pela mesma Ana de Castro Osório em colaboração com o filho Miguel Osório de Castro e publicada em 1927 pela editora Romano Torres, possui um valor seminal, caracterizando-se pela manutenção dos elementos estilísticos e estruturais essenciais nos romances de aventuras e abstendo-se de domesticar o texto.
A análise desta tradução e, mais em geral, o enquadramento da tradução de paraliteratura italiana publicada em Portugal nas primeiras décadas do século XX abrem perspectivas de estudo sobre as coleções de romances de aventuras em tradução publicados por editoras especializadas, como a própria Romano Torres. Trata-se de um rico acervo de obras que foram marcando a leitura de entretenimento em Portugal e moldando uma língua com características estilísticas muito peculiares, que mereceriam um estudo sistemático e aprofundado para esclarecer em que medida em Portugal a inovação linguística foi fomentada, nas décadas de 20 e 30, pelas traduções de obras paraliterárias, que se destinavam a um público alargado.
Luigi Mota e a sua obra
Luigi Mota [sic] é hoje reconhecido como o mestre do romance de viagens e de aventuras, e as suas obras, que se encontram traduzidas em todas as linguas, passam já de cincoenta. [...]
O estilo das suas obras é elegante, cheio de poesia, forte e pitoresco. A côr é, a seguir, uma das magníficas qualidades do escritor italiano. [...]
Desaparecidos, pois, Júlio Verne, Luís Boussenard, Emílio Salgari, – Luigi Mota fica sendo hoje o campeão do romance de aventuras e de viagens, de quem anos atrás o mesmo Luiz Boussenard escrevia algures: “é um dos mestres incontestados pelo talento de escritor e pelos conhecimentos particulares tão laboriosamente adquiridos que lhe asseguram na França como na Italia, um exito verdadeiro” (Motta, 1927c, s.p.).
“...uma empreza que será... a maior do seculo vinte... e marcará o cume do Progresso humano... ”
Um golpe de mar interrompeu a comunicação. Alguns objectos que estavam sobre a mêsa na cabina telegrafica caíram no tapete que cobria o soalho.
Mac Roller, o jovem oficial maquinista que estava ao pé do telegrafista, esperando com impaciencia o despacho, exclamou:
— Acidentes deste mar! Não se pode trabalhar um momento tranquilo. Está sempre embravecido!
— Tenha paciencia, mister. Estamos no mês dos grandes ventos e portanto temos que sofrer a sua influencia.
— Muito bem, mas o que diz a comunicação? Compreendeu-a?
— Eu não.
— Então ?! . . .
— Creio bem que era para si. Jak [sic] Devemport, o nosso armador, telegrafa-lhe frequentemente. [...] (Motta, 1927a, p. [5])
Derelicto ou derelito – abandonado; desprezado, do latim derelictus. Deve tomar-se aqui no sentido maritimo dum barco abandonado e despresado navegando sósinho como um fantasma ao sabôr das ondas. – N. do T. (Motta, 1927a, p. 34).
É sabido que a tripulação da Medusa passou para uma jangada depois do naufragio do navio. Durante a interminavel e angustiosa peregrinação atravez do Oceano a fome despertou-lhes os instintos mais selvagens e chegaram a alimentar-se dos proprios semelhantes, cujo numero se foi reduzindo dia a dia até ao fim da terrivel odisseia. – L. M. (Motta, 1927a, p. 45)
Alice Girotto



